Politica & Meandros

Plano Real 2.0 – A decência

Arte popular na Avenida Paulista.
Arte popular na Avenida Paulista.

O Plano Real 1.0 – A Estabilidade – Promoveu a estabilidade da moeda e livrou o Brasil de uma inflação crônica que parecia invencível. O êxito inconteste deste plano deu novo alento ao país e assegurou mais de uma década de prosperidade, além de ter vacinado o país contra a inflação. Os efeitos do Plano Real 1.0 vem perdurando e abarca toda a sociedade. Hoje o Brasil é unânime em dizer: “Inflação Nunca Mais”.

Agora precisamos de um Plano Real 2.0 – A Decência – para vencer a corrupção. Este mal chegou a um nível de infecção generalizada e compromete todas as instituições do país. O executivo está atolado em escândalos e o presidente só escapou de ser processado por negociar no congresso apoios despudorados e por exercer o presidencialismo de cooptação em sua plenitude mais viciosa. O congresso, para juntar o insulto à injúria, vêm com esta proposta que o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), considera um “desaforo”: a criação de um fundo público com R$ 3,6 bilhões para financiar campanhas. Os escandalosos salários e vantagens de altos dignitários do executivo, do legislativo e do judiciário são um escárnio diante das dificuldades e carências do país e mostram que os escrúpulos simplesmente desapareceram do três poderes. Desalentado, o país se vê vitima de absoluto desrespeito, sofre com seus 13 milhões de desempregados e vê milhões de cidadãos lutando para sobreviver em meio a maior crise da história, enquanto enfrenta carências de toda a ordem, na saúde, na segurança pública, nos transportes, na educação e em tudo o mais.

Em paralelo, o congresso, de composição medíocre, da qual se salvam alguns poucos, se mostra incapaz de oferecer qualquer perspectiva para o país. Mergulhado em profunda perplexidade, parece caminhar às tontas.

  • A Indignação em ponto de erupção

Existe um nível elevado de indignação na sociedade brasileira. E se a população não está nas ruas isto não significa que está aceitando o atual estado de coisas. Não está. E não se enganem, se a população não está nas ruas é porque não quer protestar só por protestar. Uma vez afastado o perigo mais imediato, que era o desvario da ex-Presidente Dilma, a população está se guardando para sair em apoio a uma causa que valha a pena. Poderá ser uma ideia. Poderá ser um líder. Mas é no vazio de alternativas que mora o perigo. Assim, antes que as multidões se deixem seduzir por algum maluco ou aprendiz de incendiário é preciso oferecer um projeto de moralização do Brasil. Um plano bem estruturado e bem orientado, que una e motive as pessoas. Um Plano Real 2.0, que continue a transformação virtuosa do Plano Real 1.0 e agora se oriente para a moralização do país. Um plano que tenha as virtudes do Plano Real 1.0, como bom planejamento e implementação equilibrada. Um plano, enfim, que tenha o sincero propósito de implantar uma nova cultura de decência no Brasil.

E assim como o Plano Real 1.0 trouxe para o Brasil as boas práticas da gestão monetária adotadas no primeiro mundo, o Plano Real 2.0 deveria se espelhar nas melhores práticas políticas dos países democráticos do primeiro mundo. Chega de jabuticabas. Está na hora de acabarmos de uma vez com esta mania de tentar reinventar a roda a golpes de parvoíce.

  • Plano Real 2.0 – FHC deve ser o líder.

Precisamos vencer o dilema que nos amarra à mediocridade: “Somos corruptos porque somos atrasados ou somos atrasados porque somos corruptos?”

Vencer e afastar a corrupção é a tarefa prioritária da nacionalidade. Chegou a hora de ouvirmos o que Sérgio Porto, o imortal “Stanislaw Ponte Preta”, dizia ser a nossa escolha: “Ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade.” E alertava para o fato de que, se fizéssemos a primeira opção, o planeta não teria dinheiro suficiente para saciar a voracidade de nossos corruptos.

Felizmente o Brasil tem o homem certo para liderar a formulação de um Plano de Moralização e produzir um consenso na sociedade brasileira. O Presidente Fernando Henrique Cardoso já provou que sabe conduzir com bom senso e equilíbrio um plano capaz de mudar fundamentos equivocados do país. FHC já prestou muitos serviços ao pais, mas o Brasil deve pedir mais este serviço ao Presidente do Real. Ao líder que resgatou nossa moeda, que acabou com nossa inflação alucinada, pediríamos que formulasse as diretrizes para o Plano Real 2.0, o plano que teria a finalidade de encaminhar as mudanças no rumo da moralização e da modernização de nossas instituições.

Evidentemente, uma vez feito o plano sob liderança de Fernando Henrique Cardoso, caberia a sociedade apoiar as mudanças constitucionais necessárias e ao eleitorado escolher o executor da grande transformação do país.

De minha parte, acredito que o político mais provado, experiente e capaz de liderar a implementação do plano seja o governador Geraldo Alckmin. Sua administração em São Paulo é evidência de sua capacidade como realizador. E sua liderança firme e de pés no chão é o tipo de liderança que um plano como este precisaria para ser bem sucedido. Um plano sólido, implantado com base no bom senso e em práticas comprovadas nos países de referência democrática, seria capaz, finalmente, de nos livrar da praga da corrupção e de levar o Brasil a cumprir, finalmente, seu destino de grande país. E que teria orgulho em proclamar: “Corrupção no Brasil, nunca mais”!

PS. Diversos comentários questionam como um Plano Real 2.0 poderia se contrapor às mudanças da tal “reforma política”, ora em gestação no congresso. A resposta está na “Lei de Camões” (Como escrita em “Os Lusíadas”):

Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor maior alto se alevanta” 

Se houver apoio popular suficiente, o mundo político encontrará os mecanismos legais para fazer valer o Plano. Uma nova musa que se levante sempre irá deslocar a antiga.


Ceska – O digitaleiro

Os Correios eram assim, nos dias do Coronel Botto

coronel_botto_convenio_sp
Cerimônia de Assinatura do Convênio entre a SUDELPA e a ECT. Na foto: 1- Governador Laudo Natel; 2- Cel. Adwaldo Botto; 3- Antônio Castilho; 4- O autor (Celso Skrabe); 5 – Secretário do Governo (Não tenho o nome)

Era uma vez um país que tinha um correio.

Era o melhor correio do mundo. O povo todo confiava. Tudo funcionava como um relógio. O presidente da instituição, um sergipano “porreta”, tinha uma máxima que virou um mantra: “correio é horário”.

Os outros países, acostumados com a malemolência brasileira, no começo ficaram pasmados com a transformação daquele correio vira-latas. – Seria o “super-homem”?  – Depois, ainda incrédulos, se perguntavam como podia existir um correio daquele calibre no país das maracutaias, da selva amazônica, do sertão profundo, do pantanal intransponível, das estradas intransitáveis? Finalmente, se renderam. No Correio do Brasil, o homem que mandava sabia das coisas. Não demorou e a surpresa virou admiração. O respeito internacional cresceu tanto que logo chamaram aquele mago das cartas e encomendas para mostrar como se faz um correio funcionar.

Em 1984, no Congresso de Hamburgo/Alemanha, o Presidente da ECT, Coronel Eng. Adwaldo Cardoso Botto de Barros foi eleito Diretor Geral (Presidente) da UPU – União Postal Universal. A UPU é o órgão da ONU, com sede em Berna, na Suíça, que regula e organiza os correios de todo o planeta. Era o reconhecimento do mundo pela competente transformação nos Correios do Brasil. E tão operosa foi a gestão do Coronel Botto na UPU que a entidade lhe garantiu a reeleição por mais 5 anos, em 1989.

De minha parte, conheci bem o Coronel Botto. Tudo começou quando ele ainda dirigia o Correio de São Paulo, conduzido ao cargo por indicação pessoal do Presidente Castelo Branco.

Eu, em meus verdes vinte e sete anos, trabalhava na antiga AEG Telefunken, onde atuava na área comercial de equipamentos de rádio comunicação em SSB. Estes rádios funcionavam em ondas curtas e usavam apenas meia banda, o que os tornava mais leves (para a época…) e podiam ser instalados em estações fixas ou em veículos, como caminhonetes, ônibus e embarcações. Também podiam ser usados para fonia ou para telegrafia sem fio. Neste último uso, combinando diversas frequências para compensar variações de propagação, eram tão confiáveis quanto a telegrafia tradicional, com fio de cobre.

Um dia, acho que foi em agosto de 1971, logo cedo, ao chegar no escritório que ficava junto ao parque industrial da empresa, instalado em grandes prédios na Avenida Nossa Sra. do Sabará, em São Paulo, a secretária me passa um telefonema:

   – Está no telefone uma pessoa que se diz diretor do Correio e quer falar com alguém da área comercial.

   – Ok, pode passar a ligação.

Do outro lado da linha ouvi o Coronel Botto, embora naquele momento não soubesse de quem se tratava.

   – Bom dia. Sou Celso Skrabe, consultor da área de rádios SSB.

   – Bom dia. Meu nome é Adwaldo Botto, mas todos aqui me conhecem como Coronel Botto. Sou o diretor dos Correios aqui em São Paulo e gostaria de saber se vocês teriam condições de nos emprestar dois rádios SSB no período das férias de verão. Podem ser rádios usados ou de demonstração.

Eu fiquei intrigado. Sabia que o correio não usava rádios para seus serviços de telégrafo. Era uma coisa que já me havia chamado a atenção e que eu atribuía ao nosso atraso tecnológico. Na verdade, eu já tinha fornecido rádios para a Funai, para a FAB e outras instituições que os usavam para comunicação na selva e que, frequentemente, faziam o envio de mensagens da população local. Estas instituições, contudo, reclamavam, já que não tinham infraestrutura para entregar as mensagens aos destinatários. Para fazer o envio precisavam repassar os telegramas para o Correio, acarretando demora desnecessária em mensagens urgentes e ônus para as instituições.

Enfim, fui em frente:

   – Bem Coronel, se eu entendi certo, o que o senhor quer é que emprestemos dois rádios SSB no final do ano, de novembro a março. Seria isto?

   – Sim. Eu gostaria de instalar um dos rádios em Ubatuba, no litoral, e outro aqui em São Paulo para fazermos um teste para nossa área de telegrafia. Hoje não temos um único telégrafo instalado no litoral paulista. Em nenhuma cidade. E, durante as férias, a população cresce muito e reclama da falta de comunicação. E, para piorar, as cidades do litoral também não tem telefone. Ubatuba tem apenas uns poucos telefones públicos e a espera de uma linha para uma ligação, nos meses de verão, pode levar horas. Ir de ônibus é mais rápido do que telefonar. Na alta estação demora duas, três, as vezes quatro horas.

Era verdade. Quando iniciou o governo militar, em 1964, as comunicações no Brasil eram uma coisa medieval. Este estado de coisas ainda perdurava no início da década de 70. Me pareceu, desde logo, que meu interlocutor queria fazer algo para amenizar isto.

Respondi então:

   – Posso verificar se temos equipamentos disponíveis e preciso consultar nossa diretoria para saber se podemos atender. – E lembrei de um detalhe – Se eu conseguir os rádios, o correio já tem as frequências? – No caso, os rádios precisavam de cristais para fazer a modulação. Estes cristais eram feitos sob medida para cada usuário e dependiam de licença do DENTEL.

O Coronel Botto, então, confidenciou:

   – Olha, eu preciso que vocês me emprestem também as frequências. O correio não tem frequências autorizadas pelo DENTEL para uso em telegrafia e eu, como diretor regional, não tenho autoridade para solicitá-las. Minha ideia é que, se conseguirmos fazer uma conexão de telégrafo sem fio bem sucedida, talvez eu possa quebrar a resistência contra o uso de radiotelegrafia no correio e argumentar para a liberação de seu uso com nossa presidência. Se conseguir demonstrar que a radiotelegrafia funciona acredito que possamos comprar rádios para todas as localidades do litoral paulista hoje sem telégrafo. Talvez possamos comprar rádios até para outras praças não atendidas.

Esta questão das frequências me parecia mais complicada do que conseguir os dois rádios. Duvidava que o Dr. Cardoso, nosso presidente, fosse aceitar que instalássemos frequências de teste em rádios que seriam usados para telegrafia pelos correios. A empresa era alemã e seguia normas estritas do que se podia, ou não, fazer. E como o empréstimo de frequências não estava previsto nas nossas autorizações do DENTEL, dificilmente seriam autorizadas. Não era formalmente proibido, mas ficava no limbo legal e eu teria que consultar nossa assessoria jurídica. Traduzindo: era proibido tudo o que não estivesse formalmente permitido.

Aí resolvi pedir uns dias para verificar meios de atender ao que o coronel me solicitava. E, como estávamos em pleno regime militar, me atrevi a perguntar:

   – Coronel, o senhor, com seus contatos no governo, não teria meios de liberar umas duas ou três frequências junto ao DENTEL, mesmo que em caráter provisório?

A resposta do coronel foi direta:

   – Exatamente aí é que está o problema. Falar em telegrafia por ondas curtas aqui no Correio é tabu. Não é que eles desconheçam uma tecnologia que, desde antes da guerra, está em uso em todo o planeta. Mas tem muito dinheiro envolvido nas redes telegráficas de cobre. E tem muita gente lucrando com elas. Assim, jamais eu conseguiria formalizar um pedido de frequências ao DENTEL. Eu não consigo autorização nem mesmo para pedir frequências provisórias. Ao contrário, seu eu mexer errado, posso por tudo a perder e ser proibido expressamente de testar o uso dos rádios. Aí meu projeto vira fumaça e você perde a chance de vender rádios para o Correio. Venha me fazer uma visita eu explico o que está acontecendo.

Caramba, pensei com os meus botões, aí tem algum mistério da “mão invisível do mercado”. Não a mão invisível descrita por Adam Smith, claro, mas aquela outra, bem brasileira, inventada pelo capeta!

Foi a esta altura que tive um estalo e liguei as pontas. Ocorre que, por uma destas coincidências que mostram que Deus ainda não tinha desistido do Brasil, eu havia acabo de fechar a venda de uma rede de rádios SSB para a Sudelpa, a Superintendência de Desenvolvimento do Litoral Paulista. Precisamente a agencia estadual criada para fomentar o desenvolvimento do litoral de São Paulo, onde, claro, se situa a cidade de Ubatuba. Não era preciso ter o QI do Einstein para perceber que havia uma coincidência de interesses: o Correio queria instalar um telégrafo em Ubatuba e a Sudelpa ficaria muito feliz se contribuísse para a instalação do telégrafo em Ubatuba. Afinal, o que mais poderia contribuir para o desenvolvimento da região a curto prazo se não instalar o telégrafo dos correios na época das férias que se avizinhavam? E, ainda mais, a um custo praticamente zero?

Ademais, a Sudelpa tinha as frequências de SSB já concedidas e até já tinha recebido alguns dos rádio comprados. Todos, entretanto, da versão móvel, instalados nas caminhonetas, que foi a prioridade solicitada. A conclusão lógica saltava aos olhos: se o governo do estado cedesse os rádios e emprestasse uma ou duas das suas frequências teríamos resolvido o problema. Ubatuba teria telégrafo funcionando na alta estação e o Coronel Botto poderia mostrar que a solução funcionava.

Por um momento pensei em consultar informalmente o superintendente da Sudelpa, Antônio Castilho, sobre a ideia, mas achei que deveria antes saber como o Coronel Botto veria esta alternativa de solução. Liguei marcando uma visita e, no dia seguinte, na hora marcada, (sete da manhã!) fui vista-lo em seu escritório, no antigo prédio dos Correios, no início da Avenida São João.

Na manhã friorenta do dia seguinte o Coronel me recebeu em sua sala e, após uma conversa introdutória, foi direto ao assunto:

   – A direção nacional dos Correios fica no Rio de Janeiro. E lá, na alta direção, existe uma máfia dos fios de cobre. O presidente é um militar da reserva, mas de patente maior que a minha, e só posso supor que ele também está envolvido no esquema. O pessoal lá do Rio sabe que se ficar provado que os rádios de ondas curtas em SSB podem atender nossa necessidade com telegrafia sem fio, na mesma hora acaba todo o negócio deles e, junto, terminam as propinas milionárias que eles recebem. O esquema é perverso porque o custo de implantar o serviço de telegrafo com fio tradicional é astronômico. Para qualquer localidade são quilômetros e quilômetros de fios e milhares de postes a serem instalados. Além do sistema depender de conexões e triangulações intermináveis, com o repasse de telegramas. Chega a ser ridículo o número de erros nas mensagens repassadas. Sem falar no roubo constante dos fios, fato que requer reposição constante e consome todos os recursos de expansão. E sem dinheiro expansão não há. Desde que estou aqui não implantamos nenhuma nova estação no estado. Por isto, pelo sistema tradicional, o litoral paulista vai levar ainda muito anos para receber o serviço de telégrafo. Infelizmente, para os dirigentes da estatal nada disto importa. Daí meu cuidado em tentar uma operação discreta. Precisamos mudar este estado de coisas, mas se o pessoal da máfia do cobre descobrir o que estou tramando, me impedem ou me demitem na hora.

Ainda retruquei:

   – Mas coronel, sendo o senhor indicado para a Superintendência dos Correios em São Paulo pelo presidente não seria o caso de recorrer a ele?

   – Eu fui indicado pelo Castelo Branco. Tenho bons amigos no governo, mas não tenho a mesma intimidade com o presidente atual. E depois, a situação não é tão simples. Esse pessoal da máfia tem controle sobre a empresa e seus projetos e existem muitos interesses envolvidos. O sistema de telegrafia sempre foi a vaca leiteira da corrupção aqui nos Correios e tem muita gente mamando. Eles não vão largar o osso assim fácil. Sei que tenho a confiança do governo, fui colocado aqui pelo Presidente Castelo Branco, mas prefiro agir de modo a criar fatos consumados e usar a evidencia para forçar as mudanças. Seria desperdiçar a janela de oportunidade que temos se abrir uma guerra interna, um conflito em que a causa maior dos correios e das comunicações pode ser sacrificada em meio a uma luta politica.

Agora dava para entender o dilema do Coronel Botto. Em resumo, se ele tentasse furar o bloqueio da máfia do cobre de peito aberto, possivelmente seria demitido. Mesmo com o ministro e o presidente da República desejando ficar ao seu lado, a realidade é que havia todo um jogo de interesses políticos e militares conspirando contra ele.

A solução imaginada pelo Coronel Botto, assim, era estrategicamente brilhante. Se fizesse funcionar satisfatoriamente uma estação de radio telégrafo no litoral paulista, uma só que fosse, abriria uma brecha na represa da corrupção e a pressão da demanda iria forçar a mudança na política e alterar o jogo. De fato, como alguém iria se colocar no caminho de uma solução que custava menos de 1% do método tradicional, era muito mais versátil, tinha implantação rápida (dias ao invés de anos) e era altamente lucrativa?

O Brasil do início dos anos 70 ainda estava em lua de mel com o governo militar. Os velhos cabides de antes da revolução, como os Correios, esperneavam e resistiam tanto quanto podiam, mas, no caso dos correios, o fim do empreguismo e da corrupção estava à vista e a era de ouro estava em marcha. O coronel Botto era um destes homens providenciais, o homem certo na hora certa. Engenheiro, bem preparado, íntegro, patriota, ansiava por melhores comunicações para o país e sabia que os correios precisavam dos recursos a serem gerados pela expansão dos serviços de telégrafo. O ponto chave de seu plano, contudo, era fazer as evidências falarem por si sós. E para conseguir isto era preciso, como repetia sempre, “navegar abaixo da linha do radar”.

