MANIFESTO ÀS BRASILEIRAS E BRASILEIROS E A TODOS QUE ACREDITAM NO BRASIL
BASTA DE CORRUPÇÃO. TODOS PELA DECÊNCIA E PELA PROSPERIDADE.
Brasileiras e Brasileiros,
O Brasil está no limiar de uma grande metamorfose holística. Uma metamorfose disruptiva e abrangente que já está em curso, avança pelo planeta e logo estará no Brasil redefinindo tudo em que toca — da economia às relações sociais, da política ao modo de viver.
Será uma metamorfose ampla e transparente impulsionada pela Inteligência Artificial e pelas tecnologias digitais que constituem o cibercérebro que envolve o planeta.
A transformação virá num amplo abraço que mudará a alma do Brasil por inteiro e que fará o Brasil ganhar nova dimensão, assumindo protagonismo global e abandonando para sempre o velho complexo de país vira-latas de que se queixava Nelson Rodrigues.
O mundo analógico, o mundo natural que a história registra e que nos trouxe ao presente, que formou as nações e organizou as sociedades desde o início da civilização humana é uma conquista do gênero humano e merece ser reconhecido e celebrado, mas está em seu ocaso. Seus fundamentos tecnológicos estão se tornando tão obsoletos como as carruagens a cavalo, as catapultas e os fogões à lenha.
O mundo analógico é o mundo artesanal, é o mundo feito á mão. Seu apogeu foi o mundo das linhas de montagem. Nele milhões de trabalhadores migraram do campo para trabalhar nas fábricas, mas vivendo vidas robotizadas, opacas, fazendo trabalho manual, triste, repetitivo.
Henry Ford, o criador das linhas de montagem, reclamava: toda vez que eu preciso de um par de mãos vem uma cabeça junto.
Aí a genialidade humana inventou o computador. Surgia uma nova dimensão. A tecnologia digital. A informática. A automação. A robótica. A internet, a Rede Mundial de computadores. A rede Starlink de Elon Musk que cobre o globo terrestre com 10 mil satélites girando ao redor do planeta em orbita baixa. E agora, no topo de tudo isso, a Inteligência Artificial Generativa. A Inteligência Artificial que ousa ter ideias e dar opiniões.
Só os tolos não vêm que a mudança é irreversível. Com o fim da linha de montagem milhões de empregos de fábrica acabaram. O Correio das cartas e telegramas ficou na poeira da história. E o discurso da esquerda, que tudo nivelava por baixo, esvaziou. Um século atrás a esquerda cantava “O povo unido jamais será vencido”. Hoje são os computadores que imperam e cantam: “computador unido jamais será vencido”.
Mas existe o lado bom. Agora a nova era do intelecto humano emerge soberana e homenageia a individualidade. Cada pessoa pode ter seu espaço, pode brilhar, ter opinião, ter influência e seguidores.
A nova dinâmica social vai ampliar o escopo da democracia de Abraham Lincoln. Agora o governo do povo, pelo povo e para o povo será on-line, em tempo real, com transparência e compliance social. E as novas gerações de brasileiros, educadas no século XXI e na era digital, acham graça nos dinossauros políticos que tentam esconder suas malandragens atrás dos ridículos segredos de 100 anos, entulhos autoritários que irão para o lixo da história junto com suas ideias carcomidas e superadas.
Mas o mais significativo das transformações desta metamorfose holística digital que chega como um tsunami é que ela vem segundo a lei de Camões, que desde Os Lusíadas proclama: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”.
E estas transformações vão mudar a forma como o povo brasileiro vê a liberdade, vive sua vida e pratica a democracia.
O povo brasileiro acredita no Brasil e acredita no extraordinário potencial desta nação e de sua gente e quer mudar sua história. O Brasil cansou do atraso, das desigualdades, do desrespeito. Sobretudo, o povo brasileiro cansou de mistificadores que dão com uma mão o que tiram com a outra.
Existem auspiciosos sinais de que, em outubro de 2026, as margens do Ipiranga, tal como no Hino Nacional, uma vez mais ouvirão do povo brasileiro um brado retumbante. E, desta vez, o brado heroico será para libertar o país das mazelas que o apequenam e o abastardam.
E a nação toda ouvirá ecoar cristalino o brado que o povo brasileiro traz travado no peito:
Basta de Corrupção. Todos pela decência e pela prosperidade!
E as escolhas de outubro hão de abrir caminho para a grande metamorfose transformadora. E hão de abrir caminho para o Brasil voar com as asas digitais. Para o país integrar-se à macrointeligência planetária e ser protagonista de seu próprio futuro de grandeza. Para tornar-se um país mais iluminado, mais inteligente, mais ágil, mais amigável, mais informal, mais transparente.
Um Brasil mais acolhedor, mais justo e mais família. Um Brasil menos corrupto e mais honesto. Um Brasil em que cada um possa trabalhar e ganhar dinheiro honesto de seu jeito.
Um Brasil em que o governo fique na sua, cuide da segurança pública, da saúde e da infraestrutura.
O Brasil quer um governo sem protegidos, sem nepotismo, com menos jatinhos e menos mordomias, que fale menos e faça mais.
Um Brasil menos perdulário e com menos impostos, já que ninguém merece todo o ano viver cinco meses de escravidão tributária trabalhando para sustentar um governo esbanjador, cheio de palácios e sultões empoados, ganhando salários nababescos, desfrutando mordomias extravagantes e embolsando penduricalhos escandalosos.
E no brado de outubro do povo brasileiro a nação vai manifestar seu repúdio a esse Brasil anacrônico que escarnece dos milhões de endividados que vivem humilhados por dívidas impagáveis.
Os brasileiros querem um Brasil onde todos tenham onde morar e um lugar para dizer que é seu.
O brasileiro quer um Brasil descomplicado, mais prático, mais funcional, onde ele possa pagar com Pix e receber as coisas em casa.
O brasileiro aspira ter um celular que facilite sua vida pela Internet. Quer ter mobilidade, dispor de ônibus e metrô, poder viajar de avião e ter acesso à educação, à saúde e ao lazer.
E quer um país mais amigo, em que todos se respeitem mutuamente, independentemente de raça, cor ou religião.
Um país em que todos respeitem o que é dos outros, em que todos cuidem da natureza e um Brasil em que cada um possa escolher sua crença, sua igreja, seu time. Onde se respeite a vida e se possa ter um pet. Enfim, um Brasil sem medo, onde se possa pegar um Uber e onde se possa ter segurança e voltar a caminhar na rua na hora e quando se quiser.
O Brasil tem sonhos e sabe que podemos conseguir tudo isto e muito mais se unirmos a nação e fizermos o brado de outubro ecoar tão forte e tão potente como o daquele 7 de setembro de 1822, e se fizermos nossa voz ser ouvida em todos os cantos da nação, proclamando que queremos a pátria livre da corrupção e estamos todos unidos pela decência e pela prosperidade.
Brava gente brasileira, chegou a hora de virar a chave e fazer a grande metamorfose holística acontecer.
Se você também acredita que podemos mudar nossa história unindo todos por um novo futuro de decência e prosperidade, por favor, deixe seu like, escreva seus comentários e faça suas sugestões.
Artigo Publicado no Jornal AVS de Erechim – RS em 28 de abril de 2026 – Autor Celso Skrabe
Fácil: Essa bela Terra de Santa Cruz já existia antes de aqui chegarem os primeiros corruptos. O Brasil pré-descobrimento era um país de abundância e riqueza. É isso que afirma Pero Vaz de Caminha em sua carta a El Rei de Portugal, Dom Manoel I, dando conta sobre o achamento do Brasil. Segundo relata o escriba, aqui tem terra fértil e águas abundantes, ressaltando que, nesta terra, “em se plantando, tudo dá”. É verdade que isso era dito antes da Embrapa e da Lei da Integração do Agro, mas ainda assim, o dilema de origem do tipo do ovo e da galinha, ou seja, a dúvida sobre o que veio primeiro, se a corrupção ou a pobreza, aqui não existe. Neste país aqui foi a corrupção que chegou primeiro.
Nossa história econômica é a história de uma espoliação sem fim. Começa com o Ciclo do Pau-Brasil. Nos primeiros cinquenta anos, após a descoberta, quase extinguiram com a madeira que era usada para tingir tecidos na Europa. E, de quebra, por pouco não acabam com as orquestras, já que a madeira possui características que a tornam a mais adequada para arcos de violino. As árvores de Pau-Brasil eram cortadas pelos indígenas, que recebiam, em troca, quinquilharias tipo, espelhinhos, calções, pentes e facas.
Depois veio o Ciclo da Cana-de-Açúcar. Durou cem anos, de 1550 a 1650. Caracterizou-se pelos engenhos e pela escravidão africana. O açúcar foi o principal motor da economia colonial por mais de um século. Acabou quando as terras, esgotadas, pararam de produzir. E funcionava assim: enquanto os escravos trabalhavam de sol a sol nos canaviais, os donos de engenho passavam agradáveis temporadas na Europa. Qualquer semelhança com os atuais marajás da república não é, repito, não é mera coincidência…
Após o declínio do açúcar, causado pela concorrência das novas plantações de cana do Caribe, o que acabou salvando a pátria nos séculos dezessete e dezoito foi a descoberta de ouro, pedras e metais preciosos no interior. Foi bom porque a mineração precisava de mulas, o que desenvolveu o tropeirismo e deslocou o eixo econômico para o centro-sul.
Esgotado o ciclo do ouro surge o café como o principal produto da economia. De novo, sua base foi a escravidão. O Brasil , da descoberta à Princesa Isabel e ao 13 de maio de 1888, teve uma economia baseada no trabalho escravo. De fato, o Brasil foi o último país do Ocidente e das Américas a abolir a escravidão, que tinha durado por mais de três séculos. Obviamente, os cafeicultores não gostaram nem um pouco da libertação dos escravos. Tanto que, para vingarem-se do fim da escravidão, os cafeicultores se uniram aos republicanos – ostensivamente apoiados pela Argentina – para dar o golpe e acabar com a Monarquia brasileira. Aliás, é oportuno lembrar que foi o Barão de Cotegipe que disse para a Princesa Isabel, quando ela libertou os escravos: “Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono.” E ouviu, como resposta da Princesa, “Mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos”.
E, de fato, os republicanos proclamaram a República pouco mais de um ano depois e sua primeira providência foi entregar 30 mil quilômetros quadrados de Santa Catarina e do Paraná para a Argentina. Um território maior que os Estados de Sergipe ou Alagoas. Felizmente o congresso brasileiro de então recusou o tratado de Montevidéu e o impasse acabou decidido a favor do Basil pelo presidente dos Estados Unidos Grover Cleveland na célebre “Questão de Palmas”. O defensor da causa brasileira, como se sabe, foi o Barão do Rio Branco.
Assim a história do Brasil é a história dos escravagistas, espoliadores e corruptos. É a história dos donatários, dos senhores de engenho, dos grandes proprietários, dos coronéis do sertão, dos chefes políticos e militares. Neste país o povo sempre foi escravo ou pobre e nunca teve vez. Nem os Lanceiros Farroupilhas, os heróis mortos traiçoeiramente, conseguiram fugir desta sina. E, então, será que um dia a pobreza vai acabar? Será que um dia a corrupção vai acabar? Pedindo emprestada uma frase de figura bem conhecida, “Vai acabar quando terminar”. Ou seja, pela expectativa dos corruptos, só acaba no fim dos tempos.
A história da corrupção no Brasil se confunde com a história do Brasil. Neste país a corrupção é endêmica. É coisa que vem de berço. A Natureza deu ao Brasil tudo para este país ser rico. Mas seus governos e suas elites tanto roubam e pilham desde o descobrimento que nunca teve chance de ser rico. Portanto acabou sendo um país pobre. Um país pobre porque é corrupto. E que continuará pobre enquanto continuar a ser corrupto.
Os Farroupilhas construíram os maiores carros de boi da história para levar os veleiros por terra para a tomada de Laguna
Neste artigo vamos celebrar a coragem e a audácia dos farroupilhas do Sul que, durante a Guerra dos Farrapos, em meados do século dezenove construíram os dois maiores carros de boi da história para levar pelos campos gaúchos os veleiros farroupilhas com a intenção de fazer a tomada de laguna.
Em 22 de julho de 1839 as forças da República Rio-Grandense, em uma operação brilhantemente executada, conquistaram Laguna, em Santa Catarina, proclamando a República Juliana.
A Tomada de Laguna só foi possível graças ao insano episódio da travessia por terra dos navios veleiros farrapos, o Farroupilha e o Seival.
Se você conhece a história do Brasil com certeza já ouviu falar na Guerra dos Farrapos. Portanto você sabe que aquela foi a mais renhida das conflagrações internas que definiram as fronteiras de nosso país e, certamente, conhece a coragem e o valor dos guerreiros farroupilhas que lutavam por “Liberdade, Igualdade e Humanidade”, valores que eram destacados no brasão da sua República Rio-Grandense.
O que vamos celebrar neste artigo tem a ver exatamente com a coragem, o espírito de luta, a determinação e a engenhosidade dos farroupilhas, a começar pela combatividade e pela resiliência do comandante da Marinha dos farrapos, Giuseppe Garibaldi.
Acho oportuno lembrar aqui que esse nosso Giuseppe Garibaldi vem a ser o mesmo heroico visionário que, depois de lutar pelos farroupilhas no Brasil, voltou para a Itália e lá foi liderar as lutas pela unificação italiana, o que lhe granjeou reconhecimento internacional e o merecido título de herói de dois mundos.
A guerra dos farrapos já andava em seu quarto ano e conflagrava todo o Basil Meridional. Os farroupilhas lutavam bravamente, mas o governo imperial tinha mais soldados, mais meios e recursos e vinha usando sua marinha e seu maior poder de fogo para bloquear as costas gaúchas e o porto de Rio Grande, impedindo todo o comércio e a importação e exportação de mercadorias por parte dos farroupilhas da República Rio-grandense.
Giuseppe Garibaldi, o comandante da marinha farroupilha, com toda a sua experiência de luta revolucionária na Europa e como marinheiro tarimbado, estava preocupado com o isolamento imposto pelos imperiais aos farroupilhas.
Ele estava no Brasil porque, em 1834, havia sido condenado à morte pelo rei do Piemonte, Carlo Alberto Emanuelle Vittorio Maria Clemente Saverio di Savoia-Carignano. E a razão para aquela condenação é que Garibaldi havia participado de uma Insurreição em Gênova, no reino da Sardenha. Por sorte Garibaldi conseguiu escapar e conseguiu refúgio em Marselha, de onde foi para a Tunísia e, um ano depois, saiu de lá e veio para o Rio de Janeiro.
Chegou no Brasil em 21 de novembro de 1835. Coincidentemente no mesmo ano em que teve início a Guerra dos Farrapos.
Em nosso país passou a fazer o transporte de cabotagem, levando mercadorias de um porto para outro ao longo da costa brasileira.
Em uma das viagens ao Sul soube da guerra dos farrapos e foi visitar o general Bento Gonçalves, o líder rebelde, que se encontrava preso. O entendimento entre eles foi tão bom que Garibaldi decidiu se engajar de imediato na luta dos farroupilhas.
Sua primeira atribuição foi ser corsário, um pirata oficial com autoridade para confiscar cargas e bens dos imperiais em nome da República Rio-Grandense.
Além da missão de corsário, Garibaldi recebeu a incumbência de fustigar a Marinha do império por terra e por mar e, especialmente, buscar meios de circunscrever o bloqueio ao porto de Rio Grande.
O novo corsário, de posse da Carta de Corso, começou a combater o império e, logo, aprisionou um navio e sua carga.
Mas Garibaldi percebeu que ações isoladas não seriam suficientes para compensar os prejuízos que vinham do controle que a Marinha tinha sobre o porto de Rio Grande.
O bloqueio do acesso marítimo à parte rebelde da província asfixiava a sua economia e impedia o acesso aos bens e materiais essenciais para sua sobrevivência. Era claro e evidente que os farrapos precisavam de uma saída para o mar. E precisavam para logo.
A essa altura, no delta do Rio Camaquã, no Rio Grande do Sul, na Fazenda do Brejó, que pertencia à Dona Antônia Joaquina da Silva, que vinha a ser a irmã de Bento Gonçalves, existiam alguns galpões de uma velha charqueada.
Ali o Governo Farroupilha resolveu montar um pequeno estaleiro para construir embarcações de fundo chato com a finalidade de controlar as águas internas, sobretudo a estratégica Lagoa dos Patos – um imenso corpo de água que possui mais de 10 mil quilômetros quadrados de área e se estende paralelamente ao Oceano Atlântico, tendo um comprimento de 265 quilômetros e uma largura de 60 quilômetros em seu ponto mais largo.
Sua principal característica, porém, é que suas águas são bem rasas, tendo, em média, 3 metros de profundidade. Em razão disso e da existência de muitos bancos de areia na lagoa, os navios de guerra do império não podiam se aproximar do delta sem correr o risco de encalhar.
A organização do estaleiro farroupilha foi entregue a John Griggs, o João Grandão, um irlandês que havia chegado a Porto Alegre como imediato do brigue Norte-americano Toucan, no início da Revolução Farroupilha. Empolgado pela aventura, juntou-se aos revoltosos. Homem de grande estatura, corpulento e imensamente forte, estava sempre bem-humorado e era um incorrigível otimista.
Ainda assim, apesar de todo o seu entusiasmo pela causa dos farrapos, as coisas no estaleiro não andavam bem. Seus conhecimentos limitados de carpintaria naval e as poucas ferramentas de que dispunha não permitiam fazer grande coisa.
Além disso, a madeira precisava ser encontrada em matas nem sempre próximas, e depois, precisava ser cortada e transportada muitas vezes em campo aberto. As ferragens, ainda que pudessem ser forjadas ali mesmo, no estaleiro, precisavam de forjas e foles com maior capacidade de produção.
Vendo que o trabalho não rendia, João Grandão recorreu a Garibaldi.
Garibaldi concordou que, de fato, as coisas estavam demorando demais. Para poder fazer alguma coisa significativa pela causa farroupilha ele precisava dos veleiros e precisava para ontem.
Garibaldi tinha ouvido falar sobre a existência de um mestre carpinteiro naval italiano que tinha um pequeno estaleiro em Montevideo.
Por meio do jornalista italiano Luigi Rossetti, o editor do jornal O Povo, que era o jornal oficial dos farroupilhas, conseguiu contato com seu compatriota, o mestre carpinteiro naval Luigi Carniglia. Convidado, Carniglia veio e trouxe com ele uma equipe de mestres e operários tarimbados e, tão importante quanto, trouxe suas ferramentas.
Rapidamente as coisas tomaram outro ritmo e, em cerca de dois meses, conseguiram construir dois veleiros do tipo lanchão, de fundo chato. Essas embarcações eram de porte respeitável, equipadas com dois mastros e velame completo. Na primeira semana de maio de 1839 os barcos foram lançados à água e, durante nove dias, circularam pela Lagoa dos Patos à procura de presas. Na altura de Cristóvão Pereira deram com a sumaca Mineira e com o patacho Novo Acordo. Após um único tiro, abordaram a Mineira, mas o Novo Acordo conseguiu fugir.
Em resposta a esse ataque, o governo imperial mandou para a Lagoa dos Patos, sob o comando do almirante inglês John Pascoe Grenfell, quatro navios de guerra armados até os dentes. Os farrapos agora estavam sendo acossados, mas os rebeldes logo descobriram um meio de se safar.
Seus lanchões eram mais leves, rápidos e manobráveis. E tinham um calado compatível com a pequena profundidade da Lagoa dos Patos. Além disso, os marinheiros rebeldes conheciam cada centímetro da lagoa, reconheciam a presença dos bancos de areia e sabiam onde ficava cada um dos alagados, baixios e acidentes da lagoa e da sua costa. Quando eram perseguidos pelos navios imperiais, se dirigiam a um banco de areia próximo e, de propósito, avançavam até o lanchão encalhar.
Quando encalhavam e ficavam presos na areia, o comandante gritava a plenos pulmões:
“Todos para a água, patos!”.
Dada a ordem, todos que estavam a bordo pulavam na água, inclusive Garibaldi. Usavam alavancas e cordas e iam puxando e empurrando o barco de fundo liso e chato sobre a areia até cruzarem para o outro lado.
Ao alcançarem novamente a água todos reembarcavam e, para tomar impulso, usavam as varas como alavancas e as apoiavam no leito do lago, além de abrir o velame a todo pano.
Então, rapidamente escapavam do alcance dos navios da Marinha imperial e de seus canhões, obviamente!
Os barcos imperiais, com fundo em forma de cunha, eram incapazes de repetir a façanha dos barcos farroupilhas e sem poder prosseguir sobre os bancos de areia, ficavam observando, impotentes.
Essas escaramuças náuticas dos farrapos eram divertidas, mas muito pouco eficazes em termos de resultados práticos. Foi então que Garibaldi sugeriu ao Governo Farroupilha uma ideia que parecia um tanto alucinada à primeira vista: que usassem os veleiros para atacar a cidade de Laguna, em Santa Catarina, e por lá tivessem o acesso ao mar.
O problema, obviamente, é que os veleiros farroupilhas não teriam a menor chance se tentassem atacar Laguna pelo lado do mar. A cidade tinha defesas bem postadas e uma linha baterias poderosas apontadas para o mar aberto. Isso, claro, se os veleiros conseguissem passar incólumes pela saída da Lagoa dos Patos e pelas defesas costeiras postadas pelos imperiais na costa gaúcha.
Mas o que Garibaldi tinha em mente era algo bem diferente. O que Garibaldi estava propondo é que seus veleiros atacassem Laguna por trás, pelo interior, pela retaguarda. E contando que o ataque apanhasse os soldados imperiais de surpresa.
A ideia era levar os veleiros por terra, da Lagoa dos Patos até o rio Tramandaí e lá se valer do sistema interligado de lagoas, que começa em Cidreira e se estende até Torres, e tem no rio Tramandaí sua única ligação com o mar.
Os comandantes farrapos aprovaram o plano, mas a questão é que, para levar os barcos por terra, antes era preciso colocá-los sobre rodas.
Foi aí que os farroupilhas se depararam com o grande desafio, ou mais precisamente, com o insano desafio de construir os dois maiores carros de boi já feitos pela humanidade até aquele momento em toda a história do homem.
Os carros de boi precisavam ser capazes de carregar os dois veleiros, o Lanchão Farroupilha, de 18 toneladas, e o Lanchão Seival de 12 toneladas, pelo percurso de 9 léguas, ou seja, 80 quilômetros, da Lagoa dos Patos até o Rio Tramandaí, viajando por campos de chão encharcado, embaixo de chuva e em pleno inverno sulino. E seriam necessários, no mínimo, 100 bois divididos em 50 pares para arrastar cada um dos veleiros.
Para se ter a dimensão da ousadia proposta por Garibaldi, basta saber que os bois de transporte vêm sendo domesticados há dez mil anos. Foram os povos ancestrais, os antigos povos da Mesopotâmia e do Crescente Fértil que começaram a usar bois para puxar suas cargas.
Os antigos egípcios, os gregos, os romanos, os chineses, os indianos, os povos da idade média da Europa. Todos usaram o boi como seu mais importante meio de transporte. E assim foi por centenas, milhares de anos. E, mesmo assim, a história não registrava nenhum feito comparável ao que se propunham fazer os farroupilhas.
Sua audácia em fazer os carros de boi gigantes podia ser comparada com a do gregos e seu cavalo de Troia, aquele que escondia soldados em seu interior e foi usado para enganar os troianos, ou a dos siracusanos, que usaram o gancho de Siracusa, o guindaste de Arquimedes que virava as galeras romanas que ousavam se aproximar das muralhas da cidade, ou ainda, o seu Raio da Morte, os espelhos côncavos feitos por Arquimedes e que concentravam os feixes de luz do sol para atear fogo nos barcos romanos inimigos.
A missão de fazer os carros de boi foi entregue ao mestre carpinteiro Joaquim de Abreu. O carpinteiro era especializado em fazer carroças e tinha muita experiência em fazer carros de boi e aceitou a incumbência como um desafio.
Os carros estavam montados com pranchões e equipados com dois eixos feitos com troncos e quatro imensas rodas que tinham circunferência igual a altura de dois homens, com diâmetro de 3 metros e vinte centímetros e eram feitas de madeira de lei seguindo o modelo das rodas raiadas das carroças, com os raios fixados em volta e presos por uma cinta de ferro forjado, com uma largura de 40 centímetros.
Para embarcar os veleiros levaram as carretas até à beirada do arroio onde estavam os barcos e, então, ali, aplainaram as margens para permitir que as carretas fossem colocadas dentro da água e, já submersas, fossem posicionadas por debaixo das embarcações.
Apoiadas em longarinas, formavam um tipo de carreta gigante que foi sendo puxada ao mesmo tempo que os veleiros até que o conjunto dos carros e dos veleiros pudesse ser tirado da água.
Dois dias de trabalho intenso foram usados somente nessa tarefa de embarcar e tirar da água os veleiros.
Finalmente, quando estava tudo pronto, atrelaram as juntas de bois nos carros e, para júbilo de todos, no dia 5 de julho de 1839 iniciaram a grande marcha.
Então, ainda no período das chuvas e dos campos encharcados, os campeiros gaúchos que acorreram para ver o espetáculo puderam testemunhar uma das cenas mais espantosas que já haviam ocorrido pelas verdes campinas do Rio Grande do Sul.
O que viam parecia ter saído das páginas bíblicas: dois imensos veleiros avançando sobre o chão de terra firme como se navegassem pelos verdes campos gaúchos, sendo carregados em cima dos maiores carros de boi que já tinham existido.
Os dois portentosos veleiros que vinham cruzando as campinas lamacentas, o Farroupilha e o Seival, se destacavam no céu. Estavam equipados com mastros que balançavam de um lado para outro, apontados para o firmamento. Ambos amarrados sobre os enormes carretões que iam sendo penosamente puxados por 100 bois, formando 50 juntas de canga atreladas no varão de cada um deles
O espetáculo era indescritível. A confusão colossal e o alarido, ensurdecedor.
A chuva inclemente e o solo ensopado obrigavam todos a esforços inauditos. Mais de uma centena de homens corriam de um lado para outro, espicaçavam os bois, se esfalfavam para colocar pranchas sob as rodas para que não afundassem no lodaçal e gesticulavam gritando, xingando e praguejando a plenos pulmões.
O trajeto de 9 léguas, os 80 quilômetros, desde as nascentes do Rio Capivari até a barra do Rio Tramandaí, foram feitos em seis dias, de 05 a 11 de julho de 1839.
Ao chegarem ao destino ainda restava descerem os veleiros na Lagoa Tomás José, com o que culminariam seis dias de esforços terríveis.
Todos sabiam da importância daquele feito sobre-humano e todos sentiam a alegria do êxito alcançado.
Mas também sabiam que aquele era apenas um passo. A luta continuaria e o destino ainda lhes iria reservar muitas provações.
Só não sabiam que a mais cruel delas nem sequer esperaria os veleiros estarem totalmente prontos para navegar em combate. Inesperadamente um violento temporal se abateu sobre eles.
Apanhado de lado por um vento fortíssimo, o veleiro maior, o Farroupilha, foi à pique, emborcando e levando consigo a maior parte da tripulação, inclusive diversos marinheiros italianos que tinham vindo ao Brasil acompanhando Garibaldi.
Felizmente um dos sobreviventes foi precisamente o comandante do Farroupilha, Giuseppe Garibaldi. Talvez por seu aguçado instinto de sobrevivência, ou, talvez, porque a providência divina ainda lhe reservasse muitas tarefas e missões a cumprir e um grandioso destino que o faria uma das grandes figuras do mundo do século XIX.
Concluíndo, como sabemos pela história, os farrapos conseguiram êxito nesta missão de conquista de Laguna. Foi nesta aventura que Garibaldi encontrou Anita Garibaldi, a companheira que com ele conquistou um lugar na história como heroína de dois mundos.
Mas Garibaldi e os farrapos, apesar de todo o talento e coragem, não tinham como impedir a supremacia do governo imperial, que fez valer sua superioridade bélica e retomou a cidade de Laguna. Garibaldi e os farroupilhas ainda continuaram sua luta em Santa Catarina, com a extraordinária passagem por Lages.
Por fim, com a chegada ao governo da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul de um dos mais brilhantes e carismáticos líderes da história do Brasil, o Barão de Caxias, aquele mesmo que mais tarde recebeu o título de Duque de Caxias e ficou conhecido como “O Pacificador”, os farroupilhas foram vendo atendidas muitas de suas reinvindicações e vendo esvair-se sua capacidade de combate. Finalmente acabaram assinando o Tratado de Poncho Verde, em 1845, um acordo que pôs fim ao conflito e concedeu termos surpreendentes aos farroupilhas.
O fato é que celebrar a construção dos maiores carros de boi da história e o êxito da travessia dos veleiros farrapos para a tomada de Laguna significa reconhecer a engenhosidade, a determinação e a resiliência dos farroupilhas na defesa do rincão gaúcho, honrando a melhor tradição do imortal Sepé Tiarajú, chefe e guerreiro indígena dos Sete Povos das Missões, reverenciado por muitos como São Sepé, que avisou a todos que esta terra tem dono.
O GLOBE-TROTTER DO PAPA “Globe-trotter” é uma expressão de origem norte-americana que, segundo o dicionário, significa algo como “viajante do mundo”. A expressão refere-se a uma pessoa cuja atividade e interesses a levam a viagens frequentes para os mais diferentes e distantes recantos do globo. Portanto define com perfeição o Pe. Cherubin e sua vida de viajante à serviço da saúde, de sua ordem religiosa, da Igreja e, por mais de um lustro, à serviço de dois Papas. – Vocação e reconhecimento Guiado pela vocação religiosa, o Pe. Cherubin abraçou seu ministério tanto com idealismo e abnegação como com o senso de missão que recebeu das palavras de Tiago, quando dizia, em sua Epístola que a “a fé sem as obras é morta”. Para o Pe. Cherubin, assim como o era para Tiago, a verdadeira fé não é apenas crer, mas, sobretudo, agir. Todavia, em seu entender, as obras que contam são aquelas que produzem um bem mensurável. Obras sem resultados positivos seriam tão vazias como aquelas boas intenções que o vulgo diz que forram o inferno. Daí que, tomado por essa obsessão por obras proveitosas, acabou por descobrir a obra de seu colega religioso, o padre Luca Pacioli, o frade franciscano, matemático e teólogo italiano conhecido como o pai da contabilidade moderna. O Frei Pacioli, em 1494, publicou a obra “Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni et Proportionalita”, na qual descreveu a contabilidade das partidas dobradas. Não a inventou, propriamente, mas divulgou o método que já era usado por mercadores venezianos. Seu mérito foi ter sido o primeiro a publicá-lo, tornando-o amplamente conhecido. O fato é que a sua obra é a base da contabilidade moderna. E o Pe. Cherubin, ao se dar conta de que a contabilidade permitia não só avaliar, como dar direção e qualidade para as obras que realizava, se tornou um estudioso da contabilidade. E todas as suas iniciativas passaram a ser meticulosamente planejadas, organizadas, realizadas e avaliadas com as melhores práticas contábeis. E esse era o segredo de seu fulgurante sucesso. Assim, munido desta disposição de agir para provar sua fé foi que, desde os primeiros dias do seminário, sentiu-se cativado pela exortação de São Camilo de Lellis, o fundador dos camilianos, que recomendava a seus seguidores “ter mais coração nas mãos”. Então passou a pautar sua vida religiosa por esses dois princípios básicos: mostrar sua fé pela ação concreta, de resultados medidos e comprovados, e consagrar-se à causa da saúde e da humanização nelas colocando todo o empenho de seu coração. Possivelmente estimulado pelo episódio de sua partida da Vila de Balisa, no dia 11 de janeiro de 1943, que sempre recordava com grande carinho, que relata em suas memórias e contou com detalhes a este articulista, acabou por tornar-se um autêntico “homem da Renascença”. O dia de sua partida foi um dia importante para a Vila de Balisa. Nunca antes um garoto da localidade tinha partido rumo a um seminário. Por isto Niversindo Cherubin foi acompanhado por um numeroso séquito até a estação ferroviária. Aos seus olhos, era uma multidão. Vieram despedir-se os parentes, os colegas da escola, os amigos e até muitos curiosos. E sua decisão de entrar para o seminário criou na comunidade o que o Pe. Cherubin definia como “clima vocacional”. Diversos outros garotos de Balisa seguiram seu exemplo. Sua mãe estava orgulhosa. Nos dias que precederam o embarque fazia questão de apresentá-lo como o membro da família que iria ser padre. O episódio o fez sentir-se importante para sua gente e disposto a empenhar-se para não os desapontar. – CIDADÃO DO MUNDO Convertido em cidadão do mundo, carismático, líder, educador e empreendedor, o Pe. Cherubin passou a aplicar seus conhecimentos em administração, contabilidade e auditoria para melhorar o desempenho de instituições de caridade e de saúde, tanto daquelas de sua ordem religiosa como de quaisquer outras dedicadas a causa do bem. Seu talento invulgar para organizar e obter resultados logo o fez destacar-se e o levou para dezenas de países ao redor do mundo. Seu desempenho e competência em solucionar problemas complexos e enfrentar desafios com serenidade e bom senso acabou por lhe angariar o respeito da Misereor, possivelmente a mais rica e generosa das organizações católicas do mundo. A entidade, que apoia ações de combate à pobreza na África, Ásia e América Latina, pertence a Igreja Católica da Alemanha e é dirigida pela Conferência dos bispos alemães. Pois foi precisamente a Misereor, com todo seu prestígio e influência, que recomendou ao Papa Paulo VI o nome do Pe. Niversindo Cherubin. O Sumo Pontífice acolheu a indicação e, na data de 4 de abril de 1977, formalizou sua nomeação como membro do prestigiado “Pontifício Conselho Cor Unum para a Promoção Humana e Cristã. CONSELHEIRO DO PAPA O Conselho “Cor Unum” era presidido por um cardeal e formado por 34 conselheiros convidados pelo Papa para duas tarefas: examinar a política da Igreja Católica no campo social e apreciar os critérios de distribuição de doações que chegavam ao Vaticano. Especialmente aquelas destinadas a mitigar os efeitos das catástrofes que ocorriam no mundo. O Conselho funcionava com seu escritório central instalado no prédio do Vaticano, no mesmo andar da residência do papa. Por óbvias questões de segurança, o acesso era restrito e cada membro do conselho recebia uma credencial especial que dava acesso ao local. – Missões e viagens a serviço da solidariedade As atividades do Conselho eram intensas. As reuniões oficiais ocorriam anualmente, sempre em novembro, com duração de uma semana. No entanto, ao longo do ano, os membros eram enviados para participar de grupos de trabalho em diferentes países, contribuindo para definir a destinação de doações e para a formulação de políticas sociais e humanitárias, e, sendo enviados para representar a Igreja em várias iniciativas humanitárias. – A proximidade com os Papas O encerramento dos trabalhos do Cor Unum era marcado por cerimônias de grande significado, realizadas na sala de audiências pontifícia, sempre com a presença do Papa. Nessas ocasiões, o pontífice costumava concelebrar missa com os conselheiros e, em seguida, convidava-os para um café da manhã em sua companhia — momentos de comunhão e partilha espiritual que reforçavam o compromisso com a missão do conselho. – Uma missão que atravessou pontificados O falecimento do Papa Paulo VI, em agosto de 1978, seguido pela breve passagem do Papa João Paulo I, não interrompeu a trajetória de Pe. Cherubin no conselho. O Papa João Paulo II reconheceu a importância de sua contribuição e o manteve entre os conselheiros, permitindo que sua atuação se estendesse até 12 de junho de 1984. Assim, pelos sete anos de seu mandato, o Pe. Cherubin influiu nas decisões de caridade da Igreja e tornando-se um verdadeiro “Globe-trotter do Papa”, levando solidariedade e esperança aos lugares mais diversos do planeta. O GLOBE-TROTTER DO BEM PROMOVENDO A EXCELÊNCIA A reconhecida expertise demonstrada pelo Pe. Cherubin em auditar e reorganizar a vida administrativa e financeira das entidades e instituições o levaram a ser enviado por sua Ordem Religiosa para “arrumar a casa” nos cantos mais inesperados do mundo. A começar pelos Estados Unidos. Lá ele descobriu que seus colegas americanos não tinham a menor ideia do que fosse uma administração hospitalar profissionalizada. Depois de diversas controvérsias e repetidas visitas de religiosos brasileiros liderados pelo Pe. Cherubin, a Comissão Econômica Central da Ordem, em Roma, entendeu que o melhor a fazer era entregar de vez a gestão da Província Camiliana dos Estados Unidos para a comprovada competência da Província Brasileira. O que foi feito. – A reestruturação administrativa da Ordem dos Padres Camilianos Um dos problemas enfrentados pelos camilianos era seu sistema antigo de organização administrativo-financeira. A ordem tinha casas espalhadas nos mais diferentes cantos do mundo, mas vivia assolada por dificuldades que comprometiam sua missão religiosa. Em 1977 o Pe. Cherubin sugeriu a criação de uma diretoria financeira internacional para gerir sua área de economia e finanças. A convenção Geral da Ordem acatou a sugestão criando a “Comissão Econômica Central”. O Pe. Cherubin começou por unificar os demonstrativos contábeis segundo os procedimentos contábeis internacionais, fixando grupos de contas para o Ativo, o Passivo, as Receitas e Despesas. E estabeleceu que os demonstrativos anuais das províncias fossem assinados por três pessoas: o Padre Provincial, o Diretor Financeiro (o “Ecônomo”) e o Contador da Província. A ele foi atribuída a tarefa de fazer o exame prévio da situação financeira de todas as províncias camilianas do mundo e produzir um relatório a ser analisado pela Alta direção da ordem. – Missões de aconselhamento, consultoria e reestruturação Sua missão como o mentor administrativo dos camilianos de sua geração o levou à missões de aconselhamento, consultoria e reestruturação de instituições de muitos países, a começar pelos Estados Unidos, como já vimos, mas que incluem países do Extremo Oriente. Em 1988 recebeu a incumbência de avaliar a situação da Província Camiliana de Taiwan. Para esta missão convidou o Administrador Hospitalar Naírio Augusto dos Santos, que já tinha comprovado sua competência na gestão da Consultoria Hospitalar no Rio Grande do Sul. A viagem de ambos começou por Hong Kong, passou por Taiwan e se estendeu ao Japão. Ainda 1988, nos meses de outubro e novembro, passou 40 dias em viagem para conhecer e avaliar as Províncias Camilianas da África. Visitou Burkina Fasso, Benin, Tanzânia, Quênia, Etiópia e Costa do Marfim. Entre os países que visitou a trabalho, em pesquisa ou em busca de conhecimentos, além dos já mencionados países de sua formação, como Itália, França, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Alemanha, Portugal Espanha e o Canadá, Incluem-se a Rússia, a Suécia, Noruega, Irlanda, Islândia, Dinamarca (incluindo a Groenlândia), o México, Cuba e Guiné Bissau e Egito. No período em que fez parte do Conselho Cor Unum visitou a totalidade dos países da América do Sul e a maioria dos países da América Central. PRESIDENTE DA CONFEDERAÇÃO INTERNACIONAL DAS MISERICÓRDIAS. Ao lado de suas atividades como religioso, o Pe. Cherubin atuou como dirigente das Santas Casas de Misericórdia brasileiras e na Confederação Internacional das Misericórdias, da qual foi eleito Presidente para o período de 2003-2005. Sua principal atividade internacional na presidência da Confederação foi convocar e presidir o IV Congresso Internacional das Misericórdias, que foi realizado em Florença, na Itália, de 14 a 17 de outubro de 2004. O Legado O Pe. Cherubin dizia que preocupação de qualquer pessoa, desde o nascer, deve ser de deixar um legado que contribua para o aprimoramento dos seres humanos, da família, da comunidade, do país e do mundo. Se o universo habitado conseguiu aprimorar o desempenho das pessoas e se estas encontram a cada novo dia mais qualidade de vida, isso deve-se certamente a contribuição de pessoas que se preocuparam com deixaram um seu legado de exemplos, de conhecimentos e de obras. Victor Hugo disse, com muita propriedade, no seu livro “Os miseráveis” que a preocupação da pessoa deve ser sempre a de permanecer vivo entre nós, mesmo que ela já não esteja mais entre nós. Victor Hugo indicava para tal elementos básicos que ela deveria atingir e materializar enquanto viva. Devia escrever um livro, fundar uma escola ou criar uma entidade. Em seus 51 anos como superintendente da Sociedade Beneficente São Camilo fomentou uma expressiva evolução na área da assistência à saúde brasileira, tanto na criação de hospitais quanto na de diversas outras entidades camilianas dessa área. Quando assumiu como diretor administrativo do Hospital São Camilo Pompéia, em 1961, os camilianos mantinham no Brasil tão somente aquele hospital, parcialmente concluído, com capacidade de apenas 73 leitos. Cinquenta anos depois o Grupo São Camilo dispunha de 41 hospitais, 3.451 leitos, realizava anualmente 116.385 cirurgias 51.527 partos e 6.734.725 exames de diagnóstico. Criou os Cursos de Administração Hospitalar, plantou a semente do Centro Universitário S. Camilo e escreveu 12 livros que ainda são referencias na gestão hospitalar brasileira. Seu pai, que faleceu tão precocemente, sua mãe, que o estimulou a buscar sua realização no sacerdócio, seus tios que custearam o seminário de Iomerê, os parentes, colegas e amigos que acompanharam o embarque de Niversindo Antonio Cherubin na estação da Vila de Balisa hão de estar orgulhosos, estejam onde estiverem, de fazerem parte da história de vida daquele menino que saiu de Balisa para conquistar o Mundo.
Labatut na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul
Garibaldi, o magnífico herói Farroupilha
Os farrapos reconquistam Lages
Garibaldi e Anita, feitos um para o outro
A derrota de Labatut
Condá e a volta por cima
A decisão
A expedição parte
Cruzando o Goio-En
Padre Penteado, o missionário dos Kaingang
A leal e valerosa Porto Alegre
A insigne audiência
Uma missão para Thiago, o mensageiro
Rumo aos campos abertos do Planalto Médio
A cruz alta
O acidente
Nicanor, o lanceiro que veio de longe
Padre Penteado e os encantos do Vale Dourado
A Mig estava no caminho
No toldo do grande cacique
O aldeamento
A surpresa do engenheiro
Um casamento para unir dois povos
Epílogo
Consultas e referências
Sobre o Autor
Apresentação
Goio-En é um romance histórico situado em 1845, logo após o fim da Guerra dos Farrapos. A narrativa ficcional se relaciona com a abertura do caminho de tropas entre os Campos de Guarapuava, na época território paulista, e o Caminho das Missões, na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O caminho, feito às expensas do governo de São Paulo, cruzou o rio Uruguai pelo Passo do Goio-En, no Alto Uruguai, em meio ao território dos índios Kaingang, os temíveis “coroados”. A composição das personagens e dos cenários segue documentos e dados históricos. A composição das personagens e dos cenários segue documentos e dados históricos. Os personagens centrais são o Tenente Francisco da Rocha Loures, encarregado de abrir a estrada, os Caciques Nonoai e Condá, o Padre Antônio Penteado e o Comissário de Passo Fundo, Joaquim Fagundes dos Reis. Entre outros personagens incluem-se o então Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, o Conde de Caxias, e seu tio e cunhado Manoel da Fonseca Lima e Silva – futuro Barão de Suruí – Presidente da Província de São Paulo. A história ainda destaca figuras como o General Pedro Labatut e os heróis de dois mundos, Giuseppe e Anita Garibaldi.
Este livro apresenta os primórdios da saga de ocupação e de desenvolvimento do Oeste Fértil, o corredor que começa na região missioneira do Rio Grande do Sul, passa pelo planalto médio gaúcho, pelo Alto Uruguai, e sobe para o Oeste catarinense e paranaense e depois se desloca para o Centro-Oeste. A planejada saga conta a história de como conquistadores lusitanos, nativos, tropeiros, imigrantes alemães, italianos, poloneses, judeus, japoneses e de outras variadas origens ocuparam, defenderam e desenvolveram o Oeste Fértil, a rica fronteira do agronegócio que introduziu a cultura da soja no Brasil, as modernas práticas de integração do produtor rural com a agroindústria, a agricultura de precisão e outras tecnologias inovadoras.
Prólogo
A abertura do Caminho do Goio-En e uma série de acontecimentos de medos do Século XIX contribuíram para garantir ao Brasil a posse do Oeste Fértil, formado por parte do Oeste do Rio Grande do Sul, pelo Oeste de Santa Catarina e boa parte do Oeste do Paraná, ajudando a definir as fronteiras do país e garantindo ao Brasil a posição de quinta nação do planeta em extensão, com uma área de 8.514.876 quilômetros quadrados, ficando atrás somente de Rússia, Canadá, Estados Unidos e China. O mais importante, contudo, é que o Brasil tem hoje 400 milhões de hectares agricultáveis, dos quais utiliza cerca de 65 milhões. Esta área ainda disponível, em torno de 335 milhões de hectares, além de ser toda fora da região amazônica, dispõe de água renovável e está sobre o maior sistema de aquíferos do mundo, com destaque para os aquíferos Alter do Chão, na Amazônia, e o Guarani, no Centro-Sul do país. Este potencial garante ao Brasil a condição privilegiada de converter-se na única alternativa que o mundo tem para produzir alimentos para uma população crescente. O que assombra é como o Brasil conservou sua unidade nacional em meio a um subcontinente onde o antigo reino espanhol se fragmentou em diversas nações independentes. O Brasil, apesar das diferenças étnicas, culturais e geográficas se manteve unido, superando o sentimento separatista que ocasionou diversos episódios de secessão, desde a burlesca aclamação de Amador Bueno como rei de São Paulo, no século XVII, até a sangrenta Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Um exame dos fenômenos que promoveram e, mais ainda, cimentaram a unidade nacional, permite observar que a intensa circulação de tropas entre o extremo Sul e São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais exerceu papel fundamental nesse processo. O tropeirismo ligou economicamente o Brasil da mineração e do café com o Brasil meridional, e fez com que ambas as regiões tirassem mútuo proveito do comércio de tropas e muares vindos da Província de São Pedro do Rio Grande e destinados ao mercado de Sorocaba, em São Paulo.
Um efeito da economia tropeira foi o desenvolvimento de novas rotas e o desbravamento de grandes áreas do Oeste Fértil brasileiro, nos atuais estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Além da expansão das áreas de pecuária e agricultura, a ocupação dessa região permitiu ao país vencer a Argentina pela posse do vasto território ocidental dos estados do Paraná e Santa Catarina, na disputa da questão de Palmas, o primeiro grande feito do, à época, futuro Barão do Rio Branco.
Hoje a riqueza que vem do campo faz do agronegócio a força motriz do desenvolvimento brasileiro. Cerca de um quarto do PIB e metade das exportações do país têm origem na agricultura, pecuária e agroindústria. Mas como e onde nasceu esse Brasil que dá certo? Desde o descobrimento já se sabia que, aqui, “em se plantando tudo dá”. Em 1º de maio de 1500, na carta escrita por Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, Dom Manuel, o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral conta as maravilhas da nova terra dizendo:
“(…) nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem o vimos. Porém, a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”.
Entre o descobrimento e o início do ciclo da cana-de-açúcar, em 1530, o Brasil viu suas florestas devastadas pelo ciclo do pau-brasil. No período pré-colonial, de 1500 a 1530, a exploração predatória da árvore símbolo do país quase a levou à extinção. Em 1534 foram criadas as capitanias hereditárias e o colono português veio fixar-se no litoral brasileiro. Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, a produção açucareira do país foi uma das maiores atividades econômicas do mundo ocidental. A concorrência da cultura da cana e dos engenhos implantados nas Antilhas holandesas e inglesas tomou o lugar do produto brasileiro no mercado europeu e determinou a sua derrocada.
Por sorte o Brasil encontrou outra atividade econômica relevante com a descoberta de ouro no fim do século XVII, em Minas Gerais, à qual se somou a descoberta dos diamantes, por volta de 1721. O ciclo do ouro seria a nova fase econômica no país. As atividades de mineração demandavam o transporte de equipamentos, insumos e alimentação, e os minérios e as pedras preciosas precisavam ser levados para os portos de embarque. Os arraiais que se formavam em torno das minas necessitavam ser abastecidos por diversas mercadorias, transportados no lombo de mulas, os únicos animais que conseguiam levar cargas de 100 quilos ou mais a grandes distâncias, por caminhos inóspitos e impraticáveis. Para atender a essa necessidade de animais de transporte surgiram empreendedores que começaram a organizar e trazer do extremo Sul do país tropas de muares. A rota mais utilizada pelos tropeiros era o Caminho do Viamão, também denominado Estrada Real, que vinha desde Viamão, nas imediações de Porto Alegre, atravessava os campos de Vacaria, Lages, Correia Pinto, Curitibanos, Santa Cecília, Papanduva, Monte Castelo, Mafra, Rio Negro, Campo do Tenente, Lapa, Palmeira, Ponta Grossa, Castro, Piraí do Sul, Jaguariaíva, Sengés, Itararé, alcançando Sorocaba, em São Paulo.
Assim o tropeirismo, que nasceu para atender às crescentes necessidades do ciclo do ouro, foi tomando corpo a ponto de se tornar uma importante atividade econômica em nível nacional e a mais relevante para o Brasil meridional da época.
Foi, em grande parte, por entender a importância vital do tropeirismo para o Brasil de então que os governantes decidiram promover a conquista dos Campos de Guarapuava, uma vasta área a Oeste do Caminho de Viamão, estimular o povoamento do Brasil meridional e, seguindo essa trilha, conquistar o Oeste Fértil, a faixa fronteiriça que começa na região missioneira do Rio Grande do Sul, passa pelo Planalto Médio gaúcho, pelo Alto Uruguai e se espalha pelo Oeste catarinense e paranaense, formando o grande cluster a partir de onde, ao longo do século XX, surgiu o moderno agronegócio brasileiro.
Goio-En é um romance histórico que conta o estabelecimento da travessia do Rio Uruguai pelo Passo do Goio-En, uma iniciativa que permitiu a abertura do caminho de tropas para fazer a ligação com os Campos de Guarapuava, na época território paulista, abrindo o Caminho das Missões, na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. A narrativa ficcional é situada em 1845, logo após o fim da Guerra dos Farrapos, e se relaciona com o Novo Caminho das Missões, aberto por iniciativa e às expensas do governo da Província de São Paulo. Essa rota cruzou o território dos índios Kaingang, os temidos Coroados, que aceitaram a pacificação e o aldeamento por influência do cacique Victorino Condá, um Kaingang que veio na expedição do alferes Francisco da Rocha Loures, incumbido de abrir a estrada. Entre outros personagens históricos estão o cacique Nonoai, o padre Antônio Penteado, o comissário de Passo Fundo Joaquim Fagundes dos Reis, o então presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, o Conde de Caxias, e seu tio e cunhado, Manoel da Fonseca Lima e Silva – o futuro Barão de Suruí –, que era presidente de São Paulo. A história ainda destaca as aventuras reais de figuras como o general Pedro Labatut e os heróis de dois mundos, Giuseppe e Anita Garibaldi.
O Goio-En
O dia estava límpido e luminoso. Começava o ano de 1845 no verde e fecundo vale do Alto Uruguai. Ali, na confluência dos rios Uruguai e Passo Fundo, Victorino Condá, o respeitado cacique Kaingang, estava postado no topo de uma ravina, nas barrancas do lado direito do Rio Uruguai. Aquela margem era chamada de “banda ocidental”, embora naquele trecho o rio corresse no sentido Leste-Oeste. Essa designação se devia ao rumo geral na direção Norte-Sul que o rio seguia desde o Salto Grande até o estuário do Rio da Prata.
Dali, ainda montado em seu cavalo, o cacique podia estender o olhar e abarcar o vale que se desenhava em meio ao verde das encostas. De onde se encontrava, podia visualizar o passo do Goio-En, que estava no Centro de suas preocupações. Ainda não era meio-dia e as luzes e sombras do vale pintavam as colinas com todos os tons de verde, do mais claro, nas áreas ensolaradas, aos mais escuros, onde a luz do sol ainda não chegava. Depois de lançar seu olhar para o horizonte e contemplar o sol majestoso que brilhava no céu de um azul profundo e sem nuvens, desceu os olhos para as sinuosidades do rio que corria no vale. A serena beleza dos meandros do Goio-En era enganadora.
Nos meses de águas baixas, o passo do Goio-En era comparável a um balneário de águas rasas e amenas, mas no período de cheias, quando transbordava, se transformava num trecho de rio caudaloso, que arrostava tudo o que estivesse em seu curso. Ainda assim, a alma do Goio-En era compassiva. Décadas mais tarde, aos balseiros que o respeitassem e aceitassem seu transbordo com intrepidez, ele retribuiria oferecendo suas águas para que conduzissem espantosas balsas de centenas de troncos amarrados pelo Uruguai abaixo, até alcançar o estuário do Rio da Prata. Mas Condá, naquele instante, não pensava na futura utilidade do rio, nem antevia o papel que aquele singelo passo do Uruguai teria na sua história, na história de sua tribo e na história do Sul do país. A alma do cacique, concebida para reconhecer-se como parte da natureza que contemplava, sentia vibrar em seu coração o chamado do rio e, com serenidade, contemplou a sinuosa ferradura esculpida pelas águas que corriam mais abaixo.
Apeou do cavalo sem pressa. Uma leve brisa soprava ao longo do vale. Com força, sorveu o revigorante ar da manhã. Havia na atmosfera uma fragrância sutil. O inconfundível aroma das matas de araucária que vinha da terra, dos pinheiros, das flores, do mel, dos frutos. Um bálsamo inebriante que comungava com a harmonia daquela paisagem ainda intocada pelo homem. Imerso em contemplação, o Pai-Bang sentia-se uma partícula daquele cenário. Sua alma escapava dos limites do corpo para ir abraçar aquelas matas solenes, aquele rio caprichoso, aquelas aves estrepitosas com a mais fraterna ternura e o mais conspícuo deleite onírico. Em transe, olvidava o tempo, ignorava as angústias e aflições dos desafios que enfrentava e apenas deixava pulsar o coração. A beleza daquele panorama o comovia. A grandiosidade das araucárias, a aromática erva mate, a luxuriante vegetação subtropical, tudo que o cercava era expressão requintada da natureza.
Desde quando chegara aos Campos de Palmas e vira o Goio-En pela primeira vez, foi conquistado pela sua transcendência iridescente. Sentira, em seu íntimo, que aquela paisagem representava a essência de seu povo. Os Kaingang, que os brancos (os fóg) chamavam de Coroados, nasceram e viveram sempre nas matas de araucária. Vegetação esplêndida e incomparável. De tal modo formada que, por maior que seja o mundo, só existe naquele recanto abençoado pelo criador. Sob o dossel das araucárias, os Kaingang estabeleceram seu habitat. Sob os pinheirais estavam em seu elemento, seu ambiente, sua morada, seu refúgio. Naquelas matas e campos, obtinham seu alimento, ali enterravam seus umbigos e, ao fim do ciclo da vida de cada um, naquele solo repousavam seus corpos fatigados.
Os Kaingang floresceram naquelas matas, adaptaram-se à sua geografia, ao seu relevo, à sua fauna e flora, à sua meteorologia. Buscando conviver com invernos inclementes, criaram casas subterrâneas para protegerem-se do frio. No verão, viviam na superfície, em choupanas arejadas, onde desfrutavam as macias aragens do verão. De fato, por merecimento e por direito, os Kaingang eram o “Povo das Araucárias”.
Os Kaingang eram uma etnia de características nômades, ainda que sua mobilidade ficasse restrita às matas de Araucária. Historicamente, antes da denominação Kaingang, esse grupo recebeu outros nomes: Guayanás, Coroados, Bugres e Botocudos. O nome Kaingang queria dizer “morador do mato” e é formado por duas palavras de sua língua: “caa” (mato) e “ingang” (morador). A denominação se justificava porque os Kaingang não eram afeitos a viver em aldeias fixas ou permanentes. Pela mesma razão, ou seja, por terem hábitos de mobilidade constante, que enfatizavam as atividades de coleta, caça e pesca como meios de subsistência, a agricultura não era vista como atividade prioritária, embora cultivassem, em pequena escala, milho, feijão e morangas.
O passo do Goio-En era uma referência importante para os Kaingang. Embora não houvesse um reconhecimento formal, nenhum outro ponto geográfico, ao Sul ou ao Norte, a Leste ou a Oeste, sintetizava tão bem a terra e a vida dessa tribo. Aquele passo, ainda que despretensioso, ligava boa parte do mundo deles. A região do entroncamento dos rios Uruguai e Passo Fundo, em cuja confluência ficava o Passo do Goio-En, influenciava um amplo território dominado pelos índios Coroados. Ao Sul, abrangia todo o Alto Uruguai, onde estavam o Campo de Nonoai, o Campo Novo e o Campo Erechim, ainda alcançando o Mato Castelhano, o Campo do Meio, os Campos de Vacaria e o Campo dos Bugres. Ao Norte ficavam o Campo de Irani, o Campo Erê e os Campos de Palmas e Guarapuava.
Ali, diante dos olhos de Condá, estava a passagem que unia aqueles territórios, o vau de travessia que ligava as duas margens do Rio Uruguai e sintetizava a alma de sua gente, como se metaforizasse a dualidade Kaingang, as metades Kamé e Kayru, que caracterizavam seu povo. Ali estava o passo que, sem alarde e sem festejo, desde sempre, permitiu aos Kaingang manterem o domínio das duas bandas do rio e suas matas de araucária. E Condá, que tinha consciência de viver num tempo que desafiava seu povo a lidar com o desconhecido, havia peregrinado até o Goio-En para haurir, naquele refúgio abençoado, a força dos antepassados. Sabia que precisava ser forte para os embates que antecipava. A ele incumbiria intermediar difíceis acordos de sua gente com os conquistadores brancos. Seria desafiador buscar o entendimento entre os caciques Kaingang, que não aceitavam os brancos em seus domínios, e os fóg, os brancos que vinham para ficar e estavam dizimando sua tribo.
O cacique conhecia bem os fóg. Os respeitava, mas em nenhum aspecto se sentia inferior. Havia crescido junto aos brancos e via, com clareza, suas virtudes e defeitos. O índio, para ele, era semelhante aos conquistadores brancos e, portanto, fazia parte da mesma espécie humana. Aliás, também ele fora batizado, sendo, assim, cristão e membro da mesma igreja católica dos colonizadores. Contudo, ali, no Goio-En, despia-se de todas as convenções para se sentir apenas um Kaingang. O cacique tinha orgulho do que era, de sua raça e de sua história. Reconhecia, com tristeza, que havia Kaingang desprezíveis que maldiziam sua origem e sua condição de índio. Como se pudessem mudar sua raça, sua cor, sua linhagem ou sua raiz. Porém, nunca ele, Condá. O altivo cacique jamais cogitara trair seus antepassados ou a terra que o vira nascer. Nunca ele, que se sentia feliz em ser o que era. Jamais ele, que se sentia privilegiado, abençoado, bendito, distinguido. Nem por isso, contudo, era ingênuo.
Para um Kaingang, a vida sempre fora entendida como uma dádiva de seus criadores, Kamé e Kayru. E desfrutá-la era um desafio de cada dia. Era preciso lidar com as venturas e desventuras, aproveitar as oportunidades e sobreviver aos perigos. Enfim, era preciso saber jogar e vencer no jogo da vida. O mundo criado por Kamé e Kayru era cheio de fenômenos e criaturas que espreitavam os Kaingang. Na arena da vida, era necessário ser como a onça Mig. Era preciso ser ágil, astuto e lutar com bravura. Na vida, os fracos tombam e os fortes vencem. Era evidente que existia, e sempre haveria de existir, a luta por um lugar ao sol. O cacique acreditava que todos os seres da floresta disputavam entre si as vagas de sobrevivência que os matos tinham a oferecer. Então, como poderia ele se sentir superior a uma onça Mig, se, como ela, nascia e vivia em meio aos pinheirais? Se, como ela, precisava caçar para sobreviver? Se, como ela, precisava proteger-se, e se, como ela, também tinha inimigos que o caçavam implacavelmente? E, se como ela, se via assediado pelos conquistadores que vinham de lugares distantes para tomar-lhe as terras, seus espaços vitais, seus cemitérios e lugares sagrados?
Não obstante tudo isso, Condá amava a vida e não temia a luta do viver. Claro, tinha medos e receios como qualquer ser humano. E como certamente os teria a onça Mig. No entanto, como ansiava pela liberdade mais que tudo, recusava-se a ser prisioneiro de seus medos. Sua bravura vinha da inabalável determinação de ser livre. Uma aspiração de liberdade, porém, temperada pela prudência. Havia que agir com astúcia e sopesar as adversidades. Ele sentia a injustiça de, sendo nativo, ter de enfrentar as agruras de ser tratado como estrangeiro em sua própria terra. Naquela terra que havia sido de seu povo por incontáveis gerações.
Todavia, no afã de continuar a ser livre, não lhe faltava disposição para ser como a onça Mig, que combinava a inteligência, o arrojo e o vigor para vencer seus combates. Que empregava a inteligência para preparar o ataque, a ousadia para surpreender a presa e o vigor para usar suas garras e suas presas de modo a vencer pela força. E que, decidido o ataque, a ele se lançava sem titubear ou fraquejar. Se a liberdade lhe era preciosa, então, arrostar o temor era preciso. Se a vida se apresentava desafiadora, que os desafios viessem. A cada um enfrentaria empenhando cada fibra de seu ser. Se no cotidiano haviam os obstáculos, cotidiana seria sua coragem para superá-los. Aprendera com as estrelas do firmamento que era preciso continuar brilhando mesmo quando ofuscado pelas nuvens. E aprendera que superar os obstáculos era a única opção que lhe cabia como protagonista do próprio destino. E, na condição de Pai-Bang, do destino de seu povo.
Condá estava ali para preparar seu coração para enfrentar os rigores da luta em que breve se empenharia. Não que precisasse. Ele aprendera a curtir seu coração desde cedo. Aprendera com seus maiores que, na batalha da sobrevivência, pior que morrer era acovardar-se. Contudo, seus maiores advertiam: morrer sem propósito era ainda pior que morrer. Morrer e abandonar seu povo era a pior ignomínia. Por isso, não haveria de ser qualquer vilania temporã que o abateria. Tampouco, apanhá-lo despreparado. Assim era seu desígnio. Cada geração tinha de vencer seus combates. Agora era a ele, Condá, que cabia sobrepujar os imponderáveis do destino que se abatiam sobre seu povo. Era para vencê-los que a ele incumbia adquirir a resiliência dos arbustos que fincavam suas raízes na rocha e, como eles, agarrar-se, impávido, nas barrancas do Uruguai.
Condá, o cacique, o filho sobranceiro daquelas matas, saiu do transe em que se descobriu absorto. Com um calafrio que lhe percorreu a coluna, olhou em volta. Contemplou o chão que pisava com os pés descalços. O chão da terra abençoada, onde seu cordão umbilical já o havia antecedido e onde um dia, ao fim de seu tempo, quando o espírito se separasse de seu corpo, repousaria o sono dos justos. Havia alguma coisa sublime que o tocava naquele cenário. A natureza era de todos e de quem a abraçasse, por certo, mas havia os que não a viam e não lhe davam importância. Havia os que dela não se davam conta. Havia, ainda, os que a desrespeitavam. E, pior, havia os sacrílegos e ingratos, que a maltratavam. Não os Kaingang.
Os índios se sabiam parte dela e sentiam imenso orgulho porque a compreendiam e por ela zelavam. Aquele vale paradisíaco podia ter sido o Jardim do Éden de que os livros sagrados falavam. Ele, como cristão batizado, ali o imaginava. E ouvia os sons da sinfonia da natureza que seus ouvidos atentos captavam. A aragem que fazia farfalhar as árvores. A passarada barulhando alegre. Por um momento, viu as borboletas se enroscarem em volta das flores e, no solo rico em sementes, viu perdizes ciscando lépidas. Logo adiante, o cacique observou um galho balançar sob o peso de uma esplendida ave, um chamativo pica-pau benedito-de-testa-amarela. Pelas cores era possível afirmar tratar-se de um macho, todo garboso, expondo o azul-marinho das asas em contraste com o amarelo brilhante da testa e do pescoço e, sobre a cabeça, um atrevido topete vermelho-cereja brilhante. A ave como que vestia um colete de riscas brancas e pretas, tendo aos olhos uma faixa negra como que formando uma máscara. O pássaro, engalanado em seu intenso colorido, parecia orgulhoso em ofuscar um gavião-carijó que circulava no alto. Possivelmente procurando uma presa para o desjejum.
A manhã friorenta já tinha se adiantado, mas Condá observou que a umidade da chuva do dia anterior ainda permanecia em reentrâncias da vegetação. Olhando em volta, o cacique notou que o sol brilhava por entre as copas em cálice das araucárias, projetando na relva um rendilhado caprichoso. Depois, ao longo do vale, o recorte, feito pelas sombras, produziam contrastes sobre o ondulado verde das encostas e refletiam seus raios nas águas que serpenteavam mais em baixo, onde seus raios faiscavam nas ondulações preguiçosas do rio. O deslumbramento que capturava a alma de Condá, porém, não maravilhava só a ele e aos Kaingang de sua tribo. Anos antes, Giuseppe Garibaldi, em paisagem similar, tivera a mesma sensação de arrebatamento. Eis como o “herói de dois mundos” descreveu as florestas e pinheiros em suas memórias:
“Só quem já viu as imensas florestas que cobrem os cimos do Espinhaço, com seus pinheiros seculares, que parecem destinados a sustentar o céu, e são as colunas deste esplêndido templo da natureza… podem delas fazer uma ideia”.
