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Marketing Sapiens e a Inteligência Artificial

MARKETING SAPIENS e a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O Marketing Sapiens vem a ser o Marketing dotado de processos inteligentes e que agora passa a contar com os novos recursos trazidos pela Inteligência Artificial, uma tecnologia que busca simular a inteligência do Homo Sapiens por meio de algoritmos capazes de aprendizado e do desempeno de atividades como o processamento da linguagem humana, a visão computacional, a Robótica inteligente e outras mais.

                  O título de meu Canal no YouTube Marketing Nuts and Bolts vem da expressão norte americana Nuts and Bolts, que significa Porcas e Parafusos e é usada para se referir aos segredos e aos aspectos práticos de uma atividade ou um processo. 

                  Mas então, o que vem a ser MARKETING?

                  A definição oficial mais recente da American Marketing Association, aprovada em 2017, diz que

                  “MARKETING é a atividade e o conjunto das instituições e processos para criar, comunicar, entregar e permutar produtos que tenham valor para consumidores, clientes, parceiros e sociedade em geral.”

                  Philip Kotler, um dos mais conhecidos teóricos do Marketing diz que

“Marketing é a ciência e a arte de explorar, criar e entregar valor para satisfazer as necessidades de um mercado-alvo com lucro.”

                  The Chartered Institute of Marketing define o Marketing como:

“Identificar, antecipar e satisfazer às necessidades do cliente de forma lucrativa”.

                  Eu, se me permitem, acrescentaria uma definição segundo a qual:

“Marketing é a combinação de conhecimentos, ciência e arte que permite identificar e satisfazer as necessidades e desejos humanos por meio do mercado, suas empresas, entidades e organizações.”

                  O fato é que, independentemente de como possamos defini-lo, O Marketing, assim como a esfinge de Tebas na mitologia grega, nos lança o repto milenar: decifra-me ou te devoro!

                  Desvendar os segredos do Marketing, conhecer sua natureza e mergulhar em suas entranhas é um imperativo de sobrevivência para quem quer que se proponha a atuar no mercado contemporâneo em meio a um cenário altamente sofisticado, tecnologicamente complexo e impiedosamente competitivo.

                  Esmiuçar os recônditos do Marketing é o caminho a seguir para quem deseja compreender sua essência e dominar suas potencialidades.

O Marketing é o Sistema Nervoso da Empresa. E tal como no Sistema Nervoso do Homo Sapiens, O cérebro deve ser o centro da própria existência, o órgão que, por definição, deve pautar a vida, ter consciência do mundo ao seu redor e tudo deve saber para poder decidir e comandar com acerto e competência.

                  Uma empresa é um ente social com objetivos econômicos, que atua no mercado e deve viver em constante diálogo com ele, mantendo uma conversação produtiva e proveitosa que aos dois beneficie. 

                  Seu modus operandi constitui-se em um misto de ciência e arte e combina humanidades e técnicas Mercadológicas com refinamentos de artes marciais.

                  O recente advento da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL empoderou o Marketing ainda mais, adicionando a esta especialidade novas competências e projetando seus horizontes para vastos espaços ainda inexplorados.

                  A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL correlacional já vem contribuindo na busca de informações, na aferição de tendências, na mensuração de vetores, em estudos comparativos,  em análises de Bigdata, no mapeamento de meta-mercados, na avaliação de campanhas publicitárias, além de facilitar a análise e a interpretação de pesquisas de mercado.

                  Um potencial ainda maior de aplicação da Inteligência Artificial no Marketing está surgindo com a nova INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PROFUNDA, a denominada IA CAUSAL, que trabalha não apenas fazendo a correlação de dados, que é o método da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL hoje prevalente, mas o próprio algoritmo da formação dos dados, e portanto, a cadeia de eventos da relação de causa e efeito.

                  Esta nova modalidade de INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL promete revolucionar o campo da formulação de Estratégias, especialmente a arquitetura de Cenários futuros, permitindo prever resultados que vão transformar não só o Marketing, mas a própria Instituição do MERCADO.

                  Afinal, o Marketing existe porque existe o MERCADO e o MERCADO existe porque existe o Homo emptor – o homem que compra.

                  Neste texto do Marketing Sapiens coloco ao lado do título MARKETING a expressão Sapiens, termo que vem do latim e que significa sábio, astuto, inteligente.

                  O uso mais conhecido da expressão sapiens, obviamente, é aquele associado à designação de nossa espécie, que no sistema lineano, é denominada Homo sapiens, que vem a ser a nomenclatura de nossa espécie humana e designa o homem moderno e quer dizer: “homem sábio, homem que sabe”.

                  O título Marketing Sapiens reúne estes dois conceitos para definir o MARKETING INTELIGENTE, o Marketing estruturado para desempenhar o papel de cérebro da empresa e configurado para utilizar a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL visando obter uma performance superior e alcançar vantagens competitivas sustentáveis.

                  A civilização inventou o MERCADO porque os indivíduos de nossa espécie Homo sapiens possuem necessidades, aspirações e desejos que ultrapassam vastamente sua capacidade de proverem para si mesmos.

                  Aristóteles, um dos maiores filósofos gregos, 350 anos antes da era cristã, observou que o homem é um ser que necessita de coisas e dos outros, sendo, por isso, um ser carente e imperfeito, buscando a comunidade para alcançar a completude.

                  Aristóteles acrescentava que o homem é um ser social que, por natureza, precisa pertencer a uma coletividade. Somos, portanto, comunitários, gregários, sociais e solidários.

                  O que é fato incontroverso é que a sobrevivência de nossa espécie sempre dependeu da cooperação entre seus membros.

                  Nas savanas da África nossos ancestrais dos grupos de caçadores aprenderam a agir em conjunto e desenvolveram a linguagem humana para combinarem estratégias de caça porque caçar elefantes não era tarefa para caçadores solitários.

                  E foi assim que tudo começou.

                  Em torno de 11 mil anos atrás, após o fim da última Era do Gelo, grandes mudanças ocorreram na região do chamado Crescente Fértil, uma área em forma de lua crescente localizada no Oriente Médio e que incorporava o Egito Antigo, o Levante e a Mesopotâmia.

                  O Crescente Fértil é irrigado por quatro grandes rios, o Jordão, o Eufrates, o Tigre e o Nilo e abrange uma superfície de cerca de 500 000 km2, equivalente à França, na Europa, ou ao Estado de Minas Gerais, no Brasil, e hoje é dividida pelos atuais estados do Iraque, Síria, Líbano, Israel, Palestina, Jordânia e imediações.

                  A região do Crescente Fértil ficou conhecida como o Berço da Civilização do Homo sapiens, pois foi ali, graças as condições favoráveis para a agricultura, que surgiram os primeiros assentamentos humanos permanentes.

                  A atividade agrícola, diferentemente das atividades de caça, pesca ou coleta, exige dedicação integral e continuada.

                  Cuidar da safra é tarefa que não permite esmorecimento.

                  O cultivo do solo exige os cuidados do agricultor ao longo de todo o ciclo da produção, da semeadura até a colheita e, assim, estes assentamentos agrícolas iniciados no Crescente Fértil levaram o Homo sapiens a mudar seu estilo de vida, seus hábitos e sua organização social.

                  Na atividade agrícola o ano é dividido em etapas.

                  Tem o momento de preparar o solo, o momento de plantar a semente, o momento de limpar as ervas daninhas e o momento da colheita.

                  E esta foi a origem da evolução do Homo sapiens no rumo do Homo economicus, o homem racional que toma decisões no campo econômico com base na razão e com foco no seu bem-estar.

                  Ademais, a agricultura favorecia elevar a produção de alimentos e gerar excedentes, o que ensejava o crescimento da população e abria espaços para custear experimentos e inovação.

                  Em paralelo também sofisticava os hábitos de consumo e propiciava tempo livre para o lazer, expressão de origem latina que vem de “licere”, ou seja, algo lícito ou permitido para descanso, distração ou entretenimento. E tudo isto era novidade para o gênero humano e tornava a experiência de vida mais enriquecedora e estimulante.

                  O fato, entretanto, é que as pessoas dedicadas ao trabalho do campo viviam atarefadas, e só ocasionalmente tinham tempo para irem fazer suas próprias trocas.

                  Aí entram as qualidades únicas do Homo sapiens: sua versatilidade, sociabilidade, solidariedade e capacidade de aprender e inovar.

                  Graças à bem-sucedida experiência dos grupos de caçadores no trabalho em equipe, fator decisivo para a sua sobrevivência, o clã aproveita o aprendizado da colaboração e o aplica nas novas lides agrícolas.

                  E em meio as atividades do campo e da vida que segue, os membros das novas comunidades agrícolas se interessam por trocar coisas que tem por coisas que desejam.

                  Para facilitar as trocas surgem pontos de encontro onde os interessados em permutar coisas vão para se encontrar.

                  Mas dado que a maioria dos novos agricultores trabalhavam de sol a sol e só esporadicamente podiam ir aos pontos de troca, a solução prática foi confiar a um dos membros do clã a tarefa de ir fazer as permutas que interessavam aos demais.

                  Esse membro designado agora se converte em um negociador.

                  De tanto trocar e permutar vai acumulando experiências e melhorando suas habilidades negociais. Logo passa a avaliar com perícia quantas medidas de cevada ou de trigo vale um carneiro, quantos carneiros podem ser oferecidos por um jumento e quantos jumentos seria justo pagar por um camelo.

                  Acontece que o bom negociador é a quintessência do Homo economicus.

                  Se ele percebe que seus produtos não são valorizados naquele dado ponto de troca, ele monta em seu camelo, ou seu jumento, e vai em busca de outra PRAÇA.

                  Possivelmente, ao chegar lá, ele irá se dar conta que naquele novo ponto de trocas ele é desconhecido.

                  Para conseguir fazer negócios busca entendimentos com os outros comerciantes locais. Talvez consiga negociar um espaço ao lado da fonte onde todos vão buscar água e possa ali expor seus produtos. Faz arranjos bem vistosos e oferece amostras para permitir que os frequentadores locais experimentem suas mercadorias.

                  Assim, vivendo experiências, testando alternativas e observando com olhar atento o que funciona e o que não funciona na prática do dia a dia, os mercadores pioneiros foram galgando a curva do aprendizado de seu ofício e reunindo os conhecimentos da ciência e arte de conquistar clientes e fazer negócios.

                  São estes conhecimentos, e mais um grande segredo, que estes mercadores pioneiros nos legaram e que hoje formam os fundamentos do Composto mercadológico como conhecemos.

                  Vamos então ver os 4 eixos do Composto mercadológico, ou Marketing Mix, sob a ótica do Marketing Sapiens. O Grande Segredo, contudo, ficará como um teaser a ser revelado no final.

                  O Marketing Mix, ou Composto Mercadológico, divide a ação do MARKETING em 4 eixos de atuação distintos.

                  Estes eixos de atuação são conhecidos como os 4 Ps do MARKETING – PRODUTO, PREÇO, PRAÇA E PROMOÇÃO.

                  Esta divisão foi proposta em 1960 pelo professor Jerome McCarthy e foi amplamente adotada não só por facilitar a compreensão dos fundamentos do MARKETING como por ser de grande utilidade como ferramenta de planejamento e análise das atividades mercadológicas.

                  Vejamos, então, a natureza destes quatro eixos do Marketing Mix:

                  O PRODUTO é o primeiro e o mais importante elemento do Composto mercadológico. Sua primazia se dá pela óbvia razão de que sem PRODUTO não existe MERCADO.

                  E se o PRODUTO é a razão de ser do MERCADO, conseguir compradores para o PRODUTO no MERCADO é a razão de ser do MARKETING.

                  Sinteticamente, pode-se dizer que, para o MARKETING, a expressão PRODUTO define todos os bens e serviços comercializados no MERCADO.

                  O termo “PRODUTO” é formado pela combinação de duas palavras latinas: “pro”, que significa “à frente”, como é o caso em prover, promover ou progredir, e a palavra “dúcere” que significa carregar, levar, conduzir.

                  Assim a expressão “PRODUTO” traz em si a noção de algo que tomou forma, agregou substância, adquiriu identidade e se tornou uma coisa nova, um novo serviço ou uma nova solução, devidamente formatada, e que passa a ter valor no Mercado, que passa a ser valiosa e desejável para o Homo emptor, o homem que compra.

                  Desta forma, para facilitar o entendimento do conceito no âmbito do Composto mercadológico, convencionou-se que PRODUTO, na acepção do MARKETING, abarca toda e qualquer coisa que tenha valor e seja colocada no Mercado para ser vendida ou comprada.

                  A própria ideia do MARKETING MIX pressupõe que o PRODUTO oferecido no MERCADO irá competir pela preferência dos possíveis consumidores ou usuários.

                  Esta competição tende a se dar em volta dos três níveis que formam o PRODUTO:

                  O Primeiro nível é o “NÚCLEO”, o “Core” do PRODUTO.

                  No núcleo temos sua essência, sua substância, sua materialidade.

                  É o que define o PRODUTO em si, seu propósito, sua funcionalidade, sua “raison d’être”, ou seja, sua razão de ser. Por exemplo: uma bicicleta.

                  Sua função básica é permitir que as pessoas se desloquem de um lugar para outro sobre duas rodas. Por definição deverá ter duas rodas, selim, pedais, correia, freios etc.

                  O segundo nível é o ”PERCEPTIVO”.

                  Neste nível figuram os atributos, as características diferenciais e os elementos competitivos do PRODUTO. No exemplo da bicicleta seriam relevantes fatores como o design, as cores, o material de fabricação, a robustez, o acabamento, os acessórios e assim por diante.

                  O terceiro nível do PRODUTO é o “SUBJETIVO” e refere-se aos aspectos emocionais ligados ao PRODUTO, podendo envolver sentimentos, crenças, desejos, aspirações, valores pessoais e perspectivas individuais.

                  Uma evidência da importância emocional da bicicleta para seus donos é que muitos a chamam afetuosamente de magrela.

                  Entre os fatores deste grupo SUBJETIVO estão a reputação, a imagem da marca e o status. Também figuram nele as expectativas projetadas sobre o PRODUTO como seu desempenho, confiabilidade, funcionalidade, durabilidade etc.

                  É oportuno destacar que várias pesquisas mostram que os dois sentimentos mais relevantes para o sucesso de um produto são a lealdade e a confiança.

                  Uma commodity sem marca é só mercadoria, mas um produto com marca carrega compromissos de imagem e porta valores simbólicos e deve conhecer seu papel para manter sua boa reputação não e trair a lealdade de seus consumidores. Uma vez perdida a confiança de seus consumidores dificilmente conseguirá reavê-los.

                  O PREÇO é segundo eixo do Composto Mercadológico.

                  Uma definição simples seria que o PREÇO é o valor monetário de um PRODUTO colocado para vender no MERCADO.

                  Contudo, se formos olhar para o comportamento dos preços no MERCADO veremos que existem muitos fatores que influenciam sua flutuação.

                  Para a economia clássica de Adam Smith, o preço natural corresponde ao somatório dos custos dos insumos, mão de obra e demais fatores de produção necessários para fabricar um produto.

                  Já o preço praticado pelo MERCADO, conforme a Lei da Oferta e da Procura de Adam Smith, é regulado pela proporção entre a quantidade que é colocada no MERCADO (a oferta) e a demanda daqueles que estão dispostos a pagar o preço natural da mercadoria levada ao MERCADO.

                  Muita oferta e o preço cai. Muita procura e o preço sobe.

                  Para entender a questão do preço natural é preciso ter em conta que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma, mas a um custo.

                  Sob um enfoque Cosmológico, o PREÇO dá a medida da entropia econômica.

                  Grosso modo, a Segunda Lei da Termodinâmica explica que a transformação da natureza para fazer um produto ou prestar um serviço requer uma dada quantidade de trabalho e um dado gasto de energia.

                  Nada é grátis no Cosmo. Tudo tem custo e, portanto, tudo tem preço.

                  Os anglo-saxões simplificam o entendimento deste axioma dizendo que “não existe almoço grátis”.

                  Outro aspecto relevante para entender o fator PREÇO é o Princípio da Escassez.

                  Escassez em economia, significa que nunca há quantidade suficiente de um dado PRODUTO para atender a todas as pessoas que o desejariam possuir caso ele fosse gratuito.

                  O lado positivo do papel do MERCADO em relação ao Princípio da Escassez é que o mercado aponta o que se mostra escasso e dimensiona o tamanho desta escassez pela oscilação do preço.

                  O preço alto, então, funciona como um indicador e estimula os produtores a produzirem mais e a aumentarem a oferta.

                  Outro ponto a destacar é que o PREÇO, em MARKETING, deve ser entendido como o total do valor do desembolso necessário para a aquisição do bem ou serviço.

                  Frequentemente o valor monetário nominal não expressa o real custo do item, já que existem outros custos associados, tais como taxas e impostos, armazenagem, transporte e outros.

                  Assim, para concluir este tópico, o preço é uma referência que permite ao comprador saber o valor do desembolso necessário para adquirir a posse do produto ou receber a prestação do serviço, assim como permite ao vendedor estimar o valor que receberá pela venda do bem ou pela prestação do serviço.

                  A PRAÇA é o terceiro componente do MARKETING Mix.

                  PRAÇA, em MARKETING, vem a ser o local no ambiente do MERCADO em que se dá o encontro entre o vendedor e o comprador. É o local em que se situa o Ponto de Venda de um produto ou serviço.

                  O termo PRAÇA foi adotado para designar de forma genérica os pontos de venda, tanto físicos como virtuais, dado que durante milênios era na praça da aldeia que nossos ancestrais se encontravam para fazer trocas ou permutar coisas que tinham por coisas que desejavam.

                  Hoje o conceito de PRAÇA se alargou de tal modo que abarca o mundo todo e a PRAÇA tornou-se global.

                  O MERCADO ficou tão pervasivo, tão onipresente, que transformou o Planeta numa colossal Business-sfera.

                  Tanto que é difícil encontrar um só recanto de nosso planeta onde não se façam negócios ou não se compre ou se venda alguma coisa.

                  A diversidade dos Pontos de Venda é imensa, variada e fascinante.

                  Os Pontos físicos vão desde a mala sofrida do mascate, a cesta perfumada da vendedora de flores, o carro buliçoso de sorvetes, o sonoro vendedor de pamonhas, os acolhedores quiosques de praia, as brilhantes “vending machines”, os singelos mercadinhos do interior, aos movimentados mercados dos grandes centros, os coloridos bazares do Oriente, a Galeries Lafayette Champs-Élysées em Paris, os sortidos supermercados, os opulentos shopping  centers e, enfim, uma infindável miríade de locais onde os consumidores podem se deixar encantar por produtos maravilhosos e serem tocados pela magia da compra que move a economia e faz prosperar a sociedade.

                  Mas como a humanidade não para e o mundo evoluiu espetacularmente nos tempos mais recentes, o Homo sapiens colocou uma nova camada de tecnologia sobre o orbe terrestre, fazendo surgir a era digital e o ciberespaço.

                  Assim nasceu a PRAÇA na sua dimensão digital.

                  Neste mundo conectado, cada celular, cada tablet, cada computador e até mesmo cada sistema automatizado de compras que opera por meio da Internet das coisas, como a geladeira que encomenda no supermercado o leite e os ovos que precisam ser repostos, virou uma extensão da PRAÇA.

                  Nesta PRAÇA online existem milhões de Pontos de Venda abertos e pulsando 24 horas por dia, sete dias por semana

                  São portais, sites e Lojas Online, Marketplaces, Plataformas de e-commerce, Aplicativos dedicados e uma infinidade de outros canais de compra.

                  Apesar do número estelar de pontos de venda que a Instituição do MERCADO coloca hoje ao dispor do Homo Sapiens, o que a ciência nos diz é que o homem moderno, ainda que detentor de cultura, saber e possibilidades jamais antes alcançadas, no seu âmago, continua, biologicamente falando, o mesmo Homo sapiens de 5, 10, 100 mil anos atrás.

                  Seus conhecimentos se ampliaram de modo inimaginável, sua qualidade de vida lhe oferece conforto e bem-estar jamais sonhados, sua expectativa de vida já promete futuras gerações centenárias, e seus horizontes se projetam para o cosmo, mas no seu âmago o homem ainda é movido pelos mesmos instintos, sonhos, alegrias e tristezas de seus ancestrais.

                  E o Homo Economicus, em sua versão de negociador de nosso tempo continua interessado em comprar, vender e negociar no MERCADO e, igualmente, anseia valer-se dos benefícios e das benesses que este lhe proporciona.

                  O quarto componente do Composto de MARKETING é a PROMOÇÃO.

                  O propósito da PROMOÇÃO é divulgar, dar visibilidade e tornar o PRODUTO conhecido, enaltecendo suas qualidades e atributos para fazê-lo desejado pelos clientes de seu MERCADO alvo.

                  A publicidade é uma das formas mais conhecidas de anunciar e promover um produto. Mas não é a única. Ao componente da PROMOÇÃO incumbe colocar o produto sob luz favorável e existe uma imensa variedade de meios e maneiras de chamar a atenção, gerar interesse, estimular o desejo e conduzir à conclusão da venda.

                  Existem aquelas técnicas de promover voltadas ao grande mercado, a exemplo da publicidade e da propaganda nos meios de comunicação de massa como jornais, revistas, rádio e televisão, outdoor ou a exemplo dos patrocínios.

                  Outra forma de promover é aquela realizada pelo pessoal da empresa em contato direto com o público ou com clientes. Nesta modalidade de promoção o contato é feito com os clientes em estandes de promoção, quiosques ou estandes de vendas em eventos, feiras e exposições.

                  O Merchandising é uma ação de Marketing realizada no Ponto de Venda com a finalidade de promover a venda de um produto ou serviço.

                  Pode se limitar a cuidar da reposição e arrumação das gôndolas em supermercados, da exibição de cartazes e displays ou pode ser a demonstração ou degustação de produtos. O Merchandising tem a missão de colocar o produto diante do cliente e dar o empurrão final no ciclo da venda, posto que, como diz a sabedoria popular, o que não é visto não é lembrado e aquilo que os olhos não veem, o coração não sente.

                  A Promoção pelos canais digitais também é de grande importância. Notadamente os ligados à Internet. A começar pelos sites corporativos e Lojas virtuais seguidos pelos sites de busca, como o Google e o Bing, as Redes Sociais, sites e aplicativos de conexão entre os usuários como Facebook, Youtube, Instagram, WhatsApp e outros.

                  Ferramentas como o Telemarketing e o chamado Inbound Marketing, ou marketing de atração, usam intensivamente os canais on-line para atrair, persuadir, converter e encantar clientes.

                  Existem também as atividades de apoio, que não são menos importantes, como a Pesquisa de Mercado, as relações públicas, a assessoria de imprensa, o Serviço de Atendimento ao Consumidor e outros.

                  No grupo das atividades complementares a Pesquisa de Mercado tem a incumbência de obter informações sobre a realidade do mercado e contribuir para o Planejamento Estratégico, para o posicionamento do produto, para a definição do Público-Alvo e para orientar o conjunto das demais atividades Mercadológicas.

                  A Assessoria de Imprensa faz a intermediação entre a empresa e os veículos de Imprensa e de comunicação.

                 A Gestão das Mídias Sociais coordena as atividades de Marketing e de relacionamento na internet e associadas às redes sociais.

                  As Relações Públicas organizam o relacionamento com os formadores de opinião do Mercado e fazem a ponte com os –  stakeholders –  ou seja, com os públicos de interesse da empresa e que englobam desde o público interno, formado por colaboradores e funcionários, passa pelos os clientes e consumidores e vai alcançar o grande universo de investidores, acionistas, parceiros, legisladores, agências reguladoras das três esferas de governo, Organizações Não Governamentais e similares.

                  Enfim, para resumir, a PROMOÇÃO tem como missão principal conquistar os corações e mentes do público-alvo a levá-lo a preferir o PRODUTO que promove. Contudo a PROMOÇÃO não pode descuidar de outra frente vital para o sucesso continuado do produto no Mercado: o Pós Venda.

                  No Pós Venda duas atividades devem merecer atenção e cuidados:

                  Primeiro: O Serviço de Atendimento ao Consumidor e o Suporte ao Usuário. Hoje este serviço conta com forte presença dos Chatbots que facilitam dar apoio a clientes e usuários e podem atuar como canais de complementares pesquisa de satisfação dos consumidores. Outra tarefa que podem desempenhar é a de servirem como canais complementares de informações aos clientes potenciais.

                  Segundo: o atendimento à Garantia e a Assistência Técnica.

                  A Importância do Pós Venda não pode ser minimizada. O Cliente compra um produto para atender uma necessidade ou um desejo.

                  E para que ele fique satisfeito com o produto, este deve cumprir o que promete, funcionar bem e sem defeitos. Hoje, com as mídias sociais, eventuais problemas com o produto correm o mundo e significam baixa avaliação e problemas com o Mercado.

                  Uma última observação sobre este tópico relativo à PROMOÇÃO: do ponto de vista ético a PROMOÇÃO de bons produtos é um propósito eticamente legítimo, do mesmo modo como é ético alertar o consumidor sobre os eventuais riscos oferecidos pelo seu uso ou consumo.

                  O escritor Bernard Shaw dizia que quem confia em seu produto não deve envergonhar-se de tocar bumbo na porta da loja.

                  Assim PRODUTO, PREÇO, PRAÇA e PROMOÇÃO formam os quatro eixos em que se assenta o Marketing e em que se apoia o relacionamento da empresa com os consumidores que compram, usam e consomem seus produtos e serviços colocados na grande business-esfera do Mercado.

                  E agora, para concluir, vou revelar qual o GRANDE SEGREDO que nos foi legado pelos maiores mercadores de todos os tempos e capaz de alavancar o sucesso do marketing tanto das pequenas empresas como dos maiores conglomerados, e que pode garantir o seu sucesso e o de sua empresa.

                  Esse grande segredo guardado a sete chaves foi, certa feita, revelado aos filhos por um mercador que por muito tempo viajara com suas caravanas pelo deserto:

Filhos, a coisa mais importante para o sucesso de um mercador é simples como o ar, que está sempre à nossa volta e pode impulsionar os navios que cruzam os mares, mas também pode causar grandes tormentas que provocam destruição e morte: filhos saibam que a força mais poderosa que um mercador pode usar é a PALAVRA!

Usem bem a palavra e vosso sucesso será certo.

                  É pela palavra que vendemos, é pela palavra que argumentamos, é pela palavra que agradecemos ao criador e é pela palavra de nossos fregueses que o boca a boca vai na nossa frente para fazer nossa reputação e falar bem de nossa honestidade e promover nossa mercadoria. A palavra pode ser a benção ou a maldição do mercador. E o boca-a-boca do mercado é o nosso aroma que o vento leva e que chega antes de nós. Mas cuidado, as palavras más voam como os falcões, enquanto as palavras benignas são como sementes de tâmaras plantadas ao longo do caminho. As tamareiras demoram para produzir frutos, mas nenhuma fruta é mais doce ou mais apreciada.

                  Assim, caras amigas e caros amigos, sabemos que o maior segredo do marketing é mesmo o nosso velho conhecido boca-a-boca, agora ampliado pela internet, pelo celular, pelos aplicativos de mensagens e pelas mídias sociais

                  Sucesso e que os bons ventos do mercado enfunem suas velas!

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O MARKETING Inteligente agora com os recursos da Inteligência Artificial.

PORQUE O AGRO 4.0 VAI MUDAR O FUTURO DO BRASIL

“Cesse tudo o que a antiga musa canta que um valor mais alto se alvanta” – Camões.

O Agro está mudando o Brasil. A Onda do Agro 4.0 vem como um tsunami avassalador que vai romper os muros do atraso, mudar história do campo e colocar o Agro no centro do futuro do Brasil.

O Agro brasileiro tem DNA de primeiro mundo.

O Agro 4.0 é o agro das inovações, da automação, da tecnologia, da Internet das coisas, da Inteligência Artificial, mas é também o agro de brasileiras e brasileiros bem-preparados, de empreendedores com visão de futuro e que tem aspirações de progresso e prosperidade que não cabem mais nos moldes mesquinhos dos arranjos políticos que manietam o agronegócio.