O coronel, a esta altura da nossa conversa, me convidou para ir tomar um café em uma padaria ao lado. O café aos funcionários fora reduzido e só seria servido as dez horas. Enquanto sorvíamos o café cheiroso daquelas máquinas “Monarca”, típicas dos bares paulistas da época, expliquei a ideia de falarmos com a Sudelpa e o governo paulista para atendermos seu plano de conseguir o empréstimo de dois rádios SSB equipados com as frequências. O coronel ouvira falar da Sudelpa, a Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista, mas não tinha conhecimento exato de sua função. Quando terminei de explicar o que aquela instituição fazia e como poderia se associar ao seu plano para levar telegrafia sem fio ao litoral de São Paulo, ele virou um dínamo de entusiasmo. Seus olhos brilhavam:

   – Se a Sudelpa ajudar os correios a operação está garantida. Ubatuba vai ter telégrafo e, depois, vamos conectar todo o litoral.

Em face da manifestação de entusiasmo nem precisei perguntar: a autorização para falar com a Sudelpa estava concedida.

A confiança do Coronel Botto era uma coisa contagiante. Em geral comedido nos gestos, no entusiasmo do momento ele tirava e colocava os óculos sem parar e gesticulava como um napolitano na Festa di San Gennaro.

Assim que nos despedimos peguei meu fusca azul, estacionado ali nas imediações, e subi a Avenida Angélica, onde ficava a Sudelpa.

Me dirigi direto à secretária e pedi para falar com o Dr. Castilho.

A moça me olhou com se eu tivesse chegado de Marte.

   – O senhor tem hora marcada? O Dr. Castilho deve estar chegando e já tem um pessoal esperando por ele para uma reunião.

Eu nem precisei argumentar. O superintendente estava entrando e, ao me ver, veio me cumprimentar com aquele ar de pressa educada. Estava esbaforido e em cima da hora.

Antes que me descartasse fui logo falando:

   – Dr. Castilho, sei de sua reunião e não quero atrapalhar, mas o assunto que tenho é uma oportunidade única e eu precisaria dois minutinhos de sua atenção reservada.

Achei que ele me mandaria voltar mais tarde, mas eu ainda devia estar sob a influência do entusiasmo do Coronel Botto, que era uma coisa contagiosa, e o Dr. Castilho resolveu me conceder os dois minutinhos.

Fomos a uma sala contígua e eu expliquei resumidamente o que tinha a dizer. Os olhos do Dr. Castilho quase saltaram das órbitas.

   – Mas esta é uma oportunidade fantástica! Eu estava precisamente procurando maneiras de mostrar serviço lá na região. Vamos topar com certeza. Pode contar comigo.

Eu me apressei a marcar um próximo passo:

   – O senhor estaria disposto a ter um encontro pessoal com o Coronel Botto para conversar?

   – Sem dúvida nenhuma. E gostaria que fosse o quanto antes. Acontece que eu tenho uma reunião com o secretario nos próximos dias e gostaria de levar a ele esta ideia já mais elaborada.

   – Se o senhor me autoriza, ligo agora de seu gabinete e falo com o Coronel e vejo quando podemos marcar.

Enquanto o Superintendente entrava em sua reunião liguei para o Coronel. Expliquei o resultado do contato e o desejo do Dr. Castilho de fazer a reunião o mais rápido possível.

O coronel respondeu sem titubear um segundo:

   – O mais rápido possível é agora, mas vamos deixar para depois do almoço. Se ele puder me receber, podemos marcar aí as duas horas da tarde.

   – Se o senhor puder esperar na linha, vou confirmar com o Dr. Castilho.

Fiz um bilhetinho e pedi para a secretária levar na reunião e confirmar o horário com o superintendente. A resposta veio escrita em maiúsculas no bilhete: “ESTÁ MARCADO”.

Voltei ao telefone:

   – Coronel, a reunião está confirmada para hoje, as duas horas da tarde.

   – Ótimo, ótimo. Vou cancelar umas coisas que tinha marcado por aqui e chego aí as duas horas.

Acabei ficando por ali. Precisava fazer hora. Comprei um jornal, fui almoçar em alguma espelunca da Angélica, que meu tíquete refeição era igual ao da peãozada da fábrica, e voltei cedo ao escritório do presidente da Sudelpa.

Dez para as duas chegou o Coronel Botto. Vinha acompanhado de um engenheiro a quem incumbiria cuidar dos aspectos técnicos.

Na reunião os dois homens de ação se entenderam de imediato. Sem delongas inúteis, debateram as alternativas. Castilho disse que, caso fossemos usar o rádio das caminhonetes, ele poderia ceder até umas quatro ou cinco para o período das férias daquele ano. Além de Ubatuba poderiam ser atendidas outras cidades. Inclusive Registro, cidade pela qual Castilho tinha grande consideração. Para a estação no correio central eu prometi antecipar a entrega de um rádio fixo e instalar a antena no telhado da agencia central. A reunião do Superintendente da Sudelpa com o Secretário se daria em uma semana e o Dr. Castilho queria um teste do funcionamento da solução para que o assunto pudesse ser levado ao Governador Laudo Natel.

Ao que eu lembro, a reunião se daria na quarta feira da semana seguinte. Então combinamos fazer um teste logo na segunda feira, com uma caminhonete com rádio posicionada próximo a agencia dos correios em Ubatuba e a estação fixa instalada em uma unidade de Assistência Técnica da Telefunken localizada na Avenida Pacaembu, a uma quadra da Avenida São João e a uns dois quilômetros em linha reta da agencia dos correios. Dada a precariedade do tempo, a antena seria fixada provisoriamente do lado de fora, estendida entre duas janelas.

Tudo pronto, uma caminhonete instalada em Ubatuba e o rádio na Barra Funda instalado, as nove horas começa o teste para valer. Os dois pontos já tinham feito contatos bem sucedidos, mas agora era oficial. Estavam na sala, em São Paulo, o coronel Botto, seu engenheiro, o Dr. Castilho, um engenheiro da Polícia Militar de São Paulo especialista em comunicações, eu e meu chefe na Telefunken, Wayland Coats além, obviamente, de um operador do rádio e do telegrafista do correio. Nove em ponto, o rádio ligado, entra a voz do operador de Ubatuba, falando da caminhonete.

   – QRA Ubatuba – QAP (Estação na escuta).

O sinal vinha claro e límpido, tanto quanto era possível, considerando que o SSB aproveita só meia banda. Mas a emoção tomou conta da sala.

O operador de São Paulo responde:

   – QRA estação São Paulo. Sinal com clareza cinco. Repito, clareza cinco.

Nem precisava repetir. Óbvio que, se era clareza cinco é porque era clareza cinco. A comunicação era limpa e perfeita.

Em seguida São Paulo inicia o teste para valer:

   – Segue QTC em Morse.

E ambos os telegrafistas fizeram a troca de mensagens em condições tão boas quanto o fariam no telégrafo com fio. Bastou uma tentativa. E até houve espaço para o humor:

   – Favor QRQ (transmita mais depressa…)

Terminada a troca de mensagens, todos na sala sentiram a mesma emoção que devem ter sentido os cariocas que testemunharem a iluminação do Corcovado, em 12 de outubro de 1931, quando, numa cerimônia organizada pelo jornalista Assis Chateaubriand e presidida pelo Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Paes Leme (filho de Espírito Santo do Pinhal) e pelo Presidente Getúlio Vargas, o cientista italiano Guglielmo Marconi, inventor do rádio, e o Papa, acionaram um dispositivo que enviou um sinal de rádio que iluminou o Cristo Redentor. A iluminação que brilhou no céu aconteceu no início da noite, as 19 horas e quinze minutos e assim foi relatada por Marconi, em sua biografia escrita por Filippo Garozzo:

“Então todos ficaram olhando para o morro, esperando o milagre a ser produzido pelo homem. E o milagre aconteceu pontualmente. O Papa e Marconi, em Roma, apertaram uma chave de transmissor e um sinal partiu rápido da Cidade Eterna, deslizou sobre o Atlântico mais velozmente que o relâmpago, e atingiu o Cristo Redentor, construído sobre o Morro do Corcovado, na Baía de São Sebastião do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa. E o Cristo, de repente, ficou tão resplandecente e brilhante de luz que mais se assemelhava a uma festa! Parecia até outro Cristo, risonho e mais bonito, agora que estava iluminado e inaugurado pela mão do Santo Padre e pelo gênio de Marconi.”

O espantoso desta história é que o corrupto Correio brasileiro da época, mesmo depois de atravessar quarenta anos e uma guerra mundial, ainda enfiava a cabeça na areia, ainda parecia não ter tomado conhecimento das ondas de rádio e se aferrava aos fios de cobre.

De toda forma, após o teste entre o litoral e a capital, estava resolvida a questão técnica. Faltava, agora, resolver a questão política.

O Dr. Castilho levou os laudos do teste para o Secretário, que, junto com o Superintendente da Sudelpa, os levou ao Governador Laudo Natel. Esta reunião não assisti. Mas soube dos resultados depois.

Segundo o relato do Dr. Castilho, o governador ouviu todo o relato e deu uma olhada nos laudos para então dizer:

   – Os senhores devem estar brincando comigo. Como eu posso justificar para a opinião publica que vamos beneficiar apenas uma cidade em detrimento das outras?

O secretário e o Dr. Castilho tentaram justificar:

   – Desculpe, governador, mas nossa proposta é emprestar os rádios para atender um pedido do Correio e começar fazendo um teste. Primeiro seria Ubatuba, mas depois o correio nos assegurou que vai poder estender o serviço para as demais localidades…

O governador teria ficado impaciente:

  – Quanto custa cada estação? – Quis saber o governador.

  – Metade do custo de um fusca, foi como o Dr. Castilho teria respondido.

  – E quantos postos de correio existem no litoral?

  – Cerca de vinte localidades.  – Teria sido a resposta do Dr, Castilho.

Laudo Natel, então, teria resolvido a questão:

   – Se este é o número vamos fazer nossa parte. Vamos formalizar logo um convênio doando os rádios ao Correio e oferecermos telégrafo no litoral paulista ainda neste verão. Vamos comprar os rádios e fazer uma festa nas vinte localidades logo que começar a alta temporada.

   – Mas será que teremos tempo? – Quis saber o Secretário.

   – Os senhores já devem conhecer minha frase preferida: “fazer o possível agora e o impossível depois.” Se precisar, o senhor empresta suas caminhonetes.  Então vamos logo adquirir os tais vinte rádios e providenciar imediatamente o convênio para oficializar a doação da Sudelpa para os correios.

E assim foi feito. O governo de Laudo Natel celebrou o convênio entre a  Sudelpa – Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista e a ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, formalizou a doação dos rádios – como ficou registrado no flagrante acima – e inaugurou os novos pontos de telégrafo naquela temporada de praia com uma grande festa. E todos foram felizes até quando uma nova geração de corruptos ressurgiu nos governos Lula e Dilma e passou a meter a mã0 e novamente avacalhar com os correios. 

PS.

1) – Os rádios foram entregues a tempo mas as frequências estavam demorando perigosamente. O governador, por seu turno, queria que os rádios fossem instalados já com as frequências definitivas. Acontece que o Dentel estava criando problemas. Contaram-me que o governador, em raro momento de irritação, teria ligado diretamente para o Presidente da República, o General Médici. Como por encanto, as frequências vieram rapidinho e a tempo.

2) – Quando a máfia do cobre e a alta direção dos correios soube do “golpe baixo” do Coronel Botto ficou espumando de raiva e foi reclamar com o presidente. Pensaram que iam tosquiar o coronel Botto mas saíram tosquiados. A solução foi típica do governo militar: a diretoria corrupta foi demitida sem delongas e – surpresa! – sabem quem foi escolhido como o novo presidente da Empresa Brasileira de Correios? Ele mesmo, o Coronel Adwaldo Cardoso Botto de Barros, o sergipano porreta, o Coronel Engenheiro do Exército Brasileiro que mais entendia de comunicações e um personagem que nos enche de orgulho e que marcou seu nome na história como o responsável pela criação do serviço de SEDEX, pela criação do POSTALIS e pela era de ouro do correios do Brasil. De sobra, ainda dirigiu a renovação tecnológica dos correios de todo o planeta. O resto da história vocês já conhecem.

3) – Muitos anos depois reencontrei o Coronel Botto no Aeroporto de Guarulhos. Ele já era, então, presidente da UPU – União Postal Universal. Ao me ver, o coronel Botto veio ao meu encontro e fez questão de me convidar para um café. Nos quinze minutos que faltavam para seu horário de embarque, relembramos o episódio dos rádios e dos “telégrafos de férias”, episódio que ele lembrava com carinho e via como “a mudança da maré” de sua carreira nos Correios, que presidiu por 12 anos, e, por extensão, de seu papel como líder mundial dos correios por oito anos. Fez-me um convite para visitá-lo na Suíça, mas vai ter que ficar para uma outra vida. Nunca mais o vi, porém tampouco o esqueci. E foi com grande tristeza que li a notícia de sua morte em janeiro de 2015, quando nos deixou, aos 90 anos de idade.

Homens como ele temos poucos e nos fazem muita falta. Que seu legado de competência e integridade frutifique e que Deus o tenha.


Celso Skrabe


Lula e o Vaso Chinês

 

lula_vaso_chines1
Lula mesmo disse que é agora só um “Vaso Chinês”. Ele elegeu um poste e acha que agora elege um vaso? Tá tudo muito doido.
  • Lula e o Vaso Chinês

O Lula é finório de papo e, de prosa, muito bom,

tanto que garante, na conversa vaidosa, que o país não tem “alma mais pura”,

só que o maroto de sempre fez do Brasil sua troça e de nosso futuro sepultura;

Moleque, comia calango cozido no ensopado de jerimuns,

depois, já em “Sum Palo,” tomou gosto em usar o gogó e tapear o povo sofrido,

se fazendo de grande amigo nos discursos de paletó;

Competente prometedor de vício antigo, prometeu tudo de baciada.

Promessa fez de montão, mas era tudo fantasia

de uma falador que se fazia de Patativa do Garanhuns;

Demagogo caviloso e muito esperto, um jagunço redivivo,

sempre foi imbuído da mais pura desfaçatez.

Enganou gente com fome e deixou amargurado quem pensou que teria vez.

Rei da “istripolia”* tenebrosa, foi um presidente comodista.

Querendo, tudo podia, posto que tinha o poder da nação,

mas todo dia mentia e, por sua gente, não se atrevia nem um tiquinho não;

Homem tosco e de pouca cultura, à beber sabedoria ele preferia uma boa pinga,

o cabra tinha medo de livro e do saber corria feito o diabo da cruz,

porém lábia tinha muita sobrando e ludibriava o povo como ninguém;

Com seu talento maneiro e um traquejo verbal colosso,

tivesse sido homem digno, ou mesmo um poeta de tabuleta,

teria enricado e virado santo só fazendo rima e caçando “barbuleta”.

Mas sendo um insensato que pela ambição foi picado,

vendeu fiado sua alma ao capeta e logo trocou tudo e fez errado:

meteu os pés pela mão e, aloprado, “Cantou cá” o que devia “Cantar lá”.

Tivesse sido fiel a seu berço, ao seu povo e sua nação,

tivesse refreado, só um pouquinho, sua insana ambição,

teria sido, se fosse bom e honesto, o grande presidente da redenção.

Mas, qual nada, era fraco de caráter e gostou do encosto macio.

Se cercou de puxa-saco e zuniu de avião a jato, movido à corrupção.

Virou um “bon vivant”, liso como quiabo, esperto como o diabo e malandro como o tiziu.

Lula, cabra indomado, vaidoso e arrogante, se deixou cair em tentação.

Deu uma banana malvada, rasteira e desalmada, ao seu povo sofrido,

que só teve consolo num bolsa família de ralas migalhas de humilhação.

Mascate de ilusões tarimbado, Lula pegou na mão o que pode,

enricou ainda mais os ricos e mandou dinheirama até para outras nações,

mas o Brasil, pobre coitado, além de pagar a conta, ficou na pior condição.

E diferente do Patativa do bem, que cantou as mágoas de quem pouco tem,

esse embusteiro terrível só queria mesmo levar vantagem

e, para dizer a verdade, nunca foi leal a ninguém.

Agora, o país lastima o tanto de dinheiro roubado no governo dele e da Dilma,

enquanto falta hospital e falta tudo mais na sofrida “classe matuta”,

“que nem em sonho mais desfruta as riquezas do Brasil”;

Lula, se acaso fosse mesmo verdade que ele nada sabia,

como repete, com monotonia, o seu surrado refrão,

seria pior que um mau vigia que abre a porta da casa para deixar entrar o ladrão;

Todos sabem que um corno só é enganado se for frouxo ou bobalhão.

Se roubaram nas suas barbas fortunas de muito milhão,

além de ser condenado, merece uma surra de vara do sofrido povo do sertão.

E nosso triste nordeste, ainda mais empobrecido e calcinado,

outra vez foi logrado sem a menor contemplação,

e, decepcionado, ficou ainda mais “nordestinado” depois deste sonho de verão.

E se pensa, este traíra, viver de luxo no bem bão,

o velhaco se engana total e completamente. Que bote as barbas de molho

que desta vez não escapa das grades da prisão.

E agora, desmascarado, que sabe não ser mais nada,

que desceu do pedestal, que é réu na Lava Jato da Justiça Federal,

ainda vive se iludindo com o poder que já não tem mais;

Quer de novo, este tratante, voltar a ser presidente,

dizendo, na cara dura, que vai arrebentá e prendê. Mas ele está muito enganado,

pois seu prestígio é do passado, tal como foi do passado sua força e seu poder;

Ao povo brasileiro, este sujeito matreiro, nunca mais engana não.

E se ainda tivé povinho prá acreditá na sua enganação,

o santo padinho Ciço vai mandá todinho ele para a eterna danação.

Mas pretensão é pior que bicheira prá apodrecê coração.

Esta vontade traiçoeira de mandá no povo de novo e que faz coceira na sua língua,

só precisa um gole de pinga prá desandá em falação.

Mas a um povo inteligente só se engana uma só vez;

Lula, por isso, disse ao Moro, falando de sem pulo, sem saber bem o que fez:

Eu já não sou mais presidente. Agora eu só sou um “Vaso Chinês”!.


 Ceska – O digitaleiro


(*) As expressões e frases em itálico foram inspiradas em poesias de Antônio Gonçalves da Silva, poeta e trovador cearense conhecido como “Patativa do Assaré” (1909 – 2002).


Leia também

Doctors in a research station with digital screens and keyboard
Ideias da Medicina Baseada em Evidência podem ajudar a Democracia Baseada em Evidência (Link abaixo)

Democracia Baseada em Evidência

Democracia Baseada em Evidência

A Democracia Baseada em Evidência pode aprender com a Medicina Baseada em Evidência melhores terapias para curar os males que nos afligem.
A Democracia Baseada em Evidência pode aprender com a Medicina Baseada em Evidência melhores terapias para curar os males que nos afligem.

Vamos nos alinhar ao mundo que deu certo, para variar?