Mas Victorino Condá, o grande cacique Pai-Bang dos Campos de Guarapauva e Palmas, conhecido e respeitado em toda a nação Kaingang, precisava, agora, concentrar seus pensamentos na razão de sua presença ali. Havia um motivo para ele estar no Goio-En. Havia vindo como peregrino, com o fim de aconselhar-se junto aos espíritos de seus antepassados. E, para bem ouvi-los, precisava integrar-se à natureza. Precisava sentir as vibrações do pinheiral, aspirar seus aromas, ouvir seus sons e buscar a harmonia com os seres da mata. Só assim seria capaz de escutar a mensagem que falaria ao seu coração. Afinal, Condá estava ali para receber sabedoria e ansiava ouvir aconselhamentos de seus antepassados.
Condá tinha 40 anos e já vivera grandes desafios e muitas aventuras. Por sua sabedoria e profundo conhecimento dos brancos, do povo fóg, era muito respeitado pelos membros de sua tribo e tinha grande ascendência sobre a nação Kaingang e os demais caciques da tribo. Era igualmente respeitado por boa parte dos conquistadores brancos, especialmente por ser figura central no processo de conquista dos Campos de Palmas, na comarca de Curitiba. Agora, porém, vivia momentos cruciais e se encontrava diante de um grande dilema. Por isso precisava meditar sobre decisões que teria de tomar em breve e que seriam de importância vital para si mesmo e para seu povo.
Os Kaingang habitavam aquelas matas por gerações sem conta. Eram os “filhos da América”, como definiria José Joaquim de Oliveira, que mais tarde, com equilíbrio e prudência, exerceu por muitos anos a autoridade civil sobre o toldo indígena de Nonoai. Os índios Kaingang tinham uma cultura adaptada às grandes matas de araucária. Conheciam todos os seus segredos, conheciam cada um de seus mistérios, conheciam cada uma de suas criaturas. Nelas, eram invencíveis. Eles acreditavam que a mãe natureza precisava deles tanto quanto eles precisavam dela. Eles eram nômades e prioritariamente coletores, especialmente do pinhão, o seu alimento mais destacado, mas eram também caçadores e pescadores. Por isso os Kaingang procuravam a proximidade dos rios para montar seus acampamentos, ainda que ficassem a uma distância prudente para evitar os enxames de mosquitos.
O povo Kaingang vivia em grupamentos que se espalhavam desde as margens do Rio Tietê, em São Paulo, até o Rio Ijuí, no nordeste do Rio Grande do Sul. Condá tinha sua origem na subtribo dos Votorões, mas também circulavam naquelas matas e florestas os Dorins e Camés, que rivalizavam entre si, às vezes de forma violenta, mas que, igualmente, integravam a nação Kaingang. Em meio a essa vasta região estavam os Campos de Guarapuava, onde Condá tinha nascido, os Campos de Palmas, que ajudou os brancos a conquistar e onde assumiu a função de cacique Pai-Bang. Incluía ainda as áreas ao Sul do Rio Uruguai, na chamada banda oriental. Essas áreas, sendo os Campos de Nonoai e de Erechim os mais próximos, eram separadas pelo Rio Uruguai, e a ligação entre os dois lados era feita predominantemente pelo vau do Goio-En, o mesmo que, aos olhos de Condá, se desenhava em um semicírculo na forma de ferradura mais abaixo, formando a paisagem que o Pai-Bang contemplava em silêncio, absorto em suas preocupações.
O cacique não tinha como saber, é fato, mas suas resoluções daquele dia iriam contribuir de modo importante para que o Oeste de Santa Catarina e do Paraná se tornasse brasileiro em definitivo. Aquela região ainda não tinha fronteiras demarcadas e havia um contencioso com a Argentina, que pretendia estabelecer as fronteiras com o Brasil pelos rios Chapecó e Chopim, supostamente com base no Tratado de Madri, de 1750. Essa alegação se provou ser um erro de interpretação, dada a precariedade dos mapas da época, mas um dos principais argumentos-chave do Barão do Rio Branco para defender a pretensão brasileira, diante do presidente Cleveland, dos Estados Unidos, na chamada Questão de Palmas, foi a presença majoritária dos Kaingang na região em disputa.
Aconteceu que, logo após a Proclamação da República, no Brasil, em 15 de novembro de 1889, Quintino Bocaiuva, nomeado ministro das Relações Exteriores do Governo Provisório, foi negociar as fronteiras com os argentinos e firmou com eles o escandaloso Tratado de Montevidéu, em 25 de janeiro de 1890. Nesse tratado, o ministro do governo provisório concordava em dividir a região em disputa entre ambos os países. O que significava que boa parte dos atuais territórios do Paraná e de Santa Catarina teriam sido entregues, de mão beijada, aos argentinos. Alertado para a imensa brutalidade que se estava cometendo contra a nação brasileira, o Congresso Nacional do Brasil considerou que o diplomata havia extrapolado as suas atribuições e feito excessivas concessões territoriais. Em razão disso, em 1891, decidiu não ratificar os termos do tratado. Para sorte do Brasil, o governo imperial brasileiro havia estabelecido com a chancelaria argentina um entendimento que, caso houvesse um eventual litígio de fronteiras, este seria solucionado por arbitramento dos Estados Unidos. Diante da decisão do Congresso brasileiro, a questão foi, então, submetida ao arbitramento do presidente dos Estados Unidos. Na época, o presidente Norte-Americano era Grover Cleveland, cujo laudo, de 5 de fevereiro de 1895, foi inteiramente favorável ao Brasil. A decisão de Cleveland foi que as fronteiras do Brasil com a Argentina deveriam ser fixadas pelos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio, bem a Oeste dos rios Chapecó e Chopim, como era a pretensão argentina.
O defensor da causa do Brasil, o diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, apresentou ao presidente Cleveland uma exposição reunida em seis portentosos volumes, nos quais defendeu brilhantemente a causa brasileira. Além de oferecer argumentos sólidos e abundante documentação, o barão ressaltou que os habitantes da região em disputa eram majoritariamente índios da tribo Kaingang, sublinhando que os
“Kaingang sempre haviam sido súditos do rei de Portugal, enquanto os Guarani o eram da Espanha”.
Contudo, naquela manhã, o altivo cacique, conhecido por sua inteligência, coragem, tenacidade e frieza, não tinha como impedir que seu coração fosse tomado de angústia por motivo bem diverso. Tampouco logrou segurar algumas furtivas lágrimas que escorregaram, teimosas, por seu rosto viril, tisnado pela vida ao ar livre, marcado pelas lutas e embates que desde guri enfrentara, assim como pelos tempos tumultuosos em que ora vivia. Ele sabia, contristado, que os dias felizes de liberdade e despreocupação a que seu povo se habituara, que os tempos de abundância e fartura vividos entre os amados pinheirais de seu habitat natal, estavam acabando para sempre. Para o cacique, era duro ter de aceitar o ocaso de uma era que havia sido generosa para seu povo. Diante da chegada dos forasteiros e conquistadores, teria de lutar pela sobrevivência e aceitar mudanças profundas no modo de vida de sua tribo.
Para sua gente, as matas de araucária tinham sido, sempre, extensão de suas vidas. Em seu coração, Condá amava os pinheiros como se fossem seus irmãos na natureza. As araucárias, a seu sentir, eram as mais belas e dadivosas árvores criadas por Kamé e Kayru. Ali, onde estava, os pinheiros eram numerosos, e, olhando mais além, era possível ver que os pinheirais se espalhavam em todas as direções. Aos milhares, as copas dos pinheiros lembravam braços erguidos para o céu, engalanados pelos pompons que valsavam ao vento que vinha do Sul. Era como se a mata estivesse sempre em festa, brejeira, decorada com adereços, pronta para celebrar o esplendor da natureza e a glória do criador.
As araucárias podem alcançar mais de 50 metros de altura, formadas por troncos cilíndricos, retos, esbeltos, subindo, imponentes e intrépidos em direção ao céu, onde suas copas se abrem como taças para sorver, gulosas, a magnânima luz do sol. O pinhão, a pródiga e nutritiva semente da araucária, era o principal alimento dos Kaingang. Para um Kaingang, a beleza e a majestosa imponência das araucárias eram um presente de Kamé, que, conforme rezavam suas crenças, criara os generosos pinheiros pensando em oferecê-los como dádiva a seu povo. Quem sabe, em momento inspirado, almejando embelezar com divina criatividade a natureza do mundo que estava formando. Nessas matas, pelas quais os Kaingang tinham reverencial respeito, os espaços da natureza eram também o espaço social dos Kaingang.
Desde pequenos os Kaingang aprendiam a percorrer os caminhos entre os pinheiros, da mesma forma como fazia a Mig, a onça pintada, e como fizeram seus ancestrais desde tempos imemoriais. Os índios se orientavam nas matas com facilidade e gostavam de perambular por elas. Um dos costumes sociais mais importantes dos Kaingang eram as visitas rituais entre os grupos e toldos. Tais visitas eram regulares e sempre marcadas por uma calorosa recepção nas aldeias visitadas. Os mais velhos promoviam as boas-vindas e todos compartilhavam das festividades de recepção. Era nesses encontros que os mais jovens descobriam sua identidade como membros da tribo Kaingang.
Por ocasião dessas reuniões, os jovens Kaingang tinham acesso aos conhecimentos milenares transmitidos pela oralidade cerimonial. Os caciques e os membros mais proeminentes das comunidades falavam sobre a história da tribo, os grandes feitos de seus antepassados, o dia a dia de suas famílias e de seu grupo social. Também trocavam conhecimentos úteis, notícias sobre coletas de pinhões e frutos silvestres, discutiam pescarias e caçadas e debatiam a abundância ou a escassez de alimentos. Sob a liderança dos kuiã, discutiam os aspectos sobrenaturais da floresta, dos rios e das montanhas, interpretavam sonhos e sinais, relatavam encontros com espíritos na mata e tagarelavam, animados, sobre temas do cotidiano dos agrupamentos humanos, como o tempo, a saúde e a doença, os relacionamentos, a vida social, os casamentos, as crianças e as inescapáveis fofocas, intrigas e eventuais desavenças.
A cultura Kaingang possuía uma forma dualista de dividir-se e organizar-se. Essa maneira de estruturar o grupo social tinha muitas singularidades e, especialmente, evitava a consanguinidade nos casamentos. Condá tinha sido ensinado que essa dualidade surgira ainda na criação do mundo. Os espíritos Kamé e Kayru, no princípio, teriam sido enviados para povoar a Terra. Dotados de poder para criar os habitantes do mundo, primeiro teriam feito os animais, as plantas e os astros. Cada um deles teria feito os seus. Kamé teria a seu cargo os seres compridos e riscados (re téj) e Kayru teria sido o responsável pelos seres redondos e malhados (re ror).
O sistema de metades, como Condá lembrava da narrativa dos contadores de histórias de seu povo, produzia não apenas a divisão entre os membros da sua etnia e dos homens em geral, mas separava em duas metades tudo o que existe no planeta e acima dele. Assim, o Sol é Kamé e a Lua é Kayru, o pinheiro é Kamé e o cedro é Kayru, o lagarto é Kamée o macaco é Kayru.
De acordo com a narrativa, os dois entes criadores dos Kaingang, só depois de terem criado todos os seres da natureza e após darem por concluída sua obra, decidiram ter chegado a hora de casar os homens e mulheres. Nesse ponto estabeleceram como regra que um Kamé não podia se casar com outro Kamé, nem um Kayru com outro Kayru, porque seriam casamentos entre irmãos. Assim, um Kamé só podia se casar com um Kayru e, portanto, integrante da outra metade do povo Kaingang, e vice-versa. De tal maneira que os casamentos se davam sempre entre um membro de um grupo com um do outro. E era assim que havia sido determinado que devia ser para sempre. Pelas regras do dualismo Kaingang, os filhos faziam parte da metade paterna. Isso valia para todos, tanto para os Kamé quanto para os Kayru. Desde muito novos os filhos aprendiam com os pais e avós sobre essa divisão, sobre o sistema de metades e sobre seu lugar na ordem social da tribo. Condá, olhando o Vale do Uruguai que se dividia em duas metades de belas ravinas, que dos dois lados subiam robustas e imponentes, com o sol brilhando entre elas, pensava que sim, que era assim que Kamé e Kayru deviam ver as duas metades de seu povo. Igualmente belas. Igualmente radiosas. Igualmente dignas de seu amor e proteção.
Os campos de Guarapuava
CAMPOS DE GUARAPUAVA – desenho a nanquim – 1822 – Custódia da Biblioteca Nacional – Coleção Morgado de Mateus
O governo imperial estava mesmo decidido a colonizar os Campos de Guarapuava, e a prova foi a criação, em 1809, de um imposto específico para financiar esse propósito. Tratava-se da “Contribuição para Guarapuava”, um tributo que incidia sobre os animais soltos conduzidos pelo registro de Sorocaba. O valor dessa taxa oscilou para cima e para baixo nos primeiros anos, porém, em 1819 foi fixado da seguinte forma: animais criados nos Campos Gerais: 875 réis por muar, 750 réis por cavalar e 240 réis por vacum. Animais vindos do extremo Sul: 160 réis por muar e 220 réis por cavalar. Esses foram os valores cobrados até o fim da contribuição, em 1851.
Um tímido início do povoamento dos Campos de Guarapuava havia ocorrido no século XVIII, com as Expedições do Tibagi, que chegaram à região em 1º de dezembro de 1787. A ocupação de fato, porém, só ocorreu por meio da Real Expedição de Conquista do Povoamento dos Campos de Guarapuava, criada pela Carta Régia de 1º de abril de 1809 e enviada por Dom João VI ao governador da Capitania de São Paulo. Quando os portugueses chegaram ao Sul do Brasil, e fundaram, em 1737, o Forte Jesus, Maria e José, onde posteriormente foi fundada a Vila de Rio Grande de São Pedro, no atual Rio Grande do Sul, as vastas áreas ainda inexploradas estavam tacitamente divididas entre os nativos.
A nação Kaingang, do grupo Jê, ocupava as terras altas, onde predominavam os pinheirais. Essa área, onde abundavam as florestas de araucárias, ia desde o interior da Capitania de São Paulo até o Centro-Norte da Capitania de São Pedro do Rio Grande. O território Guarani, por sua vez, compreendia as terras baixas, desde o litoral até a bacia do Paraná-Paraguai. A região intermediária, entre o planalto e o litoral, começando na Capitania de São Paulo se estendendo até a Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul, era ocupada pelos Xokleng, também do grupo Jê e aparentados com os Kaingang. E nos pampas, mais ao Sul, habitavam os chamados pampianos, grupos independentes, formados principalmente por charruas e minuanos, que ocupavam as regiões Sul e sudeste da província.
Esse arranjo entre as tribos indígenas, embora nem sempre pacífico, perdurou por incontáveis gerações, no entanto, apesar das missões jesuíticas terem exercido significativa influência na região das Missões, na região do Rio da Prata e em diversas áreas do extremo Sul, foi a ambição da Coroa Portuguesa de povoar os sertões ao Sul da Província de São Paulo que iniciou as grandes mudanças. Dom João VI queria ampliar as fronteiras da agricultura e da pecuária e manter afastadas as investidas dos castelhanos, que continuavam ambicionando aqueles campos de imenso potencial de prosperidade. A principal iniciativa nesta direção foi a Carta Régia de 1º de abril de 1809, enviada pelo príncipe regente Dom João VI a Antonio José da França e Horta, governador e capitão-general da Capitania de São Paulo. Por meio dela Dom João VI “approva o plano de povoar os Campos de Guarapuava e de civilisar os índios barbaros que infestam aquelle territorio”.
O nome Guarapuava veio do tupi-guarani e significa “lobo bravo” (“guará” é lobo e “puava”, bravo). A região tinha sido descoberta pelos portugueses em 1770. Sua imensa área de 175.000 km² era formada por um território que fazia limite com o Rio dos Patos e com o Rio Paraná, seguia o curso deste até o Rio Corrientes, na Argentina, e dali, atravessando os campos, ia encontrar o Rio Uruguai. Seguindo o Uruguai rio acima, cruzava os Campos de São João, no Rio Iguaçu, para, ainda no mesmo rumo, terminar no Rio dos Patos.
Para comandar a expedição criada pela Carta Régia, Dom João VI indicou Diogo Pinto de Azevedo Portugal, que servia como sargento-mor das tropas de milícias. Azevedo Portugal era militar experiente nas escaramuças de combate aos indígenas e, para dispor da estatura de comando necessária, autoridade para reunir recursos e determinar providências, recebeu a patente de tenente-coronel de milícias. Assim qualificado assumiu a tarefa de iniciar o povoamento dos Campos de Guarapuava, conforme as ordens do príncipe regente.
Naquele tempo, a Capitania de São Paulo abrangia toda a área dos atuais estados de São Paulo e do Paraná, além de parte do território catarinense, até a divisa com a Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul. Os assim chamados Campos de Guarapuava compreendiam todo o território ainda inexplorado na área Sul da Província de São Paulo e ao Oeste do Caminho de Viamão. Portanto, se estendiam até a fronteira com a Argentina e, ao Sul, até a divisa com a Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul.
O Caminho de Viamão constituía-se no corredor que comunicava os campos da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul, desde Viamão, até a tradicional feira paulista de Sorocaba. Por esse caminho, que tinha uma extensão em torno de 250 léguas (1.200 quilômetros), com muitos trechos acidentados e difíceis, trafegavam grandes tropas, muitas delas reunindo mais de 1.000 animais destinados a abastecer os mercados de São Paulo, de Minas Gerais e do Brasil central.
A expedição de povoamento dos Campos e Guarapuava partiu de Curitiba em agosto de 1809, mas só chegou ao seu destino em julho de 1810. Um ano foi bastante tempo, considerando que a distância entre Curitiba e os Campos de Guarapuava era de cerca de 56 léguas (270 quilômetros). A razão para o avanço ter sido tão penosamente lento foi que, além do desconhecimento do terreno e das dificuldades de vencer a mata cerrada em meio a chuvas abundantes, enfrentando frio e doenças, a expedição ia demarcando e consolidando o caminho percorrido, inclusive aplainando algumas áreas e fazendo pequenas pontes.
Ao encontrar um local que considerou adequado, o tenente-coronel Diogo Portugal organizou um abarracamento provisório e determinou a construção de uma fortificação, o Fortim Atalaia. O propósito era garantir proteção aos primeiros colonizadores e suas famílias e, obviamente, dar segurança às suas primeiras tropas. A expedição era composta de mais de 200 militares, alguns escravos, autoridades e dois missionários. O número total se aproximava de 300 pessoas. Segundo o padre Francisco das Chagas Lima, o capelão da expedição, os índios acompanharam de perto os movimentos da expedição, principalmente no pé da Serra da Esperança, último acampamento dos expedicionários antes da construção do Fortim Atalaia.
A ocupação dos Campos de Guarapuava iniciou-se com muito trabalho e esforço para vencer um ambiente inóspito, o que era esperado. E era do conhecimento da expedição que havia uma expressiva população indígena na área. Sabia-se também que os índios da região eram hostis aos luso-brasileiros que entravam em seu território. Assim, foi uma surpresa para os membros da comitiva que, apenas alguns dias após iniciada a construção do Fortim, um grupo de índios viesse visitar a povoação. O intuito parecia ser pacífico e os índios indicavam desejar uma aproximação com os recém-chegados, embora os mais desconfiados suspeitassem que seu verdadeiro objetivo seria fazer um reconhecimento das armas e tropas que os recém-chegados teriam com eles. De tudo, o que mais surpreendeu os luso-brasileiros, porém, foi que os índios trouxeram suas filhas e as ofereceram aos homens. Esse era um costume indígena comum a muitas tribos das Américas, desde os esquimós do Alasca. Adotada desde tempos ancestrais, seria uma forma de garantir variação genética às proles.
Ao ser informado da insólita “oferta”, o capelão, padre Francisco das Chagas Lima, ficou estupefato. Ainda mais escandalizado ficou ao ver a reação dos homens da expedição. Pois os soldados e membros da comitiva, que estavam sem companhia feminina por longo tempo, olhavam cobiçosos em direção às donzelas Kaingang. As jovens, formosas e sedutoras, estavam vestidas apenas com as pinturas das suas dualidades, ou seja, literalmente nuas. Antes que a situação fugisse ao controle, dado que as moças, reconhecidamente entre as mais bonitas e sensuais em meio a todas as filhas das populações nativas, se ofereciam sem o pudor da cultura europeia, o padre partiu para a ação. De dedo em riste, aos brados e em tom apoplético, pôs-se na frente dos homens e os proibiu terminantemente de tocarem nas jovens. E com a voz tonitruando ameaçou excomungar para a eternidade quem quer que desrespeitasse sua ordem. Ainda assim, não fossem os mosquetes da guarda especial apontados para os mais afoitos, teria havido ali um festival pagão de enrubescer gregos e romanos.
As jovens, sentindo-se desprezadas, ficaram do lado de fora da paliçada do Fortim e lamentaram durante toda a noite. No dia seguinte, quando os índios voltaram ao abarracamento e constataram que sua oferta havia sido recusada, mostrando-se insultados. Desconfiados, alguns expedicionários mais acostumados às artimanhas dos índios sugeriram que a oferta das mulheres poderia ser uma tática para afastar os homens de sua área de proteção. E dobraram a vigilância. Naquela noite, quando os índios, efetivamente, voltaram para atacar, foram recebidos com chumbo grosso. Todavia, sem ter noção do que enfrentavam, contando apenas com seus tacapes, arcos e flechas, foram facilmente rechaçados. Na refrega desigual, os índios perderam muitos de seus guerreiros, enquanto, do lado dos expedicionários, nem um só defensor morreu.
As experiências anteriores não haviam preparado os índios para uma derrota tão completa. A superioridade dos brancos era total e absoluta. Abatidos pelo episódio, os índios se afastaram e entraram mais profundamente nas matas, retardando o processo de absorção desejado pelos portugueses por meio da catequização e conversão daqueles indígenas. A vida continuava, e a implantação do Fortim Atalaia e o assentamento dos primeiros colonos seguia seu curso. A população ia crescendo lentamente. Vinham aventureiros e interessados em terras, outros na criação de gado. Outros, ainda, para aproveitar a isenção do pagamento dos tributos devidos à Fazenda Real pelo período de seis anos, um privilégio oferecido a quem viesse povoar os Campos de Guarapuava. Também chegavam alguns condenados ao degredo. Dom João VI, na Carta Régia de 1º de abril de 1809, enviada ao governador Antônio José da França e Horta, fez determinações especificas a esse respeito:
“Igualmente vos ordeno que façais remetter para os Campos de Guarapuava todos os criminosos e criminosas que forem sentenciados a degredo, cumprindo alli todo o tempo do seu degredo”.
Passaram-se dois anos antes que os indígenas voltassem a se aproximar do abarracamento do Atalaia e os soldados encontrassem, em 29 de janeiro de 1812, nas margens do Rio Cavernoso, um casal de índios trazendo uma criança de 4 anos. O casal foi bem tratado, seguindo as determinações da Carta Régia de 1809:
“[…] nos primeiros encontros que tiver com os bugres, ou outros quaisquer índios, faça toda diligencia para aprisionar alguns, os quais tratara bem e vestirá de camisas e outros vestuários […] não lhes quer fazer mal, e antes se deseja viver em paz com elles e defende-los de seus inimigos”.
Enquanto as forças e a disposição bélica dos indígenas fossem desconhecidas, haveria desassossego no Fortim. Por este motivo, houve todo um alvoroço pela oportunidade auspiciosa de poder descobrir, por meio de um indígena daqueles matos, qual a real ameaça que os Kaingang representavam para o Atalaia. O que o índio revelou à guarnição do forte é que ele era um cacique Kaingang de nome Pahy e sua mulher, Coian. Informou que o menino, de nome Netxian, estava muito doente e o estavam levando para um lugar chamado Sepultura, um antigo cemitério Kaingang nas proximidades. Nele, acreditavam, haveria um kuiã, um curandeiro que se encarregava do enterro dos umbigos dos índios que nasciam, como era da tradição, e que faria as orações medicinais da tribo para curar o menino.
O padre Chagas, que participava das conversas junto aos índios, se compadeceu do cacique e de sua mulher, que estavam angustiados com o estado de saúde da criança, e, sabendo que a guarnição não permitiria a saída dos nativos, se propôs a levá-los ao lugar onde encontrariam o kuiã, devidamente acompanhado de uma escolta para que não fugissem. Foram ao cemitério, mas o local estava abandonado e lá não encontraram ninguém. Como a saúde da criança estava se agravando e sua morte parecia iminente, o padre pediu aos pais para que permitissem que ele fosse batizado. Assim, no dia 22 de fevereiro de 1812, o padre realizou o batismo e deu a extrema-unção ao menino, que recebeu o nome de Francisco. Os padrinhos foram o tenente-coronel comandante em chefe da expedição, Diogo Pinto de Azevedo Portugal, e sua mulher, dona Rita Ferreira de Oliveira Buena. Este foi o primeiro batismo de uma criança Kaingang que o padre Chagas realizou na capela do Atalaia dos Campos de Guarapuava.
O cacique, sensibilizado pelo carinho que seu filho doente recebeu do padre Chagas, do comandante da expedição e sua mulher e de outros expedicionários, se tornou amigo dos luso-brasileiros. Aprenderam, ele e sua mulher, rudimentos da língua portuguesa, aceitaram os ensinamentos do catecismo e concordaram, ambos, em ser batizados e casar diante da Igreja. O cacique adotou o nome de Antônio José Pahy de Azevedo e sua mulher, Rita Ferreira. A escolha dos nomes cristãos foi uma homenagem do cacique ao comandante e de sua esposa.
Ambientado com os povoadores, o cacique Pahy atuou como pacificador e deu importante contribuição à conversão dos índios, tanto que os primeiros registros de batismo de Kaingang nos Campos de Guarapuava foram dos filhos desse cacique. Por meio dele foi que vieram aldear-se os primeiros indígenas que ali se estabeleceram. Muitos índios começaram a se aproximar dos brancos e vir morar ao lado deles no Atalaia. Acredita-se que Condá, que nasceu nos Campos de Guarapuava, teria cerca de 4 anos de idade quando seus pais e sua família foram viver na vila. Como gurizote curioso que era, logo fez amizade com outros meninos de sua idade, inclusive com os filhos de Antônio da Rocha Loures.
Em 1819 haviam se passado nove anos do início da povoação. Já era normal o convívio entre indígenas e colonizadores. O padre Chagas, contudo, defendia que os índios deveriam ter seus aldeamentos separados das povoações dos brancos. Era bom que brancos e índios Kaingang habitassem em lugares próximos, de modo a se apoiarem mutuamente, mas separados, para evitar conflitos e tensão no relacionamento entre as comunidades. Naquele ano o comando da expedição conseguiu que as autoridades paulistas concordassem com a proposta de separar os expedicionários dos nativos em duas povoações distintas.
O antigo Fortim Atalaia seria transformado oficialmente em um aldeamento e os Kaingang ficariam com suas instalações existentes, inclusive a capela. Os expedicionários, a guarnição militar e a população luso-brasileira da vila mudariam para outro local, distante légua e meia do Fortim Atalaia. No novo local foi erguida nova capela e estabelecida a Freguesia Nossa Senhora de Belém e construídas novas moradias. Portanto, o antigo abarracamento passou a ser a Aldeia Indígena de Atalaia, devidamente reconhecida por Ordem Imperial e por Carta de Sesmaria, dando posse, documentando e legitimando o território para a “reunião e civilização” dos grupos indígenas da região dos Campos de Guarapuava.
A transferência dos povoadores para o novo local foi finalizada em dezembro de 1819 e o comando do Aldeamento de Atalaia foi entregue ao cacique Luís Tigre Gacon. O arranjo, que parecia ser uma solução ideal para o desenvolvimento harmônico de ambas as comunidades, porém, não foi aceito pelos índios do sertão. Os Coroados que viviam nas matas em volta do aldeamento temiam que os integrantes de seus toldos fossem cooptados e começaram a atacar o Aldeamento de Atalaia. O conflito mais sangrento se deu em 1825, quando os índios Kaingang da subtribo dos Dorim, a facção mais refratária ao convívio com os brancos, invadiram o aldeamento e mataram 28 indígenas.
O padre Chagas assistiu da capela ao ataque dos Dorim, mas nada pôde fazer. O destacamento militar da Freguesia de Belém estava distante uma légua e meia do Aldeamento de Atalaia e só soube do conflito no outro dia, pela manhã, quando os atacantes já tinham voltado para as matas. A evidência de que os índios invasores só queriam atacar e punir os índios “mansos”, que conviviam com os brancos, é que, mesmo atacando e pondo fogo nas habitações dos índios aldeados, não tocaram em nenhuma das casas dos povoadores brancos. Também não tocaram na capela do aldeamento
Outra evidência foi que, apesar de o padre Chagas, ao observar o ataque, temer que os Dorim atacassem a capela do aldeamento e a saqueassem e destruíssem os objetos que ali existiam, especialmente o cálice com as hóstias consagradas e os paramentos necessários para celebração das missas, isso não ocorreu. No dia seguinte, o padre levou os objetos sacros para a capela da Freguesia de Belém e o comandante Antônio da Rocha Loures providenciou a transferência dos bens pertencentes ao Aldeamento de Atalaia, abandonando tudo o que ficou por lá. Os Kaingang sobreviventes não quiseram permanecer por mais tempo no aldeamento, com receio de serem novamente atacados pelos Dorim do sertão.
Para o padre Chagas, porém, o mais contristador foi que os atacantes, além das mortes que causaram, levaram ferramentas, armas e roupas dos aldeados, deixando-os sem meios para continuarem uma vida normal, uma vez que tinham se habituado a usar esses artigos em seu cotidiano. Ainda maior foi a frustração do padre quando, no sermão de domingo, pediu a seus paroquianos que ajudassem a repor os objetos roubados por meio de doações e só obteve migalhas. Pior, alguns paroquianos, lembrando que ele tinha sido o grande incentivador da criação do aldeamento, ainda o culpavam como responsável pelo acontecido.
Ao ouvir as críticas, cruéis, injustas e eivadas de ingratidão, o padre Chagas preferiu não responder. Apenas suspirou, conformado. Pensou em como tinha sido sábia a Igreja ao criar a confissão dos pecados. Como confessor, conhecia todos os sentimentos mais negativos do coração humano. E lembrou que os evangelhos estavam cheios de histórias que mostravam ser a ingratidão um dos traços de caráter mais torpes da humanidade. Filosofou que, se quisesse justiça, teria de esperar pela justiça divina, que a justiça dos homens não é cega. É míope.
…
O jovem Kaingang Victorino Condá acompanhou de perto todos esses acontecimentos. E foi observando e aprendendo. Quando em companhia dos índios, ele era índio e estudava os costumes de sua tribo e de sua gente. Em companhia dos brancos, do povo fóg, aprendia os costumes dos conquistadores. Aprendera a ler e escrever, falar a língua com desembaraço e entender seus valores e sua cultura. Adotado como pupilo dileto do padre Chagas, dele recebia ensinamentos, conselhos e livros para ler. Assim, foi conhecendo o lado dos índios e o mundo dos brancos. Assim, foi adquirindo sabedoria e se qualificando para avaliar as circunstâncias e as realidades, as virtudes e defeitos tanto de uns como dos outros. Especialmente, Condá aprendeu a respeitar o poderio avassalador dos conquistadores brancos e qual seria o destino dos Kaingang se os afrontassem por teimosia ou ignorância.
Uma ocasião que não esquecia foi aquela em que, ainda menino, em torno dos 11, 12 anos, tivera oportunidade de assistir a um treinamento dos soldados alojados em Atalaia. Os militares marchavam e praticavam tiro ao alvo. Era um espetáculo que lhe pareceu assustador. Todavia, o que o impressionou mais que tudo foi o treinamento de tiro com os morteiros que haviam chegado do arsenal do Rio de Janeiro. O estrondo de cada disparo lembrava as trovoadas mais assustadoras que havia escutado. Enfrentar aqueles canhões tonitruantes era como lutar com os raios nos grandes temporais. Seria insensatez e loucura combater com arco e flecha aquela diabólica máquina de trovão. Gostasse ele ou não, a verdade era essa. Nada havia que ele, ou sua gente, pudesse fazer para mudar a situação. Então, deduziu por sua própria experiência que guerrear contra os fóg de peito aberto e enfrentar armas tão poderosas seria suicídio.
Concluiu que a única esperança de sobrevivência para seu povo seria encontrar meios para um convívio pacífico com os brancos. Eram invasores, sem dúvida; eram conquistadores, certamente. Mas se seriam amigos ou inimigos, acreditava, dependeria de como os Kaingang viriam a lidar com eles e com suas demandas. E isso restava bem claro a Condá. Um conforto e uma esperança, contudo, o acompanhavam desde a infância que vivera em meio à comunidade dos conquistadores luso-brasileiros. Ali, naqueles Campos de Guarapuava, observando o comportamento dos brancos, percebera que nem todos os fóg eram inimigos de seu povo. O padre Chagas, por exemplo, o protegia ostensivamente e não deixava que ninguém o molestasse. O poder do padre Chagas, por sua vez, era respaldado pelo comandante Antônio da Rocha Loures e suas milícias. Apesar disso, o padre recomendava e insistia para que ele tomasse cuidado. Evitasse discussões e conflitos desnecessários com os fóg. Nunca andasse desacompanhado à noite em lugares onde pudesse ser alvejado por algum inimigo “gato pardo”, pois o padre gostava de repetir o ditado de que, “à noite, todos os gatos são pardos”.
Do ponto de vista de sua gente, os Kaingang também aprenderam, a custo de muito sofrerem, que havia o grupo dos brancos “bons” e o dos brancos “maus”. Da mesma forma como sabiam que, do ponto de vista dos brancos, eles eram classificados como índios “mansos” ou índios “maus”. Condá foi entendendo que os índios que, como ele, aceitavam os novos tempos e a nova realidade que veio com os invasores e buscavam um convívio amigável com os brancos eram vistos como inimigos pelos índios refratários, que viviam no sertão. Para os índios tidos como “bons”, aqueles que se recusavam a aceitar o inevitável avanço dos fóg representavam o grande perigo. Suas tocaias, emboscadas e ataques aos brancos não produziam o menor efeito na disposição dos povoadores em permanecer nas áreas que queriam dominar. Ao contrário. Quanto maiores fossem as perdas impostas aos fazendeiros e colonos pelos ataques indígenas, maior a disposição dos luso-brasileiros para retaliar e maior a predisposição contra todos os indígenas.
Os índios que atacavam não só se expunham a uma morte inglória e a perseguições implacáveis, como também colocavam todos os demais em perigo, dando pretexto para que seus inimigos revidassem. E sempre havia os luso-brasileiros que usavam os ataques dos índios como motivo para promover assassinatos em grande escala e tomar-lhes as terras. Esses ataques também davam a justificativa para a contratação de bugreiros e pistoleiros de aluguel que se especializavam em perseguir e exterminar os “bugres selvagens”. Outro efeito dos ataques aos povoadores brancos é que os índios aldeados passaram a ter de revidar. Assim, encontrar e punir os rebeldes, ainda que a contragosto, virou uma estratégia de sobrevivência.
Apoiado nessa convicção, Condá vinha se empenhando em convencer os Kaingang aldeados, a maioria de sua subtribo, os Votorões e os Camés, a agirem de forma conciliatória. Não era preciso abrir mão de sua identidade nativa nem se despir de sua dignidade. Era uma linha tênue a que separava a resistência e a capitulação, e era preciso saber como agir diante da realidade e das circunstâncias. O que era certo é que provocar desnecessariamente os brancos era como cutucar a onça Mig com vara curta. O resultado podia ser fatal. Por essa lógica, argumentava, era preciso cessar os ataques injustificados contra as populações brancas. Ele mesmo, mais de uma vez, tinha tido dificuldade em suportar maus-tratos e desaforos, mas se curvava ante a dura realidade dos fatos.
Contudo, pensando com a cabeça fria, chegara a resignar-se: havia que aceitar as coisas como elas eram. Os fóg, os colonizadores brancos, tinham vindo de longe, estavam se fixando nas terras em que, outrora, os Kaingang dominavam soberanos, e não havia meios de fazê-los ir embora. Eram numerosos demais, fortes demais, poderosos demais para serem vencidos pelos Kaingang. Portanto, o cacique acreditava que, ante a trágica alternativa de partir para uma guerra de autoimolação, era preferível estabelecer uma convivência.
Condá entendia que, se os Kaingang se mantivessem unidos, se agissem com coragem temperada por prudência, se fossem conciliadores, porém determinados, sim, poderiam negociar um espaço para o futuro. O que definitivamente não ajudava na promoção de um relacionamento pacífico era a insegurança e a constante ameaça de ataques traiçoeiros, ciladas, emboscadas, incursões predatórias nos povoados e nas fazendas, pilhagem dos viajantes e assaltos às comitivas de tropeiros. Para pôr cobro aos ataques e melhorar a segurança dos colonos e dos povoados, ele mesmo já chefiara seu grupo em missões para confrontar os rebeldes, tanto de membros recalcitrantes de sua própria tribo como os de seus primos, os Xokleng, índios que falavam a mesma língua Jê, mas eram ainda mais arredios e agressivos com os invasores do que os Kaingang. E tivera até mesmo que confrontar investidas de fóg inimigos para impedir que levassem a cabo ações para desestabilizar a tênue convivência entre brancos e índios.
Os campos de Palmas
Campos de Palmas – Refúgio de vida silvestre dos Campos de Palmas (RVS) – Palmas – PR – Foto de Márcia Barbosa Abraão
A região costeira do Paraná, então pertencente à Província de São Paulo, já estava ocupada e em desenvolvimento. Paranaguá tinha sido o mais importante núcleo de povoamento da área costeira e tinha sido fundada em 1617, por Gabriel de Lara, um sertanista paulista, natural de Santana do Parnaíba. Em 1638 o sertanista Lara descobriu lavras de ouro em rios da Serra Negra, afluentes da Baía de Guaraqueçaba.
Empolgado com a descoberta, levou o fato ao conhecimento do governo paulista, apresentando peças de ouro extraído dos rios como prova. A descoberta logo estimulou a ida de numerosos faiscadores interessados no garimpo do metal. Com o consequente crescimento da população, em 1648 Paranaguá foi elevado à categoria de vila com o nome de Vila de Nossa Senhora do Rosário. O interesse pela exploração do ouro da região, contudo, não durou muito. O metal era escasso e não justificava maiores investimentos em sua lavra e transporte. Além disto, a descoberta de ouro abundante em Minas Gerais levou para lá todos os interessados em sua mineração. Com isso, Paranaguá perdeu seu grande atrativo e o Centro irradiador de progresso passou a ser a povoação de Curitiba.
A comarca de Paranaguá e Curitiba foi fundada em 19 de novembro de 1811, passando a fazer parte da Capitania de São Paulo, com o nome de Comarca de Curitiba. O povo parnanguara era predominantemente dedicado à lavoura, enquanto o curitibano, à pecuária e aos negócios com muares e gado. Curitiba começou a prosperar porque os mineradores de Minas Gerais demandavam alimentos e muares que vinham do Sul do país. Com o crescimento do tropeirismo e a consolidação do Caminho de Viamão, a rota que fazia a ligação entre o Rio Grande do Sul e São Paulo passando pelos Campos Gerais, esta região foi beneficiada e começou a se desenvolver e prosperar. Por ali espalharam-se inúmeras fazendas dedicada à pecuária e instalaram-se muitos fazendeiros-tropeiros, que negociavam e tropeavam gado, principalmente muar, que iam buscar no Sul. Esses fazendeiros-tropeiros logo se converteram no motor da economia da região.
Entre as povoações beneficiadas pelas novas rotas, a Vila de Palmeira se destacava como uma das mais importantes. Localizada na borda da região dos grandes pinheirais, ela passou a se constituir em um relevante ponto de passagem e de abastecimento das grandes expedições. Em geral, na época, as comitivas tinham duas origens. As que partiam de Viamão, na região de Porto Alegre, passavam pelos Campos de Vacaria, atravessavam o Rio Pelotas, depois passavam por Lages, Correia Pinto, Curitibanos, Santa Cecília, Papanduva, Monte Castelo, Mafra, Rio Negro, Campo do Tenente e Lapa, para chegar a Palmeira. Dali, seguiam para Ponta Grossa, Castro, Piraí do Sul, Jaguariaíva, Sengés, Itararé, alcançando Sorocaba, na Província de São Paulo.
Já aquelas expedições que se originavam na região missioneira usualmente partiam de São Borja, Santo Ângelo ou Cruz Alta e tomavam o Caminho das Missões, passavam por Carazinho e Passo Fundo, cruzavam o Mato Castelhano, o Campo do Meio, o Mato Português e, após chegar aos Campos de Vacaria, entravam no mesmo Caminho Geral, usado pelas demais tropas. Nele, seguiam para Lages e, dali em diante, faziam a mesma rota das comitivas saídas de Viamão. Portanto, por sua localização privilegiada, na região de Palmeira começou a se expandir o negócio de invernadas.
As tropas precisavam descansar e se refazer dos grandes trajetos já percorridos e preparar-se para o caminho até Sorocaba. As fazendas especializadas no negócio de invernadas alugavam grandes mangueirões e áreas de pasto cercadas e protegidas. Logicamente, as fazendas de invernada passaram a oferecer acomodações para os peões e serviços para os cuidados com os animais. Em paralelo, também começaram a criar gado localmente, aproveitando o escoamento propiciado pelo fluxo das tropas de muares e pelo grande mercado paulista, que adquiria todos os muares e gado que fossem ofertados pelos tropeiros. Com a demanda crescente, os fazendeiros de Palmeira queriam expandir sua participação em um negócio que se afigurava mais atraente a cada dia. Enquanto isso, nos Campos de Guarapuava, que ficava 36 léguas (175 quilômetros) a Oeste, os fazendeiros que ali se haviam instalado já tinham consolidado suas propriedades e, pensando em expandir, se organizavam para avançar rumo ao Sudoeste, onde os relatos diziam haver imensas área de campos prontos para serem tomados.
Assim estavam prontas as condições para um novo avanço para o Oeste quando, em 1837, o governo provincial de São Paulo oficializou a “descoberta” dos Campos de Palmas. Os Campos de Palmas estavam localizados a sudoeste dos Campos de Guarapuava, entre os rios Uruguai e Iguaçu, limitado a Oeste pelos rios Santo Antônio e Peperi-Guaçu e, a Leste, pelos rios Chapecó e Jangada, onde existia uma extensa área ainda despovoada. Já se sabia que esses campos eram ricos em recursos naturais – terras férteis, pastagens, madeiras e ervais – e, geograficamente falando, estavam situados em uma importante região de fronteira.
A denominação de Campos de Palmas havia sido dada por Athanagildo Pinto Martins, em 1815, quando, pela primeira vez, atravessou a região. Athanagildo tinha recebido de seu chefe, o coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal, a incumbência de explorar o Rio Iguaçu. E foi atendendo a essa determinação que se deparou com uma área formada por campos e matas e estimou ser muito promissora para a exploração econômica. A área apresentava topografia excelente e condições ideais para o desenvolvimento da pecuária.
Tendo em conta esse potencial, em março de 1839, com apoio das lideranças de Guarapuava, o estancieiro José Ferreira dos Santos organizou a Sociedade dos Primeiros Povoadores Palmenses, com o objetivo de reunir uma expedição para tomar posse daquelas terras. Os demais estancieiros e as autoridades da vila aderiam com entusiasmo à empreitada, e a expedição reuniu rapidamente 25 dos mais importantes estancieiros locais. A expedição pôs-se a caminho e, ao chegar, seus membros decidiram fixar-se em uma região chamada Alagoá. Um mês depois as notícias da chegada da expedição de Guarapuava aos Campos de Palmas chegaram à Palmeira. O portador da notícia era um aventureiro recém-chegado, Pedro Siqueira Cortez. Ele havia tentado se associar à comitiva de Guarapuava, mas não foi bem recebido. Inconformado, resolveu montar uma empreitada concorrente reunindo os fazendeiros da Vila Palmeira, que imediatamente também se interessaram em disputar aquelas terras.
A Vila Palmeira era um povoamento bem maior e mais antigo do que Guarapuava. Lá Pedro de Siqueira foi procurar o capitão-mor da localidade, Domingos Ignácio de Araújo, que não só aderiu ao projeto com entusiasmo como ajudou Pedro de Siqueira a conseguiu agrupar mais 17 estancieiros como sócios. Essa segunda expedição de ocupação dos Campos de Palmas saiu mais de um mês depois da de Guarapuava, mas estava mais bem equipada, levava mais peões e partiu com disposição para competir pelas melhores áreas. Embalada pelo ambicioso Pedro Siqueira Cortez, seguiu a toda pressa, acabando por chegar a tempo de arrebanhar uma área até maior que a primeira expedição de Guarapuava.
Pedro de Siqueira tinha uma personalidade impetuosa, abrasiva, de muita ambição e escassos escrúpulos. Havia chegado aos Campos de Guarapuava em 1839 com a intenção ostensivamente declarada de tomar posse de terras e criar animais. Mas havia ainda outro motivo que o animava, um motivo secreto que não costumava revelar, mas que compartilhou com Domingos Ignácio de Araújo em busca de seu apoio na empreitada: acreditava, por relatos que ouvira, que existia ouro abundante em uma região próxima chamada Biturana, onde o metal estaria aflorando por entre as matas de araucária. A inesperada chegada da expedição de Palmeira surpreendeu a comitiva de Guarapuava, que, imediatamente, mandou pedir reforços e respondeu entrando na corrida para ocupar a maior área possível. Como não havia um regramento legal sobre a posse das áreas inexploradas da região, estabeleceu-se uma disputa à base do vale-tudo. As duas expedições saíram marcando terras, assumindo a posse e instalando gente para tomar conta. Era de esperar que acabassem por entrar em beligerância aberta em algum momento, o que ocorreu ainda em 1839.
Cada uma das expedições repartia o território como e onde lhe parecia mais conveniente. Em princípio, a área era grande o suficiente para satisfazer as duas partes, mas acontece que ambas queriam ter controle sobre as margens dos rios e, especialmente, sobre as nascentes. Quando os dois grupos se encontravam tentando ocupar as mesmas áreas, os confrontos se tornaram inevitáveis. Com as contendas se ficando mais e mais frequentes e com o ambiente degringolando em hostilidade aberta, havia a ameaça de ocorrer uma carnificina. Nenhum dos lados respeitava áreas demarcadas nem espaços ocupados pela outra parte. As denúncias de fazendas invadidas, casas derrubadas e currais arrasados prenunciavam a iminência de guerra aberta.
Como complicador, sobrevinha uma questão que preocupava o governo imperial: havia sinais de que os Campos de Palmas também figuravam nos planos de conquista dos espanhóis e uma eventual situação de conflito armado poderia ser aproveitada pelos castelhanos. As autoridades de Curitiba, alertadas, avisaram aos dois lados de que era preciso pôr um paradeiro na contenda o mais rapidamente possível. Que deveriam parar de fazer novas marcações e aguardar uma arbitragem. Afinal, se havia alguma coisa que o governo central não podia se dar ao luxo de tolerar era permitir que interesses de grupos locais se sobrepusessem aos interesses maiores do governo imperial.
Assim, sob pressão das autoridades, estabeleceu-se que as expedições deveriam submeter a disputa a um processo de arbitragem. Caberia aos árbitros decidir a demarcação e os limites de terra que pertenceriam a cada grupo explorador. A escolha dos árbitros seria de responsabilidade da Câmara Municipal de Curitiba, uma vez que, na época, a região de Palmas pertencia à 5ª Comarca de Curitiba. A Câmara de Curitiba queria dar celeridade ao processo de pacificação até mesmo para evitar uma constrangedora interveniência do governo imperial. De início foi cogitada a indicação do capitão Domingos Ignácio de Araújo e o do alferes José Caetano de Oliveira, mas, como ambos eram moradores de Palmeira e ligados a uma das expedições, muitos conselheiros de Curitiba argumentaram que não teriam a isenção necessária para uma decisão mutualmente aceitável. Ao invés de pacificar poderiam detonar de vez uma situação já explosiva. Diante do impasse, ficou decidido que a melhor solução seria a própria Câmara Municipal de Curitiba assumir a arbitragem.
Os membros da Câmara Municipal de Curitiba, inicialmente, hesitaram em tomar a missão em suas próprias mãos. Alegavam que não tinham experiência naquele tipo de disputa, que tinham outras responsabilidades e que tais. Mas, por fim, ainda que a contragosto, aceitaram. A decisão da Câmara foi que a Comissão de Arbitragem seria constituída por seu presidente, Joaquim José Pinto Bandeira, e pelo vereador João da Silva Carrão, um jovem bacharel em direito formado pela Faculdade de São Paulo. A eles caberia a tarefa de ir até a área em conflito e decidir in loco a questão.
Os árbitros saíram de Curitiba em 4 de abril de 1840. A distância a ser vencida até os Campos de Palmas era de 80 léguas, que equivalem a cerca de 330 quilômetros. A distância era expressiva para pessoas desacostumadas a andar pelas matas, atravessar veredas cheias de obstáculos naturais, mau tempo frequente, enchentes dos rios e, ainda, enfrentar o risco constante de ataques de índios. Na ocasião para chegar aos Campos de Palmas era preciso passar por Guarapuava. Lá, procuraram inteirar-se dos fatos, saber mais detalhes sobre as expedições concorrentes, obter referências sobre quem eram as pessoas envolvidas, como tinham sido organizadas as expedições. De modo geral, queriam entender melhor a missão de arbitragem que tinham a cumprir. Nesse processo de averiguação receberam a sugestão de conversar com o cacique Victorino Condá. O que disseram aos árbitros é que o índio era aculturado, tinha grande conhecimento da região, conhecia boa parte dos expedicionários, além de exercer grande influência sobre os Kaingang que encontrariam nos Campos de Palmas. Os índios que habitavam a região costumavam se deslocar entre os rios Chopin e Chapecó e tinham seus toldos em meio a campinas e matas adjacentes, incluindo os toldos da região do Irani. Condá tinha em Guarapuava seu toldo, onde era o cacique Pai-Bang dos índios que ali estavam aldeados e onde vivia com sua mulher e família.
Os árbitros foram procurar o cacique Victorino Condá e tiveram dele uma excelente impressão. Após conversarem com o cacique constataram que ele, de fato, conhecia extensivamente a região, por onde já estivera em inúmeras andanças. Constataram que Condá tinha excelente domínio da língua portuguesa falada e escrita. Impressionados com os conhecimentos e experiências do cacique, os árbitros curitibanos decidiram convidá-lo para integrar a equipe de árbitros e seguir com eles até o local dos conflitos. O chefe da comitiva curitibana, Joaquim José Pinto Bandeira, sabia que fazer a divisão dos Campos de Palmas dependeria tanto da cooperação das duas expedições quanto da concordância dos índios que viviam na região.
Essa não era uma questão pequena. Os indígenas se contavam em alguns milhares e estavam espalhados pelos campos, sendo que uma parte era mais cordata e aceitava o avanço dos conquistadores, mas um grande número era formado por bugres arredios e belicosos. Independentemente de seu número real, não havia dúvida de que eram muito mais numerosos do que os colonizadores recém-chegados. Portanto, contar com a colaboração de um chefe indígena como Condá era uma sábia medida de precaução. Ao chegarem aos Campos de Palmas, os árbitros encontraram um ambiente literalmente conflagrado, pronto para entrar em combate. Os árbitros imediatamente partiram para a ação e, mediante a ameaça de desclassificarem as reinvindicações do grupo recalcitrante, conseguiram uma trégua entre as partes. O arbitramento requereu um grande esforço de negociação e, para conquistar um entendimento, os grupos concordaram em fixar como marco divisório o Rio Caldeiras. A expedição de Pedro de Siqueira Cortez, da Vila de Palmeira, ficaria instalada para o poente do rio, e a de José Ferreira, vinda de Guarapuava, para a margem do nascente.
Durante a divisão dos Campos de Palmas os exploradores acabaram por descobrir outra área campestre favorável para a pecuária, a sudoeste de Palmas. A área era conhecida pelos nativos como Campo Erê, que na língua Kaingang significava “campo da pulga” ou do “bicho-de-pé”, uma vez que o nome resultava da junção dos termos kempo (pulga ou bicho-de-pé) e rê (campo). A denominação da área já era uma advertência. Indicava que o local era infestado por bichos-de-pé e pulgas, pragas que perseguiam os Kaingang onde quer que fizessem suas choupanas com esteiras ao rés do chão. Nesse local recém-descoberto havia um agrupamento errante de núcleos Kaingang comandados pelo cacique Viry. Eles esboçaram uma reação de resistência quando viram a chegada dos conquistadores, mas Condá foi ao seu encontro e os convenceu de que nada tinham a ganhar abrindo uma guerra contra os brancos. Se insistissem, não demoraria a serem vencidos e aniquilados. O melhor era aceitar a presença dos brancos e buscar alguma convivência negociada.
Em 1840, com a pacificação, a divisão do território e atendidas às demandas das duas expedições, os curitibanos deram por concluída a arbitragem e retornaram para Curitiba, deixando Condá como uma espécie de inspetor informal. Foi desse modo que teve início, de fato, a ocupação dos Campos de Palmas.
Os muares
Muar – Arte do autor
O que os camelos fizeram pelos extensos desertos do Oriente as mulas fizeram pelos vastos sertões do Brasil. De fato, é impossível entender o Brasil dos séculos XVIII e XIX sem estudar o tropeirismo e a relevante contribuição dos muares. A própria conquista dos Campos de Guarapuava e de Palmas teve, entre seus principais motivadores, a mineração nas Minas Gerais, que estimulou o tropeirismo no Sul. E o tropeirismo, obviamente, não teria sido possível sem os muares as mulas e os burros, – especialmente as mulas – que levavam as cargas pelos difíceis caminhos dos vastos sertões.
No Brasil Colônia, ao longo dos séculos XVIII e XIX, deu-se o ciclo do ouro e surgiram as primeiras manifestações da insaciável cobiça metropolitana. Todavia, por mais importante que tenha sido a descoberta do metal nas Minas Gerais, para que aquele ciclo de desenvolvimento e riqueza ocorresse foram imprescindíveis os muares das estâncias jesuíticas de Córdoba, no vizinho território castelhano.
A mineração foi responsável por uma série de mudanças no Brasil Colônia. Já no início desse ciclo, a administração metropolitana proibiu as atividades da pecuária e a agricultura nas Minas Gerais. Tal proibição tinha por objetivo limitar ao máximo o número de escravos desviados da extração de metais e pedras preciosas. Assim, as atividades de mineração dependiam do transporte de alimentos e suprimentos. Igualmente havia a necessidade de escoamento das gemas e do metal extraído das minas. Pelas características acidentadas dessa região, apenas os muares – mulas e burros – conseguiam atender a essas duas necessidades. A dificuldade é que os muares, indispensáveis para o abastecimento e o transporte, tinham de vir de longe. E a dificuldade criou a oportunidade. Assim nasceu o tropeirismo no Brasil.
Os muares são animais híbridos que resultam do cruzamento de um jumento com uma égua. A mula é o animal fêmea, enquanto o burro é o animal macho. O cruzamento invertido das mesmas espécies genitoras, portanto, de um cavalo com uma jumenta, dá origem a um animal diferente, o bardoto. Os muares são estéreis e não procriam. A razão é que a égua – um equino – possui 64 cromossomos e o jumento – um asinino – tem 62. O resultado desse cruzamento gera animais com 63 cromossomos e virtualmente incapazes de procriar, ainda que se tenha registrado algumas raríssimas exceções.
Os muares se parecem com os cavalos e os jumentos que lhes dão origem. Pesam entre 250 a 400 quilos e têm altura entre 1,30 e 1,70 metro. As orelhas são mais compridas, o que lhes confere maior percepção dos sons. Independentemente do sexo, esse animal híbrido herda uma aparência física mais parecida com a mãe, ou seja, com a égua, enquanto consegue herdar do jumento a força e a resistência. Como regra, a cabeça e as pernas vêm do jumento, enquanto o corpo se assemelha mais com o da égua; as narinas são afiladas, as canelas são secas e os cascos relativamente pequenos, porém mais resistentes do que os dos cavalos, tanto que, para trabalhar em terrenos planos, não necessitam ser ferrados.
Os muares são mais robustos e com costas mais planas do que os cavalos, o que facilitava acomodar os cestos e as bruacas, assim como a carga e descarga. Enquanto os cavalos não carregavam mais que 100 quilos, as mulas podiam carregar de 135 a 220 quilos. Ao enfrentar terrenos íngremes e trilhas montanhosas, as mulas têm mais equilíbrio corporal e melhor visão. E, como as cabras, são cautelosas, experimentam o terreno e sobem passo a passo. Em marcha por caminhos rudes, uma mula, em comitiva, tropeava a 6 quilômetros por hora, chegando a percorrer 60 quilômetros de distância de uma vez. Em caminhos planos e com carga de até 50% de seu peso, podia fazer em torno de 3 léguas (14 quilômetros) por hora, em trechos de oito a dez horas sem descanso.
Essas criaturas singulares eram capazes de subir ou descer coxilhas, atravessar vaus de orelha, quando os rios eram atravessados a nado, e galgar encostas e vales com carga no lombo. De modo que, no Brasil Colônia, aos muares foi atribuída a missão de transportar de tudo. Desde secos e molhados e mercadorias diversas até cargas de ouro, diamantes e esmeraldas. Como animais de lida, levavam cana de açúcar cortada para suprir as moendas, carregavam cestos de café da colheita para a secagem, barricas de leite para o fabrico de queijo, cestos de frutas para fazer doces e, ainda, moviam moendas, puxavam arados e serviam aos militares como montarias de montanha e como semoventes capazes de rebocar peças de artilharia e carregar, em suas bruacas, armas e munições.
Os muares estavam presentes de Norte a Sul do país, e as lojas dependiam deles para poder oferecer utensílios e ferramentas, instrumentos musicais, livros e jornais, enfim, atender às necessidades prosaicas e, até mesmo, oferecer luxo aos grandes e pequenos povoados que nasciam na vastidão do país. O muar, portanto, se mostrava sob medida para enfrentar os caminhos coloniais: era estável nas trilhas pedregosas, resistente às variações climáticas e às alturas. Outra vantagem importante dos muares sobre os equinos é que, em atividades idênticas, se satisfaziam com apenas 25% das necessidades calóricas de um cavalo, além de precisarem de menos água. Sob trabalho pesado, os muares controlam o suor mantendo estável sua temperatura interna.
Outra característica notável é a saúde e a longevidades que distingue os muares. Esses são animais dóceis, mais facilmente manejáveis e mais saudáveis que os equinos. Sua longevidade ativa permite que trabalhem até os 35 anos ou mais. Sua inteligência e capacidade de aprendizado são sensivelmente superiores às dos cavalos. A título de exemplo, os muares, quando estão no limite de resistência, simplesmente param ou deitam no solo para descansar, ao contrário dos equinos, que continuam até caírem mortos por esgotamento.
Córdoba e as Minas de Potosí
Cerro de_Potosí – Gravura em madeira por Pedro Cieza de León publicada no Livro Crónica del Perú em 1552.
Em 1571, o vice-rei do Peru, Francisco Álvarez de Toledo, incumbiu ao recém-nomeado governador de Tucumán, Jerónimo Luís de Cabrera, a missão de fundar uma povoação espanhola no Vale de Salta. O objetivo era criar uma presença espanhola naquela área que servisse como entreposto comercial e barreira de segurança.
Cabrera deixou Potosí, no Peru, em julho de 1572, com um dilema: seguir as recomendações de localização do vice-rei ou acatar as sugestões de Francisco de Aguirre, que havia sido governador de Tucumán e já tinha fundado a Vila de Santiago del Estero, ao Sul daquele vale, e o aconselhou a prosseguir ainda mais para o Sul. Cabrera escolheu acatar os conselhos de Aguirre e, comandando uma expedição de mais de cem homens, entrou no território que era habitado pelos aborígines Comechingones, que viviam em comunidades chamadas ayllus. Ali encontrou um rio a que chamou de San Juan, depois alterado para Suquía. O ponto onde acampou para iniciar a povoação ficava a 1.500 quilômetros ao Sul de Potosí (310 léguas) e a uma distância de 700 quilômetros (145 léguas) a noroeste de Buenos Aires, na Argentina.
Em 1577, os indígenas Comechingones, que viviam naquela área, se afastaram e as autoridades resolveram transferir Córdoba para a margem Sul do Rio Suquía. O então vice-governador Dom Lorenzo Suarez de Figueroa, que se encarregou de planejar a futura cidade, desenhou a primeira planta urbana, formando 70 quadras inspirado em um tabuleiro de xadrez. Em 1580 teve início a construção da catedral de Córdoba e, em 1599, nela foi instalada a Companhia de Jesus, tornando Córdoba o Centro da evangelização dos padres jesuítas na América do Sul. Os jesuítas fundaram, em 1608, o Noviciado e, em 1610, o Colégio Máximo, do qual derivou, em 1613, a Universidade de Córdoba, a primeira da Argentina. Os projetos dos padres eram ambiciosos. Custear o colégio e a universidade e, ainda, continuar a construção da catedral requeria muitos recursos. Para arcar com essas despesas, a Companhia de Jesus decidiu criar estâncias para a criação de gado e muares, curtumes e oficinas de artesanato para produzir mercadorias a serem exportadas, especialmente artigos de couro.
Mais ao Norte, na Cordilheira dos Andes, no Alto Peru, as minas de prata de Potosí estavam fervilhando de atividade. Tudo teve início em uma noite de 1545, quando um pastor Quíchuas chamado Diego Huallpa se perdeu nas montanhas ao regressar com seu rebanho de lhamas. Resolveu, então, passar a noite no pé de uma elevação e, como estava muito frio, acendeu uma fogueira para manter-se aquecido. No outro dia, ao acordar pela manhã, notou que, por entre as brasas, brilhavam algumas pequenas esferas de metal que pareciam ter sido fundidas pelo calor do fogo. Recolheu as peças de metal, intrigado com sua aparência brilhante, e as levou para mostrar às autoridades. O que logo se constatou é que, no local, a prata era de tal modo abundante que aflorava sobre o solo. Sem perda de tempo, em 1º de abril de 1545, o capitão Juan de Villarroel tomou posse da área, cuja elevação foi batizada de Cerro Rico, e, em 1546, fundou ali a Villa Real de Potosí, iniciando a mineração da prata. Havia, contudo, uma dificuldade: como escoar a produção do metal?
A costa do Oceano Pacífico ficava a cerca de 500 quilômetros a Oeste, mas, para chegar ao Pacífico, os navios espanhóis teriam de dar a volta pelo Sul do continente americano e passar pelo Estreito de Magalhães. Esta rota havia sido cruzada pela primeira vez por um europeu em 1520, quando Fernão de Magalhães atravessou o estreito que recebeu seu nome em sua viagem de circum-navegação. Não era uma alternativa viável. Seria muito mais lógico levar a prata até um porto do lado do Oceano Atlântico, preferentemente no Caribe, uma área bem conhecida dos navegadores espanhóis. Assim, o embarque desse metal passou a ser feito no Porto Bello, localizado no istmo do Panamá.
Restava o problema de levar a prata 6.000 quilômetros, até Porto Bello. A viagem direta era impraticável. Teria que passar pelo Estreito de Darien, uma rota difícil e perigosa. A melhor solução encontrada foi levar a prata até Lima, no litoral do Oceano Pacífico, de onde as frotas espanholas levavam a prata até a altura do Panamá. No istmo centro-americano as moedas eram transportadas por terra até o porto, para, depois, cruzar o Atlântico escoltadas.
Inicialmente os espanhóis tentaram usar as lhamas, que eram naturais da região e acostumadas a perambular pelas trilhas da Cordilheira dos Andes. Mas elas não aguentavam levar as cargas de prata naquela distância. Foi então que entraram em cena os muares dos jesuítas de Córdoba. Esses animais deram solução ao problema e se provaram incrivelmente resistentes e adequados. Em Potosí, as moedas eram carregadas em lhamas. Elas viajavam por dois meses através dos Andes, até chegar a Lima e ao litoral do Oceano Pacífico.
As viagens de ida tomavam dois a três meses, sob condições as mais adversas possíveis. Logo a demanda pelos muares cresceu a ponto de se tornar o principal negócio das estâncias dos jesuítas. Para atender às necessidades da Minas de Potosí, os jesuítas formaram seis estâncias dedicadas à criação dos muares a volta da Província de Córdoba. Eram as estâncias de Caroya, Jesus Maria, Santa Catalina, Alta Gracia, Candelária e San Ignácio. Delas saíam 30.000 muares por ano.
Em 1611, as minas de prata de Potosí eram as maiores do mundo e a cidade tinha uma população de 150.000 habitantes. Em seu apogeu, durante o século XVII, tinha se tornado a segunda cidade mais populosa do planeta, só perdendo para Paris, e era a cidade mais rica do mundo. A riqueza de Potosí era tão grande que, na sua obra DomQuixote, Miguel de Cervantes criou a expressão “vale um Potosí”, que significava o máximo de riqueza possível. Dois séculos depois, no entanto, a maior parte da prata já se tinha esgotado. Em 1825 a população de Potosí havia se reduzido para cerca 8.000 habitantes. Córdoba, porém, já tinha encontrado no Brasil um novo cliente para sua produção de mulas, quando o país começou a demandar muares para atender o nascente ciclo de ouro, cujo início se deu em 1697, com a descoberta do metal nos ribeiros dos sertões de Taubaté, em São Paulo.
O fornecimento de mulas para o Brasil foi crescendo e, apesar das estâncias terem sido retiradas dos jesuítas pela Pragmática Sanción de 1767, decreto pelo qual o rei Carlos III de Espanha os expulsou do território espanhol, continuaram a trabalhar no mesmo ritmo, sendo sua gestão transferida para os franciscanos. Esta ordem assumiu a administração das estâncias sob a égide da Junta de Temporalidades, instituição criada na Espanha para administrar os bens confiscados da Companhia de Jesus e que operou tanto na metrópole quanto nas colônias.