O Brasil é um país complicado!

É verdade! O Brasil é um país complicado. Tem tudo para ser o paraíso da abundância. Tem riquezas naturais incomparáveis, território imenso e generoso, uma natureza invejada pelo mundo. Tem tudo para ser rico, próspero e sem miséria, mas teima em brigar com os fatos, ignorar o bom senso e mandar a lógica às favas.

Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos! (Nelson Rodrigues)

Nelson Rodrigues, frustrado pelo atraso endêmico que assola o Brasil desde o descobrimento, afirmou que “Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”. O que Nelson Rodrigues queria dizer é que o povo brasileiro vinha sendo espoliado e esbulhado pelos coronéis, pelos governantes e pelos açambarcadores do poder desde que as caravelas de Cabral aportaram por aqui. Mas a sabedoria popular diz que não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe. E nossa gente sempre manteve a esperança. E sempre acreditou que um dia um novo futuro iria raiar no horizonte do Brasil. E esse futuro está agora batendo em nossa porta. O fato novo que agora surge no horizonte é Agronegócio que se agiganta, se torna uma força irresistível e forma um novo país dentro das fronteiras do Brasil.

O Agro brasileiro é disruptivo!

E esse novo país do Agro tem natureza disruptiva e vem com ímpeto para romper com as velhas crenças e com os velhos paradigmas do nosso triste passado patrimonialista e corrupto. E a transformação a ser produzida pelo Agro 4.0 é uma certeza porque as mudanças seguem a inexorável Lei de Camões, “Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta” Mas a mudança não se limitava aos versos do poeta. As novas descobertas daquele tempo alargaram os horizontes da civilização. Mostraram o caminho para as Índias; encontraram as Américas, descobriram o Brasil, fizeram surgir novos países. E, por fim, mudaram o eixo de poder no mundo. Pois bem, é exatamente este efeito da “Lei de Camões” que o Agro vai produzir no Brasil. A Onda Agro 4.0, na verdade, já começou. No plano econômico, o Agro é que vem pagando as contas e trazendo os dólares para custear a bagunça que reina em Brasília.

Os números não mentem jamais (Malba Tahan)

Os números do Agro são eloquentes. E como os números não mentem jamais, como dizia o matemático Malba Tahan, estes número provam que não é o carnaval, é o Agro que está salvando o Brasil. … Os ventos continuam soprando ao favor do Agro Brasileiro. Hoje ninguém mais põem em dúvida de que o Agro é a vocação natural do Brasil. Mas ainda nos falta uma verdadeira Mentalidade Agro. Ainda carecemos daquilo que os americanos chamam de “mindset”, uma disposição para escolher um rumo, para agir e superar obstáculos na conquista de um objetivo e a determinação de fazer acontecer, / de buscar avanços e resultados de forma consistente e sistemática. Possuímos a terra, a água, o clima, os empreendedores, os recursos humanos e a tecnologia. Ainda precisamos melhorar a infraestrutura e a logística, mas depois de cinco séculos de altos e baixos, de dúvidas e desconfianças, está claro para nós e para o mundo que, finalmente, encontramos o caminho.

Os indicadores do Agro brasileiro são convincentes.

Os indicadores impressionam. Segundo o IPEA, a Produtividade total dos fatores – ou seja o aproveitamento dos insumos que se convertem em produto – cresceu 400% na agricultura brasileira. Hoje nossa produção é suficiente para alimentar 1/6 da humanidade e, no mais bem vindo dos índices para o povo brasileiro, desde os anos 70, o preço da cesta básica no Brasil caiu para a metade. Outra coisa: A produtividade cresceu quatro vezes mais que a área plantada. A expansão do agronegócio é o fato mais importante da história econômica recente do Brasil mas a continuidade do sucesso do Agro pressupõe uma estrutura decisória descentralizada. As decisões precisam ser tomadas perto da ação, nos clusters e polos produtivos espalhados pelas vastas extensões do país. As necessidades do Sul são diferentes daquelas das do Centro Oeste ou do Norte ou Nordeste.

O modelo descentralizado é vacina contra a ditadura, porque só funciona em ambiente de liberdade e democracia.

Acontece que este modelo descentralizado só consegue funcionar em um ambiente de liberdade e democracia. O mundo em que o Estado centralizava tudo e se via como patrão e padrinho morreu. Hoje é tão anacrônico como os antigos lampiões de gás que precisavam de um acendedor público para alumiarem as ruas e becos.

O Brasil está pronto para a metamorfose 4.0

Em síntese, o Brasil está pronto a se transformar em uma nação capaz de voar alto, ir longe e brilhar entre as nações para proporcionar aos brasileiros tanto a prosperidade que merecem como o autêntico protagonismo no mundo contemporâneo a que legitimamente aspiram. …

APUNHALADO / O BRASIL APUNHALADO COM UMA PENA DE OURO!

(Clque para saber mais)

GOIO-EN, O CAMINHO E TEMPO. (Link com a Editora Viseu)

O Brasil apunhalado com uma Pena de Ouro.

O presidente Lula, ao que parece, está um tanto deslumbrado com os rapapés que recebe em seus entendimentos com a Argentina, mas deve tomar muito cuidado para não se tornar um novo Quintino Bocaiuva. 

Os presidentes Lula, do Brasil, e Alberto Fernandez, da Argentina, anunciaram estudos para uma nova moeda sul-americana compartilhada. Segundo disseram à imprensa, “esta moeda binacional teria a finalidade de reduzir a vulnerabilidade externa dos dois países em transações comerciais e financeiras.”

Quem conhece a história das tormentosas relações entre o Brasil e a Argentina ficou com a pulga atrás da orelha. 

Começa que o Brasil não tem vulnerabilidade externa com que se preocupar.

Assim fica claro que este arranjo tem o único propósito de levar o Brasil a assumir o risco do crédito com a Argentina, já que é este o país que convive com uma escassez crônica de dólares.

O indigitado Quintino Bocaiuva era senador e virou Ministro do Exterior da recém proclamada república brasileira em 1889. República essa cuja primeira providência, após abater a monarquia brasileira, foi embarcar o embasbacado ministro no encouraçado Riachuelo, o maior navio da marinha brasileira de então, para levá-lo com toda a pompa e circunstância até o Prata para apunhalar o Brasil pelas costas!.

E o fez em grande estilo. Vaidoso, sedento de glórias, como o descreveu o Barão de Ladário, foi recebido com mesuras, adulado, bajulado, paparicado com festas e banquetes e, por fim, não de se pejou de assinar, faceiro e pampeiro, o tratado que dava de mão beijada aos Argentinos um pedaço dos atuais estados do Paraná e de Santa Catarina. 

E não só apôs sua rebuscada assinatura de Calabar no tratado, como o fez com uma esplendorosa pena de ouro. Peça única, ornada de pedras preciosas e trabalhada pela mais refinada ourivesaria, num gesto fútil de reverência que o Plenipotenciário Quintino Bocaiuva concedeu ao presidente da República Argentina Miguel Juarez Celman. 

O Jornal o Estado de S. Paulo de 26 de janeiro de 1890 revelava na primeira página aquela perversidade:

Trocaram-se ante-ontem as últimas notas entre os srs. Bocayuva e Zeballos sobre a questão de Missões.

Zeballos oferecerá em nome do governo argentino a Bocayuva, para assinar o tratado, uma artística pena de ouro, assinando aquele tratado com a pena que o presenteou Juarez Celman. 

Certa vez o Papa Argentino observou que Deus é brasileiro. Ele haverá de saber melhor do que ninguém, pois foi só graças aos céus que esta despudorada manobra não prosperou e acabou anulada pelo congresso brasileiro.

É certo que a rivalidade do Brasil com a Argentina foi herdada da rivalidade entre Portugal e Espanha e, portanto, vem desde os tempos coloniais, mas no episódio da Questão de Palmas ou, Questão das Missões, como queriam os argentinos, os eventuais entendimentos coloniais serviram só como pretexto para maquinações e pleitos muito além dos acordos estabelecidos entre as matrizes Europeias. 

A verdade é que Argentina sempre viu o Brasil com olhos gulosos. 

O Brasil é um oponente grande e simplório. Um colosso amórfo, dominado por um desmesurado complexo de inferioridade, o famoso “complexo de vIra-latas”, de que falava Nelson Rodrigues. 

O efeito desse complexo é que tem governantes brasileiros, ávidos do glamour fugaz e de uma pitada de aplauso, bem no espírito da canção Folhetim do Sérgio Buarque de Holanda, que estão sempre prontos à fazer concessões e entregar o ouro por uma coisa atoa.

 A Argentina, por seu lado, trata de defender seus interesses, o que seria mesmo de esperar. 

A questão, porém, é que o país vizinho frequentemente se conduz de forma sobranceira e egoísta, sendo useira e vezeira em menoscabar nosso país. 

Esta relação tóxica é parte de nossa tragédia latino-americana. Tragédia, aliás, que alcança todo o continente. Vale lembrar que o ex-presidente Mexicano Porfírio Diaz, reclamando dos americanos, exclamou:

“Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.

De nossa parte aqui, seria o caso de exclamarmos “Pobre Brasil, tão longe dos Estados Unidos e tão perto da Argentina”. 

Mas voltando à tentativa Argentina de se apossar de parte dos territórios do Paraná e Santa Catarina, que originaram a momentosa Questão das Missões, pode-se afirmar que este foi um embate emblemático. 

O território dos Campos de Palmas estava pacificamente nas mãos do Brasil. 

Os bandeirantes paulistas tinham circulado por ali desde o século XVI. Em 1839, com a substantiva participação do Cacique Victorino Condá ajudando a pacificar os Kaingang, estabeleceram-se no Campo de Palmas 37 fazendas, as quais, em 1850, já tinham cerca de 36.000 cabeças de gado. 

Vale lembrar que os Kaingang, também chamados de coroados e bugres, que habitavam a área, sempre se afirmaram brasileiros. Eles haviam se relacionado bem com os portugueses até porque eram inimigos dos Guarani, índios aliados dos espanhóis. 

Em 16 de março de 1837 a Assembleia Legislativa de S. Paulo criou um destacamento de Policiais Permanentes para o fim específico da ocupação daqueles campos.

Em 1845, Manuel da Fonseca de Lima e Silva, o Presidente da Província de São Paulo, com visão e descortino de estadista, tomou a iniciativa da construção do Caminho de Goio-En, o caminho de tropas entre os Campos de Guarapuava e as Missões de São Pedro do Rio Grande do Sul, como informa em seu Relatório para a Assembleia Legislativa de São Paulo no dia 7 de janeiro de 1845: 

“Compartindo o interesse que vos inspirou a ideia de abertura de uma nova comunicação entre esta Província e a de S. Pedro do Sul pelo território situado a sudoeste do Campo de Palmas, encarreguei esta comissão ao Cidadão Francisco Ferreira da Rocha Loures, homem empreendedor e ativo e que, pela circunstância de residir naquelas imediações me parece para isto precisamente habilitado.” 

Manuel da Fonseca de Lima e Silva, que seria o futuro Barão de Suruí, se encarregou ainda de arregimentar o apoio do Presidente da Província vizinha de São Pedro do Rio Grande do Sul, Luiz Alves de Lima e Silva, o então Conde de Caxias, que vinha a ser seu cunhado e sobrinho. 

A esse respeito o Conde de Caxias, informa em seu relatório a Assembleia Provincial gaúcha de 1846 que:

Por este meio tempo veio ter a esta Província o Tenente Francisco Ferreira da Rocha Loures, encarregado pelo Governo Provincial de S. Paulo de explorar o terreno e abrir uma nova estrada por conta daquela província… 

Mas voltando ao relatório de 1845 do Presidente de São Paulo, este informa que vai fazer mais uma estrada naquela região, agora ligando os Campos de Palmas com a Argentina. 

Na justificativa ele esclarece: 

“Aberta essa estrada, ela pode sobretudo melhorar a posição do Brasil acerca da solução das antigas questões de limites naquela parte do Império.”

Observem que ele, ao falar das questões de limites naquela parte do império se antecipa em décadas as futuras reinvindicações dos argentinos sobre os Campos de Palmas.

Tanto é fato que cinquenta anos depois, o Barão do Rio Branco, ao defender os direitos do Brasil aos Campos de Palmas, reconhece a importância da iniciativa do Presidente da Província paulista:

Em 1845, por ordem do presidente de São Paulo, general Manuel da Fonseca Lima, depois barão de Suruí, se deu começo à abertura da comunicação com o Rio Grande do Sul, pelo passo do Goio-En e por Nonoai. 

O general Caxias, então presidente do Rio Grande do Sul (outra província brasileira), animou e auxiliou esses trabalhos.

Foi na segunda metade do século XIX que cresceram os olhos dos argentinos. Especialmente ao se darem conta que a ausência de uma fronteira bem demarcada na região lhes dava oportunidade para turvar as águas e criar confusão. 

Conjeturaram que uma artimanha bem bem-sucedida lhes daria um naco de 30.621 km2 de uma das regiões mais férteis e promissoras de todo o continente. 

Ou seja, valia o esforço! 

Os limites territoriais das possessões de Portugal e Espanha na América Meridional haviam sido definidos pelos tratados de Madri de 13 de janeiro de 1750 e pelo de Santo Ildefonso, de 1º de outubro de 1777

Nos tratados consta que a divisa entre o Brasil e Argentina / no trecho entre os rios Uruguai e o Iguaçu seria feita pelos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio. 

Na condição de herdeiros destes tratados, tanto o Brasil como a Argentina tinham que aceitar estes rios como limite entre os dois países. 

Acontece que os mapas daquela época eram pouco precisos e a Argentina se aproveitou deste pretexto para, com base em mapas de encomenda e argumentos especiosos, questionar a localização dos rios que fariam a divisa e passou a alegar que o rio brasileiro de nome Chapecó é que seria o verdadeiro rio Peperi-Guaçú e o de nome Chopim é que seria o verdadeiro rio Santo Antônio daquele tratado de fronteiras.

Em 1882 a Argentina tentou dar uma de joão sem braço. Fez uma lei dividindo o Território das Missões argentino em cinco departamentos administrativos e incluiu na divisão o território brasileiro dos Campos de Palmas. Na lei são designados como limites os rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio, porém acontece que a Argentina atribuiu estes nomes aos rios Chapecó e Chopim, que ficam no meio dos Campos de Palmas. 

Ora, a falsificação era flagrante e o governo imperial se recusou a aceitar os mapas falseados que a Argentina apresentava. 

A Argentina, por seu turno, usava sua representação diplomática na capital do império para obter apoio e tentar convencer o governo imperial a abrir mão daquele território. 

Apesar de seus esforços, contudo, estava cada vez mais evidente que sua narrativa não convencia e seus argumentos não seriam aceitos pelo império do Brasil.

Uma evidência é a notícia dada pelo Jornal O Estado de São Paulo publicando em 6 de setembro de 1882 um despacho de seu correspondente em Buenos Aires: 

Diz La Pátria Argentina, que o dr. Avellaneda comunicou ao seu governo que o gabinete imperial não estava disposto a submeter a arbitramento a questão das Missões por considerar que não admitem dúvidas os direitos que têm o Brasil sobre aquele território.

Mas a Argentina não dava trégusas. Em 7 de setembro de 1889, o governo imperial, buscando apaziguar os ânimos e confiante em seus direitos, aceitou um acordo baseado em dois pontos:

1.               Seria feita uma nova expedição para verificar se os rios Chapecó e Chopim corresponderiam, de fato, aos rios da divisa descritos nos tratados originários, e

2.               Caso o Brasil não aceitasse estes rios como divisa a questão seria levada para a arbitragem do presidente norte-americano.

O prazo para a expedição trazer provas seria de 90 dias, contados a partir da ratificação do tratado, o que ocorreu em 5 de novembro de 1889.

Para o Brasil a questão parecia resolvida. Seus geógrafos, astrônomos, demarcadores e especialistas sabiam que a missão de reconhecimento seria feita nos rios errados a Questão das Missões iria para a arbitragem.

Já os argentinos tinham pressa. O tempo estava correndo contra eles, e eles também sabiam que a missão de reconhecimento era um embuste, assim como sabiam que, salvo a improvável hipótese de convencer o presidente Cleveland a decidir em favor de um embuste, estavam perdidos. 

Desse modo, a última esperança que lhes restava residia na mudança do regime de governo no Brasil.

E eis que então acontece o mais chocante. 

É difícil avaliar influência dos agentes argentinos na derrubada da monarquia brasileira, 

O que é sabido, no entanto, é que o golpe republicano que derrubou a monarquia se deu em 15 de novembro de 1889. 

E havia mais coisas sórdidas entre o céu e a terra: 

A começar pela suspeitíssima certeza dos Argentinos de que, no final, ganhariam uma “província à nossa custa”, como havia dito Bocaiuva quando que ainda era tido como o “príncipe dos jornalistas”, com como relata o Barão de Ladário nos artigos publicados no jornal A Tribuna e encaminhados aos senadores no final de 1890.

Por exemplo, no grupo da comissão demarcadora que explorava os rios Chapecó e Chopim, um oficial argentino disse em um jantar “que seus patrícios muito desejavam que o Brasil se constituísse em república, porque então seria fácil anexar o Rio Grande do Sul à Confederação Argentina.”  

Vejam, os argentinos não somente queriam tomar 30.621 km2 dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina, como pensavam criar uma cunha separando o Rio Grande do Sul do restante do país e, assim, facilitar a anexação do Rio Grande do Sul ao seu país. 

Um outro oficial superior argentino afirmou, referindo-se aos Campos de Palmas:

“Isto será nosso, ou por bem ou pelas armas”.

Ademais, é preciso reconhecer que, naquela conjuntura, os argentinos avaliavam melhor do que os cosmopolitas republicanos do Rio de Janeiro a importância do território em jogo e qual o potencial futuro dos Campos de Palmas. 

De toda forma, o governo republicano fez o que a Argentina esperava. Em sua primeiríssima iniciativa internacional, atropela o tratado de arbitramento assinado pelo império, aceita sem pejo as demandas argentinas e manda o Ministro Quintino Bocaiuva dividir com os argentinos o território dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina. 

E foi o que ele fez!

Vejam a linha de tempo da ignomínia republicana: 

Em 7 de setembro de 1889 o governo imperial assina o Tratado de Arbitramento que leva a Questão das Missões para decisão do Presidente dos Estados Unidos;

Em 05 de novembro de 1889, 58 dias depois, o congresso brasileiro ratifica o tratado de arbitramento;

Mais 10 dias e chegamos ao fatídico 15 de novembro de 1889. Nesta data os ativistas e militares dão o golpe, derrubam a monarquia e proclamam a república. O Marechal Deodoro da Fonseca assume a presidência e Quintino Bocaiuva se torna Ministro do Exterior.

Vem dezembro, Festas, Natal e Ano novo. Já em 14 de janeiro de 1890 o Encouraçado Riachuelo leva Bocaiuva ao encontro de seus parceiros argentinos para assinar o tratado de cessão do território. 

Outros 10 dias e em 25 de janeiro, o plenipotenciário é recebido com banquete em Montevidéu, onde assina com a tal aparatosa pena de ouro o infame tratado em que o Brasil cede para a Argentina metade dos territórios dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina.

Em seguida viaja ao encontro do presidente argentino.

O jornal O Estado de S. Paulo, na edição de 6 de fevereiro de 1890 publica um despacho vindo de Buenos Aires informando que Quintino Bocaíuva tinha sido homenageado com um banquete pelo presidente Juarez Célman, na noite de 3 de fevereiro. 

Segundo o despacho, “houve durante o banquete a máxima alegria e expansão fraternal, levantando-se muitos brindes ao Brasil e a República Argentina, firmando-se assim um acordo tácito para a manutenção da paz e a prosperidade das duas poderosas nações sul-americanas.”

Não surpreende que tenha havia máxima alegria e muitos brindes fraternais. A argentina estava conseguindo barato uma nova província formada com metade do território dos estados do Paraná e de Santa Catarina arrancados do Brasil por intermédio do homenageado, Quintino Bocaiuva, que é de se supor, não estava lá de graça.

O inacreditável é que esse recém-empossado Ministro de Relações Exteriores nada mais útil tivesse a fazer além de ir sabujar os vizinhos do Prata por mais de um mês, circulando entre Montevidéu, Buenos Aires, Córdova Tucumán e outras paragens do Prata em que foi homenageado por banquetes, eventos, convescotes e festas variadas. É ridículo registrar que o plenipotenciário viajou em 14 de janeiro, assinou o tratado no dia 25, em Montevidéu, viajou 700 quilômetros para ir visitar o presidente Argentino em sua residência em Córdova, voltou a Montevidéu em 16 de fevereiro para ali passar o carnaval e só então, feliz e pampeiro, regressar ao Rio de Janeiro em 25 de fevereiro, onde, para, estupefação geral, resolve deixar o posto de Ministério do Exterior, conforme noticiou o Jornal Estado de S. Paulo do dia 26 de fevereiro.

O país estava atordoado. A notícia da desfaçatez fazia ferver o sangue dos brasileiros.

O Barão de Ladário, em seus artigos no Jornal a Tribuna condenando o tratado, conta que o dito plenipotenciário teria asseverado: 

que não se podia atender, ao liquidar-se o litígio, à questão pura e simples dos direitos a certas linhas de fronteiras, mas e preferentemente à que se prendia aos interesses momentosos da nova situação do país.

Trocando em miúdos: Quintino Bocaiuva, com espantosa cara de pau, revela que a república ia dar metade dos estados do Paraná e Santa Catarina aos Argentinos porque era do interesse momentoso do novo governo republicano. 

O Barão do Rio Branco, o defensor da causa brasileira em Washington informa que: 

“Na República Argentina esta solução foi festejada com grande entusiasmo. No Brasil, porém, ela produziu o mais profundo sentimento de dor e levantou unânimes e veementes protestos.” 

Mas é claro que haveria alegria e festejos na argentina com um presente deste tamanho,  mas graças a mobilização do povo e aos protestos da imprensa, o Congresso Brasileiro rejeitou o tratado Bocaiuva por 142 votos contra 5 em sessão de 10 de agosto de 1891.

O passo seguinte foi o envio da Questão das Missões para o arbitramento do presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland. 

Lá, em Washington, mercê do Deus que é brasileiro, como reconhece o citado Papa argentino, a defesa da causa brasileira coube ao nosso mais insigne diplomata, o Barão do Rio Branco.

E enquanto o Rio Branco buscava fundamentar as razões brasileiras reunindo documentos e provas, os Argentinos, sob a liderança de Estanislao Zeballos, faziam intensa campanha de relações públicas tentando ganhar a questão na base do tapetão. 

As vésperas da decisão do presidente Cleveland, a Argentina ofereceu um banquete de gala para a alta sociedade norte-americana e, num gesto de insólita soberba, mimoseou cada uma das damas presentes com uma joia de ouro e diamantes posicionada em frente ao seu lugar na mesa do banquete.

Mesmo assim não adiantou.

Em 6 de fevereiro de 1895 o presidente dos Estados Unidos Grover Cleveland emitiu sua sentença, dando ao Brasil a posse definitiva dos atuais territórios do Paraná e Santa Catarina. Foi a primeira grande vitória de nosso maior diplomata, o Barão do Rio Branco.

Um pequeno documentário mostrando a documentação reunida por Rio Branco é mostrado no vídeo Oeste Fértil, o Legado do Barão do Rio Branco, no canal Goio-En do Youtube.

E se você quiser conhecer mais histórias sobre a conquista do Oeste Fértil brasileiro e sobre o desenvolvimento do Alto Uruguai Gaúcho e dos oestes de Santa Catarina Paraná, conheça o meu livro Goio-En o Caminho e o Tempo da editora Viseu. É uma boa pedida.

Muito obrigado.

OESTE FÉRTIL – O Legado do Barão do Rio Branco ao Agronegócio Brasileiro.

(Clique na imagem para ver vídeo)

(Clique para comprar)

O agronegócio é a bola de neve da nova onda de prosperidade brasileira.

Uma prosperidade que já está beneficiando o Brasil e que logo vai chegar a todos nós.

O  agronegócio representou mais de 25 % do Produto Interno Bruto em 2022 e, nas exportações, logo vai representar metade de tudo o que o Brasil vende para o mundo. O Brasil é o campeão das exportações de soja, milho, café, açúcar, carne bovina e carne de frango.

Mas nada desta cornucópia de proveitos caiu do céu. Foi preciso que muita gente, muitos pioneiros e muitos visionários acreditassem no potencial das terras brasileiras, lutassem pelo Brasil e plantassem aqui as sementes que hoje começam a florescer.

Nossa história começa no ano de 1845. Este foi o ano da sorte grande para a futura prosperidade do agronegócio brasileiro.

Foi naquele ano que terminou a Guerra dos Farrapos. Sob a liderança do Conde de Caxias, o país celebrou um final auspicioso que garantiu que o Rio Grande do Sul e todo o Oeste do Brasil Meridional, a região das Missões, o Planalto Médio e o Alto Uruguai gaúcho continuassem fazendo parte do território brasileiro.

Foi também naquele ano que o governo da Província de São Paulo mandou abrir o Caminho do Goio-En, o Caminho de tropas que devia ligar os Campos de Guarapuava – no atual Paraná, com a vila de Passo Fundo – na Província de São Pedro do Rio Grande, atravessando a área de litígio com os Argentinos nos Campos de Palmas e a região que os mapas daquele tempo definiam como “Bosques inexplorados do Alto Uruguai”

E foi ainda naquele ano que nasceu José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco, o gigante da diplomacia brasileira que conseguiu obter do Presidente dos EUA – Grover Cleveland – a decisão que deu ao Brasil a posse definitiva do Oeste de Santa Catarina e do Paraná, uma área ambicionada pela Argentina e cuja disputa territorial se deu na Questão de Palmas ou Questão das Missões, como preferem alguns.

Mas o que teriam em comum tão díspares acontecimentos do longínquo ano de 1845?

No que se refere ao caminho de Tropas do Goio-En, a ligação dos Campos de Guarapuava a Passo Fundo, este caminho foi fundamental para criar as condições para que, quarenta anos mais tarde, o Brasil pudesse se valer do argumento do UTI POSSIDETIS na disputa da citada questão de Palmas. Foi a abertura desta estrada que ensejou pacificar os índios Coroados, os Kaingang, e ajudou a ocupação do Oeste da então Província de São Paulo, hoje território dividido entre o Paraná e Santa Catarina. Foi esta ocupação que permitiu ao Barão do Rio Branco usar o UTI POSSIDETIS, argumentando que a maioria dos habitantes do território em disputa era formada por brasileiros. Particularmente pelos índios Kaingang, que se diziam brasileiros, enquanto os Guarani se afirmavam súditos da Espanha. Aliás, o Barão argumentava que os castelhanos não tinham conseguido provar que sequer um único e escasso argentino vivia naquela área.

Já o nascimento de José Maria da Silva Paranhos foi providencial pelo papel que desempenhou na Questão de Palmas e porque seu nascimento se deu em circunstâncias muito auspiciosas.

Paranhos Junior nasceu no Rio de Janeiro, na então Travessa do Senado, número 8, hoje Rua 20 de abril, número 14, onde funciona a Escola de Teatro Martins Pena.

Seu pai foi o Visconde do Rio Branco, um diplomata que atuou na região do Prata onde esteve em 1851 e 1852, como Secretário da Missão Especial do Marques do Paraná, tornando-se, em seguida, Ministro-residente em Montevidéu. Voltaria ao Uruguai em 1864 e novamente, de outubro de 1870 a março de 1871. Nesta viagem seu filho, o Juca Paranhos, foi junto, na qualidade de secretário da missão, e pode testemunhar pessoalmente os entendimentos do Brasil com a Argentina e o Paraguai no desfecho da Guerra do Paraguai. Esta experiência, em primeira mão, das lides diplomáticas com a Argentina, assim como o conhecimento pessoal da região em disputa na Questão de Palmas, foram determinantes, anos depois, para o êxito da defesa da posição brasileira e para que o Brasil obtivesse a posse definitiva do Oeste de Santa Catarina e do Paraná.