O mundo contemporâneo, este que emerge da Quarta Revolução Industrial, o chamado Mundo 4.0, gira em volta da Inteligência Artificial (IA). Este mundo em transformação, revolucionário e disrruptivo, vem quebrando todos paradigmas. Para começar, o mundo já não se divide mais entre esquerda e direita. Ele se divide em digital e analógico; em funcional e disfuncional; em veloz e capenga. Este novo mundo é conectado ao universo digital e vai se distanciando cada vez mais das partes velhas, desarvoradas, sem eira e nem beira, perdidas na poeira das nações de ponta.

A diferença entre as nações bem sucedidas e as fracassadas se acentuará de modo irreversível à medida que a Quarta Revolução Industrial for mudando a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. A Primeira Revolução Industrial utilizou água e vapor para mecanizar a produção. A Segunda se valeu da energia elétrica para criar a linha de montagem e a produção em massa. A terceira usou a eletrônica e a tecnologia da informação para automatizar a produção. Agora, a Quarta Revolução Industrial vem no bojo da Inteligência Artificial. Mais do que nunca, será o novo contra o velho; o múltiplo contra o monocórdio; o inteligente contra o obtuso.

O Brasil, felizmente, tem núcleos que já ingressaram no Mundo 4.0. Empresas como Embraer, Tramontina, Fanem, para ficar apenas em algumas que atuam no cenário mundial, já estão neste mundo novo. O agronegócio brasileiro figura entre os mais avançados do planeta. Nele a IA – Inteligência Artificial – vem sendo adotada intensivamente. Tratores e colheitadeiras dispensam operadores e trabalham com piloto automático, orientadas por GPS. Drones supervisionam do ar rebanhos e lavouras e fazem pulverização de fertilizantes e inseticidas. O gado é rastreado com chips de RFID. Isto tudo da porteira para dentro, claro, porque da porteira para fora caem no Brasil meia-boca de sempre. Armazenagem insuficiente, estradas imprestáveis, ferrovias por construir, portos limitados e subdimensionados. Um Brasil imensamente rico em potencial, mas contaminado pela corrupção, dirigido por incompetentes e pilhado dia e noite por bucaneiros da política, salvo as honrosas exceções, que existem e são fonte de esperança e alento.

Agora, porém, em meio a maior crise de nossa história, chegou a hora de repensarmos o Brasil. E de reformarmos este arremedo de democracia que tem se mostrado uma madrasta para o país.

Para fazermos nossa democracia alinhar-se aos requisitos da Quarta Revolução Industrial precisaremos que atenda três exigências:

  • – Deve ser digital, conectada, inteligente, online e funcionar em tempo real;
  • – Deve ser aberta ao cidadão, criar espaço para o debate permanente das questões mais importantes, e permitir que de todos os interessados na política do país tenham acesso a canais de transparência com todas as áreas do governo;
  • – Ser capaz de integrar os cidadãos no processo de tomada de decisão, oferecendo suporte decisório baseado em “evidências” sobre tudo o que diga respeito a vida da sociedade e as boas práticas.

Em princípio, não é difícil, havendo vontade. Mas temos que entender que a democracia Brasileira enfrenta um desafio de vida ou morte. Se não transformar-se radicalmente, continuará vulnerável ao assalto de demagogos e populistas. Se vierem demagogos populistas, com desclassificados padrão Lula, a crise não se resolverá nesta geração. Tomada por desalento, a democracia será dissolvida no ácido de seu fracasso e de sua inépcia. E termos uma ditadura no horizonte.

Mas sejamos otimistas. A oportunidade que o Mundo 4.0 nos abre, com as novas tecnologia e a Inteligência Artificial, permite que venhamos a ter uma democracia inovadora, vibrante e alinhada com a cibernética, para substituir a atual que é burocrática, caduca, lenta e fenecente.

A chave, contudo, para o êxito de uma democracia digital no Mundo 4.0 não se limita à velocidade nas decisões, por exemplo, mas em ser capaz de azeitar o funcionamento da sociedade para que esta possa cumprir seu papel e atender as expectativas de seu povo, operando com eficiência, eficácia, equidade, precisão e qualidade. Sua arquitetura deve articular as melhores decisões possíveis. Decisões bem informadas, provadas e comprovadas, baseadas nas melhores “evidências” disponíveis.

  • O mundo digital já está entre nós

No Brasil já está todo mundo na orbita digital. Nem que seja ao assistir televisão.

Os brasileiros, especialmente os das novas gerações, já vivem na era digital. Segundo o Jornal O Estado de SP, com dados da 28ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), de março de 2017, o Brasil terá um smartphone em uso por habitante até o final de 2017. Com crise ou sem crise, ainda de acordo com a pesquisa, até outubro a base de smartphones no País será de 208 milhões de aparelhos.

Hoje, o País tem 198 milhões de celulares inteligentes em uso, crescimento de 17% na comparação com o ano passado. Um número que continua crescendo. A expectativa é de que, nos próximos dois anos, o País tenha 236 milhões de aparelhos, um crescimento de 19% em relação ao momento atual. Sem esquecer que o Brasil tem também 162,8 milhões de computadores (entre desktops, notebooks, e tablets) em funcionamento, um crescimento de 5% na base instalada com relação ao levantamento de 2015. Até o final do ano serão 166 milhões de computadores em uso, sendo cerca de 33 milhões de tablets.

O mudo digital também já chegou aos bancos brasileiros e ao imposto de renda. Como seria de esperar, para cobrar juros e cobrar impostos já estamos na era digital. Falta chegar na democracia.

Agora, achar que vamos ficar encalhados numa democracia “carro de boi” é tolice. Os jovens já vivem em outra dimensão e vão simplesmente passar por cima dos que ficarem no caminho. Os políticos do antigamente, do tempo do onça (eita!), podem não gostar, mas a transformação digital vai jogá-los ao relento. O país está pronto para fazer as reformas transformadoras e abrir as portas do século XXI, um século que ainda não alcançamos.

  • A Democracia fascinante

Brava gente brasileira, já podemos antever os contornos desta nova democracia de perfil digital. Como em outros campos transformados pela Inteligência Artificial, a nova democracia digital tende a funcionar em volta de uma grande “nave mãe” virtual, aberta para a participação cidadã, tendo à sua volta os “c-pods”, os “civic-pods”, núcleos de opinião e grupos de interesses específicos, organizados por áreas e temas, aos quais os cidadãos poderão aderir usando seus títulos de eleitor eletrônicos para ter amplo acesso à transparência, as informações e as decisões dos três níveis de governo.

Estes aplicativos permitirão participar de debates e de decisões, votar e cobrar resultado de seus eleitos. Organizar e encaminhar projetos de lei de iniciativa popular e muitos outros. Essa democracia digital será infinitamente mais inclusiva, mais participativa, mais transparente e mais equitativa. Até muito mais alegre e divertida. Além disso, como o mundo digital está ainda em formação, a nova fronteira é território aberto, pronto para ser desbravado e conquistado.

De uma coisa, contudo, já podemos ter certeza: a era da Quarta Revolução Industrial, a era da IA – Inteligência Artificial – vai mudar profundamente as práticas democráticas e, com elas, as formas de governar e prestar contas aos eleitores.

Basta imaginar qual seria o impacto da adoção de “câmaras testemunhas” em obras públicas. O cidadão interessado em uma determinada obra poderia, ele mesmo “fiscalizar” sua evolução. Um fórum associado permitiria opiniões e críticas. E, acreditem, nada levanta um traseiro mais depressa que fogo em baixo do banquinho!.

Ademais, pode-se prever que nosso titulo de eleitor será a senha aplicativos pessoais, para acesso a informações sobre indicadores democráticos, bem como para o exercício de votos online em consultas públicas e assinaturas pré-validadas para abaixo-assinados e projetos de lei de iniciativa popular. A senha servirá, ainda, para contato autenticado com autoridades e representantes no legislativo. Nós, o povo, vamos ter muito mais força, muito mais direitos, mas também muito mais responsabilidades. A democracia que teremos será menos distante e mais inteligente; menos perfunctória e mais funcional. Além de menos vulnerável a fraudes e a manipulações.

Apenas para ilustrar, uma boa “evidência” sobre como os cidadãos querem acompanhar as coisas que lhe dizem respeito são os 222.086.385 de visitantes que foram ao site da SABESP conferir os níveis dos reservatórios da capital paulista entre maio de 2014 a 01 de março de 2017. Ou seja, deixa só este povo tomar gosto pela democracia digital. Vai ser a maior limpeza das teias de aranha de nossas instituições já registrada em nossa história.

  • Democracia Inteligente

A Democracia Inteligente  do Mundo 4.0 vai colocar o cidadão no centro do processo político. Não será só na hora de votar que o cidadão terá voz e vez. O chamamento à participação será permanente e dinâmico, o que significa que o cidadão deverá também saber mais em relação aos assuntos do governo. Para tomar posição em temas como a reforma política, na economia, nas questões sociais, nas leis e decretos, o cidadão precisará de boas informações e bons comparativos sobre os efeitos das decisões que vai tomar. Saber qual o custo social a pagar e quais os resultados a esperar.

De maneira que, para melhor exercer sua cidadania, precisará dispor de “evidências” sobre o que funciona e o que não funciona.

O movimento mundial em favor de decisões baseadas em evidências começou com a Medicina Baseada em Evidência (MBE). Em pouco tempo revolucionou a prática médica e mostrou-se um instrumento de enorme valia para orientar boas decisões na medicina. O sucesso levou a enfermagem a logo adotar sua versão por meio das “Práticas Baseadas em Evidência”. Outras áreas a adotaram na sequência, como Nutrição e Fisioterapia. Hoje é difícil encontrar uma área da saúde que não tenha a sua versão da metodologia. Campos de atividades correlatas logo também abraçaram a experiência, a exemplo da Arquitetura e do Design Hospitalares. Em pouco tempo surgiu um movimento mundial para acabar com o “achismo” e que tornou as decisões com base em evidência em um conceito multidisciplinar. Hoje, este método de basear decisões numa sistemática de evidencias já foi adotado por áreas como Administração, Economia e dezenas de outras.

Dado o êxito destacado desta metodologia, tudo indica que seus princípios seriam aplicáveis a uma Democracia Baseada em Evidência no Brasil.

Seguir as “evidências” nos ajudaria a evitar equívocos e erros dolorosos, como o nosso presidencialismo imperial e as eleições proporcionais com desequilíbrio na representação na Câmara. Ocorre que há uma distorção no modelo atual. As regiões mais povoadas e avançadas, sul e sudeste, têm uma representação proporcionalmente menor que as menos povoadas.

Entre os benefícios, desde logo a DBE nos auxiliaria na tarefa de exorcizar essa nossa mania de adotar políticas jabuticabas, que só existem aqui. Esta insistência em inventar políticas “heterodoxas” tem uma explicação: fica mais fácil encobrir a corrupção e a incompetência quando se adota um modelo politico turvado e opaco. Tal é o caso da estapafúrdia “Nova Matriz” econômica”, um conceito destrambelhado adotado pelo duo Lula e Dilma. A explicação é rasa: com adoção de uma falsa democracia, o que temos é um mero arremedo democrático, os indicadores tradicionais passam a ser rejeitados sob o argumento de que “não são aplicáveis”.

Qualquer sociedade precisa de uma organização e uma disciplina interna para funcionar. Disto não há dúvida. Consequentemente, é preciso que exista uma autoridade que atue sistematicamente para manter o conjunto funcionando. Está implícito no significado de sociedade que seus membros compartilham interesses ou preocupações mútuas visando um objetivo comum.

O principal objetivo comum de um país, supõe-se, seria o bem estar de seus cidadãos. Mas, no Brasil, o deposto governo de Dilma já não tinha mais este objetivo. Seu propósito se tornou ter e manter o poder. O sonho petistas era chegar a um poder ditatorial, como em Cuba e na Venezuela. Ditadores, como Raul Castro, em Cuba, ou Maduro na Venezuela, ditam as ordens e o povo ou se submete ou é reprimido. No Brasil, porém, já existe uma sociedade suficientemente bem informada e articulada para torpedear este tipo de pretensão totalitária. Este tipo de ameaça já foi vencido mais de uma vez, mas sempre a custo de muita angústia e sofrimento.

Como sabemos, foi para evitar o trauma das revoltas populares e limitar o poder absoluto dos monarcas que a civilização criou a democracia. Este regime, mesmo que imperfeito, é, no dizer de Churchill, “o pior dos regimes, exceto todo os outros”. De modo que nada temos de melhor ou mais civilizado para organizar a sociedade e dar voz e vez aos cidadãos. Mas sempre será possível aperfeiçoar a democracia e seus mecanismos de empoderamento dos cidadãos.

O que precisamos aceitar, no entanto, é que uma democracia é, por natureza, um sistema de permanentes tensões e disputas. Precisamente por esta razão precisa de mecanismos rápidos de ajustes e de acomodação de interesses.

O homem sempre quer mais e nunca está satisfeito. Talvez esta ambição ilimitada explique porque o homem saiu das cavernas para conquistar o espaço. Decorre daí que as demandas nunca acabam. As sociedades se formam e existem em um contexto dinâmico, insertas que estão na natureza e competido umas com as outras. Portanto, vivem em um mundo de cotidiana tensão. O que equivale dizer que em nenhuma sociedade moderna os dias são sempre iguais. São estas disputas que produzem as mudanças e fazem a história. O pressuposto é que, se nada é permanente e tudo é fluído, a conclusão é que o bem estar geral irá refletir a qualidade das decisões. Estas vão moldar o momento e as circunstâncias. Tempos de vacas gordas e de vacas magras sempre acompanharam a história do homem. A escassez sempre foi um inimigo a ser combatido. Aliás, é bom lembrar que a disciplina da economia foi criada para lidar com o fenômeno da escassez.

Os povos bárbaros sofriam as crises de escassez e a elas se conformavam sob a crença de que sua penúria vinha dos deuses. Os povos subdesenvolvidos acreditam na lorota de que suas agruras venham dos inimigos externos. O esquerdistas de Cuba e na Venezuela culpam os Estados Unidos. Já os povos civilizados aprenderam que a pobreza não vem da maldição divina, mas das decisões equivocadas de seus governantes. Ao evoluírem, passaram a exigir bons governantes e querem ser consultados naquilo tudo que tenha a ver com seu destino. Os povos civilizados querem resultados e por isto querem votar e influir nas em suas sociedades.

Ocorre que o processo democrático, sendo obra dos homens, é passível de distorções, vícios e imperfeições. Sem falar, claro, da demagogia, da irresponsabilidade e da mais destilada hipocrisia.

No mundo civilizado acredita-se em valores como equidade, igualdade e justiça. Algo que os gregos, desde Clístentes, chamavam de “isonomia”. Modernamente, este conceito abarca a noção de cidadania, sendo o cidadão, por definição, membro ativo da sociedade e partícipe da construção de sua história. E foi para proteger o cidadão, seus direitos e deveres, que a civilização engendrou a divisão dos poderes entre executivo, legislativo e judiciário.

Norberto Bobbio, que era socialista, mas temperava seus pecados com um vigorosa defesa da democracia e acreditava na separação de poderes, indicou pelo menos três fatores que dificultam um projeto democrático efetivo nas sociedades contemporâneas: a especialidade, a burocracia e a lentidão do processo.

O primeiro obstáculo seria derivado da complexidade da vida contemporânea, que demanda competências técnicas de “especialistas” para dar solução a inúmeros problemas públicos, notadamente em economias altamente reguladas e planificadas. A complexidade dos problemas dificulta o entendimento das soluções por parte do cidadão comum e abre espaço para “especialistas” que usurpam o poder político ao tomar decisões contrárias ao interesse da maioria. As ditas “soluções técnicas” dificultam a hipótese democrática de que todos podem decidir a respeito de tudo.

O segundo obstáculo resulta da expansão exagerada da burocracia, um aparato de poder sem mandato, ordenado hierarquicamente de cima para baixo, em direção totalmente oposta ao sistema de poder democrático.

O terceiro obstáculo vem do desejo equivocado das esquerdas de fazer com que o Estado tome o lugar de Deus e se torne o grande provedor da sociedade. Políticos demagogos se valem do desejo legítimo das pessoas de obterem renda e se sentirem seguras e prometem que o estado oferecerá estas duas benesses a troco do voto. Prometem o que não existe: o almoço grátis. Com sua demagogia irresponsável estimulam demandas irrealistas dirigidas ao Estado. Um povo dependente do estado é mais propenso a ser seduzido pelas promessas populistas. Ocorre que o Estado não produz riquezas, apenas se apropria daquela produzida pela sociedade. O resultado prático é que, ao invés de atuar para equalizar as oportunidades, o estado cria privilégios, benefícios e benesses para os grupos mais influentes, favorecendo corporações e grupos específicos. Esta tendência s torna ainda mais aguda no voto proporcional. Neste modelo os candidatos representam corporações e grupos e são facilmente seduzidos pela corrupção. Ao usar o estado para favorecer aos “amigos”, tirando dos que produzem para dar aos aliados, acaba criando descontentamento e minando as bases em que se assenta democracia. Quando a Democracia se desfigura e não tem mais legitimidade para encaminhar o debate político, uma crise é inevitável. Sem confiar nos seus ditos “representantes” fica comprometido o convívio democrático e esgarçada a coesão social.

  • Sincrisis “versus” décrisis.

Se, eventualmente, a perturbação do equilíbrio é corrigida por algum mecanismo homeostático, como eleições periódicas que permitam a mudança do poder, a crise pode se limitar a uma “síncrisis”, uma crise que se resolve de forma não traumática. Por exemplo, em um governo parlamentarista, uma crise do governo dificilmente evolui e se resolve com um voto de desconfiança e a substituição do primeiro ministro. Se, porém, a democracia não possui os instrumentos de defesa e de reequilíbrio ágeis para conter a erosão das instituições, as características da crise podem levar a impasses e ao esgarçamento de sua coesão. Neste caso sobrevém uma “décrisis”, um processo de falência múltipla das instituições democráticas. O exemplo das crises do presidencialismo brasileiro ilustra bem os efeitos das “décrisis”. Quando uma crise aguda se instala, dificilmente se tem um bom prognóstico. O ambiente politico vira um “salve-se quem puder” e os acordos e os mútuos compromissos do arranjo social, que implicam em concessões em nome do bem comum, deixam de valer.

A piora gradativa leva à desordem, ao descontrole e, finalmente, desemboca no caos. Para impedir a evolução de uma “décrisis” é preciso interromper o processo de desagregação. Na atual “décrisis” brasileira, que continua sem uma solução definida, a saída da ex-presidente Dilma permitiu um alívio momentâneo. Seu desfecho, contudo, ainda é uma incógnita. As mudanças estão no rumo certo, mas se mostram tímidas demais para o porte da catástrofe em curso. Para reverter a situação política do país e estabelecer um círculo virtuoso que converta a “décrisis” em uma “síncrisis”, é preciso mais do que parar de piorar. É preciso que sobrevenham fatos novos.

  • A oportunidade que vem da “décrisis”

Em uma sociedade que conta com uma escassa “massa crítica” de bom senso, como a brasileira, resta o instinto de sobrevivência como antídoto para uma “décrisis”. Os milhões de brasileiros que saíram às ruas no “fora Dilma” evidenciam que a sociedade está alerta e disposta a tomar posição. As multidões deixam claro que não vão aceitar um destino e segunda classe.

A lamentar, contudo, é que não se pode esperar muito deste congresso ou do governo Temer. A maioria dos atuais políticos no governo e no congresso estão implicados e tem contas a prestar.