Os jesuítas e os guaranis
A conquista da América espanhola foi marcada por pilhagens, traições, escravizações e assassinatos sem limite. O comportamento selvagem e perverso dos conquistadores acabou se tornado um escândalo na Europa, a ponto de o papa Paulo III ter publicado, já em 1532, uma bula em que proclamava a liberdade dos índios nas possessões espanholas. Ainda o papa Paulo III, diante de um mundo em expansão, concluiu que a cristianização só seria alcançada se enviasse missionários para catequisar as terras longínquas, como as Américas e o Oriente.
Coincidentemente, em 1534 o ex-militar espanhol Luís Ignácio de Loyola, criou a Societas Iesu, ou Companhia de Jesus. Seguia moldes militares, com rígida hierarquia e apresentava uma singularidade entre as ordens religiosas: seus membros deviam, além de fazer os tradicionais votos de pobreza, obediência e castidade, fazer um quarto voto, de obediência direta ao papa. Paulo III a oficializou em 27 de setembro de 1540, e, confiando na sinceridade de propósito dos jesuítas, resolveu entregar aos membros da Companhia de Jesus a missão de sair pelo mundo para catequisar os gentios.
Os jesuítas, ao virem para o Novo Mundo como missionários, pretendiam tratar os índios como irmãos, como preconizava o papa Paulo III. Além de estrita obediência ao pontífice, agiam seguindo o lema de seu fundador: Ad Majorem Dei Gloriam (pela maior glória de Deus). Acreditavam que, com o propósito de aumentar a glória de Deus nas Américas, seria possível criar e desenvolver nas novas terras núcleos civilizatórios depurados dos pecados que viam na velha civilização europeia.
Assim, quando os jesuítas espanhóis iniciaram sua obra missionária no Brasil meridional, com a fundação da Redução de São Miguel Arcanjo, em 1632, pelo padre Cristóvão Orelhano de Mendonça, eles pretendiam ir criando na região núcleos civilizatórios como os que já tinham do outro lado do Rio Uruguai. Àquela altura já tinham uma metodologia para atrair os índios e convertê-los ao cristianismo. Também tinham amadurecido a ideia de promover sua obra missionária com independência e à parte de um Estado que se revelara cruel e imoral.
Dado que a Companhia de Jesus operava sob as ordens diretas do papa, não estava sujeita à tutela direta dos vice-reis espanhóis, como os demais religiosos vindos para as colônias que obedeciam ao Padroado. Conquanto os jesuítas fossem aceitos de bom grado pelos colonizadores espanhóis, não faziam parte do sistema político. Eles obedeciam às determinações legais de colocar os índios sob a suserania do rei de Espanha, porém não procuravam mesclar as populações indígenas com as populações dos povoamentos circundantes, como era a prática do clero à serviço dos vice-reis.
O fato é que, tendo conhecimento dos horrores da escravidão explícita a que os índios eram submetidos pelos bandeirantes e pela semiescravidão do sistema de “comendas”, adotado pelos colonos espanhóis, os jesuítas preferiram agir em prol dos índios. A entrada de estranhos nas reduções jesuíticas foi proibida e só podia ocorrer em circunstâncias especiais, mediante permissão. Os índios não eram entregues aos colonos, nem tampouco o eram as terras indígenas. Os jesuítas viam a cristianização dos índios como sendo necessária para seu próprio bem (pro sua salute).
Ao chegarem à região do Paraguai e encontrarem os Guaranis, logo estabeleceram com eles um relacionamento amistoso. Os Guaranis eram numerosos e a tribo se espalhava por uma vasta região que ia do Alto Uruguai ao Rio da Prata. Acreditando no potencial desses índios, os jesuítas concentraram nos Guaranis suas forças missionárias. Desde logo esforçaram-se para aprender a língua dos nativos de modo a poder se entender diretamente com eles. Embora o continente americano apresentasse uma continuidade de Norte a Sul, esta não era uma realidade levada em conta na divisão da atividade missionária.
A primeira missão jesuíta portuguesa zarpou para o Brasil em 1549, em 1º de fevereiro, coincidentemente no dia de Santo Inácio. A missão reunia seis jesuítas sob a liderança do padre Manuel da Nóbrega. No ano seguinte vieram mais padres. E, em 1553, mais dois padres e quatro irmãos, entre eles José de Anchieta (1534-1597), o mais jovem da expedição. Contrariamente ao que tinha ocorrido nas colônias espanholas, a evangelização do Brasil começou principalmente com os jesuítas. Apesar de os reis de Portugal terem direito também ao chamado Padroado, quer dizer o poder de nomear bispos e párocos, só raramente exerceram essa prerrogativa. Assim, o Brasil permaneceu por muito tempo como território de Missão. Até 1676 a única diocese em território brasileiro era a da Bahia, que havia sido fundada mais de cem anos antes, em 1551.
No Brasil meridional, a associação dos jesuítas com os índios Guaranis formou a base em que se assentou o povoamento do Sul, a criação de gado e muares e, no devido tempo, possibilitou o tropeirismo. Os Guaranis destacavam-se pela maior complexidade de sua organização familiar, cultural e tecnológica em relação aos demais povos indígenas do Sul do país, notadamente aos Pampeanos, que viam como inimigos. Os Guaranis deram boas-vindas à catequização pelos jesuítas porque, de um lado, não tinham um sistema de crenças complexo que confrontasse os ensinamentos dos padres e, de outro, a organização social das reduções canalizava construtivamente suas vocações naturais para a música, as artes e a apreciação das cerimônias, além de lhes dar uma sensação de segurança e pertencimento. Além disso, assim como os judeus do Antigo Testamento, os Guaranis também acreditavam numa “terra prometida”. Tal como se vivessem em uma diáspora religiosa imaginária, sua obsessão maior era a procura da Yvy Marã Ey, a “terra sem mal”, cuja busca incessante lhes dava um sentido de vida. Pessoalmente, buscavam, por meio do aperfeiçoamento pessoal, alcançar o aqwjdjé, a purificação para chegar ao Yvy Katua, o Paraíso, a “terra em que ninguém morre”.
Os principais rivais dos Guaranis nos pampas do Sul eram os Charruas, Minuanos, Guenoas e Jarós. Estes grupos eram formados por índios indômitos e rebeldes, que disputavam ferozmente os espaços da região. Assim como os Guaranis e os Kaingang, eram nômades, mas diferentemente dos Guaranis e Kaingang, não conheciam o cultivo da terra e viviam somente de caça, pesca e coleta. Em compensação, eram exímios caçadores. Sua principal arma de caça era a boleadeira, um tipo de laço com a ponta dividida em três tranças de tiras de couro que, na extremidade de cada uma delas, apresentavam bolas feitas com um involucro de couro que continha uma pedra arredondada, aproximadamente do tamanho de uma laranja. Essas boleadeiras eram giradas no ar, da forma como se faz com um laço, e lançadas nas pernas do animal que corria. Quando as bolas atingiam as pernas do fugitivo, enrolavam-se nelas e o derrubavam, facilitando o abate.
O animal mais caçado por esse método era a ema, ave de grande porte comum nos campos pampeiros, sendo que os adultos medem entre 1,27 e 1,40 metro. Apesar de não voar, é muito veloz. Tem pescoço comprido e pernas longas, que facilitavam a caça com as boleadeiras. Os Pampeanos também caçavam cervos, antas e capivaras, animais que eram encontrados em banhados e regiões de lagoas. Um hábito desses nativos, que mais tarde foi adotado pelos colonizadores, foi assar a carne em espetos de pau, no típico estilo dos pampas.
Como tinham uma cultura muito primitiva, os chefes dos Pampeanos eram temporários, sendo escolhidos apenas durante as guerras, ainda que fossem frequentes. Ocorre que esses nativos costumavam roubar as plantações dos Guaranis e Kaingang, o que resultava em muitos conflitos entre eles. Após a chegada dos jesuítas espanhóis e sua associação com os Guaranis, esses povos dos pampas foram aliar-se aos portugueses para combater seus figadais inimigos.
Os Guaranis, conquanto fossem primordialmente extrativistas, plantavam pequenas roças em áreas próximas a suas tekoas. Como as aldeias eram temporários, as roças eram planejadas considerando o tempo de permanência pretendido nas proximidades e a obtenção de colheitas, que respeitavam as estações mais apropriadas. Afinal, não fazia sentido plantar para os outros colherem. Plantavam milho, feijão, amendoim, morangas e mandioca. Após a colheita, uma parte precisava ser consumida imediatamente, mas o milho, o amendoim, os feijões e a mandioca, esta transformada em farinha, podiam ser guardados por um certo tempo. Alguns aspectos da cultura – cultivos, domínio de técnicas cerâmicas e tecelagem dos Guaranis –, sugerem que tivessem mantido contatos eventuais com os povos andinos, o que os levou a dominar processos mais elaborados de exploração dos recursos da natureza.
Os padres, porém, conseguiram convencer os Guaranis a mudar seu estilo de vida e morar nas reduções. Argumentavam que, para poder estudar e desenvolver sua vocação pelas artes, era preciso que abandonassem o nomadismo e passassem a viver em comunidades permanentes. A mudança do nomadismo para a vida sedentária, porém, fazia surgir a questão de como alimentar os habitantes das reduções e das comunidades missionárias. Para dar solução ao problema, o padre Jesuíta Cristóvão Orelhano de Mendonça, que havia fundado a Redução de São Miguel Arcanjo em 1632, introduziu, em 1634, o primeiro gado, assim como os primeiros cavalos e ovelhas, na região missioneira. Esses animais, ao que se presume, teriam vindo das estâncias jesuítas de Córdoba, a 200 léguas a Oeste.
O infausto padre, porém, não chegou a ver a transformação que sua iniciativa traria para toda a região das missões e a toda a província. O padre Cristóvão foi morto na região do atual município de Caxias do Sul, no distrito de Piaí, no dia 26 de abril de 1635. Descrevendo o que ocorreu, o padre Antônio Ruiz de Montoya, superior dos jesuítas nas reduções, narrou sua morte em meio a um combate com índios rebeldes:
“À vista disso, saltou o padre num cavalo, metendo-se a animar com estranho valor a seus amigos… Teria ele estado em condições de salvar a sua vida, mas, para dar a vida eterna a um catecúmeno, que atravessado de uma seta agonizava, aproximou-se dos inimigos para batizá-lo, momento em que foi martirizado”.
O sonho jesuíta de criar no Novo Mundo o reino teocrático dos indígenas e organizar um Centro de irradiação da civilização cristã a partir dos pampas e da região do Prata lhes custou 30 mártires, padres e irmãos jesuítas que tombaram no Sul entre os anos de 1609 e 1768. Quatro deles mortos pelos bandeirantes paulistas e os restantes 26 pelos nativos refratários à cristianização. A maior dificuldade enfrentada pelos jesuítas eram as constantes bandeiras que desciam para capturar e escravizar os nativos. Como relata Wolfgang Hoffmann Harnisch, na introdução ao livro Viagem às Missões Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos, do padre Antônio Sepp, S.J., (publicado pela Itatiaia – Editora da Universidade de São Paulo, em 1980):
“Já no ano de 1628, começa a caça sistemática aos indígenas. Às caladas da noite, e no momento da celebração do ofício, os paulistas, que os arcabuzes tornam invencíveis, assaltam os aldeamentos, põe fogo nas casas e igrejas, recolhem o gado e transformam os moradores – homens, mulheres e crianças – em escravos. Numa só dessas incursões, foram caçados 30.000 indígenas de toda a zona do Paraná, recolhidos em campos de concentração e levados para São Paulo. Entre 1628 e 1630, as levas de índios somaram a cifra impressionante de 60.000”.
O episódio que mudou o cenário ficou conhecido como Batalha do M’Bororé, um enfrentamento que ocorreu entre 11 e 18 de março de 1641. Como reação à destruição de diversas reduções dos jesuítas que ficavam em territórios que pertenciam à Coroa da Espanha, segundo estabelecia o Tratado de Tordesilhas, os integrantes da ordem decidiram entregar aos membros que antes haviam sido militares, como Juan Cárdenas, Antônio Bernal e Domingo Torres, a tarefa de treinar os Guaranis no uso de armas de fogo. Um segundo grupo de jesuítas, formado pelos padres Pedro Mola, Cristóvão de Altamirano, Juan de Porras, José Domenech, Miguel Gómez, Domingo de Salazar, Antônio de Alarcón, Pedro Sardoni e Domingo Suárez, montaram um pequeno estaleiro para organizar a construção de balsas. O comando militar foi entregue aos caciques Ignácio Abiarú, Nicolás Nhienguirú, Francisco Mbayroba e Azaray.
Em paralelo, os padres conseguiram do papa Urbano VIII uma bula que excomungava aqueles que caçavam nativos das reduções jesuíticas para escravizá-los. O documento não foi bem recebido em São Paulo, uma vez que a cidade tinha como principal atividade econômica a captura de índios Guaranis para vendê-los como escravos aos senhores de engenho do Nordeste do Brasil. Antônio Ruiz de Montoya, o superior da ordem que liderava as Missões jesuíticas que foram destruídas pelos bandeirantes, foi recebido pelo rei Felipe IV e, no dia 21 de maio de 1640, o monarca autorizou o vice-rei do Peru a fornecer armas aos Guaranis. De Buenos Aires o governador Pedro de Rojas y Acevedo, que temia a expansão portuguesa, enviou instrutores militares e armas para ajudar a defesa dos Guaranis.
Em meados de 1640, o jesuíta Francisco Díaz Taño, então procurador da Província Jesuítica do Paraguai, ao retornar de viagem à Europa, fez publicar no Rio de Janeiro bula do papa com a condenação dos que escravizavam nativos. Na época, ainda estava em vigor a União Ibérica, de modo que o rei da Espanha também era o monarca de Portugal. A publicação revoltou as cidades do São Paulo, Rio de Janeiro, Santos e São Vicente, uma vez que a captura e escravização dos nativos era uma importante atividade econômica daquelas localidades. Para responder ao repto, a Câmara Municipal de São Paulo organizou uma grande expedição com o propósito de atacar e destruir as reduções jesuíticas, capturar os índios, prender os padres e devolvê-los para a Espanha.
A grande bandeira partiu de São Paulo em setembro de 1640. Tinha um contingente formado por cerca de 3.500 homens bem armados, liderados por Jerônimo Pedroso de Barros e Manuel Pérez. Entre os líderes estavam ainda Antônio de Cunha Gago, Juan Leite e Pedro Nunes Dias. Quando chegaram às margens do Rio Chapecó ali acamparam para construírem as balsas que desceriam o Rio Uruguai para atacar as reduções.
No fim de 1640, o já citado padre Francisco Díaz Taño fez chegar aos jesuítas a informação de que uma grande expedição estava a caminho para aprisionar índios e destruir as reduções. Os padres, porém, vinham se preparando para o enfrentamento e já contavam com uma força estimada em 4.200 homens, centenas de canoas e balsas com peças de artilharia que mesclavam canhões vindos da Argentina com os improvisados, mas eficazes, canhões de taquaruçu. Esses engenhosos canhões desenvolvidos pelos jesuítas eram feitos com troncos de bambu, escolhidos por seu tamanho e resistência, sendo retificados em seu interior, para deixá-los redondos e lisos, e depois eram revestidos com diversas camadas de couro de boi. Assim reforçados, resistiam aos disparos dos tiros com pólvora, que arremessavam balas esféricas com um miolo de pedra revestido de argila, que eram verdadeiros tijolos voadores.
Em 8 janeiro de 1641, ao receber informes dos espias avançados sobre os preparativos dos bandeirantes, o padre Cláudio Ruyer ordenou o agrupamento do exército Guaranis nas proximidades do Arroio M’Bororé, na margem ocidental do Rio Uruguai, em território da atual Província de Missiones, na Argentina. No dia 25 de fevereiro de 1641, as oito canoas enviadas rio acima para verificar o avanço dos bandeirantes se depararam com os invasores, com quem tiveram escaramuças. Esses Guaranis viraram seus barcos e fugiram rio abaixo perseguidos por canoas tripuladas por nativos da etnia Tupi, sendo salvos quando se aproximaram dos Guaranis.
A batalha principal teve início no dia 11 de março de 1641, com o avanço dos bandeirantes, que contavam com cerca de 700 embarcações, entre balsas e canoas. Ao alcançarem à altura do M’Bororé, foram atacados pelos Guaranis, que os enfrentaram das margens e com as balsas que posicionaram no Centro do rio. Essas balsas, protegidas por parapeitos de troncos e armadas até os dentes, além de estarem equipadas com os canhões de ferro fundido vindos de Buenos Aires e com os canhões de taquaruçu revestidos de couro, tinham ainda catapultas que arremessavam tocos de árvores em chamas, com fogo alimentado por uma camada de gordura animal.
Os bandeirantes, surpreendidos, tiveram suas canoas afundadas e seus corpos destroçados. Após a acachapante derrota na batalha fluvial, os paulistas viram o acampamento cercado e foram perseguidos durante a fuga. Assim, apenas 120 integrantes da expedição conseguiram retornar vivos a São Paulo. Em meio à destruição e à mudança das reduções, parte do rebanho de gado que criavam se espalhou livre pelos campos e coxilhas da região, tornando-se selvagem. Dado o clima favorável, a ausência de predadores, a alimentação abundante e o terreno propício, com os rios formando obstáculos naturais para conter os rebanhos, o gado solto adaptou-se ao clima, se multiplicou e desenvolveu uma nova raça, formando grandes rebanhos de um gado que recebeu a designação de “franqueiro”, “orelhano” ou “chimarrão”.
Foi a existência desse gado livre, cujos bois possuíam imensos e valiosos chifres, que podiam medir até 2 metros de ponta a ponta, que justificou o retorno dos jesuítas em 1682, passados 44 anos dos ataques dos bandeirantes paulistas que os tinham expulsado em 1638. Esse mesmo gado “chimarrão” foi a base da economia das charqueadas, que consistia em prear, abater e charquear o gado alçado. Quando os jesuítas voltaram, os bandeirantes já tinham se desinteressado do Sul por estarem ocupados procurando ouro, diamantes, esmeraldas e outras pedras preciosas nas Minas Gerais. Entre as iniciativas dos jesuítas, após o retorno, destaca-se a criação de novas reduções, que resultaram nos Sete Povos das Missões.
No período de 1690 a 1750, o retorno das reduções iniciou-se com a Vila de São Francisco de Borja. Fundada pelo padre Francisco Garcia, era uma extensão da Redução de São Tomé, de onde saíram 195 pessoas. Nela trabalhou o padre José Brasanelli. Em 1707 essa redução contava com 2.814 habitantes, e foi a origem da cidade de São Borja. Outro núcleo foi o de São Luís Gonzaga, fundado em 1687 por 2.922 pessoas que antes habitavam as reduções de São Joaquim e Santa Tereza. O padre Alfonso del Castillo, o “Superior de Todos os Povos”, liderou a sua fundação. O primeiro Cura foi o padre Miguel Fernandez, que deu origem a cidade de mesmo nome.
O núcleo de São Nicolau surgiu quando a mesma população que originalmente habitava esse local retornou da Redução dos Apóstolos, que foi criada com os refugiados da Redução de Tapes. Em 1687 esses dois grupos se uniram para voltar ao Rio Grande e refundaram a São Nicolau, o que ocorreu em 2 de fevereiro. Essa redução chegou a possuir 7.751 pessoas em 1732. A Redução de São Miguel Arcanjo teve como seu primeiro fundador o padre Cristóvão de Mendonça, em 1632. Quando foi atacada por predadores bandeirantes, o padre abandonou o local e levou seus índios para Concepción, no Paraguai. A volta aconteceu em 1687, com o retorno de 4.195 pessoas. Passados três anos, já estava reconstruída, com a casa dos padres e nada menos do que cem habitações residenciais para acomodar os índios.
O núcleo de São Lourenço Mártir foi fundado em 1690 com nativos de Santa Maria Maior, descendentes dos fugitivos de Guaíra, que se instalaram no local liderados pelo padre Bernardo de La Veja. Em 1731 eram 6.400 os habitantes desse povo. A Redução de São João Batista surgiu em 1697, quando São Miguel foi dividida, indo 2.832 pessoas para a nova redução. Em 1707 possuía 3.110 habitantes. A igreja foi obra do padre João Batista Primoli, que de 1735 a 1744 a levantou empregando somente mestres e operários Guaranis.
A reserva de São João foi fundada pelo padre tirolês Anton Clemens Sepp von und zu Rechegg, cavaleiro e barão de Kaltern. Antônio Sepp era um verdadeiro homem da renascença. Polímata, dominava música, luteria, arquitetura, urbanismo, relojoaria, metalurgia, pintura e escultura. Era, ainda, escritor de talento. Quando partiu para instalar a Reserva de São João foi seguido por 2.832 pessoas oriundas da Redução de São Miguel. Os trabalhos na igreja iniciaram-se em 1708, quando já havia 3.400 pessoas habitando o aldeamento. Sob orientação do padre Sepp, a redução mostrou alto nível de atividade cultural. Sepp também foi um geólogo e minerador, extraindo o primeiro ferro das Missões, fazendo instrumentos variados e até os sinos da igreja de sua redução. Sua obra mais notável foi o relógio instalado no campanário da igreja, que, ao dar as horas, fazia desfilar pelo mostrador os 12 Apóstolos, como um que o padre vira em Munique.
A Redução de Santo Ângelo Custódio foi formada por uma população que vinha de Concepción. Liderada pelo padre Diogo de Hasse, em 1707 o povoado contava com 2.879. No século XVIII, a região estava sob disputa entre Espanha e Portugal. O Tratado de Madri, de 1750, havia decidido que a área dos Sete Povos das Missões, lado oriental do Rio Uruguai, passaria para Portugal em troca da Colônia do Sacramento, na foz do Rio da Prata. Essa decisão decretou o fim dos Sete Povos das Missões e a saída dos jesuítas espanhóis. Mas esse tratado gerou conflitos: nem padres, nem índios aceitavam abandonar suas reduções, nem a população portuguesa queria abandonar a Colônia do Sacramento e seu lucrativo contrabando de muares, escravos e prata. Houve uma série de confrontos armados que culminaram na Guerra Guaranítica, um conflito que deixou um rastro de destruição e sangue que desmontou a estrutura do sistema missioneiro.
Logo depois veio o fim: com a intensa campanha difamatória que os jesuítas sofreram a partir de meados do século XVIII, a Companhia de Jesus foi expulsa de terras portuguesas em 1759, e em 1767 a Espanha fez o mesmo. No ano seguinte, com a retirada final dos jesuítas, os Sete Povos das Missões entraram em desagregação. Quando em 1801 eclodiu nova guerra entre Portugal e Espanha, os Sete Povos já estavam em tal estado de desintegração que, com apenas 40 homens, Manuel dos Santos Pedroso e José Borges do Canto conseguiram conquistá-los para Portugal. Depois disso Portugal anexou o território em definitivo, instalando um governo militar na região e encerrando todo o ciclo missionário.
Os caminhos dos tropeiros
Calçada do Lorena – Oscar pereira da silva – 1826
acervo do museu paulista da USP
A fundação da estratégica Colônia do Sacramento, pelo governador e Capitão-Mor da capitania do Rio de Janeiro, Dom Manuel Lobo, em 1680, na foz do Rio da Prata e em frente a Buenos Aires, localizada na margem oposta do rio, acabou criando um grande contencioso com os espanhóis. Logo após a fundação do Sacramento, o governador de Buenos Aires, Vera Mujica, reagiu indignado e o recém-instalado núcleo português foi imediatamente atacado e dominado por tropas espanholas e indígenas. Dom Manuel Lobo foi preso e levado para Buenos Aires, onde acabou morrendo. Portugal buscou recuperar o núcleo por meio de negociações diplomáticas e conseguiu recuperar a posse pelo Tratado Provisional de Lisboa, assinado em 7 de maio de 1681. Em contrapartida, ficava impedido de ampliar ou construir novas fortalezas, assim como quaisquer edificações de pedra ou taipa que, de alguma forma, pudessem caracterizar uma ocupação permanente.
Os portugueses ficaram na Nova Colônia do Sacramento até 1705, quando a Espanha retomou o domínio e permaneceu ali até que, com o segundo Tratado de Utrecht, assinado em 6 de fevereiro de 1715, Portugal voltou a ter sua posse. A Coroa Portuguesa, porém, estava preocupada com o isolamento daquele que deveria ser um posto avançado na defesa meridional de sua colônia. Era flagrante a dificuldade de manter abastecido e operacional aquele posto avançado sem um acesso por terra.
A primeira providência foi a abertura do Caminho da Praia, um trajeto pelo litoral que ligava a Colônia do Sacramento a Laguna, na costa de Santa Catarina. De Laguna a Curitiba, entretanto, havia uma simples picada via São Francisco do Sul e pelo Caminho dos Ambrósios. Era, porém, uma rota acidentada e precária, de modo que, para ligar o extremo Sul com o Centro do país por terra, era preciso encontrar alternativas. A dificuldade maior é que o relevo brasileiro, ainda que não tenha nem montanhas alpinas nem cordilheiras andinas intransponíveis, era suficientemente acidentado para impossibilitar longas rotas de estradas carroçáveis. A solução estava na utilização de tropas de muares, animas resistentes, rústicos e capazes de enfrentar caminhos acidentados levando cargas significativas a longa distâncias.
Em maio de 1720, o bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu, que havia explorado a região dos Campos de Curitiba e do então Continente do Rio Grande, enviou carta ao rei de Portugal propondo abrir uma nova rota entre São Paulo e a Colônia do Sacramento. Na missiva, acompanhada de mapas, argumentava sobre as vantagens que o caminho de tropas proposto traria para a colônia. Essa proposta foi aceita pelo rei, mas, em 1722, Paes de Abreu envolveu-se na organização da bandeira de seu irmão João Leite da Silva Ortiz e de Bartholomeu Bueno da Silva, que penetraram no rumo de Goiás e lá descobriram ouro. Com isso, desinteressou-se da estrada.
Nesse meio tempo, os comerciantes do Rio de Janeiro tentaram levar mulas e burros embarcados em navios desde os portos sulistas até o porto da cidade, mas as experiências não deram certo. Os muares não eram afeitos ao mar e sofriam demasiado durante a viagem. Sob stress, recusavam-se a comer e beber, passavam sede, fome e, por fim, parte significativa terminava morrendo. Em 1727 o governador da capitania de São Paulo, Antônio Caldeira da Silva Pimentel, em busca de uma solução, contratou os serviços do sargento-mor Francisco de Souza e Faria para a abertura de um caminho ligando Laguna aos Campos Gerais de Curitiba e que pudesse ser, efetivamente, usado por tropas. O governador recomendou a Souza e Faria que este deveria:
“(…) abrir o caminho pela paragem que achar mais conveniente, possível e fácil para por ela se poder conduzir gados e cavalgaduras para os Campos Gerais de Curitiba”.
Em seus preparativos iniciais, Souza e Faria, porém, não foi bem-sucedido. Havia dificuldades criadas pela natureza, como áreas montanhosas e matas fechadas, rios e vaus traiçoeiros, mas podiam ser vencidas com determinação, engenho e arte. Os problemas reais vinham do capitão-mor e de outras autoridades lagunenses que estavam colocando obstáculos e dificuldades legais para impossibilitar a abertura da estrada. O comerciante português Cristóvão Pereira de Abreu, que se encontrava em Sacramento organizando uma grande tropa de muares e gado que pretendia levar para São Paulo, e contava usar o novo caminho, ao saber do impasse, voltou à Laguna para ajudar na solução dos entraves. Cristóvão Pereira de Abreu era um nobre fidalgo português, da família do condestável Nuno Álvares. Sendo homem influente na corte e tendo interesses na Colônia do Sacramento, onde era o principal comerciante de couro e muares daquele que já era, à época, um ativo Centro de comércio e contrabando, rapidamente se impôs para obter as licenças e autorizações necessárias. Como explicou em depoimento anos mais tarde:
“(…) vários moradores (…) da Vila de Laguna e de Sta. Catharina, estes porque vivendo retirados, ou por crimes ou por outros motivos (…), receosos de que com a abertura do novo caminho perderiam as suas liberdades”.
Após resolvidos os embaraços em Laguna, Sousa e Faria foi cuidar da abertura do novo caminho e Cristóvão Pereira voltou à Colônia do Sacramento para preparar sua primeira tropa. Os trabalhos se iniciaram na região de Araranguá, em Santa Catarina, em 28 de fevereiro de 1728, terminando em setembro de 1730, ao chegar a São Luís de Purunã, mês em que foi feita a comunicação do término dos trabalhos à Câmara de Vereadores de Curitiba. A expedição contou com 98 homens brancos, além de muitos escravos e índios. Cristóvão Pereira de Abreu, entretanto, que era familiarizado com a geografia e os obstáculos da rota, depois de estudar bem as alternativas possíveis e as dificuldades dos trechos mais difíceis, preferiu ir abrindo seu próprio atalho. Ao conduzir sua primeira tropa de cavalos e muares, em 1729, resolveu antecipar-se à abertura da estrada de Sousa e Faria e evitar o trecho entre Lages e Laguna, que além de ser difícil era perigoso pela existência de índios hostis, particularmente na região de Urupema.
Assim, vindo do Sul, ao alcançar o Morro dos Conventos, fez um desvio à esquerda e foi passando pelos campos de Vacaria e Lages que chegou à Ponte Alta, alcançou os Campos de Curitiba e chegou a Sorocaba. Na segunda viagem, sua comitiva veio com 130 tropeiros e 500 rezes para alimentação do pessoal, conseguindo, em uma viagem de 14 meses, levar 3.000 animais à feira de Sorocaba e Ouro Preto. Sua façanha teve imensa repercussão e incentivou uma grande leva de seguidores. Procurando sempre encurtar os caminhos, com outras comitivas, nos anos de 1731 e 1732, abriu uma nova rota, dessa vez ligando os campos de Viamão a Lages através do Vale de Rolante.
Em 1736, Cristóvão Pereira de Abreu interrompeu por cinco meses suas atividades de tropeiro para atender a uma solicitação do governador e capitão-general do Rio de Janeiro, António Gomes Freire de Andrade. O governador-geral lhe deu a ordem de edificar fortificações defensivas ao longo do Sul do continente do Rio Grande. O objetivo dessas defesas era repelir um eventual ataque dos castelhanos em represália à planejada fundação de um quartel na região entre a Lagoa Mirim e a Lagoa dos Patos, com acesso ao Oceano Atlântico. A região era tida pelos castelhanos como propriedade espanhola, enquanto Portugal a queria para si. A fundação do quartel e da vila de Rio Grande se deu a 19 de fevereiro de 1737, pelo brigadeiro José da Silva Paes, que chefiando um contingente de 254 arcabuzeiros e dragões, instalou o núcleo inicial da Capitania Real de São Pedro do Rio Grande do Sul.
Após cumprir essa missão, Cristóvão Pereira de Abreu recebeu, em 1739, uma nova encomenda do governador do Rio de Janeiro: restabelecer o caminho, pelo planalto, que ligava a região das Missões à Laguna, em Santa Catarina. O trajeto já havia sido utilizado pelo bandeirante André Fernandes em 1637, e por Fernão Dias Paes Leme em 1638. Em 1641, também passou por esse caminho a bandeira de Jerônimo de Barros. A rota atravessava o Mato Português, o Campo do Meio e o Mato Castelhano. Essas eram áreas infestadas de “bugres coroados” perigosos, mas, ainda assim, muitas tropas passaram a utilizar a rota, tendo a precaução de contratar um bugreiro que fosse bom conhecedor do caminho pelo interior dos matos e dos indígenas e suas táticas guerreiras, de modo a guiá-las e defendê-las contra possíveis ataques.
Em 1819, com a real expedição ainda lutando com os índios Kaingang e Xokleng para firmar-se nos Campos de Guarapuava, Dom João VI determinou ao tenente-coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal que enviasse uma missão com o fim específico de viabilizar um caminho dos Campos de Guarapuava para as Missões. Para essa incumbência foi designado o capitão Athanagildo Pinto Martins, que estava explorando o Rio Chopim, e o capitão Antônio da Rocha Loures foi escolhido como seu imediato. Aquela foi a primeira expedição luso-brasileira que seguiu para as Missões, após a região ter sido incorporada à Coroa Portuguesa, em 1815. A incumbência era encontrar e mapear um caminho viável que ligasse São Borja, na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, ao Caminho de Viamão. Essa expedição foi, em princípio, bem-sucedida, tanto que mostrou que a ligação era possível. Mas o caminho aberto demorou a se tornar popular entre os tropeiros. As razões foram que, primeiro, a rota pelo extremo Sul, partindo da Colônia do Sacramento, estava aberta e consolidada.
Nesse trajeto, as tropas que saíam da Colônia do Sacramento, depois de alcançarem Viamão, subiam pelo Caminho das Tropas e chegavam a Sorocaba para suprir o mercado com os muares vindos de Córdoba. E, depois, porque a expedição do capitão Athanagildo havia ficado estigmatizada por ter tido parte de seus integrantes tocaiados e mortos pelos Kaingang, na região do Alto Uruguai. Esse desafortunado evento ocorreu quando, na volta da viagem, num lugar chamado Pinheiro Marcado, o capitão Athanagildo enviou um grupo de oito homens de sua expedição, guiados pelo índio Kaingang João Gongue, o Jonjong, para tentar cruzar por dentro da floresta no rumo do passo do Goio-En. O grupo, depois de entrar na mata, sumiu sem deixar vestígio.
De toda forma, do início do século XIX até a abertura do Caminho das Missões, a Estrada Real dava conta do recado de abastecer de muares o mercado de Sorocaba, em São Paulo. O caminho, que ligava Viamão, no Rio Grande do Sul, a Sorocaba, em São Paulo, atendia às numerosas manadas de mulas chucras e de gados arrebanhados nas vacarias e que passaram a ser levadas para São Paulo. Em Sorocaba, as mulas domadas eram enviadas para atender a diversas regiões, e seguiam para outros destinos e trabalhos, principalmente para o labor das minas, nas Minas Gerais, onde se impuseram como cargueiros indispensáveis devido as suas características de rusticidade e resistência.
As regiões mineiras estavam situadas num planalto cuja altitude varia de 1.000 a 1.500 metros, possuindo um território inteiramente planáltico e sem planícies. Mais da metade do estado de Minas Gerais possui relevo de morros e ondulados, com uma altitude média de 700 metros. Os pontos mais altos estão nas serras da Mantiqueira, do Espinhaço, da Canastra e do Caparaó, sendo comum áreas acima de 1.700 metros. O ponto mais alto do estado é o Pico da Bandeira, com 2.891 metros de altitude, na divisa com o estado do Espírito Santo. Outros pontos elevados das Minas são a Pedra da Mina, com 2.798 metros, o Pico das Agulhas Negras, com 2.790 metros, e o Pico do Cristal, com 2.769 metros. De modo que, naquela região montanhosa e acidentada, o uso de carros de boi ou carroças convencionais era limitado a pequenos trechos localizados.
Sucedeu, entretanto, que as minas foram crescendo e se espalhando por todos os quadrantes mineiros e, no seu rastro, expandiu-se a demanda por animais cargueiros. É fato reconhecido que os muares foram a espinha dorsal do sistema de transporte para o escoamento da produção do ouro das Minas Gerais. Ainda, naquele tempo, as mulas precisavam se encarregar de transportar os víveres necessários para os trabalhadores nas minas e, não demorou, tiveram também de transportar o açúcar e o café de São Paulo e do Rio de Janeiro. Para atender a essa demanda em evolução, o número de animais negociados na feira de Sorocaba chegou a impressionantes 1.498 milhão de muares entre os anos de 1825 e 1880. E, como é sabido, quando existe procura logo emerge oferta. Com efeito, surgiram inúmeros empresários e aventureiros que se lançaram a campo para atender a essa demanda insaciável.
As fontes dos muares das comitivas de tropas que se originavam em Uruguaiana e São Borja eram as fazendas da região das Missões, do lado argentino. Haviam sido originalmente criadas pelos jesuítas para atender às minas de prata de Potosí, no Peru. Quando a demanda nos Andes recrudesceu, depois de 200 anos de exploração do metal, que aconteceu em meados do século XVIII, começou a procura dos animais pelo Brasil. Entre os pioneiros que marcaram seu lugar na história das tropeada tem destaque João da Silva Machado, que foi um dos maiores negociantes de animais do Sul do Brasil no século XIX. João da Silva Machado nasceu em 11 de junho de 1782, em Taquari, e além de tropeiro foi catequizador, agropecuarista, militar e político. Viveu 92 anos e morreu em 19 de março de 1875.
Ele foi o grande incentivador do desenvolvimento do hoje estado do Paraná, um território que, em grande parte, pertencia ao estado de São Paulo. Começou sua vida como tropeiro e atingiu, em 1816, a patente de sargento-mor de ordenanças de Vila Nova do Príncipe, em São Paulo. Entre 1822 e 1829 foi o responsável pela abertura da Estrada da Mata, entre São Paulo e Rio Grande do Sul, e pela construção de outras estradas. Mandou explorar os rios Tibagi e Paranapanema, criou duas reservas indígenas, uma às margens do Rio Verde e outra em Itararé. Fundou as povoações de Rio Negro, Jataí, São Jerônimo, entre outras, e foi agraciado com o título de Barão de Antonina.
Além de João da Silva Machado, reconhecidamente o mais expressivo empresário do tropeirismo da época, outros empreendedores, a maioria de origem paulista (os “birivas”), decidiram entrar no negócio. Um ponto a ser destacado é que, a partir de 1835, quando irrompeu a Revolução Farroupilha, os tropeiros passaram a enfrentar o risco de confisco pelos dois lados do conflito, e o risco anda maior de serem envolvidos nos combates. A saída que encontraram foi a utilização mais intensa do Caminho das Missões, que saía de Uruguaiana para São Borja, passava por Cruz Alta, Carazinho e Passo Fundo, seguia pelo Mato Castelhano, Campo do Meio e Mato Português, até os Campos de Vacaria, de onde, após cruzar o Rio Pelotas no passo de Santa Vitória, seguia para Lajes, em Santa Catarina, onde desembocava no Caminho Geral
As origens da era tropeira
Comitiva de Tropeiros – M. Rugendas – Domínio Público
A indústria açucareira foi o primeiro grande motor do desenvolvimento no Brasil. A partir de 1530, os portugueses tomaram iniciativas para criá-la. O clima e o solo tropical eram ideais para o plantio extensivo de cana-de-açúcar, uma cultura que já era praticada nas ilhas atlânticas da Madeira e de Cabo Verde. O açúcar brasileiro logo encontrou mercado na Europa. Sem recursos para investir em uma estrutura para distribuir o produto naquele continente, os portugueses fizeram uma parceria com os comerciantes holandeses. Estes recebiam o açúcar que chegava à cidade de Lisboa e realizavam sua distribuição em várias regiões da Europa, como França, Inglaterra e na região do Báltico.
Na medida em que o acordo com os holandeses oferecia um polpudo retorno financeiro, a Coroa Portuguesa decidiu incentivar a produção no Brasil, oferecendo empréstimos, isenções de tributos e outros privilégios para elevar a produção dos engenhos aqui instalados. Em pouco tempo, o produto brasileiro conquistou o mercado europeu e se expandiu por aqui, especialmente no Nordeste. Na década de 1570, estima-se que havia cerca de 60 engenhos construídos na região açucareira. Já em 1627, havia o quádruplo dessas instalações.
Na segunda metade do século XVII, porém, a situação já não era mais a mesma. Naquela época, os holandeses, que tinham sido expulsos da região
Nordeste do Brasil, haviam mudado para as Antilhas e lá passaram a produzir açúcar em condições mais competitivas. Portugal, sem conseguir fazer frente ao preço e à qualidade do açúcar antilhano, viu sua produção mergulhar na crise. Em busca de uma alternativa econômica para a colônia, a Coroa Portuguesa começou a receber notícias sobre sinais de ouro no Vale do Paraíba e nas Minas Gerais. Por essa razão, instalou, em 1695, na Vila de Taubaté, a Casa de Fundição de Taubaté, também chamada de Oficina Real dos Quintos. Por determinação real, a partir de então, todo o ouro extraído das Minas Gerais deveria ser trazido a essa vila e, de lá, seguir no lombo de mulas para o porto de Parati, de onde seria embarcado para a cidade do Rio de Janeiro e, na sequência, enviado para Portugal.
Rugendas – Lavagem do Minério de Ouro – Pico de Itacolomi, Minas GERAIS. – (Domínio Público.)
Os primeiros sinais de existência do metal foram confirmados pela descoberta de ouro de aluvião nos Sertões de Taubaté, em 1697. A descoberta promoveu uma verdadeira “corrida ao ouro”, que resultou em seguidos encontros do metal, mas sem que esses achados resultassem em uma exploração mais organizada, o que aconteceu com a descoberta de ouro em Mato Grosso pela bandeira de Pascoal Moreira Cabral, em 1719, e depois pela descoberta do metal na Vila Boa de Goiás, pela bandeira de João Leite da Silva Ortiz e Bartholomeu Bueno da Silva, em 1725. Com esses achados teve início, de fato, o ciclo do ouro no nosso país. Milhares de pessoas deixaram-se seduzir pela possibilidade de fazer fortuna e se lançaram na busca do metal. Muitas foram bem-sucedidas, e as sucessivas descobertas de ouro nas Minas Gerais só fizeram ampliar a afluência de aventureiros. Com o crescimento da produção aurífera e da população, também aumentou muito a procura por animais de carga.
Era preciso atender às necessidades do transporte de suprimentos para a população e de ferramentas e utensílios para a mineração, bem como atender à necessidade do transporte do ouro para os portos. Assim, se tornou urgente a demanda por mais e mais das chamadas “bestas de carga”. Com a valorização dos muares, as comitivas foram chegando. Muitas ficavam em Sorocaba e outras subiam até as Minas Gerais, mas todas vendiam seus animais com grandes lucros. Para pôr ordem em um mercado que se expandia sem limites, em 1757 foi estabelecida uma feira de gado mular em Sorocaba. Logo os vendedores e compradores de muares de diferentes regiões do país se dirigiram para lá com o fim de fazer negócios. A feira era oficialmente realizada na segunda quinzena de maio, mas os negócios se estendiam até junho e julho. O evento atraía milhares de negociantes, tropeiros, peões e outros interessados. Durante o período da feira, e mesmo nos meses de junho e julho, meses em que os negociantes iam escoando suas tropas recém-compradas, a cidade de Sorocaba crescia sua população em mais de dez vezes – era de 3.500 habitantes, e chegava a registrar mais de 40.000 visitantes. Assim, Sorocaba se tornou o Centro do tropeirismo.
Tropeiro – Debret (domínio público)
Os animais vinham da Argentina, do Uruguai e da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Muitas tropas costumavam usar as mulas domadas para transportar carne-seca, feijão, farinha e outros produtos que vinham do Sul. Era uma forma de aproveitar a capacidade de transporte disponível para melhorar a renda dos tropeiros. Esses produtos também eram comercializados na feira, o que aumentava ainda mais sua atratividade. Dessa forma, o tropeirismo surgia como uma nova atividade que atendia ao mercado de gado e animais de carga e promovia a interligação dos polos econômicos de distantes regiões do país. As caravanas eram conduzidas por homens forjados nas lides campeiras, práticos, fortes e resilientes, que enfrentavam as intempéries, os obstáculos do caminho e as incertezas das marchas com coragem e determinação. Basicamente, “tropeiro”, “condutor de tropa”, “arrieiro” e “bruaqueiro” eram as designações dadas aos condutores de tropas e membros das comitivas de muares e cavalares.
O traje do tropeiro era composto de um grande chapéu de feltro marrom ou cinza; a camisa, que muitas vezes acompanhava a cor do chapéu, era feita de tecido muito resistente. Ainda fazia parte do traje o poncho, uma espécie de capa de tecido pesado e espesso, feito de lã de ovelha ou, ainda, de lã de animais andinos, como lhama, alpaca ou vicunha, e usado em dias de frio intenso. Também protegia contra o vento e a chuva. O poncho possui uma abertura frontal e outras duas aberturas laterais, para os braços e as mãos. Por fim, usavam botas de couro que alcançavam até a altura da coxa e que eram utilizadas para dar mais proteção em terrenos alagados e matas em dias chuvosos.
A comida dos tropeiros era simples e prática, porém nutritiva e calórica, devido ao trabalho pesado e às dificuldades para armazenagem, transporte e preparo no campo. Tinha por base feijão, arroz, carne-seca e toucinho salgado. Como acompanhamentos, farinha de mandioca, sal, alho, café e farinha de milho ou canjiquinha. Na passagem pelas matas de araucária também coletavam pinhão e mel silvestre. Quase sempre a tarefa de cuidar dos alimentos e cozinhar para a tropa era função de um cozinheiro experiente, que, ainda de madrugada, acordava e punha o feijão para cozinhar em uma trempe, um tripé de ferro no qual se colocava a panela sobre o fogo. Depois do feijão cozido, fazia-se o café e fritava-se o toucinho, numa grande panela.
O café da manhã costumava ser composto de farinha, feijão com carnes cozidas e café, para acompanhar. Por volta do meio-dia, parada para almoço, quando o feijão cozido de manhã poderia ser enriquecido com carnes, farinha e, eventualmente, couve. O preparo do café requeria o cuidado de, quando iniciada a fervura, colocar na vasilha uma lasca de lenha em brasa, para precipitar a borra que ficava em suspenção. Os anos iam se passando e, em meados da década de 1840, a expansão do cultivo do café no Brasil abriu um novo mercado mular na região do Vale do Paraíba. O território, localizado entre o Leste paulista e o Oeste do estado do Rio de Janeiro, possuía excelentes condições topográficas, terra fértil, clima adequado, regularidade das chuvas, enfim, todos os aspectos de fundamental importância para o cultivo. A esses atributos se somava mais um: a facilidade para o escoamento da produção das lavouras pelo porto de Santos. Como era necessário que houvesse muares cargueiros em número suficiente para fazer o transporte das safras, os cafeicultores começaram, também eles, a demandar burros e mulas em vasta quantidade. Com a procura crescente por animais cargueiros, o comércio desses animais passou a representar parte significativa da economia e da arrecadação da província paulista. Contudo, o governo de São Paulo estava preocupado com os dois fatores que interferiam na rentabilidade do negócio das tropas: a grande distância dos Centros de criação e os impostos cobrados no caminho.
O primeiro problema, a distância, era desafiador: as comitivas precisavam percorrer cerca de 1.500 quilômetros, parte em terrenos fáceis, com pasto verde abundante, mas parte em caminhos precários e perigosos. No início, a maioria das comitivas saía dos Campos de Viamão e subiam pela Estrada Real, porém, após a guerra da Província Cisplatina e da independência do Uruguai, em 1725, o acesso aos muares pela região da Colônia do Sacramento, no Sul do novo país, ficou muito mais difícil, ainda que continuasse o contrabando desde as estâncias de Córdoba. Em contrapartida, a oferta de muares cresceu na antiga região missioneira. Com a reabertura do Caminho das Missões, em 1739, um crescente número de tropas passou a sair de São Borja, Uruguaiana e Cruz Alta, tomando o rumo dos Campos de Cima da Serra.
Pouso noturno de tropeiros – Joaquim da Rocha Ferreira
acervo do museu paulista da USP.
A rota permitia avançar entre 6 e 8 léguas (30 a 40 quilômetros) por dia, enfrentando as intempéries, chuvas torrenciais, frios congelantes no inverno e calor intenso no verão, vadeando rios e cruzando incontáveis cursos d’água. Ao chegarem aos Campos de Cima da Serra e aos Campos de Vacaria, após alguns dias de descanso, precisavam enfrentar a sempre perigosa travessia do Rio Pelotas. O local, em Coxilha Rica, era significativamente chamado de Passo do Inferno. Seu nome só mudou quando Cristóvão Pereira de Abreu, após cruzar mais de 800 mulas sem perder nenhuma, comemorou a passagem persignando-se e gritando “Santa Vitória”. Daí em diante o local passou a ser chamado de Passo de Santa Vitória. O nome tinha mudado para melhor, mas a travessia continuava a ser diabolicamente difícil.
A segunda questão era o valor extorsivo de tributos. O governo imperial, para aprovar a nova estrada, exigiu a cobrança de impostos. Foram estabelecidos três pedágios ao longo do trajeto: na passagem pelo Rio Pelotas, no Registro de Santa Vitória; no Rio Iguaçu, entre Lapa e Bolsa Nova; e em Sorocaba, em São Paulo. O preço correspondia a cerca de 20% do valor dos animais. Mas existiam outros pontos de taxas e pedágios diversos. Em 1845, o inteiro Caminho de Viamão era pontuado por essas barreiras do Erário. O resultado é que parte significativa dos ganhos eram drenados por esses tributos.
A convocação de Condá
Após o início da povoação de Guarapuava e dos Campos de Palmas, o próximo passo seria, logicamente, ligar essas áreas com a província vizinha. Com o fim da Guerra dos Farrapos, o momento parecia oportuno por uma série de razões, entre as quais estavam os ganhos que traria ao oferecer uma nova rota às tropas que vinham das Missões. Ademais, além dos evidentes motivos econômicos, que de todo justificavam o patrocínio da empreitada pelos paulistas, havia também sólidos motivos de natureza geopolítica. A Argentina não escondia suas pretensões territoriais e a cobiça sobre a região. E o novo caminho se apresentava como a melhor forma de afirmar a posse sobre a região Oeste da Província de São Paulo e permitiria consolidar uma presença sobre a área em disputa.
Depois, havia a lição da recente Guerra dos Farrapos. Foram 10 anos de lutas refregas que só haviam terminado em 1º de março de 1845. Os farrapos tinham sido vencidos, é verdade, mas a um alto custo político, econômico e humano. O presidente da Província de São Paulo, Manoel da Fonseca Lima e Silva, mostrava regozijo pela vitória, como escreveu em seu relatório à Assembleia Legislativa Provincial em 7 de janeiro de 1846:
“Agora devemo-nos também congratular pela pacificação do Rio Grande do Sul. Aquelles que tiveram a desventura de, iludidos, errar pelo espaço de cerca de 10 annos já pertencem hoje à comunhão da Grande Família Brasileira. O socêgo e a ordem retomaram ali sua atitude legal. É com o mais vivo prazer que assim vol-o comunico. O céu queira derramar sobre aqueles povos, assim como sobre os de todas as demais Estrellas do Império Brasilico, benção de paz eterna”.
Não há dúvida de que havia alívio e celebração com o fim do movimento separatista gaúcho, mas ainda era possível notar uma perigosa fluidez da situação na província gaúcha, com os ressentimentos represados. Os vizinhos Uruguai, Argentina e Paraguai eram também motivo de constante inquietação. Os riscos subjacentes da situação política da Província do Rio Grande do Sul e o contexto geopolítico eram bem familiares ao presidente paulista, Manuel da Fonseca Lima e Silva. Senão por outro motivo, pela simples razão de ser ele casado com Carlota Guilhermina de Lima e Silva, que vinha a ser irmã de Luís Alves de Lima e Silva, o Conde de Caxias, e, portanto, o presidente do Rio Grande do Sul, que fora o comandante das tropas imperiais vitoriosas contra os rebeldes farrapos.
Assim, dispondo de informações e aconselhamento privilegiados, não foi difícil para o presidente da Província de São Paulo decidir ser da melhor cautela empenhar-se em obter um controle mais efetivo sobre os caminhos que ligavam sua província ao Sul do país. De modo que, diante de tão boas razões, o governo de São Paulo resolveu investir na abertura de um caminho mais curto, que ligasse a província paulista à região da Missões via Campos de Palmas e Guarapuava.
O projeto do Novo Caminho das Missões aproveitava o trajeto original de Cristóvão Pereira de Abreu, partindo de Uruguaiana, no extremo ocidental da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e que, desde a independência da Colônia Cisplatina, em 1825, vinha sendo cada vez mais utilizado. O caminho passava por Itaqui, São Borja, Cruz Alta, Carazinho, até chegar a Passo Fundo. Nessa vila a nova rota desviaria para o Norte. De Passo Fundo, seguiria margeando o Vale Dourado, nos Campos de Erechim, atravessando o Rio Uruguai no passo do Goio-En. Já no lado Norte do rio, o trajeto passaria por Chapecó, Xaxim, Xanxerê, Palmas, Mangueirinha, Reserva do Iguaçu, Pinhão, Guarapuava, Relógio, Prudentópolis, Imbituba, Ponta Grossa e Castro, onde a nova estrada desembocaria no Caminho de Viamão. Dali para a frente, seguiria a rota comum até Sorocaba.
Uma vez tomada a decisão de prosseguir com o projeto da nova estrada, o governo paulista procurou um oficial que reunisse conhecimento da região, possuísse descortino, habilidades administrativas, coragem e dotes de liderança, para entregar a ele a missão. E findou por encontrar no coletor de rendas da Freguesia de Belém de Guarapuava, o alferes Francisco Ferreira da Rocha Loures, o homem que procurava. A ordem dada ao alferes pelo presidente paulista era simples e direta:
“Abrir um picadão que, partindo da Freguesia de Ponta Grossa, passando pelos Campos de Palmas em direção à Vila de Cruz Alta, comunicasse esta província com a do Rio Grande do Sul”.
Francisco da Rocha Loures recebeu o inesperado encargo com um misto de surpresa e apreensão. Abrir um caminho que ligasse os dois pontos e cruzasse o Rio Uruguai no passo do Goio-En não era, em si, um grande desafio. Era preciso vencer as encostas do vale do Uruguai, certamente, mas a topografia permitia ir negociando o relevo por meio de curvas e volteios. O mais difícil, portanto, não estava em vencer as barrancas insidiosas e, por vezes, ingratas. O desafio estava em amansar os índios. Conseguir a permissão dos Kaingang para fazer uma estrada que cruzasse seus domínios. Abrir a picada sob assédio dos índios já seria assumir um risco de monta, mas um forte dispositivo militar podia dar adequada segurança aos trabalhadores em sua faina de desbastar o mato para abrir e aplainar o caminho. A verdadeira questão, uma vez pronta a estrada, era a necessidade de garantir um mínimo de segurança aos viajantes, notadamente aos tropeiros, e a suas valiosas tropas e carga.
Passada a surpresa da convocação, uma incumbência que não podia recusar, o alferes convenceu-se de que precisava sair a campo para levar a empreitada a bom termo. Desde logo teria de reunir uma equipe capacitada para enfrentar as dificuldades e os imprevistos da missão. Havia de recrutar capatazes que tivessem familiaridade com a construção das picadas nas matas de araucária e operários dispostos a trabalhar duro, o que era facilitado pela chegada diária de peões que procuravam Guarapuava em busca de trabalho.
Antes de tudo, porém, estava convencido de que a chave para o sucesso da empreitada era a pacificação dos Kaingang de Nonoai. Precisaria negociar com eles e conseguir que aceitassem o novo caminho em suas terras. Para lidar com a questão dos índios Kaingang precisava trazer seu amigo de infância e o homem mais indicado para atuar como seu conselheiro e imediato no comando da operação: o Pai-Bang Victorino Condá. O Pai-Bang, embora afastado da Vila de Guarapuava em razão do risco pessoal que corria por causa da animosidade do influente Pedro Cortez, já tinha ouvido falar dos projetos para a nova estrada, e sabia que a trilha, uma vez implantada, seria um avanço irreversível para a consolidação da cultura dos fóg. Ele sabia que nada deteria as mudanças que se desenhavam no horizonte e pressentia que o momento de ver se multiplicarem os caminhos que penetrariam as terras ancestrais de seu povo havia chegado. Era uma certeza que o amargurava, ainda mais por saber ser uma tendência inevitável, que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Apenas não imaginara que seria chamado a ajudar na tarefa.
Pela nova estrada viria a mudança definitiva do mundo de seus antepassados. Por ela transitariam as comitivas de muares e gado. Mas também os aventureiros que olhariam com cobiça para as terras e riquezas dos índios. Por ela os tropeiros fariam circular não apenas os animais e mercadorias em direção às províncias do Norte, mas também trariam imigrantes e novas populações. Viria gente de todo tipo, muitas com o sonho de construir uma nova civilização, enquanto outras seriam atraídas pela promessa de enriquecimento rápido, ofuscadas pela ambição de riqueza e pensando como predadores. Conquistadores desprovidos de escrúpulos e humanidade. Condá, que conhecia bem os brancos, que já obtivera conhecimento de primeira mão de seu formidável poderio, tanto no tempo de suas experiências com os pioneiros de Guarapuava e Palmas como quando de sua viagem a São Paulo, sabia que a nova estrada seria mais um duro golpe para a liberdade de sua gente.
Podia antever as comitivas indo e vindo por entre suas matas e pela terra em que seus antepassados viveram sem outras preocupações se não a de recolher os pinhões e defender a tribo de eventuais ataques dos Guaranis. Era, pois, com desalentada tristeza que antevia a chegada de novos fazendeiros, novos agricultores e novos comerciantes. Era com aflição que antecipava a criação de novos pontos de parada e novas povoações. As comitivas que viriam teriam necessidade de paradas para recuperar as tropas, estadas muitas vezes demoradas na espera de que as chuvas cessassem ou que o nível das águas do Rio Uruguai baixasse para permitir a travessia. Até as tropas que não se demorassem exigiriam pernoites, e os tropeiros, mesmo que apressados, precisariam alimentar-se e descansar, assim como os animais.
Contudo, o Cacique Condá era homem realista e sabia que não tinha escolha. A história não recuaria só para agradá-lo. Ele já sofria na carne e na alma o efeito dos novos tempos. Não tinha sido por livre escolha que havia recém se instalado em uma nova área, o Aldeamento de Chapecó, entre os rios Chopim e Iguaçu, e se afastado das vilas de Guarapuava e de Palmas. Rita, sua sempre leal, fiel e adorável companheira, seus filhos e sua família ainda estavam se adaptando ao novo local. Condá havia mudado para o novo aldeamento por força da animosidade que contra ele se havia instalado na povoação de Palmas. Os motivos da mudança foram as infundadas acusações feitas contra ele no processo de justificação de iniciativa de duas autoridades locais, Domingos Ignácio e Pedro Cortez.
Ainda sem saber qual seria o resultado do processo que tinha sido aberto contra ele, que poderia resultar em uma penalidade que o obrigaria a buscar refúgio nas matas mais distantes, foi surpreendido pelo convite para integrar a missão da abertura da nova estrada. Tivesse o convite vindo de alguém outro, Condá teria suspeitado tratar-se de uma cilada ou artifício para separá-lo de seu toldo e da proteção de seus guerreiros. Mas vindo de seu amigo de infância e de confiança, o alferes Francisco Ferreira da Rocha Loures, companheiro dos folguedos da meninice e parceiro de incontáveis peripécias que vivera como guri em Guarapuava, não cogitava ser uma insídia. De maneira que precisava pensar bem antes de recusar-se. Em seu íntimo, não obstante seus temores, sentia que não deveria dizer não ao amigo das aventuras vividas na juventude, ao amigo que sempre lhe fora fiel e por quem tinha sólida e incondicional confiança. Confiança que acreditava ser recíproca. Por isso viu no convite uma afirmação de sua inocência das imputações que lhe faziam seus acusadores e uma boa oportunidade para resolver a situação do impasse acusatório que ainda o perturbava.
O que havia contra ele era um processo de Justificação movido pelo capitão-mor de Palmeira, a mais importante cidade daquela região, Domingos Ignácio de Araújo, e por Pedro Cortez, o ex-comandante dos Soldados Permanentes de Palmas. O que surpreendia Condá no convite para ajudar na expedição é que o alferes Rocha Loures vinha a ser o filho mais velho de um de seus detratores no dossiê de Justificação. Por todas essas circunstâncias e ainda outras questões ligadas ao processo, precisava considerar bem os eventuais riscos e as escolhas que teria de fazer antes de aceitar o convite e se afastar por um tempo. De um lado, ele e o grupo de guerreiros indígenas que levaria consigo seriam pagos para fazer o trabalho para o governo paulista. O dinheiro seria bem-vindo para ajudar o aldeamento que chefiava.
Mas, de outro lado, precisava levar em conta a situação incômoda em que se encontrava. O novo aldeamento de Chapecó, que estava implantando, era um toldo muito menor do que os que chefiara nos Campos de Palmas e Guarapuava, e dependia dele para sua consolidação. Afastar-se, ainda que por pouco tempo, podia deixar o aldeamento vulnerável às investidas de seus inimigos e em risco de ser atacado. Ele não podia esquecer que foi exatamente por ter se afastado do aldeamento de Palmas que os Kaingang foram vítimas do ataque traiçoeiro armado por Cortez e Domingos Ignácio. Afastar-se, portanto, não era uma decisão fácil.
A espúria justificação contra Condá
Logo após fundado o núcleo de Palmas, uma área foi também separada para receber um aldeamento dos índios “mansos”, aqueles que se dispunham a conviver com os brancos de modo pacífico, e Condá optou por se fixar ali, naquele aldeamento. Em pouco tempo a povoação evoluía, e para assegurar o cumprimento do acordo entre os grupos, garantir a segurança da população e a ordem pública, bem como zelar pela paz local, o governo determinou que fosse instalada uma Companhia de Permanentes Municipais. Tratava-se de um corpo de polícia que tinha como comandante o capitão Hermógenes Carneiro Lobo Ferreira. Hermógenes era amigo de Condá, entretanto, não durou no cargo. Em 1841, por pressão do capitão-mor de Guarapuava, foi substituído por um desafeto seu, exatamente o líder de uma das expedições que ocuparam a região, Pedro Siqueira Cortez.
Dois anos depois, em 1843, o capitão Hermógenes, que agora respondia apenas pelas operações policiais da Companhia de Permanentes, recebeu uma missão por ordens vindas diretamente do governo da província. As ordens, que passavam por cima das atribuições do comandante Pedro Cortez, determinavam que Hermógenes deveria montar uma busca com o objetivo de localizar e, se possível, resgatar um tropeiro desaparecido, o capitão José de Sá Soutto-Maior. O capitão era de família fidalga portuguesa, que pediu ao imperador que encontrassem o capitão e o resgatassem. Soutto-Maior se encontrava desaparecido havia 11 anos, mas, segundo alguns rumores, poderia estar vivo e aprisionado, ou, como em outra versão, estaria voluntariamente morando em uma aldeia Kaingang, ao lado de outros brancos. Para tentar desvendar o mistério e localizar o tropeiro, Hermógenes pediu a ajuda do cacique Victorino Condá.
A preocupação da família e do governo se justificava. Naquele tempo não era raro que índios selvagens atacassem comitivas, saqueassem casas e tropas e matassem indiscriminadamente, tanto brancos quanto indígenas que vissem como inimigos. Todavia, era igualmente sabido que alguns caciques sequestravam e aprisionavam brancos, particularmente crianças, que pudessem ter valor como reféns. Muita gente acreditava que esse teria sido o destino do capitão Soutto-Maior. Ele e sua tropa tinham sido atacados em 23 de julho de 1832, na região das Missões. No ataque, que tudo indicava ter sido realizado por índios de alguma das tribos Kaingang, toda a sua comitiva foi dizimada e saqueada, mas o cadáver de Soutto-Maior nunca fora encontrado.
Resulta daí que começaram a circular estranhas histórias sobre o que haveria acontecido com o capitão, sendo a mais frequente a de que ele teria sido aprisionado e ainda vivia como cativo dos índios. Vez por outra o episódio era relembrado e, naquele momento, corria o zum-zum de que ele teria sido visto nas proximidades dos Campos de Palmas. O rumor chegou ao conhecimento do presidente da província, que, informado do interesse do imperador em atender a família Soutto-Maior, ordenou que fosse montada uma expedição de busca. A ordem determinava que se usassem todos os recursos possíveis para desvendar o mistério e, estivesse ainda vivo o capitão, localizá-lo e resgatá-lo.
Para atender à ordem, o capitão Hermógenes e o cacique Condá se embrenharam pela mata e iniciaram uma extensa busca. Fizeram contato com muitos grupos indígenas da região de Palmas, Guarapuava e Palmeira, e como nada descobriram, cruzaram o Rio Uruguai, ampliando as buscas para a província vizinha. Condá foi falar com o cacique Nonoai, o mais importante na região do Alto Uruguai, e dele recebeu informações que o levaram até a região das Missões e ao local do aludido ataque. Finalmente teriam, de fato, encontrado o capitão Soutto-Maior. Ele estaria vivendo em um toldo indígena e adaptado ao estilo de vida dos Kaingang, tinha constituído família e preferia ficar com eles.
Os escassos relatos que Hermógenes e Condá fizeram ao voltar teriam por objetivo atender ao pedido para que não revelassem sua localização. O pouco que se soube foi que Soutto-Maior, depois de rir muito das histórias rocambolescas que circulavam sobre ele, se recusou a voltar dizendo que estava feliz com sua vida entre os índios, tinha mulher e filhos e gostava da vida descompromissada e junto à natureza. Ele teria justificado seu desejo de continuar distante da sociedade dos brancos em razão da certeza de que sua mulher nativa e seus filhos mestiços seriam rejeitados por sua aristocrática família lusitana e pelos antigos amigos da corte. De maneira que, para não submeter sua família ao desgosto da desfeita, preferia não voltar à sua vida anterior. Em compensação, teria ajudado Victorino Condá a encontrar sete crianças brancas que estavam em poder dos Kaingang, que o cacique trouxe com ele ao retornar.