A sorte brasileira se comprova quando aquela causa de vital importância para o agronegócio brasileiro, e, claro, para a nação brasileira, foi parar nas mãos do então obscuro Consul brasileiro em Liverpool. O caso estava com o Barão Aguiar de Andrada, que já estava em Washington, quando faleceu. Foi aí que o Presidente Floriano Peixoto se lembrou de Rio Branco.

Na verdade, a disputa territorial com a Argentina já vinha do império, que não aceitava as pretensões Argentinas e já tinha optado pela solução arbitral, mas Quintino Bocaiuva, o primeiro chanceler da república, no entusiasmo de uma possível fraternidade republicana com os vizinhos hermanos, havia assinado em Montevidéu um tratado de partilha do território. Foi um escândalo. A imprensa, o exército e até o monarca exilado protestaram e o Congresso brasileiro acabou por rejeitar o acordo, de modo que foi assim que a disputa foi entregue para decisão do Presidente dos Estados Unidos.

Na disputa a Argentina argumentava que tratados do século 18 apontavam para uma fronteira entre  os territórios de Portugal e Espanha que seria definida pelos rios Jangada e Chapecó, e não pelo Pepiri-Guaçu e Santo Antônio – que ficavam mais a oeste, como defendia o Brasil.

O Barão cofiou o bigode e arregaçou as mangas. Liderando um grupo de diplomatas e especialistas, moveu céus e terras, mandou vasculhar cartórios e arquivos em todas as capitais europeias envolvidas com as Américas e recuperou documentos e mapas em locais como o Arquivo Geral de Simancas, na Espanha, e o Depósito Geográfico do Ministério dos Negócios Estrangeiros da França. Com cálculos, medições e interpretações historiográficas – como a de que a cartografia portuguesa era mais avançada que a espanhola no século 18 -, Juca Paranhos conseguiu reunir sobejas evidências para embasar a versão brasileira.

Em meu vídeo sobre o tema, apresentado em meu canal no Youtube, inclui uma verdadeira preciosidade audiovisual. Trata-se de documentário de 1945 realizado pelo Ministério de Relações Exteriores para celebrar o centenário do nascimento do Barão do Rio Branco. Nele podemos ver a documentação apresentada pelo Barão na defesa brasileira da Questão de Palmas. O trecho do documentário “Barão do Rio Branco” de 1945 e é reproduzido por cortesia do Centro Técnico Audiovisual da Secretaria de Cultura.

Assim, como se pode ver no vídeo (link no final), foi graças a uma dedicação infatigável que o Barão do Rio Branco foi vitorioso na disputa da Questão de Palmas e nos legou o Oeste Fértil, dando ao Brasil posse definitiva dos Oestes de Santa Catarina e do Paraná e, assim, inscreveu seu nome como um dos grandes heróis do Agronegócio brasileiro.

Se você deseja conhecer mais histórias do tempo da Conquista do Oeste Fértil e do desbravamento do Alto Uruguai Gaúcho e dos Oestes de Santa Catarina e do Paraná, periodicamente publico aqui vídeos sobre o tema em meu canal “GoioEn” no Youtube .

E se você tem fôlego para ler uma maratona de histórias sobre um tempo que merece ser lembrado, meu livro Goio-En, o Caminho e o Tempo, da Editora Viseu, é uma boa pedida.

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Presidencialismo, a Pedra de Sísifo que nos desgraça

Ninguém aguenta mais
Ninguém aguenta mais este castigo.

Um mau sistema destrói uma boa pessoa todas as vezes. Todas as vezes.(Edwards Deming)

O que explica que o Brasil, um país de proporções continentais, dotado de imensas riquezas minerais, uma natureza exuberante e a maior área agricultável ainda não explorada do planeta viva imerso em crises intermináveis, corrupção endêmica e pobreza acachapante? A praga endêmica que desgraça o Brasil tem um nome: presidencialismo. 

O presidencialismo é a nossa condenação de Sísifo. Sísifo, como sabem, vem a ser aquele personagem da mitologia grega que foi amaldiçoado pela eternidade a repetir a penosa tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, sendo que, toda vez que estava prestes a alcançando o topo, os deuses a empurravam de volta, montanha abaixo. E Sísifo tinha que começar tudo de novo. Segundo a mitologia, este destino maldito o perseguiria pela eternidade.

Nosso presidencialismo, como a pedra na lenda de Sísifo, é o nosso castigo pelo desapreço que temos com a seriedade e nosso pendor pela demagogia. Nosso presidencialismo chinfrim nunca deu certo e nem vai dar. Trata-se de um sistema de governo que é defeituoso por concepção. É ruim por design. Foi adotado por pura imitação do sistema americano, que, como salta aos olhos, também lá não funciona direito. E, para piorar as coisas, o copiamos mal.

O teste da boa árvore.

De tantas causas possíveis, como saber que o nosso problema maior é, de fato, o presidencialismo? Não seria o excesso de partidos? Não seria o voto proporcional? Não seria nossa cultura? 

O presidencialismo é um arranjo de governo que concentra poder demais em uma só pessoa. O Presidente é, ao mesmo tempo, chefe de Estado e Chefe do Executivo, funções que o Parlamentarismo divide exatamente para evitar a tentação de arroubos do tipo “quem manda sou eu”. É frequente, no presidencialismo, a ascensão de políticos “personalistas” que tentam desmontar os arranjos democráticos de forma a acumular mais poderes e continuar no poder. A respeito deles advertia Lorde Acton: “O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

A Bíblia, ainda que uns tantos questionem sua validade como livro religioso, é reconhecidamente um compêndio do conhecimento humano milenar. Em Mateus 12:33 se encontra uma destas pérolas do saber universal: pelo fruto se conhece a árvore. (Segundo o texto bíblico: “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto será bom; ou fazei a árvore má, e o seu fruto será mau; porque pelo fruto se conhece a árvore.”) Ora, basta olharmos para a tristemente conturbada história do presidencialismo brasileiro para concluir que estamos diante do pior tipo de árvore existente no rol das democracias. 

A verdade é que o presidencialismo à brasileira é um queijo…Suíço!. Tem buracos e brechas de todos os tamanhos e tipos. O dito “presidencialismo de coalisão” outra coisa não é que um “presidencialismo de corrupção”, um “presidencialismo de rapina”. Um bando de bucaneiros da política que se mancomunam para negociar seu apoio e assumir cargos onde possam “meter a mão”. Nada explica melhor este propósito de fazer tudo como arremedo que a célebre afirmação do Delúbio Soares, o ex-presidiário que chefiou as finanças petistas de 2000 a 2005. O finório, respondendo aos que queriam que publicasse na internet a demonstração financeira do partido, disse: “transparência assim é burrice”. Pois é na mesma linha que os corruptos fogem de um sistema democrático transparente, imunizado contra a corrupção:  “DEMOCRACIA ASSIM É BURRICE”!

E, claro, um sistema tão vulnerável aos assaltos dos “pais da pátria” tende a viver em um clima de divisão de botim permanente. Tanto que, no Brasil do século passado, este rocambole institucional nos trouxe 22 grandes crises e rupturas, entre golpes, revoltas, revoluções, movimentos militares, impeachment e congêneres. E foram sete constituições diferentes. Neste século XXI, que até começou auspicioso, com o primeiro governo Lula seguindo as pegadas do governo de FHC, a obtusa ambição petista de perpetuar-se no poder logo descambou para a corrupção mais desenfreada. Produziu Dilma e seu impeachment, desencadeou a Lava Jato, levou a uma crise permanente durante o Governo de Michel Temer, promoveu a inédita “eleição por facada” de Bolsonaro e agora nos condena a viver uma cruel multipandemia que mistura coronoavirus, economia e segurança. Tudo em frangalhos. 

E como desgraça pouca é bobagem, o atual presidente Bolsonaro tem o perfil do tipo político mais nefasto para assumir a presidência no presidencialismo.

O General Douglas MacArthur, o comandante americano que venceu o Japão na II Grande Guerra  e depois supervisionou a ocupação do país de 1945 a 1951, promovendo sua reconstrução e o conduzindo para uma espetacular expansão econômica, política e social, revelou, de certa feita, que o segredo de seu sucesso é que adotava o método de Sun Tsu para avaliar seus oficiais.  Segundo explicou, cada novo oficial que vinha servir em suas tropas era pessoalmente entrevistado por ele. Na entrevista, ele classificava o oficial em uma de quatro categorias: Categoria 1 – Inteligente e ativo; Categoria 2 –  Inteligente e preguiçoso; Categoria 3 – Burro e preguiçoso; Categoria 4 – Burro e ativo.

Segundo MacArthur, a primeira categoria é a dos que ganham a guerra. Devem ser colocados nas posições chave e onde se dá a ação. Infelizmente, são poucos. A segunda categoria não serve para o front. São lentos e elucubrados demais para comandar tropas.  Mas podem ser utilizados na inteligência ou no estado maior. A terceira categoria, a dos burros preguiçosos, é a mais numerosa. Agem burocraticamente, evitam riscos e preferem o conforto à ação. O melhor é colocá-los em posições de retaguarda ou em posições de baixo risco. Vão criar problemas, mas, sendo preguiçosos, farão poucos estragos. Todavia, segundo MacArthur, o perigo está no quarto grupo, o dos burros ativos. Destes ele tratava de se livrar na primeira oportunidade. O grande general, como seu mestre Sun Tsu, tinha pavor dos burros ativos. Estes, além de néscios, são incontroláveis, atropelam tudo e todos, sempre se acham com razão e se acreditam mais espertos que os outros. E sendo descombulados e hiperativos, produzem burradas em série, espalham o caos e destroem, por dentro, qualquer exército.

Pois, pode haver melhor descrição de atual ocupante do Planalto?

Pode-se argumentar que a Lava-Jato mostrou que existem caminhos para o combate à corrupção no Presidencialismo. Mas os fatos mostram que episódios heróicos não sobrevivem por muito tempo. Deve ter sido por compreender que, sem transformar o combate à corrupção numa ação sistemática, os políticos corruptos logo encontrariam meios de o impedir, foi que o Juiz Sérgio Moro, patrioticamente, decidiu abrir mão de 22 anos de magistratura e aceitar o Ministério da Justiça. Ele sabia, melhor que ninguém, que o milagre da Lava-Jato só vingou pelo destemor dele e de uma plêiade de heróis, como o do Procurador da República, Deltan Dallagnol, e de um núcleo de outros heróis – quase todos de uma nova geração e sem compromissos com as oligarquias. Moro haverá de ter percebido que ele e a Lava-Jato foram favorecidos por atuaram em um ecossistema jurídico, social e político que corre por fora dos tradicionais centros da corrupção. O Sul teve suas instituições menos contaminadas pelo patrimonialismo e pela predação de Estado do que as do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e das capitais nordestinas, centros mais antigos e onde a corrupção é endêmica. Uma nova Lava Jato, contudo, dificilmente voltará a ser possível no atual presidencialismo. O pântano político e o “Centrão” já trataram de interpor os bloqueios e barreiras para impedir outra “ousadia” do tipo no futuro. A título de exemplo, pode-se suspeitar que o tal “juiz de garantia” foi criado precisamente para “garantir” que nunca mais apareça um Moro para atrapalhar os “negócios” dos vendilhões da pátria. 

. O Brasil tem solução?

Pode parecer um exercício de futilidades discutir se o Brasil quer, de fato, encontrar uma solução realista para seus problemas. Mas as mudanças virão, por bem ou por mal. A crise monumental que se avizinha, possivelmente a maior da história do país, vai produzir mudanças disruptivas. Vai ser um período conturbado, mas, no final, a saída será mais democracia. Os vetores que se observam na sociedade indicam que existe uma massa crítica da opinião pública que não vai aceitar retrocessos. Acredito, portanto, que a sociedade brasileira vai exigir um novo modelo de democracia e não este faz-de-conta meia-boca que está aí.

Acredito até que, depois de tanto sofrer, a nação irá se lembra de Rui Barbosa e decida emendar-se: 

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Ora, o chacoalhão que vamos enfrentar vai fazer todo mundo botar a mão na consciência. E, depois, nada levanta mais rápido um traseiro do que fogo embaixo do banquinho. 

Dado que a crise que estamos vivendo é uma “decrisis”, que é como os gregos definiam o tipo de crise que tende a ir piorando, com caos e desorganização crescente, até se dar o colapso do sistema, não vai demorar para o Brasil buscar em profundidade as causas que criam e alimentam a disfuncionalidade do governo da república e se decida a mudar. Tudo indica que o país está mais maduro e preparado para adotar um solução comprovada e baseada em evidências para consertar de uma vez por todas o sistema que o infelicita e empobrece. 

O presidencialismo à brasileira tem sido a casamata dos privilégios. O espaço do “me engana que eu gosto”. Demagogos e malandros se passam por democratas para tomarem o poder e se apoderarem do estado. O atual sistema presidencialista e o voto proporcional foram inventados pelo diabo para facilitar a tarefa de enganar eleitor tonto. Trata-se de uma combinação embusteira concebida para fraudar os objetivos da democracia.

Os velhacos da política aprendem logo a primeira lição da canalhice: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte”. Com coronavirus, ou sem coronavirus, o negócio desta ralé moral é meter a mão. Se é dinheiro para comprar respiradores ou ajudar os pobres, não faz diferença. O que interessa é enricar. Desviar a grana. É a lei do pirão: “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Foi esta lei que inspirou os “direitos adquiridos” contra o povo! Os tais “imexíveis” “direitos adquiridos” são sempre contra o povo. Em sua maioria são, na verdade, “abusos adquiridos”. E, de tanto esfolar o povo, precisam acabar.

Agora, tirar os tais “direitos adquiridos” da privilegiatura não será um processo indolor. 

Fernão de Lara Mesquita escreve que “Não ha inocentes na tragédia brasileira. O Sistema não muda porque ninguém está pleiteando que mude. Ninguém admite perder nada. A divergência que essa polarização burra traduz circunscreve-se à disputa pelo comando da coisa. Não é o Brasil que está em discussão. O Brasil é só o prêmio dessa disputa.”

Em outro trecho Fernão de Lara Mesquita diz que “Não haverá arrumação fiscal sem o fim desse regime de escravização de 99,5% do país aos “direitos adquiridos” dos 0,5% da privilegiatura. (Aliás, em minha opinião, devíamos fazer uma emenda à Constituição que dissesse simplesmente: “Não existem direitos adquiridos contra o povo” e “Revogam-se as disposições em contrário”.)

. Democracia Baseada em Evidência – O método para buscar uma Democracia de Qualidade.

Segundo Einstein, “Insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.” Portanto, o primeiro pressuposto para obtermos melhores resultados é mudarmos nosso modo de fazer política e eleger nossos governantes.

Somos o país da jabuticaba, do besteirol, do carnaval e do presidencialismo de corrupção. Aos poucos o país vai entendo que Sérgio Porto tinha razão quando dizia: “Ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade”. E, como há de parecer óbvio até ao mais obtuso dos viventes, não dá para toda a nação se locupletar. Para implantar a moralidade, por outro lado, é preciso criar um sistema que mude a lógica do atual sistema e crie mecanismos que empoderem a sociedade. E é motivo de alento observar que nossa sociedade tem mostrado que quer acabar com a corrupção e quer mudanças. Mas para sair da retórica e ir para o fazejamento, a dificuldade está em definir quais mudanças devem ser feitas e como gerar um consenso sobre elas.

Infelizmente nossos políticos, salvo exceções, são carreiristas profissionais. Entram na política não para servir o país, mas para se servir dele. Destes não se pode esperar nada. Falam em “mudança”, mas são adeptos da filosofia de Alphonse Karr: “plus ça change plus c’est la même chose”. Quer dizer, “mais se muda, mais fica a mesma coisa”… 

Se, por um lado, é difícil obter um consenso sobre como formatar um novo modelo de governo, talvez seja menos difícil obter consenso sobre a metodologia para buscar este modelo ideal. E existe uma metodologia consagrada de fazer o certo do jeito certo e prevalente no meio médico: a Medicina Baseada em Evidência. A MBE reúne as melhores evidências científicas e indicadores de bons resultados para orientar o tratamento dos pacientes. A metodologia revolucionou a medicina, empoderou os protocolos e passou a fazer valer as melhores práticas. E esta técnica de reunir as melhores evidencias também pode ser aplicada na área política. Para começar, poderíamos abrir a discussão elencando o que não funciona a contento no Brasil e comparar com os métodos e resultados obtidos nos diferentes países e nos diversos sistemas de governo dos países avançados. O método permitiria considerar os prós e os contras de cada alternativa, o que melhor se ajusta à nossa cultura e aí definir a mudança e gerar um consenso. Obviamente, no final do processo, será preciso escrever uma nova Constituição. Chamar uma nova Constituinte capaz de usar os meios modernos de participação da sociedade para elaborar uma nova Carta Magna. Uma constituição pensada para o Brasil do Mundo 4.0 e que seja, de fato, debatida por toda a sociedade e não apenas por um grupo de políticos da velha política, interessados, sobretudo, em promover os interesses da privilegiatura e seus inconfessados interesses político-eleitorais.

Acredito que a maioria dos brasileiros está cansada de tanta bandalheira e tanto atraso. E, diante de um chamamento para repensar a desorganização crônica do país, concordaria em debater a mudanças de seu governo segundo as regras da Democracia Baseada em Evidência. E em desenvolver consensualmente um projeto para o país do século XXI.

De minha parte, tenho a opinião de que o debate nos iria encaminhar para um governo parlamentarista com voto distrital e não obrigatório.  

O sistema parlamentarista é o adotado por todos ao países desenvolvidos, com a notória exceção dos Estados Unidos, que compensa o poder do presidente com uma eleição indireta e com uma câmara de deputados eleita a cada dois anos por voto distrital. Vale ressaltar que, mesmo assim, o presidencialismo de lá é sempre fonte de problemas e questionamentos. Quanto ao presidencialismo, este é sistema majoritário no mundo do atraso. Prevalece na América Latina e tem forte presença na África, o que já deve levar à reflexão. 

O segredo do sucesso dos governos parlamentaristas está na virtude intrínseca do sistema que é equilibrado por um mecanismo de pesos e contrapesos bem mais sofisticado do que o nosso, que funciona sempre no limite, na base da confrontação permanente . Em um parlamentarismo bem ajustado, este mecanismo funciona promovendo a “síntesis”, ou a “crise boa” dos gregos, agindo preventivamente e acomodando situações antes que se tornem contenciosos. Por esta via de “parlamentarisar” as disputas, que são decididas no voto, o sistema de freios e contrapesos abrange todas as instâncias. A começar pelo centro de comando do país, que divide o poder em duas funções: a Chefia do Estado e a Chefia de Governo.

No parlamentarismo, o Chefe de Estado não se envolve diretamente no dia a dia da administração do país, tarefa que cabe ao Chefe de Governo, o Chanceler ou Primeiro Ministro. 

Um aspecto interessante é que, por ser um sistema versátil, os poderes do Chefe de Estado variam de país para país. Em monarquias, como nos países nórdicos, na Holanda, na Bélgica, no Reino Unido, ou no Japão, onde o monarca é Chefe de Estado, este tende a ter funções mais simbólicas, mas, na maioria dos regimes parlamentaristas, o Chefe de Estado concentra algumas funções legislativas, como assinar, ratificar e até vetar leis e projetos vindos do congresso, dissolver o legislativo e demitir Chefes de Governo. Além disso, ele é o comandante máximo das forças armadas, dispensando um Ministro da Defesa, como no Brasil. 

A administração do dia-a-dia do país, porém, é da alçada do Chefe de Governo, a quem cabe tomar as decisões e prestar contas aos representantes do povo, eleitos pelos distritos. 

Todavia, para o sistema parlamentarista funcionar à contento é preciso que os parlamentares tenham condições de contribuir para a administração do país e não apenas fazerem pronunciamentos perfunctórios e votarem iniciativas do executivo. Portanto, o parlamentarismo requer um perfil diferente de representantes do povo.  

O voto distrital cria um elo de confiança e um comprometimento claro entre cada representante e seus representados. Os candidatos disputam o voto majoritário em seu distrito. Cada distrito elege um só deputado. E os eleitores daquele distrito podem vigiar e cobrar o seu representante o tempo todo. Esta proximidade do eleitor com seu representante promove a depuração do parlamento. Maus deputados não são eleitos ou são afastados. Veja-se o exemplo do voto distrital nos Estados Unidos. Mesmo em um regime presidencialista, o voto distrital faz uma enorme diferença. Os eleitores de cada distrito tem encontros periódicos, com seus respectivos deputados. Nos encontros, realizados em espaços como prefeituras, salões ou escolas, os eleitores ouvem o que seu representante tem a dizer, discutem suas posições, suas posturas e votos no parlamento. Caso ele insista em se comportar de forma inadequada, os eleitores podem fazer o chamado “recall”. Por meio de um abaixo-assinado que atenda determinados requisitos, os eleitores do distrito podem convocar uma nova eleição distrital. A qualquer tempo. Os eleitores locais poderão, então, decidir por maioria, se mantem ou elegem um novo representante. 

Para assegurar que o voto de cada cidadão tenha igual peso eleitoral na formação do parlamento, os distritos eleitorais são divididos por áreas com um número semelhante de habitantes. Isto acaba com o arremedo de democracia que hoje faz um cidadão paulista valer apenas 1/11 avos de um eleitor de Rondônia. (Pelo atual arranjo eleitoral, um eleitor de Rondônia vale por 11,3 vezes mais do que um eleitor paulista, o que é um absurdo.)

Mas, enfim, a resposta é que sim, o Brasil tem solução. Contudo, resta saber quando o Brasil vai abandonar sua histórica mediocridade política e passar a se comportar como um país adulto e responsável.

O que é certo é que logo o Brasil vai ter que fazer mudanças em escala nunca vista. Querendo ou não. Com a monumental crise econômica que se avizinha e sob um presidente despreparado, destrambelhado e boquirroto, um autêntico “burro-ativo” na definição de MacArthur, as mudanças virão por bem ou por mal. O colapso das atividades econômicas, os 20 milhões de desempregados, a pior recessão dos últimos cem anos, são desafios que requerem uma nova postura diante da realidade. O Brasil sairá desta, mas em novas bases. O Brasil velho morreu. E o futuro do Brasil será decidido por uma nova geração, mais bem informada e preparada e pela atitude de seu povo frente aos desafios que logo engolfarão a nação.

A Democracia por Evidência para fazer um Brasil decente. 

Finalmente, para encerrar, penso que chegou o momento de o Brasil abandonar essa mania de querer reinventar a roda. O melhor que podemos fazer é adotarmos as melhores práticas políticas do mundo. Com critério e bom senso. Doa a quem doer. Reconstruirmos nossas instituições com equilíbrio e equidade. Criarmos anticorpos institucionais para acabar com a malandragem rampante que tira dos pobres para dar aos ricos. Um país que valorize a meritocracia, em que os méritos valham mais que o nepotismo e os compromissos partidários. E acreditar que vale a pena. Afinal, temos boas razões para fazermos do Brasil uma nação mais decente e melhor. Afinal, vivemos aqui.

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O Brasil sem susto

Um símbolo para o Alckmin inspirado no encanto da "pá e a rosa" do Brig. Faria Lima.
Um símbolo para o Alckmin, inspirado no encantamento da “pá e a rosa” do Brig. Faria Lima.

Para o bem ou para o mal, daqui a poucos meses vamos definir o Brasil que queremos. Aliás, o Brasil que teremos. E são duas as alternativas: um Brasil com juízo ou sem juízo. Um Brasil com sustos ou sem sustos.

De minha parte, depois de sofrer em meio ao maior festival de corrupção da história humana, depois do vendaval de aberrações reveladas pela  Lava-Jato, depois da escabrosa desfaçatez da JBS, da obscena transformação do BNDES no banco financiador da corrupção internacional e de outras tantas perversões, depravações e decepções, prefiro um Brasil sem aventuras. Um país com o juízo no lugar. Sem sustos. E isto significa escolher o mais sensato, provado e preparado entre os candidatos.

E, no meu entendimento, os nomes são os que estão na mesa. Dado que as regras vigorantes impedem que surja um candidato vindo do nada, vamos ter mesmo que escolher entre os candidatos que estão postos. E entre eles, Alckmin pode não ser o mais celebrado ou o mais carismático, mas é a escolha do bom senso.

Agora, aqui entre nós, o eventual candidato Alckmin precisa fazer sua parte. Tenho acompanhado sua presença no Twitter. Eu e mais um escasso punhado de seguidores. O conteúdo é substancial. Alckmin é um realizador. Seu trabalho é, de longe, o mais produtivo e articulado entre os governadores. Mas a abordagem de sua mensagem é ineficaz e insossa. Seu mote “Preparado para o Brasil” é ruim de doer. Vindo de um paulista, soa arrogante e gera ressentimentos em muitos estados. Falo como profissional de marketing que conhece o assunto. Alguém precisa dizer ao governador que ele precisa inverter a polaridade de sua mensagem. Não adiante ele estar “preparado para o Brasil”. A questão é: o Brasil está preparado para ele?

E para não ficar na divagação estéril, acho que duas coisas precisam melhorar no atual posicionamento “utilitário” de sua mensagem: (1) faz falta em sua mensagem uma visão que encante – um “projeto” para o Brasil – que transcenda o valioso trabalho de “zeladoria”, que é de qualidade inquestionável, mas não empolga, e (2) falta em sua mensagem um toque humano. O governador Alckmin precisa de uma “marca” que gere empatia e simbolize seu lado humano, hoje muito apagado para ser notado. Afinal, não temos como fugir da semiótica: se não é “percebido”, não existe.

Neste sentido, lembro que o Brigadeiro Faria Lima, um realizador do calibre do governador Alckmin e, como ele, um “fazedor” que também precisava “humanizar” sua imagem pública, adotou como símbolos a “pá e a rosa” e fez com eles uma marca que o ajudou a se tornar imensamente popular e querido da população paulistana.

A  “pá de pedreiro” representava a obra de transformação urbana que o prefeito realizava na cidade; a “rosa” representava o eixo de humanidade que lhe servia como fonte de inspiração permanente, um “leitmotif” que marcava toda a sua obra.

Trazendo estes símbolos para a atualidade, sugiro uma marca que mostre o Brasil na tecnologia digital e resgate a rosa do brigadeiro Faria Lima como símbolo de humanidade. A obra que o Brasil precisa é sua modernização tecnológica. A inclusão do Brasil na era da Inteligência Artificial e a preparação dos brasileiros para a quarta revolução industrial. Todo brasileiro que tem um celular sabe que o futuro está na tecnologia. E sabe que precisa ganhar oportunidades de melhorar de vida no novo mundo da Inteligência Digital (ID) que vem aí. Então, a rosa seria o símbolo deste futuro que todos sonhariam juntos. Sonho de uma revolução tecnológica que mudaria o Brasil, liderada por um presidente competente, um médico com visão humana e preparado para melhorar a vida e o destino do Brasil e de sua gente.


Ceska – o digitaleiro

A Cabala para desvendar o Brasil

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Eureka! Eureka! O Brasil tem solução: é só implantar a moralidade. (Só que vai ter que ser na marra!)

Eureka!, Eureka!, gritava um desvairado Arquimedes correndo nu pelas ruas de Siracusa, na antiga Grécia. O grande matemático tinha acabado de descobrir porque os barcos flutuam sobre a água. E, ao se dar conta do fenômeno que depois se transformou no “Princípio de Arquimedes”, instantaneamente entendeu que aquela revelação transformaria o mundo. Por isto, tomado por uma alegria delirante, não se conteve: pulou da banheira e saiu proclamando a notícia do jeito que estava.

Três milênios depois, cá no Brasil, vemos nosso país navegando às tontas e correndo o risco de ir a pique. Este nosso país, tão lindo e cheio de potencialidades, infelizmente continua cheio de cretinices e boçalidades e se recusa à racionalidade com a teimosia de um jumento empacado.

A luta do país para sair do enrosco é a velha luta do bem contra o mal. Do Brasil velho e curvado de vícios, que ainda se comporta como colônia, contra o país vibrante e moderno da tecnologia e do agronegócio, o Brasil 4.0, que vem aflorando e vai acabar por se impor.