Mas podemos encontrar um lado bom neste cenário de crise e de obtusidade política. A necessidade é a mãe das soluções. Então, a mesma sociedade que se mobilizou nas manifestações poderá se mobilizar para acertar as coisas no Brasil. Vamos precisar de muito jogo de cintura e, talvez, fechar os olhos para muita coisa errada, mas não adianta chorar o leite derramado. Transformar o Brasil é imperioso, posto que de crise já cansamos. Multidões na rua podem ajudar a encontrar um novo caminho. Multidões nas mídias sociais também podem. Mas que caminho? Corrupção e mentiras não queremos. Engodo nem pensar. Sim, é verdade que ainda estamos imersos em perplexidade, mas não será por muito tempo.

  • O jeito de mudar certo

Confúcio nos dizia que há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.

Como não aprendemos pelos dois primeiros métodos e hoje sofremos com mais de 14 milhões de desempregados (e crescendo…), estamos acumulando uma divida colossal e regredimos com uma recessão por dois anos seguidos, com uma queda, segundo a Folha de S. Paulo, de 9,1% do PIB “per capita” desde 2014, tudo o que nos resta é engolir seco e aproveitarmos as lições mais amargas que nos vem da experiência que estamos vivendo.

  • Encruzilhada da ação

O que temos claro é que nos encontramos diante de uma encruzilhada. Ou abraçamos as mudanças necessárias ou vamos avançar rumo a um despenhadeiro de empobrecimento e mediocridade. O caminho que escolhermos agora vai definir o que seremos como nação no restante do século XXI.

  • Aprendendo a transformar com base em evidência

Recapitulando, já sabemos que nossa democracia é um arremedo. Que nossos políticos, salvo exceções, são uma lástima. Despreparados, desinformados, superados, isto quando não mal intencionados. Uma parcela deles são apenas e tão somente “picaretas”. Mas o povo brasileiro tem alma democrata. Gosta de votar. As eleições o Brasil são uma festa. Pena que os candidatos sejam uma lástima.

  • Mas por quê?

Dá para deduzir que alguma coisa está errada no processo. Certamente, o presidencialismo e voto proporcional tem boa parte da culpa. O voto distrital traria outro perfil de candidatos. Mas não temos voto distrital. Nem parlamentarismo. Estas duas mudanças já seriam um avanço, mas elas não virão sem um movimento popular que as respalde. E mesmo sendo fundamentais, não esgotam as transformações possíveis e desejáveis para uma democracia do século XXI. E neste ponto é que viria a calhar uma nova metodologia de transformação democrática para o Brasil. Uma nova forma de examinar e diagnosticar os nossos males, de reunir e comparar as alternativas, de escolher as melhores soluções e de trazer a sociedade, a cidadania e o povo para ter participação 24/7 nesta tarefa que é de todos e de cada um.

Em todos os campos da atividade humana vem sendo adotada a busca sistemática de melhores resultados com base no conhecimento, nas experiências e no comparativo entre performances, ou seja, nas “evidências”. Hoje, além da “Medicina Baseada em Evidência” já existe uma enfermagem com “Procedimentos Baseados em Evidência”, uma “Arquitetura Baseada em Evidência” uma “Administração Baseada em Evidência” e inúmeras outras similares. O que podemos fazer para curar nossa democracia é sermos os pioneiros de uma “Democracia baseada em Evidência”.

  • Um pouco da História do Movimento pela adoção das Evidências como método de acertar

O movimento da “Medicina Baseada em Evidências” foi inspirado no livro “Eficácia e Eficiência”, escrito pelo médico Archibald (Archie) Cochrane e publicado em 1971. A obra criticava acerbamente os métodos nos cuidados de saúde de então. O livro criticou o “achismo” e a falta de evidência confiável por trás de muitas das intervenções de saúde comumente aceitas na época. Suas críticas provocaram um terremoto nas práticas médica e estimularam a adoção de “evidências” confiáveis na medicina. O movimento levou a McMaster University, de Ontario, no Canadá e a University of York, do Reino Unido, a estruturarem a “Medicina Baseada em Evidência”. A nova abordagem obteve ampla aceitação porque era evidente que muitos pacientes morriam ou sofriam sequelas por não terem sido tratados com as melhores práticas existentes. E isto era moralmente inaceitável. Ainda mais tendo em conta que, na era digital, era possível organizar as informações sobre as boas práticas e sobre pesquisas científicas de modo a encontrar “evidências” sobre o melhor procedimento para tratar cada caso. Visando reunir uma acervo de evidências foi criado o Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR), um banco de pesquisas científicas e publicações médicas que podem ser acessadas por médicos de todo o mundo na busca das melhores terapias disponíveis para tratar a doença de seus pacientes.

Ao médico canadense David Sackett se atribui a definição clássica da MBE: “uso consciencioso, explícito e sensato da melhor evidência disponível na tomada de decisão sobre o cuidado a pacientes, acrescida da experiência do médico e das preferências do paciente”.

Se viermos adotar um método análogo para a “Democracia Baseada em Evidência” no Brasil, poderíamos começar com uma definição inspirada na definição da MBE: “adoção conscienciosa, explícita e sensata da melhor evidência disponível sobre o regime e as práticas democráticas, a escolha de representantes, a elaboração de leis, a transparência, a governança e a participação continuada dos cidadãos nas decisões que afetem a sociedade e o povo”.

Optar por uma democracia com método seria um fato novo, uma alternativa ao debate estéril, pirotécnico, impregnado de ideologias arcaicas e falsas premissas que vemos ser feito por partidos políticos de aluguel, alheios a realidade e aos anseios do país.

  • Um Futuro, Já!

Como transformaremos o país se não temos um plano de ação coerente e nem vislumbramos um destino desejável? Sêneca dizia: “nenhum vento sopra a favor de quem não sabe onde ir”. Como empolgar a nação, em especial a juventude, se não definirmos onde queremos chegar e como faremos para chegar lá?

Talvez um dos poucos momentos de nossa história em que tivemos uma clara visão de um projeto nacional foi na construção de Brasília. O país se jogou no projeto proposto por Juscelino Kubistchek e o realizou. Juscelino também se lançou na criação da indústria automobilística, levou a nação junto e o fez acontecer. Foram bons projetos? A discussão hoje é supérflua. Não há dúvida de que houve muita corrupção e desvios na época. Uma peça de teatro do impagável Sérgio Jockyman, “Boa Tarde, Excelência”, produziu gargalhadas homéricas na décadas de 60 e 70 ao contar as trapalhadas e as maracutaias daquele período. A disputa da concessão dos clips de papel e do papel higiênico é tão hilária que chega a ser perigosa para quem sofre de falta de ar. Mas fica o exemplo de que sabemos realizar bons projetos, embora precisemos mudar os métodos.

Portanto, debater um projeto nacional é da mais alta prioridade. E esse debate deve ser da sociedade, da cidadania, como foi a manifestação das ruas.

O que é certo é que podemos ter uma democracia melhor e mais funcional. Uma democracia para o mundo 4.0. O Brasil não aguenta mais retórica vazia e precisa partir para as transformações. Ou, como dizia, com espírito, o ex-prefeito de São Paulo, Brigadeiro Faria Lima, “precisamos de menos planejamento e mais fazejamento”.

  • Método para fazer uma Democracia 4.0

O primeiro passo é assumir que queremos uma democracia alinhada com o futuro. Claro, esta democracia deve ser imune à contaminação corruptogênica. Para chegar a esta imunização será preciso dotá-la de defesas e dar a ela total transparência digital. O espírito desta Democracia 4.0 deve ser capaz de coragem para iluminar-se na lógica de Camões, nos Lusíadas, nos versos em que canta as descobertas lusitanas que transformaram o mundo de seu tempo: “Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor maior alto se alevanta!”. Ou seja, diante do novo, dos novos valores e novas descobertas; dos novos conhecimentos e saberes, cessa a influência da antiga musa. O velho cede o passo para o novo. A velha musa murcha e perde o encanto, eis que surge, resplandecente, uma nova e bela musa. O novo brilha com um novo encanto e remete ao obsoletismo as velharias superadas e manda para o ostracismo os seus velhacoutos.

Se dermos boas vindas a uma nova musa democrática, esbelta e glamorosa como todas as musas recém chegadas, precisamos ajudá-la a firmar-se entre nós. Um cuidado preliminar é afastá-la dos zumbis delirantes, um grupo de bocós políticos que teima em acreditar em fantasmas marxistas, encostos bolivarianos, abdução por seres extraterrestes, mau olhado e sortilégios, mas não acredita em coisas prosaicas e burguesas como matemática, lógica cartesiana, causa e efeito e que tais. Também convém proteger nossa musa dos corruptos profissionais de plantão, o bem aparelhado bando de rufiões que obra com engenho e arte, como prova o mal afamado “Departamento de Operações Estruturadas”, da Odebrecht. Esses são até mais perigosos do que aqueles. Nossos corruptos são afamados mundo afora, atuam com método e disciplina. Tem faro para o dinheiro público e seguem objetivos estratégicos. Para obterem acesso ao erário se fantasiam de democratas e se camuflam de esquerda, direita, centro e o escambau. Estes calhordas nefandos são os que pilham o Brasil e condenam seu povo a uma vida de sofrimentos e necessidades. Nas mãos pecadoras destes bucaneiros nossa política deixou de servir à democracia e passou a ser mera e escassa alegoria. A triste verdade é que nossa democracia sempre foi palco de engodo e foi usada para a encenação de simulacros eleitorais. Uma nova democracia teria que ser imune a estes mercenários e mistificadores.

  • O esgotamento da locupletação autossustentável

Stanislaw Ponte Preta nos deu o caminho da redenção: “ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade”. Não temos mais dinheiro e nem condições para mantermos a locupletação desenfreada que tivemos até o esboroamento dos governos petistas de Lula e Dilma. Em outras palavras, a locupletação deixou de ser autossustentável no Brasil. Portanto, chegou a hora de implantarmos a moralidade. Mas temos uma dificuldade: não temos experiência em lidar com a moralidade. Nossa democracia ou foi manietada, no governo militar, ou sempre foi corrupta.

Este é outro motivo para adotarmos uma “Democracia Baseada em Evidências”. Esta DBE nos ajudaria a reunir boas evidências é a usá-las na formulação de nosso projeto democrático. Precisamos conhecer o que funciona e o que não funciona nas democracias do mundo. E, ainda mais importante, precisamos isolar nosso contingente politicamente subdesenvolvido. Um grupo de chupins culturalmente limitado e emocionalmente ressentido. Nelson Rodrigues dizia: “subdesenvolvimento não se improvisa. É obra se séculos.” Ora, sendo o subdesenvolvimento, a um só tempo, causa e efeito da corrupção que nos assola, pode-se ampliar o significado: “Corrupção também não se improvisa; é também “obra de séculos”. Sabemos que nossa corrupção é endêmica e está arraigada a nossas práticas políticas desde a carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500, na qual o escriba que revelava à corte a “descoberta do Brasil”, aproveitava para pedir favores pessoais ao Rei.

E, além disto, controvérsias à parte, quer De Gaulle tenha dito, quer não tenha dito que “Lê Brésil n´est pas um pays sérieux”. A verdade é que o Brasil não era mesmo um país sério. Aliás, até agora continua não sendo. Mas vai ter que mudar. E não por moralismo ou decência cívica, que seriam bons motivos, mas porque o custo da corrupção ficou alto demais. Nossa corrupção já consumiu tudo o que podia na saúde, na educação, na infraestrutura e onde logrou meter a mão. Finalmente estamos cruzando o limiar da moralidade.

  • Da Prática de uma Democracia Baseada em Evidência

A DBE só teria sentido em um novo ambiente que crie um mundo paralelo que seja uma reprodução digital do mundo real. Neste ambiente paralelo podem ser reunidas informações e realizadas simulações ao infinito. Com o uso desta tecnologia a vida institucional do país vai deixar de ser este marasmo medieval para se transformar numa atividade online, com os acontecimentos fluindo como flui a vida. A mudança implica em fazer uma mudança do sistema e não no sistema. Trata-se de uma nova lógica e não de uma mudança limitada ou cosmética. Ainda que a prioridade seja neutralizar o sistema corruptocêntrico, a mudança de paradigma é que vai determinar se vamos mesmo escapar deste buraco negro político.

Em síntese, mudar do jeito certo significa fazer as coisas funcionarem direito. A corrupção colossal, os 13 milhões de desempregados e os déficits monumentais do governo indicam que nossa política e nossa democracia não estão funcionando direito. E precisam ser consertadas. Ou melhor, nós mesmos precisamos consertá-las.

A viabilização da DBE no Brasil vai depender das novas gerações. Elas é que viverão nesta nova democracia. Caberá a elas delinear um projeto que cresça por dentro e que, quando pronto, descasque esta velha carcaça política e permita ao país sair deste casulo de ideias medievais que o oprime.

Como o sistema político atual não é representativo da nação e como os atuais partidos não acolhem o debate aberto e não se prestam para o exercício de uma militância inovadora, a renovação democrática no Brasil precisa encontrar um novo tipo de entidade sem ligações partidárias. Movimentos como o MBL e o Vem Para a Rua tem esta característica, mas nasceram para lutar “contra” o projeto corrupto de pode do PT. Cumpriram seu papel de forma brilhante, mas agora é preciso abrir uma nova luta. Quem sabe desenvolver a DBE – a Democracia Baseada em Evidencia – em volta de uma nova entidade, de uma “nave mãe”, permitiria que se formassem miríades de núcleos filiados, cada um com uma vocação, cada um com uma missão, cada um dedicado a um projeto específico. Todos unidos por uma causa: transformar a Democracia Brasileira em uma democracia inteligente, alinhada com o Mundo 4.0 e, ainda que com atraso, pronta para os desafios do século XXI.


Ceska – O digitaleiro

 

Brasil, tome juízo.

currasco_onirico
Operação “Pelo em Ovo” e churrasco onírico em Brasilia.

Brasil, tome juízo.

Parece que este país perdeu o juízo. O nível de desatino que aflora nos mais diferentes setores do país é de estarrecer. Para onde quer que olhemos vemos uma nação mergulhada na estultícia. A corrupção generalizada associada à irresponsabilidade, à inconsequência e a arrogância vem derretendo as instituições e transformando o país num ente desmoralizado e em desagregação.

Tivemos nossa imagem internacional tisnada pelos escândalos da Lava-Jato, cujos eventos de corrupção foram solidamente comprovados e, de repente, em contra-ponto, vemos agora uma imitação canhestra querendo a ribalta. Na Operação “Carne Fraca”, que, pela falta do que procurar devia ter sido chamada de “Operação Pelo em Ovo”, um delegado da PF, despreparado e destrambelhado, decidiu jogar na sarjeta a coisa que melhor funcionava neste país, o agronegócio. Se não eram as luzes do proscênio o que queria a Polícia Federal ao detonar a tal operação “Carne Fraca”?

A Polícia Federal declarou que se valeu de um laudo próprio – um único laudo! – referente à empresa Peccin Agroindustrial Ltda., uma empresa insignificante para o setor, sendo o outro laudo fornecido pelo Ministério da Agricultura. Também haviam mal explicadas denúncias de um auditor do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sobre o frigorífico Souza Ramos. Em cima destes dois “laudos”(?) e da tal “denúncia”, a PF atacou com mais de 1.100 (!) policiais federais todo o setor produtivo do maior exportador de carnes do mundo. Mais de 1.100 agentes federais saíram país afora procurando pelo em ovo. Na operação foi investigado um dito “esquema de fraude” na produção, fiscalização e comercialização de carnes, envolvendo pagamento de propina a fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo a PF, a investigação teria encontrado “indícios” de adulteração de produtos e venda de carne vencida e estragada.

Agentes que nada entendem da produção de carnes, nem de como funciona a extensa e complexa cadeia produtiva de que dependem milhões de brasileiros, entrou estabanadamente em frigoríficos e empresas do setor falando bobagens, acreditando em “salsichas com papelão”, e espalhando acusações com a ligeireza dos inconsequentes. Quer dizer, então, que vamos acabar com milhares de empregos e todo um setor da economia do Brasil só porque um fabricante de salsichas trocou carne de peru por carne de frango?

Se queriam afundar ainda mais o Brasil, conseguiram. Se queriam criar mais desemprego, conseguiram. Se queriam produzir mais crise, se queriam envergonhar ainda mais o país, se queriam jogar gasolina no incêndio que queima as entranhas brasileiras, conseguiram com louvor.

A falta de juízo com que as coisas vem sendo feitas nesta terra maluca não tem paralelo. Nunca antes neste país, – aliás, nunca antes neste mundo! – se viu tanta insensatez. Os exemplos de hipocrisia e de mau comportamento que vem de cima, e que continuam agora com esta “reforma política”, com a tal “lista fechada”, desenhada para proteger políticos de vergonha escassa e cara de pau espessa, só podiam prosperar e nos jogar na lama.

Consertar o país, agora, ficou um pouco mais difícil. O Brasil vai ter que juntar os cacos da nossa indústria de carnes e sair peregrinando humilde por nossos clientes pedindo clemência. Tentando explicar que somos um país de doidos. E dando mais descontos. Nossa imagem internacional já andava abalada com a lava-jato, de modo que uma acusação de corrupção no sensível setor de carnes, por mais descabida que fosse, encontrou terreno favorável para prosperar e se espalhar mundo afora. E, como desgraça pouca é bobagem, para gáudio de nossos concorrentes do mercado de carnes de exportação, como a Índia e Austrália (carne bovina) ou Turquia (aves), nosso caricato presidente, mais perdido que cego em tiroteio (ou seria mais correto dizer “deficiente visual” perdido em meio aos projéteis de uma saraivada de tiros”?), agindo da mais paspalha maneira, resolve convidar os embaixadores dos países que importam nossa carne para um churrasco. E os leva justo para uma fina churrascaria de Brasília que se orgulha de servir…carnes argentinas!!! É ou não é uma Chose de loc?

Infelizmente, como seria de esperar, as consequências já começaram. As vendas despencam. As exportações desabam. Os mercados mundiais se fecham. Uma empresa de Curitiba, uma das “investigadas”, acusada sem defesa, mas já devidamente denegrida, demitiu 280 pessoas dia 22 de março. E, acreditem, muito mais demissões vem aí.

Pode ser que tudo tenha acontecido por “acidente”. Mas pode ser que tudo tenha sido feito de caso pensado. Para aparecer na mídia ou para obter algum tipo de ganho político. Só que, ao que tudo indica, o feitiço virou contra o feiticeiro. Afinal, como justificar uma operação tão desastrada que, como diz a PF, vinha sendo “preparada” há dois anos? Já daria para suspeitar de algo “contaminado” (na operação e não na carne) a partir daí. Então quer dizer que a PF “sabia” que os alimentos vinham sendo “adulterados” há dois anos, em tese “comprometendo” a saúde da população ao longo de dois anos, e só agora resolveu agir?

Ainda na terça-feira a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) divulgou nota afirmando que as conclusões da Operação Carne Fraca referentes aos danos à saúde pública não têm embasamento científico. A entidade diz que peritos foram acionados uma única vez e não comprovaram os danos.

Segundo o Jornal Folha de S. Paulo, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, afirmou que a “narrativa” da PF ao divulgar as ações da Carne Fraca está cheia de “fantasias” e “idiotices”. Nesta quarta-feira, o ministro disse que os prejuízos para o setor são estratosféricos.

Nem nos tempos bíblicos, nem nos rocambolescos tempos da idade média, uma nação padeceu de tanta falta de juízo. E vai tudo ficar por isto mesmo?

Deus do céu, por caridade, dê um pouco de juízo ao Brasil.