Esse resgate causou furor em Palmas e Guarapuava e repercutiu em todo o país. Algumas das crianças brancas, se cogitou na ocasião, seriam filhos de tropeiros de Sorocaba e de colonizadores de Curitiba vitimados em ataques indígenas. Inúmeros artigos e reportagens sobre as crianças foram publicados em São Paulo, Curitiba e na capital do país, Rio de Janeiro. Diante da repercussão que o resgate alcançou, o governo de São Paulo deu instruções para que o capitão Hermógenes e o cacique Condá levassem as crianças a São Paulo e as entregassem pessoalmente ao governo da província. Condá, então, aproveitou a viagem à capital da província paulista para receber o prêmio de 200.000 réis que lhe havia sido concedido.
A ausência de Condá, porém, ainda que temporária, acabou deixando um vácuo na liderança indígena da região. Foi dessa circunstância que se aproveitou Pedro Cortez para avançar seus planos de enriquecimento e poder à custa dos índios. O crescente número de nativos em Palmas, conquanto agradasse ao governo da província, inquietava o comandante dos Permanentes. Pedro Siqueira Cortez temia que a presença dos índios na comunidade acabaria por criar vínculos entre eles e a população local. Os adultos, índios e fóg, frequentando a mesma igreja. As crianças brincando nos pátios e convivendo na escola. Uns e outros mutuamente se ajudando na construção de casas, no plantio das hortas, no abate de porcos e rezes, no cuidado dos doentes, enfim, no dia a dia da vida de pioneiros que se apoiavam uns aos outros.
Pedro Cortez partia da premissa de que só em um ambiente conturbado, com os brancos desconfiando dos índios e com os índios antagonizando os brancos, ele poderia dar o bote para conseguir a posse das áreas indígenas que almejava. O território que Cortez desejava era o que, imaginava, seriam as áreas auríferas dos Campos de Palmas. Ele não tinha certezas nem evidências, mas ouviu histórias sobre a existência de ouro naquelas matas e tinha fé de que ouro ali devia haver. E, se ouro houvesse, ou seria dele ou de ninguém mais. O que temia, mais que tudo, era ser passado para trás. Com a população aumentando e os índios se integrando na comunidade, crescia o risco de que um nativo qualquer, que soubesse do ouro, acabasse por revelar aos brancos o que entendia ser o seu segredo. Também o crescente número de pessoas circulando pela região tornava inevitável que, se houvesse ouro, o metal viesse a ser descoberto.
Essas eram possibilidades que o atormentavam cada dia mais. Além disso, algo que ele percebia estar acontecendo com a população local se envolvendo com os índios no cotidiano da vila, ambas as populações criavam laços de convivência e confiança. O risco que Cortez antecipava é que, no caso de uma possível disputa entre ele e os indígenas pelas áreas auríferas, a população pudesse ficar contra ele. Uma possibilidade que via crescer especialmente depois da vinda dos índios que Condá tinha atraído para ali se aldearem. E como se isso fosse pouco, à medida que mais indígenas aceitavam vir para o aldeamento e ali se instalavam, mais e mais índios estavam sendo atraídos. Era um estado de coisas a que não podia assistir passivamente. Ele tinha de agir antes que fosse tarde demais.
Se algo devesse ser dito a respeito de Pedro Siqueira Cortez é que ele não era homem de meias medidas. Convencido de que tinha de agir sem mais demora, antes que seus projetos fossem definitivamente comprometidos, articulou um plano sórdido e partiu para a ação. Para dar início, mesmo sem nenhuma razão aparente e sem que houvesse qualquer motivo ou incidente para justificar a medida, Cortez, o comandante dos Permanentes de Palmas, requisitou a vinda de um contingente adicional de homens armados de Guarapuava e Palmeira. A solicitação foi prontamente atendida por seu aliado e sócio oculto, o capitão-mor de Palmeira, Domingos Ignácio. Cortez pensava agir de forma agressiva para hostilizar os indígenas e levá-los a abandonar o aldeamento. Eventualmente, caso necessário, cogitava sua eliminação pura e simples. De outra parte, os índios, que agora viviam pacificamente no aldeamento em Palmas, desfrutando a companhia da família e vendo seus filhos coexistirem em paz com os filhos dos brancos, começavam a acreditar que o convívio pacífico entre brancos e índios era não só possível como desejável. Para Cortez esse sentimento de segurança que ia se estabelecendo entre os índios tinha de ser abalado antes de contagiar toda a população Kaingang. O que ele concluiu é que era urgente agir para romper o relacionamento amistoso dos índios com a população branca.
Entretanto, quando a maioria da população luso-brasileira de Palmas soube da notícia da vinda de reforço policial maciço, enviado de Guarapuava e Palmeira, por solicitação do comandante dos Pedestres, muita gente deduziu que boa coisa não era. Pedro Siqueira Cortez era figura conhecida. Diziam que dele ninguém compraria um cavalo. A desfaçatez e a falta de princípios com que atuava era bem conhecidas. Era homem de muita ambição, truculento e temido por seus rompantes. Também era conhecido por seu pouco apreço pelos índios. Contava-se, à boca pequena, que sua hostilidade pessoal a Condá remontava a um episódio de anos passados. A narrativa dizia que um grupo de bugres Kaingang, liderado por Victorino Condá, teria emboscado e roubado uma caravana comandada por Pedro Cortez. Na ação, os Kaingang teriam se apossando de uma carga de víveres, além de armas e munições de um carregamento oficial destinado ao abastecimento de Guarapuava. O desaparecimento dos víveres e mercadorias colocou Cortez sob suspeição e o obrigou a responder a um inquérito. No final, ele acabou inocentado, mas não esquecia nem perdoava o responsável por aquele infortúnio.
Muitos moradores de Palmas, desconfiados dos verdadeiros motivos por trás daquela movimentação de tropas, temeram pelo que podia acontecer aos índios e os alertaram. Soava muito estranho que os Permanentes chamassem um reforço numeroso de policiais sem nenhuma causa ou motivo aparente. Era fácil deduzir que os reforços não viriam por vir. Uma movimentação de mais de uma centena de homens só poderia estar ligada a alguma ação de monta ou mudança no equilíbrio de forças vigente. Como não era possível imaginar que essa força adicional viesse para ação contra os brancos, já que a vila de Palmas estava tranquila, a única hipótese possível estava ligada aos indígenas. Especialmente ao expressivo número de índios recém-chegados com Condá. Eles eram o fato novo. Os moradores de Palmas, assim, recomendaram aos índios amigos e com aqueles que tinham bom relacionamento para que tivessem cautela redobrada. A vinda de uma centena de soldados, totalmente desmotivada, era mau sinal. Era lógico suspeitar que as autoridades preparavam alguma coisa e que seriam eles, os indígenas aldeados, a razão oculta da convocação da milícia armada.
Quando os homens do reforço armado se aproximaram dos Campos de Palmas, as notícias correram na frente e se tornaram ainda mais alarmantes. A população da vila reforçou os insistentes alertas que fazia aos índios amigos e estes começaram a ficar apreensivos. Com a ausência de Condá, o grande Pai-Bang, e do capitão Hermógenes, que era a autoridade policial em que confiavam, somada aos avisos da população, e, ademais, devido à índole desconfiada, um grupo de indígenas resolveu ouvir os conselhos dos amigos brancos e afastar-se do aldeamento por um tempo. Para não declararem os verdadeiros motivos da decisão, que era o temor de serem vítimas de alguma armadilha, os índios foram ao comandante Cortez e disseram que sairiam para uma expedição de caça e que, por esse motivo, se afastariam do aldeamento por um período.
Ninguém em Palmas tinha dúvida de que os índios se afastavam por precaução, mas, ainda assim, os Kaingangs não imaginavam que poderiam ser atacados. A prova é o fato de que saíram praticamente desarmados e, na mata, dividiram-se em dois grupos para seguir rumos diferentes. Enquanto isso, tão logo chegaram as tropas adicionais pedidas, o comandante Cortez tratou de organizar uma missão de perseguição, sob o dúbio pretexto de que os indígenas teriam se afastado para preparar um ataque. Para disfarçar os verdadeiros objetivos de caçar e dizimar os índios, a missão foi justificada como tendo o objetivo de trazer os Kaingang de volta para o aldeamento, onde seria mais fácil mantê-los sob vigilância. Que razão os policiais teriam para trazer de volta, sob armas, um grupo de índios mansos que havia saído em uma excursão de caça foi uma questão que ficou sem resposta.
O que sobrou evidente é que, desde o começo, o verdadeiro objetivo da missão era caçar e exterminar o maior número possível de índios. E, se dúvida ainda restasse, se dissolveria ao se saber que o comando da tal expedição “de busca” tinha sido confiado a um “batedor de mato” de aluguel, um bugreiro matador de índios, um tal de Praxedes dos Anjos, conhecido energúmeno sanguinário, um brutamontes famoso por sua crueldade que costumava agir sempre da mesma maneira: perseguia os índios que queria exterminar e, depois de encontrá-los, seus capangas ficavam de tocaia, esperando o melhor momento para surpreender o grupo, o que geralmente acontecia na madrugada. Primeiro, cortavam as cordas dos arcos, para deixá-los indefesos, depois iniciavam o morticínio. Por fim, cortavam as orelhas dos mortos – pois a paga dos contratos era feita pelos pares delas.
Quando o destacamento enviado por Cortez encontrou os Kaingang, estes estavam pacificamente acampados na mata. Foi com espanto que receberem a intimação para retornarem a Palmas. Explicaram que tinham recebido autorização para saírem em uma expedição de caça. Alguns até, ingenuamente, se dispuseram a voltar. Argumentaram que estavam vivendo uma nova vida pacífica e não viam razão, nem tinham ânimo, para guerrear contra os brancos. Agora muitos haviam sido batizados e não eram mais inimigos dos fóg. Outros índios, mais desconfiados, se recusavam a voltar antecipadamente, não antes de realizarem sua excursão de caça. Afirmavam que tinham recebido autorização do comandante Cortez e, por isso, havia a intenção de continuar. O chefe do contingente, porém, disse que tinha recebido ordens para trazer todos de volta e que iria cumpri-las.
Sem armas nem meios para resistir, e sem suspeitar da traição que estava sendo tramada, debateram entre si o que deveriam fazer. Os rekakê-pai, os chefes indígenas que lideravam os dois grupos, convenceram a todos, mesmo os mais recalcitrantes, a acatar a determinação do comandante da polícia. Resignados, os índios reuniram seus escassos pertences e puseram-se em marcha. Ao saírem da mata, em uma pequena clareira, foram surpreendidos ao verem os policiais postados com suas armas apontadas contra eles. O pelotão das forças especiais de Cortez, formado por uma corja de meganhas degradados, uma escória reunida por sua selvageria e sanha assassina, disparou uma salva contra os índios e, depois, avançou alucinado, lançando gritos próprios de bestas sedentas de sangue e passou no fio afiado dos facões os corpos das vítimas indefesas sem distinguir homens, mulheres e crianças. Em momentos, a chacina estava consumada.
Alguns poucos índios conseguiram escapar no meio da confusão e voltaram para a mata. Os que não conseguiram fugir foram trucidados. No fim da barbárie, ali, prostrados no chão, jaziam os corpos de 20 guerreiros que, nos tempos em que vagavam livres pelos campos e matas, tinham infundido temor até nas tropas imperiais, mas agora quedavam sem vida sob os pinheiros solenes que veneravam. Eles haviam aceitado a oferta de convívio pacífico com os brancos no aldeamento de Palmas e, sem quaisquer provocações ou culpa, foram chacinados a sangue frio. Sua morte traiçoeira, naquele fatídico agosto de 1843, clamava a Deus por vingança e denunciava a hediondez do comandante dos Permanentes de Palmas.
Os Kaingang, tanto os que tinham ficado no aldeamento da vila quanto os que permaneciam nas matas, ao ter conhecimento daquela estupidez inominável, tomaram-se da mais acerba indignação. Aquela matança solerte, traiçoeira e inteiramente desnecessária precisava ser vingada. E a convivência com os brancos precisava ser revista. O que ficava evidente para os índios, porém, é que Pedro Siqueira Cortez era o inimigo. Tinham de acautelar-se e não podiam mais confiar naquela besta-fera, nem ficar à mercê daquele assassino covarde. A maioria dos índios que haviam permanecido no aldeamento, com receio de se tornar as próximas vítimas, decidiu voltar para o abrigo da floresta. Se o sonho de paz com os brancos se esvaia, tinham de retornar para o refúgio da mata. Nela, ao menos, estariam no seu elemento. E se precisassem lutar, lutariam. Os Kaingang tinham a merecida fama de serem guerreiros valentes, destemidos, temíveis. Se guerra houvesse, se na luta fossem atingidos e, se na luta tombassem; se, ao defenderem seu povo, fossem feridos de morte; se pagassem com a vida o mais alto preço e tombassem na luta, acreditavam que, ao menos, teriam o consolo de ver suas almas trilharem o caminho de seus ancestrais e com eles iriam ter no paraíso.
Na mata dos grandes pinheiros, seus corpos, abatidos, seriam enterrados junto aos seus umbigos, que já os haviam precedido naquele chão abençoado, conforme as tradições seculares de sua tribo. E seus espíritos, glorificados pela coragem de enfrentar a morte em combate, seriam celebrados por seus irmãos como almas valentes. No tempo das festas, seriam chamados para participar do kiki. Na celebração dos mortos, seus espíritos seriam relembrados e homenageados por suas famílias e por seus amigos. Na homenagem, os Kaingang sobreviventes beberiam em sua memória o kiki, o licor da lembrança, a bebida cerimonial preparada com mel, água, cascas de árvores e ervas cerimoniais e que, depois de maceradas, seriam colocadas no kokehn, a cuia sagrada, escavada no tronco de uma grande araucária escolhida pelo kuiã, onde fermentaria por dois dias antes da cerimônia. Depois do ritual do kiki, das danças e evocações, seus espíritos ficariam livres, seriam acolhidos por seus antepassados e encontrariam o caminho para o paraíso.
Ao lá chegarem, iriam ao encontro do destino reservado aos ousados e intimoratos. No paraíso, encontrariam seus antepassados, e de sua nova morada seus espíritos ajudariam a guiar sua gente e a inspirar coragem aos guerreiros de seu povo. A aspiração de um guerreiro Kaingang sempre fora viver e lutar em meio a seus amados pinheiros, por isso, desde pequenos, aprendiam a não temer a morte se esta os colhesse no combate. Acreditavam que a morte heroica cumpria com dignidade o destino que os espíritos originários de Kamé e Kayru legaram a seu povo. Assim sempre fora e assim é que seria para sempre, enquanto existisse o povo Kaingang.
Muitos Kaingang, entretanto, achavam que a morte traiçoeira de seus irmãos não podia ficar sem resposta. Eles deviam ser vingados, e não só pelo desejo de vingança, que viam como justificada, mas por ser preciso advertir os fóg sobre quais as consequências de uma guerra contra os Kaingang. Haviam de deixar claro que os Kaingang não seriam vítimas passivas de assassinos sem peias. Haviam de deixar claro que eles tinham, de fato, aceito o convite para conviver de forma pacífica com os brancos, mas mantendo intacta sua dignidade. Nunca tinham aceitado a escravidão à qual os bandeirantes tentaram submetê-los. Não se curvariam agora ante a humilhação de serem expulsos das suas matas e tratados com indignidade.
Eles eram índios com muito orgulho. Eles se sabiam gente que tinha nascido das entranhas da mãe terra e da qual herdaram sua natureza e sua cor. Eles continuavam sendo parte do altivo e aguerrido povo Kaingang. Preferiam a paz e a concórdia, muitos relutantemente, é verdade, mas que os fóg ficassem avisados que os índios não seriam mortos e jogados às formigas sem luta. Haviam de sinalizar que não se acovardariam na hipótese de uma guerra franca. Se fossem atacados, responderiam de todos os modos possíveis. Se defenderiam de qualquer agressão que sofressem. Decididos a retaliar, prepararam-se como nunca antes o haviam feito.
Sessenta dias depois do massacre ordenado por Pedro Cortez, um grupo de guerreiros Kaingang voltou à povoação para o revide. Incendiaram diversas casas e propriedades, roubaram as armas, a pólvora e as munições do paiol da polícia. Durante as escaramuças e o grande alvoroço, mataram três moradores da vila. A população, que já estava temerosa de uma ação de represália dos Kaingang, entrou em pânico. Começavam a circular rumores de que aquele ataque tinha sido apenas o primeiro de muitos e que os Kaingang se preparavam para uma retaliação em grande escala. Chegavam a Palmas notícias de que os índios de diversas aldeias dos Coroados estavam se reunindo e preparando uma grande operação de guerra. O ataque recente teria sido apenas uma prévia da ofensiva.
A população começou a temer que, com a iminente volta de Victorino Condá, seria organizada uma invasão em larga escala, um contra-ataque com enorme número de guerreiros, bem armados e treinados pessoalmente pelo cacique. Todos conheciam a fama de Condá. Ele era o líder inconteste da tribo. Seus Kaingang o seguiriam e morreriam por ele sem a mais leve hesitação. Se caso ocorresse um grande ataque, como temiam os moradores de Palmas, haveria um conflito que redundaria em muitas mortes e vultosos prejuízos. Sob a liderança de Condá e com sua reconhecida habilidade guerreira, era de se prever que a luta seria sem quartel. O enfrentamento não cessaria até que um dos lados obtivesse uma vitória definitiva. No longo prazo os brancos acabariam vencendo, mas no curto prazo, os brancos, ali em minoria, teriam suas fazendas pilhadas, suas casas incendiadas e, por fim, seriam dizimados e expulsos dos campos de Palmas.
Diante do temor generalizado e dos informes cada vez mais alarmantes, muitos dos fazendeiros e habitantes da vila começaram a enviar notícias a Curitiba e São Paulo e a implorar pela intervenção do governo. Afinal, se Condá se mostrasse capaz de juntar em uma só força não apenas os grupos de bugres, tidos como ainda selvagens, mas também boa parte dos índios aculturados e considerados mansos, teria um poder de beligerância muito difícil de ser vencido. Até mesmo se os índios evitassem lutar na vila, tal força poderia agir como guerrilha, atacando as fazendas, roubando o gado e se refugiando nas matas, tornando a vida dos habitantes de Palmas um inferno.
Quanto à guarnição dos Permanentes de Palmas, esta não poderia estar em todos os lugares e, se fosse invadida, dificilmente resistiria ao primeiro embate. Diante dessas perspectivas nada animadoras, a comunidade pôs-se a pensar no que fazer. Muitos entendiam que ficar à mercê dos Coroados era loucura e trataram de fazer as malas, pensando em abandonar tudo e fugir. Uma coisa era enfrentar investidas isoladas de indígenas renegados que viviam de roubar e saquear, párias que desobedeciam a seus caciques e eram por eles disciplinados. Outra coisa era encarar os Kaingang unidos e determinados numa guerra de vida ou morte. Os habitantes de Palmas sabiam que, em caso de conflito aberto, sem maciços reforços de tropas, não teriam nenhuma chance de enfrentar centenas de índios aculturados e bem treinados, exímios cavaleiros que sabiam montar como gaúchos e usavam as armas de fogo melhor que os soldados imperiais.
A verdade é que a população da vila, desde quando soube da traição aos índios mansos aldeados e do abjeto massacre de suas mulheres e crianças, temia que tal ato vil seria vingado. Muitos começaram a suspeitar, porém, que uma guerra com os índios era, precisamente, a intenção de Cortez. Os Kaingang retalhariam ao seu ataque e ele, então, alegando ter poucos efetivos, pediria reforços e sairia ao encalço dos índios até exterminá-los. Nessa batalha insana, era sobre eles, os moradores de Palmas, que iria recair o peso da conflagração. Convencido da responsabilidade do comandante Pedro Siqueira Cortez, um grupo de moradores se reuniu e enviou um emissário para fazer chegar ao presidente a denúncia da chacina. Assim que o presidente de São Paulo, Joaquim José Luís de Souza, tomou conhecimento dos fatos, agiu com celeridade e destituiu Cortez do comando dos Permanentes de Palmas, reconduzindo ao cargo o capitão Hermógenes Carneiro Lobo Ferreira, além de tomar outras providências para estender a mão aos índios.
Hermógenes, que todos sabiam ser desafeto de Cortez, era conhecido como amigo dos índios e tinha a confiança de Condá e dos Kaingang. Para reforçar o aparato policial, o governo da província também criou em Palmas uma subdelegacia de polícia. Porém, dentre todas, a medida pacificadora mais efetiva foi a criação da posição de capitão-comandante dos índios e a nomeação de Victorino Condá para o cargo. O cacique, ao receber o posto de capitão, passou a ter direito ao uso da farda e ao soldo correspondente. Com essa investidura, Condá recebia autoridade e prestígio. Foi nessa condição que o agora capitão nomeou o índio Viry como tenente, o índio Mathias como alferes e o índio Manoel como sargento. Todos passaram a integrar sua companhia militar, que tinha cerca de 20 soldados indígenas. Com essas iniciativas, os Kaingang se acalmaram. Sentiram-se prestigiados e foram apaziguados, tanto que Condá conseguiu que maioria retornasse para o aldeamento. Quanto a Cortez e seu patrono, Domingos Ignácio de Araújo, ambos caíram em desgraça e perderam boa parte do poder que tinham na povoação.
Seria ingenuidade, entretanto, imaginar que um aventureiro sem escrúpulos como Pedro Siqueira Cortez iria se dar por vencido. Nem ele nem, ainda menos, seu mentor, o aliado e sócio oculto que o havia indicado para a posição. Domingos Ignácio se arrogava como o homem mais poderoso de toda a região, desde Palmeira, passando por Guarapuava e Palmas. Seu cargo era importante, certamente, na qualidade de capitão-mor e, sem dúvida, ele vinha a ser a principal autoridade da região. Mas nada podia fazer sem o respaldo do presidente da província. Gostasse ou não, o poder maior continuava em São Paulo.
Inconformado com a resolução do governo paulista, Domingos Ignácio decidiu tentar, primeiramente, reverter a decisão. Cogitou, de si para si mesmo, que a deliberação tinha sido tomada desavisadamente, sem considerar a relevância de sua opinião. Achava-se melindrado. Como era possível que ele não tivesse sido consultado? Logo ele, o representante do governo naqueles campos? Logo ele, o grande arauto da civilização naquelas plagas bravias. Para o cúmulo das ofensas, não ter sido ouvido era, julgava o sátrapa, contra as práticas habituais do governo da província. Então, com a intenção de reverter a decisão que restringia o poder de seu protegido, Domingos Ignácio enviou um ofício ao governo da Província de São Paulo. Na missiva rebatia as acusações que ele dizia terem sido assacadas a Pedro Siqueira Cortez e demandava, com palavras duras, sua imediata recondução ao comando. Contrariando suas expectativas, porém, a resposta do presidente veio negativa.
Domingos Ignácio de Araújo e Pedro Siqueira Cortez ficaram chocados. Aquela decisão representava nada menos do que um acinte. Algo ofensivo e inadmissível. Em um primeiro momento, ambos ficaram atordoados. Como seria possível eles, gentis-homens de confiança do império, serem tratados qual deploráveis bagatelas sem eira nem beira? Passada a fúria e, sendo os marotos empedernidos que eram, os dois retomaram as maquinações. Um revés não os faria desistir tão facilmente. A primeira providência seria livrarem-se de Victorino Condá. Aquele cacique abelhudo era a pedra angular da resistência. Ele não era só um índio no meio do caminho. Era um obstáculo obstinado e pertinaz; um empecilho ao objetivo de avançar sobre as terras indígenas e de ir em busca de ouro, projeto que ambos mantinham vivo. E eles não tinham a mais leve dúvida de que o agora capitão Condá não assistiria pacificamente às investidas da dupla. Pior, associado ao capitão Hermógenes, o comandante dos Permanentes, os dois teriam força para bloquear quaisquer ações mal-intencionadas tentadas por Cortez e Domingos Ignácio. Portanto, sentiam-se desfeitos e acuados. Ou retomavam o controle sobre a Companhia de Permanentes Municipais de Palmas ou podiam dar adeus a seus planos de riqueza e poder.
Pois bem, Joaquim José Luís de Souza, o presidente da província, fora impermeável aos argumentos dos reclamantes e não aceitara mudar suas decisões em relação ao comando dos Permanentes. Portanto, Cortez continuava fora do posto. Acontece que o mandato de Joaquim José estava vencendo e ele logo deixaria o cargo. Domingos Ignácio, uma atilada raposa política, sabia que a mudança de cabeças poderia significar uma troca de posições. De modo que, esperançoso de reverter o afastamento de Cortez, começou a tramar para convencer o próximo presidente a reconduzir seu parceiro ao cargo. Naquele tempo existia a prática de fazer a troca de governo a cada dois anos. Tendo Joaquim Jose Luís de Souza assumido o posto em 27 de janeiro de 1842, logo deveria ser substituído. Além disso, reexaminando os fatos de sua derrota no pedido de recondução de Cortez ao cargo, Domingos Ignácio chegou à conclusão que subestimara o fato de Condá ser ainda popular na capital da província. Parecia, em retrospecto, que o cacique ainda contava com as simpatias do governo por ter devolvido as sete crianças brancas que resgatara dos índios e entregara às autoridades.
Também precisava reavaliar o efeito que o ataque conduzido por Cortez contra os índios tinha causado junto ao governo. Aparentemente, o tiro tinha saído pela culatra e o episódio ainda produzia resistências a seu nome. Diferentemente do que imaginavam, ele e Cortez, a grande maioria da população dos Campos de Palmas tinha ficado contra o comandante dos Permanentes no episódio. O povo o acusava de ter premeditado a morte dos índios por motivos torpes e para atender a interesses pessoais não revelados. A inglória remoção do comando era prova evidente de que suas justificativas não tinham convencido as instâncias superiores. Parecia óbvio, ainda, que para obter do futuro presidente da província a recondução de Cortez ao cargo seria preciso convencer as autoridades da capital que o comandante dos Permanentes tinha sido injustiçado.
De toda forma, ambiciosos como eram, nem Domingos Ignácio nem Cortez podiam aceitar pacificamente aquele estado de coisas. Para circunscrever as resistências, então, conceberam uma estratégia que, acreditavam, iria funcionar: armariam um dossiê para promover a versão de que os fatos estavam mal contados. Segundo a narrativa que arquitetaram, Cortez teria, na verdade, agido com pureza de propósito e no melhor interesse da população. O índio Condá e seus bugres é que seriam os verdadeiros malfeitores, pois o cacique dissimulava o fato de que ele era o mentor dos ataques aos brancos. Seus índios “mansos” seriam, nesta mentirosa versão dos fatos, “mansos” só na aparência, posto que eram os responsáveis pelos ataques e atrocidades que ocorriam na região. A capa que vestiam, para se fazerem passar por “mansos”, tinha por objetivo aproveitar da ingenuidade das autoridades e ter mais facilidade no assalto aos tropeiros, fazendeiros e colonos.
Para submeter ao futuro presidente da província o dossiê de acusação ao cacique Condá, Domingos Ignácio resolveu se valer de um procedimento jurídico da época conhecido como Justificação, uma espécie de registro em cartório de fatos e depoimentos apresentados diante de um juiz. Dessa maneira, obteria um documento formal do que era ali relatado. Uma Justificação não era, a rigor, um processo. Os depoimentos eram tomados livremente apenas para serem registrados e terem fé pública. Cada depoente podia dizer o que quisesse que teria suas palavras registradas nos livros do cartório. Portanto, apenas produzia fé de depoimentos ou declarações de modo a servir, em caso de dúvida, para provar que alguém, de fato, disse o que constava nos registros. Em última análise, permitia “justificar” uma narrativa ou alegação, ou seja, só provava que existia.
Tanto essa circunstância era manifesta que 100 anos depois o jurista Pontes de Miranda explicaria o que era o instrumento de forma clara: “Na Justificação (…) não se pede a declaração, nem a condenação, nem execução, nem mandamento, pede-se a constituição de prova. Somente isso”. Em outras palavras, já que a finalidade era só atestar o que as “testemunhas” possam ter declarado perante um juiz, não havia razão para uma defesa nem, tampouco, para contrariedade ou recurso. O mais relevante: uma vez que não havia decisão sobre o mérito, o juiz não endossava nem confirmava os fatos. Ainda assim, dado o fetiche por papelório e documentos lavrados por escrito na cultura luso-brasileira do império, uma Justificação cheia de selos e carimbos adquiria, naqueles idos, uma áurea de solene respeitabilidade.
No dossiê, ou na Justificação contra o cacique, a ideia era argumentar que Victorino Condá comandava, ou tinha influência, sobre os índios desde os Kaingang de Guarapuava e de Palmas até os da província do Rio Grande do Sul. Condá seria o verdadeiro responsável pelos assaltos, ataques, assassinatos e pilhagens de Palmeira, no Paraná, até Cruz Alta, no distrito das Missões. Nessa condição, caberia ao cacique Condá responder, entre outras vilanias, pelos recorrentes assaltos às comitivas de tropa de animais que saíam de Uruguaiana e São Borja, passavam por Cruz Alta e Passo Fundo e cruzavam pelos Matos Castelhano e Português no rumo de Vacaria. Isso, absolutamente, não era verdade. Na margem esquerda do Rio Uruguai, o cacique mais poderoso era Nonoai. Mas o propósito de Domingos Ignácio era jogar sobre Condá a culpa de todos os incidentes havidos no Sul e neutralizar seu prestígio adquirido com o resgate dos sete meninos brancos. Como requinte mais maquiavélico, o dossiê tentaria demonstrar que a recuperação das crianças não passava de uma farsa. Tudo não passaria de um plano diabólico: as crianças teriam sido capturadas e aprisionadas pelos indígenas de propósito, por ordem do próprio Condá, com intuito de negociar sua libertação mais tarde, em um momento propício, de modo a obter benefícios ou favores do governo. Um plano que teria dado certo por ter resultado em sua nomeação como capitão-comandante dos índios.
Para obter êxito, o dossiê precisaria ser montado de forma a desacreditar Condá diante do presidente paulista. A Justificação teria de ser convincente a ponto de permitir que os conspiradores reunissem condições para reivindicar o retorno de Cortez ao comando da Companhia de Permanentes Municipais de Palmas. A lógica da acusação tinha, ainda, outro objetivo espúrio: visava a legitimar a tomada da terra dos nativos sob a argumentação de que, uma vez provado que os índios tidos como mansos em Palmas e Guarapuava seriam criminosos, não haveria motivo para respeito ao território deles. Uma vez destituídos de direito ao território, eliminavam-se os índios e os problemas. Assim, conseguindo que os Kaingang fossem oficialmente reconhecidos como criminosos, o massacre realizado pelos homens de Cortez estaria plenamente justificado.
Que a lógica fosse canhestra, ou mesmo delirante, e não se sustentasse diante das evidências ou, ainda, que o encontro das crianças brancas tenha sido testemunhado pelo próprio capitão Hermógenes, nada obstava as maquinações solertes. No plano político, como era de prever, em 25 de novembro de 1843, Joaquim José Luís de Souza foi substituído por Manuel Felizardo de Sousa e Melo. Tão logo chegou a notícia da mudança no governo provincial em Palmeira, Guarapuava e nos Campos de Palmas, Domingos Ignácio e Cortez deram partida ao plano conjuntamente arquitetado.
Numa terça feira, 9 de janeiro de 1844, Cortez saiu de Palmas e foi até uma localidade próxima, Vila Nova do Príncipe de Santo Antônio da Lapa, para iniciar o processo de Justificação. A escolha dessa localidade tinha uma razão de ser: pertencia à jurisdição da freguesia de Palmeira, que estava sob a autoridade do capitão-mor Domingos Ignácio, exatamente o parceiro de grilagem, esquemas e falcatruas de Cortez.
O escrivão local, que era o encarregado de tomar os depoimentos e redigir o relatório de Justificação, já tinha sido orientado, ou melhor, advertido, sobre como devia proceder. Na véspera recebera a visita do capitão-mor, que foi vê-lo em companhia do juiz municipal, o capitão Antônio Alves de Oliveira. O Domingos Ignácio seguiu flanqueado por dois seguranças, precaução que havia adotado depois do massacre dos índios. Temia sofrer alguma retaliação por parte dos habitantes desgostosos de sua parcialidade e ou, ainda, de ser tocaiado pelos índios ansiosos por vingar os mortos da chacina. Afinal, como bem se sabia, todos atribuíam a ele a coautoria da ordem para o massacre.
Ao desmontar, o capitão nem havia se dado ao trabalho de amarrar o cavalo. Entregou as rédeas a um dos seguranças e entrou na sala acanhada com o estardalhaço habitual. Atrás veio o juiz municipal. Era um horário próximo do meio-dia e a janela aberta deixava entrar uma brisa fresca e agradável, que trazia para dentro da casa um cheiro de mato queimado. Pela janela dava para ver uma coluna de fumaça branca subindo de uma área próxima. Haviam chegado alguns novos colonos que estavam limpando um terreno, possivelmente para construir uma casa ou fazer um roçado.
A presença do capitão-mor surpreendeu o escrivão local. Domingos Ignácio era seu conhecido e protetor desde os tempos de Guarapuava, mas não era todo dia que a maior autoridade da região vinha à sua modesta repartição. O capitão-mor tirou o chapéu de aba mole, desvestiu o poncho de tropeiro com que cavalgava e sentou-se na cadeira de palha trançada que o escrivão lhe oferecia. O peso de Domingos Ignácio fez a cadeira reclamar com um rangido.
O escrivão, que respondia pelo altissonante nome de José da Costa Guimarães de Vasconcelos, era homem franzino. Naquele dia, trajava calça preta com risca de giz e camisa branca de colarinho engomado que ostentava uma gravatinha borboleta preta. Um traje condigno, é verdade, que Vasconcelos devia agradecer à insistência de sua mulher, que o queria sempre vestido como um burocrata da capital, embora não passasse de um simples burocrata daquelas regiões pioneiras. Ainda assim, ao lado do robusto capitão-mor, Vasconcelos parecia ser não mais que um boneco de ventríloquo. Mexendo com as mãos, tentava esconder o fato de que a visita de Domingos Ignácio o deixava nervoso. Estava na meia idade, já entrando na sua quarta década, e ostentava uma figura frágil, rosto esquálido e parcialmente calvo. Em um esforço para compensar seu porte diminuto, usava suíças que, acreditava, enobreciam sua aparência e afirmavam sua condição de homem de escritas, documentos e papéis. Domingos, ao contrário, tinha altura acima da média, era troncudo e forte e agia como um homem de poder e posses, acostumado a mandar e a ser obedecido.
Vasconcelos, como gesto de boas-vindas, pegou a cuia com o chimarrão que tinha preparado já com a erva e perguntou se o visitante aceitava um mate. Domingos Ignácio aceitou, com agrado, e o escrivão levantou-se, apanhou a chaleira que estava chiando no fogão a lenha da pequena cozinha ao lado, derramou a água fervente sobre a erva verde, ajeitou na cuia a bomba de prata de bocal de ouro e a passou ao capitão-mor. Ele sorveu o mate devagar. Era seu jeito de matear. Começava por testar a temperatura da água e sentir o sabor levemente amargo da erva. Aprovou. A qualidade do mate produzido e colhido pelos Kaingang surpreendia agradavelmente a quem apreciasse chimarrão. Reconhecidamente, era uma erva que estava sendo cada vez mais apreciada na região.
Antes de entrar no motivo de sua visita, Domingos Ignácio comentou com Vasconcelos que os argentinos e paraguaios estavam comprando erva mate em quantidade. Esse era outro negócio que vinha pensando desenvolver ao lado da criação de muares e gado, o que o lembrou de que esse era mais um motivo para cuidar logo da questão da posse das terras e da recondução de Cortez ao cargo de capitão dos Permanentes. Terminada a cuia, com o ruidoso sorvo final, Domingos Ignácio recolocou o porongo no suporte de pinho recortado. E, então, foi direto ao assunto que o havia levado a fazer aquela visita tão fora de seu roteiro habitual:
— Caro Vasconcelos, como já deves de saber de nossa conversa tempos atrás, preciso fazer uma Justificação para mandar para as autoridades de São Paulo. Suponho que deves ter sabido do injusto afastamento do comandante Cortez da chefia dos Permanentes de Palmas. Foi uma barbaridade medonha que fizeram com o capitão Cortez. E que fizeram comigo, pois fui eu quem o indicou. Mas uma coisa te digo desde já: não vão galopear faceiros no meu lombo. Eu vou reconquistar o comando dos Permanentes nem que tenha de sair de baioneta em riste. Não vou engolir que estapeiem minha autoridade de capitão-mor. Temos de resolver isso logo, pois esses bugres nojentos já estão atrapalhando meus negócios.
O escrivão queria acalmar o capitão-mor antes que ele mesmo acabasse sofrendo com a invectivas de Domingos Ignácio.
— Capitão, não se aborreça que vai sair tudo no seu jeito. Vou fazer conforme vosmecê e o capitão Oliveira determinarem.
Vasconcelos sabia, obviamente, que seu chefe direto era o juiz municipal, o capitão Oliveira, mas ele era um burocrata bem escolado e percebia de que lado soprava o vento. Seu chefe mandava, mas quem mandava no seu chefe era o capitão-mor Domingos Ignácio. O escrivão também sabia que, para melhorar o minguado salário que recebia, precisava contar com as boas graças de Domingos Ignácio. Um bom trabalho significava uma boa gratificação. Ademais, a generosidade do capitão-mor para com seu aliado já tinha sido demonstrada. Foi dele que recebeu algumas vantagens e benefícios, como a casa de morada, construída de madeira aparada e bem calafetada, que lhe servia como residência e escritório, que ficava num cômodo com escrivaninha e um armário para os livros – a sala onde trabalhava –, além de um mobiliário formado por mesa, cadeiras e prateleiras, tudo bem entalhado por um marceneiro que trabalhava para o Domingos Ignácio. Da mesma forma, vinha da generosidade de Domingos Ignácio a pequena área para plantar sua horta e cultivar seu pequeno pomar. O escrivão sabia ser grato. Quando tinha ocasião, até gostava de servir à Justiça, mas não era a Justiça que cuidava dele. Era o capitão-mor.
Na questão do processo de Justificação, Domingos Ignácio havia deixado bem claro como o assunto devia ser tratado. E que devia ser tratado com toda a celeridade. O capitão-mor gostou da atitude de Vasconcelos. Para ele, a subserviência era a mais preciosa das virtudes de um burocrata sob suas ordens. Por isso quis deixar claro seu contentamento:
— Muito bem, senhor Guimarães de Vasconcelos – Domingos Ignácio fez questão de impostar a voz para fazer soar o nome com imponência – assim é que se fala.
Domingos Ignácio, como se vê, era um homem afeito ao poder. Com gestos e atitudes, deixava claro quem mandava. Tinha sido um dos chefes da tomada dos Campos de Palmas, reunindo precisamente os estancieiros da povoação de Palmeira, que viam nele o seu mais proeminente patrono. Mas agora se sentia tolhido. Afinal, aos comandantes dos povoados cabia determinar a distribuição das terras e a ocupação dos campos, tarefa que estava impedido de fazer com a liberdade que gostaria. Tudo por culpa daquele índio intrometido. Mas Condá não perderia por esperar.
Cumprida pessoalmente a tarefa de relembrar com ênfase a advertência feita ao escrivão, Domingos Ignácio e o juiz municipal Oliveira, que não havia aberto a boca, despediram-se. Ao vê-los pelas costas, o Vasconcelos deu um suspiro de alívio. Estava mais aliviado, porém mais advertido. Os depoimentos para a Justificação foram marcados para a residência oficial do juiz municipal Oliveira, que estaria presente para presidir o processo. Logicamente, contariam com a presença do oficial público da comarca encarregado de tomar os depoimentos e escrever as atas, o escrivão Vasconcelos.
Quando Cortez chegou à Vila Nova do Príncipe de Santo Antônio da Lapa, que ficava a 12 léguas a sudeste de Palmeira, ali já avistou alguns dos depoentes. Cortez foi recebido pelo juiz municipal e pelo escrivão com toda a deferência que merecia, na condição de comparte do capitão-mor. Após os cumprimentos de praxe e a rodada de chimarrão sapecando, o juiz Oliveira determinou ao escrivão que tomasse o depoimento da testemunha. Vasconcelos conhecia seu mister. Retirou da caixa que tinha consigo seus apetrechos de escrita, bem como o almaço de papel de ofício. Arrumou tudo meticulosamente na escrivaninha do escritório. Pegou o frasco de tinta que recebera de Porto Alegre poucos dias antes e colocou a tinta no tinteiro de vidro. Na sequência, limpou as penas metálicas recém-chegadas de Curitiba usando um velho trapo há pouco lavado, porém irremediavelmente manchado. Finalmente, alinhou na escrivaninha os amparos de madeira em que encaixaria as penas para a escrevedura, ajeitou-se na cadeira, abriu a primeira folha do almaço e preparou-se para tomar o depoimento.
Estabeleceu-se um ar de respeitabilidade na sala. O escrivão sabia como dar dignidade ao ato de tomar um depoimento. O juiz, que observava seu escrivão em silêncio, admirava-se da postura do burocrata que demostrava ter orgulho de seu ofício de escrevente legal. O estilo e o punho de Vasconcelos eram sua identidade, e a elegância de seu traço tinha reconhecimento até mesmo na capital, em São Paulo. O escrivão não tinha formação apurada – isto o constrangia de modo perceptível –, mas compensava sua pouca escolaridade com o impecável “legalês” com que rebuscava a linguagem que usava nos processos e títulos. Desde 1580, com a ascensão de Filipe II a rei de Portugal, a estrutura jurídica portuguesa passou a ser grandemente respeitada. Em qualquer domínio do império, depois do comandante, do chefe de armas e do juiz nomeado, o escrivão era a personalidade local de maior relevo. Em muitas localidades, o escrivão, que era o oficial que cuidava do cartório e encarregado de cuidar dos processos e sentenças e dos demais títulos e documentos do governo, tinha um prestígio que rivalizava com o do padre, ainda que a este coubesse a nobre tarefa de cuidar das almas.
O Juiz iniciou lendo o pedido de Justificação de autoria de Pedro Cortez:
— A requisição da Justificação solicita à autoridade constituída da localidade de Palmeira e com jurisdição sobre a dita localidade e sobre os Campos de Guarapuava e Campos de Palma, pare bem clarear os fatos narrados a seguir e que, para justificar o bem de seu direito, precisa esclarecer que:
1. É fato que tem havido muitas incursões e ataques dos índios na estrada que segue para a Província do Rio Grande do Sul, principalmente na região do Mato Castelhano e em diversos pontos da Comarca de Missões e do Distrito de Vacaria, naquele estado, o que tem resultado em muitas mortes e roubos, tanto dos viajantes quanto dos moradores daqueles lugares.
2. A crença geral é que os índios mansos de Guarapuava e Palmas têm tido grande parte em todos esses ataques, roubos e assassinatos.
3. Que, em geral, o índio Victorino Condá é acusado como sendo o líder que dirige todos os ataques e roubos que tem havido.
O juiz e o escrivão bem sabiam que a Justificação almejava nada menos do que reverter uma decisão do presidente da província. Um propósito nada simples e que só teria alguma chance de êxito caso demonstrasse ao novo presidente que seu antecessor tinha tomado uma decisão equivocada. De maneira que o primeiro passo precisaria ser desacreditar o cacique Victorino Condá. E, logicamente, para ter sucesso, precisava reunir e colocar na mesa acusações robustas e bem fundamentadas. A eles, especialmente a Vasconcelos, cabia montar as peças para formar o quebra-cabeças da Justificação. Tratava-se de tarefa que compreendiam ser de enorme dificuldade. Não existiam provas objetivas. Não existiam fatos documentados. Então, o escrivão teria de fazer o melhor que pudesse, se valendo apenas dos depoimentos das testemunhas.
O que o deixava com expectativa é que, no Brasil do império, na melhor tradição luso-brasileira, os relacionamentos e as influências frequentemente matizavam os fatos e as verdades. A verdade, frequentemente, era aquela que os poderosos diziam ser. A dificuldade é que, quando uma verdade era disputada por políticos de partidos opostos, como no caso, segurar uma verdade era tão custoso quanto apanhar galinha em terreiro molhado. Assim, por orientação do capitão-mor Domingos Ignácio, chamaram para depor diversas figuras destacadas da região, mas algumas se recusaram, dizendo que nada sabiam sobre a alegada má conduta de Condá. Finalmente, com a ajuda de Domingos Ignácio, conseguiram marcar depoimentos de cinco figuras influentes. Contudo, restava ainda outro senão: quatro dos seis nomes da lista eram membros da mesma família, os Santos Pacheco.
A relação dos depoentes era a seguinte:
— Clementino dos Santos Pacheco
— Joaquim Pacheco da Silva Rezende
— Antônio dos Santos Pacheco
— David dos Santos Pacheco
— Manuel José Braga
Todos os cinco depoentes listados eram negociantes e tropeiros que atuavam na compra e venda de animais e no transporte de mercadorias nas estradas do Sul. Era fato sabido que essas pessoas, os donos de tropas, procuravam ter a posse de áreas e de invernadas ao longo do caminho por onde suas comitivas cruzavam. Esses pontos de parada eram estratégicos, sendo usados para descanso e para recuperação de animais feridos ou esgotados. Até mesmo peões de tropa que adoeciam, ou se machucavam, eram acomodados nas invernadas para se recuperarem. Nas invernadas também era comum que os negociantes criassem algum gado e fizessem a doma de cavalos e mulas.
Ora, saltava aos olhos a quem quer que conhecesse os negócios desses depoentes que a volta de Pedro Cortez ao comando dos Permanentes de Palmas poderia significar uma bonança para a atividade comercial deles. Cortez, certamente, daria carta branca a seus “benfeitores” para que invadissem e tomassem posse das terras indígenas da região sob a proteção das autoridades e sem maiores preocupações com os índios. Tudo indica que o motivo maior do apoio dado à causa de Pedro Cortez é que os depoentes teriam em mente este objetivo.
Convém lembrar que, naquela época, as terras no entorno de Guarapuava já haviam sido todas tomadas, mas ainda restavam extensas áreas nos Campos de Palmas, nos Campos do Erê, nas campinas de Chapecó e no Irani – todas pertencentes aos Kaingang. Quanto aos Santos Pacheco, além do interesse por mais terras, independentemente de onde ou como pudessem obtê-las, havia uma preocupação bem específica: o major Clementino dos Santos Pacheco já havia tomado posse de uma grande área de terras no Mato Castelhano, às margens da estrada que seguia para Vacaria e para encontrar o Caminho de Viamão. Essas terras ficavam próximas a Passo Fundo. Além disso, na província vizinha a agressividade dos Kaingang tinha escalado muito, sobretudo em razão da rivalidade entre caciques como Nicuê, Nicofim e Doble, fato que muito preocupava os Santos Pacheco.
(Anos mais tarde, em 6 de fevereiro de 1856, Clementino dos Santos Pacheco pagou com a vida sua gula pelas terras dos Kaingang. Os índios do cacique Nicofim, após muitas tentativas de retomar a área no Mato Castelhano, emboscaram o invasor em Três Serros, na atual Cidade de Erebango, na Província do Rio Grande do Sul. Na ocasião, perderam a vida também um de seus filhos, seu sobrinho, José Pacheco, o capataz de sua fazenda, o filho deste e um escravo. Os índios, porém, pouparam duas crianças, a mulher do capataz e dois escravos que estavam na comitiva.)
O depoimento de Clementino dos Santos Pacheco, tomado pelo escrivão Vasconcelos e feito na presença do juiz, foi registrado nos livros com o seguinte conteúdo:
“Clementino dos Santos Pacheco, homem branco, casado e natural, morador nesta freguesia, que vive de seus negócios, disse ter trinta e seis anos de idade”.
Disse ele que, em relação ao primeiro tópico:
“O depoente sabe ser do conhecimento geral e dá seu testemunho como sendo verdadeira a informação de que tem havido muitos ataques dos índios na estrada que segue para o Rio Grande do Sul, principalmente na região do Mato Castelhano e em diversos pontos da Comarca de Missões e do Distrito de Vacaria”.
Em relação ao segundo item:
“O depoente disse ser verdade que os índios mansos de Guarapuava e Palmas eram os responsáveis por realizar grande parte de todos os ataques, roubos e assassinatos. Disse saber que isto é verdade porque, tendo estado diversas vezes entre os índios de Palmas e Guarapuava, tinha visto que muitos falavam português e eram mestres em montar a cavalo, o que só sabiam os índios mansos de Guarapuava”.
Em relação ao terceiro tópico:
“(…) é crença geral que o índio Victorino tem tomado parte nas incursões dos índios na Estrada do Sul e no Distrito de Missões”.
Antônio dos Santos Pacheco, o irmão mais velho dos Santos Pacheco, deu o seguinte depoimento:
“Antônio dos Santos Pacheco, homem branco casado, natural e morador nesta freguesia de Palmas, que vive de seus negócios, disse ter trinta e oito anos de idade”.
Em relação ao primeiro tópico:
“(…) disse que tem havido muitos ataques dos índios na estrada que segue para o Rio Grande do Sul, principalmente na região do Mato Castelhano e em diversos pontos da Comarca de Missões e do Distrito de Vacaria, afirmou que é verdade tudo o nele contido”.
Ao segundo tópico:
“(…) sabe que os índios mansos de Guarapuava e Palmas eram os responsáveis por realizar grande parte de todos os ataques, roubos e assassinatos. Disse que é verdade (que os índios mansos são os responsáveis pelos ataques), visto que tem se encontrado entre os índios que costumam atacar e fazer incursões e eles são reconhecidos como sendo os índios mansos de Guarapuava”.
Sobre o terceiro tópico disse:
“(…) é falado em geral ser o índio Victorino quem dirige os ataques que têm havido nos Matos Português e Castelhano (em Vacaria), na Estrada do Sul, assim como os ataques aos diversos moradores no Distrito de Missões”.
Os dois irmãos mais novos, David dos Santos Pacheco, de 32 anos, e Joaquim Pacheco da Silva Rezende, de 29 anos, repetiram em seus depoimentos o mesmo conteúdo combinado: os índios mansos de Guarapuava e de Palmas, sim, tomavam parte nos ataques e nas incursões dos índios tanto nos Matos Castelhano e Português quanto ao longo da Estrada do Sul, e eram, sim, responsáveis pelos roubos e ataques a moradores na Comarcade Missões. Disseram, igualmente, que, segundo a crença geral, o chefe Victorino Condá era o índio que comandava essas ações. Manuel José Braga foi o último a depor. Pouco à vontade, ele apenas se manifestou falando genericamente e em tom descompromissado. O escrivão fez constar:
“Manuel José Braga, homem branco, solteiro, natural da Villa de Itapetininga, morador do Sul, que vive de seus negócios, diz ter trinta e nove anos. Ao testemunhar, com relação ao primeiro quesito, disse ser verdade que existe uma crença geral de que tem havido muitos ataques dos índios na estrada que segue para o Rio Grande do Sul, principalmente na região do Mato Castelhano e em diversos pontos da Comarca de Missões e do Distrito de Vacaria”.
Tudo o que ele tinha a dizer é que era “verdade” que muitas pessoas “acreditavam” que havia “muitos ataques” de índios. Ele, no entanto, não disse nada sobre o que ele mesmo acreditava. Mais vago e impreciso, impossível. Pode-se deduzir da pouca convicção com que deu o depoimento que ele mesmo nada tinha presenciado de relevante e não tinha nenhuma informação de primeira mão sobre algum ataque específico. E, sendo temente a Deus, como o eram quase todos os homens de negócios envolvidos com animais e tropas da época, não colocaria sua alma em risco depois de ter jurado dizer a verdade. Poderia até não revelar toda a verdade; poderia “esquecer” alguns fatos. Mas “mentir”, jamais…
Ao segundo quesito, aquele que perguntava se os ataques seriam conduzidos pelos índios mansos de Guarapuava e Palmas, respondeu de forma ainda mais evasiva. Tudo o que sabia era por “ouvir dizer”. Finalmente, quando perguntado sobre o terceiro tópico, especialmente formulado para incriminar Victorino Condá, Manuel José Braga preferiu desconversar e não se comprometer. Nada sabia, exceto especulações e mexericos, e assim, por nada saber, nada afirmou.
Pedro Cortez e seu padrinho, Domingos Ignácio, que esperavam pronunciamentos contundentes, ao lerem os depoimentos, ficaram desapontados. Os depoimentos eram frágeis, vagos e muito genéricos. Estavam ali as declarações dos Santos Pacheco, cuja importância não podia ser menosprezada. Os membros da família eram figuras influentes, grandes proprietários, prósperos donos de tropas e ricos negociantes de gado. David dos Santos Pacheco, aliás, era admirado por ser muito bem articulado e ter excelente oratória, o que o distinguia entre os irmãos, e já o fazia respeitado pela grande habilidade política. Tanto que acabou por se tornar o mais proeminente dos irmãos e receber o título de Barão dos Campos Gerais. David havia nascido na cidade de Lapa, que fazia parte do caminho dos tropeiros entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba, em 28 de junho de 1810, e era filho do capitão de ordenanças Manoel dos Santos Pacheco e de dona Maria Collecta da Silva.
Homem ativo, de visão e hábil negociador, desde muito jovem se fez tropeiro e logo amealhou respeitável fortuna. Iniciou seus negócios aproveitando a topografia da sua região, adquirindo terras e nelas construindo grandes invernadas para que as comitivas pudessem realizar paradas de descanso e engorda dos animais. Dessa maneira tornou-se comerciante respeitado e proprietário de comitivas de tropas de gado e muares. Ele ampliou suas posses constituindo fazendas de criação também no Rio Grande do Sul, em Rio Negro, no Paraná, e Itapetininga, em São Paulo. David Pacheco foi um dos maiores tropeiros do Brasil no século XIX, e com o prestígio adquirido como comerciante de gado é que ingressou na política. Foi um dos fundadores do Partido Liberal e iniciou a sua carreira política sendo eleito vereador e, logo, para a presidência da Câmara Municipal da Lapa, no Paraná. Em pouco tempo, foi galgando posições até chegar ao cargo de vice-presidente da Província do Paraná, quando a província foi criada.
Durante um período, David Pacheco foi comandante da Guarda Nacional em Curitiba e, durante a Guerra do Paraguai, organizou um batalhão de voluntários com 150 soldados que foram fardados e equipados com seus recursos. Tendo acumulado uma fortuna considerável e conquistado uma posição de grande prestígio, em 31 de maio de 1880 recepcionou, em seu solar na Vila de Lapa, a comitiva do imperador D. Pedro II, acompanhado de Dona Teresa Cristina, além de nomes importantes como o almirante Tamandaré e o ministro da Justiça Manuel Pinto de Sousa Dantas. Em sua mansão, D. Pedro II desfrutou de momentos agradabilíssimos. Trocou ideias sobre o futuro do império e da província, debateu a questão dos nativos e da escravatura.
Três meses depois de ter recebido o imperador em sua mansão, David dos Santos Pacheco foi distinguido com o título de Barão dos Campos Gerais. Mas, não obstante o prestígio pessoal que já na época os irmãos Santos Pacheco desfrutavam, o caso é que os depoimentos deles não apresentavam fatos reais. Constituíam-se de pura intriga. As alegadas provas se resumiam a um amontoado de boatos que soavam suspeitos pela inconsistência e pela parecença das aleivosias. Apesar do esforço do escrivão Vasconcelos, que fez o que pôde para encorpar os depoimentos, não havia como tirar evidências sólidas de testemunhos que, como areia, escorriam por entre os dedos.
Também estava claro o propósito das maledicências dos Santos Pacheco: expor o capitão Hermógenes como aliado e protetor do índio Condá. Fazer essa conexão era a chave para justificar o pedido de afastamento do comandante dos Permanentes de Palmas. O problema é que, enquanto os três irmãos repetiam em uníssono as mesmas acusações, estas não eram corroboradas pelo depoimento de Manuel José Braga. Trata-se de um detalhe relevante, uma vez que Manuel, também negociante de animais e, assim como os irmãos Pacheco, interessado em conseguir se apossar de mais terras dos Kaingang, era a única testemunha que não fazia parte da família Santos Pacheco e, diferentemente deles, escusou-se de inculpar Condá.
Mesmo com uma análise superficial ficava evidente que na primeira rodada de depoimentos não havia nada de substantivo contra Condá. A Justificação se mostrava flagrantemente insuficiente. Sem fatos objetivos e sem evidências, a acusação a Condá e aos índios mansos cheirava a um complô recheado de intrigas. E o interesse dos Santos Pacheco se mostrava escancarado ao saber-se que Clementino dos Santos Pacheco tinha fortes motivos pessoais para afastar os Kaingang do caminho: havia invadido terras indígenas e temia ser atacado pelos índios.
Concluído o “dossiê”, Domingos Ignácio e Pedro Cortez se reuniram em Palmeira para examinar o documento de Justificação. Leram e releram o conteúdo e terminaram por concluir que, do jeito que estava, dificilmente sensibilizaria o novo presidente província. Sem fatos mais robustos ficava difícil provar algo contra Condá e reverter a decisão de afastar Cortez do comando dos Permanentes, tomada pelo presidente anterior. O dossiê estava inconsistente demais, rarefeito demais, precário demais. Tinham de pensar em outra forma de engrossar o caldo.
Domingos Ignácio tomou para si a tarefa. Procurou seus parceiros, os funcionários graduados, fazendeiros e homens de negócio da região e foi saber deles como se posicionavam em relação à causa que estava promovendo. A maioria ficou do seu lado, afinal, muitos achavam, mesmo, que os índios eram um estorvo. Mas, com uma ou outra exceção, foram unânimes em opinar que o “dossiê” parecia fraco demais. Em razão dessas consultas, resolveu seguir algumas das sugestões que recebeu e incluir mais alguns depoimentos no “dossiê”. Sem demora, foi o que tratou de fazer. Na época, existia um tipo de petição do opulento arsenal jurídico lusitano chamado Súplica. A petição que preparou foi enviada para três figuras de relevo social de sua área de influência e fazia quatro indagações a serem respondidas em depoimentos por escrito. As respostas deveriam ser remetidas a Joaquim Ribeiro da Silva, o escrivão do cartório de paz e notas de Palmeira.
Os destinatários que receberam essas ditas Súplicas foram o comandante do presídio de Guarapuava, Antônio da Rocha Loures; o subdelegado Antônio de Sá e Camargo, que também era o comandante do Esquadrão de Cavalaria Nacional estacionado na região; e o vigário da freguesia de Palmeira, o reverendo Antônio Braga de Araújo. O padre, além de ser a autoridade religiosa do povoamento, era também parente de Domingos Ignácio.
A notificação da Súplica, depois de uma introdução que explicava ser uma providência destinada a completar informações do processo de Justificação que Pedro de Siqueira Cortez movia contra o índio Victorino Condá, pedia resposta a quatro perguntas:
1. Se os Índios mansos residentes no Campo de Palmas e ao longo das margens do Rio Pelotas tinham vindo a este lugar (região de Palmeira) para assassinar diversas pessoas;
2. Se os mesmos índios tinham também cometido assassinatos na localidade vizinha de Palmas;
3. Se o índio Victorino tinha sido expulso e “deportado” para outros lugares por causa de seus “maus costumes”;
4. Se o mesmo índio Victorino teria matado e roubado nossa gente na estrada que vai desta província para o Sul.
A primeira pergunta, ao abarcar toda a região que ia de Palmas até o Rio Pelotas, que fica a cerca de 500 quilômetros a Leste de Palmeira, tornava qualquer resposta uma especulação. Existiam alguns milhares de índios naquele espaço entre as duas referências, com dezenas de chefes. Além disso, na área em volta do Rio Pelotas também existiam índios Xokleng, que falavam a mesma língua Jê Meridional dos Kaingang, mas tinham cultura distinta e se mostravam mais arredios e agressivos que os Kaingang, de quem eram inimigos. Portanto não se relacionavam com os índios “mansos” de Condá, nem com eles se misturavam ou deles aceitavam liderança.
A segunda pergunta indagava se “também em Palmas os índios cometeram assassinatos”. O “também” no corpo da pergunta tinha um claro viés capcioso e procurava induzir a uma resposta. Na terceira pergunta o escrivão indagava se Victorino Condá havia sido expulso por seus “maus costumes”; na quarta pergunta, o requerimento pedia para o respondente informar se o índio, referindo-se a Victorino, matava e roubava na Estrada do Sul (Caminho de Viamão) e em Guarapuava. Quando escreveu sua resposta, Antônio de Sá e Camargo, subdelegado em Guarapuava, identificou-se e atestou:
“Major Antônio de Sá e Camargo, Comandante do Esquadrão da Cavalaria Nacional desta Freguesia, e Subdelegado de Polícia da mesma. Atesto a quem interessar possa que os índios moradores em Palmas e margens do Rio Pelotas tinham perpetrado neste distrito horrorosos assassinatos em gente nossa, que os mesmos índios mataram em Palmas uns tantos indivíduos; que o índio Victorino, por causa de seu sempre péssimo procedimento, tem sido levado preso desta para outras partes da província; que a voz geral é que o mesmo Victorino tem presidido assaltos e assassinatos de viajantes na estrada para a província do Sul; que tem roubado dinheiro destas vítimas e traz o dinheiro para a povoação de Palmas, neste distrito; que consta ter o mesmo índio Victorino sequestrado crianças de famílias residentes na Província do Rio Grande do Sul e as tem apresentado em Palmas. O referido é verdade.
Guarapuava, 2 de abril de 1844”.
Outro depoimento foi o de Antônio da Rocha Loures, responsável pela prisão do distrito, em Guarapuava. Rocha Loures já tinha 63 anos por ocasião de seu testemunho, uma vez que nasceu em 3 de março de 1781, em São José dos Pinhais, no Paraná. Como já era considerado idoso, o cargo que tinha de diretor da cadeia da região era um privilégio que devia ao apoio que recebia do capitão-mor. Desagradá-lo, portanto, estava fora de questão. Seria colocar seu cargo em risco e, na prática, encerrar sua carreira, algo que ele ainda não desejava fazer.
De modo que sua reposta estava alinhada com os argumentos do major Antônio de Sá e Camargo. Reiterava Rocha Loures, no seu depoimento, que, sim, era verdade que o índio Victorino Condá, “por costumes sempre reprovados”, tinha sido preso por duas vezes e mandado para a cidade de São Paulo. Nas palavras escolhidas pelo comandante da prisão, sempre se escudando na difusa “voz pública”, o mesmo índio Victorino seria o responsável pelos assaltos cometidos na Estrada do Sul, “donde resultou ter aparecido em poder do mesmo Victorino, e de outros índios, dinheiros roubados, e ‘athé crianças arrancadas de gente noça naquelles actos horrorosos!’”.
Concluiu seu depoimento, escrito de próprio punho, afirmando, textualmente, que “o referindo hé tudo verdade, e afirmo em fé de meo cargo”. Este fecho apresenta uma sutil nuance através da qual o autor evita se comprometer pessoalmente sobre os fatos atestados: consignava que o conteúdo do depoimento não era “sua fé” pessoal, ou sua convicção pessoal. Em vez disso, tudo o que havia sido dito era “em fé de meu cargo”, ou seja, com base em uma “verdade oficial”, com o qual ele, na condição de agente do governo e ocupante de um “cargo público”, precisava se esposar.
A melhor prova de que nem ele, o patriarca Rocha Loures, acreditava na veracidade do que tinha declarado veio alguns poucos meses depois: seu filho, o alferes Francisco da Rocha Loures, ao receber do governo da província a incumbência de abrir o novo caminho para o Sul, tratou de, prontamente, sair em busca exatamente do cacique Victorino Condá para pedir ajuda na empreitada. Seu irmão, João Cypriano da Rocha Loures, também se integrou ao grupo de exploradores. Ora, tivesse Antônio da Rocha Loures qualquer dúvida sobre o caráter e a confiabilidade de Victorino Condá, jamais permitiria que ambos seus filhos se embrenhassem na floresta em sua companhia e, com ele, atravessassem o Goio-En e se aventurassem em direção ao território dominado pelo temido grupo do cacique Nonoai.
Finalmente chegou o depoimento do padre Antônio Braga de Araújo, vigário da igreja na freguesia de Belém de Guarapuava. A paróquia era importante e o padre, um parente de Domingos Ignácio, o capitão-mor, também tinha favores a agradecer. Seu depoimento deixa entrever o constrangimento de não ter como recusar um pedido de seu mentor. Nele, o vigário concordou que, de fato, era “opinião geral” que os quatro tópicos seriam verdadeiros. Em seguida acrescentou uma verdade conhecida por todos e que não provava nada: “o índio Victorino, por seus costumes sempre maus, tem por algumas vezes sido lançado deste lugar para São Paulo, e mesmo para a Fortaleza de Santos”. Ou seja, que Victorino Condá havia sido aprisionado e mandado para prestar esclarecimentos em São Paulo. Não disse, contudo, que estas “algumas vezes” se resumiam, na realidade, a “duas vezes”, sendo uma delas para a Fortaleza de Santos. Essas duas tentativas de inculpar Condá resultaram em nada, com o retorno do cacique sem incriminação alguma.
Com a juntada de mais essas três manifestações ao “dossiê”, Domingos Ignácio precisou dar-se por satisfeito. Não conseguiu outros depoimentos de figuras representativas. Se a Justificação não se apresentava tão convincente quando desejava, confiava que seus amigos do Partido Conservador, na capital, poderiam ajudar apoiando sua causa junto ao novo presidente da província, Manuel Felizardo de Souza Mello, que, seria de imaginar, devia ter preocupações com a fluidez da situação na fronteira da colonização, uma área sensível e intricada. E, pensando em dar a maior robustez possível a seus argumentos, Domingos Ignácio resolveu juntar ao “dossiê” cópias de três ofícios que haviam sido recebidos por Pedro Siqueira Cortez no tempo em que fora o comandante da polícia em Palmas.