Por felicidade, em 2018 teremos eleições gerais. O país vai poder se repensar. E, quem sabe, reavaliar seus erros e acertos e adotar um novo modelo de política. Oxalá, por meio do voto, possamos nos valer de nosso momento de “Eureka”, um lampejo de clarividência que nos foi legado por Sérgio Porto, o imortal Stanislaw Ponte Preta, quando formulou seu enunciado de como evitar que o Brasil afunde. Seu enunciado é tão óbvio que ulula: “ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade”. Traduzindo: ou afundamos no mar de lama ou adotamos regras de comportamento civilizado em nossa sociedade.

O que Sérgio Porto diz é que não dá para todos os milhões de brasileiros se locupletarem ao mesmo tempo. Simplesmente, não dá. É uma impossibilidade matemática. Então, o único jeito da manter o país flutuando é adotarmos a moralidade. Algo que só conseguiremos fazer se adotarmos uma nova política.

Em um primeiro momento parece difícil. Mas tudo é uma questão de timing. O muro de Berlim não foi “derrubado”. Caiu de maduro quando os alemães orientais decidiram, coletivamente, que não o aceitavam mais. E agora, parece que cansamos do muro de atraso que nos impede de avançar para a modernidade. Estamos fartos da roubalheira desenfreada; estamos fartos desta politica de compadrio, da mistura do público com o privado e da “economia da corrupção”. Cansamos de assistir o rodízio de ladrões que nos assaltam dia e noite. Então a alternativa é botarmos abaixo o anacronismo e adotarmos a civilização. Passarmos a crer na moralidade e abrirmos as portas para a decenciocracia. Para e equidade e para um sistema de pesos e contrapesos para controlar os políticos e o governo.

O sentimento de probidade e retidão deve passar a prevalecer. Não por virtude pela virtude, mas porque um país assentado na malandragem nunca será próspero, nem viável. A cada um segundo sua contribuição, a cada um segundo seu merecimento. A nova ordem dever ser: ninguém mais mete a mão. Ninguém mais fura a fila. É proibido roubar e deixar roubar. E, para cada político corrupto a eleição deve mostrar a porta de saída como serventia da casa, acompanhada da exortação: “Vai trabalhar, vagabundo”.

  • A democracia disruptiva

A democracia à brasileira tem sido a casamata dos privilégios. O espaço do “me engana que eu gosto”. Demagogos e malandros se passam por democratas para se apossarem do estado e tomarem o poder. O sistema presidencialista e o voto proporcional foi inventado pelo diabo para facilitar a tarefa de enganar eleitor tonto. Trata-se de uma combinação embusteira concebida para fraudar os objetivos da democracia.

E, obviamente, como diz a sabedoria popular, “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte”. Os donos do poder fazem as leis para favorecerem a eles mesmos. É o caso da lei do pirão: “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Foi esta lei que inspirou os “direitos adquiridos” contra o povo! Os “Direitos adquiridos” são contra o povo. Em sua maioria são, na verdade, “abusos adquiridos”. E precisam que acabar.

E enquanto não se resolve a revogação destes famigerados “direitos adquiridos” em causa própria, e não se expurga a respectiva “cláusula pétrea” (a pedra?) do meio do caminho, que ao menos se decida que os privilégios devem ser pagos por último. O direito a hospitais, escolas e segurança, deve ter prioridade. O sibilino “direito” à privilégios e mordomias deve vir depois.

A esta altura seria bom perguntar: você quer mesmo sobreviver no Brasil? Sério? Então tá, e parabéns por sua coragem, mas saiba que o Brasil não é para amadores. E, para escapar incólume nesta aventura um tanto quanto insana, é bom ter em mente que o Brasil é desafiador e inóspito. Especialmente para os incautos e desavisados.

Ademais, sem subestimar o distinto público – e tirando uma suculenta nata de marajás e privilegiados que vivem as delícias das tetas do governo, – a verdade é que mesmo os iniciados se enroscam em grandes dificuldades para sobreviver no Brasil contemporâneo.

Contudo, os ventos estão mudando. E se você quer ampliar suas chances de dar a volta por cima aqui mesmo, vale a pena desvendar alguns segredos desta esfinge chamada Brasil. E, para este exercício, vamos visitar algumas práticas da Cabala.

A Cabala, vale esclarecer, não é panaceia. O uso de suas técnicas pode ajudar a entender o Brasil profundo e evitar muitas das ciladas que ficam à espreitam. A Cabala pode ajudar a navegar em meio as brumas e desafios do conturbado presente e incerto futuro. Mas o resultado vai depender da sua disposição para olhar os fatos com isenção, acuidade e equilíbrio.

As técnicas da Cabala que vamos utilizar se constituem em um filtro da realidade. O seu uso sistemático ajuda a entender a dinâmica das forças que se movem no ambiente de nosso entorno e a dar relevo aos vetores que se formam no seu interior. Forças que se entrechocam, se amplificam e se anulam em um embate permanente até se tornarem dominantes e aflorarem como tendências que influenciam ou até determinam o rumo dos acontecimentos. Identificando estas forças e monitorando sua evolução é possível identificar riscos e ameaças, assim como perceber oportunidades, no contexto social, político e econômico. Detectar oportunidades e ameaças precocemente pode contribuir para melhores decisões no presente e mais acerto na antecipação do futuro. Sempre ressalvando, porém, o que dizia Drucker, “Prever o futuro é impossível. Tudo o que podemos fazer é construí-lo”.

Antes de por a mão na massa, uma última admoestação, este agora de Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.” Resulta então que, posto que nossa circunstância se realiza no Brasil, ou o salvamos ou afundamos todos juntos.

De maneira que é nesta tarefa de desvendar os enigmas do Brasil profundo e penetrar nas entrelinhas de nosso futuro que as técnicas da Cabala vem a calhar. Reitero que a Cabala não substitui uma bola de cristal, nem eu sou o Mago Merlin, mas não custa a gente tentar dar uma espiada nos desvãos do presente e nos pendores do futuro, não é mesmo?.

A cabala, o que é?

Para começar pelo início, a Cabala é uma escola de pensamento esotérico criada na idade média por judeus e formada a partir de uma raiz mística, de conotação religiosa, e que compreende um lado, digamos, telúrico, eminentemente prático e objetivo, com a missão de prestar atenção no entorno social, político e econômico visando a sobrevivência da comunidade. De fato, alguns estudiosos até sugerem que a Cabala religiosa teria sido concebida mais para servir de cobertura ao trabalho dos iniciados que se reuniam para investigar e discutir os riscos a que a comunidade judaica estava exposta naqueles tempos perigosos do que como uma escola de pensamento esotérico alternativo.

De toda forma, o que vamos aplicar em nosso exercício de análise da realidade brasileira é a metodologia que busca desvendar os segredos da realidade.

No processo para entender a realidade circundante a cabala se vale da análise da realidade em quatro diferentes dimensões. Em geral vemos a realidade como um todo, mas assim como um organismo parece único, mas é formado por camadas, órgãos internos e sistemas ocultos, o conjunto da realidade aparente reúne um infinidade de componentes que interagem entre si. Cada uma delas possui características próprias e cabe ao interessado focar cada uma das dimensões de maneira a captar aspectos, detalhes e nuances que irão se revelando ao olhar atento e acabarão por formar um mosaico revelador do conteúdo de cada uma delas. Será a combinação dos diversos quadros que abrirá frestas na realidade aparente, deixando entrever movimentos, sinais e alertas relevantes. A leitura do cenário que resultar desta análise é que irá permitir desvendar o contexto, ensejando compreender o que se torna aparente com suas causas e motores. Em certo sentido, estas técnicas da Cabala permitem examinar a realidade com lentes de aumento.

As quatro dimensões

As quatro dimensões a serem examinadas, uma de cada vez, são as seguintes:

Primeira dimensão: o “Aparente do Aparente”,

Segunda dimensão: o “Oculto do Aparente”,

Terceira dimensão: o “Aparente do Oculto”

Quarta dimensão: o “Oculto do Oculto”.

  • O Aparente do Aparente.

A primeira dimensão, o Aparente do Aparente, vem a ser realidade visível, o mundo aparente, a coisas que estão à nossa volta e compõe a realidade de nossa vida cotidiana. Nesta etapa o escopo da análise é observar e analisar a composição da realidade em que estamos imersos, ou seja, a realidade material, visível, palpável. Aquela realidade material que percebemos por meio de nossos cinco sentidos. Portanto o somatório de tudo o que é visível e perceptível, incluindo os objetos, as pessoas e suas circunstâncias, os elementos e fenômenos naturais, os eventos e seu encadeamento, as instituições, a cultura, o ordenamento social, as causas e seus efeitos, enfim, tudo o que vemos, tocamos, ouvimos e sentimos diretamente.

  • O Oculto do Aparente.

Como se sabe, as “aparências enganam.” Como sugere a definição, existem muitos  elementos que estão aparentes mas passam desapercebidos. Figuram no cenário, ambiente ou contexto, estão diante de nossos olhos, de nossos sentidos, mas estão dissimulados, estão mimetizados. O mimetismo é um tipo de “oculto do aparente”, sendo uma “estratégia” ou um “truque” da natureza para dissimular e enganar a percepção daquilo que não deseja que se destaque no cenário aparente. O mesmo artifício de esconder-se em meio a paisagem vale no contexto social, onde o engodo e a mentira são parte do processo de disfarçar intenções e encobrir a verdade. Em certas circunstâncias, o disfarce é uma defesa, em outras uma cilada, um golpe, um logro. Formam entre esses elementos interesses, situações, eventos, coisas fora do normal, que intencionalmente ou não,  se escondem no panorama. O exame do Oculto do Aparente é mais eficaz se  incluir os “ciclos” da natureza, a exemplo da idade, as estações, a maturação e demais fatores que são causa e efeito da vida. Especialmente os atrelados ao um grande processo vital que submete a todos, ou seja, o nascimento, vida e morte.

O jogos de sete erros em ilustrações e o popular “Onde está Wally” são exemplos do Oculto do Aparente, assim como o são as “entrelinhas” de muitos contratos e acordos. Assim como os efeitos perversos de muitas políticas ditas “sociais” e vendidas como “humanitárias”.

No Oculto do Aparente podem se esconder grandes perigos, sendo os mais perigosos precisamente aqueles que se passam por coisas desejáveis.

  • O Aparente do Oculto

A terceira dimensão  – o Aparente do Oculto – engloba tudo o que se encontra oculto, mas pode ser encontrado por uma pista, indício ou sinal que fica aparente. Muitos atributos, qualidades e fenômenos que existem no plano real podem ficar ocultos e não ser percebidos a menos que se observe um sinal ou evidência perceptível. A parte visível de um iceberg é aparente, mas a parte oculta, a parte submersa, é muito maior e mais perigosa, fato que quem conhece, quem sabe a natureza de um iceberg, sabe que abaixo da linha d’água haverá uma massa muito maior de gelo. Para desvendar a parte oculta de um Aparente do Oculto é preciso dispor de conhecimentos sobre a sua natureza e saber decifrar seus sinais. Reconhecendo sinais ou evidências é possível desvendar muito do que se esconde longe dos olhos. Um outro exemplo simples, mas ilustrativo, seria a forma de decodificar o atributo “gelado” de uma dada garrafa de água. Vendo-a pela janela de um freezer não dá para saber se está gelada o não. Mas, caso estiver gelada, este atributo logo vai se revelar se for retirada da geladeira. Ao ser colocada na temperatura ambiente uma camada de condensação irá se formar em sua volta, denunciando sua condição gelada.

  • O Oculto do Oculto

A quarta dimensão, o universo do Oculto do Oculto, reúne o contexto do invisível e a imensa massa do que não se pode ver, do que não pode ser percebido de forma direta ou por meio de sinais aparentes, mas que, ainda assim, exerce influência sobre a realidade. Por exemplo, a força da gravidade não é fenômeno visível, mas o efeito de sua presença é universalmente notado. O fato do universo do Oculto do Oculto não estar aparente não quer dizer que seja pequeno ou insignificante. Ou, ainda, que tenha pouca influência. Muito pelo contrário.

Se tomarmos como referência o sempre fascinante fenômeno da simetria da Natureza, então podemos considerar que a extensão do Oculto do Oculto representa mais de 90% de todo o conjunto de qualquer realidade que estudarmos. No caso do Universo, a parte oculta representa 95% de toda a matéria existente no cosmo. A “energia escura” representa 74%, enquanto a “matéria escura”, representa 21%. De modo que o somatório de todo o universo visível, todas as galáxias e constelações existentes, perfazem não mais de 5%.

Bem, podemos agora fazer um giro pelas quatro dimensões da Cabala para desvendar o Brasil.

O ideal seria que pensássemos em conjunto, buscássemos eixos de análise e chegássemos a conclusões compartilhadas, mas como este artigo é obra pessoal, vou apresentar o meu ponto de vista, mas sinta-se convidado a concordar, discordar e a apontar sua visão pessoal.

  • Fase 1 – Análise do Aparente do Aparente

O cenário do Aparente do Aparente no Brasil é desolador.

O Brasil continua atordoado. Continua perdido. Tentando levar a crise com a barriga. Não tem um projeto nacional. Não tem uma visão de futuro. Não formou um consenso sobre o que é disfuncional ou está errado e, assim, não compartilha de um programa sobre o que precisa ser mudado, ou que reformas devem ter prioridade. O mundo político brasileiro é de uma mediocridade acachapante. Desalentadora. Poucos políticos se dispõe a enfrentar os problemas reais e a maioria, os cabeças de bagre, acham que os problemas se resolverão sozinhos. A reforma da previdência é um caso de chorar na sarjeta. Como pode o país aceitar que os trabalhadores rurais precisem esperar os 70 anos para s aposentar com um salário mínimo enquanto muitos marajás se aposentam aos 50 anos de idade, ganhando salários integrais de 30, 40 ou 50 mil reis mensais, vezes 13?!!! Aliás, outra “esperteza” bem tupiniquim é publicar o salário nominal mensal e esconder o seu verdadeiro montante, sem incluir os benefícios, 13º salário, etc. e etc. Nos Estados Unidos se divulga sempre o valor anual dos ganhos, devidamente totalizados.

Um país que aceita esta desigualdade não tem um eixo moral claro. Vivemos em uma situação bucaneira, um salve-se quem puder, onde cada um pega o que pode. A devassidão, que não nasceu no governo petista, mas foi aperfeiçoada por ele, nos levou para a maior crise de nossa história. Entramos em um atoleiro onde ainda permanecemos. Momentaneamente existe um certo alívio e uma sensação de que teríamos chegado ao fundo do poço. O país até dá alguns sinais de lenta recuperação. Mas é um sentimento ilusório. Sem consertar o problema fiscal, em especial a previdência, a rainha do buraco das contas públicas, não vai demorar para voltarmos à queda livre, posto que o problema fiscal continua a puxar o país para o despenhadeiro. O lado dos números são eloquentes. A meta para o déficit primário do governo para 2017, bem como para 2018, é de R$ 159 bilhões. O desemprego tem 12 milhões de desempregados, 5,1 milhões de empresas estão inadimplentes (das 7 milhões existentes), o país registrou em 2016 61.619 mortes violentas, o maior número de homicídios da história. A piora do Brasil foi dramática nos últimos três anos. Em 2016, 24,8 milhões de brasileiros viviam na miséria, espantosos 53% a mais que em 2014, segundo revela o IBGE. Após o início da crise econômica, 8,6 milhões de brasileiros adicionais passaram a viver com menos de um quarto do salário mínimo por mês. A população com renda de até meio salário mínimo chegou a 36,6 milhões de pessoas. É muito sofrimento e miséria para um país com o potencial do nosso. E tudo por burrice pura, por teimosia e desvios inescrupulosos criminosos. E por insistirmos em requentar falsas soluções que jazem no cemitério dos fracassos comprovados.

Contudo, para uma análise equilibrada, em meio ao desastre que nos assola, o país mostra que tem um lado positivo: a inflação caiu a 3% ao ano; a balança comercial tem tido superávits significativos; também nossas reservas são altas. E, o mais importante, temos áreas de excelência. Um agronegócio robusto e crescente. Muitas de nossas empresas industriais mostram que somos capazes de engenho e arte. Algumas se mostram altamente competitivas no mercado internacional, a exemplo da Embraer, Tramontina, Fanem, Weg e outras.

O Governo Temer?

A questão do Governo – Tudo indica que o Presidente Temer vai terminar seu mandato, ainda que com algumas turbulências. Existe disposição dos brasileiros de aguentar este governo porque ele acaba em um ano e não está piorando as coisas. Ao contrário, mostra coragem em promover algumas reformas indispensáveis. Seu índice de aprovação dificilmente vai passar do 10 ou 15%, mas para um país que sobreviveu a Lula e Dilma, o presidente Temer é um alívio.

O Congresso?

A Câmara dos Deputados – A câmara ainda não decidiu se vai tomar vergonha. O projeto da reforma de previdência ficou para 2018. Ano de eleição. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia está surpreendendo pelo bom senso e equilíbrio. Poderia ter se aproveitado das denuncias de Janot para tentar sentar na cadeira presidencial. Tinha chances e bons pretextos, mas sofreou seus instintos políticos. Agiu com espírito público, pensando no país. Vai sair da crise como uma nova liderança confiável e consolidada. Tem grande futuro.

O Senado – Sem o carbonário Renan Calheiros, que perdeu de vez a confiança do país naquela manobra medonha para salvar a elegibilidade de Dilma na sua cassação e não tem mais cacife para criar problemas, parece que vai dar guarida para as reformas necessárias. Nada espetacular, mas um mínimo de sobrevivência.

O Judiciário?

O Judiciário – O Juiz Moro é a grande figura do judiciário. Mas não esta só. A decisão de marcar o julgamento do recurso apresentado por Luiz Inácio Lula da Silva no processo do tríplex em Guarujá para 24 de janeiro de 2018, dá ao Tribunal Regional da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre um relevo especial e indica que a justiça compreendeu que o Brasil não pode mais ficar paralisado no aguardo de decisões que vão definir seu futuro. O STF, por seu turno, tirando um ou outro indigitado que eructa mofo no dia a dia, vem dando para o gasto. E no STF muito do mérito cabe à sólida presidência da Ministra Carmen Lúcia.

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal tem, igualmente, contribuído para que o país ainda se mantenha confiante nas instituições. Vivem disputando poder, mas se o  usarem para o bem do país, menos mal.

A sociedade empoderada: O fato novo de 2017 é que a sociedade percebeu que pode se mobilizar e ir para a rua para pressionar pelas mudanças necessárias. Se o governo “pisar no tomate” ou sair dos trilhos, a sociedade da internet não precisa mais do que 24 horas para bater panelas ou encher as ruas e encurralar o governo. É possível prever que vamos ter muitos panelaços e manifestações em 2018. A sociedade já deixou claro que não tem vocação para ser bom cabrito.

Por tudo isto, o sentimento dominante na sociedade é o de moderada expectativa para 2018. Um sentimento que pode não resistir se o congresso aprontar trapalhadas na questão da reforma da previdência em fevereiro de 2018. Um fracasso na reforma fará a economia desandar e uma nova onda de desanimo poderá ter consequências desastrosas.

  • Fase 2 – O Oculto do Aparente

O que está claro é que vamos ter um monte de candidatos a presidente em 2018. Passado o Carnaval vão surgir as candidaturas. Em janeiro se saberá se Lula estará concorrendo. Duvido. A data escolhida para o julgamento, dez dias antes do “tríduo de Momo”, já indica como foi bem arquitetada a operação “Saca Lula”. Nota 10, com louvor, para os Juízes da 4ª Região (TRF4).

Vetores do atraso:

Dado que, no Brasil, a diferença entre esquerda e direita tem sido sempre a maneira de roubar, com a esquerda ganhando disparado nos quesitos mistificação e volume roubado, o povo se vê indefeso. Prefere a democracia direta. Gosta de votar, mas hoje reconhece que o governo que menos roubou foi o militar. Aliás, o governo militar foi combatido pelos mal intencionados precisamente por não deixar roubar. Felizmente o país tem mostrado maturidade para perseguir opções democráticas e não precisa recorrer aos militares.

A velha política, travestida de esquerda e direita, ainda vai tentar voltar em 2018. Não sei se notaram, mas pela esquerda, o lado que promete que o estado vai ser o provedor de tudo grátis, Lula, o ogro dos cafundós, está em campanha. É irregular, mas e daí? O Ogro tem feito o circuito dos grotões vociferando com a mais esganiçada eloquência que sua voz espectral ainda consegue. Mas tudo o que vem mostrando é que virou gagá. Está velho demais para liderar no grito. O tempo em que ganhava no gogó se foi. Aliás, líderes que se apoiam no intelecto, como FHC são mais longevos. Lula, ao contrário, sempre foi um líder do tipo “vamo que vamo”. Hoje, parece um arremedo, um cartum do que era. Sua liderança agora é do tipo “vão indo que eu já vou”. Falta a ele o tônus vital. É patético vê-lo como caricatura de si mesmo, escalafobético, tentando empinar um carisma que não lhe pertence mais. Que não passa de um resquício da que teve um dia. É verdade, o candidato ainda rosna e tenta gesticular no estilo “Eliscóptero”, mas seu balanço desengonçado está um bagaço. Possivelmente terá ainda votos de seus eleitores vetustos sobreviventes. É triste, mas muitos deles estão morrendo aferrados a uma ilusão que lhes logrou por décadas. As novas gerações, contudo, não se deixarão empolgar por um líder encanecido, que se apresenta trôpego e demagógico, além de pendurado num histórico de corrupção. Isto se for candidato, o que é bem provável que não seja.

Vetores de Modernidade:

Quando Temer indicou Raquel Dodge para o cargo de Procuradora Geral da República ele fez o que estava ao seu alcance para responder ao ímpeto acusatório de Janot, uma figura maquiavélica que era leal ao regime petista e que tentara todos os truques e malvadezas para desestabilizar o governo que sucedera o de sua musa. Acontece que a nova Procuradora, a escolha possível nas circunstâncias, tinha sua própria agenda. E Temer vem descobrindo que está sendo forçado a dançar pela música da nova Procuradora Geral. Dado que o propósito da Procuradora está alinhado com a agenda da parte civilizada da sociedade, a PGR pode ser uma fonte de energia a somar no vetor modernizador da sociedade.

  • Fase 3 – O Aparente do Oculto

Vamos começar pela figura dos “laranjas”. O sítio de Lula em Atibaia, como todo mundo sabe, é do ex-presidente, mas está em nome de dois “laranjas”: Fernando Bittar – filho do amigo de Lula e ex-prefeito petista de Campinas Jacó Bittar – e Jonas Suassuna, ambos sócios de um filho de Lula,

De fato, todo o “laranja” pode ser definido como um “Aparente do Oculto”.

O Brasil tomou gosto pelo oculto nos tempos coloniais. Hoje apreciar o oculto, entender o oculto, se incorporou ao DNA brasileiro. Sobreviveu trezentos anos ocultando tudo o que podia da metrópole. No Brasil colonial nada se podia produzir às claras, nem sabão. Daí, para sobreviver, desenvolveu uma tecnologia insuperável para lidar no campo do oculto. E sabe ocultar melhor do que ninguém. O governo, claro, sabia disto e respondia com a “derrama”, que era um confisco aplicado em Minas Gerais para desovar o ouro oculto e assegurar o teto de cem arrobas anuais na arrecadação do quinto. (Aliás, o “quinto”, como se sabe, era chamado de “quinto dos infernos” pela população e correspondia a um imposto de 20% do ouro encontrado e que devia ser enviado diretamente para a Coroa Portuguesa).

A contrapartida é que nosso sistema jurídico aprendeu a desencavar o oculto. O instituto da “denúncia premiada”, por ironia aprovado no governo da Dilma, tem sido extremamente eficaz neste mister. Fato reconhecido pelo saudoso Ministro Teori Zavascki ao definir o “fenômeno das penosas”: “a gente puxa uma pena e vem uma galinha”.

Agora, o que tem de corrupção “oculta” no Brasil é uma grandeza. Onde quer que se jogue luz, ali se encontra um galinheiro.

  • Fase 4 – O Oculto do Oculto

O Oculto do Oculto é o contexto que não temos como tocar, mas que nos toca sem mesmo sentirmos. Ele é imenso e insidioso e nos cerca como uma atmosfera cujo ar respiramos sem nos darmos conta. No espaço do Oculto do Oculto opera a “flecha do tempo”, a inexorável marcha da vida que obedece à segunda lei da termodinâmica.

O Oculto do Oculto encobre o rio da existência que segue, impávido, sua corrente e, em suas águas, seguem nossos destinos. O Oculto do Oculto nos oferece as circunstâncias e o tempo para nele vivermos buscando superar nossos desafios e aproveitar nossas oportunidades, enquanto o tic-tac de nossos dias vão sendo contados e cada momento desperdiçado se perde na entropia para não voltar mais.

Imenso e insidioso, seu principal conteúdo é constituído de energia invisível e das forças em movimento. Assim como o mundo em que vivemos é constituído por uma natureza que pode ser, a um tempo generosa ou hostil, nos oferece um meio-ambiente feito de solo, água e ar, assim o mundo do Oculto do Oculto é constituído por elementos desta mesma natureza e aos quais se soma a humanidade e os elementos da cultura, valores, crenças e expectativas para formar grupos humanos que compartilham destinos comuns e se desdobram em um ambiente que nos abraça e determina muito das nossas circunstâncias a que aludia Ortega e Gasset.

No caso da atmosfera em que estamos imersos, ela nos permite sobreviver graças ao ar e, especialmente ao oxigênio, enquanto nos protege do vácuo e estabelece o clima em que vivemos, ditados pela umidade, o calor e o frio. Esta atmosfera, entretanto, também pode ser afetada pela poluição e pela pestilência de elementos químicos e biológicos indesejáveis. Similarmente, no espaço humano do Oculto do Oculto, a cultura é o oxigênio. O tempo e a temperatura nos são dados pela civilização, sua moral e ética, seus conhecimentos e tecnologia, enquanto seus poluentes são a bestialidade, a selvageria, o medo, o ódio e a inveja. Na luta sem fim entre o bem e o mal, que nos acompanha desde os primórdios dos tempos, o propósito do mal é, e sempre foi, se dar bem praticando o mal para sobreviver às custas do bem.

Embora o Oculto do Oculto pareça ser predominantemente esotérico, já vimos que muito de seu conteúdo é dado pelos aspectos da materialidade da vida.

Somos seres sociais e não temos como escapar de nossa condição humana. Para Hobbes a existência humana é balizada por dois impulsos fundamentais: o medo da morte violenta e da falta das coisas necessárias para uma vida decente. São estas duas as necessidades que levam ao contrato que cria o estado, posto que o homem entende que é do seu interesse dividir e compartilhar a vida social para chegar ao bem comum, o que implica aceitar regras sociais de convévio e exercer o autocontrole.

Mas uma coisa é aceitar a necessidade do estado para organizar a vida social e outra é aceitar a predisposição de muitos para “tirar vantagem” do estado em proveito de si próprios e dos seus comparsas, segundo o velho adágio bem brasileiro: “para os amigos, tudo; para os outros, a lei”.

Para botar ordem na casa, então, existe o tal “estado de direito”, que seria o império da lei, a que todos estariam submetidos, mas que, segundo o Ministro Gilmar Mendes, se explica por quem manda mais, se o rabo ou o cachorro.