Ceska – O digitaleiro

2017 – O retorno à lógica, antes que seja tarde.

imagem_trem_amanha
O Brasil parece um trem sem maquinista banguela abaixo.
  • Cadê a lógica?

Depois de longa diáspora, está na hora de irmos buscar a lógica de volta. E já é mais do que tempo.

Parecia que o Impeachment da Dilma nos tiraria da “decrisis”, onde prevalece o círculo vicioso desagregador, e nos conduziria para a “sincrisis”, onde um círculo virtuoso começaria a amainar a tempestade.

Mas as coisas não estão caminhando como deviam. O Temer vem decepcionando. Mostra-se titubeante. E temeroso. E o titubeante temeroso Temer tem se mostrado incapaz de entender o contexto de fundo e de enfrentar a crise que o país enfrenta. Concordo, estamos melhor com Temer do que com a Dilma dos tempos escarlates, mas isto é pouco. A crise não cede, antes rescede, e continuamos cruzando terrenos pantanosos. Ainda vivemos em brumas nebulosas.

Os emblemáticos episódios das matanças dos presídios de Manaus e Roraima mostrou um novo Temer: o presidente avestruz. Não só enfiou a cabeça na areia como a tirou titubeante. Segundo seu falar vetusto, cheio de volteios gongóricos, a revolta de Manaus foi “acidente”. Tal e qual a queda do avião da LaMia. Aí não dá. O mordomo de Brasília subestima o povo brasileiro e não só titubeia temerosamente como demonstra estar perdido e perplexo diante dos desafios da crise sem precedentes em que estamos imersos.

“Acidente”, convenhamos, é estarmos sendo governados por Temer e por políticos medíocres. Nós os elegemos, é verdade. Mas o modelo presidencialista com voto proporcional é um fiasco. Estamos patinando no pântano da mediocridade. Sem uma liderança que aglutine o país e o conduza com segurança, vamos continuar patinando…

Temer, o titubeante temeroso, já mostrou que não está a altura. Mas quem está? O único líder com arcabouço moral, experiência e força política seria o governador Geraldo Alckmin. Mas seu estilo é mais do tipo “devagar e sempre” e não exibe o ardor do líder revolucionário que o país precisa agora. Fernando Henrique é uma reserva moral, mas já passou seu tempo. Aécio e Serra estão chamuscados pelas labaredas das denúncias da Lava Jato. Tá difícil.

  • A Inconsequência galopante

Nesta formosa terra que tem palmeiras onde canta o sabiá tem também um monte de gente que acredita nos poderes de uma galinha preta com uma pinga e duas velas na encruzilhada, mas não tem a mínima fé em matemática. Desconfia das ciências exatas e, ainda com mais razão, de ciências exóticas, como economia. Hão de preferir as ciências ocultas.

O que somos é inconsequentes. E imprevidentes. O Brasil, para nossa desdita, está encastoado em  uma América latina convictamente, teimosamente e recorrentemente inconsequente. E frequentemente irresponsável. Desde o descobrimento e das cartas de Pero Vaz de Caminha, vivemos às turras com a lógica e desprezamos raivosamente o dito “bom senso”. Bom senso quer dizer capacidade para ver além das aparências e entender as razões e os motivos, as causas e os efeitos. E agir com equilíbrio. Um elenco de coisas abomináveis para os que preferem crer em mandingas, bruxedos e “amarrações” de cartomantes. O bom senso, enfim, é tido e havido pelas esquerdas como um mofado convencionalismo burguês, ainda que venha da Grécia de Aristóteles.

O problema é que quem briga com a lógica não escapa da sua vingança. De tragédia em tragédia estamos preparando uma hecatombe. Os “acidentes” do Temer são da mesma natureza irresponsável da recente queda do avião da LaMia. Este acidente, típica tragédia desnecessária, foi resultado de um desafio à lógica. O capitão, um inconsequente dotado do voluntarismo que implicou com o império da lógica, entendeu que não precisava seguir as normas de segurança. O comandante, tomado da empáfia besta do voluntarismo latino-americano, preferiu jogar roleta russa com a vida de seus 72 passageiros e 9 tripulantes. Com uma pane seca anunciada continuou voando para a morte. Pode-se supor que continuava o voo esperando um milagre. Tanto que, ao se dar conta de que o avião iria mesmo espatifar-se no solo, ainda cobrou o milagre que não vinha: “Jesus”!.

  • A praga latino americana que pegou

A inconsequência, esta praga latino-americana que está na raiz da nossa atual crise e de nosso subdesenvolvimento é doença antiga. Um espécie de herpes-crisis cujo vírus se recolhe, mas volta a se manifestar de tempos em tempos. Fugimos da lógica como o diabo da cruz. Somos avessos a normas, desafiamos as regras e enxotamos a razão. Não acreditamos em fazer contas, como, aliás, não acreditamos em planejamento, ou melhor, não acreditamos é em fazejamento, que “planejamento” por estas bandas, é biombo para “consultorias” suspeitas e, por isto, dá como capoeira em mato. Tem muito mas não serve para nada. Também não respeitamos nenhuma destas disciplinas burguesas que foram criadas para “explorar os pobres”. E para quem interessar, não esqueçam que agora somos livres e independentes. Não precisamos dar satisfações à metrópole e somos “capazes” de fazer nossas próprias leis. E, orgulhosamente, tem mais: revogamos as leis de que não gostamos ou que nos oprimem. Um exemplo: a Lei de Newton. Ainda não conseguimos acabar com a lei da Gravidade, mas não desistimos. Mesmo sendo uma lei “cláusula pétrea” da natureza (Ah, bom!), sua revogação continua sendo proposta em reiterados projetos de lei. Qualquer dia conseguimos.

Para ilustrar, alguns anos atrás o Estado de São Paulo noticiou que o Prefeito de Palmeira dos Índios, das Alagoas, propôs revogar a lei da gravidade por uma decisão da Câmara Municipal: “Informado pelo engenheiro da Municipalidade que a lei da gravidade impedia a construção de uma caixa de água na praça central de Palmeira dos Índios, devido a um forte declive,” o prefeito da cidade não se conformou. Chamou seu líder na câmara e mandou que conseguisse maioria “para derrubar a lei da gravidade, pois era preciso construir uma caixa de água na praça”. Ainda bem que o edil tinha um mínimo de noção do ridículo e foi hábil em não afrontar o alcaide:

“Senhor prefeito, não se sabe se esta lei é municipal ou estadual. E, depois, pode ser federal. É melhor não mexer no assunto, para não criar problemas. É melhor não desobedecer ao engenheiro, que é especialista no assunto”.

O monitor das besteiras que assolam o país aponta outra recente tentativa de revogar a lei da gravidade. Desta feita veio no bojo do episódio (“acidente”…?) de Mariana. Por pouco o Ministério Público Federal não vira motivo de chacota global: ele “ordenou” que a Samarco “impedisse” que o material argiloso que chegou pelo rio à foz do Rio Doce entrasse no mar. Os desavisados procuradores confundiram a argila, que se mistura com a totalidade da água, com uma mancha de óleo, que não se mistura e fica na superfície, e sapecaram a “ordem”. Ora, impedir que a argila entrasse no mar exigiria “apenas” represar o rio inteiro. Uma estupidez descomunal. Ainda bem que um juiz providencial, Thiago Albani, titular da 3ª Vara Civil de Linhares, no ES, veio salvar a face do Brasil e da MPF: “autorizou” que a água do rio desaguasse no mar!

De tanto ver prosperar estultícia Nelson Rodrigues dizia, rouco de desespero, que, toda a vez que via um brasileiro “ligar causa à efeito, tinha um orgasmo“. Os teve poucos.

Segundo Confúcio, “três são os caminhos pelos quais chegamos à virtude: pela reflexão, o mais nobre; pela imitação, o mais fácil; pela experiência, o mais doloroso”. E já que teimamos em não aprender nem pela reflexão e nem pela imitação, vamos ter que aprender pelo sofrimento. O consolo é que, por cruel que seja nossa sina, sofrimento produz lógica. Ao menos entre os sobreviventes, claro. A dor leva a busca das causas. E estas, no caso da atual crise, apontam para a inconsequência aguda de nosso socialismo capenga de cepa petista. E, sendo a crise sintoma da grande enfermidade que padecemos no Brasil, qual seja a ilusão socialista de que o estado teria os poderes que os socialistas negam a Deus, o poder de acabar a pobreza por ato de vontade, certamente podemos lembrar Margareth Thatcher que dizia: “o socialismo acaba quando acaba o dinheiro dos outros”.

  • A opção pelo despenhadeiro

Dilma Rousseff queria enfraquecer a posição do ministro da Fazenda Antônio Palocci no governo. Ela era, na época, a ministra da casa civil do Lula. Palocci, que era corrupto mas não era burro, tinha um plano de ajuste fiscal de longo prazo que vinha sendo elaborado pela equipe econômica. Em síntese, Palocci defendia que o gasto público não podia subir mais que o crescimento do PIB. O mesmo princípio que levou o atual Ministro da Fazenda de Temer, Henrique Meirelles, a propor o teto de gastos por vinte anos.

O plano de Palocci estabelecia que o ideal seria que tivéssemos um superávit fiscal de 4,25% pelos próximos dez anos.

Dilma, a guerrilheira, que se imaginava audaz, de coração valente e cabeça de vento, em entrevista ao “Estado de S. Paulo”, desqualificou os autores da proposta, dizendo que Palocci e seu grupo estavam se baseando “em planilhas” e classificou o plano de “rudimentar”, afirmando que nem o encaminharia ao presidente Lula porque não tinha as condições mínimas para um início de discussão dentro do governo. E aí deu sua imortal contribuição para o rol das frases insanas: “gasto público “é vida”!.

Daí em frente abriu-se a porteira dos gastos sem freios. Estabelecido como preceito pela grande líder que gasto público era “vida”, todo mundo desandou a “viver”. “Viveu-se” a mais não poder. Nunca antes se tinha visto tanta “vida” neste país. E até disparamos a ensinar outros países a “viver”: Cuba, Bolívia, Venezuela e outros deste e do outro lado do Atlântico.

O PT, alegremente convertido ao catecismo dilmista, não só pregava “a vida em abundância”, aqui e “urbi et orbi”, como praticava com fervor franciscano a boa nova. O que se viu foi uma maré de “vida em abundância”, com os pixulecos escalando as estrelas. Parecia descoberto o moto-contínuo da prosperidade. Só que não. De repente caiu a ficha: quando termina a “vida”, o que vem depois? Estava na cara que esta aventura irresponsável só podia acabar mal.

E agora, o que temos diante de nós?

Quando os gregos dividiam as crises em “decrisis “e “sincrisis” eles buscavam entender como as forças internas dos processos de crise evoluíam. Decrisis eram as crises “ruins”, que tinham como característica a desagregação, enquanto as sincrisis, ao contrário, eram as crises “boas”, aquelas que se encaminhavam para uma solução por força dos mecanismos corretivos e dos equilíbrios de pesos e contrapresos que atuavam no seu interior.

Nossa crise, uma “decrisis” crônica, sob a estarrecida batuta da Dilma “presidenta”, evoluiu para uma crise aguda e resultou no impeachment. Com o impeachment tivemos uma sangria e a crise aguda foi momentaneamente debelada, mas os desequilíbrios financeiros que alimentam a cronicidade da crise continuaram a minar o organismo da nação.

A partir do impeachment, a sociedade deu um crédito de confiança ao governo Temer. Mas o prazo está se esgotando e as medidas de rearrumação da economia tem se mostrado insuficientes. O congresso continua com óculos cor de rosa. O que vemos é que as condições objetivas da economia e do meio social não se modificaram e continuamos vivendo em meio a um impasse social muito perigoso.

  • Um barril de pólvora social

Doze milhões de desempregados são um barril de pólvora social. Os desempregados estão encurralados e não veem saída. O governo se mostra perdido. E a crise pode piorar rapidamente e descambar para uma nova etapa de “decrisis”.

  • Um PROER  para o povo

O ponto critico mais importante é que a sociedade está endividada e não tem como resolver seu endividamento com a crise torpedeando a atividade econômica e os empregos. E enquanto os milhões de endividados não conseguem voltar a ter crédito, a economia fica travada.

Os juros dos cartões de crédito e cheque especial são um crime de lesa pátria. E os bancos estão insensíveis. A saída seria o governo atacar o problema de maneira a desatar o nó. Criar um PROER para o povo. Criou para salvar os bancos, não foi? E que tal fazer a mesma coisa para salvar o povo? Mas os bancos mandam no país e não vão aceitar de bom grado que o governo tire deles o filão que os mantém indecorosamente lucrativos, mesmo numa crise sem precedentes.

Acontece que as “decrisis” não tem bom prognóstico. Se as forças desagregadoras que as formam não são neutralizadas, a caldeira continuará a acumular vapor até o ponto de explosão. O país é um trem despencando ladeira abaixo, com o maquinista olhando para a paisagem. E estamos próximos, perigosamente próximos, de um grande desastre. Perdão, de um grande “acidente”, como definiria o tateante e temeroso Temer.


Ceska – O digitaleiro

No meio do caminho tem eleição. Tem eleição no meio do caminho.

 

novo_camino3
Dia 02 de outubro tem eleição no meio do caminho; Tem eleição no meio do caminho dia 02 de outubro.

Estamos no rumo certo, mas cuidado: tem uma eleição no meio do Caminho!

No meio do caminho tem um eleição

Tem uma eleição no meio do caminho

  • Desde já aviso aos amigos que vou votar em João Dória. Quero ter a “convicção” (a palavra está na moda) de que voto na continuidade do caminho.

Ainda que aos trancos e barrancos, o Brasil vai avançando e entrando nos eixos. (Ainda com muitos trancos: a receita da União voltou a decepcionar em agosto). Enquanto isto, o barulho dos pinos caindo no strike do boliche anticorrupção da Lava Jato continua. Os corruptos desabam como carreiras de dominós enfileirados. Caiu Dilma. Caiu Cunha. Lula caiu na Lava-Jato.

E ainda tem muito gaiato pendurado se agarrando para não cair. Mas a sociedade está vigilante e a nova ordem vem se afirmando como uma vitória do Brasil. Um triunfo que vem sendo obtido com o espírito e as armas do século XXI. Mas é preciso lembrar Tancredo Neves: Estamos apenas na metade do caminho. Não podemos nos dispersar.

Um ano atrás, quem diria? Estávamos nas ruas. Tínhamos a indignação. Tínhamos a esperança. Tínhamos a determinação. Mas os petebas do poder grudavam em suas benesses e sorviam privilégios com a gula insaciável dos sanguessugas. A corrupção estava institucionalizada e parecia invencível. Vivíamos em uma “propinocracia”, na definição de Deltan Dalagnol, da força tarefa da Lava Jato. E os cabras que haviam tomado o governo viviam à larga, refestelavam-se em um luxo de nababos, voavam pelos céus do Brasil e do mundo na frota VIP da FAB, enquanto se lambuzavam com as delícias, as benesses e o néctar do poder.

Por um momento pareceu aos crédulos que os petistas tinham – heureca! –  encontrado a fórmula do roubo perpétuo, do moto contínuo da propina forrando a burra dos larápios. Os brasileiros decentes, por outro lado, coçavam a cabeça se perguntando como era possível tanta patifaria dar certo por tanto tempo. E muitos se questionavam, diante do êxito aparente da esbórnia escancarada, se ainda valia a pena se manterem honestos.

Mas desafiar a lógica é como afagar um tigre: raramente dá certo. E o PT devia saber: roubar e deixar roubar não é uma ideologia, é uma patifaria. E ao adotar a patifaria como estratégia de manutenção do poder e em escala jamais vista no planeta, seria de se esperar que o fim fosse um fiasco desastroso. E não deu outra. Foi tanta a sofreguidão, tanta a ganância, que sobreveio o descontrole e o caos. Claro, a desatinada da Dilma, perdida em suas mandiocas, deu o empurrão final. Mas o que se roubou neste país foi coisa nunca vista. Um mega rombo para não se esquecer jamais.

  • Vencendo a hidra de mil cabeças

O fato é que, para livrarmos o país do projeto de poder do PT foi preciso vencer a hidra petista de mil cabeças, de mil línguas bífidas venenosas. Foi preciso encetar uma luta árdua, enfrentar chiliques, esperneio e chorumelas, mas o Brasil que tem ambições, que quer um lugar decente na história, combateu o bom combate com a admirável galhardia verde e amarela. Ao chegarmos ao meio do caminho podemos nos orgulhar de que juntos lutamos e juntos vencemos. E é uma alegria congratular-me com você, que esteve aos milhões nas manifestações, que amassou suas panelas para fazer o Brasil ouvir seu clamor, que protestou, incansável, nas mídias sociais. Parabéns a você que foi para o enfrentamento corajoso e sem esmorecimento, que disse a que veio na pugna crucial entre o passado caquético da esquerda corrupta e o ansiado futuro que todos queremos para nosso Brasil. E que só depende de nós.

Com o país ainda se debatendo na maior crise de nossa história, não tínhamos mesmo escolha. Não queríamos um destino cafajeste. Um futuro de bagre chafurdando na lama rasa. Era preciso reagir. Era preciso demolir o Carandiru ideológico com que Lula e os seus asseclas aprisionavam o Brasil; em que prendiam os brasileiros por meio de um emaranhado de mentiras, demagogia, e engodos.

  • Definindo o país que queremos

Não podemos morrer na praia. Seria uma pena esmorecermos agora. Podemos lembrar Tancredo Neves quando dizia “Enquanto houver neste país um só homem sem trabalho, sem pão, sem teto e sem letras, toda a prosperidade será falsa”.

Existe muito a ser feito, é verdade. Há montanhas de entulho para limpar. Bobalhões desfilando asneiras. Desocupados atrapalhando o trânsito. Mas, sem recear o lugar comum, todo começo começa pelo princípio.

O mais importante é nos entendermos sobre o Brasil que queremos. E definirmos o que, como sociedade, queremos fazer do país.

O que sabemos, desde logo, é que qualquer organização – e um país é um tipo complexo de organização – se apoia em um triângulo com três vértices:

  1. – Recursos Humanos
  2. – Recursos Materiais
  3. – Sistemas.

Os Recursos Humanos, as pessoas, vem em primeiro lugar. E elas é que se valem dos recursos materiais e dos sistemas para fazer o país funcionar. Os recursos materiais, ao contrário do que muitos pensam, não fazem a riqueza de uma nação. Nossa maior riqueza não é o pré-sal. Não é o ferro, ou o ouro ou os diamantes. Nem mesmo a Amazônia, o cerrado, o sertão, o pantanal, os pampas do sul. Nossa maior riqueza é a gente brasileira. É nosso povo. Com ele, tudo será possível. Sem ele, seremos tribos perdidas, grupos erantes, confusos e quebrantados.

Mas os recursos materiais contam muito. E nossos recursos naturais contam muito mais. Nossa prosperidade haverá de voltar muito pela generosa mão da natureza com que o Brasil foi abençoado. Os recursos naturais que temos são superlativos. Temos muito e temos em abundância, tanto temos que podemos sermos ufanos de nosso país. Mas lembrando sempre que, sem a atividade produtiva de nossa gente, nossos recursos naturais são apenas paisagem. Se não forem tocados pela mágica transformadora do homem, continuarão ali, inertes, pelos tempos afora, sem gerar riquezas e sem contribuir para melhorar a vida do povo ou para enriquecer seu futuro.