Os ofícios eram respostas para missivas originalmente enviadas pelo então comandante, em janeiro de 1843. Nelas Cortez fazia um histórico do que acontecia nos Campos de Palmas e pedia um relato da situação geral vigente em cada uma das povoações localizadas em áreas de influência sobre seu povoado. Os dois primeiros dos citados ofícios juntados ao processo de Justificação foram os recebidos do capelão do povoado de Palmas, padre Manuel Cabezas, e do sargento do destacamento de Palmas, Manuel Carlos Taborda. Na linha dos demais documentos, os dois ofícios eram apenas respostas protocolares, relatos genéricos que nada tinham de substantivo e nada acrescentavam. O terceiro ofício, contudo, apresentava uma declaração pormenorizada da situação da povoação de Passo Fundo e dos Campos de Cima da Serra, localizados na Província do Rio Grande do Sul.
O autor do ofício era Joaquim Fagundes dos Reis, que exercia a função de comissário de Passo Fundo desde 1830, quando foi designado pela Comandância Militar de São Borja para ocupar o cargo na povoação nascente. Na época em que Fagundes dos Reis foi enviado ao povoado de Passo Fundo sua missão se limitava a fazer cumprir as leis do império e distribuir justiça na nova povoação. Foi com esse intuito que se estabeleceu no esplêndido vazio da vastidão do planalto. Pensava ele que teria pouco a fazer em região tão despovoada, porém, logo, em 1833, recebeu novo encargo, sendo designado para a função de inspetor do quarteirão. A nova incumbência o fazia coletor de impostos e taxas na região. Para bem desempenhar a nova atribuição, instalou um posto de arrecadação e preparou-se para tributar o gado, muares e bestas de carga, erva-mate e madeira produzidos na área. Passo Fundo, privilegiado pela natureza, já mostrava enorme potencial produtivo e econômico, e o governo queria garantir, desde logo, sua parte.
De novo, mal iniciava a cobrar e taxar tudo o que era devido ao Erário, recebeu ainda mais uma nova delegação, sendo elevado à condição de juiz de paz. Dessa forma, Fagundes dos Reis havia se convertido na mais importante autoridade local por ocasião da eclosão do movimento farroupilha. De início, o comissário ficou um tanto indeciso sobre o lado que devia tomar, mas como era maçom resolveu ficar do lado de sua confraria, que apoiava os revolucionários. Com o governo imperial caçando inimigos em postos de chefia, Fagundes dos Reis chegou a ser preso e enviado para as autoridades imperiais, mas retornou ao posto tempos depois, após assumir um compromisso de neutralidade.
No ofício enviado a Cortez, Fagundes dos Reis fazia um extenso relato sobre a região do Planalto Médio, sobre os Matos Castelhano e Português e sobre os Campos de Cima da Serra, também chamados Campos de Vacaria. Abordava a questão dos índios, dos imigrantes e colonos, e a atividade militar entre as forças pró e contra o governo imperial. Um bom espaço era dedicado a considerações sobre a situação particular da povoação de Passo Fundo.
O relato sobre os Campos de Cima da Serra dava conta da vasta área com mais de 20.000 km² localizada no nordeste da Província do Rio Grande do Sul e que chegava até a divisa com Santa Catarina. No ofício, o comissário começava por descrever o relevo da área, acidentado e difícil, possivelmente menos para os Kaingang e os Xokleng, índios que tinham intimidade com o território. Relatava que, vez por outra, chegavam a seu conhecimento incidentes, eventos e assaltos executados por indígenas. Destacava que a ocorrência mais grave havia sido um massacre ocorrido em 1839, quando os índios teriam matado 23 pessoas nas fazendas e ervais próximos a Passo Fundo.
Esse ofício do comissário de Passo Fundo era o que mais detalhava a realidade da região do outro lado do Rio Uruguai, e Domingos Ignácio e Cortez haviam propositadamente feito sua inclusão no “dossiê” com a finalidade de insinuar que a autoridade de Condá se estendia sobre essa área. Sugeriam ainda que, confirmada essa hipótese, o cacique deveria ser responsabilizado pelas atividades ilegais dos Kaingang que lá ocorriam.
Outro propósito da juntada do ofício do comissário era o de observar ao presidente paulista o quão próximos estavam os Campos de Palmas da região conturbada de Passo Fundo, especialmente daquela comandada por Nonoai, que ficava a não mais de 10 léguas de distância e que podia ser alcançada em dois dias a pé. A região dominada pelos Kaingang de Nonoai era quase toda desconhecida dos brancos, com matas de araucária e capões de mata variada, e farrapos errantes que tinham sido ligados à Revolução Farroupilha – que já estava em seus estertores – continuavam a ser fator de desestabilização. Existiam, ainda, grupos de renegados que percorriam os rincões perdidos da província. De modo que a proximidade entre os Campos de Palmas e Passo Fundo, um território contíguo apenas separado pelo Rio Uruguai e facilmente acessível pelo Passo do Goio-En, recomendaria cautela na indicação dos ocupantes de cargos de segurança do lado paulista, como no caso do comando dos Permanentes da polícia nos Campos de Palmas.
Havia que levar em conta que o comércio de gado, muares e outros animais, a produção de erva-mate e o corte das madeiras nobres eram atividades econômicas que vinham tomando impulso em Passo Fundo antes da Revolução Farroupilha e voltariam a se expandir logo que as coisas se normalizassem. Tropas de animais que vinham de São Borja e Uruguaiana cresciam de tamanho. Algumas comitivas, que passavam por Passo Fundo, registravam 1.000 ou mais muares, e seguiam atravessando o Mato Castelhano, o Campo do Meio e o Mato Português, e marchavam para os Campos de Vacaria para entrar no Caminho Geral. Eram fortunas vivas de semoventes que tomavam o rumo da Feira de Sorocaba, em São Paulo.
Enquanto isso, carretas puxadas por bois, carregando erva-mate, começavam a sair de Passo Fundo no rumo de Cruz Alta e seguiam para os comércios na fronteira com a Argentina e Paraguai. Tropas com cargas em lombo de burros também movimentavam carregação de erva-mate tomando o caminho do Botucaraí até Rio Pardo, de onde a valorizada erva-mate e o chá de mate eram distribuídos para outros mercados.
Os habitantes do Planalto Médio do Rio Grande do Sul, em sua maioria “birivas” paulistas e paranaenses, nunca haviam se tornado “farrapos”, nem gostavam da ideia de se separarem do mercado de seus produtos. Portanto, não aceitavam uma separação unilateral da província. Seu comércio era voltado para o Centro e o Norte do país, e sua estrada de negócios era o Caminho de Viamão. Não havia interesse na separação nem queriam repudiar ou substituir o governo imperial. Mesmo os que apoiavam a causa farroupilha, como o comissário Joaquim Fagundes dos Reis, de Passo Fundo, o faziam mais em solidariedade à maçonaria, a amigos ou por um sentimento de lealdade à província, mas com pouco entusiasmo e sem convicção. Para esses pioneiros, os interesses dos produtores de charque e as demandas dos fazendeiros da fronteira eram tão distantes e invisíveis como o outro lado da Lua. Agora, com o final da Revolução Farroupilha, os habitantes da região de Passo Fundo e dos Campos de Cima da Serra estavam empenhados em consolidar a paz. Desejavam reencontrar seu destino e reavivar seus sonhos. Ansiavam pela volta da normalidade. Queriam que a Província de São Pedro esquecesse sua beligerância e acertasse um relacionamento construtivo com o império. Esta era uma condição fundamental, imperativa, para que o progresso retornasse.
Os antigos moradores da região lembravam que Passo Fundo, nos idos de 1835, antes do início das hostilidades e da Revolução Farroupilha, era uma próspera povoação que contava com 419 habitantes. Contudo, em consequência da conflagração, que se iniciou em 1835, grande parte dos seus habitantes preferiu mudar-se dali. A localização fazia de Passo Fundo, na época, a área habitada mais próxima do Alto Uruguai, sendo assim alvo de constantes incursões. Naqueles anos turbulentos, viver ali passou a ser um inferno. Quaisquer tropas que lá aportassem, de qualquer dos lados da guerra, percorriam as fazendas para “requisitar” mantimentos, gado e cavalos. Como “pagamento”, deixavam um “recibo” que seria quitado um dia, se e quando seu lado ganhasse. Sem poder evitar essas recorrentes pilhagens, muitos colonos e fazendeiros mudaram-se para outras regiões da província. Esse êxodo fez com que, em 1844, Passo Fundo tivesse sua população permanente reduzida a cerca de 100 residentes, sem contar uma dúzia de escravos de proprietários da região, especialmente os da Fazenda Nossa Senhora da Conceição Aparecida, de Manoel José das Neves. Por outro lado, saltava aos olhos o extraordinário cabedal econômico da região. Seus campos, verdes e férteis, eram uma preciosa dádiva da natureza.
Seus potenciais, tanto para a pecuária quanto para a agricultura, eram evidentes, aos quais se somavam a abundância de áreas bem fornidas de madeiras nobres e os vastos ervais praticamente intocados. Portanto, a inclusão do ofício do comissário Joaquim Fagundes dos Reis na petição, respondendo às perguntas de Pedro Cortez sobre Passo Fundo e sobre os Campos de Cima da Serra, visava ao duplo propósito de inculpar os Kaingang pela gravidade da atividade criminosa dos indígenas sob influência de Condá, assim como demonstrar o potencial econômico que estava sendo ignorado por culpa dos índios rebeldes, um despropósito que estaria a exigir um chefe de polícia mais atuante.
Os argumentos do “dossiê” não deixavam de ressaltar a complexidade da relação de São Paulo com a província vizinha de São Pedro do Rio Grande do Sul, lembrando que a Revolução Farroupilha ainda mantinha seus efeitos na região da divisa entre as duas províncias. O movimento já se mostrava esgotado e parecia caminhar para a pacificação, especialmente em razão do comando do marechal de campo, o Conde de Caxias, que havia assumido a presidência da província em 1842. Mas nem por isso se podia descurar dos riscos de alguma investida rebelde. Em 1844 ainda havia muitos grupos insurrectos que se dispunham a continuar a luta e, dado que estavam sendo encurralados no Sul da província, o risco de virem a se refugiar na região não era desprezível.
Era notório que entre as causas motivadoras da Revolução Farroupilha estava o descontentamento dos estancieiros do Sul com os impostos escorchantes que o governo imperial cobrava sobre o charque e o couro. Esses eram os principais produtos da região fronteiriça do Rio Grande do Sul. Essas mercadorias, além sofrerem com os altos impostos com que eram taxadas, ainda sofriam a concorrência desleal dos similares vindos dos países vizinhos, que entravam no Brasil com menos impostos e menos encargos.
As regiões de Passo Fundo e do Alto Uruguai Gaúcho, por estarem distantes do epicentro dos embates, não registraram combates decisivos, mas nem por isso deixaram de ter envolvimento com episódios militares de importante significado histórico. Possivelmente, o mais notável tenha sido a derrocada das forças imperiais que se deu entre Passo Fundo e Cruz Alta. Essas forças, comandadas pelo herói da independência da Bahia, o general Pierre Labatut, que tivera seu nome abrasileirado para Pedro Labatut, sofreu na região uma derrota insólita e devastadora.
Labatut na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul
Retrato de Pedro Labatut por Oscar Pereira da Silva – José Rosael/Hélio Nobre/Museu Paulista da USP.
A passagem definitivamente patética das forças sob o comando do general Labatut por Passo Fundo, em janeiro de 1841, se constituiu em um episódio surpreendente. O galante Pierre Labatut, que fizera parte do Exército de Napoleão, não era um oficial qualquer. De modo que foi espantoso ver o general Labatut – reconhecido como herói na Colômbia, comandante revolucionário na Guerra de Independência da América espanhola ao lado de Simon Bolívar, que lutou na Guerra da Independência dos Estados Unidos da América ao lado do Marquês de La Fayette, que se consagrou como o heroico comandante da luta pela independência da Bahia, onde expulsou os portugueses de seu enclave em Salvador – encontrar a derrota e a humilhação para os Kaingang em escaramuças no planalto gaúcho. A trágica marcha de Labatut à sombra dos pinheirais se revela uma das mais estranhas histórias ligadas à Guerra dos Farrapos.
O general comandava a portentosa Divisão Paulista e viera precedido de bandeiras e fanfarras, com suas forças abastecidas com o que havia de melhor em armas e equipamentos, tanto que contava até com canhões feitos nos arsenais do Rio de Janeiro. Chegou à província rebelada com a missão de enfrentar, combater e aniquilar os revolucionários farrapos na Província do Rio Grande do Sul.
Ao chegar ao país, em 1819, o general Labatut foi morar no Rio de Janeiro, onde residia quando, a 3 de julho de 1822, foi convidado a integrar as incipientes Forças Armadas brasileiras. Pela carência de oficiais experientes, recebeu o posto de brigadeiro e sua primeira missão foi organizar o Exército Pacificador e iniciar a guerra da independência a serviço do regente, Dom Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cypriano Serafim de Bragança e Bourbon, este o nome completo do então futuro imperador Dom Pedro I, e a serviço de José Bonifácio de Andrade e Silva, o “Patriarca da Independência”.
Ao assumir o encargo, o general Labatut registrou seu nome na história do Brasil como o criador do primeiro corpo de um Exército nacional organizado, sendo o precursor do Exército Brasileiro. A seu crédito, ostentava a vitória sobre os portugueses e a expulsão das forças lusitanas durante a guerra da independência da Bahia, um movimento que teve início em 19 de fevereiro de 1822 e culminou com desfecho em 2 de julho de 1823.
Os acontecimentos imediatamente anteriores e que resultaram na independência do Brasil têm seu porto de partida em agosto de 1820, na cidade do Porto, em Portugal. Naquele agosto eclodiu a chamada Revolução Liberal do Porto. Tratava-se de um movimento militar que não demorou a espalhar-se para outras regiões do país até chegar à capital, Lisboa. Rapidamente o movimento conquistou o apoio da burguesia, do clero, da nobreza e do Exército, enfim, dos mais importantes setores da sociedade portuguesa. Embora tenha sido originária de Portugal, a Revolução do Porto influenciou profundamente os rumos da história brasileira no século XIX.
Em 1820, Portugal encontrava-se imerso numa grave crise econômica, política e social. A principal causa estava no fato de, em 1808, a família real ter deixado a metrópole e ter se instalado no Brasil, para onde tinha vindo a fim de escapar da invasão das tropas francesas de Napoleão. A transferência da corte portuguesa para o Brasil, sua maior colônia, produziu enormes consequências em Portugal. A mais grave, sob a óptica dos portugueses, foi a abertura dos portos brasileiros às “nações amigas”. O Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas foi uma Carta Régia promulgada pelo príncipe regente de Portugal, Dom João de Bragança, no dia 28 de janeiro de 1808, em Salvador, na Capitania da Bahia de Todos os Santos. Foi a primeira Carta Régia promulgada pelo príncipe regente no Brasil, que a assinou apenas quatro dias após sua chegada, acompanhado da família real e da corte portuguesa, em 24 de janeiro de 1808.
A Carta marcou o fim do Pacto Colonial, ou “Exclusivo Metropolitano”, sistema de comércio mercantil que obrigava todos os produtos destinados às colônias a passarem antes pelas alfândegas da metrópole. Ou seja, no caso específico do Brasil, os demais países não podiam vender produtos destinados ao país, ou daqui importar matérias-primas diretamente, sendo forçados a fazer seus negócios através de intermediários lusitanos. Calcula-se que, no início do século XIX, cerca de dois terços das exportações portuguesas para o Brasil eram, na verdade, reexportações de produtos de outros países. Ao pôr fim ao monopólio comercial português sobre o Brasil, a Carta acabava com um lucrativo monopólio que havia perdurado ao longo de, praticamente, três séculos. Essa medida afetou a economia lusitana e, em especial, prejudicou a burguesia comercial do país. De modo que a perda dos privilégios do monopólio gerou desagrado em Portugal e levou os revolucionários insatisfeitos a buscar reestabelecer o império português nos moldes existentes antes da vinda ao Brasil das cortes de Lisboa.
Em Salvador, a maioria da população, ao tomar conhecimento da Revolução Liberal, se posicionou ao lado do movimento em curso e apoiou a convocação das Cortes Gerais em Lisboa. Atendendo à convocação dos revolucionários, a cidade enviou para Portugal diversos deputados, como Miguel Calmon du Pin e Almeida e outros, que rumaram para a metrópole para fazer a defesa dos interesses locais. Mas a posição da cidade não foi unânime. Existiam vários partidos e opiniões. Havia o Partido Liberal, que unia portugueses e brasileiros interessados em manter o status de Reino Unido, condição que o país havia conquistado com a vinda da corte para o país, e havia o Partido dos Lusitanos, majoritariamente formado por portugueses natos que queriam o retorno do Brasil à condição de colônia de Portugal.
Dado que os interesses eram antagônicos, os ânimos se acirraram. Era impossível conciliar os portugueses, saudosos do lucrativo monopólio e interessados em manter o Brasil como colônia, e os brasileiros que, independentemente de suas inclinações como liberais, conservadores, monarquistas e até republicanos, decidiram superar suas divergências para se unirem pela independência. Então, em 14 de junho de 1822, a Câmara da Vila de Santo Amaro da Purificação decide unilateralmente pelo rompimento com Portugal e faz ao povo uma proclamação que pregava a unidade nacional e reconhecia a autoridade de D. Pedro I.
Estava proclamada a secessão e abertas as hostilidades. Os portugueses não aceitavam abrir mão da rica colônia da América e parte dos brasileiros não mais aceitava a submissão a Portugal. A tensão crescia sob os preparativos das forças portuguesas para reprimir a rebelião quando, em outubro de 1822, se aproximam da Bahia os primeiros reforços para os patriotas baianos. O comandante dessas tropas patrícias era o general Pedro Labatut. A tropa de Labatut era constituída, quase toda, por portugueses que haviam decidido lutar do lado brasileiro, já que ainda não existia uma força verdadeiramente nacional. Ao chegar, contudo, o general foi impedido de desembarcar pela ostensiva presença das forças portuguesas, o que o obrigou a seguir mais para o Norte e a desembarcar em Maceió, Alagoas.
Em 1822, o ano em que se deu a independência do Brasil, a aspiração de emancipação política na Bahia já era um anseio maduro na sociedade. Um sentimento que se mostrava irrefreável e que, há tempos, já vinha sendo alimentado pelo povo baiano. A melhor evidência deste anseio pela liberdade já se registrara 23 anos antes, na data fatídica de 12 de agosto de 1798, quando alguns membros do movimento pela independência da Bahia se encheram de coragem e, deixando de lado a cautela, se agruparam para colar cartazes nas esquinas e distribuir panfletos na porta das igrejas da cidade de Salvador. Um desses panfletos dizia:
“Animai-vos Povo baiense que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais”.
O governo da Capitania da Bahia quando tomou conhecimento do acontecido encheu-se de furor. Ora, que louca ousadia; que tresloucado atrevimento era aquele de alguns abusados sem eira nem beira saírem a proclamar que “um dia seremos irmãos”? Como assim, “um dia seremos iguais”? Aquela afronta, que os portugueses viram como “desavergonhada”, passava de todas as medidas. Estava claro, para os mandatários locais, que não havia como aceitar o ultraje. Não era possível, entendiam os governantes, deixar passar sem resposta exemplar uma provocação de tal modo desavergonhada e insolente. A resposta imediata foi colocar na rua as forças de segurança e a polícia. Seguiram uma a uma as delações e denúncias feitas pelos portugueses e pelos moradores pró-Portugal. Em dias tinham aprisionado centenas de pessoas. Entre elas estavam militares, clérigos, funcionários públicos, artesãos e gente de todas as classes sociais.
Usando coações, ameaças e torturas, a polícia terminou por identificar os principais líderes do movimento. Após um julgamento sumário foram condenados à forca e levados ao cadafalso, no dia 8 de novembro de 1799, os seguintes “conspiradores”:
— Soldado Lucas Dantas do Amorim Torres;
— Aprendiz de alfaiate Manuel Faustino dos Santos Lira;
— Soldado Luís Gonzaga das Virgens; e
— Mestre-alfaiate João de Deus Nascimento.
Um quinto condenado à pena capital, o ourives Luís Pires, ou desconfiando que seria procurado, ou sabedor das buscas a tempo, conseguiu fugir. Especulou-se que ele, que por força de sua profissão, tinha algumas peças de ouro, com elas poderia ter subornado os agentes que teriam ido prendê-lo. Verdadeiro ou não, o fato é que dele nada mais se soube e nunca mais se ouviu falar. Para marcar posição, a sentença da Justiça colonial determinou que todos teriam os seus nomes e memórias “malditos” até a terceira geração. E para deixar claro que não teria contemplação com outros eventuais movimentos pela independência, os despojos dos executados foram expostos em lugares públicos:
— A cabeça decepada de Lucas Dantas ficou espetada no Campo do Dique do Desterro;
— A cabeça de Manuel Faustino, no Cruzeiro de São Francisco;
— A cabeça de João de Deus, na Rua Direita do Palácio; e
— A cabeça e as mãos de Luís Gonzaga foram pregadas na própria forca, que fora levantada na Praça da Piedade, então a principal da cidade.
Os despojos dos condenados, depois de exibidos à população por cinco dias, já malcheirosos, foram sepultados em local desconhecido. O povo, logicamente, ficou atemorizado, mas a aspiração da independência só fez aumentar. À boca pequena, execrava os lusitanos, sua arrogância e prepotência, e manifestava de mil modos a certeza de que um dia iria raiar a liberdade. Um dia o povo vingaria seus algozes. Assim, armados de paciência, evitavam novas provocações, enquanto, irmanados, sonhavam com o dia em que viveriam em um país que seria o seu.
Passado pouco mais de um lustro, teve início um encadeamento de eventos que iria acelerar a vinda da tão sonhada emancipação. No início do século XIX, a Europa estava em guerra. As duas maiores potências do mundo de então, Inglaterra e França, disputavam a liderança no continente europeu. Em 1806, Napoleão Bonaparte, imperador da França, decretou o Bloqueio Continental, proibindo que qualquer país aliado ou ocupado pelas forças francesas comercializasse com a Inglaterra. O objetivo do bloqueio era arruinar a economia inglesa. A nação que não obedecesse seria punida e invadida pelo Exército francês. Portugal, que tinha com os ingleses uma histórica relação de parceria comercial, foi apanhado no contrapé e viu-se em uma situação delicada.
Na época, Portugal era governado pelo príncipe regente D. João, uma vez que sua mãe, a rainha D. Maria I, a “Louca”, simplesmente enlouquecera sem remédio. D. João estava diante de uma situação dramática: ainda que quisesse, não tinha como cumprir as ordens de Napoleão e respeitar o Bloqueio Continental. Seus acordos com os ingleses eram profundos e intrincados. Parar de comercializar com os britânicos seria uma declaração de guerra a eles e significaria a ruína de Portugal. Por outro lado, desafiar os franceses também parecia temerário. O Exército português, ainda que brioso e combativo, não tinha a mais longínquas condições de enfrentar o poderoso e infinitamente superior Exército francês.
Em um primeiro momento, Portugal até tentou fazer um jogo duplo. Dizia obedecer às regras do Bloqueio Continental, mas, por baixo do pano, continuava a manter seu comércio com a Inglaterra. Era uma estratégia arriscada e fadada a ser descoberta. A Europa pululava de espiões e, ao saber que estava sendo enganado, Napoleão determinou a invasão de Portugal, em novembro de 1807. Para evitar sua deposição e manter sua legitimidade como monarca, Dom João VI fez a única coisa que lhe sobrava: decidiu transferir a corte para o Brasil. Assim, embarcaram às pressas e partiram de Lisboa em 29 de novembro de 1807, sob sonoras vaias do povo. Na comitiva vinham D. João, sua mãe, D. Maria I, a princesa Carlota Joaquina, as crianças D. Miguel, D. Maria Teresa, D. Maria Isabel, D. Maria Assunção, D. Ana de Jesus Maria e D. Pedro, o futuro imperador do Brasil, e mais uma volumosa comitiva de cerca de 15.000 pessoas, entre nobres, militares, religiosos, funcionários e serviçais.
Os membros da corte trouxeram tudo o que foi possível carregar: móveis, roupas, joias, objetos de arte, louças, poções, xaropes e medicamentos, a Biblioteca Real com mais de 60.000 livros, arquivos do império e todo o ouro e joias do tesouro imperial. E tudo isso viajou ao lado de bois, cavalos, porcos e galinhas. Como a mudança foi decidida apenas dias antes do embarque e com os franceses a menos de um dia de alcançarem a capital, o embarque foi caótico. Com os navios abarrotados não havia espaço para todos se acomodarem. Muitos viajaram com a roupa do corpo, pois nem tudo pôde ser embarcado. A água e os alimentos foram racionados. A higiene era de tal forma precária que um surto de piolhos nos navios obrigou todos, inclusive as mulheres, a rasparem a cabeça. Deste infortúnio não escapou nem a princesa Carlota Joaquina nem as demais damas.
Para complicar a situação, quando a esquadra portuguesa navegava próxima à Ilha da Madeira foi atingida por uma forte tempestade que a dividiu, sendo que metade das embarcações, inclusive a que levava o príncipe regente, foi parar no litoral da Bahia, onde aportou em Salvador em 22 de janeiro de 1808, após 54 dias de viagem. Em sua escolta vinha uma frota de 13 navios da Marinha inglesa. Lá, o Príncipe e a corte foram recebidos com uma aclamação entusiástica. As igrejas festejaram com o badalar de sinos e improvisaram-se grandes festas populares. Dom João e sua comitiva permaneceram em Salvador por mais de um mês. Seis dias após a chegada, D. João cumpriu sua parte no acordo com os ingleses. Assinou a Carta Régia e abriu os portos brasileiros às “nações amigas”, sendo de notar que, no caso, a mais “amiga” entre as nações era precisamente a Inglaterra.
Mas Salvador era apenas uma escala. A Coroa Portuguesa e sua corte tinham como destino a capital da colônia, o Rio de Janeiro. Seguindo para o Sul, a comitiva real de D. João desembarcou na futura Cidade Maravilhosa em 8 de março de 1808. Na chegada ao Rio de Janeiro, a corte portuguesa foi novamente recebida com uma grande festa: o povo aglomerou-se no porto e nas principais ruas para acompanhar a família real em procissão até a catedral, onde, após uma missa em ação de graças, o rei concedeu o primeiro “beija-mão”.
A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro provocou uma convulsão. Despreparada, a cidade teve de adaptar-se às exigências da corte. D. João precisou criar uma estrutura de governo. Nomeou ministros de Estado, colocou em funcionamento diversas secretarias públicas, instalou tribunais de Justiça e, ainda em 1808, criou o Banco do Brasil. De um momento para outro, era preciso acomodar os membros da corte. O vice-rei do Brasil, D. Marcos de Noronha e Brito, cedeu sua residência. O Palácio dos Governadores, no Lago do Paço, passou a ser chamado Paço Real. Cerca de 2.000 residências foram requisitadas, pregando-se nas portas o “P.R.”, que significava “Príncipe Regente”, mas que o povo logo traduziu como “Ponha-se na Rua”. Prédios públicos, quartéis, igrejas e conventos também foram requisitados e ocupados.
De imediato, a população na cidade do Rio de Janeiro cresceu e, por volta de 1820, já somava mais de 100.000 habitantes. As construções passaram a seguir os sofisticados padrões europeus. Novos elementos de decoração e conforto foram incorporados às habitações. Espelhos, relevos, esculturas, pinturas e obras de arte, biombos, papéis de parede, instrumentos musicais, bibelôs, carrilhões e relógios de parede agora se tornaram lugar-comum.
Com a abertura dos portos, ainda em 1808, e com os acordos estabelecendo tarifas preferenciais aos produtos ingleses, em 1810, o número de novos comerciantes e o volume do comércio cresceram de forma notável. O porto do Rio de Janeiro mais que dobrou seu movimento, passando de 500 para 1.200 embarcações anuais. A oferta de mercadorias e serviços diversificou-se. A Rua do Ouvidor, no Centro do Rio, recebeu o cabeleireiro da corte, costureiras francesas, lojas elegantes, joalherias e tabacarias. Por todo o Centro, abriram-se estabelecimentos para atender um público mais exigente. As novidades mais requintadas conquistavam as damas da nova elite carioca: eram os chapéus, luvas, leques, flores artificiais, perfumes e sabonetes.
A presença da corte no Rio de Janeiro trouxe uma onda de modernidade. As mulheres, adotando o estilo francês, usavam vestidos leves e sem armações, com decotes abertos, cintura alta, deixando aparecer os sapatos de saltos baixos. A moda para os homens, porém, conservava o estilo europeu, mesmo sob o abrasador calor carioca. Os gentis-homens usavam casacas com golas altas, camisas bordadas enfeitadas por gravatas de renda, calções até o joelho e meias. Ainda que com o sacrifício do conforto e do bom senso, a elite queria distinguir-se vestindo-se como elite. A colônia, encantada com seu novo status, abraçou a metamorfose. Em abril de 1808 foi criado o Arquivo Central, que reunia mapas e cartas geográficas do Brasil e projetos de obras públicas. Em maio, D. João criou a Imprensa Régia e, em setembro, surgiu a Gazeta do Rio de Janeiro. Logo vieram livros didáticos, técnicos e de poesia. Em janeiro de 1810, com grandes festejos, foi aberta a Biblioteca Real, local para onde foram levados os expressivos 60.000 volumes trazidos de Lisboa.
Na frente da educação foram fundadas as primeiras instituições de nível superior, sendo criadas a Escola de Cirurgia e a Academia de Marinha, ambas em 1808. Em 1819, foram inauguradas a Escola de Comércio e a Academia Militar. A ciência também ganhou o Observatório Astronômico, criado em 1808, o Jardim Botânico, em 1810, e o Laboratório de Química, em 1818. Para promover as artes cênicas e o entretenimento, em 1813 foi inaugurado o Teatro São João. Em 1816, chegou a Missão Francesa, que veio para criar a Imperial Academia e a Escola de Belas-Artes. Com a Missão vieram pintores, escultores, arquitetos e artesãos. Em 1820, foi a vez da Real Academia de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura-Civil.
A vinda de artistas estrangeiros, cientistas, botânicos, zoólogos, médicos, etnólogos, geógrafos e muitos outros permitiu ao Brasil ganhar uma nova estatura no mundo da cultura. Foi uma mudança profunda e transformadora. Embora praticamente restrita às elites, seu efeito foi abrir possibilidades e alimentar aspirações que não tinham mais volta. O progresso era visível em todos os lados. Afinal, a nova capital de todo o Reino de Portugal agora se estabelecia na cidade do Rio de Janeiro. A chamada “inversão metropolitana” significava que era para o Brasil que passavam a convergir as riquezas e os recursos do reino. Era a primeira vez, e acabou sendo a única ocasião registrada na história, que uma capital europeia se mudava para uma colônia em outro continente.
A Abertura dos Portos às Nações Amigas, contudo, não estava livre de efeitos colaterais. Se, por um lado, agradou aos brasileiros e à Inglaterra, que ajudara Portugal a enfrentar Napoleão e havia enviado sua Marinha para ajudar na mudança do rei e sua corte, por outro sacrificou a galinha dos ovos de ouro que enriquecia os mercadores portugueses. Na medida em que o Brasil deixava de ser reserva de mercado desses senhores, e não mais era a fonte dos polpudos lucros a que estavam acostumados com o Pacto Colonial, era mesmo de se esperar que reclamassem.
Em 18 de junho de 1815 a Europa se livrou definitivamente de Napoleão, na batalha de Waterloo. Para reordenar a Europa após a vitória contra Napoleão, as nações europeias decidiram realizar um congresso em Viena, na Áustria. O encontro, iniciado no fim de 1814, porém, decide que só seria aceita a participação de países que tivessem governos instalados em seu próprio território. Contudo, o governo de Portugal, desde 1808, estava instalado no Brasil, que era sua colônia. Acontece que D. João VI e sua corte estavam felizes e contentes no Rio de Janeiro e não queriam retornar ao empobrecido Portugal.
Tentando contornar a demanda europeia foi arquitetada uma solução engenhosa, desenhada especialmente para permitir que o monarca reinasse em Portugal mesmo permanecendo no Brasil. A medida adotada foi elevar o Brasil a um status de igualdade com a metrópole, em um novo arranjo político que recebeu o nome de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Assim foi que, em 1815, no Rio de Janeiro, o príncipe regente português Dom João VI assinou um decreto que criava o citado Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e colocava o Brasil em condição de equivalência com Portugal. Após o decreto, D. João passou a ostentar o altissonante título de “Príncipe Regente de Portugal, Brasil e Algarves, daquém e d’além-mar em África, senhor da Guiné, e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”.
Tal arranjo, no entanto, não agradou ainda menos a velha elite burguesa da metrópole que queria mesmo é que o Brasil voltasse à antiga condição de colônia. Queria um Brasil subserviente, que se curvasse ante as exigências da metrópole portuguesa. Queria mesmo era refazer o Pacto Colonial e recuperar o vantajoso monopólio sobre o comércio com o Brasil. Portanto, não digeriu bem a nova arrumação política. E a parte que menos agradava aos burgueses, gentis-homens e patrícios lusitanos, nas mudanças introduzidas por D. João, era a elevação do status dos brasileiros. Como, pois, aqueles “silvícolas”, caboclos e mamelucos poderiam ter igualdade com os cidadãos da metrópole portuguesa? Um ultraje, por todos os títulos, deplorável.
Outro fator de descontentamento em Portugal era o fato de a Inglaterra ter assumido o comando sobre as forças militares portuguesas. O Exército lusitano, mesmo cioso de sua independência, tivera de aceitar uma subordinação aos britânicos durante a guerra com o Exército de Napoleão. Era uma pílula amarga, mas a aviltamento se justificara por uma boa causa, qual seja, sobreviver à La Grande Armée. Porém, daí a aceitar que essa situação perdurasse após a derrota de Napoleão já era demais. E o mal-estar grassava rompante entre a oficialidade do Exército português.
Em 1820, após anos de continuada insatisfação com D. João VI, a rebeldia na metrópole atingiu o ponto de ruptura. D. João VI, que àquela altura já era o rei, tendo sido coroado em 1818, depois da morte de sua mãe, parecia aos burgueses lusitanos que se fazia de cego, surdo e mudo. Exasperados pela espera do retorno aos bons tempos do monopólio, os vorazes burgueses lusitanos associaram-se aos militares. Estes, que queriam romper com os ingleses para ter de volta o controle e o desfrute de seu Exército, juntaram suas forças com a barulhenta burguesia e deram de fazer uma revolução em Portugal.
Os revoltosos aproveitaram o vácuo de poder gerado pela ausência do general britânico William Carr Beresford, administrador “terceirizado” de Portugal, que havia vindo ao Brasil para conferenciar com Dom João VI. Essa ausência facilitou aos integrantes do Sinédrio, um grupo formado por maçons desejosos de tomar o poder e afirmar o Exército luso no país, o aliciamento de militares portugueses e a organização da revolta. Eis que, então, no dia 24 de agosto de 1820, a revolução eclodiu. Grupos de militares se dirigiram ao Campo de Santo Ovídio, na cidade do Porto, e ali começaram os levantes.
A revolução, como fogo em palha seca, logo chegou a Lisboa e não demorou a espalhar-se por todo o país. Menos de um mês após o início da sublevação, um grupo de oficiais, apoiado pela burguesia e pela maioria da população, afastou os regentes que detinham o poder em Lisboa e criou um governo interino. Em 28 de setembro de 1820, os rebeldes do Porto e de Lisboa uniram-se para criar a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino’, que tinha a missão de organizar a formação de uma grande Assembleia Constituinte: as Cortes Constituintes de Portugal. Uma Constituição provisória, que seguia o modelo da espanhola, passou a viger em Portugal, enquanto se debatia a elaboração de uma nova Carta Magna.
A Junta Provisional convidou a cidade de Salvador, que apoiava a revolução, a enviar representantes. O processo de eleição dessas pessoas consistia num complexo mecanismo de sufrágio indireto: requeria a formação de juntas eleitorais de paróquia, de comarca e de província. Os eleitores deveriam ser cidadãos do sexo masculino, maiores de 21 anos, com emprego, ofício ou ocupação útil. As juntas locais elegiam “grandes eleitores” que, por sua vez, escolhiam os “eleitores de comarca”. Finalmente, a esses “eleitores de comarca” cabia reunirem-se na capital da província para nela, então, elegerem os “deputados às Cortes Constituintes”, à razão de um deputado por 30.000 habitantes.
E a Bahia indicou às Cortes de Lisboa de 1820 um grupo de deputados estelares, que, além de Miguel Calmon du Pin e Almeida, incluía Alexandre Gomes de Argolo Ferrão, Cipriano José Barata de Almeida, Domingos Borges de Barros, Francisco Agostinho Gomes, José Lino dos Santos Coutinho, Luís José de Barros Leite, Luís Paulino de Oliveira Pinto da França, Marcos Antônio de Sousa, Pedro Rodrigues Bandeira, e outros de igual prestígio. O envio da delegação, contudo, não encerrou a grande discussão que se travava em Salvador sobre a posição oficial da Bahia. Os debates se mostravam acalorados e tinham relação com o futuro da província e, especialmente, o futuro do Brasil.
A cidade, que de início, se posicionara com grande entusiasmo pela Reforma Liberal, agora via crescer o número dos partidários desejosos de manter o Brasil em igualdade de condições com a metrópole, em nível de equivalência com Portugal. Os que se posicionavam pela Reforma Liberal, do outro lado, na maioria comerciantes portugueses nascidos em Portugal, mas que incluem os militares vindos d’além mar, servidores públicos e demais interessados no retorno ao status quo anterior, propugnavam pela volta do país à condição de colônia. À medida que a população foi sabendo que o propósito da Revolta Liberal era fazer o Brasil retornar à condição de colônia, foram crescendo as manifestações de indignação e se tornava claro que refazer o esconjurado Pacto Colonial e, consequentemente, reinstalar o monopólio de comércio português com o Brasil não seria aceito pacificamente.
Com o alargamento da divisão entre interesses irreconciliáveis, os ânimos se exaltam mais e mais. Os patriotas e os que se recusam a aceitar a humilhação de voltar à condição de colônia se unem. Argumentam que seria um retrocesso e um aviltamento. Ao lado da maioria dos brasileiros natos, vêm somar-se liberais, conservadores, monarquistas e até republicanos. E, dos debates entre eles, começa a emergir uma causa maior que a todos une: a independência do Brasil. Nesse meio tempo, em 10 de fevereiro de 1821, muda o governo da Capitania da Bahia. Percebendo que a opinião pública tomava partido ao lado de D. João VI, os portugueses alinhados com as cortes portuguesas, neste dia, despertam a cidade de Salvador com um pronunciamento militar. Nos proclamas anunciam a criação de uma Junta de Governo, uma nova instância a ser a detentora do poder. Sua composição contava com sete membros e incluía representantes do clero, da milícia, do comércio, da agricultura e funcionários públicos. Os membros foram escolhidos em reunião da Câmara Municipal de Salvador, sendo, em seguida, aclamados pela tropa adrede reunida na Praça Municipal.
A primeira providência da nova instância baiana de poder foi dar ciência às autoridades revolucionárias de Portugal a sua disposição de aceitar as decisões do Soberano Congresso. Ficava subentendido que a Junta de Governo aceitaria o retorno de Brasil à condição de colônia e a submissão a um novo Pacto Colonial. O governador da Bahia, Dom Francisco de Assis Mascarenhas, Conde de Palma, foi apanhado de surpresa. Ainda esboçou uma reação tênue e um tanto pró-forma, mas terminou aceitando a criação da Junta. Entendeu que se tratava de um caso consumado. Acabou participando da elaboração do termo constitutivo e da escolha de seus membros.
Tentando estabelecer a nova instância de poder em termos amistosos, a Junta enviou ao rei Dom João VI um longo ofício em que justificava sua instalação. No documento, afirmava acreditar na nova Constituição portuguesa e conclamava o monarca a jurá-la e a defendê-la, “livrando-se dos cortesãos viciosos, imorais e mentirosos que o cercam e enganam”. A Junta diz ao rei ter sido eleita “pelo voto unânime do povo para governarmos esta província em nome de vossa majestade” e, acrescentou em tom insolente, espera fazê-lo mantendo “à Coroa as justas prerrogativas que lhe competem, e não mais, e ao povo os seus direitos, e não menos”. Então, conquanto proclamasse estar instituindo um governo local, a Junta se colocava como uma instância sob poder direto de Portugal. Ao mesmo tempo que declarava apoio formal ao rei, sinalizava sua adesão ao movimento com origem no Porto, em Portugal. Isto significava que, não obstante a rebuscada linguagem que enfeitava o ofício, Salvador tinha tomado partido e reconhecia a primazia das cortes. Em síntese, seria das cortes que a Junta Governativa da Bahia aceitaria ordens, por reconhecer que elas passavam a deter o poder de fato no Reino de Portugal.
Após inúmeras dúvidas e hesitações, pressionado a decidir e desejando preservar o regime, a sua dinastia e a manutenção da união dos reinos europeu e brasileiro, D. João VI entendeu ser melhor regressar a Portugal. Assim, foi o que o fez no dia 26 de abril de 1821. Mas deixou no Brasil, na frágil calmaria do Rio de Janeiro, o príncipe D. Pedro, o herdeiro do trono. Já de volta a Portugal, em 29 de setembro de 1821, D. João VI assinou um decreto alterando a administração das capitanias existentes no Brasil, transformando-as em “províncias brasileiras”. Essas novas unidades administrativas seriam governadas por Juntas Governativas Provisórias, como aquela instalada na Bahia. Dessa forma, o monarca chovia no molhado, mas ganhava tempo e reconhecia nas Juntas Governativas um modelo que tinha sido acolhido pelas cortes portuguesas.
Contudo, a questão não estava resolvida. Os brasileiros percebiam que estavam sendo alijados do processo de definição do futuro do país. Do seu próprio futuro. Parte da população de Salvador, a parcela que tinha meios, sentindo a temperatura subir e temendo o pior, iniciou um êxodo paulatino para o Recôncavo Baiano. Nessa região havia uma predominância de brasileiros natos e, nela, os braseiros se sentiam melhor protegidos para o caso de os governantes tentarem promover retaliações. De uma forma ou de outra, 1821 foi um ano que, na Bahia, terminou com as tensões em alta.
Em 31 de janeiro de 1822, acatando as novas regras determinadas pelo governo de Dom João VI, uma nova Junta Governativa foi eleita para administrar a, agora, Província da Bahia. E, de conformidade com as novas prioridades das cortes portuguesas, que tinha como primeiro propósito submeter o Brasil por meio do poder militar e, como segundo propósito, diluir o alcance do poder do príncipe regente, Dom Pedro I, eis que, na data de 11 de fevereiro de 1822, desembarca na Bahia o brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, um imponente oficial de carreira, elegantemente ornado por grandes suíças grisalhas e uma penca de medalhas rebrilhando em sua túnica, chegou na qualidade de novo Governador das Armas da província baiana.
Esse cargo, também chamado de Comandante das Armas, tinha sido recém-instituído em 1821, com o propósito de incumbir seu detentor da tarefa de reorganizar e chefiar as forças militares das províncias. O novo cargo separava o poder militar do poder político e estava entre as transformações feitas pelas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa para alterar o modelo de governo nas novas províncias. Os comunicados vindos das cortes estabeleciam que o Comandante das Armas se reportava diretamente a Portugal. Portanto, com a chegada do Comandante das Armas, a tropa local ficava subordinada diretamente à metrópole.
Madeira de Melo chegou disposto a impor-se e, especialmente, a impor a autoridade das cortes. Para que não restassem dúvidas sobre sua capacidade militar, desembarcou acompanhado por um contingente de 1.100 soldados lusitanos. O brigadeiro não demorou para agir. No quarto dia após sua chegada, em 15 de fevereiro de 1822, fez saber à Junta Administrativa, assim como ao então comandante militar, o tenente-coronel Manuel Pedro de Freitas Guimarães, que as cortes portuguesas assumiam o comando das forças locais e que passavam a dirigir as Forças Armadas diretamente da metrópole. Madeira de Melo fez saber ao prefeito sua intenção de tomar posse do cargo imediatamente, bem como de ocupar as fortalezas da cidade.
Quando o coronel Freitas Guimarães respondeu que só deixaria o cargo se fosse notificado pela corte do Rio de Janeiro, o brigadeiro Madeira de Melo o acusou de desobediência. Em resposta, Freitas Guimarães começou a organizar a resistência e ordenou que se colocassem sentinelas ostensivas no Forte de São Pedro. Era uma forma de dizer que ali mandavam os brasileiros. Ali lutariam soldados obedientes ao regente Dom Pedro I. E era também uma maneira clara de alertar os portugueses de que eles não entrariam no forte sem luta.
Embora apregoasse seu poder com espalhafato e demandasse providências imediatas para seu reconhecimento, o brigadeiro Madeira de Melo foi tendo sua posse procrastinada pelos brasileiros, sob o pretexto de que não atendia a todas as formalidades. Enquanto isso, a notícia corria, e o povo, indignado, crescentemente se posicionava em apoio ao tenente-coronel Manuel Pedro de Freitas Guimarães. Madeira de Melo, cada vez mais impaciente, se empenhava para resolver logo a questão. Desejava ter o quanto antes o controle das forças militares e consolidar o partido pró-Revolução Ventinista, outro nome da Revolução Liberal, na Bahia. Atuando em paralelo e com o apoio de comerciantes e burgueses pró-Portugal, conseguiu obter o apoio de um regimento de Infantaria, um da Cavalaria e, mais importante, o apoio unanime da Marinha Portuguesa de Salvador. Por seu lado, os brasileiros contavam com a lealdade da Legião de Caçadores, do Regimento de Artilharia e do 1º Regimento de Infantaria.
Então, em 18 de fevereiro de 1822, Madeira de Melo, sob a insistência dos comerciantes portugueses que queriam logo o retorno do Pacto Colonial, reuniu-se com o conselho de vereadores, com os juízes das cortes locais e com a Junta Governativa da Bahia para definir, de uma vez por todas, a questão de sua posse oficial como novo Comandante das Armas. Em um último esforço para submeter pacificamente os brasileiros, Madeira de Melo ofereceu o que pensou ser uma saída honrosa para o tenente-coronel Manuel Pedro: a formação de uma junta militar que o incluiria, porém, claro, sob sua presidência. Comunicado da oferta, o comandante brasileiro, que não estava presente na reunião, não se deu ao trabalho de responder. Com a moção aprovada pela Câmara Municipal, Madeira de Melo passou a exibir um mandato que, segundo ele, o legitimava diante do governo da província.
Manuel Pedro, entretanto, continuava firme em sua posição de não ceder sem uma ordem de D. Pedro I e continuou articulando as forças leais ao Rio de Janeiro. As tropas portuguesas de Madeira de Melo tinham sido colocadas em prontidão desde o dia 16. Os marinheiros lusitanos, sem ter o que fazer enquanto a frota permanecia ancorada no porto, percorriam as ruas, embebedavam-se e hostilizavam a população fazendo arruaças e provocações. Para atemorizar o povo, Madeira de Melo fizera circular a admoestação para avisar que, ocorrendo qualquer ataque à nova Constituição de Portugal, ou ao seu “legítimo” poder como novo Comandante das Armas, reagiria com força total e sem demora, retaliando por conta de seu próprio talante, sem consultar a Junta Militar. Vendo que ninguém o obstava e sentindo-se todo-poderoso, começou a agir com estardalhaço, agressivamente visitando as fortificações, promovendo exercícios militares, fazendo a Marinha disparar os canhões de barcos ancorados e provocando as guarnições de maioria nacional.
A crescente afronta aos brasileiros acabou produzindo uma reação, como seria de esperar. Na madrugada do dia 19 de fevereiro de 1822, os portugueses, cada vez mais atrevidos e desrespeitosos, começaram os exercícios militares diante do Forte de São Pedro. As sentinelas, acreditando tratar-se de uma invasão, abriram fogo e atingiram diversos soldados portugueses. As tropas lusitanas acorreram em socorro aos seus homens e Salvador transformou-se numa praça de guerra. Confrontos violentos ocorreram nas Mercês, na Praça da Piedade e no Campo da Pólvora. Nesse primeiro embate sangrento as tropas portuguesas levaram a melhor e tomaram o quartel do batalhão do 1º Regimento da Infantaria. Os marinheiros portugueses festejaram a vitória ruidosamente, atacando casas e tentando invadir, à força, o Convento da Lapa, onde alguns fugitivos tinham buscado refúgio. Como a abadessa, a irmã Joana Angélica, tentou, heroicamente, impedir que entrassem no convento, os marinheiros, ensandecidos, a assassinaram a sangue-frio.
Restava aos lusitanos tomar ainda o Forte de São Pedro. Sendo uma das poucas fortificações inteiramente em terra, localizada no Centro da cidade, o forte estava cercado por estabelecimentos comerciais, lojas, residências e pela população civil. O brigadeiro português, Madeira de Melo, ostensivamente, fez todos os preparos para bombardear a fortificação. Todos podiam ver os canhões posicionados em direção ao forte. Era evidente que, se o ataque com os canhões da artilharia fosse consumado, os civis seriam trucidados e o resultado seria um rio de sangue. O comandante das forças brasileiras, em uma medida que muitos brasileiros condenaram como sendo da mais pura covardia, mas que justificou como sendo necessária para evitar uma tragédia, ordenou ao forte que se rendesse.
Madeira de Melo, exultante pelo êxito de sua estratégia, assumiu o comando da capital no dia 2 de março de 1822. Salvador estava tomada. A cidade de Salvador, naquela época, tinha cerca de 100.000 habitantes. Era a segunda cidade do Brasil e uma metrópole cosmopolita. Apesar de submetida, sua população, de maioria brasileira, simplesmente não aceitava ser recolonizada por Portugal. Para controlar a cidade, o novo comandante, Madeira de Melo, sabedor da indignação da população soteropolitana, decidiu ser preciso implantar um regime de terror em Salvador.
As tropas patrulhavam as ruas de modo ostensivo e a cavalaria exibia-se em manobras nas praças públicas. Exercícios de tiro eram feitos de maneira a assustar a população. O clima de medo fazia as famílias refugiarem-se em casa e as pessoas evitavam sair às ruas e até precaviam-se para ir à igreja. Contudo, apesar das brutalidades e ameaças, a população não se acovardou. No dia 21 de março, durante a procissão dos festejos de São José, grupos de populares atiraram pedras em várias autoridades portuguesas que participavam do cortejo. Não demorou para que o povo baiano concluísse que D. Pedro I não só era melhor do que os colonizadores d’além-mar, como devia ser apoiado em seus esforços de garantir a autonomia brasileira.
Por outro lado, Madeira de Melo, que agora dominava Salvador com mão de ferro, descobriu que tivera uma vitória de Pirro: a cidade se viu isolada na província e não tinha como se manter sem acesso ao interior. O abastecimento começou a gerar preocupações. As famílias baianas tinham sua alimentação organizada segundo os hábitos peninsulares vindos de Portugal. As pessoas se levantavam às 6 horas da manhã, almoçavam às 10 horas, jantavam às 6 da tarde e deitavam-se às 10 da noite. Seguir esse horário era tido como necessário para conservar boa saúde. Mas a escassez de alimentos começou a quebrar os hábitos da população, fato que gerou muitas críticas ao governo da cidade.
A maioria dos alimentos vinha das fazendas do Recôncavo, a região em torno da Baía de Todos os Santos. Ali o solo era fértil e eram numerosos os engenhos de açúcar. Desses engenhos vinham a carne, o leite, os ovos, o cuscuz, a batata-doce, a macaxeira, enquanto das casas-grandes vinham a produção das coalhadas, dos bijus de goma e tapioca e os doces da rica doçaria portuguesa que as mucamas do interior produziam. Como o Recôncavo e todo o interior da Bahia estavam unidos contra Madeira de Melo, cessou quase por completo o envio de alimentos para Salvador. A capital de província continuava magnífica e encantadora, mas sem alimentos não tinha com subsistir. O todo-poderoso brigadeiro, seus homens e a elite portuguesa local corriam o risco de passar fome.
O clima político estava pronto para a ebulição. Ainda no mesmo mês de março de 1822, os senhores de engenho do Recôncavo, temerosos de incursões de tropas lusitanas, resolveram cuidar de sua defesa e criaram um exército de voluntários. Na cidade de Cachoeira, que fica a 120 quilômetros de Salvador, no dia 25 de junho os vereadores locais Antônio de Cerqueira Lima, José Garcia Pacheco de Aragão, Antônio de Castro Lima, Joaquim Pedreira do Couto Ferraz, Rodrigo Antônio Falcão Brandão, José Fiúza de Almeida e Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, futuro Visconde de Jequitinhonha, fizeram uma consulta ao povo por meio do procurador do Senado da Câmara Municipal:
“Vosmecê concorda que se proclame Sua Alteza Real como Regente Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, da mesma forma que havia sido feito no Rio de Janeiro?”.
O povo, conclamado a responder à consulta pública, acorreu às ruas e respondeu com um “sim” entusiasmado. A consulta se converteu em uma moção que, levada a voto, foi aprovada pelos edis. Nem bem terminou a sessão da Câmara, o povo cachoeirano começou a festejar, e logo formou-se um cortejo popular em que famílias inteiras saíram a pé ou em charretes e grupos de cavaleiros levaram bandeiras, enquanto nas igrejas os sinos badalavam festivos.
Por coincidência, havia uma escuna armada da Marinha portuguesa ancorada nas proximidades. A embarcação estava ali por ordem de Madeira de Melo, que, na tentativa de encontrar um meio para restabelecer o abastecimento da capital, havia enviado uma guarnição para ficar guardando o porto da cidade, no Rio Paraguaçu, utilizado para o escoamento de grande parte da produção agrícola do Recôncavo. Os marinheiros, ao saberem da deliberação da Câmara Municipal em favor de Dom Pedro I e da razão dos festejos da vila, enfureceram-se e começaram a disparar tiros de canhão em direção à praça onde o povo festejava. Alvos do canhoneio, os populares começaram a correr procurando abrigar-se. Foi quando descobriram que quem tentasse fugir da praça passava a ser alvo de tiros disparados por soldados portugueses escondidos. A maioria dos tiros vinham de dentro da casa de um português.
De imediato, o povo se tomou de indignação. Os baianos rapidamente se uniram, pegaram em armas, acorreram para o porto e passaram a atacar a escuna portuguesa. A escuna abriu as velas e ainda tentou manobrar, mas embarcações brasileiras se anteciparam. Dezenas de barcos se posicionaram na saída para o mar e bloquearam a sua passagem. Em muito maior número e enraivecidos, os brasileiros não esmoreceram e, após três dias de combate, os baianos tomaram a embarcação e prenderam os marinheiros. Ante a afronta, o governo de Cachoeira enviou mensageiros para as cidades vizinhas conclamando todos a juntarem-se a ela porque era chegada a hora de lutar. Os campos de combate começaram a ficar demarcados. Quem era contra a recolonização procurou deixar Salvador. Já os militares e negociantes portugueses que ainda restavam no Recôncavo fizeram o caminho inverso e foram buscar proteção na capital. Os maiores municípios do interior, como Cachoeira, Santo Amaro da Purificação, São Francisco do Conde, Maragogipe e Nazaré, todos contra os lusitanos, organizavam suas tropas e preparavam suas defesas. Trincheiras foram cavadas e as armas, ajustadas e azeitadas. De sua parte, os portugueses e seus partidários se concentraram nas áreas urbanas de Salvador.
Infelizmente, nem tudo corria bem para os brasileiros. Do lado dos lusitanos, o brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo não acreditava que aquelas forças voluntariosas, porém mal-ajambradas, pudessem ser, de fato, um real obstáculo às suas tropas. Mesmo quando estivessem armadas e preparadas para o confronto. Que aqueles provocadores desajeitados pudessem ser o alicerce militar de uma luta pela independência do país era risível, na opinião do brigadeiro. O comandante português conhecia o parco histórico militar dos oficiais que comandavam aquele, como pensava, seria apenas um “arremedo” de Exército. Eram pessoas vindas do povo e, a seu ver, desprovidas do mínimo preparo. Não seriam mais que milicianos sertanejos improvisados, promovidos com patentes de fancaria, dadas por graça, mas sem o respaldo da aptidão. A aposta de Madeira de Melo era que as dissensões, que sabia existirem por meio de seus espiões e informantes, acabassem por destruir a coesão e fazer o grupo inimigo desagregar. Eles, acreditava o comandante português, acabariam derrotados por si mesmos.
O que Madeira de Melo observava, para seu grande contentamento, é que, de fato, as pequenas cidades e vilas do interior baiano, ainda que se posicionassem fervorosamente em favor de um Brasil independente, não conseguiam se articular. Os coronéis do interior tinham suas vaidades e cada um deles queria ter sua própria força armada. Cada vila queria primazia e nomeava seus próprios oficiais. E, logicamente, quanto mais divididas seriam mais fracas e menos ameaçadoras. Militar experiente e malicioso, Madeira de Melo fazia o que podia para acirrar as animosidades entre os inimigos e, vendo as rivalidades locais se avolumando, resolveu apostar que as desavenças entre os senhores de engenho comprometeriam a condição que teriam de articular uma defesa eficaz. De modo que, aos seus olhos, o tempo jogava a seu favor. Assim, enquanto cuidava de garantir um abastecimento mínimo de alimentos para a população de Salvador não se voltar contra ele, sua prioridade era armar e organizar a defesa da cidade. Suas tropas treinavam diariamente, enquanto seus soldados mantinham vigilância estrita sobre os bairros. Concomitantemente, sua Marinha patrulhava a costa e fazia permanente reconhecimento do Recôncavo.
Apesar de suas expectativas, porém, o tempo passava e a tão esperada dissolução da Junta de Cachoeira, que Madeira de Melo acreditava fosse acontecer por si só, não acontecia. Quase 90 dias já haviam transcorrido desde que tomara o controle de Salvador, e para piorar as coisas, chegavam informes de que os principais líderes do lado brasileiro, os chefes de Cachoeira e Santo Amaro da Purificação, estariam se entendendo. Os brasileiros contavam também com a adesão do povo e dos senhores da Vila de Torre, que, ocupando a Feira do Capuame, fecharam a entrada do sertão que supria a capital.
Mais próximo à capital, em Pirajá, os brasileiros entrincheiravam-se e distribuíam destacamentos pelas ilhotas e praias do Recôncavo. Era dali que começavam a repelir as patrulhas da Marinha portuguesa. A essa altura, com a capital da província continuando a ter problemas de abastecimento, Madeira de Melo foi ficando mais e mais impaciente. Para quebrar o status quo, começou a planejar um ataque a Pirajá. Era preciso derrotar os brasileiros daquela fortificação o quanto antes. Se conseguisse tomar aquele posto avançado da resistência dos partidários de Dom Pedro I, teria livre acesso ao sertão e garantiria o abastecimento da cidade.
Outro motivo para a urgência era a notícia de que o príncipe havia enviado um novo comandante para organizar suas forças no Nordeste: o general Pedro Labatut.
Madeira de Mello, contudo, ouvira dizer que as intrigas da corte estavam minando a autoridade do dito general. E, de fato, os inimigos de Labatut, no Rio, quase puseram tudo a perder. As intrigas na corte por muito pouco não causam a perda da Bahia ao jovem país.
D. Pedro I colocou Labatut no comando da campanha de libertação da Bahia por duas razões: o imperador conhecia o militar pessoalmente e acreditava em sua competência militar. Tivera a oportunidade de, em muitas ocasiões, ouvir seus relatos sobre Napoleão e sobre as batalhas na Europa, assim como ouvia suas narrativas sobre sua atuação ao lado de Simão Bolívar, herói da Venezuela e libertador da Colômbia. O segundo motivo foi a indicação de José Bonifácio e o claro respaldo da maçonaria.
Labatut partiu do Rio de Janeiro em 30 de julho de 1822, a bordo de uma frota comandada pelo almirante Rodrigo de Lamare, composta de uma fragata, duas corvetas e dois brigues. A bordo seguiam 200 soldados de milícias, além de 34 oficiais que comporiam o estado-maior do general. Quando a frota se aproximou da Bahia, o comandante enviou na frente alguns barcos mais rápidos para fazer uma avaliação da situação local. A informação que recebeu era que os portugueses mantinham uma frota numerosa ancorada na Baía de Todos os Santos e patrulhavam toda a região. Assim, o almirante decidiu não ser prudente aportar na Praia do Forte, na Torre dos Ávilas. Seguindo no rumo Norte, pensou ser mais prudente atracar em Maceió, o que o fez, depois de evitar Itapuã para fugir do patrulhamento dos navios portugueses.
Esses contratempos, contudo, foram apenas prenúncio do que seria o verdadeiro embaraço. O pivô desses acontecimentos foi o político e jornalista Joaquim Gonçalves Ledo, editor do Revérbero Constitucional Fluminense. Ledo foi um dos promotores do Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822. Ele era deputado provincial do Rio de Janeiro e ferrenho adversário de José Bonifácio de Andrada e Silva, o braço direito de Dom Pedro I. A animosidade se dava tanto na política quanto na influente maçonaria, que era, em si, quase um partido político.
Homem de bastidores, Ledo não gostava de aparecer e não ambicionava cargos, títulos ou honrarias de qualquer espécie. Era um patriota sincero, mas sua visão sobre o que seria melhor para o Brasil não combinava com as ideias de José Bonifácio. Entre suas crenças estava a de que estrangeiros como Pedro Labatut, que, ao seu entender, além de forasteiro seria mercenário, representavam um risco para o Brasil. Assim, depois de ter tentado mil manobras e artimanhas sem conseguir demover D. Pedro I em sua decisão de dar a Labatut a organização do Exército e o comando da libertação da Bahia, Ledo e seu grupo partiram para o tudo ou nada e planejaram a eliminação física de Labatut durante a viagem para a Bahia.
Para darem cabo de Labatut foram acumpliciados os capitães Joaquim Sátiro da Cunha, Inácio Gabriel Monteiro de Barros, o major Carlos Augusto Taunay, os tenentes-coronéis Antônio Martins da Costa, João José Rodrigues e Luís da Silva. Todos embarcados como oficiais sob o comando de Labatut. Mas os conchavos durante o trajeto enfrentavam a resistência de outros oficiais e, principalmente, a admiração e o respeito que a tripulação desenvolvia pelo general, uma figura que se impunha pela inata nobreza, pelo porte altivo, por sua estatura que o destacava, pela refinada elegância e, ainda mais, pelo militar que demonstrava preparo, experiência e capacidade de comando. Quando, enfim, tentaram o motim a bordo, a traição foi imediatamente denunciada e sufocada.
Desvencilhando-se do grupo dos canhestros amotinadores, Labatut desembarca, finalmente, em Maceió. De lá segue inicialmente para Recife, a fim de obter reforços. No dia 4 de setembro já está de volta a Alagoas. Após pequena parada para organizar a próxima etapa de sua marcha, entra em Sergipe, que era então uma comarca baiana. Sua força soma pouco mais de 200 homens e é com ela que trava seu primeiro combate contra o chefe militar da comarca, o brigadeiro Pedro Vieira, que se mantinha em favor da Revolução Portuguesa e em oposição a Dom Pedro I.
No dia 28 de setembro Labatut chega à região de Penedo. Para sua surpresa, em Vila Nova, esperando ter de lutar com a pequena tropa portuguesa ali posicionada, o comandante adversário, o capitão-mor Bento Melo Pereira, toma o lado do príncipe D. Pedro. Em seguida, para nova surpresa do general, que imaginava precisar enfrentar os 2.000 homens sob o comando do coronel José Barros Pimentel, foi recebido por ele e suas tropas com festas e regozijo. Os militares e a população o recebem de braços abertos e aclamaram publicamente D. Pedro I. Com o reforço das tropas de Barros Pimentel, o avanço de Labatut, de Laranjeiras a São Cristóvão, futura capital sergipana, se converte em uma marcha triunfal. O sentimento de independência que se espraia é contagiante. Com habilidade, o general aproveita os sentimentos patrióticos que a todos empolgam para pacificar a província e, ao seguir para a Bahia, deixa o povo unido em volta do imperador.
Mas as notícias que vêm por meio de mensagem de Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, futuro Visconde de Pirajá, não são nada boas. As forças brasileiras, especialmente as de Cachoeira, estão em desagregação. Com soldo atrasado, deficiência de armamento e munição, comando inábil, disputas internas e o moral da tropa abalado, não têm a mínima condição de resistir a um ataque organizado e disciplinado dos lusitanos. Também vinham informes de que Madeira de Melo estava reunindo forças e preparando seu grande ataque. Labatut, então, decide apressar sua viagem. Segue à frente, somente com seus ordenanças, para chegar mais rápido. Suas forças, incluídos os reforços que conseguiu em Recife e Sergipe, vêm atrás. Não obstante todo o esforço, só chega à Feira de Capuame no dia 28 de outubro de 1822, em torno das 14 horas.
Apresenta-se imediatamente e reúne-se com Felisberto Gomes Caldeira e Rodrigo Falcão Brandão, que comandam as tropas de Cachoeira e da Feira de Capuame. Em razão da gravidade da situação, coloca Gomes Caldeira no comando de Itapoá, que viria a ser sua brigada da esquerda no movimento de pinças contra as forças portuguesas de Salvador, e despacha Rodrigo Brandão de volta para Cachoeira, com instruções para o aprovisionamento urgente de Pirajá e Cabrito. Pede também que enviem mais homens para ambos os postos que percebe serem estratégicos. Requisita, ainda, suprimentos, providenciando o envio de farinha e de gado para a alimentação do pessoal.
A notícia da chegada de Labatut à província corre como rastilho de pólvora e, instantaneamente, energiza toda a Bahia favorável ao Imperador. Experiente, ágil e talentoso, seu comando firme e resoluto muda rapidamente o estado de ânimo de todos. Em 30 de outubro, agora instalado com seu quartel-general no Engenho Novo de Pirajá, de propriedade do fiel aliado Luís da Costa Guimarães, dirige uma proclamação ao povo da Bahia:
“Briosos habitantes da província da Bahia!