Para interpretar as forças e tendências do Oculto do Oculto num dado momento da sociedade é preciso ter uma visão do inconsciente coletivo e do conjunto dos inconscientes pessoais, representado pelos sentimentos e ideias reprimidas, desenvolvidas durante a vida dos indivíduos. O inconsciente coletivo é um conjunto de arquétipos ou conceitos  primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. Por exemplo, o medo de aranhas pode ser transmitido por meio do inconsciente coletivo. Mesmo no primeiro contato o medo de aranhas pode se manifestar de modo irracional, com falta de ar e até desmaio. Felizmente a “aracnofobia “(medo de aranhas), assim como a “catsaridafobia” (medo das baratas), podem ser vencidas com o aprofundamento dos conhecimentos sobre como lidar com elas. Na verdade, a pessoa não tem consciência de porque age de uma ou outra forma, mas herda uma predisposição para reagir ao mundo da maneira como que seus ancestrais reagiam. Este reservatório de ideias e sentimentos primitivos pode ficar adormecido por muito tempo, mas nas circunstâncias certas pode ser despertado e produzir estragos bem significativos, inclusive o preconceito, o fanatismo e o temido “efeito manada”.  Um político sem escrúpulos pode soltar e instrumentalizar estes sentimentos. No Brasil, Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, e Lula, o molusco dos Cafundós, se mostraram os mais hábeis manipuladores destes sentimentos obscuros que solapam a viabilidade de uma boa ordem social.

Colocadas estas preliminares, no mundo atual civilizado, os seres humanos vivem em ambiente social, politico e econômico que passa por grande transformação. Hoje a prosperidade é uma escolha ao nosso alcance. Quem quer que caminhe pala lógica e pelo bom senso pode aspirar satisfazer as suas necessidades e alcançar a realização plena. Como o atendimento destas necessidades não vêm ao homem prontas e acabadas, o psicólogo Abraham Maslow organizou uma hierarquia, a “Pirâmide de Maslow”, para demarcar uma sequência, um ordem, na conquista dessas necessidades do ser humano.

A Pirâmide de Maslow é dividia em cinco níveis de necessidades. Na base estão as necessidades fisiológicas e de sobrevivência, como a respiração, a sede, a fome, o sexo. Um degrau acima está a segurança e a defesa, depois as necessidades sociais, amizades e família. No quarto degrau estão a estima, a autoestima, a confiança e as conquistas. No quinto e ultimo degrau estão a auto-atualização, a criatividade, a autenticidade, a espontaneidade, a expressão artística

Vivemos em uma época em que, graças ao progresso, aos avanços da tecnologia e do conhecimento humano, seria possível a toda a humanidade sobreviver e progredir e, mais do que isto, subir aos mais altos degraus de sua realização pessoal desfrutando de abundância, sem necessidade de praticar o mal, piratear, tirar dos outros ou escravizar alguém; sem matar, nem roubar, enfim – o que é uma situação inédita da história o homem. O que é frustrante é observar que, no Brasil, ainda teimamos em trilhar os caminhos da ignorância, em cultivar valores bárbaros de uma sociedade de predadores. Enquanto os chineses seguem o ensinamento de Deng Xiaping, que diz que “ser rico é glorioso”, nós abominamos os ricos e fazemos a opção pela pobreza. Ora, ser pobre é fácil: basta ser indigente contumaz, basta agir com desprezo pelos conhecimentos da civilização e fazer como se faz em Cuba ou na Venezuela. Ou seja, pensar com pobreza e agir com pobreza faz a gente acabar pobre. Mas nossos “líderes” políticos, com algumas exceções, pouco estão se lixando em mudar o destino dos pobres. Eles não pensam em abrir caminhos que criem riqueza. Muitos tem pavor de que os pobres fiquem ricos e descubram a mediocridade de seus “líderes”, uma cambada de ignorantes de meia tigela, e lhes deem um merecido pontapé nos fundilhos. Como patifes que são, corruptos, bandoleiros e salteadores por alma e vocação, muitos se acumpliciam com o fim de enriquecer por pilhagem. Este o pano de fundo da realidade oculta com que temos de lidar. E por isto, no Brasil, é preciso ficar com os olhos bem abertos. Nesta terra onde canta o sabiá, os tontos estão ferrados e os bobocas vão se “daná”. Aqui a credulidade aleija e a ingenuidade mata. Não temos escolha. Precisamos educar nosso povo e criarmos defesas para nos protegermos dos vendilhões do templo.

Mas, então, estamos condenados a correr atrás do rabo séculos afora? Estamos condenados a esta vida miserável de criminalidade incontrolável, de corrupção sem peias, de mortes por atacado que vemos crescer à nossa volta e a tomar conta das franjas de nossa sociedade?

Não. De modo algum. Se nos unirmos todos, se voltarmos a empunhar nossas panelas, se sairmos em defesa da civilização como saímos para combater o petismo que nos afundou e enchermos as ruas com nossa determinação, venceremos o atraso.

O desafio está em desvendar a esfinge e compreender a natureza e o peso do Oculto do Oculto em nossa sociedade.

  • Precisamos identificar o inimigo para saber contra o que e contra quem lutar.

Talvez seja o caso de dizer como Pago, o personagem dos quadrinhos:  “Encontramos o inimigo e ele é nós”…

Na verdade, o maior dos inimigos que enfrentamos são os que Hobbes identificou: o medo da morte violenta e da falta das coisas necessárias para uma vida digna. Somos uma sociedade acuada pelo medo. E o medo é mau conselheiro. O medo leva ao desespero, leva ao pânico, leva ao salve-se-quem puder. O medo leva à debandada, ao estouro da boiada. E sem um mínimo de ordem, estamos perdidos.

Lula, o grande mistificador, o mestre das trevas e ignorâncias, enganou o país dizendo que a “esperança venceria o medo”. Mentira, não foi a esperança que venceu o medo, foi o embuste. Foi o logro. Foi a enrolação. E por culpa de sua má fé e da arrogância de sua pretensão o Brasil, o Brasil mergulhou na maior tragédia de sua história. A pobreza, que nunca foi debelada, apenas mitigada por esquemas artificiosos e sem sustentação, volta ainda mais cruel. A desesperança volta a apertar os corações de nossa gente. Contudo, os brasileiros não querem abandonar a esperança e nem querem abandonar seus sonhos legítimos. Então cabe a cada brasileiro que tenha percepção de nossa tragédia e de suas causas, ajudar a mostrar que existe um caminho para a prosperidade. O que não existe é um paraíso instantâneo, uma solução mágica. É chegado o momento de fazer escolhas difíceis. De plantar as sementes de futuro, de adubar o solo com trabalho, com denodo e com justiça.

Os milhões que perderam seus empregos, os milhões que se vem abandonados nas filas dos hospitais, que perderam sua dignidade e que caminham pelas sombras da desesperança merecem destino melhor.

E então, que podemos esperar do Oculto do Oculto para 2018?

Considerando os fatos que preparam o cenário político e econômico para 2018 é possível olhar para as energias acumuladas e as frustrações e especular algumas possibilidades.

O cenário político, em especial, pode ter uma previsão sem erro: dificilmente as multidões, especialmente os desempregados e os mais jovens, vão aceitar serem jogadas ao relento. Especialmente depois de terem sentido o sabor das ruas e terem feito valer o peso de sua opinião no impeachment da Dilma.

  • O novo papel da Internet

Na década de 70, no século passado, Marshal McLuhan cunhou uma expressão que adquiriu nova atualidade com a Internet: “O meio é a mensagem”.

Ele queria dizer que a forma de como uma mensagem era transmitida criava uma linguagem própria e gerava uma relação simbiótica que influenciava a maneira como a mensagem é concebida e percebida.

O modo instantâneo como as mídias sociais “aceitam” ou “recusam” uma ideia permitem que as coisas aconteçam de forma também instantânea.

E neste processo de endosso ou recusa de uma ideia, elas acabam funcionando como um filtro do que as pessoas querem. Neste sentido o Vice-Primeiro Ministro de Singapura, Tharman Shanmugaratnam, acredita que as mídias sociais e a Internet estão criando uma “Mão Invisível Social”, com impacto equivalente à “Mão Invisível da Economia” de Adam Smith.

http://www.digitaleiro.com.br/a-saida-digital/a-mao-invisivel-social-do-ministro-tharmam/

Cinco coisas decorrem desta nova mídia:

  1. – O alcance da mensagem, que tem uma amplitude incomparável;
  2. – A velocidade com que impacta os acontecimentos;
  3. – A dispersão dos comunicadores por todo o universo de usuários. Quem quer que queira comunicar algo tem como fazê-lo de forma direta
  4. – O usuário desta mídia aprende a separar a notícia boa do “Fake News”;
  5.  – O custo irrisório desta mídia faz com que esteja ao alcance de milhões de pessoas, permitindo alcançar massa crítica de comunicação rapidamente.

Conclusão: a eleição de 2018 deverá ser uma montanha russa de emoções. Fatos novos deverão surgir e mudar o cenário em curtos intervalos. Mas o grande quadro do “Oculto do Oculto” continuará como um oceano de conteúdo que acabará por fazer prevalecer suas tendências mestras. A volta do pensamento conservador é um fato. Se vai, ou não, empolgar o voto jovem depende da forma como vai ser apresentado. Se vier a bordo de um projeto de país alinhado com a Revolução 4.0, que mostre um caminho de prosperidade com as novas tecnologias, vai ser como um tufão que empolgará a imaginação do país, como aconteceu com o governo de Juscelino, que se tornou invencível com a lançamento da indústria automobilística e de Brasília. E aqui não faço análise de seu valor ou conveniência.

  • E os temas?

Os temas para a eleição de 2018 ainda não foram colocados. Assim, as escolhas ficam na dependência de muitas incógnitas. Especularia com alguns cenários possíveis:

Primeiro: – Lula condenado

A escolha de 24 de janeiro para o julgamento de Porto Alegre prenuncia disposição para a condenação. Se Lula for condenado, vamos assistir ao maior espetáculo de esperneio da história. Mas janeiro é o mês de morte da política. O pessoal de férias, as praias cheias, o carnaval se avizinhando, tudo isto significa repercussão morna, qualquer que seja o resultado.

Para o país, Lula fora do páreo significa arejar o ar e mudar o disco. Fecham-se as cortinas do passado petista e encerra-se a agenda de conceitos medievais em que se baseava. Significa abrir uma nova senda, introduzindo o retorno par o futuro no debate. Caso não seja condenado ou, mesmo condenado, conseguir manobrar para continuar candidato, o debate seria dominado pelo mofo de um retorno a um passado que não deu certo, Pior, as forças contra o petismo iriam correr atrás dos galinheiros que existem ao montes por aí. E voaria pena para todo lado. Uma nova leva de revelações da Lava Jato se encarregaria de cortar as asas do candidato. Não tem erro. Ainda tem muita falcatrua a ser descoberta e muita corrupção a aflorar. O país sofreria um novo abalo.

Segundo: A reforma do previdência passa?

No atual quadro, dificilmente. Os deputados teriam que ser confrontados pelas forças vivas da sociedade. Empresariado, especialmente, que é o grupo com visão estratégica e que tem noção de onde vamos parar seguindo nesta loucura. Mas nosso empresariado não é do tipo confrontador. Do setor financeiro, que tem desfrutado de opulência e lucrado mesmo na crise, não deve vir nada.

Mas, e a economia aguenta? Os políticos parecem dispostos a pagar para ver. Se a reforma da previdência não passar, esta tímida recuperação da economia vai ser um voo de galinha adoentada. Lembrem-se: a economia não se defende. Ela se vinga. E sua vingança será maligna. Imaginem uma nova onda de crise, nova queda de avaliação das agências de rating, nova queda de investimentos, um aumento do desemprego, uma inflação em retomada em plena campanha. Existe, contudo uma compensação para alegria dos sádicos: uma demora maior vai significar um rombo maior e, quando a sociedade decidir cortar de vez os privilégios, mergulhada na bagunça e no descontrole, o corte será mais profundo e radical. Se os privilegiados tiverem bom senso vão preferir perder os anéis para salvar os dedos. Melhor mudanças sob controle do que com a faca no pescoço. Hoje, a mudança seria pacífica e ainda asseguraria alguns privilégios. Mais à frente, poderá não ser.

Terceiro: Ressurge o anseio por um governo “forte”, militar.

Bolsonaro é o nome dele. Mas Bolsonaro tem perfil de um sargentão. Dificilmente sua política de “prendo e arrebento” vai conquistar a maioria. E outra coisa, Bolsonaro é um rústico em economia. Sua visão de manter o estado presente na economia é igual a do PT, e é nas estatais que começa a corrupção.

Quarto: Surge um movimento pelo novo.

Existe um grande anseio pelo diferente, pelo novo. Mas poucos se dispõe a um salto no desconhecido. A melhor prova disto foi o que aconteceu com o Dória. Se ele, que tem o melhor perfil entre todos os possíveis candidatos “novos” não decolou (acho que ele não seria candidato para valer, dado seus compromissos de lealdade com o Alckmin e com a Opus Dei); e nem o Luciano Huck, que seria o “outsider”, é pouco provável que venha a ser a vertente dominante.

Quinto: A opção pela continuidade

Temer tem zero chance, mas Henrique Meirelles até poderia ser a continuidade, caso o governo Temer virasse a economia. Foi a economia e o Plano Real que elegeu FHC pela primeira vez. Infelizmente, as chances de uma reversão econômica para valer já estão comprometidas. O congresso liquidou com as reformas e uma reforma meia boca em março não irá produzir grande mudança. Meirelles parece acreditar em suas chances, no que faz muito bem, contudo ele precisaria de um “banho de loja” radical para ser visto como competitivo.

Sexto: A escolha segura

Depois de tantas reviravoltas o eleitorado cansou de girar feito pião. E o candidato que melhor veste o figurino da segurança é o Governador Geraldo Alckmin. Se for capaz de neutralizar a rejeição a uma “solução paulista” de parte do eleitorado “dor de cotovelo” que tem por todo o país, e se for capaz de articular um projeto de país que aponte para o futuro, ganha fácil.

  • O “timing” vai escrever o roteiro

A campanha, que já está iniciando, entra em banho-maria até março. O Brasil nunca se mobilizou antes do carnaval. Nenhuma revolução, ou grande evento político, teve impacto antes do “Triduo de Momo” no Brasil. O julgamento de Lula vai mexer apenas com seus seguidores mais fiéis. A maior parte do país nem vai tomar conhecimento.

Ele lidera as pesquisas? Sim. Neste momento, como seria de esperar, ele concentra o apoio da esquerda e do pessoal do pântano. Só que as pesquisas já mostram todo o seu potencial politico. E não é suficiente para ganhar um eleição em segundo turno. Ponto.

O evento mais importante do primeiro semestre será a votação da reforma da Previdência. Dela vai derivar todo o desdobramento a ser observado na economia, com reflexos na política. Se for aprovada, criará um clima de otimismo que vai dar uma lufada de ar fresco na economia e no humor do país. Se for recusada, ou adiada para o dia de “São Nunca”, o clima de desalento pode gerar turbulência e, aí, será bom por as barbas de molho.

Faço votos de que 2018 seja auspicioso para todos.

Chega de atraso, que ninguém merece.

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Ou viramos a página de uma vez ou sofreremos a maldição de Sísifo*

De onde menos se espera, de lá é que não sai nada mesmo. (Apparício Torelly, o “Barão de Itararé”)

O fato é que o Brasil é um país único. Um país sui generis, que dá um tiro no pé e depois reclama que está difícil de caminhar.

Em certo sentido, somos especiais. Temos uma natureza privilegiada e um potencial inigualável. Somos o quinto maior território e a quinta população do mundo; temos 200 milhões de hectares de terras agricultáveis e mecanizáveis; somos campeões no agro negócio; fabricamos aviões como gente grande; nossa economia é a nona do planeta (mas já foi a sétima). Em contrapartida, gostamos do atraso. Somos afeiçoados mesmo. Basta dizer que ocupamos um obsceno 80º lugar no Ranking Mundial de Produtividade. (E olha que melhoramos uma posição em relação ao ano passado!). É vergonhoso dizer, mas o crescimento da produtividade no Brasil foi, segundo a CNI, de 0,6% ao ano, entre 2002 e 2012. Na Coréia do Sul, no mesmo período, o crescimento foi de 6,6% ao ano. O que o Brasil levou 10 anos para crescer a Coréia do Sul cresceu a cada ano. Em compensação, nosso salário real continuou a subir muito acima da produtividade – cresceu 1,8% ao ano – e como desgraça pouca é bobagem, tivemos a maior apreciação da moeda doméstica – o Real valorizou-se a uma taxa de 7,2% ao ano, jogando água em nossa competitividade.

  • E bota anacronismo nisso!

Em resumo, somos um fenômeno de anacronismo. Grande porção do país ainda vive mergulhada no atraso. Temos regiões onde grassa o coronelismo  colonial e onde ainda vicejam crenças da idade média. Quarenta anos depois ainda somos um “Belíndia”, como definiu Edmar Bacha em seu ensaio de 1974, referindo-se a um Brasil com áreas de desenvolvimento Belga convivendo com outras de pobreza indiana.

O que assombra é que aceitemos um sistema que favorece os trapaceiros da política. Nosso regime político foi desenhado como um queijo suíço, com buracos para facilitar a corrupção. Os privilégios e as mordomias são espantosos. A desfaçatez é escandalosa. É assombroso que aceitemos engolir este presidencialismo de “coalisão”, que cheira a quadrilha e que nos mantém em crise permanente.

Infelizmente, somos presa fácil dos demagogos e charlatães da política. O propósito de enricar com dinheiro público, desviando do erário, sempre foi a grande motivação de grande parte dos políticos brasileiros, notadamente os dos grandes grotões do norte e nordeste, regiões em que a política é a maior atividade econômica. E é nelas que reside a grande reserva nacional de atraso. É contando com elas que Lula e sua trupe de bucaneiros, aventureiros, corruptos, saltimbancos e malabaristas sonha em voltar ao poder. Ameaça vã, que o país rejeita, como os rejeitou com o impeachment da Dilma, mas que ainda move suas mentes peçonhentas.

  • Seremos, como Sísifo, condenados a combater a corrupção por toda a eternidade?

Nossa leniência nos faz vítimas recorrentes. A cada geração os brasileiros tem precisado mobilizar-se contra os piratas da política em nosso país. Jânio, em 1960 prometia varrer a corrupção. Seu símbolo era a vassoura. Os versos de seu jingle “Varre, varre, varre, varre vassourinha / Varre, varre a bandalheira / Que o povo já ‘tá cansado / De sofrer dessa maneira” empolgaram o país. Era o que o povo queria ouvir. Mas ele avaliou mal, preferiu dar um golpe no congresso acreditando que o povo ficaria do seu lado e se deu mal. Veio Jango e os comunistas se assanharam. O povo pediu e os militares botaram os comunas para correr. O governador Brizola, genro de Jango, o mesmo que, depois, institucionalizou a criminalidade nos morros do Rio de Janeiro, fugiu para o Uruguai vestido e mulher. Coisa de “coração valente” e vergonha pouca. Tivemos ainda o Collor, que prometia acabar com os “marajás”. Pilantra e sacana, até hoje, se refestela com dinheiro público. Pouco tempo atrás se descobriu que sua mansão em Brasília, a “Casa da Dinda” é mantida com verbas do senado. Se bem que é coerente: é preciso bem conservar a frota de carros de luxo, um Lamborghini Aventador (R$3,2 milhões); uma Ferrari 458 (R$ 1,4 milhão) Uma Bentley Flying (R$ 975 mil), e um Range Rover (R$ 570 mil), que a PF diz terem sido pagos com recursos de propina, e que, mesmo assim, estão sob a “guarda” do senador por Alagoas, o mesmo estado do notório senador Renan Calheiros.

Enfim, não fosse nossa leniência, de que outro modo explicar a resignação com que engolimos 13 milhões de desempregados e 5 milhões de empresas sufocadas e inadimplentes neste país fantástico onde jorra leite e mel? Tínhamos que estar indignados. Tínhamos que estar enfurecidos. Tínhamos que estar na ruas.

Acontece que nossa índole é de povo manso. De povo dócil. Acostumado a engolir desaforos sem piar. A ser açoitado no tronco sem gemer. Esta passividade é nosso mal. Os políticos corruptos e os habitantes do pântano do planalto contam com ela. Eles, os políticos corruptos que pululam em Brasília, estão agora mesmo  planejando um novo golpe na decência. Pensam em enfiar goela abaixo do país uma nova legislação para dificultar o combate à corrupção. Os paspalhos acham que vai dar. Que não estamos atentos. Acham que o impeachment de Dilma foi uma exceção causada pela inabilidade da dita cuja, cujos erros foram além da conta. Erros que eles, mais ladinos, mais malandros, mais “espertos”, não tencionam repetir.

Penso, entretanto, que laboram em erro crasso. Querem continuar mamando e corruptando. Desafiam a paciência da nação. Brincam com fogo e com o país e vão sofrer as consequências.

  • Exorcizando o erro

O que entristece é que temos tudo para dar certo. Ainda assim nossos políticos teimam em cometer desatinos, em perseverar em erros históricos, em flertar com os desacertos que são a razão de nosso atraso.

  • Mas, então, por que insistem em fazer errado?

A razão é simples: fazem errado porque fazer errado tem sido um bom negócio. Porque a ocasião faz o ladrão. Porque preferem se locupletar sem esforço.

  • E por que não mudamos o regime e passamos a fazer o que é certo?

Bom, aqui podemos voltar ao perspicaz Barão de Itararé, “Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”.

Para começar, o que está errado no Brasil é que as elites do atraso é que comandam o país. E estas não querem mudar. Fingem que mudam, mas só de mentirinha. Felizmente, para as gerações jovens, estão envelhecidas e no seu ocaso. Infelizmente, delas não se pode esperar mais nada.

Vejam o governo Temer. O presidente está mais para um caricatura do que para um estadista. Seus ministros são mais sinistros do que ministros. O congresso é mais um convescote de predadores do que uma instituição a serviço do país.

Mas ainda assim, não duvide, o Brasil vai mudar. Afinal, nada levanta um traseiro mais depressa que fogo em baixo do banquinho!

O tsunami que o governo do PT/PMDB produziu no Brasil apresenta números de estarrecer. Após três anos andando para trás, o brasileiro ficou 10% mais pobre. E o estrago ainda perdura: 7 mortes violentas por hora (por hora!), bilhões desviados por corrupção, criminalidade nas alturas, angústia e sofrimento generalizados. Até nossa proverbial fleuma tropical vem perdendo a paciência. E os brasileiros, chamuscados, cansaram das labaredas queimando sob seus banquinhos. Até porque, convenhamos, a pilantragem que nos esfola passou dos limites.

  • Bem, mas o que fazer?

Deixar como está para ver como é que fica não é opção. Precisamos reconhecer que nossa democracia não é funcional. E que temos que mudar nossa forma de fazer politica.

Três passos fundamentais para desatar o nó que prende o país ao atraso:

1. Mudar a eleição da Câmara de Deputados do sistema proporcional para o distrital. Parece pouco, mas o efeito é mágico. 80% destes deputados não se elegeriam no sistema distrital. Os partidos se reduziriam naturalmente a três ou quatro. O sistema distrital muda a forma e a lógica da escolha. A eleição em um distrito mobiliza as forças locais. Os candidatos saem da comunidade e são escolhidos e apoiados por gente que os conhece. Pode ser um professor, um empresário, um clérigo, um médico. Mas dificilmente será um rufião, um safado, um corrupto, um palhaço. A comunidade saberá distinguir entre um candidato sério e um pilantra.

2. Mudar para o sistema parlamentarista. Um parlamento eleito pelo voto distrital tende a agir pensando no melhor para suas comunidades e para o país e não no melhor par si mesmos. Este compromisso com seu país e seu povo pode ser observado na maioria dos países do primeiro mundo. Todos parlamentaristas, exceto os EUA, onde o presidencialismo também vive em crise permanente. Engraçado que esta gente que tanto detesta os americanos foi copiar exatamente o que os EUA tem de errado.

3. Reequilibrar a representação na Câmara dos Deputados. Não é democrático que o voto de um roraimense valha dez vezes o voto de um paulista. Esta desproporção afeta a representatividade do sul e desequilibra o parlamento, onde a maioria do norte e nordeste se especializou em tirar proveito dos estados do sul. Isto não é saudável e não se sustentará no longo prazo. Infelizmente este desequilíbrio foi produzido no governo militar por um general metido a gênio, mas nada democrata, o “bruxo” Golbery do Couto e Silva, que dizia: “São Paulo já tem o poder econômico, então não pode ter o poder político”. Esta tese é antipatriótica ao extremo. Ela pressupõe que os outros estados estão condenados a serem pobres eternamente. Ademais, esta aberração, além de antidemocrática é preconceituosa e precisa ser corrigida.

Estas correções sistêmicas vão ocorrer. Por bem ou por mal. A mudança de gerações no Brasil sempre foi traumática, dado que os mais jovens sonham com uma revolução, mas o que recebem é a conta deixada pelos mais velhos. Os déficits colossais do atual governo vão ser empurrados para os jovens. E eles serão sacrificados na crença de que “bom cabrito não berra” ao ser morto e esfolado. Será? Os jovens brasileiros vão se deixar esfolar sem berrar? Duvido.

E de distorção em distorção, nossa política insana construiu um sistema político perverso, aberrante, concebido e desenhado para não dar certo.

  • Somos uma obra prima do atraso

O resultado é que temos hoje uma obra prima do atraso, uma obra prima do compadrio. Um regime feito sob medida para favorecer a corrupção. Não temos uma democracia de verdade. Os brasileiros não se sentem representados. O que temos é um arremedo de fancaria, uma alegoria que acoberta um balcão para negociatas.

Só que os tempos mudam. O tempo das ilusões acabou. As novas gerações não vão aceitar pagar a conta das estripulias das gerações perdulárias que as antecederam. E vão querer mudar as regras do jogo, por bem ou por mal, como outras o fizeram antes. Cansaram dos piratas de cara de pau, dos políticos incompetente e corruptos, dos idiotas, patetas, palhaços e trapalhões que o voto proporcional elege.

A sociedade mobilizada e o povo nas ruas começaram por demolir a república petista. Mas não se mobilizou para entregar o poder a Temer e seu bando de espertalhões. Não foi para isto não!

Outra coisa: muito se engana quem pensa que o povo enfiou a viola no saco e sossegou. O povo agora tem a internet e está equipado com as mídias sociais. O burburinho online mostra que está mais atento e mais bem informado do que nunca. O povo pode ainda não saber bem o que quer, mas sabe com clareza o que não quer. O povo cansou de estripulias e vem rejeitando os demagogos e rufiões. E não quer mais do mesmo. Cansou de ser o bode que não berra e engole a corrupção, a indecência e a grossa burrice do regime que temos.

O debate está apenas começando. E a internet vai ser a nova ferramenta de mudança. A mão invisível da mídias sociais vai fazer a diferença.

Ano que vem tem eleições. Preparem-se porque vai ser um vendaval. E aposto que vamos debater e esconjurar a corrupção. Chegou a hora de virar a página. Chega de atraso, que ninguém merece.

Ceska – O digitaleiro


(*)PS. – Como se sabe, Sísifo, na mitologia grega, foi condenado, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que estivesse quase alcançando o topo, a pedra rolava montanha abaixo novamente até o ponto de partida, invalidando todo o esforço despendido.

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A metamorfose do Brasil

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A eleição de 2018 vai dizer se o crime vai deixar de compensar no Brasil

“Queremos ir ao Céu, mas não queremos ir por onde se vai para o Céu” – Padre Vieira

Uma metamorfose mudou a natureza da crise brasileira. Saímos da décrisis e agora estamos em uma sincrisis. Resta ver se esta metamorfose vai também mudar o Brasil.

Como se sabe, os gregos dividiam a crises em dois tipos: a décrisis e a sincrisis.

Por décrisis entendiam o tipo de crise em que as coisas vão piorando até colapsar ou explodir de vez. Até que se dê a ruptura do status quo. É a crise dominada por forças desagregadoras que se entrechocam, rompem a coesão interna e, por fim, dilaceram o organismo ou a sociedade onde se instalam. Foi o que aconteceu com o regime do PT e o “governo” da “Presidenta” Dilma. A queda da Dilma foi o ponto da inflexão. Foi o momento em que se deu a metamorfose e a décrisis se transmudou para sincrisis.