A propósito, o Brasil tem dois exemplos do que pode ser conseguido fazendo certo as coisas certas: o agronegócio, que prosperou graças aos empreendedores que vivem no campo, longe dos predadores de Brasília, e a Embraer, que é até “brasileira” (note as aspas…), mas que soube escapar do alcance da burocracia rapinante que esculhamba tudo o que toca neste país e foi progredir lá fora.

  • Tudo depende de nós. 

Um país não se faz apenas amontoando pessoas em um território. Países existem que acumulam seres e vidas, mas que são lástimas, que são catástrofes. Temos vizinhos como a Venezuela, a Bolívia e o Equador nesta categoria de paspalhões fracassados.

Sem bons governos e bons sistemas não existem bons países. Sem bons governos, as nações se desorganizam, ficam improdutivas e sofrem os efeitos deletérios da desordem. O resultado é que seus povos vivem vidas desgraçadas, vidas sem perspectivas, vidas miseráveis.

O que vai fazer a diferença é a educação. Segundo Sydeny Harris, o principal propósito da educação é transformar espelhos em janelas. É facultar às pessoas uma visão capaz de abarcar o mundo e permitir que compreendam os fatos elementares da vida e da natureza. Desta compreensão nasce a sabedoria. E da sabedoria de um povo surgem bons governos e bons países.

A sabedoria permite compreender que não se pode viver de mentiras e engodos. E que a nossa condição humana nos impõe a crueldade da matemática: nenhuma nação se poderá sustentar de pé se seu povo não tiver juízo. Se gastar mais do que tem. Infelizmente é possível, sim, usar o cheque especial para viver uma fantasia passageira, gastando por conta. Alimentar um sonho demagógico, uma ilusão aberrante, por algum tempo. Mas a ilusão passageira cobrará bem caro na hora da conta. E a conta sempre vem: a economia não se defende, ela se vinga.

Confúcio, que viveu 500 anos antes de Cristo, explicou existirem três métodos para adquirir sabedoria: Primeiramente, pela reflexão, que é a mais nobre; Em segundo lugar, pela imitação, que é a mais fácil; e terceiro, por experiência, que é a mais amarga. E tudo leva a crer que nós, brasileiros, preferimos a última. Acho que temos uma queda para o sofrimento. Affêe!!!

Conclusão I: A sabedoria de um povo é que define seu destino. Todos conhecem a fábula de Esopo que narra a história de uma cigarra que canta durante o verão, enquanto a formiga trabalha acumulando provisões em seu formigueiro. No inverno, desamparada, a cigarra vai pedir abrigo à formiga. Esta, a formiga, pergunta o que a outra fez durante o verão. “Eu cantei”, responde a cigarra. “Pois então agora, dance”, rebate a formiga, deixando-a do lado de fora. A fábula de Esopo é um ensinamento que vem da sabedoria da experiência. E permite concluir que um povo operoso será recompensado com a prosperidade. Um povo de tolos terá o destino dos tolos: as carências, a miséria e o sofrimento desnecessário.

O terceiro vértice corresponde aos “Sistemas”. Estes determinam o que fazemos, como fazemos, quando fazemos e porque fazemos. O governo está neste vértice e seu papel de líder e organizador equivale ao do cérebro em nosso organismo. A gente até deveria saber disso, posto que nossa sabedoria popular sempre ensinou que “quando a cabeça não pensa o corpo padece”…

Em síntese, um governo inteligente organiza os sistemas de modo a formar um todo coerente, bem balanceado e holístico, capaz de funcionar e ser eficiente. Até aqui, salvo os eventuais misantropos, suponho que todos estejamos de acordo. Deste ponto em diante, contudo, é que as divergências começam a separar a humanidade em dois grupos irreconciliáveis: os “fazedores” e os “tomadores”.

  • A divisão do mundo em dois grupos: Os “fazedores” e os “tomadores”

Os “fazedores” são os românticos da ação. Para estes, o mundo é como um pomar. Entendem que sua tarefa no mundo é plantar, adubar, regar, combater as pragas, colher e distribuir a colheita para que todos possam se saciar. Para os “fazedores”, um país rico é cheio de pomares (e fábricas, lojas, escritórios; óbvio, né mesmo?) onde os laboriosos colhem frutos em abundância. Os fazedores acreditam que fazer um país se tornar rico é fácil. Basta que todos se disponham a plantar pomares e obedeçam as regras da natureza. Como são sábios, compreendem que existe um tempo para plantar e um tempo para colher. E que é preciso saber semear, esperar que as sementes germinem, que as plantas cresçam, que as flores se convertam em frutos. Que os fruto amadureçam. Daí que sua maior aspiração é poderem plantar e colher sem obstáculos. Sua crença: a produção transforma o mundo. Sua fé: se muito for produzindo, muito haverá para todos e não haverá ninguém com fome.

Já os “tomadores” acham que o mundo é um galinheiro onde eles são as raposas.

Existem “tomadores” à esquerda e à direita. Os da direita são os folgados, os vagais, os parasitas. Sabem o que deve ser feito, mas não estão a fim de trabalhar. Ponto.

Já na esquerda, petistas inclusos, os “tomadores” acham que seu papel é “redistribuir” a riqueza que os outros produzem. Se pensam os justiceiros da humanidade.

Esses boçais vivem olhando ao redor. Onde alguém criar um caminho, eles tratam logo de colocar uma pedra, “regulando” e taxando a atividade. Esta fúria arrecadatória não começou com a indústria da multa do Haddad, embora, devo reconhecer, este a tenha refinado para o padrão da tortura chinesa. A fúria arrecadatória já era assim nos tempos coloniais dos tropeiros e no “Caminho de Viamão”. O tropeiro suava sangue para trazer do extremo sul gaúcho uma tropa de muares ou gado, vindo por trilhas intransponíveis, cruzando os Campos de Vacaria cheio de obstáculos, enfrentando os índios Xokleng e os Coroados Kaingang e quando, mil quilômetros depois, chegava em Lages, tinha que pagar um “pedágio” para cada cabeça de boi ou lombo de mula que houvesse sobrevivido.

Essa obsessão de tudo controlar e regular chega a ser uma patologia. Acredito tratar-se de uma compulsão atribuível a uma fixação freudiana na fase anal. Parece humor escatológico, mas não é, pois, como se sabe pela psicologia, a fixação na fase anal leva ao desejo compulsivo de controlar tudo e todos. Explico: o sujeito que não conseguia controlar sua evacuação na infância, que se abraçava ao vaso sanitário pedindo “cocô, volta aqui”, enquanto chorava ao vê-lo ser levado pela descarga, agora quer compensar controlando a vida de quem trabalha e produz. É o fim da picada. E como para o pirado esquerdista-anal vale tudo, dá-lhe discurso apelativo, demagogia, mentiras, engodos e enrolação.

O cúmulo, contudo, é que o esquerdista brasileiro pensa que o país lhe deve uma cornucópia. Para quem não sabe, a cornucópia, na mitologia grega, era um dos cornos do bode Amalthea, o qual seria dotado da propriedade mágica de prover quantidades ilimitadas dos mais variados e deliciosos manjares e guloseimas. Do corno vinha mel, doces, frutas, e, seria de supor que, para atender ao surpreendente paladar petista, viriam também fantásticos sanduíches da melhor mortadela. E sendo que nada neste mundo é mais parecido com uma cornucópia do que um emprego público no Brasil, o sonho do petista padrão é uma sinecura ou uma boca no governo.

  • O Brasil merece bons sistemas 

Apesar dos pesares, no Brasil já somos um país. (Que bom!). Mas somos latino-americanos. (Que mau!). E, portanto, somos disfuncionais. Acreditamos em coisas que não existem, como na capacidade do governo criar riqueza. Ou na capacidade de funcionários púbicos resistirem à tentação. Em compensação, não sabemos ligar causa com efeito. O arguto e saudoso Nelson Rodrigues dizia que toda a vez que via um brasileiro ligar causa ao efeito tinha um orgasmo. Acho que os teve poucos.

O ponto chave é entender que, no século XXI, um governo deve ser um maestro. Em sociedades amadurecidas, os cidadãos não precisam da tutela do governo. E um governo deveria ter sua avaliação de forma automática. Se seus indicadores mostrassem incompetência, o sistema acionaria a ejeção e pimba: o governo seria mandado para o espaço.

O maior dos indicadores seria a qualidade do gasto público. Quando o governo começasse a gastar mais nas atividades meio do que nas atividades fim, tocaria o alarme da ejeção. Se um governo começa a enriquecer os amigos e a mandar as contas para o povo receberia um aviso de alerta e, se insistisse, seria demitido pelo computador. Estamos chegando a um tempo em que ninguém mais aceita ser escalado para ser trouxa a vida inteira.

Os governantes deveriam ser servidores do povo. Com crachá. O presidente deveria fazer como o Papa e lavar os pés do povo ao menos na páscoa da ressureição. Mas no Brasil, os membros dos três ramos do governo ainda se acham no direito de desfrutar das glórias imperiais. Vivem em palácios, voam nos tapetes voadores da FAB e desfrutam da coisa pública como se vivêssemos em um reino das arábias. É uma pouca vergonha daquela muito sem vergonha. Mas temos que nos curvar ante a dura verdade, a doída verdade: nenhum país pode ser latino-americano impunemente.

O que precisamos cultivar no Brasil é um pouco de bom senso. É lutarmos para criarmos sistemas balanceados com um mínimo de equilíbrio ganha-ganha. Sistemas feitos com uma beirada para incluir o povo e em que os dois lados ganhem.

Talvez venhamos a concluir que isto implica em refundar o Brasil. Fazer um nova constituição para o novo século. Todavia, só um imbecil anacéfalo irá acreditar que estes políticos mentecaptos, ou os políticos da velha ordem, sejam capazes de largar o osso que roem desde o descobrimento. Que se disponham a criar sistemas isentos da velha sacanagem patrimonialista nacional que os fazem marajás. De modo que, para mudar mesmo, precisamos, antes, reinventar a participação moderadora da sociedade no desenho de nosso destino.

Como as mídias tradicionais tem se mostrado limitadas é preciso contar com a mobilização das mídias sociais e, especialmente com as ruas. A estas cabe mostrar força e união. Às ruas cabe neutralizar os esforços bucaneiros dos piratas de nossa política.  Sem uma presença massiva desta nova forma de mobilização social seria repetir a velha história: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte”. Lamento dizer, mas penso que apenas se, e quando, a sociedade ficar de olho e contar com pesos e contrapesos eficazes, os políticos e agentes públicos se portarão com a devida decência. Por exemplo, é impossível esperar reformas do atual congresso, formado por compadrio entre 28 partidos que repartem o mando. O resto é devaneio de noite de verão.

Conclusão II: Um bom sistema é como a virtude, que só é boa quando a serviço de uma boa causa. Como lembrava Santo Agostinho, “uma virtude a serviço do vício agrava o vício!”. Carlos Lacerda, ao dar um exemplo sobre esta frase da tribuna da câmara, disse, certa feita, que “a pontualidade é uma virtude, mas se for usada para ir ao bar para beber com pontualidade, vai agravar o vício da bebida.”

De maneira que redesenhar o sistema político precede outras providências. É preciso redesenhar os canais pelos quais fui a democracia. Hoje o sistema é uma enganação. As elites fingem que mudam mas, mudar mesmo, não mudam nada. A habilidade com que os políticos “espertos” manipulam as leis e normas em seu favor nesta grande pátria tropical ficou cabalmente demonstrada no arranjo inconstitucional sobre os direitos políticos da Dilma.

  • Fórmula para arrumar a casa

Se fosse para consertar de vez, não seria preciso reinventar a roda: o mundo desenvolvido já mostrou claramente que os mecanismos que melhor funcionam são aqueles baseados em dois princípios:

  1. – Voto distrital – A experiência demonstra que o distrito tende a eleger o melhor candidato de sua área. O conjunto de distritos tende a eleger um congresso com compromissos claros com suas comunidades, o que resulta em um congresso melhor.

(A dificuldade: Os políticos profissionais fogem dessa discussão porque, na hora de se discutir o tamanho dos distritos, o povo de São Paulo vai querer saber porque, para a câmara federal, o voto de um cidadão de Roraima vale 10 vezes mais do que o de um cidadão paulista. E não vai gostar de ficar na segunda classe. Nem de saber que é o que mais paga e é o que menos recebe.

2. – Parlamentarismo – Os mecanismos do parlamentarismo favorecem a governabilidade e ajudam a neutralizar os vícios e as inevitáveis crises do presidencialismo.

(A dificuldade: o presidencialismo de “coalisão” é o regime das melhores negociatas. Vender o voto é um excelente negócio. Somado aos lucros da corrupção, tem sido melhor do que encontrar ouro no quintal.)

  • Pedra à vista: estamos no meio do caminho 

Estamos no meio do caminho. Mas no meio caminho já estávamos quando conquistamos as eleições diretas. Parecia, naquele tempo d’antanho, que havíamos de seguir em frente. O governo de Fernando Henrique Cardoso, sobretudo, foi auspicioso e parecia indicar um tendência pela prosperidade autossustentada. Mas, ledo engano: nossa natureza de sul-americanos não demorou a aflorar e a nos submeter. O Belzebu colorado que jura ao povão que dá para viver de milagre, de efeitos sem causa, voltou com seu tridente para nos afastar da lógica e do bom senso. Caímos novamente na tentação das delícias grátis. E agora, no fundo do poço, devemos enfrentar uma penosa e lenta recuperação. Ou, pior, descambarmos de vez, seguindo no destino dos rebotalhos do mundo, a exemplo de Cuba, da Venezuela e de outros fracassados deste e do outro lado do Atlântico.

Mas haveremos de vencer, certo? Vamos enfrentar nossa realidade de frente, esconjurar nossos pecados, cortar as asas da corrupção, ficar de olho no desejo de nossas “zelites” picaretas de meter a mão e de misturar o público com o privado. Temos que acreditar que o impeachment de Dilma, a cassação de Cunha e o indiciamento de Lula no Lava-Jato são sinais de um provir mais promissor.

Uma saída, mais à frente, possivelmente será uma nova constituinte para o século XXI. A Atual constituição é desbalanceada e conduz a uma instabilidade permanente. Até seria muito bom se nosso dinheiro desse, mas o Brasil não tem como manter todos os privilégios, regalias, direitos e benesses contemplados na atual carta. Esta constituição está além de nossas possibilidades. É triste reconhecer, todavia, que enquanto esta perdurar, vamos viver em crise permanente.

  • E a eleição no meio do caminho?

Escolher mal agora pode desperdiçar toda a caminhada já feita. E recolocar as pedras que conseguimos tirar do caminho.

Por isso, como revelei com candura, vou votar em João Dória para prefeito de São Paulo.

Conheço o candidato pessoalmente e já trabalhei com ele em uma parceria internacional. Sei, de primeira mão, que é preparado, competente e trabalhador. O mais importante: acho que, com ele, vamos poder contar com São Paulo para continuar a caminhada no rumo do Brasil decente que queremos.

Que me desculpem os petistas e os vermelhos em geral, mas, com o entusiasmo da esperança, não posso deixar de bradar: Viva o Brasil verde e amarelo.


Ceska – O digitaleiro

Fim dos ratos

flautista_rampa
O Flautista de Hamelin reencarnou no Juiz Moro: a Lava Jato está desentocando os ratos que habitam o poder e vai levá-los todos para Curitiba.

Os ratos estão em polvorosa. Pressentem que o fim está próximo. Nunca a confraria dos roedores deste país se sentiu tão acuada. Nunca enfrentou inimigos tão implacáveis, nem tão letais, como o Juiz Sérgio Moro e a Força Tarefa.

Nada a estranhar, portanto, na estridência de seu esperneio.

De todas as bocas de lobo, de todos os antros corruptos, de todos esgotos escancarados, de todos os quadrantes comprometidos com a roubalheira ouvem-se impropérios, ranger de dentes e ataques à Lava Jato e, em especial, contra o juiz Moro.

Todos os ratos que pilharam a pátria sem dó agora se juntam nos rompantes guturais do coral da cloaca. Vendo o cutelo zunindo em sua direção, vociferam a cantilena de golpe que ecoa pelos porões putrefos daquele que foi o mais perverso dos governos que o Brasil conheceu.

Segundo disse à Folha de S. Paulo o Procurador Dalton Dallagnol, coordenador da Força Tarefa de Curitiba, “nossa única defesa é a sociedade.”

Fica claro, portanto, que, se queremos um país decente, precisamos nos unir e mostrar que estamos com a Lava Jato e apoiando o Juiz Sérgio Moro, para o que der e vier.

O sentimento majoritário da sociedade brasileira é que chegou a hora de dar um basta. De desratizar o país. De eliminar os ratos para acabar com a roubalheira desenfreada, despudorada, desavergonhada, de uma vez por todas.

Ainda que muitos políticos pensem o contrário, não somos um país de tolos. Somos tolerantes em demasia, é verdade, mas tudo tem limite. Cansamos de tanto bandido, cansamos de tantos roedores.

Fora ratos Já!

“Você sabe o que acontece quando um navio tem ratos demais? Ele afunda. É isto o que acontece.” (David Wong).

Bem, um país com ratos demais também afunda. Que é precisamente o que vemos acontecer com o Brasil.

A verdade sobre os ratos, tanto os rattus rattus, de quatro patas, como os homo rattus (teria mulher rattus?) de duas pernas, é que são insidiosos. E prolíficos: quando encontram condições favoráveis, os ratos se multiplicam como ratos. O que, convenhamos, era de esperar! E, ainda, sendo os ratos roedores incansáveis, roem tudo o que podem. Daí os rombos colossais que vemos à nossa volta no Brasil.

Por isso, a luta contra os ratos não tem fim e o homem vem, desde sempre, tentando se livrar destas pragas.

No combate aos ratos, é mais fácil eliminar o animal de quatro patas, o rattus rattus, como registram diversos episódios do passado.

Por exemplo, em 1508, na pacata Autun, uma pequena cidade da França, cerca de 300 km ao sul de Paris, o vigário acionou o tribunal eclesiástico da localidade para processar os ratos que haviam devorado as plantações de cevada da região.

Naquele tempo era comum este tipo de processo que o direito eclesial e medieval considerava dentro de suas atribuições. Hoje, na igreja católica, ainda existe a benção dos animais, mas nos idos do século XVI, os líderes religiosos acreditavam que os animais poderiam ser possuídos pelo demônio e, portanto processados e condenados pelos tribunais da igreja.

Só para ilustrar, houve um Papa, Leão XIII, que preconizava o exorcismo de animais. Em outro exemplo, o bispo de Lausanne, certa feita, tratou de amaldiçoar oficialmente as criaturas que desobedeciam as ordens eclesiais.

Na França, chegou a existir alguma jurisprudência penal animal, como evidencia uma tapeçaria na antiga cidade de Falaise, referindo-se ao assassinato de um bebê por um porco, em 1386.

Assim é que, em 1508, a pequena cidade de Autun decidiu que haviam evidências suficientes para processar os ratos das redondezas. Os bichos tinham passado de todas as medidas. Pois não é que os desgraçados haviam dizimado a plantação de cevada local?

O crime já era grave por si, pelas perdas econômicas, mas, para piorar as coisas, haviam privado a cidade da matéria prima para a produção local de cerveja. (Não entenda mal: em certas épocas, a cerveja chegou a ser mais popular do que a água, já que, na Idade Média, as práticas sanitárias deixavam muito a desejar. Assim, ainda que servisse com uma boa desculpa, era mais seguro beber cerveja do que água.)