O Augusto Príncipe Regente do Vosso Império do Brasil me enviou para auxiliar-vos a fazer embarcar a tropa de Portugal, inimiga de vossa liberdade e independência política.
Ilustre mocidade! É o dever mais sagrado do cidadão libertar a pátria dos ferros em que, infelizmente, se acha manietada. Esta é a ocasião de distinguirdes como beneméritos. Aproveitai-a e procurai a glória que vos espera no campo da honra.
Vinde, eu vos convido: vinde baianos, alistar-vos no exército pacificador, que o melhor dos príncipes confiou ao meu comando.
Não percais tempo: vinde que eu vos afianço às vossa escusas (se as pretenderdes), logo cessem as tristes e atuais circunstâncias.
Quartel-General no Engenho Novo, 30 de outubro de 1822.
Labatut, general”.
Labatut trabalha freneticamente. Em cinco dias já tinha obtido recursos e resolvido a questão do pagamento dos soldos. Aproveitando a disposição patriótica dos líderes dos baianos, que acorrem ao seu chamado, cria hospitais e organiza a intendência. Após rápido levantamento das necessidades mais prementes, envia munições e armas e sai a campo para fazer um reconhecimento pessoal das forças estratégicas que têm a missão de manter sitiada a cidade de Salvador. No dia 4 de novembro já consegue fazer chegar armamentos e munições às guarnições dos postos ribeirinhos, áreas que poderiam ser pontos de desembarque dos portugueses e seriam mais vulneráveis a ataques. Na localidade de Cabrito, com grande engenhosidade, usa as ferramentas e maquinário do engenho de açúcar para montar uma verdadeira manufatura de guerra. Ali improvisa uma oficina de calibragem de armas e uma fundição de balas de canhão, colocando tudo sob o comando de Antônio Marques, engenheiro bem-preparado e filho do dono da usina.
Enquanto vai organizando os preparativos, ainda no dia 28 de outubro, o general Labatut envia uma carta ao brigadeiro Madeira de Melo – na verdade, um ultimato – em nome do príncipe regente. Dada a distância, a notícia da Proclamação da Independência, que se dera em 7 de setembro, às margens do Ipiranga, em São Paulo, ainda não havia chegado aos contendores:
“General: Chegado a este lugar, com toda a tropa e armamento que S. A. R (Sua Alteza Real) me confiou, para pacificar esta Província, não posso deixar, sem faltar ao meu dever, de comunicar-vos o fim para o qual o príncipe regente e perpétuo defensor deste vasto e rico Império me enviou.
Oxalá que a mais pronta execução da vossa parte e da tropa que comandais em chefe faça conhecer ao herdeiro do trono luso-brasileiro aquela portuguesa e alta excelência de lealdade e obediência com que sempre se mostraram famosos os bons portugueses em todos os tempos, e evitar derramar-se mais o precioso sangue dos brasileiros e portugueses, seus dignos irmãos.
General, não é pela força que nós brasileiros desejamos evitar a escravidão que as Côrtes de Portugal nos preparam, debaixo das apócrifas reciprocidades; não é pela força que S.A.R, regente e perpétuo defensor deste belo país, deseja que vos retireis a Portugal com a tropa de vosso comando; mas sim por meio de persuasão e de brandura, o que se deixa ver pelos sentimentos do seu real coração, expendidos no decreto de 1º de agosto deste ano, e, ainda mais, no nunca assas louvado manifesto aos brasileiros do mesmo dia e da Carta Régia que vos enviou.
Portanto, eu seria temerário se houvesse de acrescentar mais razões e argumentos a esta três importantes peças que, apenas lidas, convencem e persuadem; somente vos direi, que trouxe plenos poderes para tratar convosco acerca de vossa retirada e da tropa, com permissão de prestar-vos todo o necessário para a boa comodidade do transporte, segurando da parte do príncipe regente a propriedade de todos os habitantes da Bahia, e a garantia das leis, ainda mesmo a favor daqueles que, de qualquer sorte e maneira, se tenham mostrado inimigos do atual sistema que o Brasil adotou, e igualmente perdão geral e esquecimento total do passado, fraternizando europeus portugueses com seus irmãos brasileiros, em cuja reconciliação tanto tenho trabalhado, já nas Províncias de Pernambuco e Alagoas, como também, na Comarca de Sergipe que, pronto, cedeu a intimação que lhe fiz, de sujeitar-se as armas do príncipe regente e à opinião das Províncias coligadas do Sul, e do recôncavo desta, cujos povos, em massa, com as armas nas mãos, prometera morrer ou ser livres; e eu, constante executor da vontade geral do Brasil, por ordem de seu perpétuo defensor, prometo também desempenhar a melindrosa comissão que me confiaram. Desejo, portanto, general, que me comuniqueis que resolução tomais na crise atual da vossa não invejada situação.
General, como militar e filantropo, eu deploro vossa sorte; sim, vós achai-vos a mais de 2.000 léguas distante de Portugal, donde vos podiam socorrer, e eu à testa de um povo vingador de seus direitos, e habitantes deste vasto continente, que em número de 20.000 (contando os que ocupam já diferentes pontos da Província), desejam mostrar pelo seu valor o nobre patriotismo de que se acham possuídos. Um tiro de fuzil de vossa tropa contra qualquer brasileiro será o sinal da nossa eterna divisão, quero dizer, de nunca mais o Brasil se unir a Portugal, do que vos torno responsável, e vos afianço, em nome do príncipe e de todo o reino do Brasil. Permita o céu, que tomo por testemunha dos anseios e puros desejos de meu coração, que a lembrança de uma inútil resistência, que encheria de luto Portugal e o Brasil, decida prontamente caprichosos timbres de guerreiros dignos de melhor sorte, e de se empregarem somente na defesa da Pátria e da liberdade!
Portanto, à vista do alegado, respondei-me categoricamente, ou me esperai para combater-vos.
Quartel-general do Engenho Novo, 29 de outubro de 1822.
Labatut, general”.
O ultimato de Pedro Labatut foi recebido por Madeira de Melo como uma provocação. um insulto. Como, então, ousava um comandante improvisado, chefiando uma tropa de campônios arrebanhada nas vilas e nos engenhos da província, enviar a ele um ultimato? Desplante de tal monta ainda não havia visto. E tal atrevimento exigia a mais rápida e cabal resposta. Os portugueses de Madeira de Melo não haviam descurado de sua preparação. Com meticuloso cuidado, já tinham preparado seus planos de batalha. A primeira investida, um ataque a Pirajá, tinha o propósito de abrir de vez a estrada do sertão e franquear o acesso aos suprimentos que a cidade de Salvador precisava desesperadamente. O ataque a Pirajá também tinha o propósito de desarticular as forças inimigas na medida em que ali estava situado, no Engenho Novo, o estado-maior de Labatut. Uma derrota em Pirajá seria fatal para as pretensões dos brasileiros. Portanto, Madeira de Melo entendia que era preciso reunir todas as suas forças e atacar ali, enquanto os inimigos ainda não estavam com suas defesas consolidadas.
No dia 8 de novembro de 1822 Madeira de Melo atacou. A Batalha de Pirajá iniciou-se na madrugada. Os enfrentamentos começaram a ser travados na área de Cabrito-Campinas-Pirajá. O combate mais importante se deu no Pantheon de Pirajá, situado no Largo de Pirajá. O ataque foi iniciado por meio de 250 soldados portugueses que desembarcaram em Itacaranha e acometeram contra a área do Engenho do Cabrito, enquanto outro grupo avançava por terra até Pirajá. A batalha durou oito horas e envolveu um total de 4.000 combatentes. Durante a investida portuguesa, os brasileiros que defendiam um dos pontos mais assediados começaram a sofrer baixas pesadas e a perder posições. Vendo que suas forças enfrentavam o inimigo em desigualdade de condições e que havia o risco iminente de colapso, o major Barros Falcão, que comandava as tropas brasileiras sob ataque, decidiu bater em retirada.
Para providenciar o toque de retirada, mandou que chamassem seu corneteiro a toda pressa. O corneteiro Luís Lopes chegou espavorido, já de corneta em punho. Ele era um corneteiro português que havia escolhido servir ao Exército brasileiro. Experimentado, conhecia seu ofício como poucos e tinha orgulho de fazer seu toque potente e cristalino, de modo a ser ouvido com clareza por todos os combatentes, mesmo durante o atordoar da refrega. Então, em meio ao barulho da batalha, em meio à gritaria, aos estampidos e explosões, o major ordenou que executasse o toque de retirada. O corneteiro, contudo, ou não conseguiu entender a ordem que recebeu no meio da barulheira dos combates ou, por conta própria, resolveu que deveria executar o toque de “cavalaria, avançar e degolar”. Com garbo impecável e a plenos pulmões, Luís Lopes fez soar no clarim o toque mais temido pelas infantarias de todos os quadrantes: os sons agudos, em sequência de staccatos, que lembravam os cascos batendo no solo, ordenando lançar os cavalos a galope e em carga de espadas desembainhadas.
Os sons metálicos reverberaram pela praça de guerra e todos foram tomados de espanto. A infantaria portuguesa, que bem conhecia o toque, por ser o mesmo usado por suas tropas, suspendeu o ataque assustada. Instintivamente os soldados lusitanos colocaram as mãos no pescoço. Sofrer uma investida de cavalaria ali, em campo aberto, seria sucumbir sem salvação. Desorientados, imaginando que os brasileiros tivessem recebido reforços a cavalo, os soldados lusitanos pararam para olhar em volta procurando descobrir de onde viria a carga mortal. De onde surgiriam os cavaleiros galopando com sabres desembainhados zunindo em direção as suas gargantas.
Os brasileiros, por sua vez, ao ouvirem os sons da corneta, acreditando que os céus mandavam uma ajuda providencial na hora que mais precisavam, encheram-se de bravura e partiram para um contra-ataque alucinado. Enquanto os portugueses procuravam a cavalaria inexistente, descuidaram do ataque. Não foi mais que um momento de perplexidade e hesitação, mas que lhes custaram a batalha. Os brasileiros, imaginando que agora tinham o apoio de uma cavalaria que vinha em seu socorro, recobraram a iniciativa, avançaram de forma decisiva e puseram os lusitanos em fuga. Os portugueses, confusos, atabalhoados e desmoralizados, saíram em uma correria desabalada e botaram a perder uma batalha que estava ganha.
Assim, pois, por obra e graça do Corneteiro de Pirajá, os soldados de Labatut venceram a sua primeira e mais importante batalha. O enfrentamento, que ficou conhecido como a Batalha de Pirajá, acabou por ter um papel decisivo na Guerra pela Independência da Bahia, pois assegurou a continuidade do cerco a Salvador e manteve o bloqueio aos suprimentos que a cidade demandava desesperadamente. Após essa batalha, os combatentes portugueses, desmoralizados por terem sofrido uma derrota para uma cavalaria fantasma, retornaram para a capital e não conseguiram mais tomar a iniciativa.
No início de 1823, a situação da capital da Bahia cercada foi ficando desesperadora. Sem alimentos, as doenças começaram a grassar entre a população. Pressionado pelos fatos, Madeira de Melo permitiu a saída dos que desejassem. Cerca de 10.000 pessoas abandonaram Salvador. Com habilidade, Labatut foi mantendo pressionadas as forças de Madeira de Melo por meio de ações pontuais e ataques de guerrilha, e não demorou para consolidar a vitória. Em fins de maio, uma frota brasileira sob o comando do inglês Thomas Cochrane bloqueia Salvador. Privado de abastecimento por terra e por mar, seria inútil e inglória qualquer resistência. As tropas portuguesas rendem-se e deixam a cidade. Em 2 de julho, as forças brasileiras entraram vitoriosas em Salvador. Em 1823, com a saída dos portugueses, a Bahia se convertia, de fato, em mais uma província brasileira.
Quanto ao general Labatut, o vitorioso da batalha por Salvador, um homem fadado a fazer história, ele ainda iria conhecer grandes dissabores. O destino, caprichoso, lhe reservava um bornal completo de alegrias e tristezas, conquistas e traições, vitórias e derrotas antes de, por fim, dar-lhe o reconhecimento merecido naquela terra que ajudou a fazer brasileira.
Anos depois dos eventos na Bahia, em 1840, Labatut foi novamente chamado a servir ao governo imperial. Agora deveria seguir para o Sul e enfrentar os rebeldes farroupilhas. Os farrapos eram liderados por militares competentes como os generais Bento Gonçalves, Davi Canabarro, José Mariano de Mattos e Corte Real, e o coronel Teixeira Nunes, entre muitos outros.
O movimento recebia inspiração de italianos refugiados no Brasil e membros da Carbonária, uma sociedade secreta inspirada na maçonaria e que havia se engajado de corpo e alma na luta em prol da unificação da Itália. Sua ideologia reforçava valores patrióticos e liberais, além de se posicionar contra a Igreja. Entre esses italianos estavam o cientista Tito Lívio Zambeccari e o jornalista Luigi Rossetti, além do capitão Giuseppe Garibaldi, que, embora não fizesse parte da Carbonária, também havia fugido do país. Garibaldi, por ser maçom, foi tido como um carbonário. Contudo, uma Itália unida não interessava nem à Espanha nem à Áustria e nem à França. Assim, Garibaldi entrou no rol dos inimigos dessas nações.
A Guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha, foi uma revolta regional contra o governo imperial do Brasil na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. A revolução, de ideais republicanos, acabou por adquirir um caráter separatista. Seu início se deu em 1835 e influenciou movimentos e levantes em outras províncias brasileiras, a exemplo da Revolta da Sabinada, que ocorreu na Bahia, em 1837, e da Revolução Liberal que viria a ocorrer em São Paulo em 1842. A Revolta dos Farrapos inspirou-se, em parte, na bem-sucedida guerra pela independência do Uruguai, com o qual os farrapos mantiveram conexões. No Brasil, o movimento chegou a expandir-se até Laguna, em Santa Catarina, com a Proclamação da República Juliana e a adesão de Lages, no planalto catarinense.
A Guerra dos Farrapos foi, na verdade, uma revolta que se originou dos interesses econômicos dos proprietários rurais e estancieiros da fronteira gaúcha. Ideias de igualdade, humanidade e liberdade, herdadas da Revolução Francesa, eram citadas entre os motivos, mas a questão central era, mesmo, os altos impostos cobrados sobre o charque, o couro e a carne bovina produzidos nas estâncias e charqueadas da província. Produtos de importância estratégica na época, o governo imperial usava essas mercadorias como arma política nas negociações com os países do Prata. E fazia concessões aos vizinhos enquanto cobrava impostos extorsivos dos produtores brasileiros.
A revolução tem seu início, de fato, no dia 21 de setembro de 1835, quando um grupo de revolucionários, comandados por Bento Gonçalves, toma a cidade de Porto Alegre, forçando a retirada das tropas imperiais da região. Menos de um ano depois, na noite de 15 de junho de 1836, os imperiais retomavam o controle da capital, mas os revolucionários mantiveram o domínio de amplas áreas do interior. Em 11 de setembro de 1836, os farrapos vão para o tudo ou nada: declaram a independência da província e criam a República Rio-Grandense. O novo governo nunca chegou a contar com o apoio unânime da população da província, especialmente de quem vivia na área urbana das cidades mais importantes da época, como Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. Ainda assim, a refrega se estendeu por dez anos.
O governo imperial apostou que a Revolução Farroupilha seria vencida logo e com facilidade. Mas combater os farroupilhas não estava sendo nada fácil. E a Proclamação da Independência da República Rio-Grandense era um fato grave. Indicava que os revolucionários se sentiam fortalecidos e dispostos a escalar o movimento. Notícias vindas de Santa Catarina apontavam que, por lá, já começava a surgir um apoio aos Farroupilhas. Eram sinais de alerta que não podiam ser ignorados. Novamente se colocava diante do governo imperial a questão da unidade nacional. Os fatos se precipitavam. Em 24 de julho de 1839, com a revolta farroupilha a pleno vapor e com o sentimento separatista começando a propagar-se por todo o Sul, os farrapos aumentam seu repto e proclamam a República Juliana, ou República Catarinense, cuja capital foi a cidade de Laguna e alcançou até a Vila de Lages, no atual estado de Santa Catarina.
Essa proclamação, que contou com a participação de líderes como Giuseppe Garibaldi e Davi Canabarro, tinha como principal propósito circunscrever o bloqueio naval realizado pela Marinha do imperador ao porto de Rio Grande, o que vinha impedindo o acesso por mar à Província Rio-Grandense. Não entrava o sal e não saía o charque. Sem poder comerciar, os efeitos do bloqueio estavam sendo altamente danosos para toda a economia da província. O fato é que os farrapos precisavam urgentemente de um porto com uma saída para o mar. E a busca de uma solução ficou a cargo do filho de um armador italiano e competente capitão de navios, Giuseppe Maria Garibaldi.
Garibaldi, o magnífico herói Farroupilha
Giuseppe Garibaldi – Foto de 1866 – (Domínio Público)
Filho de Domenico Garibaldi e de Rosa Raimondi, Garibaldi nasceu em 4 de julho de 1807, na cidade de Nizza, que mais tarde, quando passou ao domínio da França, recebeu o nome de Nice. Uma descrição da época dizia que Garibaldi “Era belo e forte como um atleta. As melenas alouradas caindo-lhe até os ombros davam-lhe a mais romântica das aparências – uma estranha e buliçosa aparência de espadachim inquieto…”.
O capitão tinha vindo para o Brasil porque foi condenado à morte pelo rei do Piemonte, Carlo Alberto Emanuelle Vittorio Maria Clemente Saverio di Savoia-Carignano. Em 1834, Garibaldi havia tomado parte da Insurreição de Gênova, no reino da Sardenha. Com o insucesso do levante, os conspiradores acabaram condenados à morte. O capitão, no entanto, conseguiu refúgio em Marselha. De lá, foi para a Tunísia, de onde, em 1835, partiu para o Rio de Janeiro. Garibaldi chegou ao Brasil em 21 de novembro de 1835 e veio na companhia de um grupo de compatriotas que lutavam pela mesma causa e que também haviam sido proscritos na Europa. Aqui, nos trópicos, recomeçou a vida em atividades mais prosaicas: experiente em transportes marítimos, passou a fazer transporte de cabotagem, levando, de navio, mercadorias de um porto para outro ao longo da costa brasileira.
Mas seu espírito inquieto era ávido por aventuras e mantinha sua alma pronta para voltar a arder por algum ideal. Pouco tempo depois de aportar no Brasil, encaminhado pela maçonaria, ao fazer uma das viagens ao Sul, teve contato com o general Bento Gonçalves, o líder dos farroupilhas, que se encontrava aprisionado. Garibaldi foi visitá-lo na cadeia. Identificaram-se de imediato. Consultado sobre possíveis alternativas estratégicas para resolver o impasse criado pelo bloqueio que a Marinha imperial mantinha ao porto de Rio Grande, Garibaldi sugeriu uma série de medidas. Bento Gonçalves, então, lhe deu uma carta endereçada ao presidente da República Rio-Grandense em que recomendava que desse a Garibaldi uma Carta de Corso, ou seja, um documento que autorizava Garibaldi a praticar a pirataria e apresar navios em nome da República Rio-Grandense, ficando metade do valor das cargas para o governo da nova República.
Além da missão de corsário, Garibaldi recebeu a incumbência de fustigar a Marinha do império também por mar e, especialmente, buscar meios de circunscrever o bloqueio ao porto de Rio Grande. O novo corsário, de posse da Carta, começou a combater o império e, logo, aprisionou um navio e sua carga. Mas Garibaldi percebeu que ações isoladas não seriam suficientes para compensar os prejuízos advindos do controle que a Marinha tinha sobre o porto de Rio Grande, por meio do qual bloqueava o acesso marítimo à parte rebelde da província. Era evidente que os farrapos precisavam de uma saída para o mar.
A essa altura, no delta do Rio Camaquã, no Rio Grande do Sul, na Fazenda do Brejó, que pertencia à Dona Antônia Joaquina da Silva, que vinha a ser a irmã do general rebelde Bento Gonçalves, existiam alguns galpões abandonados de uma velha charqueada. Ali o Governo Farroupilha resolveu montar um pequeno estaleiro para construir embarcações de fundo chato com a finalidade de controlar as águas internas, sobretudo a Lagoa dos Patos –um imenso corpo de água que possui mais de 10.000 quilômetros quadrados de área e se estende paralelamente ao Oceano Atlântico, com um comprimento de 265 quilômetros e 60 quilômetros de largura em seu ponto mais largo. Sua principal característica, porém, é que suas águas são rasas, tendo, em média, 3 metros de profundidade. Em razão disso e da existência de muitos bancos de areia na lagoa, os navios de guerra do império não podiam se aproximar do delta sem correr o risco de encalharem.
A organização do estaleiro foi entregue a um irlandês, John Griggs, o João Grandão, que havia chegado a Porto Alegre como imediato do brigue Norte-americano Toucan, no início da Revolução Farroupilha. Seduzido pela aventura, abandonou seu navio e juntou-se aos revoltosos. Homem de grande estatura, corpulento e imensamente forte, estava sempre bem-humorado e era um incorrigível otimista. Ainda assim, apesar de seu entusiasmo pela causa dos farrapos, com limitados conhecimentos de carpintaria naval e os poucos meios de que dispunha, não podia fazer grande coisa. Além disso, a madeira precisava ser cortada e transportada das matas nem sempre próximas, enquanto as ferragens precisavam ser forjadas ali mesmo, em uma forja rudimentar, de fole manual.
Logo João Grandão concluiu que, mesmo com doses infinitas de boa vontade, o trabalho não rendia nem avançava na velocidade necessária. Resolveu recorrer a Garibaldi. Este concordou que, de fato, eram necessários mais meios e recursos para fazer o estaleiro funcionar. Falando com os dirigentes farrapos, conseguiu convencê-los a enviar à Montevidéu o italiano Luigi Rossetti, editor do jornal O Povo, que era o periódico oficial dos farrapos, para buscar a ajuda do seu compatriota, o mestre carpinteiro naval Luigi Carniglia, que lá estava estabelecido. Carniglia aceitou o convite dos farroupilhas e trouxe suas ferramentas, além de vir com uma equipe de mestres e operários tarimbados.
Do dia para a noite, com um grupo afeito à carpintaria naval, as coisas tomaram outro ritmo e, em cerca de dois meses, conseguiram construir dois lanchões. Essas embarcações eram de porte respeitável, equipadas com dois mastros e velame completo. A maior, com 18 toneladas, recebeu o nome de Rio Pardo. O segundo lanchão, de 12 toneladas, era o Seival. Na primeira semana de maio de 1839 os barcos foram lançados à água e, durante nove dias, circularam pela Lagoa dos Patos à procura de presas. Na altura de Cristóvão Pereira deram com a sumaca Mineira e o patacho Novo Acordo. Após um único tiro, abordaram a Mineira, mas o Novo Acordo conseguiu fugir.
Em resposta a esse ataque, o governo imperial mandou para a Lagoa dos Patos, sob o comando do almirante inglês John Pascoe Grenfell, quatro navios de guerra armados até os dentes. Os farrapos agora estavam sendo acossados, mas os rebeldes logo descobriram um meio de se safar. Seus lanchões eram mais leves, rápidos e manobráveis. E tinham um calado compatível com a pequena profundidade da Lagoa dos Patos. Além disso, os marinheiros rebeldes conheciam cada centímetro da lagoa, reconheciam a presença dos bancos de areia e sabiam onde ficava cada um dos alagados, baixios e acidentes do lago e da costa. Quando eram perseguidos pelos navios imperiais, se dirigiam a um banco de areia próximo e avançavam até o lanchão encalhar. Assim que ficavam presos na areia, o comandante gritava a plenos pulmões:
“À água, patos!”.
Dada a ordem, todos que estavam a bordo pulavam na água, inclusive Garibaldi. Enquanto alguns puxavam com cordas, os demais empurravam o barco de fundo liso e chato sobre a areia, de modo a cruzarem para o outro lado. Ao alcançarem novamente a água, todos reembarcavam e, para tomar impulso, usavam varas que se apoiavam no leito do lago, além de abrir o velame. Rapidamente escapavam do alcance dos tripulantes dos navios da Marinha imperial, que, incapazes de repetir a façanha e sem poder prosseguir sobre os bancos de areia, ficavam observando, impotentes, a artimanha dos rebeldes. Essas escaramuças náuticas podiam ser imensamente divertidas, mas eram pouco eficazes do ponto de vista de resultados práticos. E assim foram abandonadas quando Garibaldi sugeriu ao Governo Farroupilha que tomassem a cidade de Laguna, em Santa Catarina, e por lá tivessem acesso ao mar.
A proposta de Garibaldi, de início, parecia um tanto tresloucada. Como atacar Laguna se toda a Marinha dos farrapos se resumia aos dois lanchões que estavam na Lagoa dos Patos, ambos com saída para o mar bloqueada pela Marinha imperial, estacionada na barra de entrada da lagoa? A resposta: os dois barcos deveriam seguir por terra até Tramandaí, entrar no Rio Tubarão, descer por ele e atacar pela retaguarda. A distância por terra a ser vencida era de 9 léguas, cerca de 80 quilômetros, mas em campo irregular e terreno encharcado pelas chuvas da estação. A partida seria nas nascentes do Arroio do Capivari, um tributário ao Norte da Lagoa dos Patos, e o destino seria as nascentes do Tramandaí.
TRAVESSIA DOS LANCHÕES DOS FARRAPOS – EXPEDIÇÀO A LAGUNA – LUCÍLIO DE ALBUQUERQUE – 1916 – INSTITUTO DE EDUCAÇÃO GENERAL FLORES DA CUNHA (DOMÍNIO PÚBLICO)
Para levar os barcos por terra era preciso colocá-los sobre rodas. Em uma pequena clareira ao lado do Rio Camaquã foram construídas as duas enormes carretas que levariam os barcos “navegando” pelas campinas. Cada uma delas tinha dois eixos e quatro imensas rodas, que mediam 3,20 metros de diâmetro. As rodas eram feitas de madeira seguindo o modelo das rodas raiadas das carroças, com os raios fixados em volta por uma cinta de ferro forjado, com uma largura de 40 centímetros. Para puxar todo aquele peso, o general Canabarro saiu pela região para requisitar, em nome do governo revolucionário, 200 bois de canga. Garibaldi, por seu turno, reunia o material necessário, principalmente cordoalha e madeira de embarcações apreendidas.
As margens do arroio em que estavam os barcos foram aplainadas para permitir que as carretas descessem e fossem submersas para serem colocadas por debaixo das embarcações. Apoiadas em longarinas, formaram um tipo de carreta gigante. Dois dias de trabalho intenso foram usados somente nessa tarefa. Finalmente, quando estava tudo pronto, atrelaram16 juntas de bois em cada barco e, apesar das dificuldades, no dia 5 de setembro de 1839 conseguiram tirar os barcos da água. Com enorme alegria e grande estardalhaço, começaram a incrível jornada de levar por terra os dois barcos farroupilhas.
A surpreendente cena formada por dois veleiros completos, com seus mastros projetando-se para o céu, navegando em plena campina verde dos campos gaúchos, era uma visão de causar espanto e, certamente, compunha um espetáculo de dimensões épicas. Centenas de curiosos acorriam para testemunhar os dois lanchões sendo puxados ruidosamente por dezenas de juntas de bois em suas cangas, com o eixo das imensas rodas rangendo pelo peso da carga. O espetáculo incluía o alarido de cavaleiros circulando para verificar o terreno à frente, a algazarra dos condutores incitando os bois e a constante necessidade de improvisar pranchas para evitar que as rodas afundassem no terreno alagado. E a caravana seguia em frente, abaixo de chuvas torrenciais, vencendo metro após metro. Assim, seguiram pela distância das 9 léguas, até alcançar a Lagoa Tomás José. Foram seis dias de esforços terríveis, tanto dos homens quanto dos animais de tração.
Ao chegar, um novo desafio: era preciso preparar o terreno para colocar os barcos na água. Também foi preciso reinstalar as armas que haviam sido retiradas para aliviar o peso durante a jornada por terra. Foram mais três dias de trabalho e esforço sem descanso. Por cruel ironia do destino, pouco depois de os barcos entrarem na água, um fortíssimo vento pampeiro soprou sem aviso e surpreendeu as tripulações. O lanchão Rio Pardo, apanhado despreparado, foi a pique, próximo a Araranguá. A Marinha farroupilha agora só tinha o Seival. Sob o comando de John Griggs, o lanchão deveria, sozinho, continuar a missão.
Quando Garibaldi, que estava a bordo do Rio Pardo, conseguiu sobreviver ao naufrágio e chegar à praia, perto da Pedra do Campo Bom, contou sua tripulação e viu que a perda do lanchão tinha levado 16 companheiros, dentre eles diversos carbonários que, como ele, vieram da Itália. Mas não havia tempo para prantear os amigos. Garibaldi reuniu o grupo sobrevivente e prosseguiu a pé em direção à Barra do Camacho, local por onde pensavam penetrar com a intenção de atingir Laguna pelo Rio Tubarão. Com sorte, Garibaldi e seus homens encontraram o Seival. Rapidamente subiram a bordo e se integraram à tripulação. Navegando rio abaixo, entraram no Rio Tubarão, onde o Seival encontrou e apresou o lanchão Lagunense, embarcação que vinha subindo o rio. O novo lanchão não se comparava ao barco perdido, mas era um reforço muito bem-vindo.
Em Laguna, a Marinha imperial estava bem instalada e equipada. No total, contava com uma flotilha de defesa composta da nave Imperial Catarinense e do navio armado Sant’Anna, apoiados pela escuna Itaparica, pelo brigue Cometa, além de dois lanchões armados. Sentinelas eram mantidas em alerta no alto do Morro da Glória, atentos à entrada da barra pelo lado do mar. Não havia sentinelas voltadas para o Rio Tubarão. Ninguém, entre os imperiais, imaginaria que um ataque pudesse vir pela retaguarda. No Rio Tubarão, só embarcações menores, como lanchões e baleeiras locais, conseguiam navegar. Então, pela lógica, parecia evidente que qualquer ameaça só poderia vir dali, pelo lado do mar,
No entanto, de repente, no dia 22 de outubro, coisas inesperadas começaram a acontecer. No ponto denominado Carniça, o navio Imperial Catarinense estava posicionado para defender a entrada da foz do Rio Tubarão. Seus vigias e armas, assim como acontecia com os guardas em terra, estavam posicionados para o lado do mar. O ataque de surpresa, silencioso e repentino, porém, veio do Oeste. A tripulação foi apanhada desprevenida e, ao verificar que a iminente abordagem suplantaria as defesas a bordo, o comandante José de Jesus mandou que os marinheiros pusessem fogo na embarcação e fugissem para a terra.
O comandante imperial da região, coronel Vicente de Paula de Oliveira Vilas Boas, ordenou aos demais barcos que se dirigissem ao mar aberto e saíssem barra afora. Ao tentarem manobrar, a escuna Itaparica, comandada pelo segundo-tenente Ernesto Alves Branco Muniz Barreto, e o lanchão Santana, comandado pelo segundo-tenente honorário Manuel José de Bessa, encalharam. Pela manhã do dia 23, ambos foram atacados por Garibaldi e renderam-se. Além desses dois, os farrapos tomaram outros 14 barcos mercantes de tamanhos variados que estavam ancorados. Somente a escuna Cometa, sob o comando de João Manuel de Moraes e Vale, conseguiu sair para o mar e aprestou-se a levar para a cidade de Desterro (atual Florianópolis) a notícia da derrota.
Garibaldi foi informado de que a escuna Cometahavia conseguido escapar e, certamente, levava aos imperiais a notícia da tomada de Laguna pelos revolucionários. E não tinha dúvidas sobre a reação dos imperiais. A tomada de Laguna significava uma expansão das ambições dos farroupilhas e, era de se prever, a resposta seria a mais rápida e contundente possível. Então, os revolucionários buscaram se preparar dentro das suas limitações.
Como supunha Garibaldi, ao receber a notícia da derrota em Laguna, os imperiais perceberam a gravidade do repto e decidiram responder atacando com tudo o que tinham, por terra e por mar. Em 15 de novembro, o almirante Frederico Mariath chegou à barra de Laguna com nada menos que 14 embarcações diversas, 379 homens e 31 canhões. Da posição em que estavam, usaram o impulso da maré e do vento para adentrar a barra. Dali podiam escolher a posição mais favorável para bombardear tanto quanto quisessem. Por terra, vieram as forças comandadas pelo tenente-coronel José Fernandes do Santos, compostas da brigada do 2º Regimento de Infantaria, um batalhão da Guarda Nacional da Serra e as cavalarias da Guarda Nacional de Imbaú e de Desterro.
A diminuta marinha de Garibaldi não tinha qualquer chance contra forças tão maiores. Todos os comandantes, exceto Garibaldi, foram mortos. O magnífico John Griggs, o João Grandão, foi atingido à queima-roupa e teve o corpo despedaçado. Davi Canabarro, reconhecendo a decisiva superioridade das forças imperiais e percebendo que era inútil resistir, ordenou a retirada em 15 de novembro de 1839. À frente de seus homens, deixou Laguna e tomou rumo Sul. Dessa forma melancólica, teve fim o Estado Catharinense Livre e Independente,ou a República Juliana, que recebeu esse nome por ter sido proclamada em 29 de julho de 1839.
Canabarro resolveu acampar na região do Camacho, 20 quilômetros ao Sul de Laguna, e mandou outro grupo acampar no Campo Bom, uns 30 quilômetros ainda mais ao Sul. A parada tinha o objetivo de esperar os destacamentos retardatários que vinham retirando-se dos arredores de Laguna. Analisando as alternativas para a continuidade da campanha, os oficiais farrapos consideraram a possibilidade de realizar mais algumas ações em Santa Catarina. A preferência da maioria dos oficiais e lideranças, entre eles Giuseppe Garibaldi, Teixeira Nunes e Luigi Rosseti, era por atuar mais um tempo na região. Afinal, já estavam por lá mesmo. Canabarro, entretanto, menos romântico e mais objetivo, decidiu retornar. Achava que suas forças seriam mais úteis apoiando a consolidação da República Rio-Grandense.
Para não desagradar a seus oficiais e para não colocar todos os ovos em um só cesto, Canabarro autorizou Garibaldi, Rossetti e Teixeira Nunes a rumarem na direção Oeste, subir a Serra Geral e tentar recuperar Lages, que havia voltado para as mãos dos imperiais. Marchariam juntos até Torres e lá dividiriam-se.
Os farrapos reconquistam Lages
O grupo que se dirigiu a Lages precisou escalar a íngreme e acidentada Serra Geral, tarefa nada fácil de ser executada. Era uma escalada que exigia preparo físico e nervos de aço. O caminho reservava riscos e obstáculos a cada metro. O grupo precisou transpor fendas e caminhar na beira de precipícios, sob intensa neblina e ventos constantes. Mas não se deixariam vencer por tal obstáculo geográfico, não obstante seus 1.200 metros de altitude. Lages e o Planalto Serrano de Santa Catarina tinham voltado para os imperiais graças, sobretudo, ao major Cândido Alano, um defensor do império que era fazendeiro influente na região.
Lages tinha importância estratégica inquestionável. Logo após a subida da serra, na margem esquerda das nascentes do Rio Pelotas, na divisa das províncias de Santa Catarina e São Pedro do Rio Grande do Sul, ficava o entreposto alfandegário de Santa Vitória. Ali o império cobrava os tributos incidentes sobre as tropas que vinham pelo Caminho de Viamão e seguiam pelos Campos de Cima da Serra com destino ao mercado de Sorocaba, em São Paulo. Com o propósito de manter o domínio sobre a região e defendê-la contra os ataques dos revoltosos farrapos, o governo imperial enviou para lá o brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, que comandava a Divisão São Paulo, composta de um robusto efetivo de 2.000 homens.
Xavier da Cunha era um personagem controverso. Militar português que havia lutado contra Napoleão, naturalizou-se brasileiro em 1824. Durante a guerra da independência do Uruguai, participou da defesa de Montevidéu e da defesa da Ilha de Martim Garcia, na confluência entre os rios Uruguai e Paraná. Depois lutou na defesa de Sacramento, onde ficou até 3 de outubro de 1828, data do acordo de paz celebrado no Rio de Janeiro. De volta ao Brasil, ficou no Sul e estabeleceu-se em Porto Alegre, onde foi promovido a tenente-coronel e, depois, a coronel. Iniciada a Revolução Farroupilha, participou da defesa de Porto Alegre. Foi promovido a brigadeiro em 1837.
Em 1839, de volta à corte, no Rio de Janeiro, recebeu do governo imperial o comando de Divisão São Paulo, um contingente de tropas incumbido da missão de retomar Lages da mão dos farrapos e, depois, descer para auxiliar no combate ao cerco de Porto Alegre, ferozmente mantido pelos farroupilhas. Sob seu comando, as tropas que saíram de São Paulo travaram pequenas refregas localizadas e derrotaram alguns piquetes farroupilhas através dos Campos dos Curitibanos e Campos Novos. Ao chegaram a Lajes, com enorme supremacia em homens e armas, retomaram a vila. O brigadeiro Xavier da Cunha, contudo, cheio de empáfia com suas pequenas vitórias, crescia em arrogância. Além de boquirroto e inconsequente, era dado a bravatas e bazófias. Um fato bem conhecido por suas tropas era que o brigadeiro tinha especial gosto em jactar-se de sua habilidade em persuadir os soldados republicanos capturados a mudarem de lado e a espionarem em favor do império.
Assim que chegaram ao planalto, Teixeira Nunes, o experiente comandante farrapo, e Garibaldi, o marinheiro italiano que, agora, tinha se transformado em hábil cavaleiro, fizeram o reconhecimento do terreno e trataram de informar-se melhor sobre a situação geral em que se encontrava a região. Conversando com alguns combatentes farroupilhas que haviam fugido de Lages e estavam escondidos na serra, ficaram sabendo da fanfarronice do brigadeiro e prepararam um plano para tirar proveito de sua gabolice. Convenceram a um dos mais astutos entre os rebeldes farrapos que haviam escapado de Lages a que se deixasse prender pelas sentinelas de Xavier da Cunha que patrulhavam as imediações da vila. Então, ao ser levado ante a presença do comandante imperial, depois de fingir alguma resistência, deveria se mostrar arrependido de ter lutado pelos farrapos e se deixar “convencer” pelos argumentos e promessas que, como era do jeito de agir do brigadeiro, certamente lhe seriam feitas.
A essa altura deveria “soltar” a informação de que cerca de 200 soldados republicanos expulsos de Laguna, maltrapilhos, famintos e sem armas, estavam subindo a serra e aproximando-se do posto fiscal de Santa Vitória, que pretendiam assaltar para roubar os valores arrecadados com a taxação das tropas e lá entesourados. O combatente farrapo se desincumbiu da missão com maestria. Xavier da Cunha, ao ouvir a notícia de seu “espião”, soltou uma estrepitosa gargalhada. Caramba, com 1.000 bananas, ele era realmente mais astuto do que aquela gentalha! Os farroupilhas, acreditava ele, que os combatera em Porto Alegre, não passavam de um bando de arruaceiros, um amontoado de pacóvios rústicos e ignorantes.
Para celebrar antecipadamente sua boa sorte e a vitória que antevia contra aqueles toleirões, Xavier da Cunha abriu um vinho de sua sempre fornida adega particular e brindou com seus oficiais apaniguados. Mas nem todos os oficiais sob seu comando, especialmente os que haviam enfrentado os republicanos em diversas pugnas pelos campos do Sul, acreditavam que a vitória seria fácil. Sabiam que não era uma boa ideia subestimar aquele inimigo, um tanto romanesco, é verdade, mas aguerrido, astucioso e determinado. Ainda assim, não ousaram questionar o julgamento do comandante. Seria inútil e até perigoso contrariar aquele oficial autoincensado, tosco, rude nos modos, de pavio curto e temperamento mercurial.
Xavier da Cunha estava convencido de que os farrapos que subiam a serra não poderiam ser mais que um punhado de soldados derrotados, fugitivos, exaustos e famintos. Um grupelho que ele esmagaria num vapt-vupt antes que se dessem conta. Aí, depois de moer aqueles insolentes e ter feito por merecer mais uma comenda, poderia tranquilamente continuar sua missão e rumar para Porto Alegre. Assim que julgou chegado o momento, reuniu seus 2.000 soldados e seguiu para trucidar os farrapos. Cheio de soberba, como de hábito, o brigadeiro sentia-se um centurião romano e imaginava como puniria exemplarmente aqueles inimigos que afrontavam o imperador. Enquanto cavalgava já saboreando as recompensas que teria após uma vitória consagradora, nem imaginava que, na verdade, marchava para uma cilada histórica e que lhe seria fatal.
Suas topas, ao se aproximarem de Santa Vitória, foram atraídas por duas movimentações separadas e se dividiram para atacar, quando foram surpreendidas pela habilidade excepcional da cavalaria farroupilha e pelo ataque fulminante dos Lanceiros Negros. Fustigado por todos os lados, atabalhoado e sem saber o que fazer diante do inesperado, o brigadeiro, que, diferentemente dos farrapos, não tinha se dado ao trabalho de reconhecer o terreno, tentou retroceder e foi, com metade de seus homens, em direção a uma saída que parecia desguarnecida. Foi então que se deu conta de que ele e seus homens haviam sido impelidos para dentro de uma mangueira de taipas, um bolsão cercado por muros de pedras sem saída.
A mangueira em que haviam entrado tinha o muro reforçado e uma única entrada, porque era usada pelos coletores de impostos para nela confinarem os animais trazidos pelos tropeiros com o fim de contar e tributar o gado que vinha do Sul. Uma vez no interior da mangueira, os soldados imperiais descobriram que estavam imobilizados e não tinham como escapar: a única saída estava bloqueada pela tropa farroupilha. O brigadeiro Xavier da Cunha e boa parte de seus homens estavam, portanto, encurralados e se encontravam tão indefesos como patos numa lagoa. Vendo que tinham sido apanhados em uma ratoeira, os imperiais ainda tentaram responder ao fogo dos farrapos, mas os muros de taipa que envolviam a mangueira formavam uma muralha que protegia os soldados republicanos que, do lado de fora, atiravam por sobre o muro de pedras.
Foi uma carnificina. Os farrapos, literalmente, praticaram tiro ao alvo nos soldados imperiais. Os poucos militares que não entraram na armadilha batiam em retirada, mas mesmo os fugitivos passaram a ser perseguidos pelos esbeltos e hábeis Lanceiros Negros, um batalhão de cavalaria formado só de negros, ex-escravos e escravos fugidos. Os Lanceiros eram, de longe, o melhor grupo de combate que participava da Guerra Farroupilha. Além de exímios lanceiros, esgrimindo e arremessando suas lanças como seus antepassados o faziam caçando e guerreando nas savanas da África, eram ginetes magníficos e insuperáveis no uso de boleadeiras.
O brigadeiro, ferido em uma perna e percebendo a inutilidade de qualquer esforço, conseguiu escalar uma das muretas e, com ajuda de alguns oficiais que tinham ficado do lado de fora da mangueira, tentou fugir em direção ao Rio Pelotas. Os republicanos, vendo que o comandante das tropas imperiais procurava fugir, saíram em seu encalço. Ao se dar conta de que os inimigos se aproximavam, o brigadeiro, tomado pelo desespero, ainda se lançou nas águas tentando cruzar o rio a nado. Foi uma tentativa insensata e fatal. Ferido como estava, não conseguiu fazer a travessia e foi engolfado pelas águas. Seu corpo nunca foi encontrado.
Garibaldi e Anita, feitos um para o outro
Anita Garibaldi – Johan Moritz Rugendas – (C.1848) (domínio público)
No combate de retomada de Lages, Garibaldi viveu sua primeira experiência de enfrentamento em terra firme. E foi seu primeiro combate como cavaleiro. Afeito às lides do mar e guerreiro provado nos combates náuticos, até aquela data só havia lutado embarcado. E foi em Laguna que aprendeu a cavalgar e a combater montado. Suas novas habilidades ele aprendeu com sua professora de equitação, aquela moça encantadora e charmosa que chamou sua atenção quando, a bordo da embarcação Itaparica, tomada do inimigo, olhava com uma luneta as casas da barra de Laguna. Em terra, observou um grupo de moças pelas quais passava e, em no meio delas, viu uma que se distinguia pelo porte e beleza e que, num átimo, prendeu sua atenção.
De imediato, fez descer um escaler e remou, alucinado, até a margem. Uma vez no solo, correu até o local onde a tinha visto, porém já não mais a encontrou. Desolado, perdeu a esperança de encontrá-la. Mas o destino tem suas artimanhas. Um habitante local o convidou a ir até sua casa para um café, e Garibaldi aceitou. E foi nessa casa onde, novamente, se deparou com a jovem que tanto o encantara ao vê-la pela luneta.
Em suas memórias, assim Garibaldi relata o encontro com sua Anita:
“Entramos, e a primeira pessoa que se aproximou era aquela cujo aspecto me tinha feito desembarcar. Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna. A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-nos reciprocamente, como duas pessoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência. A saudei finalmente e lhe disse: ‘Tu deves ser minha!’. Eu falava pouco o português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor”.
Anita estava com 18 anos quando foi vista por Giuseppe Garibaldi, que, na ocasião, tinha 32 anos. A jovem Ana Maria de Jesus Ribeiro, que viria a ser mais conhecida como Anita Garibaldi e se converteria na “Heroína dos Dois Mundos”, por ter lutado ao lado dos farroupilhas e, depois, pela unificação da Itália, recebeu o batismo de fogo em Itabuna, quando uma expedição corsária de Garibaldi foi atacada pela Marinha imperial do Brasil. A prodigiosa coragem de Anita e seu decantado amor por Garibaldi, porém, foram provados na batalha naval de Laguna, quando a Marinha farroupilha enfrentou e foi derrotada pela frota imperial comandada por Frederico Mariath. Nessa batalha Anita, sem temer pela própria vida, atravessou a área do conflito uma dúzia de vezes a bordo da pequena lancha de combate para levar munições a Garibaldi, em meio a uma verdadeira carnificina.
Anita, que era uma amazona de grande traquejo, teve em Garibaldi um aluno talentoso e aplicado. Sobre seu aluno de equitação escreveu ela para sua irmã e confidente:
“Querida irmã: (…) o único combate que realmente exigiu empenho aconteceu perto de Santa Vitória. (…) pela primeira vez eu o via em ação a cavalo. (…) Felizmente, ele aproveitou bem as minhas aulas de equitação. Eu não conseguia tirar os olhos de cima dele, cheia de admiração pelo modo como conseguia prever os movimentos dos adversários. Era tão bom nisso que conseguia mandar os seus homens para os lugares certos, surpreendendo a todos com a rapidez de suas ações e indo de um lugar para outro com muita velocidade, deslocando-se sem parar, como um perfeito guerrilheiro(…)”.
Regista a história que, naquele memorável dia 14 de dezembro de 1839, 500 soldados republicanos, entre os quais lutou a destemida Anita Garibaldi, enfrentaram e derrotaram os 2.000 soldados imperiais comandados pelo brigadeiro Xavier da Cunha. Quatro dias depois, em 18 de dezembro, Garibaldi, Anita, Rosetti e Teixeira Nunes, com seus farrapos, entraram triunfalmente em Lages e ali reinstalaram os comandos militares e o governo da República Catarinense.
Anita e Garibaldi, desfrutaram, então, durante alguns dias, de um período de paz e tranquilidade, e cultivaram o amor que sentiam um pelo outro. Em meio às paixões políticas e à emoção das conquistas, viverem, com enlevo, momentos de mútuo abandono como só o amor conhece. Aqueles dias de romance e ternura ambos iriam lembrar para sempre. Por coincidência, Anita era originária de uma família de Lages e ali ainda vivia seu Tio Antônio, que os acolheu afetuosamente. Em sua casa hospedaram-se e puderam compartilhar o mesmo teto pela primeira vez. Anita escreveu para sua irmã:
“(…) Nos dias que se seguiram àquela luta, chegamos a Lajes sem maiores dificuldades e fomos acolhidos alegremente pela família e pelos amigos. Já encontramos uma casinha bonita, toda de madeira. Não consigo acreditar que estou vivendo sozinha com José. Estamos muito felizes, rimos e brincamos de donos de casa, quando os nossos amigos vêm nos visitar. Tio Antônio e José logo simpatizaram um com o outro. Quando eles se encontram, passam horas discutindo sobre a liberdade dos povos. Mas devo confessar que, às vezes, começo a duvidar de que um dia o mundo será realmente diferente. Talvez ele melhore para os nossos filhos, pelo menos é o que espero. Mas o tempo passa e tudo fica como antes. Evito dizer isso aos nossos fervorosos sonhadores, que, por mais que discutam, não sabem dizer por quanto tempo resistiremos em Lajes. Ninguém se arrisca a fazer previsões. As patrulhas falam de tropas inimigas, organizam-se várias expedições. Com certeza José vai ter que patrulhar nos próximos dias, e eu vou com ele. Ficou decidido que ficarei encarregada de reabastecer as tropas de munições, o que me parece uma tarefa útil. Levarei comigo um grupo de companheiros fortes, que estou aprendendo a conhecer, para garantir os transportes. Quero organizá-los da melhor maneira possível (…).
Anita deixara um casamento de conveniência e uma vida de mediocridades para fazer parte das grandes lutas do mundo de seu tempo. E o destino lhe dera o companheiro que fora destinado pelas estrelas. Sem pensar por quanto tempo a felicidade lhe seria pródiga, vivia momentos de arrebatamento indizíveis. O Natal chegou e Anita e Giuseppe comemoraram juntos a grande festa da cristandade. A Missa do Galo, em 24 de dezembro de 1839, foi um momento de profundas emoções para ambos e, ainda mais, para Anita, que aos 18 anos via desabrochar a grande paixão, à qual entregava sua vida sem medos e sem reservas.
A igreja, na Vila de Lages, estava enfeitada com um presépio que lembrava a manjedoura contada no Evangelho. À noite, a cena era iluminada por lamparinas e velas natalinas que bruxuleavam, inquietas, como os corações do casal que as observava. No Centro, o bambino Jesus, esculpido em madeira, tinha os braços abertos, um sorriso angelical e as faces rosadas. Arrumado em volta de musgos e ramos de pinheiro, pouco parecia se importar com a modéstia de seu berço. Embevecido, o casal esqueceu as horas e ali ficou, de mãos dadas, se deixando encantar por aquela atmosfera de fé e esperança que os unia ainda mais. Um sentimento de carinho sem limites os amalgamava em um amor maior do que a vida, enquanto fortalecia seus sonhos para um futuro que desvendariam juntos.
Subitamente, fazendo ecoar sua voz de tenor, limpa e cristalina, naquela pequena igreja de Lages, Garibaldi principiou a cantar a mais linda e a mais italiana das músicas de Natal, Tu scendi dalle stelle, uma canção natalina de simbolismo incomparável que unificava seu país pelo inexcedível amor a Gesù bambino, ainda antes que a Itália tivesse se unido politicamente:
Tu scendi dalle stelle, o Re del Cielo,
e vieni in una grotta, al freddo al gelo.
O bambino, mio divino, io ti vedo qui a tremar.
O Dio beato!
Ahi, quanto ti costò l’avermi amato!
A te, che sei del mondo il Creatore,
mancaron panni e fuoco, o mio Signore!
Caro eletto pargoletto, quanto questa povertà più m’innamora!
Giacché ti fece amor, povero ancora!
Tu desces das estrelas, ó Rei do Céu,
e vens para uma gruta, ao frio, ao léu.
Ó menininho, meu divino, eu te vejo aqui a tremer.
Ó Deus abençoado!
Que preço tu pagaste por ter-nos amado!
A ti, que és do mundo o Criador,
faltaram roupa e calor, ó meu Senhor!
Querido pequenino eleito,
como esta pobreza me faz amá-lo ainda mais!
Porque, por amor, agora te fizeste pobre.
Como presente de Natal, Teixeira Nunes, o comandante farroupilha, deu a Anita um vestido de musselina, um xale de seda, sapatos de marroquim e um chapéu da moda. Garibaldi ganhou um poncho claro, ricamente trabalhado.
Os republicanos informaram a reconquista de Lages ao estado-maior farroupilha, e Bento Gonçalves exultou com o feito. Ele tinha bons motivos para tanto. Com Lages em mãos dos republicanos, cessava a passagem do gado e das tropas no rumo de Sorocaba, com reflexo imediato nos negócios do império e na cobrança de impostos pelo governo imperial, além do bloqueio às comunicações e aos movimentos terrestres entre as províncias e o Rio Grande do Sul. A vitória acenava com a possibilidade de reorganizarem forças para retomar a estratégica Laguna e, eventualmente, chegar a Desterro, a capital da Província de Santa Catarina. Nos devaneios otimistas e conjecturas leves e soltas dos líderes farrapos, Teixeira Nunes desceria do planalto a partir de Lages e Canabarro marcharia pelo Caminho de Viamão. Desterro era bem defendida por mar, mas por terra, as duas forças, somadas, teriam efetivos para retomar a cidade. Se bem-sucedido esse novo projeto, não só a independência da República Rio-Grandense estaria consolidada, como também renasceriam as possibilidades de independência da República Juliana.
O que nem Teixeira Nunes nem Garibaldi sabiam, contudo, é que, mesmo algum tempo antes da desastrosa derrota das tropas do brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, o governo imperial já havia dado ordens ao coronel Antônio de Mello Albuquerque, alcunhado de “Melo Manso”, para que deixasse Cruz Alta com suas tropas e se dirigisse a Lages. Lá chegando, deveria reunir seus homens com as tropas do brigadeiro para, juntos, voltarem-se para o rumo Sul e seguirem pelo Caminho de Viamão com o objetivo de enfrentar os farrapos e levantar o cerco a que os rebeldes submetiam à cidade de Porto Alegre.
Melo Manso, em obediência às ordens do governo imperial, vinha marchando em direção a Lages, quando, a meio caminho, recebeu a notícia de que o brigadeiro Francisco Xavier da Cunha estava morto, suas tropas destroçadas e a Vila de Lages, mais uma vez, se encontrava em poder dos republicanos. Sem querer um confronto antecipado, resolveu contornar Lages, passando por Campos Novos, seguindo rumo ao Norte, na direção de São Paulo. Seu objetivo, agora, era encontrar-se com um novo Exército imperial, formado às pressas, que de lá havia partido sob o comando do general Pedro Labatut.
Os farrapos, ao saberem da coluna de Mello Manso, dividiram seus homens em duas partes: um grupo foi estacionando nas proximidades do Rio Pelotas, com a missão de proteger Lages de um ataque pelo Sul, enquanto o outro, com 500 integrantes, comandado pelo próprio Teixeira Nunes, saiu em direção a Curitibanos, localizada a Norte de Lages, onde esperavam interceptar o inimigo. Nessa expedição, 150 homens a cavalo eram comandados por Giuseppe Garibaldi. Anita, que insistiu em ir também, recebeu a responsabilidade pela intendência, especialmente o transporte da munição. A seu comando estavam 20 homens, que deveriam ficar na retaguarda da tropa, suprindo as necessidades do grupo.
Três dias após terem partido de Lages, as tropas farroupilhas acamparam às margens do passo do Rio Marombas, importante local porque era por ele que o inimigo deveria cruzar, caso estivesse preparando um ataque a Lages. Por volta da meia-noite do dia 12 de janeiro de 1840, as guardas avançadas dos dois inimigos encontraram-se e trocaram alguns tiros. Imediatamente, Garibaldi fez seus homens montarem para enfrentar o ataque que pensou estar sendo iniciado. Logo ao nascer o dia, contudo, descobriram que o inimigo se antecipara. Tinha feito a travessia à noite e já estava em posição de batalha no alto de uma coxilha próxima.
Mesmo com efetivos menores, Teixeira Nunes ordenou o ataque. Os imperiais estavam bem-posicionados e entrincheirados. Assim fizeram valer sua superioridade numérica e não tiveram dificuldade em rechaçar o primeiro ataque republicano. Garibaldi, então, avançou com sua cavalaria, que cavalgou morro acima, ao lado da infantaria. Vendo o ataque maciço da cavalaria, que não esperavam, os imperiais de Mello Manso entraram em pânico e fugiram em todas as direções. Teixeira Nunes, empolgado com a oportunidade de uma vitória decisiva, ordenou a perseguição. Não queria dar tempo ao inimigo para reorganizar-se e reagir. Mas, como a sorte das batalhas é sempre caprichosa e incerta, o comandante farroupilha, no afã de alcançar e combater os fugitivos, descuidou de sua retaguarda. Ao chegar às margens do Rio Maromba, foi surpreendido pelas forças remanescentes de Mello Manso, que haviam se atocaiado em uma restinga, antes do rio. Repentinamente, sua retaguarda foi atacada e os imperiais que fugiam novamente voltaram para confrontar Teixeira Nunes. Foi a vez dos farrapos se verem cercados.
Garibaldi, que acompanhava a distância a movimentação da infantaria, rapidamente reuniu sua cavalaria e acorreu em seu socorro. A topografia do local do embate, contudo, não permitia que a cavalaria pudesse aproximar-se de Teixeira Nunes e o terreno não permitia que pudessem atacar montados. O italiano, então, decidiu ocupar um capão localizado no alto de uma coxilha próxima, ponto a partir de onde seus homens teriam visão do campo de batalha e alcance de tiro. Com sua tropa disposta de modo a colocar os soldados de Mello Manso entre dois fogos, Garibaldi fustigou os imperiais sem cessar e criou condições para que, após algum tempo de luta encarniçada e ao custo da vida de inúmeros companheiros, Teixeira Nunes e significativa parcela de seus soldados conseguissem escapar do cerco.
O contra-ataque de Melo Manso, agora, se voltava contra Garibaldi. O comandante dos imperiais mandou suas tropas cercarem a colina onde estava posicionado o italiano com seus 63 cavaleiros. Seus homens, após ajudarem Teixeira de Melo, não tiveram tempo de apanhar os cavalos, montar e fugir. Vendo que o cerco se fechava, Garibaldi rapidamente reorganizou a defesa da colina. Posicionou seus soldados de modo a cobrir todos os ângulos e, mal terminou de organizar a defesa, precisou responder ao ataque. Sabendo, instintivamente, que a iniciativa e a atitude são a armadura que protege os guerreiros intimoratos, quando saem para combates de vida e morte, liderou a defesa estando em todos os lugares e dando exemplo de coragem, lucidez e grande disciplina.
Os imperiais, ainda que em maior número, mostravam-se desarranjados e não conseguiram atingir a trincheira em nenhuma das cinco ou seis cargas que tentaram. Assim, vendo que a seus homens faltava inspiração e que suas frágeis investidas não conseguiam quebrar as defesas de Garibaldi, resolveram mudar de estratégia. Nesse ínterim, Anita, que a tudo acompanhava na retaguarda, compreendeu a perigosa situação enfrentada por Garibaldi e seus cavaleiros. O cerco da colina era numeroso e bem armado. Com acesso a suprimentos e munição abundante, poderia se estender pelo tempo que Melo Manso quisesse. Com constante movimentação militar e fustigando incessantemente os homens entrincheirados no topo, era só uma questão de tempo para os imperiais vencerem os farrapos pelo cansaço. Era só manter a pressão e esperar os homens encurralados esgotarem sua munição e seus suprimentos.
Na parte baixa, Anita, vivia a angústia de saber que, mantido o status-quo, a cavalaria do alto da colina estava condenada. A única forma de ganhar tempo seria assegurar suprimento de munição para que os sitiados pudessem ir respondendo ao fogo e manter os atacantes a distância. Ao menos até que surgisse um fato novo ou pudessem ser resgatados por reforços de Teixeira Nunes. Diante do quadro nada animador, Anita chamou seus homens. Com coragem, puseram-se a campo na tentativa de levar seus animais cargueiros carregados com suprimentos e munição até os combatentes farrapos. Mas não conseguiram ir longe. Seus movimentos foram percebidos por um destacamento imperial que saiu em seu encalço e abriu fogo. Anita e seus homens responderam ao ataque, mas estavam expostos e desprotegidos. Anita, que estava a cavalo e puxava os animais com a carga de suprimentos e munição, esporeou sua montaria e tentou forçar os animais de carga a avançar morro acima, enquanto se virava na montaria para responder aos tiros disparados em sua direção. Via seus homens serem atingidos, mas continuou tentando avançar para a colina.
Nesse momento um tiro fez voar seu chapéu, raspou-lhe a cabeça e arrancou uma mecha de seus cabelos. Olhou para trás e se viu perseguida por um grupo de soldados imperiais. Ainda assim, ignorando o perigo, tentou levar seus homens a um último esforço para fazer avançar os animais de seu comboio para campo aberto, onde, acreditava, receberia cobertura dos farrapos do topo. As coisas, porém, se complicavam. A fuzilaria continuava e as balas zuniam a sua volta. Os imperiais pareciam surgir de todos os lados e avançavam mais e mais. De repente, Anita se viu cercada e sem saída. Em uma última e desesperada tentativa de se livrar do assédio que a acossava, sendo a excelente amazona que era, enfiou as esporas nos flancos de seu cavalo e fez sua montaria saltar por sobre os soldados. O ato heroico teria lhe permitido escapar se seu cavalo não tivesse sido mortalmente atingido. Sua montaria, ao cair, também a derrubou. Valente, levantando-se o mais rápido que pôde, ainda tentou desembainhar a espada para oferecer resistência, mas os soldados já estavam sobre ela e a dominaram. Anita foi feita prisioneira.
Giuseppe Garibaldi relatou este episódio inúmeras vezes e o deixou registrado de próprio punho:
“Já disse a maneira porque, apesar da bravura de Teixeira Nunes, a nossa cavalaria foi derrotada e como com os meus sessenta e três infantes me vi cercado por mais de quinhentos homens de cavalaria inimiga. Anita devia neste dia assistir as mais terríveis peripécias da guerra. A muito custo submetendo-se ao papel de simples espectadora do combate. Anita apressava a marcha das munições receosa de que os cartuchos faltassem aos combatentes: com efeito o fogo que nos víamos obrigados a fazer era tão violento que dava margem a supor-se, com toda a razão, que, se as nossas munições não fossem renovadas bem depressa, não teríamos um único cartucho; com este fito aproximava-se do lugar, onde o combate era mais renhido, quando um esquadrão de vinte cavaleiros inimigos, perseguindo alguns dos nossos que fugiam, caíram de improviso sobre os soldados que conduziam a bagagem.
Excelente cavaleira e montando um admirável cavalo, bem poderia Anita ter fugido; mas dentro desse peito de mulher batia o coração de um herói: em lugar de fugir, animava os nossos soldados a defenderem-se e, num momento, se viu cercada pelos imperiais. Anita enterrou as esporas no ventre do cavalo e dum salto passou pelo meio do inimigo, não tendo recebido mais do que uma única bala, que lhe atravessou o chapéu e levou parte dos cabelos, sem lhe tocar no crânio. Talvez ela pudesse fugir se o cavalo não caísse ferido mortalmente por outra bala e, sendo obrigada a render-se, foi apresentada ao coronel inimigo”.
A tarde já findava quando Garibaldi conferenciou com seus soldados. Enfrentar a noite ainda cercados era uma opção de altíssimo risco. A escuridão facilitaria ao inimigo concentrar forças e organizar ações de ataque. Eram 500 soldados inimigos contra meia centena de republicanos. Assim, resolveram correr o risco e tentar romper o cerco aproveitando a meia-luz do crepúsculo. O relevo, com ondulações, facilitaria jogar com as sombras e avançar em pequenos grupos. As sombras ajudariam a camuflar os movimentos e dificultariam a pontaria do inimigo. Quando o sol começava a esconder-se, iniciou-se a movimentação dos rebeldes. Enxotaram os cavalos contra a posição dos imperiais para ajudar a confundir os atiradores, e assim os grupos foram saindo. Um grupo corria um trecho e jogava-se ao chão, aproveitando a cobertura de algum desnível ou touceira. Uma vez no solo, começava a atirar furiosamente. Aproveitando a confusão, o grupo seguinte iniciava a carreira e, ao chegar no ponto onde estava o primeiro grupo, repetia a sequência: arremessava-se ao solo e passava a atirar.
Os homens do primeiro grupo, então, levantavam-se e reiniciavam a corrida semiagachados até chegar ao próximo ponto. E assim, alternando-se em correr, jogarem-se ao solo e atirar, conseguiam atingir uma mata próxima. De lá, assim que chegavam, usando as árvores e a vegetação rasteira como proteção, passavam a atirar furiosamente contra a retaguarda do cerco imperial. O inesperado movimento dos farrapos, que pareciam estar imobilizados pelo cerco, com as rápidas e bem coordenadas sequências de corrida e fogo concentrado, para logo abrir um nutrido tiroteio pela retaguarda, tomou os imperiais de surpresa e confundiu os soldados encarregados do cerco. Sem conseguirem ver a movimentação dos farrapos no lusco-fusco do entardecer e sem entender o que acontecia, os imperiais foram abandonando as posições mais avançadas e buscaram proteger-se. Por fim, ao se darem conta de que não havia mais farrapos no topo da colina, concluíram que tinham deixado escapar a oportunidade de pegar Garibaldi e que, obviamente, não havia mais motivo para manterem o cerco.
A tática escolhida por Garibaldi, pensada e executada com arrojo e determinação, resultou em êxito total. O rompimento do cerco se deu sem o registro de uma única baixa entre os 63 farrapos que haviam sido sitiados. Quando a noite chegou, o italiano ainda não tinha nenhuma informação sobre o paradeiro de Anita. Não havia como procurá-la, pois ela, como responsável pela vida e pela segurança de seus comandados, trataria de buscar formas de evitar que seus homens fossem apanhados e executados pelas patrulhas adversárias. Pelos cadáveres encontrados, ficou claro que os imperiais não estavam poupando a vida dos republicanos dispersos que encontravam.