O PT havia se convertido na intersecção da corrupção, do acesso ao dinheiro sujo e ao poder político desvirtuado. Abandonou seus propósitos moralistas quando se deixou tomar pela ganância sôfrega, pela ambição sem peias, enfim, quando mandou os escrúpulos às favas. Ao decidir “comprar” tudo e todos entrou numa aventura doida demais. Apostou contra o Brasil e perdeu o jogo. Convém lembrar, entretanto, que os comunas e a esquerda profunda desprezam a moral burguesa e acham que o capitalismo é ilegítimo, o que justifica tirar dos que tem e do governo. Acreditam que não se trata de roubo, posto que, para eles, os fins justificam os meios. Quanto ao povo, nosso ingênuo e crédulo povo, este se tornou vítima da espoliação e foi escalado para cobaia da tal “nova matriz econômica”, um experimento grotesco de “moto perpetuo” na economia.

  • A economia não se defende. Ela se vinga!

Foram desmandos e mais desmandos, mas o fato é que o PT, ébrio de cobiça, inescrupuloso e sem noção, não aprendeu que a economia, assim como a natureza, não se defende. Ela se vinga. Não tem discurso que anule a melancólica realidade: não existe “almoço grátis”. O PT, contudo, deu de ombros. Continuou a gastar sem limites e a agir como o selvagem de Montesquieu, aquele que derruba a macieira para comer a maçã. Só o despreparo, a imaturidade basbaque e a cretinice rotunda da mal informada Dilma para achar que “fazer o diabo” para ganhar a eleição não teria consequências. Teria e teve.

A farra da gastança desregrada, a roubalheira desenfreada, a corrupção sistemática, o voluntarismo inconsequente, a arrogância e a prepotência foram ingredientes que entraram na décrisis petista e tornaram o Impeachment da Dilma um fato irreversível. A implosão final de seu governo era prenunciada pelo cheiro de enxofre no ar. Quem tinha um mínimo de pudor se afastava. E o crescimento do tumor da décrisis ia assustando todo mundo. No final os estertores do governo petista foram um espetáculo dantesco. Formou-se uma unanimidade anti-Dilma. Todos, menos um “resti di galera”, um grupelho de debilóides, perceberam que era questão de vida ou morte. Ou tiravam Dilma ou afundariam todos.

O mais notável é que a nação em si não correu o risco de colapso. A economia sofreu, e ainda sofre, claro. É sempre mais fácil destruir do que construir. Mas as instituições, bem ou mal, funcionaram, funcionam e vem dando conta do recado. Por seu lado, a sociedade civil se mobilizou, enchendo as ruas e cobrando providências. Os milhões na rua davam clara demonstração de que estavam atentos e tinham reservas cívicas para encaminhar o fim da crise. Outro ponto positivo é que as forças armadas não precisaram entrar no processo de colocar ordem na casa. Mas seu silêncio sinalizava que estavam alertas e prontas. Se as coisas fugissem ao controle, agiriam. Não tenham dúvida.

  • E agora, o que vai ser?

Estamos em uma encruzilhada e a eleição de 2018 vai dizer para onde vamos.

Pela definição dos gregos, a fase da crise em que estamos mergulhados agora tem os contornos de uma sincrisis.

E toda a sincrisis começa com uma catarse, a purgação ou purificação por que deve passar a sociedade para reencontrar seu eixo moral. Trata-se do processo de contrição e expiação que abarca políticos, servidores e empresários corruptos, mas não se resume a eles. Os brasileiros que votaram para eleger Lula e Dilma (e que, de contrabando, também elegeram Temer) igualmente precisam fazer o mea culpa. Este processo catártico é doloroso e requer grande dose de equilíbrio para que não se jogue fora o bebê com a água do banho. É preciso punir os culpados e rever procedimentos, mas deve ser depurado e aproveitado o que possa ser recuperado.

  • A grande incógnita: o comportamento dos eleitores em 2018.

Eleições tem a ver com escolhas. E com propostas.

E como sabem os que lidam com pesquisas de opinião, a escolhas em uma eleição tendem a ser guiadas pelos vetores dominantes no debate social.

O debate, a rigor, já começou. As mídias sociais são o fator novo no grande debate e terão peso decisivo. Os vetores do debate tendem a cristalizar-se em volta das opiniões dominantes e vão balizar as alternativas disponíveis. Os grupos sociais, estimulados pelo debate, vão fazer sua escolhas e apoiar as propostas mais em consonância com seus interesses. As mídias sociais vão filtrar e sedimentar o sentimento nacional. E vão apoiar a economia de mercado e respaldar o sentimento anti-corrupção. Aliás, já vem fazendo isto…

  • Dois temas dominantes: a economia e a corrupção.

A questão da corrupção vai ser importante, sem dúvida, mas a economia deverá ser o mais importante dos temas da eleição.

O eleitorado, hoje mais amadurecido, parece ter aprendido uma lição com a degringolada do governo petista. A lição é que, no final, nós é que pagamos a conta. E que governar não é fazer mágica. Governar é agir pesando as consequências e pensando no bem geral.

Mas sabemos que ainda tem muita gente que vai apoiar os demagogos. Ainda tem gente que acredita em Papai Noel e que existe um jeitinho malandro de obter benefícios sem pagar a conta.

E, ao fim e ao cabo, todo o debate vai, mais uma vez, girar em volta do dilema proposto pelo saudoso Stanislaw Ponte Preta: “Ou nos locupletamos todos, ou implante-se a moralidade.

Se der a lógica, se decidirmos ser um país sério, o melhor candidato para a presidência deverá ser um político experimentado, comprovado, bem intencionado, sério e bem avaliado. Hoje, em minha opinião, o melhor nome que o país tem é o do Governador Geraldo Alckmin. Afinal, é consenso de que o estado melhor governado do país é o de São Paulo. E seria lógico, portanto, imaginar que o país todo desejasse ser como São Paulo. Mas não tenhamos ilusões. Vai ter quem prefira a mediocridade. Vai ter quem prefira turvar as águas para continuar tirando vantagens e nadando na malandragem.

É doloroso reconhecer, mas nosso debate político ainda vem patinando em ideias dos anos cinquenta do século passado. Ainda assim, o movimento pendular de nossa história nos dá esperanças. Jânio prometeu varrer a sujeira e sua vassourinha. Empolgou a nação, conquistou o imaginário nacional e ganhou a eleição. (Sua renúncia foi uma traição ao seu eleitorado…). O movimento militar veio apoiado pela maioria da sociedade e prometeu um governo sério. (Em 20 anos acabou desgastado, mas hoje todos reconhecem que foi sério e fez muito pelo país.). Collor ganhou prometendo acabar com os Marajás. (Revelou-se um engodo. Ele virou o Rei dos Marajás. Teve sua décrisis, foi impichado, mas foi seu vice, o Itamar Franco, que assumiu e fez o Plano Real.). Fernando Henrique Cardoso se elegeu prometendo fortalecer o Plano Real. (Cumpriu o que prometeu e entregou um país arrumado ao Lula.). Lula, que parecia ser gente boa, foi nossa recaída no populismo. (Sua “carta aos brasileiros” foi apenas mais uma mendacidade de um mentiroso contumaz.). Quanto a Dilma, ela não passou de uma pedra no caminho, de um poste eleito por um marketing charlatão.

Resumo da ópera: sim, dá para ter esperanças. Mas, no fundo mesmo, o que vamos decidir na eleição de 2018 será se aqui, na Terra de Santa Cruz, o crime ainda vai compensar ou se, de uma vez por todas, vai deixar de compensar para sempre!

Acredite. Faça sua parte. Depende de Nós!


Ceska – O Digitaleiro

Plano Real 2.0 – A decência

Arte popular na Avenida Paulista.
Arte popular na Avenida Paulista.

O Plano Real 1.0 – A Estabilidade – Promoveu a estabilidade da moeda e livrou o Brasil de uma inflação crônica que parecia invencível. O êxito inconteste deste plano deu novo alento ao país e assegurou mais de uma década de prosperidade, além de ter vacinado o país contra a inflação. Os efeitos do Plano Real 1.0 vem perdurando e abarcam toda a sociedade. Hoje o Brasil é unânime em dizer: “Inflação Nunca Mais”.

Agora precisamos de um Plano Real 2.0 – A Decência – para vencer a corrupção. Este mal chegou a um nível de infecção generalizada e compromete todas as instituições do país. O executivo está atolado em escândalos e o presidente só escapou de ser processado por negociar no congresso apoios despudorados e por exercer o presidencialismo de cooptação em sua plenitude mais viciosa. O congresso, para juntar o insulto à injúria, vêm com esta proposta que o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), considera um “desaforo”: a criação de um fundo público com R$ 3,6 bilhões para financiar campanhas. Os escandalosos salários e vantagens de altos dignitários do executivo, do legislativo e do judiciário são um escárnio diante das dificuldades e carências do país e mostram que os escrúpulos simplesmente desapareceram do três poderes. Desalentado, o país se vê vitima de absoluto desrespeito, sofre com seus 13 milhões de desempregados e vê milhões de cidadãos lutando para sobreviver em meio a maior crise da história, enquanto enfrenta carências de toda a ordem, na saúde, na segurança pública, nos transportes, na educação e em tudo o mais.

Em paralelo, o congresso, de composição medíocre, da qual se salvam alguns poucos, se mostra incapaz de oferecer qualquer perspectiva para o país. Mergulhado em profunda perplexidade, parece caminhar às tontas.

  • A Indignação em ponto de erupção

Existe um nível elevado de indignação na sociedade brasileira. E se a população não está nas ruas isto não significa que está aceitando o atual estado de coisas. Não está. E não se enganem, se a população não está nas ruas é porque não quer protestar só por protestar. Uma vez afastado o perigo mais imediato, que era o desvario da ex-Presidente Dilma, a população está se guardando para sair em apoio a uma causa que valha a pena. Poderá ser uma ideia. Poderá ser um líder. Mas é no vazio de alternativas que mora o perigo. Assim, antes que as multidões se deixem seduzir por algum maluco ou aprendiz de incendiário é preciso oferecer um projeto de moralização do Brasil. Um plano bem estruturado e bem orientado, que una e motive as pessoas. Um Plano Real 2.0, que continue a transformação virtuosa do Plano Real 1.0 e agora se oriente para a moralização do país. Um plano que tenha as virtudes do Plano Real 1.0, como bom planejamento e implementação equilibrada. Um plano, enfim, que tenha o sincero propósito de implantar uma nova cultura de decência no Brasil.

E assim como o Plano Real 1.0 trouxe para o Brasil as boas práticas da gestão monetária adotadas no primeiro mundo, o Plano Real 2.0 deveria se espelhar nas melhores práticas políticas dos países democráticos do primeiro mundo. Chega de jabuticabas. Está na hora de acabarmos de uma vez com esta mania de tentar reinventar a roda a golpes de parvoíce.

  • Plano Real 2.0 – FHC deve ser o líder.

Precisamos vencer o dilema que nos amarra à mediocridade: “Somos corruptos porque somos atrasados ou somos atrasados porque somos corruptos?”

Vencer e afastar a corrupção é a tarefa prioritária da nacionalidade. Chegou a hora de ouvirmos o que Sérgio Porto, o imortal “Stanislaw Ponte Preta”, dizia ser a nossa escolha: “Ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade.” E alertava para o fato de que, se fizéssemos a primeira opção, o planeta não teria dinheiro suficiente para saciar a voracidade de nossos corruptos.

Felizmente o Brasil tem o homem certo para liderar a formulação de um Plano de Moralização e produzir um consenso na sociedade brasileira. O Presidente Fernando Henrique Cardoso já provou que sabe conduzir com bom senso e equilíbrio um plano capaz de mudar fundamentos equivocados do país. FHC já prestou muitos serviços ao pais, mas o Brasil deve pedir mais este serviço ao Presidente do Real. Ao líder que resgatou nossa moeda, que acabou com nossa inflação alucinada, pediríamos que formulasse as diretrizes para o Plano Real 2.0, o plano que teria a finalidade de encaminhar as mudanças no rumo da moralização e da modernização de nossas instituições.

Evidentemente, uma vez feito o plano sob liderança de Fernando Henrique Cardoso, caberia a sociedade apoiar as mudanças constitucionais necessárias e ao eleitorado escolher o executor da grande transformação do país.

De minha parte, acredito que o político mais provado, experiente e capaz de liderar a implementação do plano seja o governador Geraldo Alckmin. Sua administração em São Paulo é evidência de sua capacidade como realizador. E sua liderança firme e de pés no chão é o tipo de liderança que um plano como este precisaria para ser bem sucedido. Um plano sólido, implantado com base no bom senso e em práticas comprovadas nos países de referência democrática, seria capaz, finalmente, de nos livrar da praga da corrupção e de levar o Brasil a cumprir, finalmente, seu destino de grande país. E que teria orgulho em proclamar: “Corrupção no Brasil, nunca mais”!

PS. Diversos comentários questionam como um Plano Real 2.0 poderia se contrapor às mudanças da tal “reforma política”, ora em gestação no congresso. A resposta está na “Lei de Camões” (Como escrita em “Os Lusíadas”):

Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor maior alto se alevanta” 

Se houver apoio popular suficiente, o mundo político encontrará os mecanismos legais para fazer valer o Plano. Uma nova musa que se levante sempre irá deslocar a antiga.


Ceska – O digitaleiro

Os Correios eram assim, nos dias do Coronel Botto

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Cerimônia de Assinatura do Convênio entre a SUDELPA e a ECT. Na foto: 1- Governador Laudo Natel; 2- Cel. Adwaldo Botto; 3- Antônio Castilho; 4- O autor (Celso Skrabe); 5 – Secretário do Governo (Não tenho o nome)

Era uma vez um país que tinha um correio.

Era o melhor correio do mundo. O povo todo confiava. Tudo funcionava como um relógio. O presidente da instituição, um sergipano “porreta”, tinha uma máxima que virou um mantra: “correio é horário”.

Os outros países, acostumados com a malemolência brasileira, no começo ficaram pasmados com a transformação daquele correio vira-latas. – Seria o “super-homem”?  – Depois, ainda incrédulos, se perguntavam como podia existir um correio daquele calibre no país das maracutaias, da selva amazônica, do sertão profundo, do pantanal intransponível, das estradas intransitáveis? Finalmente, se renderam. No Correio do Brasil, o homem que mandava sabia das coisas. Não demorou e a surpresa virou admiração. O respeito internacional cresceu tanto que logo chamaram aquele mago das cartas e encomendas para mostrar como se faz um correio funcionar.

Em 1984, no Congresso de Hamburgo/Alemanha, o Presidente da ECT, Coronel Eng. Adwaldo Cardoso Botto de Barros foi eleito Diretor Geral (Presidente) da UPU – União Postal Universal. A UPU é o órgão da ONU, com sede em Berna, na Suíça, que regula e organiza os correios de todo o planeta. Era o reconhecimento do mundo pela competente transformação nos Correios do Brasil. E tão operosa foi a gestão do Coronel Botto na UPU que a entidade lhe garantiu a reeleição por mais 5 anos, em 1989.

De minha parte, conheci bem o Coronel Botto. Tudo começou quando ele ainda dirigia o Correio de São Paulo, conduzido ao cargo por indicação pessoal do Presidente Castelo Branco.

Eu, em meus verdes vinte e sete anos, trabalhava na antiga AEG Telefunken, onde atuava na área comercial de equipamentos de rádio comunicação em SSB. Estes rádios funcionavam em ondas curtas e usavam apenas meia banda, o que os tornava mais leves (para a época…) e podiam ser instalados em estações fixas ou em veículos, como caminhonetes, ônibus e embarcações. Também podiam ser usados para fonia ou para telegrafia sem fio. Neste último uso, combinando diversas frequências para compensar variações de propagação, eram tão confiáveis quanto a telegrafia tradicional, com fio de cobre.

Um dia, acho que foi em agosto de 1971, logo cedo, ao chegar no escritório que ficava junto ao parque industrial da empresa, instalado em grandes prédios na Avenida Nossa Sra. do Sabará, em São Paulo, a secretária me passa um telefonema:

   – Está no telefone uma pessoa que se diz diretor do Correio e quer falar com alguém da área comercial.

   – Ok, pode passar a ligação.

Do outro lado da linha ouvi o Coronel Botto, embora naquele momento não soubesse de quem se tratava.

   – Bom dia. Sou Celso Skrabe, consultor da área de rádios SSB.

   – Bom dia. Meu nome é Adwaldo Botto, mas todos aqui me conhecem como Coronel Botto. Sou o diretor dos Correios aqui em São Paulo e gostaria de saber se vocês teriam condições de nos emprestar dois rádios SSB no período das férias de verão. Podem ser rádios usados ou de demonstração.

Eu fiquei intrigado. Sabia que o correio não usava rádios para seus serviços de telégrafo. Era uma coisa que já me havia chamado a atenção e que eu atribuía ao nosso atraso tecnológico. Na verdade, eu já tinha fornecido rádios para a Funai, para a FAB e outras instituições que os usavam para comunicação na selva e que, frequentemente, faziam o envio de mensagens da população local. Estas instituições, contudo, reclamavam, já que não tinham infraestrutura para entregar as mensagens aos destinatários. Para fazer o envio precisavam repassar os telegramas para o Correio, acarretando demora desnecessária em mensagens urgentes e ônus para as instituições.

Enfim, fui em frente:

   – Bem Coronel, se eu entendi certo, o que o senhor quer é que emprestemos dois rádios SSB no final do ano, de novembro a março. Seria isto?

   – Sim. Eu gostaria de instalar um dos rádios em Ubatuba, no litoral, e outro aqui em São Paulo para fazermos um teste para nossa área de telegrafia. Hoje não temos um único telégrafo instalado no litoral paulista. Em nenhuma cidade. E, durante as férias, a população cresce muito e reclama da falta de comunicação. E, para piorar, as cidades do litoral também não tem telefone. Ubatuba tem apenas uns poucos telefones públicos e a espera de uma linha para uma ligação, nos meses de verão, pode levar horas. Ir de ônibus é mais rápido do que telefonar. Na alta estação demora duas, três, as vezes quatro horas.

Era verdade. Quando iniciou o governo militar, em 1964, as comunicações no Brasil eram uma coisa medieval. Este estado de coisas ainda perdurava no início da década de 70. Me pareceu, desde logo, que meu interlocutor queria fazer algo para amenizar isto.

Respondi então:

   – Posso verificar se temos equipamentos disponíveis e preciso consultar nossa diretoria para saber se podemos atender. – E lembrei de um detalhe – Se eu conseguir os rádios, o correio já tem as frequências? – No caso, os rádios precisavam de cristais para fazer a modulação. Estes cristais eram feitos sob medida para cada usuário e dependiam de licença do DENTEL.

O Coronel Botto, então, confidenciou:

   – Olha, eu preciso que vocês me emprestem também as frequências. O correio não tem frequências autorizadas pelo DENTEL para uso em telegrafia e eu, como diretor regional, não tenho autoridade para solicitá-las. Minha ideia é que, se conseguirmos fazer uma conexão de telégrafo sem fio bem sucedida, talvez eu possa quebrar a resistência contra o uso de radiotelegrafia no correio e argumentar para a liberação de seu uso com nossa presidência. Se conseguir demonstrar que a radiotelegrafia funciona acredito que possamos comprar rádios para todas as localidades do litoral paulista hoje sem telégrafo. Talvez possamos comprar rádios até para outras praças não atendidas.

Esta questão das frequências me parecia mais complicada do que conseguir os dois rádios. Duvidava que o Dr. Cardoso, nosso presidente, fosse aceitar que instalássemos frequências de teste em rádios que seriam usados para telegrafia pelos correios. A empresa era alemã e seguia normas estritas do que se podia, ou não, fazer. E como o empréstimo de frequências não estava previsto nas nossas autorizações do DENTEL, dificilmente seriam autorizadas. Não era formalmente proibido, mas ficava no limbo legal e eu teria que consultar nossa assessoria jurídica. Traduzindo: era proibido tudo o que não estivesse formalmente permitido.

Aí resolvi pedir uns dias para verificar meios de atender ao que o coronel me solicitava. E, como estávamos em pleno regime militar, me atrevi a perguntar:

   – Coronel, o senhor, com seus contatos no governo, não teria meios de liberar umas duas ou três frequências junto ao DENTEL, mesmo que em caráter provisório?

A resposta do coronel foi direta:

   – Exatamente aí é que está o problema. Falar em telegrafia por ondas curtas aqui no Correio é tabu. Não é que eles desconheçam uma tecnologia que, desde antes da guerra, está em uso em todo o planeta. Mas tem muito dinheiro envolvido nas redes telegráficas de cobre. E tem muita gente lucrando com elas. Assim, jamais eu conseguiria formalizar um pedido de frequências ao DENTEL. Eu não consigo autorização nem mesmo para pedir frequências provisórias. Ao contrário, seu eu mexer errado, posso por tudo a perder e ser proibido expressamente de testar o uso dos rádios. Aí meu projeto vira fumaça e você perde a chance de vender rádios para o Correio. Venha me fazer uma visita eu explico o que está acontecendo.

Caramba, pensei com os meus botões, aí tem algum mistério da “mão invisível do mercado”. Não a mão invisível descrita por Adam Smith, claro, mas aquela outra, bem brasileira, inventada pelo capeta!

Foi a esta altura que tive um estalo e liguei as pontas. Ocorre que, por uma destas coincidências que mostram que Deus ainda não tinha desistido do Brasil, eu havia acabo de fechar a venda de uma rede de rádios SSB para a Sudelpa, a Superintendência de Desenvolvimento do Litoral Paulista. Precisamente a agencia estadual criada para fomentar o desenvolvimento do litoral de São Paulo, onde, claro, se situa a cidade de Ubatuba. Não era preciso ter o QI do Einstein para perceber que havia uma coincidência de interesses: o Correio queria instalar um telégrafo em Ubatuba e a Sudelpa ficaria muito feliz se contribuísse para a instalação do telégrafo em Ubatuba. Afinal, o que mais poderia contribuir para o desenvolvimento da região a curto prazo se não instalar o telégrafo dos correios na época das férias que se avizinhavam? E, ainda mais, a um custo praticamente zero?

Ademais, a Sudelpa tinha as frequências de SSB já concedidas e até já tinha recebido alguns dos rádio comprados. Todos, entretanto, da versão móvel, instalados nas caminhonetas, que foi a prioridade solicitada. A conclusão lógica saltava aos olhos: se o governo do estado cedesse os rádios e emprestasse uma ou duas das suas frequências teríamos resolvido o problema. Ubatuba teria telégrafo funcionando na alta estação e o Coronel Botto poderia mostrar que a solução funcionava.

Por um momento pensei em consultar informalmente o superintendente da Sudelpa, Antônio Castilho, sobre a ideia, mas achei que deveria antes saber como o Coronel Botto veria esta alternativa de solução. Liguei marcando uma visita e, no dia seguinte, na hora marcada, (sete da manhã!) fui vista-lo em seu escritório, no antigo prédio dos Correios, no início da Avenida São João.

Na manhã friorenta do dia seguinte o Coronel me recebeu em sua sala e, após uma conversa introdutória, foi direto ao assunto:

   – A direção nacional dos Correios fica no Rio de Janeiro. E lá, na alta direção, existe uma máfia dos fios de cobre. O presidente é um militar da reserva, mas de patente maior que a minha, e só posso supor que ele também está envolvido no esquema. O pessoal lá do Rio sabe que se ficar provado que os rádios de ondas curtas em SSB podem atender nossa necessidade com telegrafia sem fio, na mesma hora acaba todo o negócio deles e, junto, terminam as propinas milionárias que eles recebem. O esquema é perverso porque o custo de implantar o serviço de telegrafo com fio tradicional é astronômico. Para qualquer localidade são quilômetros e quilômetros de fios e milhares de postes a serem instalados. Além do sistema depender de conexões e triangulações intermináveis, com o repasse de telegramas. Chega a ser ridículo o número de erros nas mensagens repassadas. Sem falar no roubo constante dos fios, fato que requer reposição constante e consome todos os recursos de expansão. E sem dinheiro expansão não há. Desde que estou aqui não implantamos nenhuma nova estação no estado. Por isto, pelo sistema tradicional, o litoral paulista vai levar ainda muito anos para receber o serviço de telégrafo. Infelizmente, para os dirigentes da estatal nada disto importa. Daí meu cuidado em tentar uma operação discreta. Precisamos mudar este estado de coisas, mas se o pessoal da máfia do cobre descobrir o que estou tramando, me impedem ou me demitem na hora.

Ainda retruquei:

   – Mas coronel, sendo o senhor indicado para a Superintendência dos Correios em São Paulo pelo presidente não seria o caso de recorrer a ele?

   – Eu fui indicado pelo Castelo Branco. Tenho bons amigos no governo, mas não tenho a mesma intimidade com o presidente atual. E depois, a situação não é tão simples. Esse pessoal da máfia tem controle sobre a empresa e seus projetos e existem muitos interesses envolvidos. O sistema de telegrafia sempre foi a vaca leiteira da corrupção aqui nos Correios e tem muita gente mamando. Eles não vão largar o osso assim fácil. Sei que tenho a confiança do governo, fui colocado aqui pelo Presidente Castelo Branco, mas prefiro agir de modo a criar fatos consumados e usar a evidencia para forçar as mudanças. Seria desperdiçar a janela de oportunidade que temos se abrir uma guerra interna, um conflito em que a causa maior dos correios e das comunicações pode ser sacrificada em meio a uma luta politica.

Agora dava para entender o dilema do Coronel Botto. Em resumo, se ele tentasse furar o bloqueio da máfia do cobre de peito aberto, possivelmente seria demitido. Mesmo com o ministro e o presidente da República desejando ficar ao seu lado, a realidade é que havia todo um jogo de interesses políticos e militares conspirando contra ele.

A solução imaginada pelo Coronel Botto, assim, era estrategicamente brilhante. Se fizesse funcionar satisfatoriamente uma estação de radio telégrafo no litoral paulista, uma só que fosse, abriria uma brecha na represa da corrupção e a pressão da demanda iria forçar a mudança na política e alterar o jogo. De fato, como alguém iria se colocar no caminho de uma solução que custava menos de 1% do método tradicional, era muito mais versátil, tinha implantação rápida (dias ao invés de anos) e era altamente lucrativa?

O Brasil do início dos anos 70 ainda estava em lua de mel com o governo militar. Os velhos cabides de antes da revolução, como os Correios, esperneavam e resistiam tanto quanto podiam, mas, no caso dos correios, o fim do empreguismo e da corrupção estava à vista e a era de ouro estava em marcha. O coronel Botto era um destes homens providenciais, o homem certo na hora certa. Engenheiro, bem preparado, íntegro, patriota, ansiava por melhores comunicações para o país e sabia que os correios precisavam dos recursos a serem gerados pela expansão dos serviços de telégrafo. O ponto chave de seu plano, contudo, era fazer as evidências falarem por si sós. E para conseguir isto era preciso, como repetia sempre, “navegar abaixo da linha do radar”.

O coronel, a esta altura da nossa conversa, me convidou para ir tomar um café em uma padaria ao lado. O café aos funcionários fora reduzido e só seria servido as dez horas. Enquanto sorvíamos o café cheiroso daquelas máquinas “Monarca”, típicas dos bares paulistas da época, expliquei a ideia de falarmos com a Sudelpa e o governo paulista para atendermos seu plano de conseguir o empréstimo de dois rádios SSB equipados com as frequências. O coronel ouvira falar da Sudelpa, a Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista, mas não tinha conhecimento exato de sua função. Quando terminei de explicar o que aquela instituição fazia e como poderia se associar ao seu plano para levar telegrafia sem fio ao litoral de São Paulo, ele virou um dínamo de entusiasmo. Seus olhos brilhavam:

   – Se a Sudelpa ajudar os correios a operação está garantida. Ubatuba vai ter telégrafo e, depois, vamos conectar todo o litoral.

Em face da manifestação de entusiasmo nem precisei perguntar: a autorização para falar com a Sudelpa estava concedida.

A confiança do Coronel Botto era uma coisa contagiante. Em geral comedido nos gestos, no entusiasmo do momento ele tirava e colocava os óculos sem parar e gesticulava como um napolitano na Festa di San Gennaro.

Assim que nos despedimos peguei meu fusca azul, estacionado ali nas imediações, e subi a Avenida Angélica, onde ficava a Sudelpa.