O fato é que, então, o Tribunal Eclesiástico de Autun, solenemente presidido pelo dito vigário, emitiu uma citação convocando os ratos a comparecerem perante o Tribunal. Em deferência à importância dos réus, a corte seria instalado na célebre Catedral de Autun, uma magnífica construção ainda imponente, concluída em 1.146.

Como rezavam as boas regras do direito, um advogado local foi indicado para ser o defensor “pro bono” dos ratos. A atribuição coube a Barthélemy de Chasseneuz, personagem que se tornou conhecido e respeitado pela forma engenhosa como defendeu as ratazanas de Autun.

Os autos do processo registram que, no primeiro dia do julgamento, os ratos não compareceram.

Chassenez argumentou ao Tribunal que a intimação fora inválida. A intimação, feita dos púlpitos, não teria como chegar aos acusados, que tendiam a viver sozinhos. O advogado insistiu que cada um de seus clientes devia receber uma intimação individual.

Depois de acalorado debate, o juiz decidiu que Maitre de Chassenez tinha levantado uma questão relevante e foi decidido que uma intimação fosse devidamente afixada nas igrejas de toda a cidade e das cidades vizinhas. (Consta que perto do chão, na altura dos olhos das criaturas endiabradas, para facilitar a leitura por parte dos réus).

Mas os ratos continuaram em desobediência e não se deram ao trabalho de aparecer na segunda citação.

Foi a esta altura que Chassenez ganhou a reputação que o tornou famoso e o enriqueceu como grande advogado: argumentou que, na medida que o tribunal não tinha proibido a presença dos gatos no caminho, simplesmente não era seguro para seus clientes comparecerem nas audiências em Autun.

Ora, o Estado de Direito já fazia sentido na França em 1508: se um acusado não pode ter assegurada sua segurança pessoal para comparecer diante de um tribunal para responder às acusações, poderia ser dispensado de obedecer à citação. E assim foi que, por decisão da corte, os ratos continuaram vivos e soltos.

Outro episódio medieval, desta feita com um desfecho menos favorável aos ratos, exige que recuemos ainda mais 250 anos na história.

Conta-se que, precisamente no dia 26 de junho de 1284, um “caçador de ratos” se apresentou com uma proposta ao prefeito de Hamelin. A cidade, que estava tão infestada de ratos como o Brasil hoje, queria se livrar da praga que a assolava. O caçador se propunha livrar a cidade dos ratos mediante uma recompensa. Haveria um alta conta a ser paga pela população, mas a cidade se veria livre da praga para sempre.

O mencionado “caçador de ratos”, um personagem que entrou para a história como o “Flautista de Hamelin”, pôs-se a trabalhar. O “caçador de ratos”, que era, na verdade, um músico que tinha uma flauta cujo som atraia os ratos, saiu pelas ruas da cidade tocando seu instrumento. A população viu, assombrada, que os ratos, enfeitiçados pela música, seguiram o flautista até o Rio Wesser, onde foram caindo e morreram afogados.

Todos festejaram e ficaram muito felizes: o fim dos ratos prometia uma nova era para o povo da cidade de Hemelin.

Mas e agora? O que esta história da Alemanha Medieval tem a ver com o momento que vivemos no Brasil?

Simples: O Juiz Moro é o nosso “Flautista de Hemelin”. A flauta á a Polícia Federal e a música é a lei. Os ratos, como estamos vendo, são todos da espécie homo rattus, bípedes corruptos que estão sendo desentocados e tendo que se explicar diante da lei.

De nossa parte, o que devemos fazer é apoiar de todas as formas possíveis a Força Tarefa da Lava Jato e o Juiz Sérgio Moro.

E aproveito para enviar um recado ao Temer e seu grupo da velha guarda (e velhos hábitos) que assumiram o plantão: a Lava Jato vai acabar quando acabar. A limpeza vai ser geral e irrestrita.

Segundo o Ministro Teori, “A gente puxa uma pena e vem uma galinha“. Portanto, enquanto houver pena solta por aí, o povo vai continuar mobilizado. Podes crer. Assim, que fique claro para todos os efeitos: a Lava Jato vai acabar quando tiverem acabado as galinhas e eliminados todos os ratos que infestam o Brasil.

Se você é também desta opinião anota aí: dia 31 de julho próximo vamos todos para a rua participar da próxima megamanifestação de apoio à Lava Jato e ao Juiz Moro.

E lembre-se: país rico é país sem ratos!

Em tempo: este post já estava na internet quando o Youtube publicou o público de Curitiba aplaudindo o Juiz Sérgio Moro, em um teatro, durante show da Banda Capital Inicial, dia 25 de junho.

Ceska – O digitaleiro


O Ano do Orangotango

ano_orangotango (1)
O Brasil vai sempre lembrar 2016 como um ano insólito

O Ano do Orangotango

A fuzarca assola o país. É tanta zica que só pode ser castigo cósmico.

No horóscopo chinês, 2016 é o Ano do Macaco. No Brasil, pelo tamanho da encrenca, só poderia ser o Ano do Orangotango.

Nossa atual crise, uma esculhambação jamais vista antes neste país, tem o jeito mal encarado de um Orangotango, só que bicéfalo.

Numa das cabeças temos um presidente “vintage”, que se vira com status de substituto e pose de primeiro mordomo e, no outro crânio, um recipiente agora oco, posto que descerebrado, remanesce a dita “afastada”, uma quase “ex-presidenta” desidratada, ranzinza e cada dia mais furibunda, agora que a deixaram sem avião.

Esta bizarra criatura de duas cabeças – refiro-me ao orangotango, óbvio – começou o ano atazanada e resolveu que pagaríamos todos os nossos pecados de uma só vez. A partir desta disposição, nada que tenha o dedo do coisa-ruim tem escapado da faxina ampla, geral e irrestrita.

A Lava Jato vem usando o ventilador em sua capacidade máxima.

As instituições, por seu turno, balançam sob abalos de proporções sísmicas, provocadas por gravações insólitas, que desnudam, fáticas, algumas das figuras mais herméticas da república. Figuras caricatas, toscas, fétidas, pilhadas em eventos sórdidos, assás nauseantes, reais arquétipos de corrupção explícita. (Ufa!…)

Algumas destas figuras, ademais, não escondem estar dispostas a se aventurarem em esquemas e maquinações malucas na desesperada tentativa de escaparem de Curitiba.

Suas excelências, antes bem falantes e fagueiras, agora catam desculpas gaguejantes, atarantadas, aparvalhadas. É um espetáculo patético. É triste, mas impagável, ver os digníssimos, sempre tão empertigados, demonstram temer mais o juiz Moro, em Curitiba, do que temeriam o Conde Drácula, na Transilvânia.

E ainda, o mais atroz vaticínio neste Ano do Orangotango, horrendo e insopitável, que insiste em espalhar paranoia em Brasília: eis que todas as conversas foram gravadas; eis que todos farão delações premiadas; eis que todas as trapalhadas serão reveladas; eis que todas as bandalheiras serão punidas; eis que toda a roubalheira deverá ser devolvida.

Para complicar, o exemplo de Lula e Dilma fez escola. E, dado que o mau exemplo é mais corrosivo que o ácido, o país, que já não era sério, que sempre foi amigo do jeitinho, parou de acreditar no bom senso.

Segundo o catecismo petista, bom senso é bobagem antiga. Muito antiga. De antes do Lula. É coisa do tempo de um tal Aristóteles, um cara que falava grego. Funcionava assim: para alcançarmos uma vida próspera e feliz. devemos utilizar como instrumento a frônesis (já imaginou?), que significa “justa medida”, uma combinação de comedimento e equilíbrio que resulta no tal “bom senso”.

O velhote da Grécia dizia ser esta uma sabedoria prática, acessível a todo o povo pelo uso do cérebro (uso do quê? abusado o Tóteles, hein?). Por exemplo, um guerreiro, com pouca coragem, se torna um covarde; com muita coragem, se torna temerário e pode se dar mal. Alguém que tem a obsessão de poupar dinheiro vira sovina; em contrapartida, aquele que nunca guarda nada, torna-se esbanjador e vai à falência. Assim, pregava Aristóteles, o caminho correto para uma vida boa e feliz está no equilíbrio e na ponderação.

De modo que, descartado o citado “bom senso”, devidamente xingado de neoliberal, nenhum petista queria ouvir falar em mérito e decência. Havia uma “ética” do partido: era nossa vez de “enricar”, de “meter a mão”. E nem as “zelite”, nem ninguém mais tasca.

Tanto fizeram que instalou-se a crise e a sociedade cansou. E, repetindo Rui Barbosa, “de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Por consequência, com a adoção generalizada do “gasta que eu gosto”, hoje vivemos o efeito desta onda produzir o colapso em série nos estados e municípios. São dezenas de estados e centenas de municípios que estão na bancarrota, sem dinheiro até para pagar salários.

E foi nesta toada, ao se espalhar pelo país a seita petista, avessa às boas práticas de gestão da coisa pública, que o festival de gastança tirou os calços. Por exemplo, criaram-se milhares de cargos públicos. Acontece que cada novo emprego público gera compromissos de salário, aposentadoria e pensão por TRINTA ANOS. São trinta anos de despesa engessada. Grande número comprometida em manter funções obsoletas, como os ascensoristas do congresso nacional, que recebem mais de R$ 12 mil mensais.

E com Dilma, como mãe do PAC, e Lula et caterva com a mão no PAC, para qualquer lado que se olhe, depara-se com o desperdício. Vê-se uma profusão de obras inacabadas. Muitas delas, aliás, criadas só para gerar propina. Como Lula e Dilma acreditam que dinheiro dá em árvore, bilhões foram gastos sem controle. Podemos começar pela transposição do São Francisco, ou pela Refinaria Abreu e Lima, mas a lista é tão extensa que não cabe num só post.

Nestor Cerveró, um dos delatores “premiados”, contou que muitos políticos reclamavam do “pequeno” percentual destinado à propina nos contratos da Petrobras. “Tem muito político que pensa… Isso funciona muito em obra estadual, aí a comissão é 10%. Tinha político ali (na Petrobras) que ficava revoltado: ‘Porra, só isso que vc pode pagar? Fiz uma estradinha e levei 20%'”…

A propósito, Cerveró acusou Dilma de ferrá-lo. E deu o troco. Pelo que disse, Lula e Dilma sabiam de tudo desde o princípio. E apontou a responsabilidade de Dilma na compra da Refinaria de Pasadena, com 700 milhões de dólares pagos a mais.

O fato é que, sendo 2016 o Ano do Orangotango, tudo pode acontecer. Inclusive a volta da Dilma. Mas parece pouco provável. E por uma razão muito simples: político vende a mãe, mas não vende o cargo. Convencer senadores a escolherem o suicídio político é uma verdadeira missão impossível.

Dilma, ainda na cadeira, não conseguiu nem mudar os votos dos deputados, sendo que um deputado, eleito por voto proporcional, ainda poderia pensar em se reeleger com o que sobra de votos petistas. Ainda os haverá em pequena escala.

Já um senador, votando contra o impeachment e, assim, traindo a maioria dos seus eleitores, teria que enfrentar a fúria do eleitorado em uma eleição majoritária. Moral da história: não se reelegeria nem a pau.

Outras manobras de concepção sibilina, como esta proposta matreira que propõe a volta da Dilma com base numa promessa de renúncia e na convocação imediata de eleições diretas, simplesmente afrontam a inteligência da sociedade. Fazer um plebiscito para, depois, se for o caso, convocar eleições gerais, é enrolação da boa. Sem falar que promessa da Dilma tem credibilidade zero. Ninguém acredita.

Em todo o caso, só para ver o tamanho da bobagem, vamos imaginar a sequência destas tais “eleições gerais”: isso exigiria reformar a Constituição de uma hora para outra, com um rito complicado e maioria de dois terços. Mesmo que houvesse apoio de dois terços de ambas as casas e Dilma voltasse ao cargo à bordo desta “promessa”, isto só ocorreria em fins de agosto.

Em seguida, seria preciso começar a votar o projeto em meio às eleições municipais: o primeiro turno das eleições municipais de 2016, que elegerão em todo o país prefeitos e  vereadores, será realizado em 2 de outubro, primeiro domingo do mês. O segundo turno, em cidades com mais de 200 mil eleitores, está marcado para 30 de outubro, último domingo do mês. No congresso, durante a campanha, não se obterá nem quórum simples, quanto mais qualificado.

Passado o pleito, estaríamos no final do ano. Mesmo que as discussões iniciassem em novembro, as decisões pulariam as festas e as férias e seria retomadas depois do carnaval de 2017, que será em 28 de fevereiro. Com todas as chicanas e manobras protelatórias, uma eventual aprovação só ocorreria em meados de abril, na melhor das hipóteses. Então, a menos de dois anos do término do mandato, a eleição não seria por meio do voto popular, seria no plenário da Câmara dos Deputados. Sempre lembrando, claro, que, antes, seria preciso combinar com os russos: o Temer deveria concordar em renunciar junto.

E agora, José?

O Ano do Orangotango tem sido cruel de muitas formas. A roubalheira perene e os eflúvios etéreos estão nos dando uma surra merecida. Para a sociedade, não existe punição mais sádica do que assistir os noticiários. Milhões para cá, milhões para lá, milhões em profusão, milhões de contribuição, milhões no exterior, milhões em grana viva, milhões em espécie, milhões em maletas, em mochilas, em sacolas. São milhões, muitos milhões, mas nenhum, nenhunzinho, na sua mão. (São mais de 60 milhões de brasileiros inadimplentes, somando dívidas superiores a 250 bilhões)

Estamos vendo, de modo palpável, que no governo a irresponsabilidade é mais contagiosa que o sarampo. Que é mais fácil roubar do que ganhar. Que é mais fácil destruir do que construir.

O momento é de suspense. Dilma afastada é um alento. Mas é pouco. Tudo em nossa volta ainda segue se desmanchando. Estamos vendo as coisas continuando a  se complicar. Temos a cada dia uma nova agonia.

Mas, por outro lado, a catarse antipetista, antisafadeza, e anticorrupção está transformando o ano de 2016 em um ano que será lembrado séculos afora. Enquanto houver Brasil, enquanto houverem brasileiros, 2016 será lembrado como o ano insólito, o ano da grande faxina, como o ano da inflexão, como o mais cabal e Orangotango de todos os anos.

Ceska – o digitaleiro


 Leia também

A Petrobrás e o diabo

A Petrobrás e o diabo

diabo3 (1)
Lula e Dilma fizeram o diabo com a Petrobrás

A Petrobrás é uma benção ou uma praga para o Brasil?

Relata o apóstolo Mateus, no evangelho, (4:8-9), que Jesus, após o batismo, teria vencido a três grandes tentações. Se cedesse em qualquer das três, teria frustrado sua missão na Terra.

Na terceira tentação, Jesus teria sido levado pelo diabo a um monte muito alto. Do cume do monte o diabo teria mostrado todos os reinos do mundo e a glória deles e teria dito ao Messias: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”.

O preço a pagar para receber a ajuda do diabo na conquista do poder sobre as coisas materiais é prostrar-se diante do dele e adorá-lo. Esta passagem do evangelho fala em traição.

Para obter o poder absoluto, para fazer e desfazer das coisas deste mundo, sem dar satisfações, é preciso trair. E é preciso vender a alma, é preciso “fazer o diabo”, como, aliás, confessou com candura a afastada Dilma. E, neste processo, é preciso trair o povo e mandar seus interesses para o inferno.

Visto do alto do monte, no cenário brasileiro, a maior das glórias e o mais rico dos orçamentos é o da Petrobrás.

E cada governante deste país, desde que a empresa foi criada, em 1953, tem sido submetido à mesma tentação. A cada um deles, o diabo oferece a Petrobrás. E todos tem sucumbido à ela. Alguns mais, outros menos.

Os presidentes militares caíram em tentação por um dos sete pecados capitais: a soberba nacional, que se expressava pela manifestação de orgulho e arrogância. Ainda assim, mantiveram-se com algum pudor.

Quando chegou a vez do Lula, o diabo o levou ao cume da montanha e mostrou a Petrobrás. Foi amor à primeira vista. “Tudo isto vai ser meu”? quis saber Lula, os olhos brilhando.

E o capeta, esfregando as mãos, já antevendo a esbórnia que ia dar, respondeu: “tudo isto vai ser teu, desde que tu me entregues tua alma e pagues religiosamente as propinas do PT, do PMDB, do PP e caterva”.

Para o tinhoso, estava tudo dominado. Para Lula, era a glória! Exultante em botar a mão na Petrobrás, nem titubeou. Fechou negócio no ato. É de se imaginar que seus olhos aboticaram e, sem se conter, saltitava de cá prá lá, girando os braços no estilo que copiou da Elis Regina. Só podia estar radiante. Amigo do demo ele já era de muito tempo, mas agora iria ser parceiro!

Há quem diga que, neste dia, a estátua do Padinho Cícero verteu lágrimas que, de tão abundantes, resvalavam pelos botões de sua batina de pedra caiada. Mas Lula não era cabra de fazer pela metade. Então, sem titubear um segundo, partiu para a ação, implantando a transposição do dinheiro da Petrobrás para seu projeto de poder.

Para operar a safadeza, que era muita e opulenta, estabeleceu a parte que cabia a cada um. De início, nomeou os diretores que representariam o diabo na diretoria da estatal. Mas, nem com todo o enxofre vertendo pelas ventas, foi coisa fácil.

Relata, em sua delação, o ex-deputado e ex-presidente do PP, Pedro Corrêa, que houve alguma resistência corporativa ao avanço da diretoria do “Projeto Satanás”. Segundo o delator, o partido havia indicado Paulo Roberto Costa para a diretoria de abastecimento, mas a nomeação emperrou.

Lula, então, teria ligado à José Eduardo Dutra, na ocasião presidente da estatal, para saber que diabo estava atrapalhando.

Dutra, tolo que era, ainda tentou argumentar:

Mas Lula, eu entendo a posição do conselho. Não é tradição da Petrobrás assim, sem mais hem menos, trocar um diretor”.

Qual o quê! Acordo com o diabo é como sentença do Supremo: tem que cumprir e acabou.

Lula, possesso e enfezado, mandou passar por cima da tal alegada tradição, ameaçando demitir os conselheiros teimosos que havia nomeado. Segundo Corrêa, o ex-presidente teria dito: “Se fossemos pensar em tradição, nem você era presidente da Petrobrás e nem eu era presidente da República”.

Assistindo tudo aquilo, o diabo se estrebuchava de tanto rir.

Em outro episódio da série, que seria hilária se não fosse trágica, um grupo do Partido Popular foi ao Palácio do Planalto falar com Lula e reclamar da “invasão”. Corrêa relata que o, à época, presidente, passou uma descompostura nos deputados.

Lula foi logo dizendo que eles “estavam com as burras cheias de dinheiro” e que a diretoria era “muito grande” e tinha que atender a outros aliados”. Segundo o relato, os caciques do PP se conformaram quando Lula lhes garantiu que a maior parte das “comissões” seriam dirigidas para a sigla.

E a Petrobrás, sob o comando satânico, foi se desfazendo. De maior empresa brasileira para a empresa mais endividada do mundo. Nunca antes neste país, tanto dinheiro foi pelo ralo tão depressa: a empresa registrou a maior perda em valor de mercado, em números absolutos, desde o ápice no Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores, em 2008, Segundo a consultoria Economatica.