Com o coração pesaroso por ser forçado a abandonar as buscas à Anita, mas compelido pelo dever, decidiu retornar a Lages. Preferiu seguir pelo interior da mata densa, evitando as picadas e as trilhas, pois seus homens estavam quase sem munição e não queria novos embates com patrulhas imperiais. Durante quatro dias e quatro noites caminharam pela mata, enfrentando obstáculos e sofrendo privações. Para Garibaldi, mais do que a fome ou o cansaço, era a dúvida sobre o destino de Anita que o angustiava. Enquanto isso, quando os soldados imperiais finalmente subjugaram Anita, ficaram espantados em saber que se tratava de uma mulher. De todos, o mais espantado foi o soldado João Gonçalves Padilha, originário de Laguna e fora pretendente à sua mão, mas havia sido preterido pelos pais de Anita em favor do sapateiro Manuel Duarte de Aguiar, em 1835, quando ela tinha 14 anos.
Após a reconhecerem, inclusive agora, cientes de seu relacionamento com Garibaldi, os imperiais não ousaram tocá-la e a conduziram até o coronel Mello de Albuquerque. O militar, tão surpreso como seus homens, admirou-se da coragem e ousadia daquela jovem guerreira. Tentou interrogá-la, mas ela recusou-se a responder, não se deixando intimidar e se mostrando inflexível e altiva. Mais tarde Mello de Albuquerque confessou que ficou impressionado com a bravura e a coragem de Anita. Anos depois, em palestra que proferiu aos jovens oficiais no Colégio Militar de Porto Alegre, narrou que:
“(…) quando me foi apresentada estava malvestida, em trajes masculinos, desgrenhada (…) via-se que padecia horrivelmente (…) mas com sua presença conquistou a minha admiração e a dos meus comandados (…) nunca imaginávamos ver uma mulher tão valorosa (…). Enchia-nos de orgulho o fato de ser ela uma catarinense, uma compatriota, que dava ao mundo tão sublime provas de valor e intrepidez(…)”.
Em suas memórias, Garibaldi registrou este interrogatório a que Anita foi submetida:
“Sublime de coragem no perigo, Anita maior vulto tomava ainda, se é possível, na adversidade, de sorte que na presença desse estado-maior maravilhado do seu arrojo, mas que não teve o bom gosto de ocultar diante de uma mulher o orgulho da vitória. Anita repeliu com uma rude e desdenhosa altivez algumas palavras que lhe fizeram antever um tal ou qual desprezo pelos republicanos e tão vigorosamente combateu com a palavra como já o fizera com as armas”.
Para quebrar sua altanaria, disseram-lhe que todos os chefes republicanos estavam mortos. E que Garibaldi igualmente havia tombado em combate. Inicialmente Anita se mostrou cética, mas os oficiais mentiram contando detalhes da sua morte. Só dessa forma Anita deixou-se abater. Mas, mesmo sem ter como segurar a dor da perda nem esconder os soluços que vinham irrigados pelas lágrimas incontidas, procurou manter-se com dignidade em homenagem ao herói de sua vida. Passadas algumas horas, acabou por encontrar forças em seu sentimento religioso e em seu amor por seu José para pedir ao coronel Antônio de Melo Albuquerque, o “Melo Manso”, que lhe fosse permitido procurar o corpo de Garibaldi.
O comandante acabou sendo sensível às lagrimas que escorriam daqueles olhos profundos e sentiu inveja do italiano, que era o inspirador da ternura daquele coração intimorato. Sabia bem que Garibaldi havia conseguido escapar e deveria estar a caminho de Lages. Mas não queria que seus rudes comandados soubessem que se deixara comover pelo sentimento de profunda tristeza que via naquele rosto, agora tão doce e inocente. Usou palavras duras para encobrir sua admiração, mas autorizou que Anita fosse ao campo de batalha revolver os mortos e procurar pelo corpo de Garibaldi.
Garibaldi relatou o episódio em suas memórias:
“Anita julgava que eu tinha morrido. Nessa persuasão pediu e obteve licença de ir ao campo de batalha procurar o meu corpo no meio dos cadáveres. Qual a ventena infernal passeando sobre a campina ensanguentada, Anita errou só e por muito tempo procurando aquele que ela receava de encontrar, voltando os mortos que tinham caído de rosto para a terra e nos quais, pelo fato ou pela altura, ela imaginava terem alguma semelhança comigo. Foram inúteis as suas pesquisas. Era a mim, pelo contrário, que a sorte reservava a dor suprema de banhar com as minhas lágrimas suas faces gélidas e, quando este momento de angústia chegou, impossível me foi de lançar um punhado de terra, uma flor, ao menos sobre a cova onde jazia a mãe de meus filhos. Desde que Anita esteve segura de que eu existia, não teve senão um pensamento, o de fugir (…)”.
As perdas republicanas daquele dia foram pesadas. No campo de batalha estavam espalhados os corpos de mais de 100 soldados, além de sete oficiais. Anita, depois de revirar o campo de batalha e procurar o corpo de Garibaldi com empenho e invulgar coragem, terminou concluindo que ele não estava entre os mortos e feridos naquela área em que se travara o combate. Os imperiais, por seu lado, celebravam o que tinha sido uma vitória importante. Os republicanos, além dos soldados e oficiais que tombaram, também tinham perdido todos os seus 600 cavalos, parte significativa de seu armamento e quase toda a munição. Assim, enquanto acendiam fogueiras, comiam, bebiam e saboreavam a vitória, os imperiais não se importaram em saber o que a prisioneira pudesse, ou não, estar fazendo. Anita, porém, alimentando renovada esperança na sobrevivência de Garibaldi, começou a procurar um jeito de fugir. Aproximou-se sorrateiramente de alguns cavalos atrelados, escolheu um que estava na parte mais escura, afastou-o dos demais, levando-o para dentro da mata, montou sem fazer barulho e fugiu.
Fez o relatou desta epopeia em carta a sua irmã:
“Querida irmã: (…) além disso, tinha caída prisioneira dos imperiais, que zombavam de mim e dos farrapos, dizendo que estávamos desesperados e que estávamos até usando frágeis mulheres nos combates. A única coisa que eu podia fazer era manifestar meu desprezo por gente daquela espécie, com um pouco da gíria pitoresca de Laguna, que vosmecê conhece (…) Devem ter ficado irritados com a minha altivez, e o comandante deles me disse que eu não tinha motivo para ser arrogante, que me conhecia e sabia da minha fama de vagabunda e que eu ia ter o que merecia, já que o capitão José Garibaldi estava morto.
Ao ouvir isso senti uma coisa no coração e não consegui esconder o pânico que tomou conta de mim. José morto! Era uma ideia tão insuportável, que logo pensei: ‘Também quero morrer’. Depois, voltando a mim, retruquei: ‘Não é possível, está dizendo isso para me espezinhar’. Mas ele continuava a insistir com uma cara tão sincera, que a minha angústia foi aumentando, sentia falta de ar, minhas mãos ficaram geladas. Então implorei que pelo menos me deixassem ver José pela última vez, mas ninguém me dava atenção (…).
Finalmente chegou um tal general Albuquerque, que sentiu pena do meu desespero e consentiu que eu fosse até o campo onde se travara a batalha, para procurar o corpo de José. Entre os matagais e as rochas jaziam os mortos e os feridos. Os urubus estavam empoleirados nas árvores, em bandos. Vosmecê não pode imaginar o horror daquele campo. Eu caminhava, tomada de uma agitação louca. No começo, fui andando de um lado para o outro, desorientada, atrás de uma forma, de um movimento, de um gemido.
Depois pensei em procurar com mais método, para não deixar passar nenhuma vítima. Cada vez que eu via a morte no rosto de um homem sentia horror e piedade e, ao mesmo tempo, uma alegria lancinante por não ser o meu José. Finalmente, já de noite, tive a certeza de que ele não estava entre aqueles corpos estendidos e de que tinha conseguido fugir. Lembrei que ele sempre me dizia para não me preocupar, que ele nunca morreria num campo de batalha, porque o Deus da justiça o protegia. Antes eu ria e me divertia com suas palavras. Mas agora percebia que tinha errado em não acreditar nele e tinha sido castigada com o maior sofrimento da minha vida. Achei que só me restava fugir o mais depressa possível.
Olhando ao redor, notei que, na penumbra das fogueiras do acampamento, os soldados descansavam, cheios de cachaça, sem desconfiar de nada. Ninguém imaginava que uma mulher sozinha iria aventurar-se no mato. Saí da clareira pé ante pé, sem fazer barulho. Cheguei perto de alguns cavalos atrelados e segurei a crina de um que estava parado atrás dos outros, onde a escuridão era maior.
Logo depois, eu estava fugindo como o vento, através das matas, sem que ninguém tivesse notado (…) e procurei me orientar naquele sentido de Lages, mas não sei quanto me desviei do caminho. Encontrei todo tipo de obstáculos, até mesmo um rio em cheia, o Rio Canoas, como vim a saber mais tarde. Estava com fome e nem tinha certeza de que José tinha conseguido voltar para a cidade. Dois dias depois, cheguei a uma casa que achei que estava reconhecendo. Felizmente, os camponeses sabiam a direção que os farrapos tinham seguido e me ofereceram café.
Vosmecê não imagina a delícia que foi aquilo. Eles queriam que eu descansasse e pernoitasse na casa deles. Não aceitei, pois não ia conseguir dormir. Estava muito angustiada (…). Não conseguia ficar tranquila. Assim, bebi aquele café e fui embora, galopando no escuro”.
Garibaldi completa a narrativa:
“(…) e aí, sem ser reconhecida, uma mulher a recebeu e protegeu. O meu ponche, que eu havia abandonado para ter os movimentos mais livres, e que tinha caído em poder de um soldado inimigo, foi por ela trocado pelo seu, que era de grande valor. Quando chegou à noite, Anita lançou-se na floresta e desapareceu. Era necessário possuir um coração de leão para assim se arriscar. Só quem já viu as imensas florestas que cobrem os cimos do Espinhaço, com os seus pinheiros seculares, que parecem destinados a sustentar o céu, e que são as colunas deste esplendido templo da natureza, as gigantes canas que povoam os intervalos e que estão cheias de animais ferozes e de répteis de que a mordedura é venenosa, poderá fazer uma ideia dos perigos que ela correu e das dificuldades que teve a vencer. Felizmente Anita ignorava o que era medo.
De Curitibanos a Lages são vinte léguas. Como ela atravessou aqueles bosques impenetráveis, só e sem se alimentar, só Deus sabe. Os poucos habitantes desta parte da província que ela tinha de atravessar eram hostis aos republicanos e logo que souberam da nossa derrota armaram-se e fizeram emboscadas sobre muitos pontos e, principalmente, nas picadas que os fugitivos tinham a atravessar de Curitibanos a Lages. Nos cabeçais, isto é, nos sítios quase impraticáveis destes atalhos, teve lugar uma horrível carnificina nos nossos desgraçados companheiros. Anita atravessou de noite estes sítios perigosos e, ou fosse a sua boa estrela, ou a admirável resolução com que os atravessou, o seu aspecto fez sempre fugir os assassinos, que fugiam, diziam eles, perseguidos por um ser misterioso! Na realidade era estranho ver esta valente mulher, montada num ardente cavalo, pedido e obtido numa casa onde havia recebido a hospitalidade durante uma noite de tempestade, galopando por cima dos rochedos, à claridade dos relâmpagos.
Quatro soldados imperiais, colocados como vigias na passagem do Rio Canoas, fugiram à vista desta visão, escondendo-se atrás das moitas que guarnecem o rio. Durante este tempo, Anita chegara à margem do rio, tornado muito tempestuoso por causa das muitas cheias, e atravessou-o, não como tinha feito dias antes, num excelente barco, mas sim a nado, animando com a voz o seu magnífico cavalo.
As ondas precipitavam-se furiosas, não num estreito espaço, mas numa extensão de quinhentos passos e, apesar disso, Anita chegou sã e salva à outra margem. Uma chávena de café foi o único alimento que a intrépida viajante tomou durante os quatro dias que gastou em alcançar na Vacaria a tropa do Coronel Aranha. Foi aí que nos encontramos, Anita e eu, depois de uma separação de oito dias, e de nos julgarmos mortos. Que alegria não foi a nossa! (…)”.
Anita, ao chegar a Lages, passando-se por um soldado farrapo desgarrado, foi perguntando um pouco aqui e um pouco ali e logo soube que, como acreditava, Garibaldi não estava morto. Mas essa era a única boa notícia. Soube também que os farrapos haviam acabado de abandonar Lages. O que aconteceu foi que os republicanos souberam que as tropas do coronel Melo Manso se encontrariam com as novas forças que o general Labatut trazia de Santos e juntas marchariam para retomar Lages. Com seu efetivo reduzido pela derrota para Melo Manso, os republicanos tinham agora não mais de 800 homens, o que era insuficiente para resistir aos imperiais. No entanto, eles não cogitaram em permanecer, porque, enquanto tomavam conhecimento da vinda de Labatut, receberam uma desanimadora mensagem de Bento Gonçalves. O presidente farroupilha dizia que não podia mandar novos reforços. Ao contrário, recomendava que os republicanos abandonassem Lages e fossem em marcha acelerada para Viamão. Lá, os farroupilhas estavam concentrando todas as suas forças para tentar um ataque decisivo contra a cidade de Rio Grande. O objetivo pretendido era tomar o porto estratégico da cidade e obter acesso ao Atlântico.
Quando Anita chegou a Lages, exausta e faminta, procurou esconder-se em uma casa que via ser habitada por duas senhoras, na área central da vila. As mulheres, ao verem Anita entrar, ficaram aterrorizadas. Como um soldado das forças farroupilhas, que batiam em retirada, ousava entrar ali? Por estar com seus cabelos presos sob o chapéu e vestida com roupas masculinas, foi inicialmente confundida com um soldado fugitivo. Por pouco as senhoras não chamaram a polícia. Antes que o fizessem, porém, Anita, em gesto silencioso, abriu sua camisa e expôs seus seios para provar sua condição feminina. As mulheres quase se engasgaram de espanto. Mas a evidência de que estavam diante de uma mulher era indiscutível.
Desarmadas pelo que viam e tranquilizadas pela constatação de que o soldado que tinham à sua frente era não um cavaleiro, mas uma amazona com corpo de mulher e bravura de guerreira, a acolheram sem mais dúvidas. Anita fez um rápido relato de sua aventura e ali recebeu uma refeição e uma cama para repousar. Mal nasceu o dia seguinte, agradeceu o carinho da acolhida e aceitou o desjejum, mas insistiu que precisava prosseguir de imediato. Além de desejar encontrar-se com Garibaldi o quanto antes, temia que pudesse ser descoberta, com risco para si mesma e para as duas senhoras que a abrigaram. Assim, selou seu cavalo e se pôs na trilha em direção à Vila de Vacaria.
Cavalgando sem descanso, viajou mais rápido que as tropas que a precediam e alcançou as forças do tenente-coronel Joaquim Mariano Aranha, que estava a caminho de Porto Alegre. Ao se aproximar dos republicanos pela retaguarda, viu a figura inconfundível de Garibaldi cavalgando entre eles e sua alegria explodiu. Lançou-se em galope gritando o nome de José com toda a força de seus pulmões. Os republicanos voltarem seus olhares para aquela figura que surgia em meio a uma novem de poeira e chamaram Garibaldi, que se virou para ver o que acontecia. Não demorou para dar-se conta do que se tratava. Seus olhos, incrédulos e arregalados, viam Anita chegar a galope e lançar-se em sua direção, como uma heroína saída dos épicos gregos. Aquela imagem ficou para sempre gravada em sua memória.
Anita, ao aproximar-se, sofreou o cavalo e apeou em um pulo para receber, em prantos, o abraço emocionado com que foi acolhida por Garibaldi. O beijo do reencontro compensou todos os sacrifícios e angústias sofridos na fuga tresloucada. O arrebatamento d’alma a fez experimentar a mais emocionante, a mais maravilhosa e a mais indescritível experiência que vivera até então. Incrédulos, os demais oficiais se aproximaram para testemunhar aquela cena de contos de fadas. Teixeira Nunes, não menos surpreendido que os demais, perguntou à Anita como tinha conseguido chegar tão longe sozinha. Ela, mais encantadora e feminina do que nunca, respondeu, com o rosto esfogueado pelo vulcão de emoções que lhe afloravam:
— Vim vindo, coronel!
No dia 18 de março de 1840, atravessaram o Rio Pelotas para voltar ao Rio Grande do Sul. A comitiva se mantinha silenciosa. Havia um sentimento de melancolia no ar. Todos entendiam que muitos sonhos e esperanças haviam sido deixados para trás, do outro lado do rio. Tinham consciência de que estavam abandonando, definitivamente, a utopia da República Juliana. Ao reentrarem nos campos de Vacaria, já na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Anita e Garibaldi, que cavalgavam lado a lado, se deram as mãos confortando-se pela despedida de uma quimera. Não sabiam o que o futuro a ambos reservava, mas sabiam que, salvo um improvável milagre, nunca mais voltariam a pisar no território daquela fugaz e efêmera república. Sabiam que os fados, caprichosos e inescrutáveis, os haviam reunido no mais inesperado dos recônditos, mas as águas do tempo seguiam seu curso e uma página de suas vidas tinha sido virada para sempre.
Na Itália, muitos anos depois, já uma celebridade e no auge de sua fama, Garibaldi lembrou, saudoso, de seus companheiros da Revolução Farroupilha:
“E, repassando na memória as vicissitudes da minha vida no vosso meio, em seis anos de guerra e de constante prática de ações magnânimas, como que em delírio exclamo: Onde estão estes belicosos filhos do Continente (Rio Grande do Sul), tão majestosamente intrépidos nos combates? Onde estão Bento Gonçalves, Antônio Neto, Davi Canabarro, Joaquim Teixeira Nunes e outros tantos lanceiros farrapos que não me lembro? Que o Rio Grande ateste, com uma modesta lápide, o sítio em que descansam seus ossos. E vossas belíssimas patrícias (a mulher gaúcha) cubram de flores este santuário de suas glórias”.
Relembrando o grande Michelangelo, contava aos seus conterrâneos, sempre evocativo e enternecido, as histórias do tempo em que, jovem e voluntarioso, sonhou o impossível, irmanado aos homens que cavalgavam livres pelos pampas gaúchos:
— Sou afortunado. Sim. Sou privilegiado. Compreendi a grande lição da renascença, longe de minha Itália: a obra-prima do homem é a civilização. Eu vi, com meus próprios olhos, que a história da civilização é escrita com coragem. Eu fui abençoado por poder lutar pelos ideais em que acredito, tanto aqui, na Itália, como no Brasil, longe de minha terra, nos trópicos, no outro lado do oceano, em outro continente. E estas mãos porfiaram num lugar inesperado. Lutaram ao lado de uma revolução, de um grupo de bravos, de um grupo de irmãos de sonhos e ideais. Lutei com homens de bravura, decididos a lutar pelo destino que viam no coração de sua gente com a clareza com que Michelangelo via suas esculturas na ‘pietra serena’. E as quais revelava para dar testemunho de sua nobreza. É vero. Eu fui abençoado em descobrir que o amor não tem fronteiras. E que, para fazer uma pátria, é preciso mais que ter um lugar, é preciso ter também um coração.
O governo imperial, embora tivesse vencido os farroupilhas na disputa pelo controle de Laguna, saiu da refrega com um travo amargo. Estava informado de que as batalhas contra os farrapos estavam conseguindo alguns avanços e, como em Laguna e Lages, retomado a posse das áreas dos embates. Esse fato, porém, não escondia que os revolucionários tinham conquistado apoio e sensibilizado muitos dos corações da gente catarinense. O risco de fragmentação do país era real. Rumores corriam de que os ingleses acompanhavam a evolução dos acontecimentos com grande interesse. Em 1833 eles haviam reafirmado seu controle sobre as Ilhas Falklands (as Malvinas) e, como potência mundial, mantinham aspirações na região. Assim, se o governo imperial quisesse manter o Brasil íntegro e unido, era evidente que seria preciso agir de forma mais efetiva, estabelecendo o diálogo e permitindo a participação dos cidadãos na formulação das políticas de governo. Havia no país um sentimento de que ou todos se juntavam para fazer nascer uma nação, ou a ideia de um Brasil grande e unido se perderia e, como as nuvens fluidas e passageiras, se desmancharia no ar.
O risco havia sido percebido ainda no início de 1840, quando a Regência do Império lembrou de seu grande campeão, o agora marechal Pedro Labatut. O general havia sido promovido a marechal de campo do Exército de forma honorífica, no entanto, para receber o soldo e para efeitos práticos, assim como para as atribuições e comandos, ainda era tido como general. A nova missão que o príncipe regente dera a Labatut tinha dois propósitos: organizar as forças militares imperiais que respondiam pela defesa da vasta Província de São Paulo nas áreas fronteiriças e, depois, reunir forças e marchar para o Sul e participar das ações contra os republicanos que lutavam pela independência da República Piratini no território da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O objetivo mais imediato era bloquear a passagem dos farroupilhas e impedir qualquer contato ou comunicação “rebelde” pelas passagens da serra, em Santa Catarina. Era imperativo evitar outra investida contra Lages e o bloqueio do Caminho de Viamão.
Em 1º de fevereiro de 1840, terminada a organização de sua expedição na cidade de Santos e antes de se pôr em marcha, Labatut dirigiu uma proclamação aos paulistas. Seu objetivo era conclamar o povo de São Paulo para que ficasse ao lado do governo imperial e apoiasse os esforços da luta contra os republicanos farroupilhas na sua tentativa de separar do Brasil a República Rio-Grandense. A proclamação chamava os paulistas para “defender a independência e a unidade da pátria, como sempre o tinham feito”. Dia 6 de março de 1840, após uma marcha de 500 quilômetros, Labatut chegou a Rio Negro, uma vila do lado direito do rio de mesmo nome, cerca de 90 quilômetros de Curitiba. Rio Negro era um posto de registro fiscal no Caminho de Viamão, na região do Sertão da Mata. Após assumir o comando das forças ali estacionadas, reorganizou a defesa local e nomeou uma nova equipe de oficiais para se reportar a ele.
Rio Negro possuía a localização ideal para a defesa do Caminho do Viamão. O trajeto atravessava os campos de Vacaria, cruzava o Rio Pelotas, passava por Lages, Correia Pinto, Curitibanos, Santa Cecília, Papanduva, Monte Castelo, Mafra antes de chegar a Rio Negro, e depois passava pelo Campo do Tenente, Lapa, Palmeira, Ponta Grossa, Castro, Piraí do Sul, Jaguariaíva, Sengés, Itararé, e terminava em Sorocaba. Como era a mais utilizada ligação terrestre entre o Sul do país e São Paulo, tratava-se de uma rota vital para os dois lados da Guerra Farroupilha, que dela dependiam para a circulação das mercadorias, tanto as comitivas que viajavam para o Sul com artigos manufaturados quanto as que subiam para levar charque e conduzir os rebanhos de gado e de muares que abasteciam o grande mercado de Sorocaba. Para os imperiais, no entanto, que dominavam o acesso marítimo e o usavam intensamente para ligar o Sul ao Centro do país, os prejuízos eram menos significativos.
Labatut, em sua ordem do dia, na data da posse no comando em Rio Negro, iniciava dizendo que:
“Havendo o Regente, em nome do Imperador, o Sr. Dom Pedro II, por decreto de 10 de janeiro deste ano (1840), nomeando-me Comandante das forças que guarnecem as fronteiras do Rio Negro, nesta Província, e achando-me já empossado do referido comando pelo Exmo. Sr. Presidente desta Província, assim o faço constar para conhecimento das mesmas; e determino, em consequência, que dora em diante todas as correspondências e mais partes oficiais me sejam diretamente dirigidas (…)”.
Tomadas as providencias preliminares, Labatut reuniu sua tropa e a fez desfilar diante de seu estado-maior. Em seguida, tomou o rumo Sul no Caminho de Viamão e seguiu com seus homens no rumo de Lages. Quando chegou ao destino, em 9 de abril de 1840, recebeu a notícia de que os farroupilhas tinham deixado a cidade, espontaneamente, 40 dias antes. Lages, portanto, já se encontrava de volta ao controle dos imperiais desde o dia 19 de março. A conclusão só podia ser que a primeira parte de sua missão estava resolvida por antecipação. Mas Labatut não teve tempo para desfrutar um só dia de descanso. Com a evolução dos acontecimentos, o presidente da Província de Santa Catarina, marechal Francisco José de Sousa Soares de Andrea, transmitira ordens para que o general e suas tropas se pusessem em marcha. O general deveria levar suas tropas para São Francisco de Paula, a Vila de São Chico, a menos de 25 léguas da capital, no Rio Grande do Sul.
Labatut deixou 400 soldados em Lages. Não podia descuidar da defesa da vila no caso de volta dos republicanos – e iniciou a marcha. Como reforço bélico, levava junto seis canhões fabricados nos Arsenais do Rio e destinados a bombardear as posições dos rebeldes farrapos. Na teoria, se chegassem pela retaguarda, os canhões seriam capazes de abrir brechas que seriam fatais para a defesa dos republicanos. O problema era que, ao lhe confiarem os canhões, os estrategistas do Exército mostraram desconhecer inteiramente a topografia da província rebelde.
Depois de Labatut e suas tropas terem avançado boa parte do caminho e terem atravessado o Rio Pelotas com grande esforço e imenso risco, arrastando penosamente aquele peso morto, quando chegaram ao acidentado Rio das Antas viram que nem em sonho conseguiriam fazer a travessia levando aqueles canhões pesados e desajeitados. E, ainda que conseguissem descer a serra, já que para baixo todo o santo ajuda, como subir aqueles paredões colossais e vencer aqueles aclives e declives cheios de acidentes geográficos, arrastando aquelas peças de centenas de quilos? Depois de muito matutar e dialogar com seus homens, a conclusão a que chegaram é que deveriam se livrar dos canhões. Então, com imensa tristeza e frustração, Labatut não teve alternativa senão mandar arremessar as seis bocas de fogo serra abaixo. Uma depois da outra, cada peça foi empurrada pela borda do despenhadeiro, enquanto ele e seus homens observavam, desolados, os canhões que nunca tinham sido usados irem se despedaçando ao rolar contra as pedras do Vale do Rio das Antas.
Por insistir em carregar os canhões e pelas dificuldades da topografia ingrata, a marcha pelo Caminho do Viamão, uma via aos frangalhos por falta de reparos e com trechos que não eram mais que uma trilha em meio a uma área acidentada, tomou 12 meses. O general Tasso Fragoso contou, em relato interno do Exército, publicado 100 anos depois, em 1938, a forma como a tropa alcançou seu destino, em São Francisco de Paula de Cima da Serra:
“A tropa tinha fralda em frangalhos, desabrigada do frio e da borrasca, as armas descalibradas, a cavalhada estropiada. Dava mais a ilusão de um Exército derrotado após renhida batalha que um contingente que busca combater o inimigo. Em todos se nota o desespero e o desânimo. A epopeia desta marcha não teve o epílogo trágico da primeira divisão, toda sacrificada no Passo de Santa Vitória por ataque dos revolucionários, que os dizimam a bala ou os vê afogando-se no Rio Pelotas, que procuram atingir e atravessar a nado, inclusive o General Francisco Xavier da Cunha, mas importou em fracasso, não obstante ter afastado a possibilidade de implantar a república em Santa Catarina”.
O general Tasso Fragoso refere-se ao fato de que a retomada de Lages para o governo imperial deveria, inequivocamente, ser creditada à expedição de Labatut. Foi sua aproximação que levou os revolucionários de Teixeira Nunes, entre eles Garibaldi e Anita, a deixarem a cidade e a desistirem de ulteriores tentativas de implantar uma república separatista na Província de Santa Catarina. Ainda que servisse como consolo, nem de longe compensava a carga de sofrimentos imposta àquela tropa destinada ao sacrifício. No Sul, contudo, a revolução continuava a ter apoio de parte dos gaúchos, e o risco de espraiamento do sentimento rebelde continuava a preocupar a Regência, que percebia agora algumas manifestações de apoio de outras províncias.
Francisco Álvares Machado, nomeado presidente da Província do Rio Grande do Sul e que governou de 1840 a 1841, havia tentado articular a rendição dos farrapos, mas seu esforço de pacificação não deu certo. Bento Gonçalves apresentou uma série de condições que foram rechaçadas em termos incisivos por Machado:
“O imperador do Brasil nunca aceitará condições de nação alguma, por rica e poderosa que seja, muito menos as receberá de uma parte de seus súditos desviados da estrada da lei”.
Sem um acordo de paz, a luta prosseguiu. E, de fato, se tornou ainda mais intensa e mais sangrenta. Do lado dos farrapos havia a esperança de que a continuidade da revolução acabasse resultando na consolidação da República Rio-Grandense ou, ao menos, na queda da Regência. Para o governo imperial, por outro lado, era vital vencer a revolução a qualquer custo, sob ameaça de ver se multiplicarem os movimentos separatistas. A começar pelo risco, ainda sempre possível, de ressurgimento do movimento separatista em Santa Catarina. Nesse meio-tempo, no Rio Grande do Sul, havia assumido a presidência da província, bem como o comando das Armas, o general Francisco José de Sousa Soares de Andrea, o mesmo que estivera na presidência de Santa Catarina e que seria o futuro Barão de Caçapava. Seus esforços estavam concentrados em forçar os farroupilhas a levantar o sítio de Porto Alegre.
Para tirar os republicanos das portas da capital, Soares de Andrea articulou um plano simples, mas que, acreditava, seria capaz de obter uma vitória definitiva contra os farroupilhas. Tinha por base encurralar as tropas que sitiavam a cidade, fazendo-as ficar espremidas entre o conjunto de forças navais e terrestres que o governo da província tinha à sua disposição no Sul e as tropas que chegavam na expedição de Labatut. Era uma estratégia tipo “bigorna e martelo”. Pelo plano, as tropas imperiais de Porto Alegre fariam um semicírculo para cercar os republicanos, enquanto a divisão de Labatut deveria atacá-los pelo Norte, a partir do Caminho de Viamão.
Logicamente, imaginou Soares de Andrea, os farroupilhas seriam informados ou detectariam o movimento combinado de “bigorna e martelo” em preparação pelos imperiais. Esse tipo de tática faz parte de qualquer manual militar, e, para não ficarem presos no meio das duas forças inimigas, obviamente os rebeldes tentariam escapar e sair da armadilha. A mais evidente rota de escape seria no rumo da região da Campanha Gaúcha, mais ao Sul da província, onde os farrapos tinham sua base de apoio. Pelos planos de Soares de Andrea, essa rota de escape seria transformada num alçapão. Ele mandou tropas postarem-se em Taquari, no meio do caminho entre Porto Alegre e a região da Campanha, onde as tropas imperiais ficariam à espera dos republicanos. Dessa forma, acreditava, cortaria a retirada das forças farroupilhas que vinham sitiando Porto Alegre e, quando estas caíssem na cilada, seriam atacadas também pelas forças de Labatut e por tropas enviadas de Porto Alegre, que sairiam em sua perseguição.
As tropas de Labatut, de fato, tinham conseguido chegar a São Francisco de Paula, mas estavam destroçadas e muito longe de recuperar condições de combate. Portanto, não havia situação para se constituírem em um “martelo” minimamente efetivo contra as tropas farroupilhas. Um reforço que foi enviado a Labatut, constante de dois batalhões, comandados por Medeiros e Propício, ainda não tinha chegado e estava imobilizados em Botucaraí.
Bento Gonçalves escreveu a Domingos José de Almeida, o estrategista dos republicanos, um mineiro de Diamantina que lutava ao lado dos rebeldes do Sul:
“(…) desejo ganhar tempo com as conversações com a comissão imperial, pois tenho conhecimento da coluna de Labatut e quero me movimentar de forma certa para interceptar a coluna monarquista”.
Para circunscrever a armadilha de Soares de Andrea, que era, de fato, uma manobra escancarada, Davi Canabarro contramarchou para o planalto com 1.800 homens, subiu por Santo Antônio da Patrulha, tomando a picada do Rio Três Forquilhas e dali marchou para alcançar São Francisco de Paula. Bento Gonçalves, por seu turno, permaneceu com 500 homens em Viamão. Labatut, ao saber da movimentação de Canabarro e do tamanho de suas tropas, percebeu que não tinha nenhuma chance em um enfrentamento direto. Sua coluna se encontrava em situação desoladora. Além de esfalfada, seu efetivo estava reduzido a apenas 630 homens, um conjunto heterogêneo formado por uns poucos soldados experientes e por uma maioria de paisanos recrutados no caminho, despreparados e sem treinamento adequado. Ademais, o moral da tropa estava lastimável, em parte pelo soldo atrasado em mais de seis meses. Assim, o experiente Labatut, temendo uma debacle completa, resolveu bater em retirada para Passo Fundo. Uma retirada bem-feita, acreditava, era sempre melhor do que uma derrota inglória.
Na disposição das forças, contudo, agora a situação se invertia. As forças de Labatut, que eram a ameaça temida pelos farrapos, se revelavam de grande fragilidade; e de grande ameaça passavam a ser as ameaçadas e perseguidas. Sabedores da movimentação de Labatut, os revolucionários rumaram para Passo Fundo, no encalço do general. Na expedição farroupilha estava também Giuseppe Garibaldi, sua mulher catarinense, Anita, e seu bebê de apenas 3 meses, batizado de Domenico Menotti Garibaldi. O pequerrucho, nascido em 19 de setembro de 1840, no rancho da Família Costa, na localidade de São Simão, em Mostardas, era alimentado pelo leite da mãe e pelo idealismo do pai. Um dia, anos mais tarde, estava destinado a ser um importante general italiano e um dos principais artífices da Unificação da Itália.
Naquela expedição, nos Campos de Vacaria, o casal Garibaldi passou o segundo Natal junto, desta vez ao lado do pequeno Menotti. Na noite da véspera, dia 24 de dezembro de 1840, Garibaldi e Anita não puderam evitar a recordação do Natal de um ano antes, quando tudo o que tinham eram sonhos. Agora seu amor havia frutificado e havia um ser frágil a compartilhar o sentimento cristão da grande festa do Natal. Inspirados pelo enlevo natalino, Giuseppe e Anita deitaram na relva para contemplar, com ternura, iluminados pela luz pálida das estrelas e da constelação do Cruzeiro do Sul brilhando na profunda abóboda do céu da lua nova, o bebê que tinham em seu meio. Aquele pequeno ser, mimoso e fremente, os lembrava do risonho Gesú Bambino, que, um ano antes, os emocionara no presépio da igreja em Lages, onde assistiram juntos, pela primeira vez, à celebração da Missa do Galo.
Poucos dias antes, em Viamão, Bento Gonçalves, que ali estava com a guarnição de 500 homens, tinha sido surpreendido por um ataque dos homens do tenente-coronel João Nepomuceno. Eles não pensavam confrontar um núcleo tão poderoso dos farrapos. Apenas perseguiam um destacamento de 80 farroupilhas que fugiram depois de terem sido flagrados em uma operação de reconhecimento. Contando com 650 homens, Nepomuceno tinha forças superiores e podia ter aniquilado a guarnição e vencido Bento Gonçalves de forma arrasadora. Contudo, não o fez por supor que as forças de Bento Gonçalves eram superiores às suas e que o efetivo de Canabarro estivesse por perto.
Nepomuceno preferiu não desafiar a sorte e atacar os farrapos e levar suas tropas de volta. Mas a iminência do ataque soou como um alerta para os rebeldes. Se uma patrulha vinha com aquele efetivo, Bento Gonçalves ponderou que um ataque para valer viria com efetivos em número ainda maior. As coisas não evoluíam bem e estava ficando muito arriscado insistir em manter o sítio a Porto Alegre. A contragosto, reconheceu que suas forças não resistiriam a um ataque maciço, o que fatalmente aconteceria assim que os imperiais viessem a saber qual o tamanho real de seu efetivo. Mesmo sem as combalidas forças de Labatut, os efetivos da capital eram muito superiores aos seus. E, enquanto os imperiais recebiam reforços cotidianamente – cada navio que chegava trazia mais armas e soldados –, ele via suas forças minguarem.
Diante dos fatos, considerou ser muito mais lógico deixar o sítio, cada dia menos sustentável, para juntar-se a Canabarro na perseguição a Labatut. Liderando seus 500 homens, seguiu ao encontrou de Canabarro e o encontrou já em marcha para Passo Fundo, em 27 de dezembro de 1840. Quando os farroupilhas chegaram a Passo Fundo, souberam que, um par de dias antes, Labatut havia recebido ordens de marchar para retomar Cruz Alta. A cidade se encontrava ocupada pelo coronel José Gomes Portinho, um comandante rebelde que era antigo tropeiro e havia aderido à Revolução Farroupilha em seus primórdios, sendo, mais tarde, distinguido com o título de Barão de Cruz Alta.
A derrota de Labatut
Labatut, soldado de têmpera forjada nas guerras napoleônicas, testado nos combates ao lado de Simon Bolívar e na luta contra os portugueses na guerra da independência da Bahia, destemido, disciplinado e disciplinador, apesar do enorme sacrifício que lhe era ordenado, reuniu seus homens ainda em condições de marchar e seguiu para o que lhe parecia seu derradeiro sacrifício. Ele constatou que seus homens, maltrapilhos, formavam não mais um exército de combatentes, mas uma hoste de cambaleantes, doentes e esfomeados. Os fados tinham sido cruéis com ele naquela empreitada. Ainda assim, ele era um soldado por vocação, e morrer com honra era sempre uma alternativa digna de um combatente. Sorriu ao lembrar o que Napoleão, seu ex-comandante em chefe, repetia: “Os soldados vencem as batalhas, mas são os generais que recebem o crédito por eles”. Pensou consigo mesmo: “E nas derrotas, qual o culpado? Os soldados morrem e são os generais os culpados? E a sorte da guerra, onde entra nesta equação?”. A esta altura, lembrou o que diziam seus soldados gaúchos: “Não está morto quem peleia”. Verdade. Pelear era o que lhe restava. Tentaria pelear até onde pudesse. Sendo realista, no entanto, agora, com o que lhe sobrara de tropas e armas, não havia mais nenhuma vitória à vista. E, nas circunstâncias, sobreviver já seria uma grande vitória. Mas lutar era tudo o que tinha a fazer.
Ao reunir seus soldados, antes de partir, fez a eles as promessas que podia. A uns convenceu com a argumentação da honra, a outros prometeu que pagaria os atrasados em dobro, a outros, ainda, ameaçou com a corte marcial. Por fim, juntando os remanescentes da tropa, seguiu penosamente para o novo destino, Cruz Alta. Enquanto marchava, entretanto, descobriu que tinha mais um inimigo a combater. Os Kaingang enxergaram seu contingente e, vendo sua fraqueza, o assediaram sem descanso e sem trégua. Os índios não o enfrentaram de frente, mas roubaram os poucos suprimentos que ainda tinha, suas armas precárias, seus escassos muares e cavalos. Por fim, ao se aproximar de Cruz Alta, Labatut foi surpreendido por um mensageiro vindo do comando imperial de Rio Pardo. As ordens que trazia reafirmavam que o general deveria tomar Cruz Alta e que deveria manter aquela posição a qualquer custo. Ao ler aquelas ordens, completamente irrealistas, completamente insanas, Labatut, o grande general, não se conteve e soluçou: “Será que o comando do Exército desconhece as condições deploráveis em que estão minhas poucas tropas? Será que imaginam que tenho o poder mágico de conseguir suprimentos tirados do ar?”.
O desafortunado general, assim como a maioria dos soldados sobreviventes do Destacamento Paulista, estava doente. Seu efetivo estava sem mantimentos, sem armas e sem munições. Atacar seria imprudente; pior, seria loucura. Seria mandar seus soldados, os que ainda o acompanhavam, para uma morte estúpida e inglória. Assim, resolveu encarar os fatos: não havia mais como continuar. Acampou o que restava de suas tropas onde se encontravam, a meio caminho do destino, passou o comando para seus oficiais com orientações para que se protegessem como pudessem e seguiu praticamente sozinho, acompanhado apenas por alguns de seus ordenanças, para o comando dos imperiais em Rio Pardo. A marcha significava percorrer penosos 250 quilômetros a sudeste. Seu propósito era conferenciar com João Paulo dos Santos Barreto, comandante em chefe das operações imperiais na região.
Ao chegar lá esperava ser recebido como o oficial de alta patente que ele era, vindo de uma marcha épica em que percorrera mais de 1.000 quilômetros em terreno hostil, sendo acossado pela guerrilha dos farroupilhas e pelos Kaingang, sem receber nenhum apoio logístico, praticamente sem reforços e nas mais difíceis condições de terreno e de clima, com chuvas constantes, cruzando rios caudalosos e perigosos. Para seu desapontamento, contudo, foi recebido com a mais absoluta frieza. O ambicioso Santos Barreto, que tinha sido ministro interino da Marinha do Brasil, de 16 de janeiro a 14 de março de 1835, agora, longe da corte, esperava contar com a divisão de Labatut para obter as glórias que almejava. Longe da corte e em um comando de guerra, só vitórias poderiam enriquecer seu histórico para retornar à capital do império engalanado.
Ao receber Labatut, não gostou nem um pouco do que ouviu. Se chegasse à corte a história da lastimável situação do general e suas tropas, abandonados à própria sorte por ele, o comandante da região, tais fatos poderiam ferir sua carreira de modo irremediável. Ele, como comandante-geral, tinha a obrigação de estar inteirado das reais condições em que se encontrava a divisão. Assustado e acovardado com o relato de Labatut, tratou de proteger-se desde logo, engendrando uma manobra para eximir-se de culpa. Sem quaisquer escrúpulos, tratou de inculpar Labatut por estar naquela situação de desgraça. Labatut, adoentado como estava, se sentiu ferido em seus brios e não titubeou em responsabilizar Santos Barreto pela desídia e total desumanidade com seus homens. Era de uma crueldade sem par o desamparo a que foram relegados soldados que vinham sangrando até a exaustão, até o colapso, pela total falta de apoio. Situação agravada pelo desconhecimento, de Santos Barreto, do mais elementar princípio militar de emitir ordens assegurando os meios para sua execução.
Labatut, mais tarde, descreveria o que aconteceu:
“(…) a campanha do Rio Grande importara no sacrifício da Divisão Paulista, a cujos elementos tudo faltava, desde o suprimento de material de guerra à munição de boca”.
E, de fato, a divisão de Labatut recebera uma missão virtualmente impossível. Com o propósito de atingir o Rio Grande do Sul pelo Norte, tivera de marchar em área acidentada e inexplorada, seguindo por trilhas pouco conhecidas e cruzando terreno inóspito e traiçoeiro. Anos depois, um relatório do Instituto Histórico e Geográfico colocou em perspectiva as dificuldades de Labatut:
“(…) a força da natureza se aliou aos rebeldes e hostilizou os imperiais: frio rigoroso, montes escabrosos, torrentes impetuosas, medonhos atoleiros, ínvios bosques, densas florestas, prolongadas chuvas. A inclemência do tempo e a aspereza dos lugares apareceram como elemento bélico (…) fica patente qual era o sistemático procedimento dos rebeldes em não batalhar com as armas, mas em vencer pela procrastinação e pelo cansaço. As “sombras erradias” escaparam das forças legalistas pela campanha e deixaram a natureza combater por elas”.
Assim, permanentemente acossado pelos guerrilheiros farrapos e, na parte final, pelos índios Kaingang, que emboscaram suas patrulhas e roubaram seus mantimentos e suas montarias, perdido em marchas e contramarchas nos contrafortes das montanhas, atravessando rios e obstáculos desconhecidos, sem receber suprimentos e reforços, Labatut, que adoecera nessa última etapa, estava no limite de suas forças. Só o caráter do soldado forjado nas campanhas napoleônicas, a responsabilidade pelos homens que nele confiavam e a indignação profunda contra um comando inepto o mantinham de pé. O áspero diálogo com Santos Barreto, assim, foi feito decibéis acima do nível do mútuo respeito. Pedro Labatut, general, marechal honorário, e Santos Barreto, que havia sido ministro interino da Marinha e ocupara o Ministério da Guerra no período da Regência, em 1835, culpavam um ao outro pela situação de descalabro.
O encontro terminou com Labatut dizendo a Santos Barreto que este desconhecia os próprios princípios de humanidade, abandonando ao deus-dará aqueles homens que escreviam uma página de estoicismo e renúncia, enquanto Santos Barreto revidava acusando Labatut de orgulhoso e indisciplinado. O general, que estava, de fato, mal de saúde, deu parte de doente e não voltou ao comando. Santos Barreto, receoso da repercussão do seu encontro com Labatut e na tentativa de salvar sua responsabilidade como comandante militar da região, encaminhou ao Ministro da Guerra uma denúncia fazendo graves acusações do general.
Em 6 de janeiro de 1841, Labatut chegou a Porto Alegre. Doente e desiludido, ardia de febre e tinha frequentes hemoptises, cuspindo catarro com sangue, sintomas que denunciavam a tuberculose que havia adquirido na campanha da serra. A peça de acusação de Santos Barreto, enviada por meio de mensageiro para ser embarcada no primeiro navio que partiria para o Rio de Janeiro, acabou chegando a seus aliados antes de Labatut desembarcar na capital do império. No libelo, o comandante do Sul defendia-se atacando. Fazia acusações a granel e buscava, por antecipação, responder às indagações que viriam sobre sua conduta e que poderiam pôr fim a suas ambições militares.
Ao chegar ao Rio, precedido pela campanha de difamação encetada pelos aliados de Santos Barreto, Labatut foi mal-recebido. Na verdade, seus inimigos eram mais numerosos que seus amigos. Sua carreira no Exército sempre fora alicerçada em resultados. A maciez da acomodação, da contemporização e da tolerância, predominantes no espírito corporativo das elites brasileiras, não fazia parte do modo de ser do general. Ao contrário, sua intolerância à indolência, à mediocridade, à covardia e a pusilanimidade, aliada à agressividade de guerreiro que não teme o bom combate, o antipatizava com grande parte dos oficiais que se refestelavam nos confortos da corte.
Há que se reconhecer, verdade se diga, que Labatut não era nenhum santo. Homem de alta estatura, compleição atlética e força prodigiosa, era um vulcão sempre pronto para a erupção. Quando assumia uma missão, jogava-se nela de corpo e alma. Para obter êxito, empenhava-se com extraordinária coragem e não media nem energia, nem meios, nem palavras. Martins Vasconcelos o descreveu como um ser mitológico, um bicho-papão, em Histórias do Sertão, publicado em 1918:
“Labatut é um bicho pior que o Lobisomem, pior que a Burrinha, pior que a Caipora e mais terrível que o Cão Coxo! Ele mora, como dizem os velhos, no fim do mundo, e todas as noites percorre as cidades, para saciar a fome, porque ele vive eternamente esfaimado. Anda a pé: os pés são redondos, as mãos compridas, os cabelos longos e assanhados, corpo cabeludo, como o porco-espinho, só tem um olho na testa, como os ciclopes da fábula, e os dentes são como presas de elefante! Ele gosta mais dos meninos, porque são menos duros que os adultos! Ao sair da lua ele, quando anda ligeiro, entrará pelas ruas num trote estugado, parando às portas para ouvir quem fala, quem canta, quem assobia e quem ressona alto… e trás! Devorar! (…) os cães dão sinal, latindo-lhe atrás!”.
Exageros à parte, a doença não respeita nem fama, nem coragem. Debilitado, com a doença minando suas forças, Labatut recebeu uma intimação, em 14 de fevereiro, para comparecer a um Conselho de Investigação. Era um jogo de cartas marcadas. O Conselho, formado por amigos e correligionários de Santos Barreto, estava preocupado em respaldar os interesses de seu grupo e, certamente, não reconheceria a façanha extraordinária que foi aquela marcha de 1.000 quilômetros que tomou mais de um ano, feita quase toda em meio a florestas fechadas, trilhas precárias, subindo e descendo serras, enfrentando frequentes assédios indígenas e, a rigor, sem contar com reforços adequados ou o mínimo suporte logístico. Assim, como em tantas outras indignidades das elites cariadas do Brasil, o Conselho de Investigação opinou que Labatut deveria ser submetido a Conselho de Guerra.
O Conselho de Guerra, que começou a investigação em 21 de abril de 1841, contava com uma composição diferente do anterior Conselho, o de Investigação. No colegiado tinham assento membros do mais alto escalão militar. Ali figuravam alguns camaradas de armas que o respeitavam, alguns minguados amigos e outros nem tanto, mas todos tinham consciência da gravidade do que iriam julgar e que julgariam para a história. O julgamento de um general como Labatut, com sua biografia, que fora o comandante do Exército da Pacificação e o herói da independência da Bahia, não poderia ser feito com leviandade. Havia que se cuidar das tradições e dos valores do Exército. Havia que se buscar a verdade, entender todo o verdadeiro contexto de seu desempenho, bem como indagar sobre eventuais motivos sub-reptícios escondidos na parte feita contra ele.
O Conselho de Guerra, após analisar os eventos da debacle da Divisão Paulista e sua derrota para os farroupilhas e índios Kaingang, deliberou que a simples sobrevivência já era, em si mesmo, um feito notável. E não existiam motivos para condenar o herói da guerra da independência da Bahia apenas para atender aos mesquinhos interesses políticos do grupo de Santos Barreto. Assim, em 30 de agosto, terminadas as audiências, o processo que havia sido iniciado para responsabilizar e condenar Labatut se converteu em uma oportunidade para promover o reconhecimento de uma façanha heroica como não havia outra na ainda incipiente história militar do Brasil. Resultou que o Conselho de Guerra pronunciou seu veredicto absolvendo, por unanimidade, o velho militar.
Finalmente, veio o reconhecimento. O governo imperial compreendeu que, apesar do aparente insucesso de Labatut, a verdade é que este conseguiu atingir seus objetivos por outros caminhos. Sua marcha épica e sua chegada a São Francisco de Paula, tornando real a ameaça dos imperiais de atacar os republicanos com a estratégia de “martelo e bigorna”, como havia proposto o general Soares Andréa, foi o que, em última análise, motivou os farroupilhas a levantar, em definitivo, o sítio de Porto Alegre. Esta era a missão que lhe haviam confiado. E este o resultado obtido por ele.
Em 15 de novembro de 1845, no Rio de Janeiro, o Exército celebrou uma cerimônia que confirmou sua patente de marechal de campo efetivo. Pouco tempo depois, Pedro Labatut, aos 69 anos, dava baixa definitiva e mudava-se para a Bahia com sua companheira, Ana Maria da Conceição, e sua filha, Januária, que tinha 6 anos de idade. Ele dizia a todos que voltara para a Bahia para encerrar seus dias e descansar à sombra do humilde altar de São Bartolomeu, na velha ermida de Pirajá. Queria repousar ali, no cenário de suas lutas e de seu sacrifício, mas também das grandes vitórias que vivera.
Na Bahia, em um clima mais ameno para sua tuberculose, foi aos poucos retomando as forças. Incógnito, apesar de reconhecido por muitos por sua figura inesquecível, resolve percorrer os lugares onde 25 anos antes vivera momentos decisivos e grandes emoções. Lugares em que rememorava combates e vitórias contra inimigos renhidos e valorosos, qualidades que reconhecia nos portugueses. Era confortador, para o agora velho marechal, sentir, em conversas aqui e ali, que sua luta tinha produzido frutos e sua vitória tinha agora o reconhecimento da gente que aprendera a amar e que adotara como sua.
Aquele ano a Bahia, como sempre muito festeira, comemorava os 25 anos de sua independência. Havia um grande burburinho e muitas celebrações estavam agendadas. Aquele ano seria o primeiro em que o marechal Pedro Labatut passaria o 2 de julho, o dia da celebração da independência, em sua amada Salvador. Ainda sentindo os efeitos da doença que o consumia, embora muito se alegrasse com os festejos, achou que era tempo de uma nova geração de brasileiros usufruir da liberdade que ele tinha ajudado a conquistar. De sua parte, tinha lutado o bom combate e cumprido sua missão. Isso ele tinha como suficiente e já o deixava feliz. O que desejava era aproveitar o clima festivo e as celebrações ruidosas para ficar em casa brincando e desfrutando da companhia da pequena Januária.
Assim, foi com enorme espanto que viu uma multidão, após o desfile dos carros simbólicos da celebração, dirigir-se à sua casa. Vivia em uma simples residência sem luxos, como as demais da rua onde morava. Em frente à sua casa, o ruidoso público reunido o chamou para a rua. Ao sair, sem entender bem o que se passava, Pedro Labatut foi delirantemente ovacionado pela multidão. O ponto alto foi quando as freiras do Convento da Soledade lhe ofereceram uma coroa de folhas de café, que elas mesmas haviam trançado, e que, a exemplo da coroa de louros oferecida aos generais romanos vencedores, tinha como fim homenagear o general vitorioso. O gesto, surpreendente e inesperado, o deixou comovido, muito feliz e agradecido. Contudo, passados os festejos, não alterou sua rotina de militar reformado, que vivia sua vida de cidadão e pai amoroso.
Neste ínterim, começa a circular em Salvador a notícia de que o general Labatut, o grande herói da independência da Bahia, o grande herói do povo baiano, havia sido submetido a um Conselho de Guerra na capital do império. As pessoas ouviam incrédulas. Qual teria sido o tão hediondo crime cometido pelo general, pelo comandante da independência, que justificasse tão grave processo? A resposta ninguém sabia ao certo.
O que se dizia é que a causa teria sido uma desavença com um outro general sobre o abandono das forças de Labatut em meio às matas de uma longínqua vila de Passo Fundo. Sua divisão teria sido deixada à míngua, sem suprimentos e sem reforços, em meio aos combates da guerra de independência movida pelos republicanos na distante Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. A todos isso soava como um ultraje. Mesmo Labatut tendo sido inocentado, o Conselho de Guerra, motivado por desforra de reclamos legítimos que o general fez como comandante abandonado no campo de batalha, se mostrava afrontoso à Bahia. Como ousaram cometer tal desfeita à Bahia, à gloriosa província que lutou para ser brasileira, que proclamou a independência de Portugal ainda antes do brado de D. Pedro I? A província que teve em Labatut o bravo comandante que expulsou de seu solo as forças coloniais portuguesas?
O sentimento de indignação veio num crescendo e, espontaneamente, nasceu na sociedade baiana a vontade de promover um desagravo público a Labatut. Os preparativos começaram sem que o marechal soubesse ou deles tomasse conhecimento. Então, no ano seguinte, na celebração da independência de 2 de julho de 1849, o marechal de campo Pedro Labatut foi convidado para um evento cultural comemorativo a ter lugar no Teatro São João. Estava muito honrado em ter sido lembrado e aceitou o convite. Na noite do evento, vestiu-se com o aprumo e a elegância de um oficial nascido na França e foi sentar-se no camarote que lhe indicaram.
O programa daquela noite tinha como destaque um drama patriótico escrito por Carlos Guido y Spano (escritor e dramaturgo argentino que havia feito seus primeiros estudos no Rio de Janeiro, em 1840, no período em que seu pai havia sido o embaixador da Argentina no Brasil e que voltou a residir no Brasil por um novo período, a partir de 1848). Um cronista da época relata como foi o evento:
“(…) Em camarote da ordem nobre, à esquerda de quem entra, estava Labatut, para quem convergiam todos os olhares, até que começou o espetáculo.
Logo ao cair o pano, após o primeiro ato, foi grande a explosão de ovações ao general sempre silencioso e minimamente parco em gesticulações. Proclamaram-se eloquentes discursos e a Musa patriótica da Bahia, mais do que nunca, se mostrou brilhante e veemente pela voz sublime de seus poetas. Causava geral estranheza o silencio de Muniz (Francisco de Muniz Barreto – famoso poeta improvisador da Bahia), de quem ouvi, em resposta à interpelação de Sinfrônio e Mendonça (Olímpio de Mendonça), que o ladeavam: ‘Não posso, vim arrastado, por saber que o Labatut compareceria’. Alguns momentos de relativo silêncio se passaram e novos aplausos e vivas vitoriavam o velho general, e, por entre eles, algumas vozes se destacavam interrogativamente: Muniz? O poeta Muniz?
Então, como resposta a essas insistentes aclamações, ergueu-se o gigante do Parnaso baiano. Pareceu crescer além de sua elevada estatura!
Os traços de sua fisionomia, um tanto feia, se modificaram, e o Muniz ficou bonito!
Aquele nariz grosso tornou-se aquilino, e de águia foi também seu olhar firme e penetrante para o general, parecendo querer ir até ele nos arrebatamentos de seu estro, e começou dizendo:
‘Vê, nobre Labatut, contempla o efeito
De tuas lides marciais de outrora!
Olha como a Bahia comemora
De sua liberdade o heroico feito!
Aqui, consolação beba teu peito!
Aqui, tua saúde ache melhora.
E folgue o povo, que tão grato chora,
Ver-te das dores no penoso leito.
Olha como te afagam os baianos,
Como és por seus vates decantado,
Tu, guerreiro, terror dos lusitanos!
Do povo que serviste, abençoado,
Rindo de ingratos, rindo de tiranos,
Morrerás grande, morrerás vingado!’.”.
O público inteiro pôs-se de pé. Na Bahia, nunca se ouvira ovação igual. Os aplausos e a aclamação faziam vibrar as paredes do teatro e vinham em ondas que pareciam não ter fim. Instado, o poeta foi ao camarote abraçar o general que havia libertado a Bahia dos colonizadores e feito tremular naqueles céus a bandeira do Brasil. O abraço foi como uma catarse. A emoção arrebatava a plateia. Em regozijo, abraçavam-se todos com todos; comovido às lagrimas, abraçava-se o povo baiano com seu libertador.
O grande poeta Muniz falara pela Bahia. O general, o herói da luta pela liberdade do povo baiano, se mostrava tomado pela emoção. Era todo agradecimento àquela bela e generosa Bahia que o acolhera. Os aplausos não cediam. Os aplausos recrudesciam. Os vivas se ouviam de longe. Quem testemunhou aquele momento garantia que o arrebatamento tocava os corações e os levava a um êxtase como nunca se tinha visto antes. O sentimento de patriotismo a todos envolvia e se expressava num congraçamento como só os filhos de nações livres são capazes de experimentar.
A homenagem e o reconhecimento da gente da Bahia ao seu grande herói e libertador vieram bem a tempo. Menos de dois meses depois, em 4 de setembro de 1849, enfim consagrado, feliz e recompensado, falecia o marechal Pedro Labatut. Tinha, então, 76 anos de idade.
Ainda hoje, em Pirajá, é realizada anualmente a Festa de Labatut. Foram iniciadas em 1853, quatro anos após sua morte, quando o povo baiano começou a olhar para a história de seu libertador com o filtro do tempo. A Festa de Labatut começa uma semana depois da grande comemoração da independência da Bahia, que acontece no dia 2 de julho. Durante três dias, os moradores de Pirajá e de áreas adjacentes se reúnem e celebram o herói que ali, no Largo de Pirajá, tem seu panteão.
Condá e a volta por cima
Após pensar por uns dias e depois de visitar o Passo do Goio-En para meditar em conexão com os espíritos de seus antepassados, Condá aceitou o convite do alferes Rocha Loures, seu amigo de infância, para ajudar a abrir o Novo Caminho das Missões. Seria sua volta por cima.
Em maio de 1844 havia sido enviado ao novo presidente da Província de São Paulo, Manoel da Fonseca Lima e Silva, o dossiê da Justificação contra Condá. O processo era iniciativa do capitão-mor de Guarapuava, Domingos Ignácio de Araújo, e de seu aliado, Pedro Siqueira Cortez, o aventureiro curitibano de poucos escrúpulos que compartilhava, com seu padrinho, o projeto não revelado de encontrar ouro no Morro do Bituruna, onde, ouvira dizer, existia o metal em quantidade.
O texto da Justificação argumentava ter sido uma supina injustiça Pedro Cortez ser retirado do comando do Destacamento dos Permanentes de Palmas. Diz que seu sucessor, Hermógenes Carneiro Lobo, é “despreparado e doente” e declara, com todas as letras, que o índio Victorino Condá, nomeado Capitão dos Índios, é um assassino. Para fazer prova dos fatos alegados envia o ofício da Justificação, ao qual anexa diversas declarações:
“Ilmo. e Exmo. Senhor:
Tenho a honra de respeitosamente dirigir à V. Excia. os meos comprimentos, e igualmente tenho o prazer de congratular-me com V. Excia. por se achar ocupando a Presidência desta Província. Em meo Offício de 4 de Janeiro do corrente anno, reprezentei ao antecessor de V. Excia., a Exmo. Senr. Joaquim José Luis de Sousa, o que convinha fazer-me à bem do País de Palmas porem não sei que motivos assistirão à aquelle Exmo. Sr. para não atender a nenhuma das razões por mim expendidas. Nestas circunstâncias eu me conheci inabilitado para ser de alguma utilidade, e resolvi-me em consequência à espera que outro Delegado do Governo Central viesse regar os destinos desta Província, o qual com prudência e maduresa entrasse no conhecimento do que expus. Huma das providencias que apontei como muito necessária foi fazer sahir para fora do lugar o Indio Victorino por quanto este monstro de assacinios e perversidades tem causado à aquele Paiz quantos males tem havido, por causa de sua reconhecida malvadeza e vida dissoluta infelizmente, porem, aquelle Exmo. antecessor de V.Excia, sendo completamente illudido pela refina hipocrisia do Indio e por quem tinha muito imediato interesse em que elle alli se conservasse e levado pela sua nenhuma experiência dos interesses do lugar, sem procurar obter informação alguma chegou ao ponto de premiar os assassínios e roubos que este Índio está perpetrando há tantos annos, nomeando o Comandante dos outros Índios dando desta arte hum passo tão errado quando imprudente, de tal sorte que foi geral nesta Comarca a pasmo e a dar quando se vio este terrível malvado apoiado pelo Governo. E para que V.Exa. não presuma que o que eu expunha à tal respeito era baldo de fundamento, levo à presença de V. Excia. os Documentos inclusos sob números 1 à 7, pelos quais V. Excia. ficará compenetrado da veracidade dos factos. O Documento de n 1 hé do Capitão Antonio da Rocha Loures, comandante da Expedição de Guarapuava, e que alli reside o começo d’aquella Povoação. O de n 2 hé do subdelegado que há mais de 20 anos rezide na dita Povoação. O de nº 3 hé do Reverendíssimo Vigário. O de nº 4 de huma justificação feita na Vila do Príncipe por negociantes abastados desta Província que há muitos anos tranzitão pela Estrada que se segue para a Província do Sul. O de nº 5 hé hum Offício de Joaquim Fagundes dos Reis, que era comandante de hum Presidio em Missões, com quem o de Palmas se entendeu à respeito de huns prisioneiros que o Índio Victorino vindo d’aquelle lado trouxe disendo que os tinha tirado do poder de outros Índios: estas infelizes creaturas o Índio Victorino foi, em Companhia do Capitão Hermógenes Carneiro Lobo apresentar ao Exmo. Sem, Joaquim José Luís de Sousa. O de nº 6 hé hum Offício do Sargento Manoel Carlos Taborda em que este participa o resultado de huma deligencia do que lhe diz se tirão indícios de qual hé o caráter do dito Índio. O de nº 7 de hum Officio do Reverendo Pe. Cabezas pelo Contheudo do qual também se conhece a feracidade que caracterizam o mencionado Índio. O Exmo. Snr. Joaquim José Luís de Sousa sem se informar da veracidade do que os adversários de Pedro de Siqueira Cortez lhe imputavam, demittio-o, e mui pouco honrozamente do Comando da Companhia de M. Permanentes de Palmas. Eu devo asseverar à V. Excita. que este Cidadão hé o apto para dar impulso ao desenvolvimento d’aquelle Pais, já pela sua reconhecida probidade e já pela sua atividade, gênio e robustez o que bem se prova pelos muitos benefícios já prestados por elle à aquelle lugar dos quaes eu por não ser mais [ilégivel] só mencionarei a Picada que elle abria à traves de huma extensa matta em rumo direito de Palmas à esta Freguesia, facto este de que muitos e muito avultados benefícios resultarão para aquelle Paiz e para esta Comarca logo que se conclua a estrada que se está fazendo pela dita Picada como V. Excia verá dos meos Offícios de 8 de Maio e 15 de Agosto de 1842. Pará substituir este digno comandante a Exmo. Sem. Joaquim José Luís de Sousa nomeou o Capitão Hermógenes Carneiro Lobo, que já alli havia estado comandando a companhia, individuo este que nenhum titulo tem pelo qual se torne capaz de estar a testa de hum Pais como o de Palmas, já por causa de huma moléstia franca que padece, já por motivos que a delicadeza me exime de expender, as dos quaes V. Excia. poderá se informar das pessoas cordatas mesmo dessa Cidade que tenho relações para esta Comarca. Deos Guarde à V.Excia.
Palmeira, 22 de Maio de 1844.
Domingos Ignácio de Araújo”.
Esse dossiê acabou produzindo dois efeitos: o primeiro foi levar Condá a se afastar de Palmas com seu grupo. Conhecendo os inimigos que tinha e o que estava em jogo, temia ser vítima de algum atentado ou de alguma maquinação política orquestrada por Domingos Ignácio de Araújo e seus amigos na capital. Após sair de Palmas, fixou-se com seus índios em um novo local, onde fundou o Aldeamento de Chapecó. Com sua saída, a liderança do Aldeamento de Palmas ficou sob encargo do cacique Estevão do Nascimento Very.
Embora Condá soubesse que enquanto o capitão Hermógenes Lobo continuasse no comando da Companhia de Permanentes da Polícia de Palmas, que agora havia passado a 4ª Companhia do Corpo Municipal Permanente, poderia contar com sua proteção e seu apoio, ele não tinha como saber qual seria a posição do novo presidente da província. Conhecera diversos membros do governo da província no período que esteve em São Paulo, quando muitos deles se aproximaram pela curiosidade que despertava o cacique que salvara as crianças brancas, enquanto outros queriam conhecer o cacique que tinha ajudado na conquista dos Campos de Palmas.