Me dirigi direto à secretária e pedi para falar com o Dr. Castilho.

A moça me olhou com se eu tivesse chegado de Marte.

   – O senhor tem hora marcada? O Dr. Castilho deve estar chegando e já tem um pessoal esperando por ele para uma reunião.

Eu nem precisei argumentar. O superintendente estava entrando e, ao me ver, veio me cumprimentar com aquele ar de pressa educada. Estava esbaforido e em cima da hora.

Antes que me descartasse fui logo falando:

   – Dr. Castilho, sei de sua reunião e não quero atrapalhar, mas o assunto que tenho é uma oportunidade única e eu precisaria dois minutinhos de sua atenção reservada.

Achei que ele me mandaria voltar mais tarde, mas eu ainda devia estar sob a influência do entusiasmo do Coronel Botto, que era uma coisa contagiosa, e o Dr. Castilho resolveu me conceder os dois minutinhos.

Fomos a uma sala contígua e eu expliquei resumidamente o que tinha a dizer. Os olhos do Dr. Castilho quase saltaram das órbitas.

   – Mas esta é uma oportunidade fantástica! Eu estava precisamente procurando maneiras de mostrar serviço lá na região. Vamos topar com certeza. Pode contar comigo.

Eu me apressei a marcar um próximo passo:

   – O senhor estaria disposto a ter um encontro pessoal com o Coronel Botto para conversar?

   – Sem dúvida nenhuma. E gostaria que fosse o quanto antes. Acontece que eu tenho uma reunião com o secretario nos próximos dias e gostaria de levar a ele esta ideia já mais elaborada.

   – Se o senhor me autoriza, ligo agora de seu gabinete e falo com o Coronel e vejo quando podemos marcar.

Enquanto o Superintendente entrava em sua reunião liguei para o Coronel. Expliquei o resultado do contato e o desejo do Dr. Castilho de fazer a reunião o mais rápido possível.

O coronel respondeu sem titubear um segundo:

   – O mais rápido possível é agora, mas vamos deixar para depois do almoço. Se ele puder me receber, podemos marcar aí as duas horas da tarde.

   – Se o senhor puder esperar na linha, vou confirmar com o Dr. Castilho.

Fiz um bilhetinho e pedi para a secretária levar na reunião e confirmar o horário com o superintendente. A resposta veio escrita em maiúsculas no bilhete: “ESTÁ MARCADO”.

Voltei ao telefone:

   – Coronel, a reunião está confirmada para hoje, as duas horas da tarde.

   – Ótimo, ótimo. Vou cancelar umas coisas que tinha marcado por aqui e chego aí as duas horas.

Acabei ficando por ali. Precisava fazer hora. Comprei um jornal, fui almoçar em alguma espelunca da Angélica, que meu tíquete refeição era igual ao da peãozada da fábrica, e voltei cedo ao escritório do presidente da Sudelpa.

Dez para as duas chegou o Coronel Botto. Vinha acompanhado de um engenheiro a quem incumbiria cuidar dos aspectos técnicos.

Na reunião os dois homens de ação se entenderam de imediato. Sem delongas inúteis, debateram as alternativas. Castilho disse que, caso fossemos usar o rádio das caminhonetes, ele poderia ceder até umas quatro ou cinco para o período das férias daquele ano. Além de Ubatuba poderiam ser atendidas outras cidades. Inclusive Registro, cidade pela qual Castilho tinha grande consideração. Para a estação no correio central eu prometi antecipar a entrega de um rádio fixo e instalar a antena no telhado da agencia central. A reunião do Superintendente da Sudelpa com o Secretário se daria em uma semana e o Dr. Castilho queria um teste do funcionamento da solução para que o assunto pudesse ser levado ao Governador Laudo Natel.

Ao que eu lembro, a reunião se daria na quarta feira da semana seguinte. Então combinamos fazer um teste logo na segunda feira, com uma caminhonete com rádio posicionada próximo a agencia dos correios em Ubatuba e a estação fixa instalada em uma unidade de Assistência Técnica da Telefunken localizada na Avenida Pacaembu, a uma quadra da Avenida São João e a uns dois quilômetros em linha reta da agencia dos correios. Dada a precariedade do tempo, a antena seria fixada provisoriamente do lado de fora, estendida entre duas janelas.

Tudo pronto, uma caminhonete instalada em Ubatuba e o rádio na Barra Funda instalado, as nove horas começa o teste para valer. Os dois pontos já tinham feito contatos bem sucedidos, mas agora era oficial. Estavam na sala, em São Paulo, o coronel Botto, seu engenheiro, o Dr. Castilho, um engenheiro da Polícia Militar de São Paulo especialista em comunicações, eu e meu chefe na Telefunken, Wayland Coats além, obviamente, de um operador do rádio e do telegrafista do correio. Nove em ponto, o rádio ligado, entra a voz do operador de Ubatuba, falando da caminhonete.

   – QRA Ubatuba – QAP (Estação na escuta).

O sinal vinha claro e límpido, tanto quanto era possível, considerando que o SSB aproveita só meia banda. Mas a emoção tomou conta da sala.

O operador de São Paulo responde:

   – QRA estação São Paulo. Sinal com clareza cinco. Repito, clareza cinco.

Nem precisava repetir. Óbvio que, se era clareza cinco é porque era clareza cinco. A comunicação era limpa e perfeita.

Em seguida São Paulo inicia o teste para valer:

   – Segue QTC em Morse.

E ambos os telegrafistas fizeram a troca de mensagens em condições tão boas quanto o fariam no telégrafo com fio. Bastou uma tentativa. E até houve espaço para o humor:

   – Favor QRQ (transmita mais depressa…)

Terminada a troca de mensagens, todos na sala sentiram a mesma emoção que devem ter sentido os cariocas que testemunharem a iluminação do Corcovado, em 12 de outubro de 1931, quando, numa cerimônia organizada pelo jornalista Assis Chateaubriand e presidida pelo Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Paes Leme (filho de Espírito Santo do Pinhal) e pelo Presidente Getúlio Vargas, o cientista italiano Guglielmo Marconi, inventor do rádio, e o Papa, acionaram um dispositivo que enviou um sinal de rádio que iluminou o Cristo Redentor. A iluminação que brilhou no céu aconteceu no início da noite, as 19 horas e quinze minutos e assim foi relatada por Marconi, em sua biografia escrita por Filippo Garozzo:

“Então todos ficaram olhando para o morro, esperando o milagre a ser produzido pelo homem. E o milagre aconteceu pontualmente. O Papa e Marconi, em Roma, apertaram uma chave de transmissor e um sinal partiu rápido da Cidade Eterna, deslizou sobre o Atlântico mais velozmente que o relâmpago, e atingiu o Cristo Redentor, construído sobre o Morro do Corcovado, na Baía de São Sebastião do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa. E o Cristo, de repente, ficou tão resplandecente e brilhante de luz que mais se assemelhava a uma festa! Parecia até outro Cristo, risonho e mais bonito, agora que estava iluminado e inaugurado pela mão do Santo Padre e pelo gênio de Marconi.”

O espantoso desta história é que o corrupto Correio brasileiro da época, mesmo depois de atravessar quarenta anos e uma guerra mundial, ainda enfiava a cabeça na areia, ainda parecia não ter tomado conhecimento das ondas de rádio e se aferrava aos fios de cobre.

De toda forma, após o teste entre o litoral e a capital, estava resolvida a questão técnica. Faltava, agora, resolver a questão política.

O Dr. Castilho levou os laudos do teste para o Secretário, que, junto com o Superintendente da Sudelpa, os levou ao Governador Laudo Natel. Esta reunião não assisti. Mas soube dos resultados depois.

Segundo o relato do Dr. Castilho, o governador ouviu todo o relato e deu uma olhada nos laudos para então dizer:

   – Os senhores devem estar brincando comigo. Como eu posso justificar para a opinião publica que vamos beneficiar apenas uma cidade em detrimento das outras?

O secretário e o Dr. Castilho tentaram justificar:

   – Desculpe, governador, mas nossa proposta é emprestar os rádios para atender um pedido do Correio e começar fazendo um teste. Primeiro seria Ubatuba, mas depois o correio nos assegurou que vai poder estender o serviço para as demais localidades…

O governador teria ficado impaciente:

  – Quanto custa cada estação? – Quis saber o governador.

  – Metade do custo de um fusca, foi como o Dr. Castilho teria respondido.

  – E quantos postos de correio existem no litoral?

  – Cerca de vinte localidades.  – Teria sido a resposta do Dr, Castilho.

Laudo Natel, então, teria resolvido a questão:

   – Se este é o número vamos fazer nossa parte. Vamos formalizar logo um convênio doando os rádios ao Correio e oferecermos telégrafo no litoral paulista ainda neste verão. Vamos comprar os rádios e fazer uma festa nas vinte localidades logo que começar a alta temporada.

   – Mas será que teremos tempo? – Quis saber o Secretário.

   – Os senhores já devem conhecer minha frase preferida: “fazer o possível agora e o impossível depois.” Se precisar, o senhor empresta suas caminhonetes.  Então vamos logo adquirir os tais vinte rádios e providenciar imediatamente o convênio para oficializar a doação da Sudelpa para os correios.

E assim foi feito. O governo de Laudo Natel celebrou o convênio entre a  Sudelpa – Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista e a ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, formalizou a doação dos rádios – como ficou registrado no flagrante acima – e inaugurou os novos pontos de telégrafo naquela temporada de praia com uma grande festa. E todos foram felizes até quando uma nova geração de corruptos ressurgiu nos governos Lula e Dilma e passou a meter a mã0 e novamente avacalhar com os correios. 

PS.

1) – Os rádios foram entregues a tempo mas as frequências estavam demorando perigosamente. O governador, por seu turno, queria que os rádios fossem instalados já com as frequências definitivas. Acontece que o Dentel estava criando problemas. Contaram-me que o governador, em raro momento de irritação, teria ligado diretamente para o Presidente da República, o General Médici. Como por encanto, as frequências vieram rapidinho e a tempo.

2) – Quando a máfia do cobre e a alta direção dos correios soube do “golpe baixo” do Coronel Botto ficou espumando de raiva e foi reclamar com o presidente. Pensaram que iam tosquiar o coronel Botto mas saíram tosquiados. A solução foi típica do governo militar: a diretoria corrupta foi demitida sem delongas e – surpresa! – sabem quem foi escolhido como o novo presidente da Empresa Brasileira de Correios? Ele mesmo, o Coronel Adwaldo Cardoso Botto de Barros, o sergipano porreta, o Coronel Engenheiro do Exército Brasileiro que mais entendia de comunicações e um personagem que nos enche de orgulho e que marcou seu nome na história como o responsável pela criação do serviço de SEDEX, pela criação do POSTALIS e pela era de ouro do correios do Brasil. De sobra, ainda dirigiu a renovação tecnológica dos correios de todo o planeta. O resto da história vocês já conhecem.

3) – Muitos anos depois reencontrei o Coronel Botto no Aeroporto de Guarulhos. Ele já era, então, presidente da UPU – União Postal Universal. Ao me ver, o coronel Botto veio ao meu encontro e fez questão de me convidar para um café. Nos quinze minutos que faltavam para seu horário de embarque, relembramos o episódio dos rádios e dos “telégrafos de férias”, episódio que ele lembrava com carinho e via como “a mudança da maré” de sua carreira nos Correios, que presidiu por 12 anos, e, por extensão, de seu papel como líder mundial dos correios por oito anos. Fez-me um convite para visitá-lo na Suíça, mas vai ter que ficar para uma outra vida. Nunca mais o vi, porém tampouco o esqueci. E foi com grande tristeza que li a notícia de sua morte em janeiro de 2015, quando nos deixou, aos 90 anos de idade.

Homens como ele temos poucos e nos fazem muita falta. Que seu legado de competência e integridade frutifique e que Deus o tenha.


Celso Skrabe


Lula e o Vaso Chinês

 

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Lula mesmo disse que é agora só um “Vaso Chinês”. Ele elegeu um poste e acha que agora elege um vaso? Tá tudo muito doido.

  • Lula e o Vaso Chinês

O Lula é finório de papo e, de prosa, muito bom,

tanto que garante, na conversa vaidosa, que o país não tem “alma mais pura”,

só que o maroto de sempre fez do Brasil sua troça e de nosso futuro sepultura;

Moleque, comia calango cozido no ensopado de jerimuns,

depois, já em “Sum Palo,” tomou gosto em usar o gogó e tapear o povo sofrido,

se fazendo de grande amigo nos discursos de paletó;

Competente prometedor de vício antigo, prometeu tudo de baciada.

Promessa fez de montão, mas era tudo fantasia

de uma falador que se fazia de Patativa do Garanhuns;

Demagogo caviloso e muito esperto, um jagunço redivivo,

sempre foi imbuído da mais pura desfaçatez.

Enganou gente com fome e deixou amargurado quem pensou que teria vez.

Rei da “istripolia”* tenebrosa, foi um presidente comodista.

Querendo, tudo podia, posto que tinha o poder da nação,

mas todo dia mentia e, por sua gente, não se atrevia nem um tiquinho não;

Homem tosco e de pouca cultura, à beber sabedoria ele preferia uma boa pinga,

o cabra tinha medo de livro e do saber corria feito o diabo da cruz,

porém lábia tinha muita sobrando e ludibriava o povo como ninguém;

Com seu talento maneiro e um traquejo verbal colosso,

tivesse sido homem digno, ou mesmo um poeta de tabuleta,

teria enricado e virado santo só fazendo rima e caçando “barbuleta”.

Mas sendo um insensato que pela ambição foi picado,

vendeu fiado sua alma ao capeta e logo trocou tudo e fez errado:

meteu os pés pela mão e, aloprado, “Cantou cá” o que devia “Cantar lá”.

Tivesse sido fiel a seu berço, ao seu povo e sua nação,

tivesse refreado, só um pouquinho, sua insana ambição,

teria sido, se fosse bom e honesto, o grande presidente da redenção.

Mas, qual nada, era fraco de caráter e gostou do encosto macio.

Se cercou de puxa-saco e zuniu de avião a jato, movido à corrupção.

Virou um “bon vivant”, liso como quiabo, esperto como o diabo e malandro como o tiziu.

Lula, cabra indomado, vaidoso e arrogante, se deixou cair em tentação.

Deu uma banana malvada, rasteira e desalmada, ao seu povo sofrido,

que só teve consolo num bolsa família de ralas migalhas de humilhação.

Mascate de ilusões tarimbado, Lula pegou na mão o que pode,

enricou ainda mais os ricos e mandou dinheirama até para outras nações,

mas o Brasil, pobre coitado, além de pagar a conta, ficou na pior condição.

E diferente do Patativa do bem, que cantou as mágoas de quem pouco tem,

esse embusteiro terrível só queria mesmo levar vantagem

e, para dizer a verdade, nunca foi leal a ninguém.

Agora, o país lastima o tanto de dinheiro roubado no governo dele e da Dilma,

enquanto falta hospital e falta tudo mais na sofrida “classe matuta”,

“que nem em sonho mais desfruta as riquezas do Brasil”;

Lula, se acaso fosse mesmo verdade que ele nada sabia,

como repete, com monotonia, o seu surrado refrão,

seria pior que um mau vigia que abre a porta da casa para deixar entrar o ladrão;

Todos sabem que um corno só é enganado se for frouxo ou bobalhão.

Se roubaram nas suas barbas fortunas de muito milhão,

além de ser condenado, merece uma surra de vara do sofrido povo do sertão.

E nosso triste nordeste, ainda mais empobrecido e calcinado,

outra vez foi logrado sem a menor contemplação,

e, decepcionado, ficou ainda mais “nordestinado” depois deste sonho de verão.

E se pensa, este traíra, viver de luxo no bem bão,

o velhaco se engana total e completamente. Que bote as barbas de molho

que desta vez não escapa das grades da prisão.

E agora, desmascarado, que sabe não ser mais nada,

que desceu do pedestal, que é réu na Lava Jato da Justiça Federal,

ainda vive se iludindo com o poder que já não tem mais;

Quer de novo, este tratante, voltar a ser presidente,

dizendo, na cara dura, que vai arrebentá e prendê. Mas ele está muito enganado,

pois seu prestígio é do passado, tal como foi do passado sua força e seu poder;

Ao povo brasileiro, este sujeito matreiro, nunca mais engana não.

E se ainda tivé povinho prá acreditá na sua enganação,

o santo padinho Ciço vai mandá todinho ele para a eterna danação.

Mas pretensão é pior que bicheira prá apodrecê coração.

Esta vontade traiçoeira de mandá no povo de novo e que faz coceira na sua língua,

só precisa um gole de pinga prá desandá em falação.

Mas a um povo inteligente só se engana uma só vez;

Lula, por isso, disse ao Moro, falando de sem pulo, sem saber bem o que fez:

Eu já não sou mais presidente. Agora eu só sou um “Vaso Chinês”!.


 Ceska – O digitaleiro


(*) As expressões e frases em itálico foram inspiradas em poesias de Antônio Gonçalves da Silva, poeta e trovador cearense conhecido como “Patativa do Assaré” (1909 – 2002).


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Vamos nos alinhar ao mundo que deu certo, para variar?

O mundo contemporâneo, este que emerge da Quarta Revolução Industrial, o chamado Mundo 4.0, gira em volta da Inteligência Artificial (IA). Este mundo em transformação, revolucionário e disrruptivo, vem quebrando todos paradigmas. Para começar, o mundo já não se divide mais entre esquerda e direita. Ele se divide em digital e analógico; em funcional e disfuncional; em veloz e capenga. Este novo mundo é conectado ao universo digital e vai se distanciando cada vez mais das partes velhas, desarvoradas, sem eira e nem beira, perdidas na poeira das nações de ponta.

A diferença entre as nações bem sucedidas e as fracassadas se acentuará de modo irreversível à medida que a Quarta Revolução Industrial for mudando a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. A Primeira Revolução Industrial utilizou água e vapor para mecanizar a produção. A Segunda se valeu da energia elétrica para criar a linha de montagem e a produção em massa. A terceira usou a eletrônica e a tecnologia da informação para automatizar a produção. Agora, a Quarta Revolução Industrial vem no bojo da Inteligência Artificial. Mais do que nunca, será o novo contra o velho; o múltiplo contra o monocórdio; o inteligente contra o obtuso.

O Brasil, felizmente, tem núcleos que já ingressaram no Mundo 4.0. Empresas como Embraer, Tramontina, Fanem, para ficar apenas em algumas que atuam no cenário mundial, já estão neste mundo novo. O agronegócio brasileiro figura entre os mais avançados do planeta. Nele a IA – Inteligência Artificial – vem sendo adotada intensivamente. Tratores e colheitadeiras dispensam operadores e trabalham com piloto automático, orientadas por GPS. Drones supervisionam do ar rebanhos e lavouras e fazem pulverização de fertilizantes e inseticidas. O gado é rastreado com chips de RFID. Isto tudo da porteira para dentro, claro, porque da porteira para fora caem no Brasil meia-boca de sempre. Armazenagem insuficiente, estradas imprestáveis, ferrovias por construir, portos limitados e subdimensionados. Um Brasil imensamente rico em potencial, mas contaminado pela corrupção, dirigido por incompetentes e pilhado dia e noite por bucaneiros da política, salvo as honrosas exceções, que existem e são fonte de esperança e alento.

Agora, porém, em meio a maior crise de nossa história, chegou a hora de repensarmos o Brasil. E de reformarmos este arremedo de democracia que tem se mostrado uma madrasta para o país.

Para fazermos nossa democracia alinhar-se aos requisitos da Quarta Revolução Industrial precisaremos que atenda três exigências:

  • – Deve ser digital, conectada, inteligente, online e funcionar em tempo real;
  • – Deve ser aberta ao cidadão, criar espaço para o debate permanente das questões mais importantes, e permitir que de todos os interessados na política do país tenham acesso a canais de transparência com todas as áreas do governo;
  • – Ser capaz de integrar os cidadãos no processo de tomada de decisão, oferecendo suporte decisório baseado em “evidências” sobre tudo o que diga respeito a vida da sociedade e as boas práticas.

Em princípio, não é difícil, havendo vontade. Mas temos que entender que a democracia Brasileira enfrenta um desafio de vida ou morte. Se não transformar-se radicalmente, continuará vulnerável ao assalto de demagogos e populistas. Se vierem demagogos populistas, com desclassificados padrão Lula, a crise não se resolverá nesta geração. Tomada por desalento, a democracia será dissolvida no ácido de seu fracasso e de sua inépcia. E termos uma ditadura no horizonte.

Mas sejamos otimistas. A oportunidade que o Mundo 4.0 nos abre, com as novas tecnologia e a Inteligência Artificial, permite que venhamos a ter uma democracia inovadora, vibrante e alinhada com a cibernética, para substituir a atual que é burocrática, caduca, lenta e fenecente.

A chave, contudo, para o êxito de uma democracia digital no Mundo 4.0 não se limita à velocidade nas decisões, por exemplo, mas em ser capaz de azeitar o funcionamento da sociedade para que esta possa cumprir seu papel e atender as expectativas de seu povo, operando com eficiência, eficácia, equidade, precisão e qualidade. Sua arquitetura deve articular as melhores decisões possíveis. Decisões bem informadas, provadas e comprovadas, baseadas nas melhores “evidências” disponíveis.

  • O mundo digital já está entre nós

No Brasil já está todo mundo na orbita digital. Nem que seja ao assistir televisão.

Os brasileiros, especialmente os das novas gerações, já vivem na era digital. Segundo o Jornal O Estado de SP, com dados da 28ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), de março de 2017, o Brasil terá um smartphone em uso por habitante até o final de 2017. Com crise ou sem crise, ainda de acordo com a pesquisa, até outubro a base de smartphones no País será de 208 milhões de aparelhos.

Hoje, o País tem 198 milhões de celulares inteligentes em uso, crescimento de 17% na comparação com o ano passado. Um número que continua crescendo. A expectativa é de que, nos próximos dois anos, o País tenha 236 milhões de aparelhos, um crescimento de 19% em relação ao momento atual. Sem esquecer que o Brasil tem também 162,8 milhões de computadores (entre desktops, notebooks, e tablets) em funcionamento, um crescimento de 5% na base instalada com relação ao levantamento de 2015. Até o final do ano serão 166 milhões de computadores em uso, sendo cerca de 33 milhões de tablets.

O mudo digital também já chegou aos bancos brasileiros e ao imposto de renda. Como seria de esperar, para cobrar juros e cobrar impostos já estamos na era digital. Falta chegar na democracia.

Agora, achar que vamos ficar encalhados numa democracia “carro de boi” é tolice. Os jovens já vivem em outra dimensão e vão simplesmente passar por cima dos que ficarem no caminho. Os políticos do antigamente, do tempo do onça (eita!), podem não gostar, mas a transformação digital vai jogá-los ao relento. O país está pronto para fazer as reformas transformadoras e abrir as portas do século XXI, um século que ainda não alcançamos.

  • A Democracia fascinante

Brava gente brasileira, já podemos antever os contornos desta nova democracia de perfil digital. Como em outros campos transformados pela Inteligência Artificial, a nova democracia digital tende a funcionar em volta de uma grande “nave mãe” virtual, aberta para a participação cidadã, tendo à sua volta os “c-pods”, os “civic-pods”, núcleos de opinião e grupos de interesses específicos, organizados por áreas e temas, aos quais os cidadãos poderão aderir usando seus títulos de eleitor eletrônicos para ter amplo acesso à transparência, as informações e as decisões dos três níveis de governo.

Estes aplicativos permitirão participar de debates e de decisões, votar e cobrar resultado de seus eleitos. Organizar e encaminhar projetos de lei de iniciativa popular e muitos outros. Essa democracia digital será infinitamente mais inclusiva, mais participativa, mais transparente e mais equitativa. Até muito mais alegre e divertida. Além disso, como o mundo digital está ainda em formação, a nova fronteira é território aberto, pronto para ser desbravado e conquistado.

De uma coisa, contudo, já podemos ter certeza: a era da Quarta Revolução Industrial, a era da IA – Inteligência Artificial – vai mudar profundamente as práticas democráticas e, com elas, as formas de governar e prestar contas aos eleitores.

Basta imaginar qual seria o impacto da adoção de “câmaras testemunhas” em obras públicas. O cidadão interessado em uma determinada obra poderia, ele mesmo “fiscalizar” sua evolução. Um fórum associado permitiria opiniões e críticas. E, acreditem, nada levanta um traseiro mais depressa que fogo em baixo do banquinho!.

Ademais, pode-se prever que nosso titulo de eleitor será a senha aplicativos pessoais, para acesso a informações sobre indicadores democráticos, bem como para o exercício de votos online em consultas públicas e assinaturas pré-validadas para abaixo-assinados e projetos de lei de iniciativa popular. A senha servirá, ainda, para contato autenticado com autoridades e representantes no legislativo. Nós, o povo, vamos ter muito mais força, muito mais direitos, mas também muito mais responsabilidades. A democracia que teremos será menos distante e mais inteligente; menos perfunctória e mais funcional. Além de menos vulnerável a fraudes e a manipulações.

Apenas para ilustrar, uma boa “evidência” sobre como os cidadãos querem acompanhar as coisas que lhe dizem respeito são os 222.086.385 de visitantes que foram ao site da SABESP conferir os níveis dos reservatórios da capital paulista entre maio de 2014 a 01 de março de 2017. Ou seja, deixa só este povo tomar gosto pela democracia digital. Vai ser a maior limpeza das teias de aranha de nossas instituições já registrada em nossa história.

  • Democracia Inteligente

A Democracia Inteligente  do Mundo 4.0 vai colocar o cidadão no centro do processo político. Não será só na hora de votar que o cidadão terá voz e vez. O chamamento à participação será permanente e dinâmico, o que significa que o cidadão deverá também saber mais em relação aos assuntos do governo. Para tomar posição em temas como a reforma política, na economia, nas questões sociais, nas leis e decretos, o cidadão precisará de boas informações e bons comparativos sobre os efeitos das decisões que vai tomar. Saber qual o custo social a pagar e quais os resultados a esperar.

De maneira que, para melhor exercer sua cidadania, precisará dispor de “evidências” sobre o que funciona e o que não funciona.

O movimento mundial em favor de decisões baseadas em evidências começou com a Medicina Baseada em Evidência (MBE). Em pouco tempo revolucionou a prática médica e mostrou-se um instrumento de enorme valia para orientar boas decisões na medicina. O sucesso levou a enfermagem a logo adotar sua versão por meio das “Práticas Baseadas em Evidência”. Outras áreas a adotaram na sequência, como Nutrição e Fisioterapia. Hoje é difícil encontrar uma área da saúde que não tenha a sua versão da metodologia. Campos de atividades correlatas logo também abraçaram a experiência, a exemplo da Arquitetura e do Design Hospitalares. Em pouco tempo surgiu um movimento mundial para acabar com o “achismo” e que tornou as decisões com base em evidência em um conceito multidisciplinar. Hoje, este método de basear decisões numa sistemática de evidencias já foi adotado por áreas como Administração, Economia e dezenas de outras.

Dado o êxito destacado desta metodologia, tudo indica que seus princípios seriam aplicáveis a uma Democracia Baseada em Evidência no Brasil.

Seguir as “evidências” nos ajudaria a evitar equívocos e erros dolorosos, como o nosso presidencialismo imperial e as eleições proporcionais com desequilíbrio na representação na Câmara. Ocorre que há uma distorção no modelo atual. As regiões mais povoadas e avançadas, sul e sudeste, têm uma representação proporcionalmente menor que as menos povoadas.

Entre os benefícios, desde logo a DBE nos auxiliaria na tarefa de exorcizar essa nossa mania de adotar políticas jabuticabas, que só existem aqui. Esta insistência em inventar políticas “heterodoxas” tem uma explicação: fica mais fácil encobrir a corrupção e a incompetência quando se adota um modelo politico turvado e opaco. Tal é o caso da estapafúrdia “Nova Matriz” econômica”, um conceito destrambelhado adotado pelo duo Lula e Dilma. A explicação é rasa: com adoção de uma falsa democracia, o que temos é um mero arremedo democrático, os indicadores tradicionais passam a ser rejeitados sob o argumento de que “não são aplicáveis”.