A petroleira, que tinha chegado a um valor de mercado de 510,3 bilhões de reais em 21 de maio de 2008, em janeiro de 2016 não valia mais que 73,7 bilhões de reais, uma perda de R$ 436,6 bilhões, em queda de 85,55%.

O mais insano é que, se de fato, a corrupção respondeu por apenas 6 bilhões de reais, como diz a Petrobrás, para meter a mão nesta quantia o PT e aliados queimaram 430 bilhões. Há que se reconhecer que as diabruras do PT foram mesmo infernais. O belzebu estará orgulhoso do bom negócio que fez com o Lula e, por extensão, com a Dilma.

Mas e agora, o que vai acontecer daqui para a frente?

Com o Lula fora e a Dilma afastada, o diabo precisa sair para uma nova rodada de negociações. Vai tentar o Temer. O Temer tem uma figura com toques mefistofélicos que deixa o diabo com o pé atrás. Mas negócio é negócio. A Petrobrás vai continuar na parada da corrupção? Continuará a ser parte do botim eleitoral? Continuará a ser sangrada para enriquecimento dos políticos e safados de plantão?

Um antigo e sábio ditado diz que “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é bobo ou não tem arte”. Onde tiver dinheiro público, onde tiver dinheiro “sem dono cuidando”, lá estará o diabo obrando tentações e lá haverá gente metendo a mão.

Os liberais defendem o estado mínimo porque acreditam que lutar contra a natureza humana, contra a cobiça e contra o patrimonialismo que mistura o público com o privado, apenas com base em prédicas moralistas, é enxugar gelo ou, pior, é criar uma cortina de fumaça para que a corrupção prospere camuflada.

Mecanismos de governança e transparência podem ajudar a controlar a roubalheira desenfreada, mas serão sempre impotentes diante da criativa malandragem tupiniquim. No Brasil, não dá para facilitar. Medidas ditas de “prevenção” sempre serão vencidas pelos truques e maracutaias engendradas pela turma formada na melhor escola de corrupção do mundo, a brasileira.

A resposta, portanto, é de clareza meridiana: privatiza. Enquanto a Petrobrás for estatal, ela será alvo da cobiça dos políticos e burocratas. E ela será a grande aposta do diabo para fomentar a corrupção e, de quebra, infernizar a nação.

Agora, privatizar a vaca leiteira dos milhares de parasitas que mamam em suas tetas não vai ser bolinho. Como, então, convencer a sociedade brasileira que o melhor a fazer é privatizar a Petrobrás?

Essa daí é uma questão deveras complexa. Após anos de lavagem cerebral, na base do discurso do “Petróleo é Nosso”, muita gente ainda confunde petróleo com Petrobrás. O petróleo é nosso porque está em nosso subsolo e ninguém vai levar o petróleo embora.

Já a Petrobrás, ao contrário do que apregoa, não é “nossa”. Ela é um polvo tentacular que opera em pelo menos 35 países: Brasil, Bolívia (lembram que tomaram nossas refinarias e perdemos investimentos de 6 bilhões de dólares?) Paraguai, Peru, Colômbia, Uruguai, Argentina, Chile (A Petrobras informou, recentemente, que concluiu a negociação da venda de ativos na Argentina e no Chile, como parte de seu plano de arranjar dinheiro para cobrir o rombo da corrupção)Equador, Venezuela, Trinidad e Tobago, EUA (lembram da Refinaria de Pasadena?), México, Cuba (claro!), Senegal, Líbia, Argélia, Portugal, Inglaterra, Noruega, Guiné, Nigéria, Angola, Tanzânia, Madagascar, Moçambique, Turquia, Iraque, Japão, China, Paquistão, Índia, Cingapura (lembram da Venina Velosa da Fonseca, aquela gerente da área do Paulo Roberto Costa que denunciou as falcatruas milionárias da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco? Ela foi mandada para chefiar o escritório da petroleira nesta cidade-estado por Graça Foster, outra que anda sumida, ), Iêmem e Iraque.

Assim, a Petrobrás virou uma multinacional que negocia suas ações na bolsa de N. York e, como se sabe, aliás, vai ter que pagar bilhões de dólares em indenizações nas 28 ações que são movidas nos Estados Unidos  por acionistas que se sentiram ludibriados pela corrupção e consequente desvalorização das ações.

(Anote: O julgamento dos processos contra a Petrobrás está marcado para iniciar dia 19 de setembro próximo, conforme determinou o Juiz Jed Rakoff, da Corte de Nova York)

Portanto, de brasileira mesmo, a Petrobrás hoje só tem a corrupção. Ela é de seus acionistas, ela é do mercado. Hoje a empresa defende mais o interesse de seus acionistas do que algum eventual interesse do povo brasileiro. Por exemplo, pagamos a gasolina mais cara das Américas. Se a empresa é “nossa”, e deixamos que nos explore, somos os maiores trouxas do mundo.

Os ventos estão mudando. A sociedade vem amadurecendo em seu entendimento de que precisamos nos desvencilhar de arcaísmos que nos seguram no passado.

O Brasil precisa de educação, saúde, segurança, uma matriz energética inteligente, habitação, instituições contemporâneas, um mercado livre e integrado, uma infraestrutura de logística e transportes. O país não precisa de monopólios, estatais anacrônicas, cabides de empregos, uma burocracia cara, antiquada e prepotente.

Quando estivermos preparados, saberemos fazer escolhas alinhadas com o Século XXI e nos livraremos do peso de velharias ideológicas do século dezenove. Então a Petrobrás será privatizada, retornando aos cofres públicos parte do dinheiro que já custou ao país, pagando impostos e tirando de nossos ombros a maldição do petróleo.

Quando isto acontecer, vamos produzir mais petróleo do que nunca, vamos ter mais produto a preços menores e o diabo, aleluia, vai ter que achar outro caminho para financiar a corrupção no Brasil.

Ceska – o digitaleiro

Dilma, a sopa de pedra e o sapo

 

Dilma, a sopa de pedra e o sapo

sopa_de_sapo
Dilma fez uma sopa indigesta. Misturou pedra com sapo e lula. Temperou com PT ao gosto. Deu no que deu. Eca….

Dilma, a mulher sapiens, fez uma sopa de restos. Entrou pedra, sapo, lula, um ministério “fim de feira” e muita mandioca, que, em sopa de Dilma, aipim é que não pode faltar. Foi uma pajelança.

Tem quem pense que um governo é uma sopa: uma mistura de ingredientes que devem ser fervidos juntos para produzir um caldo.

O primeiro governo do PT tinha boa proteína na sopa do Lula: Meirelles no Banco Central. Era como um naco de músculo de pescoço que teimava em resistir à fervura do fogo que a esquerda botava para queimar por baixo. O cozinheiro Lula, ainda pouco afeito às lides de forno e fogão, preferia ir com jeito, seguindo a receita econômica do mundo que dava certo – o mundo mal amado dos gringos de “olhos azuis”. Lula xingava os gringos, sem lembrar que os orientais do Japão, China, Coréia, Singapura e outros, de olhos amendoados, também vinham se dando bem à luz do bom senso na economia, aliás, seguindo o mesmo cânone prometido na hoje esquecida “Carta ao povo brasileiro”, dos idos de 2002. De toda forma, bafejado pela herança bendita que recebeu de FHC, que começava a produzir frutos, tudo parecia estar indo bem na sopa, ainda que nela já estivem cozinhando os sapos do mensalão.

O segundo governo do Lula foi o despertar dos embrulhões. Parecia chegado o momento de adotar a feitiçaria heterodoxa, que a ortodoxia era blasfêmia dos neoliberais. Com a saída de Palocci, vieram os aprendizes de feiticeiro. Com pompa e circunstância, começaram as bruxarias na  economia. Abriu-se a caverna da Abra-cadabra: sucediam-se mágicas bestas à torto e à direito. Com dinheiro correndo farto para irrigar a corruptaiada, mesmo o escândalo do Mensalão acabou sendo absorvido, sob regozijo de Lula, que viu seu rival Zé Dirceu ir parar nas masmorras. Para o governo, tudo transcorria em clima de quermesse. O mundo vivia a festa das commodities. Os dólares jorravam da cornucópia das exportações e muita gente, no país do Macunaíma, imaginava que se haviam aberto as portas do jardim do éden. Sob a frouxidão de um presidente que, a aquela altura, saracoteava mais que um Baco de arrabalde em meio a uma balada rap, os rigores burgueses foram lançados ao mar. A Petrobrás virou a casa da mãe Joana. Bilhões eram roubados e o caixa saqueado com a desenvoltura de dona de bordel. Como tudo parecia lindo e maravilhoso, todos os aliados meteram a mão sem “pudô” e a farra do liberou geral saiu do controle.

Era uma folia de reis no planalto. O “pudê” tava uma delícia. E tudo nos conforme: se as “zelite” gostam, deve ser bom. Agora é nóis na fita.  E dado que, para o projeto de poder do PT, os fins justificavam os meios, nada havia a temer.

Para o PT e aliados, após oito anos gulosos aprendendo a gostar do bom e do melhor, com Lula voando solto no salto alto, de repente surge a ameaça que podia acabar com a brincadeira: uma nova eleição se avizinhava. Era preciso pensar o futuro. Largar o osso, nem pensar. O “sapo barbudo”, definição preferida de Brizola para o molusco, gostou de ser presidente. Queria mais. Por ele, bem que tentaria ficar para sempre passeando de AeroLula, sendo bajulado por todos os basbaques bolivarianos da Sul América, e, que beleza, recebendo títulos honoris causa mundo afora. Digno do Guiness: foram 55 títulos de universidades deslumbradas e que não se deram ao respeito!. Só na Argentina foram 11. Mas o Brasil não é a Venezuela. Aqui não dava para engatar uma mudança constitucional que permitisse uma nova reeleição. A salvação é que Lula, o sapo sábio, havia aprendido com o Chapolim Colorado a suspeitar desde o princípio. E, sem querer querendo, plantou a candidatura de um poste. Dilma parecia o poste ideal. Para começar, era um poste sem luz. Não era muito inteligente, arrogante no trato, era péssima em política e ruim até no arremesso de grampeador. Daí que, pensou o molusco de Garanhuns com suas ventosas: o poste (a “posta”??) seria submissa, faria pose, mas seria ele, Lula, que continuaria a mandar nos bastidores. Seria um maestro sem batuta, um Rasputin do sertão. E assim decidiu e ficou feliz. Ele era esperto, muito esperto.

Para ganhar, fizeram o diabo. Abriram os dutos do tesouro. Prometeram enormidades e, o povo, nosso ingênuo e crédulo povo, acreditou. Só que, como diz o ditado, a esperteza, quando é muita, vira bicho e come o esperto. Como as contas não fechavam, as coisas começaram a dar errado. Dilma só fazia o que lhe dava na telha, quer dizer, coisa pouca e atabalhoada. Depois de dar lições de economia à Angela Merkel (e levar um pito equivalente ao 7 x 1), assumiu a nova “matriz econômica”. Desdenhosa, quis mostrar-se acima da matemática, esta ciência que dá nojo em petista que se preza, esta invenção satânica da burguesia de direita para oprimir os pobres e os humildes. Foi uma derrocada anunciada que provou, uma vez mais, que quem não aprende com o passado está condenado a revivê-lo como farsa.

Em um governo cheio de empáfia e distante da realidade, a lei de causa e efeito foi revogada e deixou de valer. Erros sucessivos e incompetência obsessiva solapavam diariamente as bases em que se assentava a economia do país. Dilma, a mulher sapiens, esqueceu que a economia, como a natureza, não se defende: ela se vinga. O crescimento não vinha. O valor das commodities despencou. A Petrobrás não aguentou tanto desaforo. As pedaladas começaram. Quatro anos de deterioração enferrujavam a estrutura do país. A entropia auto induzida emperrava tudo. Para disfarçar seus efeitos e esconder a ferrugem, os taifeiros do PT passaram uma mão de tinta. O Brasil virou uma alegoria que fantasiava uma prosperidade que não lhe pertencia mais. Os 39 ministérios só faziam maquiagem. Neste clima veio a nova eleição.

O que se diz é que Lula tinha decidido ser candidato, como, acreditava-se, era o planejado. Acontece que Dilma o chamou para um canto e teria dito alguma coisa que fez o medo vencer a esperança. Era chato, mas Lula resolveu esperar mais quatro anos. Foi um erro fatal. Livre de escrúpulos, sem eias nem peias, Dilma se lançou em uma campanha despudorada, jogando bilhões na parada, sempre devidamente aconselhada por ministros igualmente aloprados, como Aloísio Mercadante e José Eduardo Cardoso. A candidata jogou para o alto o que restava de decência. Se valendo da mais refinada malandragem de que se ufana este país, aplicando competentes golpes de marketing charlatão, sob a batuta do atual presidiário João Santana, arrancou uma escassa vitória nos grotões. Lá, na beirada pobre do país, os votos foram escandalosamente comprados com o dinheiro do bolsa família. De positivo, só ficou provado que nada acaba mais depressa com um mau produto do que um bom marketing.

Reeleita, reassume a nova Dilma. Agora, ciclista na melhor acepção da palavra, sai para as pedaladas. Na cozinha, assume o panelão. O segundo mandato da mulher sapiens começou com uma sopa de pedra. O Ministro Levy era a pedra. Estava na sopa, mas não tinha nem sabor nem cheiro. A Dilma, mais imperial, arrogante e prepotente do que nunca, fazia questão de humilhar seu ministro. Um ministro, aliás, nomeado “pour épater le bourgeois”  e que era exibido para fazer o contraste e deixar claro quem mandava. A mensagem imperial era clara e tonitruante: “vocês vão ter que me engolir”. “Vocês”, no caso, éramos nós, o povo.

Após um ano patético, Levy foi tirado da sopa. Saiu como entrou. E, com a dignidade intacta, Joaquim Levy, o engenheiro naval com doutorado em economia, foi ser Diretor Financeiro do Banco Mundial (BIRD). Sem a pedra, a sopa ficava cada vez mais à imagem da ex-guerrilheira: uma poção mal cheirosa. No caldeirão da bruxa, a “presidenta” ia jogando todo o lixo que aparecia pela frente. Jogou dentro até um ministério arrebanhado nos restos da feira livre em que virou o congresso. Tentou fazer um acordo com o Eduardo Cunha, mas era tarde. Nas ruas, as multidões eram muitas e o dinheiro era pouco. Como última esperança, a feiticeira aloprada colocou o sapo na sopa. Não funcionou: eis que a sopa de sapo ninguém quis.

E agora, o fim melancólico da era lulopetista está escrito nas estrelas. (Refiro-me às verde e amarelas, aquelas que brilham no firmamento e no coração dos brasileiros.)

A Lava Jato continua moendo petista e vem escancarando as entranhas malignas dos governos de Lula , de Dilma e do PT. O lance final da mulher sapiens, chamar o Chapolim barbudo para o ministério, foi a cereja do bolo: o Sérgio Moro foi mais esperto e soltou a gravação que citava o tal “Bessias”. Fim. Cheque mate.

Agora, na desmontagem do mais estapafúrdio e estrambólico governo de nossa história, ainda se observa um esperneio aqui e outro ali. É a petezada querendo osso. Mas nem mortadela tem mais. Só sobrou mandioca. E sem acesso ao dinheiro público, a empáfia se esvazia, a ilusão acaba, as cortinas se fecham. Tchau, querida

Ceska – o digitaleiro.

Leia também Continuar a ler

Onda de crescimento represado pode ser a grande surpresa

Prepare-se para uma grande surpresa: um tsunami de crescimento pode vir tomar conta do Brasil já ao longo dos próximos 180 dias. Conversando com diversos empresários nos últimos dias fui surpreendido por um contexto inteiramente inesperado: a existência de um represamento de projetos que estão no gatilho para serem disparados assim que se consolidarem os primeiros sinais de uma mudança nos rumos da economia. Tudo indica que a existência de crescimento represado e projetos prontos para implementação imediata pode disparar uma onda de crescimento por empresas que pretendem “sair correndo” para evitar que eventuais concorrentes cheguem antes e ocupem lugar no mercado. Se esta tendência se confirmar de fato, pode ser que venhamos a assistir a uma autêntica “corrida de ouro” dos tempos do velho oeste.

Ceska – o digitaleiro


 

Crise: tudo o que é falso se desmancha no ar

Dilma_ar1
Profecia realizada: Carta fora do baralho

O Brasil vem passando por um fascinante processo de descoberta e amadurecimento. O que estamos vivendo no Brasil é um destes momentos transformadores que educam os povos e fazem avançar as nações. O impeachment tem sido traumático em muitos aspectos, mas o funcionamento das instituições tem mostrado um amadurecimento extraordinário. E o Congresso e o Supremo Tribunal Federal podem contribuir para converter a “decrisis” em curso – uma crise de desagregação que conduz ao caos – em uma “sincrisis” – uma crise que se encaminharia para a solução pelo reordenamento do país e por acender uma luz no fim do túnel.

A causa original do impeachment da Presidente Dilma, que já se encontra na fase do senado, foi a profunda crise econômica e moral que se abateu sobre o país. Uma crise produzida pela corrupção e pela incompetência, aliada ao desprezo olímpico pela matemática, uma ciência tida como “neoliberal”, e pela afronta rombuda aos princípios da economia. Esta, como se vê, é uma tolice perigosa, já que a economia não se defende. Ela se vinga.

Em retrospecto, foi a conjugação de preços favoráveis das commodities associado com o crescimento artificial do poder de compra das classes mais pobres, via bolsa família e financiamento generoso de bens de consumo, que levou a esquerda a se imaginar invencível.

Jogou fora o freio e passou a acelerar os gastos sem limites na crença de que, no final, o “dinheiro pinta”. Pior, para perpetuar-se no poder, escancarou as portas da corrupção. A Petrobrás passou a ser vista como uma cornucópia de dinheiro fácil. Eram milhões e bilhões que jorravam sem controle e sem vergonha para o bolso de empreiteiras e políticos amigos. O governo petista virou um programa do tipo “quem quer dinheiro”. E se ainda fosse pouco, visando ganhar a eleição por meio de distribuição de dinheiro farto e por um marketing charlatão, a primeira mandatária assumiu  o papel de “dilapidadora da república”, se deixou tomar pela soberba, aquele sentimento caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, e inaugurou o governo pela arrogância. Não surpreende que os fatos tenham vindo cobrar a conta.

As mentes toscas da nossa esquerda ignara sempre imaginaram que podiam torcer a verdade sem enfrentar as consequência, que esconder os fatos os fariam ir embora. Mas descobrem, agora, que não é assim que o mundo funciona. E a parte do povo brasileiro que foi ludibriado por um governo edificado sobre mentiras, descobre que foi vítima de um conto do vigário. E descobre, pela via sofrida de quem paga o pato, que é melhor desconfiar das promessas vigaristas de quem reconhece que “faz o diabo” para ganhar uma eleição.

O lado bom, ainda que doído, é que a nação brasileira vive a experiência de lamentar ter acreditado em “milagreiros”, de ter sucumbido aos demagogos sem escrúpulos que prometem milagres e efeitos sem causa com a ligeireza dos trombadinhas políticos que, de fato, são. Desta experiência vem o aprendizado sobre os fatos da vida. Vem a percepção de que as coisas são o que são e tudo o que é falso se desmancha no ar. Uma criança cresce quando queima o dedo na borda do fogão: ela aprende a não brincar com fogo. Uma nação cresce quando vive as angústias de uma crise econômica, social, moral e política que força todos a se unirem por um impeachment salvador: ela aprende a não brincar com o voto.