Qualquer sociedade precisa de uma organização e uma disciplina interna para funcionar. Disto não há dúvida. Consequentemente, é preciso que exista uma autoridade que atue sistematicamente para manter o conjunto funcionando. Está implícito no significado de sociedade que seus membros compartilham interesses ou preocupações mútuas visando um objetivo comum.

O principal objetivo comum de um país, supõe-se, seria o bem estar de seus cidadãos. Mas, no Brasil, o deposto governo de Dilma já não tinha mais este objetivo. Seu propósito se tornou ter e manter o poder. O sonho petistas era chegar a um poder ditatorial, como em Cuba e na Venezuela. Ditadores, como Raul Castro, em Cuba, ou Maduro na Venezuela, ditam as ordens e o povo ou se submete ou é reprimido. No Brasil, porém, já existe uma sociedade suficientemente bem informada e articulada para torpedear este tipo de pretensão totalitária. Este tipo de ameaça já foi vencido mais de uma vez, mas sempre a custo de muita angústia e sofrimento.

Como sabemos, foi para evitar o trauma das revoltas populares e limitar o poder absoluto dos monarcas que a civilização criou a democracia. Este regime, mesmo que imperfeito, é, no dizer de Churchill, “o pior dos regimes, exceto todo os outros”. De modo que nada temos de melhor ou mais civilizado para organizar a sociedade e dar voz e vez aos cidadãos. Mas sempre será possível aperfeiçoar a democracia e seus mecanismos de empoderamento dos cidadãos.

O que precisamos aceitar, no entanto, é que uma democracia é, por natureza, um sistema de permanentes tensões e disputas. Precisamente por esta razão precisa de mecanismos rápidos de ajustes e de acomodação de interesses.

O homem sempre quer mais e nunca está satisfeito. Talvez esta ambição ilimitada explique porque o homem saiu das cavernas para conquistar o espaço. Decorre daí que as demandas nunca acabam. As sociedades se formam e existem em um contexto dinâmico, insertas que estão na natureza e competido umas com as outras. Portanto, vivem em um mundo de cotidiana tensão. O que equivale dizer que em nenhuma sociedade moderna os dias são sempre iguais. São estas disputas que produzem as mudanças e fazem a história. O pressuposto é que, se nada é permanente e tudo é fluído, a conclusão é que o bem estar geral irá refletir a qualidade das decisões. Estas vão moldar o momento e as circunstâncias. Tempos de vacas gordas e de vacas magras sempre acompanharam a história do homem. A escassez sempre foi um inimigo a ser combatido. Aliás, é bom lembrar que a disciplina da economia foi criada para lidar com o fenômeno da escassez.

Os povos bárbaros sofriam as crises de escassez e a elas se conformavam sob a crença de que sua penúria vinha dos deuses. Os povos subdesenvolvidos acreditam na lorota de que suas agruras venham dos inimigos externos. O esquerdistas de Cuba e na Venezuela culpam os Estados Unidos. Já os povos civilizados aprenderam que a pobreza não vem da maldição divina, mas das decisões equivocadas de seus governantes. Ao evoluírem, passaram a exigir bons governantes e querem ser consultados naquilo tudo que tenha a ver com seu destino. Os povos civilizados querem resultados e por isto querem votar e influir nas em suas sociedades.

Ocorre que o processo democrático, sendo obra dos homens, é passível de distorções, vícios e imperfeições. Sem falar, claro, da demagogia, da irresponsabilidade e da mais destilada hipocrisia.

No mundo civilizado acredita-se em valores como equidade, igualdade e justiça. Algo que os gregos, desde Clístentes, chamavam de “isonomia”. Modernamente, este conceito abarca a noção de cidadania, sendo o cidadão, por definição, membro ativo da sociedade e partícipe da construção de sua história. E foi para proteger o cidadão, seus direitos e deveres, que a civilização engendrou a divisão dos poderes entre executivo, legislativo e judiciário.

Norberto Bobbio, que era socialista, mas temperava seus pecados com um vigorosa defesa da democracia e acreditava na separação de poderes, indicou pelo menos três fatores que dificultam um projeto democrático efetivo nas sociedades contemporâneas: a especialidade, a burocracia e a lentidão do processo.

O primeiro obstáculo seria derivado da complexidade da vida contemporânea, que demanda competências técnicas de “especialistas” para dar solução a inúmeros problemas públicos, notadamente em economias altamente reguladas e planificadas. A complexidade dos problemas dificulta o entendimento das soluções por parte do cidadão comum e abre espaço para “especialistas” que usurpam o poder político ao tomar decisões contrárias ao interesse da maioria. As ditas “soluções técnicas” dificultam a hipótese democrática de que todos podem decidir a respeito de tudo.

O segundo obstáculo resulta da expansão exagerada da burocracia, um aparato de poder sem mandato, ordenado hierarquicamente de cima para baixo, em direção totalmente oposta ao sistema de poder democrático.

O terceiro obstáculo vem do desejo equivocado das esquerdas de fazer com que o Estado tome o lugar de Deus e se torne o grande provedor da sociedade. Políticos demagogos se valem do desejo legítimo das pessoas de obterem renda e se sentirem seguras e prometem que o estado oferecerá estas duas benesses a troco do voto. Prometem o que não existe: o almoço grátis. Com sua demagogia irresponsável estimulam demandas irrealistas dirigidas ao Estado. Um povo dependente do estado é mais propenso a ser seduzido pelas promessas populistas. Ocorre que o Estado não produz riquezas, apenas se apropria daquela produzida pela sociedade. O resultado prático é que, ao invés de atuar para equalizar as oportunidades, o estado cria privilégios, benefícios e benesses para os grupos mais influentes, favorecendo corporações e grupos específicos. Esta tendência s torna ainda mais aguda no voto proporcional. Neste modelo os candidatos representam corporações e grupos e são facilmente seduzidos pela corrupção. Ao usar o estado para favorecer aos “amigos”, tirando dos que produzem para dar aos aliados, acaba criando descontentamento e minando as bases em que se assenta democracia. Quando a Democracia se desfigura e não tem mais legitimidade para encaminhar o debate político, uma crise é inevitável. Sem confiar nos seus ditos “representantes” fica comprometido o convívio democrático e esgarçada a coesão social.

  • Sincrisis “versus” décrisis.

Se, eventualmente, a perturbação do equilíbrio é corrigida por algum mecanismo homeostático, como eleições periódicas que permitam a mudança do poder, a crise pode se limitar a uma “síncrisis”, uma crise que se resolve de forma não traumática. Por exemplo, em um governo parlamentarista, uma crise do governo dificilmente evolui e se resolve com um voto de desconfiança e a substituição do primeiro ministro. Se, porém, a democracia não possui os instrumentos de defesa e de reequilíbrio ágeis para conter a erosão das instituições, as características da crise podem levar a impasses e ao esgarçamento de sua coesão. Neste caso sobrevém uma “décrisis”, um processo de falência múltipla das instituições democráticas. O exemplo das crises do presidencialismo brasileiro ilustra bem os efeitos das “décrisis”. Quando uma crise aguda se instala, dificilmente se tem um bom prognóstico. O ambiente politico vira um “salve-se quem puder” e os acordos e os mútuos compromissos do arranjo social, que implicam em concessões em nome do bem comum, deixam de valer.

A piora gradativa leva à desordem, ao descontrole e, finalmente, desemboca no caos. Para impedir a evolução de uma “décrisis” é preciso interromper o processo de desagregação. Na atual “décrisis” brasileira, que continua sem uma solução definida, a saída da ex-presidente Dilma permitiu um alívio momentâneo. Seu desfecho, contudo, ainda é uma incógnita. As mudanças estão no rumo certo, mas se mostram tímidas demais para o porte da catástrofe em curso. Para reverter a situação política do país e estabelecer um círculo virtuoso que converta a “décrisis” em uma “síncrisis”, é preciso mais do que parar de piorar. É preciso que sobrevenham fatos novos.

  • A oportunidade que vem da “décrisis”

Em uma sociedade que conta com uma escassa “massa crítica” de bom senso, como a brasileira, resta o instinto de sobrevivência como antídoto para uma “décrisis”. Os milhões de brasileiros que saíram às ruas no “fora Dilma” evidenciam que a sociedade está alerta e disposta a tomar posição. As multidões deixam claro que não vão aceitar um destino e segunda classe.

A lamentar, contudo, é que não se pode esperar muito deste congresso ou do governo Temer. A maioria dos atuais políticos no governo e no congresso estão implicados e tem contas a prestar.

Mas podemos encontrar um lado bom neste cenário de crise e de obtusidade política. A necessidade é a mãe das soluções. Então, a mesma sociedade que se mobilizou nas manifestações poderá se mobilizar para acertar as coisas no Brasil. Vamos precisar de muito jogo de cintura e, talvez, fechar os olhos para muita coisa errada, mas não adianta chorar o leite derramado. Transformar o Brasil é imperioso, posto que de crise já cansamos. Multidões na rua podem ajudar a encontrar um novo caminho. Multidões nas mídias sociais também podem. Mas que caminho? Corrupção e mentiras não queremos. Engodo nem pensar. Sim, é verdade que ainda estamos imersos em perplexidade, mas não será por muito tempo.

  • O jeito de mudar certo

Confúcio nos dizia que há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.

Como não aprendemos pelos dois primeiros métodos e hoje sofremos com mais de 14 milhões de desempregados (e crescendo…), estamos acumulando uma divida colossal e regredimos com uma recessão por dois anos seguidos, com uma queda, segundo a Folha de S. Paulo, de 9,1% do PIB “per capita” desde 2014, tudo o que nos resta é engolir seco e aproveitarmos as lições mais amargas que nos vem da experiência que estamos vivendo.

  • Encruzilhada da ação

O que temos claro é que nos encontramos diante de uma encruzilhada. Ou abraçamos as mudanças necessárias ou vamos avançar rumo a um despenhadeiro de empobrecimento e mediocridade. O caminho que escolhermos agora vai definir o que seremos como nação no restante do século XXI.

  • Aprendendo a transformar com base em evidência

Recapitulando, já sabemos que nossa democracia é um arremedo. Que nossos políticos, salvo exceções, são uma lástima. Despreparados, desinformados, superados, isto quando não mal intencionados. Uma parcela deles são apenas e tão somente “picaretas”. Mas o povo brasileiro tem alma democrata. Gosta de votar. As eleições o Brasil são uma festa. Pena que os candidatos sejam uma lástima.

  • Mas por quê?

Dá para deduzir que alguma coisa está errada no processo. Certamente, o presidencialismo e voto proporcional tem boa parte da culpa. O voto distrital traria outro perfil de candidatos. Mas não temos voto distrital. Nem parlamentarismo. Estas duas mudanças já seriam um avanço, mas elas não virão sem um movimento popular que as respalde. E mesmo sendo fundamentais, não esgotam as transformações possíveis e desejáveis para uma democracia do século XXI. E neste ponto é que viria a calhar uma nova metodologia de transformação democrática para o Brasil. Uma nova forma de examinar e diagnosticar os nossos males, de reunir e comparar as alternativas, de escolher as melhores soluções e de trazer a sociedade, a cidadania e o povo para ter participação 24/7 nesta tarefa que é de todos e de cada um.

Em todos os campos da atividade humana vem sendo adotada a busca sistemática de melhores resultados com base no conhecimento, nas experiências e no comparativo entre performances, ou seja, nas “evidências”. Hoje, além da “Medicina Baseada em Evidência” já existe uma enfermagem com “Procedimentos Baseados em Evidência”, uma “Arquitetura Baseada em Evidência” uma “Administração Baseada em Evidência” e inúmeras outras similares. O que podemos fazer para curar nossa democracia é sermos os pioneiros de uma “Democracia baseada em Evidência”.

  • Um pouco da História do Movimento pela adoção das Evidências como método de acertar

O movimento da “Medicina Baseada em Evidências” foi inspirado no livro “Eficácia e Eficiência”, escrito pelo médico Archibald (Archie) Cochrane e publicado em 1971. A obra criticava acerbamente os métodos nos cuidados de saúde de então. O livro criticou o “achismo” e a falta de evidência confiável por trás de muitas das intervenções de saúde comumente aceitas na época. Suas críticas provocaram um terremoto nas práticas médica e estimularam a adoção de “evidências” confiáveis na medicina. O movimento levou a McMaster University, de Ontario, no Canadá e a University of York, do Reino Unido, a estruturarem a “Medicina Baseada em Evidência”. A nova abordagem obteve ampla aceitação porque era evidente que muitos pacientes morriam ou sofriam sequelas por não terem sido tratados com as melhores práticas existentes. E isto era moralmente inaceitável. Ainda mais tendo em conta que, na era digital, era possível organizar as informações sobre as boas práticas e sobre pesquisas científicas de modo a encontrar “evidências” sobre o melhor procedimento para tratar cada caso. Visando reunir uma acervo de evidências foi criado o Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR), um banco de pesquisas científicas e publicações médicas que podem ser acessadas por médicos de todo o mundo na busca das melhores terapias disponíveis para tratar a doença de seus pacientes.

Ao médico canadense David Sackett se atribui a definição clássica da MBE: “uso consciencioso, explícito e sensato da melhor evidência disponível na tomada de decisão sobre o cuidado a pacientes, acrescida da experiência do médico e das preferências do paciente”.

Se viermos adotar um método análogo para a “Democracia Baseada em Evidência” no Brasil, poderíamos começar com uma definição inspirada na definição da MBE: “adoção conscienciosa, explícita e sensata da melhor evidência disponível sobre o regime e as práticas democráticas, a escolha de representantes, a elaboração de leis, a transparência, a governança e a participação continuada dos cidadãos nas decisões que afetem a sociedade e o povo”.

Optar por uma democracia com método seria um fato novo, uma alternativa ao debate estéril, pirotécnico, impregnado de ideologias arcaicas e falsas premissas que vemos ser feito por partidos políticos de aluguel, alheios a realidade e aos anseios do país.

  • Um Futuro, Já!

Como transformaremos o país se não temos um plano de ação coerente e nem vislumbramos um destino desejável? Sêneca dizia: “nenhum vento sopra a favor de quem não sabe onde ir”. Como empolgar a nação, em especial a juventude, se não definirmos onde queremos chegar e como faremos para chegar lá?

Talvez um dos poucos momentos de nossa história em que tivemos uma clara visão de um projeto nacional foi na construção de Brasília. O país se jogou no projeto proposto por Juscelino Kubistchek e o realizou. Juscelino também se lançou na criação da indústria automobilística, levou a nação junto e o fez acontecer. Foram bons projetos? A discussão hoje é supérflua. Não há dúvida de que houve muita corrupção e desvios na época. Uma peça de teatro do impagável Sérgio Jockyman, “Boa Tarde, Excelência”, produziu gargalhadas homéricas na décadas de 60 e 70 ao contar as trapalhadas e as maracutaias daquele período. A disputa da concessão dos clips de papel e do papel higiênico é tão hilária que chega a ser perigosa para quem sofre de falta de ar. Mas fica o exemplo de que sabemos realizar bons projetos, embora precisemos mudar os métodos.

Portanto, debater um projeto nacional é da mais alta prioridade. E esse debate deve ser da sociedade, da cidadania, como foi a manifestação das ruas.

O que é certo é que podemos ter uma democracia melhor e mais funcional. Uma democracia para o mundo 4.0. O Brasil não aguenta mais retórica vazia e precisa partir para as transformações. Ou, como dizia, com espírito, o ex-prefeito de São Paulo, Brigadeiro Faria Lima, “precisamos de menos planejamento e mais fazejamento”.

  • Método para fazer uma Democracia 4.0

O primeiro passo é assumir que queremos uma democracia alinhada com o futuro. Claro, esta democracia deve ser imune à contaminação corruptogênica. Para chegar a esta imunização será preciso dotá-la de defesas e dar a ela total transparência digital. O espírito desta Democracia 4.0 deve ser capaz de coragem para iluminar-se na lógica de Camões, nos Lusíadas, nos versos em que canta as descobertas lusitanas que transformaram o mundo de seu tempo: “Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor maior alto se alevanta!”. Ou seja, diante do novo, dos novos valores e novas descobertas; dos novos conhecimentos e saberes, cessa a influência da antiga musa. O velho cede o passo para o novo. A velha musa murcha e perde o encanto, eis que surge, resplandecente, uma nova e bela musa. O novo brilha com um novo encanto e remete ao obsoletismo as velharias superadas e manda para o ostracismo os seus velhacoutos.

Se dermos boas vindas a uma nova musa democrática, esbelta e glamorosa como todas as musas recém chegadas, precisamos ajudá-la a firmar-se entre nós. Um cuidado preliminar é afastá-la dos zumbis delirantes, um grupo de bocós políticos que teima em acreditar em fantasmas marxistas, encostos bolivarianos, abdução por seres extraterrestes, mau olhado e sortilégios, mas não acredita em coisas prosaicas e burguesas como matemática, lógica cartesiana, causa e efeito e que tais. Também convém proteger nossa musa dos corruptos profissionais de plantão, o bem aparelhado bando de rufiões que obra com engenho e arte, como prova o mal afamado “Departamento de Operações Estruturadas”, da Odebrecht. Esses são até mais perigosos do que aqueles. Nossos corruptos são afamados mundo afora, atuam com método e disciplina. Tem faro para o dinheiro público e seguem objetivos estratégicos. Para obterem acesso ao erário se fantasiam de democratas e se camuflam de esquerda, direita, centro e o escambau. Estes calhordas nefandos são os que pilham o Brasil e condenam seu povo a uma vida de sofrimentos e necessidades. Nas mãos pecadoras destes bucaneiros nossa política deixou de servir à democracia e passou a ser mera e escassa alegoria. A triste verdade é que nossa democracia sempre foi palco de engodo e foi usada para a encenação de simulacros eleitorais. Uma nova democracia teria que ser imune a estes mercenários e mistificadores.

  • O esgotamento da locupletação autossustentável

Stanislaw Ponte Preta nos deu o caminho da redenção: “ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade”. Não temos mais dinheiro e nem condições para mantermos a locupletação desenfreada que tivemos até o esboroamento dos governos petistas de Lula e Dilma. Em outras palavras, a locupletação deixou de ser autossustentável no Brasil. Portanto, chegou a hora de implantarmos a moralidade. Mas temos uma dificuldade: não temos experiência em lidar com a moralidade. Nossa democracia ou foi manietada, no governo militar, ou sempre foi corrupta.

Este é outro motivo para adotarmos uma “Democracia Baseada em Evidências”. Esta DBE nos ajudaria a reunir boas evidências é a usá-las na formulação de nosso projeto democrático. Precisamos conhecer o que funciona e o que não funciona nas democracias do mundo. E, ainda mais importante, precisamos isolar nosso contingente politicamente subdesenvolvido. Um grupo de chupins culturalmente limitado e emocionalmente ressentido. Nelson Rodrigues dizia: “subdesenvolvimento não se improvisa. É obra se séculos.” Ora, sendo o subdesenvolvimento, a um só tempo, causa e efeito da corrupção que nos assola, pode-se ampliar o significado: “Corrupção também não se improvisa; é também “obra de séculos”. Sabemos que nossa corrupção é endêmica e está arraigada a nossas práticas políticas desde a carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500, na qual o escriba que revelava à corte a “descoberta do Brasil”, aproveitava para pedir favores pessoais ao Rei.

E, além disto, controvérsias à parte, quer De Gaulle tenha dito, quer não tenha dito que “Lê Brésil n´est pas um pays sérieux”. A verdade é que o Brasil não era mesmo um país sério. Aliás, até agora continua não sendo. Mas vai ter que mudar. E não por moralismo ou decência cívica, que seriam bons motivos, mas porque o custo da corrupção ficou alto demais. Nossa corrupção já consumiu tudo o que podia na saúde, na educação, na infraestrutura e onde logrou meter a mão. Finalmente estamos cruzando o limiar da moralidade.

  • Da Prática de uma Democracia Baseada em Evidência

A DBE só teria sentido em um novo ambiente que crie um mundo paralelo que seja uma reprodução digital do mundo real. Neste ambiente paralelo podem ser reunidas informações e realizadas simulações ao infinito. Com o uso desta tecnologia a vida institucional do país vai deixar de ser este marasmo medieval para se transformar numa atividade online, com os acontecimentos fluindo como flui a vida. A mudança implica em fazer uma mudança do sistema e não no sistema. Trata-se de uma nova lógica e não de uma mudança limitada ou cosmética. Ainda que a prioridade seja neutralizar o sistema corruptocêntrico, a mudança de paradigma é que vai determinar se vamos mesmo escapar deste buraco negro político.

Em síntese, mudar do jeito certo significa fazer as coisas funcionarem direito. A corrupção colossal, os 13 milhões de desempregados e os déficits monumentais do governo indicam que nossa política e nossa democracia não estão funcionando direito. E precisam ser consertadas. Ou melhor, nós mesmos precisamos consertá-las.

A viabilização da DBE no Brasil vai depender das novas gerações. Elas é que viverão nesta nova democracia. Caberá a elas delinear um projeto que cresça por dentro e que, quando pronto, descasque esta velha carcaça política e permita ao país sair deste casulo de ideias medievais que o oprime.

Como o sistema político atual não é representativo da nação e como os atuais partidos não acolhem o debate aberto e não se prestam para o exercício de uma militância inovadora, a renovação democrática no Brasil precisa encontrar um novo tipo de entidade sem ligações partidárias. Movimentos como o MBL e o Vem Para a Rua tem esta característica, mas nasceram para lutar “contra” o projeto corrupto de pode do PT. Cumpriram seu papel de forma brilhante, mas agora é preciso abrir uma nova luta. Quem sabe desenvolver a DBE – a Democracia Baseada em Evidencia – em volta de uma nova entidade, de uma “nave mãe”, permitiria que se formassem miríades de núcleos filiados, cada um com uma vocação, cada um com uma missão, cada um dedicado a um projeto específico. Todos unidos por uma causa: transformar a Democracia Brasileira em uma democracia inteligente, alinhada com o Mundo 4.0 e, ainda que com atraso, pronta para os desafios do século XXI.


Ceska – O digitaleiro

 

Brasil, tome juízo.

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Operação “Pelo em Ovo” e churrasco onírico em Brasilia.

Brasil, tome juízo.

Parece que este país perdeu o juízo. O nível de desatino que aflora nos mais diferentes setores do país é de estarrecer. Para onde quer que olhemos vemos uma nação mergulhada na estultícia. A corrupção generalizada associada à irresponsabilidade, à inconsequência e a arrogância vem derretendo as instituições e transformando o país num ente desmoralizado e em desagregação.

Tivemos nossa imagem internacional tisnada pelos escândalos da Lava-Jato, cujos eventos de corrupção foram solidamente comprovados e, de repente, em contra-ponto, vemos agora uma imitação canhestra querendo a ribalta. Na Operação “Carne Fraca”, que, pela falta do que procurar devia ter sido chamada de “Operação Pelo em Ovo”, um delegado da PF, despreparado e destrambelhado, decidiu jogar na sarjeta a coisa que melhor funcionava neste país, o agronegócio. Se não eram as luzes do proscênio o que queria a Polícia Federal ao detonar a tal operação “Carne Fraca”?

A Polícia Federal declarou que se valeu de um laudo próprio – um único laudo! – referente à empresa Peccin Agroindustrial Ltda., uma empresa insignificante para o setor, sendo o outro laudo fornecido pelo Ministério da Agricultura. Também haviam mal explicadas denúncias de um auditor do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sobre o frigorífico Souza Ramos. Em cima destes dois “laudos”(?) e da tal “denúncia”, a PF atacou com mais de 1.100 (!) policiais federais todo o setor produtivo do maior exportador de carnes do mundo. Mais de 1.100 agentes federais saíram país afora procurando pelo em ovo. Na operação foi investigado um dito “esquema de fraude” na produção, fiscalização e comercialização de carnes, envolvendo pagamento de propina a fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo a PF, a investigação teria encontrado “indícios” de adulteração de produtos e venda de carne vencida e estragada.

Agentes que nada entendem da produção de carnes, nem de como funciona a extensa e complexa cadeia produtiva de que dependem milhões de brasileiros, entrou estabanadamente em frigoríficos e empresas do setor falando bobagens, acreditando em “salsichas com papelão”, e espalhando acusações com a ligeireza dos inconsequentes. Quer dizer, então, que vamos acabar com milhares de empregos e todo um setor da economia do Brasil só porque um fabricante de salsichas trocou carne de peru por carne de frango?

Se queriam afundar ainda mais o Brasil, conseguiram. Se queriam criar mais desemprego, conseguiram. Se queriam produzir mais crise, se queriam envergonhar ainda mais o país, se queriam jogar gasolina no incêndio que queima as entranhas brasileiras, conseguiram com louvor.

A falta de juízo com que as coisas vem sendo feitas nesta terra maluca não tem paralelo. Nunca antes neste país, – aliás, nunca antes neste mundo! – se viu tanta insensatez. Os exemplos de hipocrisia e de mau comportamento que vem de cima, e que continuam agora com esta “reforma política”, com a tal “lista fechada”, desenhada para proteger políticos de vergonha escassa e cara de pau espessa, só podiam prosperar e nos jogar na lama.

Consertar o país, agora, ficou um pouco mais difícil. O Brasil vai ter que juntar os cacos da nossa indústria de carnes e sair peregrinando humilde por nossos clientes pedindo clemência. Tentando explicar que somos um país de doidos. E dando mais descontos. Nossa imagem internacional já andava abalada com a lava-jato, de modo que uma acusação de corrupção no sensível setor de carnes, por mais descabida que fosse, encontrou terreno favorável para prosperar e se espalhar mundo afora. E, como desgraça pouca é bobagem, para gáudio de nossos concorrentes do mercado de carnes de exportação, como a Índia e Austrália (carne bovina) ou Turquia (aves), nosso caricato presidente, mais perdido que cego em tiroteio (ou seria mais correto dizer “deficiente visual” perdido em meio aos projéteis de uma saraivada de tiros”?), agindo da mais paspalha maneira, resolve convidar os embaixadores dos países que importam nossa carne para um churrasco. E os leva justo para uma fina churrascaria de Brasília que se orgulha de servir…carnes argentinas!!! É ou não é uma Chose de loc?

Infelizmente, como seria de esperar, as consequências já começaram. As vendas despencam. As exportações desabam. Os mercados mundiais se fecham. Uma empresa de Curitiba, uma das “investigadas”, acusada sem defesa, mas já devidamente denegrida, demitiu 280 pessoas dia 22 de março. E, acreditem, muito mais demissões vem aí.

Pode ser que tudo tenha acontecido por “acidente”. Mas pode ser que tudo tenha sido feito de caso pensado. Para aparecer na mídia ou para obter algum tipo de ganho político. Só que, ao que tudo indica, o feitiço virou contra o feiticeiro. Afinal, como justificar uma operação tão desastrada que, como diz a PF, vinha sendo “preparada” há dois anos? Já daria para suspeitar de algo “contaminado” (na operação e não na carne) a partir daí. Então quer dizer que a PF “sabia” que os alimentos vinham sendo “adulterados” há dois anos, em tese “comprometendo” a saúde da população ao longo de dois anos, e só agora resolveu agir?

Ainda na terça-feira a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) divulgou nota afirmando que as conclusões da Operação Carne Fraca referentes aos danos à saúde pública não têm embasamento científico. A entidade diz que peritos foram acionados uma única vez e não comprovaram os danos.

Segundo o Jornal Folha de S. Paulo, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, afirmou que a “narrativa” da PF ao divulgar as ações da Carne Fraca está cheia de “fantasias” e “idiotices”. Nesta quarta-feira, o ministro disse que os prejuízos para o setor são estratosféricos.

Nem nos tempos bíblicos, nem nos rocambolescos tempos da idade média, uma nação padeceu de tanta falta de juízo. E vai tudo ficar por isto mesmo?

Deus do céu, por caridade, dê um pouco de juízo ao Brasil.


Ceska – O digitaleiro