Mas Victorino Condá era gato escaldado. Sua experiência com a política dos brancos recomendava cautela. E, quanto mais experiente ficava, mais desconfiado se tornava. O capitão-mor Domingos Ignácio de Araújo era fazendeiro e figura influente não só em Palmeira, mas também em Guarapuava e Palmas. Seu parceiro, Pedro Siqueira Cortez, além de também ter se tornado fazendeiro, tinha se convertido em figura poderosa na povoação, inclusive por ter a seu crédito a abertura da estrada que ligava Campos de Palmas a Palmeira, ainda em 1842. Aquela estrada, reconhecia Condá, tinha dado destaque a Cortez e, como igualmente reconhecia, era uma bênção para os negócios da povoação.
De toda forma, Condá, mesmo se sabendo inocente e confiando no governo da província, preferiu fixar-se em local mais afastado. Era o mais sensato a fazer, pois, em caso de alguma ameaça ou ação punitiva engendrada por seus inimigos, ele teria meios de saber antecipadamente e proteger-se embrenhando-se nas matas. Uma vez de volta ao seu elemento, dificilmente o encontrariam. O segundo efeito, contudo, se deu na capital e foi totalmente inesperado pelos maquinadores da perseguição à Condá.
Joaquim José de Morais e Abreu, do Partido Conservador e que substituiu Joaquim José Luís de Sousa como presidente de São Paulo, não ficou mais do que 40 dias no cargo. Com a mudança de humores na corte, um novo presidente paulista, Manuel da Fonseca Lima e Silva, o Barão de Suruí, do Partido Liberal, assumiu em 1º de junho de 1844. Assim, coube a ele decidir sobre o destino da Justificação proposta pelo capitão-mor. Ora, o Barão de Suruí não precisava dos conselhos de Domingos Ignácio de Araújo para saber o que devia fazer. Ele era tio e cunhado do Conde de Caxias, presidente do Rio Grande do Sul, de modo que tinha melhores informes sobre a atividade dos Kaingang ao Sul de sua província e na província vizinha.
Com o avanço da frente agropastoril e do aumento das atividades pecuárias na região de Palmas, já se debatia a conveniência de uma estrada – ou caminho de tropas – que ligasse os ditos Campos de Palmas à região missioneira do Rio Grande do Sul. Esse caminho, largamente preconizado pelos criadores da região, além de viabilizar uma nova rota de tropeiros ligando São Paulo ao Sul do país, seria importante estrategicamente, ajudando a integrar toda aquela região ao restante do país. Uma providência necessária ante a precária definição das fronteiras da região com a Argentina.
Outras tentativas de abrir caminho para a missões já haviam sido feitas antes, mas todas frustradas pela resistência dos índios Kaingang. Os bugres não gostavam que os portugueses e brancos, os fóg, invadissem suas matas, e buscavam defender-se dos estrangeiros com as armas que tinham à mão. Sabiam como espreitar o movimento dos invasores, assim como de eventuais tropeiros que penetrassem em seus territórios, e estavam sempre tocaiando os caminhos menos guarnecidos. Com táticas de guerrilha, grande agilidade e superior conhecimento do terreno, conseguiam tomar mantimentos, desviar gado desgarrado e espantar os cavalos para, com esses fugindo, capturarem alguns. Diante desse histórico de ardiloso fustigamento e piratagem, estava claro que o novo caminho só teria êxito caso se conseguisse um entendimento com os Kaingang.
Era imprescindível conseguir que os índios concordassem com a estrada e permitissem a passagem pacífica das comitivas pelos campos e terras sob seu controle. A alternativa seria guerrear com os índios até seu extermínio? Uma hipótese impensável. O domínio dos Kaingang compreendia amplas áreas da região e era prevalente tanto nos Campos de Palmas, na Província de São Paulo, quanto na região da Vila de Passo Fundo e do Alto Uruguai, no Rio Grande do Sul. E o Passo do Goio-En, por onde a estrada deveria necessariamente cruzar, estava no coração dessa região.
Em síntese, sem um acordo o projeto não daria certo. Para o alferes Rocha Loures, uma vez recebida a missão de abrir o caminho, a questão era saber como buscar o pacto com os Kaingang. Um branco, ele mesmo, ainda que falasse o idioma dos índios, teria dificuldade em saber com quem conversar, em identificar o interlocutor confiável, em descobrir com que Pai-Bang ou rekakê negociar. Então, o mais sensato era buscar um índio que pudesse intermediar a negociação. E, entre os índios amigos, não conhecia ninguém melhor do que o cacique Victorino Condá. Nenhum, como ele, reunia as condições necessárias ou tinha perfil mais adequado para a missão. Condá era um Pai-Bang que conhecia bem os dois lados, o dos brancos e o dos índios, falava a língua dos brancos e a dos índios Kaingang e contava com prestígio e respeito entre os demais caciques de sua tribo.
Por isso, em fins de 1844, quando o alferes Francisco Ferreira da Rocha Loures, o filho primogênito do capitão comandante do presídio em Guarapuava e o “homem emprehendedor e activo”, no dizer do Barão de Suruí, recebeu a incumbência “da abertura de uma nova comunicação entre esta província e a de S. Pedro do Sul pelo território situado ao sudeste de Campo de Palmas” sua primeira providência foi procurar Condá. Os dois se conheciam desde os tempos de infância. Rocha Loures, quando piá, havia convivido com o menino índio Condá, em Guarapuava. Garotos, tinham brincado juntos, caçado juntos, pescado juntos, cavalgado juntos. Haviam compartilhado sonhos, medos e incertezas. O mais importante: haviam desenvolvido o sentimento de companheirismo, aquela conexão entre almas que só amizades construídas na mútua descoberta do mundo produzem. E por esse motivo, mais do que qualquer outro, aquela oportunidade de juntos partirem para uma nova aventura e enfrentarem o desafio de desbravar os caminhos da estrada das Missões se mostrava uma perspectiva sedutora.
O alferes Rocha Loures sabia que, uma vez obtida a participação de Condá, a empreitada teria tudo para dar certo e alcançar bom êxito. Ainda faltava convencer o cacique, mas ele estava otimista. Acreditava que Condá se engajaria pela aventura e pela oportunidade de prestar um serviço ao governo e a seu povo, mas, caso se mostrasse reticente, tinha um bom argumento: se ele não ajudasse, o governo da província acabaria abrindo o caminho mais dia menos dia. Então a tarefa de encaminhar a solução dos índios poderia ser entregue a algum bugreiro inescrupuloso. A um inimigo dos índios. Talvez ao pior de todos. Talvez pudesse ser entregue a Cortez, que tinha a mostrar sua experiência na abertura da estrada que ligava os Campos de Palmas à localidade de Palmeira em linha direta, sem passar por Guarapuava.
Alguns dias depois de receber oficialmente a incumbência da abertura da estrada, o alferes se pôs a caminho com o propósito de falar com Condá. Estava em companhia de Kimy, um índio indicado por Viry, chefe do acampamento Kaingang na povoação de Palmas, que apenas falava rudimentos de português, mas conhecia as trilhas que levavam ao aldeamento de Chapecó, onde iria encontrar o cacique. Rocha Loures também levava duas mulas cargueiras carregadas com ferramentas, utensílios e objetos que, sabia, seriam bem recebidos pelo cacique e seu grupo. Confiava que alguns presentes dados ao ele ajudariam ser acolhido pela tribo e facilitariam a aceitação do convite que levava para Condá.
Foram três dias de Palmas até o aldeamento onde Condá e seu grupo estava instalado, em um entroncamento entre os rios Chopin, Chapecó e Iguaçu. O tempo contribuiu, e as trilhas estavam secas e firmes. Assim, o avanço foi fácil, embora alguns trechos apresentassem vegetação mais densa, que precisou ser desbastada a facão para facilitar a passagem das mulas e sua carga. Também foi preciso vadear alguns cursos de água e cruzar outros tantos lamaçais. Para o último dia da jornada, Rocha Loures e Kimy saíram cedo. Ao romper da aurora, comeram pinhões assados na fogueira que mantiveram acessa desde a véspera e seguiram para as léguas finais do caminho.
Ao avistarem o aldeamento, após vencerem uma elevação, puderam ver cinco ou seis palhoças da aldeia construídas pelos Kaingang de Condá. Eram habitações retangulares, que tinham comprimento variável de cerca de 30 metros e cerca de 5 metros de largura, com duas águas e altura de cerca de 2 metros no ponto mais alto da cumeeira. As habitações seguiam um mesmo modelo construtivo básico.
Cada palhoça era construída sobre um esqueleto feito com galhos de araucária coletados no solo ou retirados dos pinheiros. Nas extremidades e em intervalos que se mostrassem necessários, era colocado na vertical um galho que tivesse uma forquilha na ponta. Nela era apoiado horizontalmente o galho mais longo que serviria para formar a cumeeira. A estrutura lateral era feita por galhos de 6 a 8 metros, do tipo dos que seguram os pompons no alto das taças formados em araucárias adultas, com a extremidade curvada voltada para dentro, na parte de cima. Esses galhos constituíam o esqueleto das palhoças. Eram fincados no chão a cada 60 ou 70 centímetros e sua ponta, curva, apoiava-se na longarina central, onde eram amarradas com cipós.
Sobre essa estrutura era formada uma grade com galhos menores, amarrados horizontalmente. A cobertura era feita com folhas de palmeira sobrepostas. Primeiro eram amarradas as fileiras de baixo, na linha da grade mais perto do solo. Depois, cada fileira era amarrada mais acima e ia sendo sobreposta na fileira anterior para permitir que a água da chuva escoasse por sobre as folhas de baixo. Camada após camada, as laterais iam sendo formadas até chegar ao topo e revestir a cumeeira. Essas prumadas laterais ficavam bem protegidas e por elas não entravam nem o frio, nem o vento, nem a chuva. A abertura que ficava em cada extremidade da choupana recebia um tapume que deixava uma passagem. Essa entrada era feita de taquara trançada e permanecia aberta nos dias menos frios e chuvosos.
As palhoças eram construídas, sempre que possível, perpendiculares aos ventos dominantes, para facilitar a saída da fumaça das fogueiras feitas em seu interior. Também por essa abertura é que se dava a passagem das pessoas. No interior, o espaço era dividido em duas carreiras, uma de cada lado. Próximo aos extremos laterais da parte interna, já tocando a prumada lateral, estendiam cascas de árvores e esteiras de palmeiras secas, ou taquara trançada. As esteiras serviam como camas coletivas. Nos leitos os índios dormiam agrupados, sem distinção de sexo. A posição de dormir era deitado com a cabeça junto às paredes laterais, com os pés votados para o corredor central.
No corredor central cada família tinha a própria fogueira, que era mantida constantemente acesa. Servia como a cozinha e era o Centro da vida da família. Sentada junto a ela, a família fazia suas refeições, conversava e fazia os mexericos da aldeia. Na borda das fogueiras os anciãos relatavam suas experiências, contavam as histórias e lendas, ensinavam as novas gerações e discutiam a vida da comunidade. Nelas, os pajés faziam sua medicina e vaticinavam o futuro. As fogueiras eram símbolo da vida. Aqueciam no frio, coziam os alimentos e, sua função mais importante, assavam o pinhão o ano todo.
Rocha Loures conhecia bem aquelas habitações típicas dos Kaingang. Já estivera no interior delas por vezes sem conta, desde os tempos em que brincava com Condá e outros meninos indígenas nos acampamentos de Guarapuava. Contudo, algo que sempre havia intrigado o alferes era o motivo de os Kaingang desconhecerem o hábito de varrer e limpar o interior de suas habitações. Quando ficavam sujas e eram infestadas por pulgas e bichos-do-pé, eles simplesmente preferiam fazer choupanas novas, abandonando e colocando fogo nas velhas. Mais de uma vez o alferes perguntou o porquê desse comportamento à Condá. O cacique ria da pergunta, dava de ombros e respondia que faziam assim porque era assim que se fazia. Uma certa vez, ante à insistência do alferes, que não se conformava com aquele comportamento que lhe parecia pouco saudável e até bizarro, Condá respondeu, bem-humorado:
— A gente prefere botar fogo nas palhoças infestadas porque as pulgas e bichos-de-pé são muito pequenos para ficar catando um por um…
Rocha Loures e Kimy, ao entrarem no aldeamento, viram que as crianças corriam ao encontro deles e das mulas com as bruacas de carga balouçando sobre seu lombo. Os pequenos estavam felizes. Visitas de estranhos não eram comuns, de modo que a chegada do alferes e seu acompanhante era novidade a ser recebida com grande algazarra pela criançada. Condá ouviu o alarido e, já informado da vinda do alferes Francisco da Rocha Loures pelos seus vigias, saiu de sua choupana e foi esperar os visitantes na entrada da aldeia.
O alferes viu o Pai-Bang Kaingang postar-se um pouco à frente da sua palhoça. De estatura alta para um Kaingang, esbelto, de compleição forte, torso musculoso e braços poderosos, era uma figura que se impunha. Vestia um tipo de calção feito com tiras de palha, tinha o corpo pintado com os círculos de sua dualidade e trazia sobre a cabeça o cocar de chefe, um arranjo redondo formado por penas coloridas de aves das matas do entorno do aldeamento. Ao se aproximar mais, Rocha Loures saudou Condá acenando com o braço direito, enquanto o esquerdo segurava as rédeas:
— Bons dias, Condá, grande Pai-Bang!
— Bons dias, respondeu o cacique Condá.
O cacique fez mais uma concessão aos hábitos fóg, já que os Kaingang não costumavam cumprimentar-se ao estilo dos brancos ao se encontrarem. O costume era o seguinte: quando um Kaingang visitava um amigo, entrava na palhoça e se sentava ao lado da esteira. Se o amigo o acompanhasse e oferecesse um alimento ou uma guloseima, o visitante se sabia bem-vindo. Se fosse ignorado, saberia que não era bem-acolhido. Então, após uma espera de tempo para ser notado, levantava-se e ia embora.
O alferes chegou próximo de Condá, estendeu a mão para uma troca de cumprimentos calorosos, desmontou e passou as rédeas para o índio Kimy, que já havia também apeado e trazia as mulas puxadas pelo cabresto. Em seguida, foi com Condá para a choupana, onde a espessa cobertura de folhas de palmeira oferecia abrigo ao sol e criava uma temperatura agradável, refrescada pela brisa que circulava pelas aberturas na entrada e saída. Sentaram-se na esteira, do lado esquerdo da entrada, de onde podiam ver a algazarra das crianças em volta das mulas, enquanto os cachorros ladravam, corriam e pulavam.
Rocha Loures sabia que os Kaingang tinham um grande carinho pelos cães, que eram sempre numerosos nas aldeias Kaingang. Os cachorros lhes faziam companhia, davam-lhes segurança e os ajudavam nas caçadas. Quando um deles morria, pranteavam o animal como se fosse um membro da família. Mas uma coisa sempre intrigava Rocha Loures: os Kaingang não alimentavam seus cães, que precisavam buscar seu próprio alimento nas matas. Acreditavam que, se fossem alimentados, ficariam preguiçosos e inúteis. Por isso, quase sempre seus cães viviam magros e esfomeados.
Esse, porém, não parecia ser o caso do belo, agitado e roliço vira-latas que veio deitar-se perto de Condá, depois de ter marcado presença na sessão de latidos junto às mulas. O cão de estimação do cacique não mostrava estar passando fome. O alferes sorriu, enquanto imaginava que Condá, depois de ter adquirido muitos de seus hábitos entre os fóg, devia ter também aprendido a alimentar seu companheiro às escondidas. Mas o motivo de sua visita era outro. Angustiado e querendo ver Condá comprometido com o projeto o mais cedo possível, desejava ir direto ao assunto, mas precisava fazer um pouco de relações públicas antes de trazer o convite para o Centro da conversa.
— Condá, fico feliz em ver que está tão bem instalado. Me disseram que vosmecê veio para cá para se distanciar dos problemas que o capitão Domingos, lá de Guarapuava, e o Pedro Cortez estavam te causando em Palmas.
Condá acomodou-se na esteira. Chamou sua mulher e pediu que ela trouxesse alguma coisa para oferecer ao visitante. Então voltou-se para o alferes e respondeu:
– Amigo, eu tinha que sair de Palmas. Tu sabes muito bem que meus inimigos, se pudessem, já teriam se livrado de mim. Eles acham que eu sou culpado por Cortez ter sido tirado do cargo de comandante da Polícia Permanente. Eu até teria recomendado seu afastamento para evitar que surgisse uma guerra dos Kaingang contra os brancos. Mas não me perguntaram nada sobre ele. O Cortez foi afastado por ter perseguido e matado índios inocentes. E se ainda não acabaram comigo foi por duas razões: se me matassem, os Kaingang iriam sair para a guerra. E isso, no momento, seria ruim para eles. O outro motivo é a proteção que eu e os Kaingang recebemos do comandante Hermógenes e de sua polícia. Ele é um amigo em quem confiamos. Mesmo assim, não me sinto seguro. Se essa acusação que fizeram contra mim for aceita em São Paulo, então vamos voltar a ser perseguidos. E teremos que nos defender.
Rocha Loures não sabia como o novo presidente de São Paulo responderia ao Processo de Justificação. Mas julgava que ele, recém-empossado, não iria mudar as decisões de seu antecessor. Mesmo porque a região estava pacificada e a população apoiava o comandante Hermógenes. A certeza, contudo, é que, se Condá concordasse em fazer parte da expedição, ele ficava fora do alcance de seus inimigos por um bom tempo. E, se o projeto da estrada fosse completado com êxito, certamente o cacique teria um reconhecimento que o faria intocável. Então, o alferes achou que convinha entrar de imediato no assunto:
— Condá, vosmecê sabe por que estou aqui?
Condá riu ao responder:
— Não sei nem faço ideia. Mas tenho uma certeza: para me trazer estes presentes é que não foi.
E acrescentou em seguida:
— O que sei, por ouvir dizer, é que vosmcê foi encarregado de abrir o Caminho do Goio-En.
O assunto do Caminho das Missões era recorrente não só em Palmas, mas também em toda a região. Muitos o chamavam de Caminho do Goio-En. Assim, Condá sabia que esse era um projeto que seria realizado mais cedo ou mais tarde. E ouvira dizer que o presidente da província tinha encarregado o alferes Rocha Loures para fazer a obra. Sempre havia índios indo e vindo dos Campos de Palmas e esse tipo de notícia corria rápido.
— Sim, é verdade. Recebi um comissionamento diretamente do presidente. E te digo, foi uma baita de uma surpresa. E é exatamente por esta a razão que vim até aqui: quero convidar vosmecê e um grupo de seus guerreiros para participarem do projeto de abertura da estrada.
Condá ficou em silencio um momento antes de responder.
— Agora a surpresa é minha. Tens que me deixar pensar um pouco. Não sei se devo deixar meu grupo e meu toldo agora. Acabamos de mudar e tem muita coisa que precisa ser feita. Muita coisa que eu quero fazer. Preciso refletir. Quero que me fale mais sobre o projeto, mas podemos conversar mais tarde. Vosmecê deve estar cansado. Então se aprochegue e descanse um pouco. Depois conversamos.
Rocha Loures entendia as razões de Condá. E, conhecendo o Pai-Bang como conhecia, sabia que ele não gostava de tomar decisões precipitadas, impensadas ou sem consultar os seus anciãos. Sorriu ao lembrar que Condá lhe dizia sempre que “chefe Kaingang não é macaco que resolve no grito”. Era a forma de manter a liderança sobre seu grupo. E foi por prever que qualquer decisão de Condá dependeria do apoio de seus rekakê-pai, de seus caciques auxiliares, que desejou cultivar a boa vontade deles levando alguns presentes, especialmente ferramentas, que sabia serem muito valorizadas pelos Kaingang.
O alferes já ia levantar-se quando Rita, a mulher de Condá, trouxe uns bolinhos de pixé, uma guloseima feita de milho torrado e socado para ser comido com mel silvestre. Era um sinal de boas-vindas cerimonial. Ela, para atender aos costumes dos brancos, tinha colocado um vestido de chita colorido e trouxe os bolinhos em uma caprichada bandeja artesanal feita de taquara trançada com detalhes em várias cores. O mel silvestre foi servido em um pote de cerâmica Kaingang.
— Que maravilha! – Saudou Rocha Loures. Conheço esses bolinhos de milho torrado. São uma delícia! Com um pouco de mel são uma das coisas mais gostosas que já comi.
O alferes apanhou um deles, cobriu com uma generosa camada de mel silvestre e comeu estalando a língua, para mostrar quanto os apreciava. Rita esfregava as mãos de contentamento. Sua alegria estava estampada no rosto redondo e sorridente, que demostrava quão radiante ela estava por Rocha Loures ter gostado de sua melhor especialidade como cozinheira respeitada na tribo. A demonstração de contentamento do visitante era ainda mais apreciada por ele ser amigo de infância de Condá. E por ser um importante amigo fóg. Uma mulher Kaingang, cujo destino era ficar sempre em segundo plano, não tinha muitas oportunidades de obter um reconhecimento como aquele.
Em pé, ao lado de Condá, aguardava que o cacique sinalizasse para ela sair. Mas antes de fazer um gesto para ela se afastar, o cacique mostrou apreço por sua companheira e também elogiou o sabor dos bolinhos. Não era pró-forma. Eram seus favoritos. Rita nunca fora repudiada por Condá, o que era usual entre os Kaingang, porque ele a apreciava verdadeiramente e contava com seu apoio junto à tribo. Rita era mulher inteligente e bem-preparada, inclusive por falar e escrever rudimentos em português. E agora se mostrava novamente arguta evitando oferecer ao visitante alguma de suas especialidades que faziam grande sucesso na tribo, mas que o amigo de seu marido dificilmente apreciaria, como vermes cozidos no mel…
Após degustarem os bolinhos, Rocha Loures levantou-se – achou que era hora de conquistar as simpatias dos membros da tribo, o que significava abrir os presentes. As quatro bruacas já estavam no chão. Pesavam mais de 50 quilos cada uma, e Kimy havia pedido ajuda de alguns índios para conseguir retirá-las do lombo das mulas cargueiras.
O alferes abriu as fivelas de uma delas e pediu para Condá chamar as crianças para retirarem seu conteúdo, porém nem foi preciso. Ao abrirem as alças, os pequenos indígenas descobriram, deslumbrados, um mundo de brinquedos que não conheciam. Na tribo, as crianças Kaingang brincavam com arco e flecha, tacape ou clava, em jogos de guerra. Mas, para os meninos e meninas da tribo, como para toda e qualquer criança, a chegada de uma novidade era sempre festejada. Logo a garotada começou a dar gritos de alegria ao descobrir as bonecas de pano, espelhinhos, carros de mão de brinquedo, bolsinhas de courinhos, bolas de feltro e ferramentas de brinquedo como martelinhos, mini serrotes e pazinhas que foram saindo de dentro das bruacas.
Já para os índios adultos, Rocha Loures trouxe duas bruacas recheadas de ferramentas, presentes que, ele sabia, seriam altamente valorizados. Enxadas, picaretas, pás, facões, foices, serras, martelos, pregos. Sabia que, de todas as coisas que os colonizadores europeus traziam, além de armas de fogo, os objetos que os índios mais desejavam eram as ferramentas. Elas eram disputadas e valorizadas por facilitarem a vida deles, assim como facilitavam a vida dos fóg. Com seu uso, ficava mais fácil cultivar o milho, a batata-doce, as abóboras e tudo que compunha suas lavouras.
O alferes não trouxe armas de fogo porque sabia que seriam mais para uso bélico do que para a caça. Para caçar em seu ambiente nativo, os arcos uy e as flechas dou se mostravam mais adequados. Só o fato de serem silenciosos já era uma vantagem. As armas de fogo assustavam a bichos e faziam a caça fugir, de maneira que só o primeiro tiro contava. Também tinham o inconveniente de revelar a presença dos índios nas matas, o que era sempre perigoso pelas rivalidades entre os grupos. Por isso, os índios guardavam as armas que conseguiam para as refregas e enfrentamentos. Para fazerem suas incursões de caça, preferiam, mesmo, suas armas silenciosas.
Além disso, os arcos e flechas dos Kaingang eram maravilhas do artesanato indígena. Para serem feitos, usavam técnicas elaboradas e produziam verdadeiras obras de arte. Os arcos eram de paus-d’arco, madeira retirada dos ipês-roxos. Para obterem a forma curva ideal, os Kaingang tomavam um bastão da madeira do tamanho desejado, que poderia ser de mais de 2 metros. Os arcos para lançamento das flechas com o arqueiro deitado e presos pelos pés eram ainda maiores, chegando facilmente a 2,70 metro. No processo de fabricação, faziam o desbaste inicial raspando a madeira com lâminas de pedra cortante e aplainavam o excesso friccionando as hastes com pedra arenosa. Em seguida, davam o acabamento com folhas ásperas de umbaúba, que usavam como lixas. Para fixarem a curvatura, untavam os arcos com gordura animal e vergavam a madeira sob o calor do fogo. Por fim, faziam uma capa de tiras finas trançadas e com desenhos coloridos, e uma empunhadura com couro de animais.
Já as flechas podiam ser feitas de taquara ou de varas de madeira, e as pontas agudas eram de osso de macaco ou veado. Também usavam flechas pequenas e de ponta rombuda que serviam para pegar aves pequenas ou passarinhos, atordoando-os sem transpassá-los ou furá-los. Dada a destreza com que os índios faziam uso de seus arcos e flechas, a típica caça nas matas de araucária não justificava o emprego das armas de fogo.
Condá ficou maravilhado com o sortimento de agrados que o alferes tinha se dado ao trabalho de trazer. Todo aquele lote de brinquedos e ferramentas, além de roupas e acessórios femininos como pentes e espelhos, deveria ter custado um bom dinheiro. Ainda que Rocha Loures fosse seu amigo e oferecer presentes fosse usual para agradar os índios, aquele verdadeiro bazar que saíra das bruacas não tinha nada de usual. A única explicação, pensou o cacique, é que o coletor de Guarapuava não havia economizado dinheiro porque a intenção de convencê-lo a engajar-se na expedição para abrir o Caminho das Missões devia ser para valer. Condá levou o alferes para o lado e começou agradecendo:
— Francisco, fico muito agradecido pelos teus presentes para minha tribo. Especialmente as ferramentas, que são muito necessárias e vão ser de muita utilidade, como bem o sabes.
Condá chamou Francisco da Rocha Loures pelo apelido, o mesmo que usava com o amigo nos tempos em que eram gurizotes caçando formigas. E Rocha Loures respondeu:
— Não tem do que. Quem está pagando estes presentes é o dinheiro do governo da província. Na ordem que recebi fui autorizado a gastar o que fosse preciso para abrir o caminho do Sul o mais rápido possível. O Presidente da Províncja quer entregar a estrada aberta ainda em seu governo. E acredito que o sucesso da empreitada depende de conseguirmos a colaboração do cacique Nonoai. E só tu podes conseguir isso. Preciso de tua ajuda.
Condá ouvia aquela explicação e se perguntava se seria possível abrir tão rapidamente um caminho como aquele, por uma área pouco conhecida, sem ter boas informações sobre o relevo e sobre os obstáculos que poderiam ser encontrados. E foi o que indagou para seu amigo Francisco:
— Entendo. Mas, pelo que tu me dizes, precisamos abrir o caminho em meses. Será que é possível?
— Contigo e com teu grupo é possível sim. Tu conheces as matas, conheces os caminhos e conheces os caciques Kaingang. A distância não é tão grande e vou seguir com mais de uma centena de trabalhadores e devem chegar dois engenheiros que vêm de Curitiba para apressar a obra.
O cacique Condá olhou em volta. Seus guerreiros ainda estavam examinando as ferramentas, sentindo o fio das enxadas e testando os facões com folhas de palmeira. E respondeu ainda sem muita convicção:
— É verdade, conheço as matas e conheço os caminhos. Conheço o Passo do Goio-En e sei como atravessar o Rio Uruguai. Mas é preciso fazer um acordo com Nonoai e os rekakê do outro lado do rio. Eles não vão aceitar de bom grado que se faça um caminho no território deles. Vão reagir, e receio que possam partir para o ataque.
— É o que eu penso. Sem acordo não tem paz e sem paz não tem estrada. Seria preciso um Exército inteiro para proteger os trabalhadores. E, depois, um Exército ainda maior para proteger os tropeiros que viessem passar pela estrada. Essa área de encostas que margeiam o rio é muito acidentada e favorece as emboscadas e ataques rápidos com fuga. O único jeito é trabalhar em paz. Daí que não temos alternativa. Vamos precisar, mesmo, negociar um acordo com Nonoai. Para isso é que preciso de ti e de tua participação.
Condá, no entanto, não queria ser forçado a tomar uma decisão apressada ou impensada:
— Sim, amigo, entendo, e fico muito agradecido pelo convite. Mas tudo isso é inesperado. Para aceitar vou ter que mudar todos os meus planos. Então, preciso pensar um pouco. Preciso saber mais sobre seus planos e como quer que meu grupo participe. Preciso de uma semana para dar a resposta. Daqui alguns dias eu digo o que resolvi.
Rocha Loures ficou um tanto desapontado com a reação de Condá. Tinha pressa. Queria começar a empreitada o quanto antes. A política andava um tanto fluida. No momento as coisas pareciam favoráveis, mas não sabia por quanto tempo. O Presidente Manuel da Fonseca Lima e Silva, que atribuíra a ele a missão, prometia todo o apoio e os recursos necessários. Mas ele estava no cargo há cerca de seis meses, desde 1 de junho de 1844, tendo sido nomeado pelo governo do Partido Liberal. Seu antecessor, Joaquim José de Morais e Abreu, do Partido Conservador, tinha ficado no cargo apenas 40 dias, de 22 de abril a 1 de junho de 1844, e o antecessor dele, Manuel Felizardo de Sousa e Melo, também do Partido Conservador, ficou no cargo 118 dias, de 25 de novembro de 1843 a 22 de abril de 1844.
As mudanças frequentes no governo deixavam o alferes inseguro. De toda forma, se Condá precisava de tempo, a ele cabia esperar. A verdade é que Rocha Loures não tinha um plano B. Sem Condá, teria que tentar convencer outro índio a ser o intermediário. Talvez Viry o ajudasse, mas o novo Pai-Bang dos Campos de Palmas não tinha a habilidade política de Condá. Portanto, precisava insistir. Acreditava que Condá se acostumaria com a ideia. Aceitaria a missão com o coração. Também era claro que precisava convencer sua família e sua tribo de que aceitar a proposta era um bom negócio para todos. Inclusive para o grupo de guerreiros que o acompanhariam e que seriam remunerados pelo governo. E eles teriam que ser escolhidos e preparados. Teriam, ainda, que aceitar deixar suas famílias por um longo tempo. Também precisavam pensar sobre como proteger o aldeamento durante seus afastamentos. Antecipando essas questões, o alferes disse:
— Condá, tu sabes que sou teu amigo. Eu não faria esta proposta se tivesse dúvida sobre tua segurança ou de teus índios. Vou pedir ao capitão Hermógenes para que envie alguns de seus pedestres para dar proteção ao aldeamento durante a tua ausência e a de teu grupo.
E mudando o tom e a forma de tratamento para dar um toque mais formal ao que dizia, continuou:
— Capitão Victorino Condá, tens a minha garantia de que ninguém vai hostilizar ou mexer com seu toldo durante a missão. Vosmecê vai fazer parte de uma missão oficial do governo da província. Vou me encarregar de dar a notícia do compromisso que vou assumir contigo ao capitão-mor e deixar claro que ele será responsabilizado pessoalmente por qualquer problema que ocorrer em seu aldeamento. E, quando voltarmos da missão, vosmecê será um herói da abertura do novo Caminho do Goio-En. Portanto, pode decidir com toda a tranquilidade. E eu posso esperar mais alguns dias. Uma semana não vai fazer grande diferença. Enquanto isso, vou voltar a Guarapuava e continuar os preparativos contando contigo.
E assim ficaram combinados. Rocha Loures aceitou alguns presentes de Condá, em retribuição aos que havia levado. Recebeu algumas peças da cestaria Kaingang: cestas, peneiras e balaios ricamente decorados, com desenhos caprichados e belos grafismos no trançado. O objeto mais bonito, um arco envolto em taquara trançada, tinha sido feito por Condá e por Rita. Condá produziu o arco e Rita se encarregou do revestimento. Mas o que o agradou mais foi o camisão feito de urtiga-brava. A peça lembrava uma túnica, com uma abertura para a cabeça, era leve e não tinha mangas nem botões, mas servia para proteger de frios intensos, embora, no verão, fosse mais fresco do que o algodão.
Para fabricar o tecido dos camisões, as hábeis tecelãs da tribo retiravam as fibras das folhas da urtiga-brava. Às vezes eram combinadas com fios retirados de bromélias. Era um trabalho minucioso, já que as fibras precisavam ser tiradas inteiras, uma a uma. Depois, eram enroladas em bolotas, fervidas e lavadas até se tornarem uma massa branca e flexível. Os fios podiam ser usados na cor natural ou tingido. Nesse caso, o vermelho obtido com frutos do catinguá era o ideal. Depois, para fazer o tecido, utilizavam teares planos que, na verdade, mais se assemelhavam a tabuleiros. O trançado costumava ser produzido com o fio na cor natural entremeado por desenhos geométricos coloridos, num delicado processo manual. A confecção final era rústica, mas protegia o torso e mantinha as características de leveza e praticidade.
Naquele dia, o alferes ainda vagou pelo aldeamento e imediações. Gostava do que via. Dentre todas as aldeias e toldos que havia visitado, nenhum lhe pareceu tão organizado e ativo. E, sorrindo para si mesmo, achou o toldo impecavelmente limpo. Condá e sua mulher haviam introduzido as vassouras de palha no local. Circulando pelo aldeamento Rocha Loures foi até a área onde as mulheres preparavam os alimentos em seus pilões, assavam pinhões e faziam quitutes nas fogueiras. Também foi até a choupana em que as mulheres se dedicavam ao artesanato. Admirou-se da habilidade com que produziam balaios, bolsas de fibra e recipientes trançando tiras de taquara tratada e colorida. Notou que muitas delas trabalhavam carregando seus filhos consigo, em uma espécie de rede às costas. Outras, mesmo com os filhos agarrados aos seios e sendo amamentados, não interrompiam sua atividade. O alferes ficou impressionado com a capacidade de organização e liderança de Rita, a mulher de Condá. Era evidente que ela tinha grande mérito na organização da atividade feminina, tanto no artesanato quanto nas lavouras e no preparo dos alimentos. Era evidente que ela, que também tinha vivido em Guarapuava, aprendera muito com os brancos.
Um local que chamou a atenção do alferes foi a choupana onde diversas mulheres estavam dedicadas à feitura das cerâmicas de argila. Ali, ele se deixou ficar por um longo tempo. Observou que a técnica consistia em modelar primeiro a base do pote em argila mole borrifada com água. Depois, modelavam as paredes. Após isso, as peças eram colocadas ao sol, sobre esteiras de taquara. Para tornar a cerâmica mais resistente, as mulheres borrifavam sobre os potes uma mistura de farinha de milho diluída em água. Quando estavam quase secos, eram queimados no fogo, posicionados com a boca voltada para o calor da fogueira. Depois da queima, os potes eram examinados um a um e as eventuais rachaduras eram preenchidas com cera de abelha para evitar vazamentos. As peças destinadas a armazenar água para o consumo eram revestidas com uma fina camada de cera de abelha silvestre. Os índios observaram que o revestimento com cera de abelha ajudava a manter a água limpa, fresca e boa para o consumo.
Quando a noite se aproximou, Condá convidou Rocha Loures para comerem um jantar feito de peixe e carne de paca assados na fogueira, acompanhados de pão de massa de milho com farinha de pinhões também assado na brasa e de suco de butiás com mel. Em seguida, para passar a noite, o cacique ofereceu um lugar ao seu lado na esteira coletiva em que todos dormiam na choupana.
O alferes viu que Condá adormeceu logo que se deitou. Para ele, porém, o sono demorou a chegar. Parte foi pela excitação de confirmar que Condá era a escolha certa. Pudera ver com seus próprios olhos a maneira eficiente como tudo no toldo estava organizado e funcionava. Testemunhou, igualmente, o respeito de todos os indígenas por seu Pai-Bang. Era até com reverência que tratavam seu líder. Essa liderança lúcida, serena, mas firme, era o que precisava em seu grupo e que, tinha certeza, sensibilizaria e convenceria Nonoai.
Outra parte vinha da preocupação de receber uma resposta negativa. Pelos sinais, achava que Condá acabaria por concordar. Mas ele conhecia Condá e, pelo que percebia, o cacique estava verdadeiramente indeciso. Sem Condá, uma missão que tinha tudo para dar certo corria o sério risco de naufragar. Os riscos de não conseguir um bom entendimento com Nonoai seriam tais que talvez precisasse reestudar o projeto e talvez tivesse que adiar seu início. A Província de São Pedro do Rio Grande do Sul ainda não estava pacificada e poderiam ocorrer escaramuças na região, com envolvimento dos indígenas. A triste sorte de Labatut, hostilizado e combatido sem tréguas pelos Kaingang, era um sinal de que os Coroados continuavam a ser guerreiros combativos e não podiam ser subestimados.
Enquanto sua mente vencia a inquietude e vagava, semi-desperta, entre as chances e os riscos da missão que preparava, Rocha Loures acabou por focar sua atenção na fogueira da palhoça, mantida sempre acesa. As chamas eram mesmerizantes. O lume do fogo crepitava de quando em quando, sinal de que algumas achas de lenha ainda estavam úmidas. O alferes notou que a fogueira tinha lenha suficiente para manter-se acesa durante toda a noite graças à maneira como a lenha tinha sido ajeitada, recebendo uma cobertura de cinzas em parte das camadas mais baixas, de modo a fazer com que queimassem mais lentamente e prolongassem a combustão. E assim foi que, aos poucos, ao fixar sua atenção no movimento das chamas que bruxuleavam por entre as lascas de lenha, se deixou envolver por um sentimento de paz, uma evocação atavicamente impressa em seu inconsciente pelas incontáveis gerações de ancestrais humanos que dormiram ao lado de fogueiras nas cavernas primevas. E, sem perceber, adormeceu.
A decisão
Naquela manhã, Condá olhava o Goio-En e, aos poucos, via suas dúvidas se dissiparem. O Rio Uruguai, que seguia seu curso sinuoso no meio do vale, lembrava a Condá que a vida, como o rio, tinha voltas, passos e obstáculos. Naquela manhã, no topo da encosta do Rio Uruguai, enquanto visualizava o Passo do Goio-En, decidiu fazer as pazes consigo mesmo. Os brancos o chamavam para uma missão. Ao aceitar, sabia que era uma decisão sem volta. Abrir um caminho pelo Goio-En era como entregar aos brancos a alma daquelas matas que ainda resistiam e ainda abrigavam seu povo. Mas era chegado o tempo de aceitar a mudança, assim como o Rio Uruguai aceitava as águas da enchente que vinham todos os anos. Ele acreditava, sendo, como era, cristão batizado, que os índios também podiam ser abençoados. E podiam orar e pedir ajuda nos momentos difíceis e decisivos. Por isso, orou, com fé, para o Deus dos brancos. E depois invocou seus ancestrais, em uma prece aos criadores dos Kaingang – Kamé e Kayru –, que eram os protetores de seu povo. Vendo o Goio-En rebrilhando lá embaixo, ele se sentia pequeno e dependente do amparo divino. Ele e seu povo precisavam, mais do que nunca, da proteção do alto. E sentiu conforto em pensar que aquele convite inesperado podia ser exatamente a bênção por meio da qual ele ajudaria seu povo a encontrar um lugar na nova ordem do mundo que via surgir a sua volta.
Condá se deixou ficar até o meio-dia naquele canto glorioso da terra de seus antepassados. Aos poucos sentiu tomar-se pela paz interior dos que aceitam seu destino. Ele faria o que precisasse ser feito. Não sabia por que a ele fora destinada aquela tarefa, mas aceitava sua sina e a missão que os espíritos dos seus antepassados lhe incumbiam. A crença de seu povo era a de que a vida na Terra é dependente do desígnio dos mortos porque a sociedade dos vivos é eternamente nutrida pelos ancestrais mortos: “seus troncos”, “seus antepassados”. Então não lhe cabia porfiar a designação divina. O que lhe cabia era fazer tudo o que pudesse para cuidar e defender sua gente. Confortado por colocar-se nas mãos do destino, fez uma última prece pedindo também as bênçãos do Deus cristão, o Deus que ele aceitara pelo batismo. Para o cacique, não havia conflito entre os deuses, assim como não havia conflito entre o que era puro e era bom.
Com o espírito renovado pela decisão tomada, levantou o olhar para despedir-se do Goio-En. Nunca o vira mais glorioso, com a luz do sol refletindo em suas águas. Sussurrou um “até breve” dirigido ao Uruguai, que corria mais embaixo, e voltou pela trilha pela qual tinha vindo. Preferiu caminhar, ao menos por um tempo, puxando o cavalo pelas rédeas. Amava os cavalos, mas estes eram uma aquisição recente. Tinham vindo com os espanhóis, com os fóg amigos dos Guaranis. E tinham sido capturados e incorporados ao dia a dia dos Kaingang. Por instinto, porém, preferia o contato direto dos pés com a terra. Era com os pés no chão que se sentia parte daquela natureza que o abraçava. Ao perder de vista o rio, montou e seguiu na trilha de volta para o acampamento onde seus índios o esperavam.
Condá chegou ao acampamento no dia seguinte, no meio da tarde. Reuniu seu grupo. Escolhera dez índios para fazerem parte da expedição. Estavam no caminho para Palmas, local onde ele os mandara esperar. O cacique desejara fazer a peregrinação ao Goio-En sozinho. Quisera acalmar seu espírito inquieto e fazer uma última consulta aos espíritos de seus antepassados. Os seus guerreiros haviam improvisado um acampamento com galhos de pinheiro e folhas de palmeira. A fogueira já estava acessa. Com a chegada de Condá, prepararam uma refeição rápida com pinhão assado, sapecado sob as grimpas secas de pinheiro. Respeitaram o silêncio do cacique, até que um dos mais jovens e mais inquietos perguntou:
— Grande Pai-Bang, como foi seu encontro com o rio?
O índio fez a pergunta enquanto mexia nas brasas que assavam os pinhões no fogo. Condá saiu de sua abstração e respondeu devagar, mas com voz tranquila:
– O rio estava lindo, como foi criado por Kayru e Kamé no dia em que saíram da montanha. O que vi foi o sol brilhar nas águas que estavam serenas como sono de criança. Havia muita caça esperando nossas flechas. Vi pacas, antas, capivaras e até veados indo beber no rio. Se estivesse em uma expedição de caça, teria vindo carregado de muitas presas. Mas meu intuito era outro. Fui pedir conselho a nossos antepassados e receber seus conselhos ouvindo a brisa falar comigo. Fui com o coração angustiado e volto com o coração aliviado e a alma cheia de esperança. E o melhor sinal que recebi de meus antepassados foi que uma onça Mig foi ao rio beber água e olhou para mim. Senti uma forte emoção. Todos sabemos que as onças preferem sair à noite. Assim, aquela ter ido lá durante o dia só pode ter sido um sinal divino.
Os Kaingang ficaram felizes ao ouvir tão bons presságios. Viviam tempos difíceis, porém se sentiam abençoados por contarem com a sabedoria de um Pai-Bang que os conduzia com ponderação, astúcia e coragem. No dia seguinte, o grupo se pôs a caminho e seguiu para o encontro com o alferes Francisco Ferreira da Rocha Loures, em Guarapuava, de onde a expedição, finalmente, partiria para abrir o caminho das Missões.
Marcharam três dias. Ao chegarem em Guarapuava foram para a Coletoria de Impostos, o local onde Rocha Loures organizava sua expedição. O alferes, ao saber da presença dos indígenas, veio ao encontro de Condá com os braços abertos. Já antecipava a resposta do cacique e estava aliviado. Condá e seu grupo davam-lhe a certeza de que, juntos, reuniam as condições para ganhar o apoio de Nonoai e vencer os eventuais desafios e dificuldades. E dificuldades haveria muitas. A primeira ameaça já se apresentava com grande potencial de confrontação: o cacique Nonoai, ao saber dos rumores sobre os preparativos de uma comitiva que iria atravessar o Goio-En, tinha reunido um grupo de guerreiros prontos para o enfrentamento na margem Sul do Rio Uruguai.
Rocha Loures recebeu o grupo de Condá, orientou seu pessoal a acomodar os índios nas instalações do posto do governo e, tão logo se instalaram, mandou chamar o cacique e seus índios para participarem de um churrasco em sua casa. Coincidentemente, estavam realizando a confraternização dos membros da comitiva e reunindo os familiares dos que viajariam para um encontro de despedida. Era de se prever. A missão tomaria um ano, no mínimo. Talvez mais. Rocha Loures queria partir já no dia seguinte. A demora trabalharia conta ele. Quanto antes partissem, menos tempo teriam seus inimigos para criar problemas.
Condá chegou para atender ao convite na casa do alferes assim que o sol se pôs. Estava vestido com a farda e as insígnias a que tinha direito como capitão dos índios. Queria se afirmar diante dos demais convidados, prevendo que haveria momentos difíceis em que ele precisaria ser ouvido e em outros em que ele deveria tomar decisões ou propor iniciativas que demandariam o apoio de todos. Com sua experiência como cacique, sabia que assumir desde logo o posicionamento correto era começar com o pé direito. Significava estabelecer uma posição clara na hierarquia de comando.
O chefe seria Rocha Loures, nenhuma dúvida sobre isso, mas na questão com os índios, Condá queria deixar claro, qualquer decisão passaria por ele. O que ele dissesse deveria ser a última palavra. Assim, para a missão ter uma evolução tranquila, a melhor maneira de começar era prever conflitos e antecipar resistências. Mesmo os que não gostassem dele por ser índio – Condá já conhecia bem os fóg para saber que muitos subestimavam e até desprezavam os indígenas – ou, ainda, os que tivessem alguma prevenção quanto a seu papel na expedição precisavam entender que ele era o capitão e se faria respeitar. Não precisavam gostar dele, mas respeitar era um imperativo do qual não abria mão.
O alferes Francisco da Rocha Loures recebeu o cacique em sua delegacia e o apresentou a muitos dos presentes que não o conheciam, embora todos já tivessem ouvido falar dele. Condá respondeu aos cumprimentos, agindo com a naturalidade e o desembaraço social de quem conhecia os hábitos e os costumes dos brancos. Muitos dos participantes do evento ficaram surpreendidos com a desenvoltura de quem imaginavam ser um índio bronco e selvagem.
Para a surpresa de Condá, seus inimigos mais renitentes, Domingos Ignácio de Araújo e Pedro Siqueira Cortez, estavam no evento. Eles foram apresentar seus cumprimentos protocolares ao cacique, que os aceitou com elegância. Domingos Ignácio e Cortez não queriam fazer feio. Era melhor fingir cortesia e civilidade a mostrar seus verdadeiros sentimentos em um evento que contava com um enviado oficial do presidente da província, vindo diretamente de São Paulo. Estava claro para eles que a presença desse representante, de um enviado que não teria ido até Guarapuava apenas para posar para as damas, dava a medida da importância que o Barão de Suruí atribuía à missão.
Não obstante Domingos Ignácio e Cortez terem buscado se aproximar do pai do alferes, o capitão Antônio da Rocha Loures, o prestigiado comandante da ocupação dos Campos de Guarapuava e que, agora, tinha o importante cargo de comandante da prisão de Guarapuava, a quem haviam chamado para testemunhar no processo de Justificação de Condá, ele preferiu afastar-se para ficar com os filhos Francisco e João Cypriano e, por consequência, junto do grupo de Condá. Faltassem evidências, esta seria a mais cabal demonstração de que confiava seus filhos ao cacique naquela expedição histórica cujo sucesso dependeria de Condá.
Na festa patrocinada pelo alferes Rocha Loures, o churrasco estava sendo assado no fogo de chão, ao modo dos Kaingang. Enquanto a carne estava na brasa, circulava o chimarrão feito no porongo, sorvido com a bomba de taquara e alimentado com a água chiando na chaleira de ferro pendurada no tripé da fogueira. O churrasco era servido com pão de milho e feijão tropeiro. Para todos era oferecida uma aguardente feita de frutas fermentadas com mel e destilada ali mesmo, em alambiques de barro, criando o ambiente de descontração, que facilitou aflorar um sentimento de companheirismo e de solidariedade entre os membros da comitiva que partiria no dia seguinte rumo ao Goio-En.
Domingos Ignácio e Cortez, que sentiam a animosidade no ar, estavam isolados e pouco à vontade e não terminaram de jantar. Saíram pelo caminho que iluminavam com uma lanterna tosca sob uma lua crescente que brilhava, opaca, por trás do halo que prenunciava chuva. Domingos bebeu mais do que costumava. Estava acabrunhado e comentou com Cortez:
— Pedro, acho que o processo de Justificação contra Condá não deu certo. Este capitão Higino de Almeida, o enviado do Presidente da Província, deixou claro que apoia inteiramente a participação deste índio desgraçado na expedição do alferes Rocha Loures. Logo que chegou, me entregou pessoalmente uma carta de apresentação que lhe dá plenos poderes para requisitar tudo o que achar necessário para apoiar a expedição do alferes. Na parte que me toca, ele me mandou providenciar tudo o que eles precisassem para a expedição. Fez questão de receber uma lista do que eu já tinha providenciado e acrescentou no romaneio mais uma porção de coisas que eu deveria providenciar. Foi constrangedor. Esse capitão passou por cima de minha autoridade sem a menor cerimônia. Parece até que este desrespeito seja de caso pensado. Vosmecê deve ter visto como ele andava, de um lado para outro, confabulando com o palerma do Hermógenes.
Cortez também estava pouco à vontade.
— Claro que vi. Como não haveria de ver? Até tentei me aproximar, meio como quem não quer nada, para ouvir o que diziam, mas eles mal me viram e se afastaram acintosamente.
— Pois é. E agora, com a mudança que o governo anuncia que vai fazer nos permanentes – continuou Domingos, maneando a cabeça em sinal de desagrado –, o Hermógenes vai receber um reforço de pessoal. E fui informado que um dos permanentes dele deve seguir na comitiva para enviar notícias quinzenais da expedição do alferes. E soube que esses informes devem ser enviados diretamente a São Paulo. E o maior dos absurdos é que eu, mesmo sendo capitão-mor e a maior autoridade aqui na região, nem sei se vou ser comunicado de tudo.
Cortez concordou e fez gesto de desagrado maneando a cabeça, e completou sua opinião com ar de dúvida:
— Acho foi essa pressa de abrir o caminho para o Sul que atrapalhou tudo. E com a mudança recente da presidência da província pode até ser que esse novo presidente nem tenha lido a Justificação.
— Ler ele leu, sim. E ficou contra nós. – Respondeu Domingos. E vosmecê já sabe dos três capuchinhos que o presidente da província contratou para os Campos de Palmas?
— Não sabia. Três padres Capuchinhos? Mas por quê?
— Porque os padres chegam sob o pretexto de fazer pregações, mas vão saber tudo o que acontece lá e vão manter o governo informado, ora. E isso significa que vão atrapalhar nossos planos de retomar o controle. Outra coisa que fiquei sabendo é que o tal Capitão Higino andou comentando com gente daqui que aquele depoimento bem detalhado do Joaquim Fagundes dos Reis, o Comissário lá de Passo Fundo, na província de São Pedro, funcionou para apressar a decisão do presidente. Ele acha que a povoação de Passo Fundo já está consolidada. E de lá o caminho está aberto até Cruz Alta. Então, no trecho existente de umas 140 a 150 léguas do Campo de Palmas até Passo Fundo, é preciso só abrir uma picada, aplainar umas partes mais acidentadas e depois ir alargando com o tempo.
— E os índios? – Perguntou Cortez.
— Não sei se foi ideia do alferes mesmo ou se foi do pai dele, o velho Rocha Loures, que enfiou na cabeça do filho que deveria chamar Condá para lidar com os índios do outro lado do Rio Uruguai. Pode ser até que o capitão Higino de Almeida tenha alguma coisa a ver com isso. Pode até ser que os paulistas lá da capital tenham pensado nele depois de terem sido enganados pelo índio quando ele andou por lá e recebeu o tal prêmio que algum doido deu para ele. E, aqui entre nós, tenho minhas suspeitas que pode ter sido o próprio Condá quem mandou um bugre avisar o velho Rocha Loures para o filho dele tomar cuidado porque o cacique Nonoai estaria preparando uma emboscada do lado de lá de Goio-En. Acho uma coisa malparada e que está me cheirando mal.
— Mas será que pode ser verdade? – Quis sabe Cortez.
— Não duvido nem um pouco. – Respondeu Domingos Ignácio, levantando a voz. Nonoai é um cacique malandro e traiçoeiro que já mostrou não merecer confiança. E depois, esse assunto do caminho do Sul está em todas as conversas e algum bugre bisbilhoteiro foi alcaguetar a Nonoai. Pode ser que o Condá mesmo tenha mandado avisar. E esse Nonoai é perigoso e é capaz de tudo.
– Bem, se for verdade, o alferes ainda pode se dar mal. Pode ser que estejam mesmo preparando uma cilada para ele. Não ia ser a primeira vez. Os índios de Nonoai já emboscaram outros que tentaram entrar no território deles. Acho que o alferes está confiando demais neste Victorino Condá e na bugrada dele.
Cortez não conseguia esconder seu desapontamento. Agora torcia para que a expedição fosse mesmo atacada. Mas Domingos Ignácio, com sua maior experiência e com menos coisas em jogo, era de opinião que Cortez exagerava. Temia exatamente o contrário: que a empreitada desse certo e o alferes Rocha Loures e o cacique Condá voltassem consagrados. Seria o fim das chances de Cortez ser reconduzido ao comando do Corpo dos Policiais Permanentes de Palmas. E ele teria que engolir uma perda de prestígio e fingir que estava tudo bem, para não piorar as coisas e não perder o cargo.
Definitivamente, a presença do capitão Higino de Almeida por ali não era nada auspiciosa. O fato, reconhecia Domingos Ignácio de má vontade, é que Rocha Loures era ambicioso, estava bem-preparado e escolhera como aliado um índio que, todos sabiam, era seu amigo de infância. E, mesmo a contragosto, tinha que reconhecer que, se havia um índio capaz de fazer algum acordo com o cacique que mandava no outro lado do Uruguai, era ele, Condá. Então, para encerrar uma conversa que ia ficando desagradável, concluiu:
— Cortez, em minha opinião, acho melhor se recolher e ficar quieto por uns tempos. Até pode ser que Condá seja um dissimulado e engane os brancos como está sugerindo. Pode ser que ele seja um falso e ajude o Nonoai a armar uma cilada para o alferes. Em tudo existem incertezas e riscos, mas eu evito fazer análises com base no despeito. No que eu ponho mais fé é que Condá vai conseguir algum acordo com o Nonoai e vai abrir as portas para um entendimento dele com o alferes. Penso, aqui comigo, que se Condá quisesse mesmo armar uma cilada ele não iria deixar a gente dele ficar desavisada por aqui. E não vejo nenhuma movimentação dos índios. É só ver o respaldo que estão recebendo do presidente da província. Foi de lá que veio a ordem para que a chefia da missão ficasse com o alferes. Eu também fiquei muito surpreso. Acho que vosmecê mesmo viu que a expedição tem mais de 100 agregados, sem contar o pessoal de apoio que vai ficar fazendo a retaguarda aqui em Guarapuava. E ainda vai contar com dois engenheiros mandados da capital. Quando vosmecê abriu o caminho dos Campos de Palmas a Palmeira foi com uma penúria tremenda. Só contou com uma dúzia de agregados. Por essas e por outras, temo que, não demora, vamos ter a nova estrada. E haverá muita mudança. Vai ser mais gente passando por aqui, vão ser mais tropas indo e vindo, logo vai mudar tudo. Acho melhor nos prepararmos.
E assim, percebendo que seus esforços para retomar o comando da Companhia de Polícia Permanente de Palmas se esvaíam, os dois maquinadores recolheram-se desenxabidos e cabisbaixos. Tinham razões para temer que haviam presenciado o fim melancólico de suas aspirações. Todas as elucubrações, todas as andanças e todo o trabalho pareciam ter sido em vão. Estava mais que evidente que Condá vencera aquele round.
A expedição parte
Quando nasceu o dia seguinte, o dia da partida, a povoação estava em polvorosa. Fazia frio, o tempo estava chuvoso e o céu estava fechado. O fim de fevereiro se aproximava. O mês costumava ter dias quentes, mas, exatamente naquele dia, o tempo estava invernoso. Um pequeno grupo de habitantes seguia com os preparativos da partida. As mulas eram carregadas com as cangas e as bruacas de carga. Os cavalos relinchavam quando eram encilhados e os cascos batiam no chão. As éguas, necessárias para o “apadrinhamento” e para acalmar as mulas, estavam indóceis. As ordens e os comandos ecoavam no ar. E havia muito barulho em toda a azáfama dos membros da comitiva. Os Kaingang, em um canto da praça na frente do posto da coletoria de Guarapuava, já prontos para a marcha desde a aurora, vestidos com seus ponchos, mesmo sendo habituados a uma vida nômade, olhavam, silenciosos e circunspectos, toda aquela agitação desordenada dos fóg kupri (os não índios brancos).
Finalmente, o alferes Francisco da Rocha Loures dá a ordem de marcha. Segue cavalgando na frente. Ao seu lado estão seu irmão e o cacique Condá. O alferes dá um último aceno para a família e para os amigos e depois volta o olhar para a frente. Havia muito a andar e muito a fazer para abrir o caminho até Passo Fundo, o destino da primeira empreitada. Os retardatários, inevitáveis, ainda a pé, corriam para montar seus cavalos e acelerar para se incorporarem ao cortejo que se punha a caminho. As crianças corriam atrás da caravana fazendo seu alarido infantil, acompanhados pelos latidos dos vira-latas que corriam em volta daquele grupo de cavaleiros como se estivessem acuando algum rebanho desgarrado ou uma corça fugindo nos campos abertos.
Após quatro dias de caminhada, passaram por Palmas e, mais dois, foram chegando ao local da travessia em Goio-En. A paisagem, o majestoso cenário do vale do Rio Uruguai se estendendo por quilômetros para os dois lados do rio, estava deslumbrante. Rocha Loures decidiu passar a noite acampado ali. Queria tempo para conversar mais demoradamente com Condá e detalhar melhor um plano de ação. Enquanto os homens faziam os arranjos para o pernoite, o alferes e Condá foram se sentar em uma pedra que aflorava do terreno e que dava a ambos uma visão mais precisa da ravina do outro lado do rio.
O Alferes Rocha Loures surpreendeu Condá ao tirar da mala de garupa que levava no ombro uma luneta que trouxera de uma viagem a Santos. Era uma bela peça, feita de bronze, com três tubos que se encaixavam para fechar, e tinha um revestimento de couro na empunhadura da objetiva. Era destinada a uso náutico e fora usada por marinheiros dos veleiros ingleses para perscrutar o horizonte. Usando a luneta, que apoiou em uma forquilha improvisada para dar firmeza e evitar a trepidação, o alferes olhou em volta e fez um exame rápido das matas do outro lado do Uruguai. Não viu nada além das árvores e folhagens. Na sequência passou a luneta para Condá, mostrado como ele devia usar o visor e como aproximar a afastar os tubos para ajustar a distância.
Condá pegou o instrumento com cuidado. Admirou os adornos do revestimento e reconheceu as lentes das extremidades. Aproximou dos olhos o ocular, seguindo a orientação do alferes, e ficou assombrado com o que via. A vegetação parecia tão próxima que ele tinha a impressão de poder pegar os ramos e as flores com a mão. Ele varreu a área com vagar. Estudava cada trecho afastando e aproximando o foco. Estava já devolvendo a luneta quando deu um grito de alarme. Voltou a examinar o trecho em que vira algo que chamara sua atenção e confirmou: escondido em meio à folhagem, havia localizado um Kaingang vigiando a expedição. O índio estava bem camuflado, mas com os olhos treinados de Condá e com a ajuda da luneta era possível ver detalhes que não seriam visíveis a olho nu.
— Veja, amigo, parece que tem um índio de Nonoai escondido lá no alto, do outro lado do rio.
Condá, então, passou a luneta de volta para o alferes. Rocha Loures colocou o equipamento no olho esquerdo e fez os ajustes para tornar mais nítida a paisagem da área mostrada pelo cacique. Olhou com cuidado, mas não conseguiu visualizar nada.
— Onde está o índio? Não estou conseguindo ver nada.
– Veja naquela touceira ao lado do pinheiro mais alto. Onde estou apontando com meu dedo. O Nonoai mandou um índio tolo. Preste atenção: o arco dele está com a ponta para fora da touceira e aparecendo perto do chão.
Rocha Loures olhou novamente e, depois de duas ou três tentativas, ainda só conseguia ver um detalhe mínimo que destoava do conjunto da mata: uma ponta muito pequena do que lhe pareceu, inicialmente, um galho sem folhas. Mas Condá tinha razão. Continuando a observar, e orientado por Condá, viu que o índio se movia e a ponta do arco oscilava de forma não natural. O alferes novamente passou a luneta para Condá, que voltou a examinar a cena e observou que o índio também se dava conta de que olhavam em sua direção. Ele, sem saber se fora descoberto ou não, agora se movimentava. Saiu da cobertura da touceira onde estava e engatinhou para o topo da elevação. Em instantes acabou saindo de vista. Condá comentou:
— O espião ou foi embora ou foi procurar outro lugar para espiar. Ele está longe demais para ver os detalhes, mas deve ter visto que estávamos apontando para ele. Não sei se ele sabe o que é uma luneta, mas sabe que um braço apontado em sua direção não é um bom sinal. Ele deve ter compreendido que sabíamos que ele estava ali e deve ter deduzido que sabíamos que estava observando.
— Acho que tem razão. Acho também que aquela história sobre os preparativos de Nonoai para receber nossa comitiva com uma emboscada parece verdadeira. O que acha?
— Ainda não sei qual a real intenção do Nonoai. Mas ele não é bobo e não quer ser surpreendido. A única coisa certa é que ele sabe de nossos planos e agora sabe de nossa presença aqui.
O alferes coçou a cabeça, enquanto ponderava os fatos e perguntou a Condá:
— O que acha que devemos fazer? Existe algum perigo de sermos atacados?
— Deste lado do rio? – Condá achou graça do medo de Francisco. – Aqui eles não vão atacar de jeito nenhum. Eles são donos do terreno do lado de lá e não precisam se precipitar num ataque suicida contra um grupo bem armado como o nosso. Pior ainda, atravessando o rio e se expondo. Se Nonoai fosse um Xokleng, aquele povo de malucos, ainda poderia ser. Mas Nonoai é um Pai-Bang Kaingang. Nonoai é um chefe índio que usa a cabeça para pensar, e não para colocar cocar.
— Se acha isto, fico mais sossegado. – Respondeu Francisco, que por um momento ficou preocupado com a vulnerabilidade do grupo ali, naquela ravina.
Condá fez uma última observação usando a luneta. Talvez flagrasse mais algum espião na outra margem. Ele não tinha dúvida de que haveria mais observadores, mas não achava relevante descobrir. Não faria diferença se eram dois, cinco ou dez. Eles ficariam ali dia e noite até que a expedição fizesse algum movimento. A essa altura, já tinha uma boa ideia de como proceder no dia seguinte. Então, dirigiu-se ao alferes, enquanto devolvia a luneta:
— Gostaria de propor uma ideia. Amanhã de manhã eu coloco meu cocar e atravesso o rio no Goio-En levando alguns presentes para Nonoai. Deixo na margem e volto. Se eles vierem pegar significa que vão nos dar passagem. Também será um sinal de que estão abertas as chances para um contato com eles e com Nonoai.
Rocha Loures ficou animado:
— Pode fazer como desejar. Vosmecê há de saber melhor do que eu como abrir a porta de seu povo.
— Então vamos fazer isso. E quero começar a preparar os presentes de maneira que eles vejam do outro lado. Assim vão chamar o chefe mais graduado para ficar, ele mesmo, de olheiro.
— Até pode ser, mas não é provável. E se Nonoai estiver por perto, aí não será bom sinal.
Embora vivesse em uma área com influência dos Kaingang, Rocha Loures não sabia como proceder e não estava muito familiarizado com a melhor forma de começar um contato com um chefe indígena com quem quisesse negociar. E perguntou:
— Que presentes está imaginando que devemos dar a Nonoai?
— Precisam ser bons presentes. Nonoai já conhece os fóg e sabe quando os presentes são coisas sem valor. Espelhinhos e bugigangas ele já tem muitos. Assim, eu acho que devemos dar um cavalo com arreios e uma mula com canga e guaiaca com cobertores, roupas e ferramentas. Também devemos dar alguma comida dos brancos. Os Kaingang têm boa comida, mas gostam de variar e um pouco de charque será de muito bom agrado.
O alferes ficou espantado com a sugestão. Dar um cavalo e uma mula? Dar ferramentas ainda fazia sentido. Ele mesmo havia levado presentes para conquistar o grupo de Condá. Mas dar um cavalo assim, por nada?
— Acha que precisamos dar um cavalo e uma mula, que custa por dez cavalos, logo de início?
Condá sorriu para responder, e foi firme:
— Quanto vale a estrada? É preciso jogar com o que temos e pensar no que queremos. Temos cavalos e mulas de reserva. Não vão fazer falta. Se oferecemos um bom presente vamos dizer ao cacique Nonoai que estamos querendo negociar um bom acordo. Um acordo que seja vantajoso para os Kaingang. Ele sabe que um cavalo e uma mula têm muito valor e são preciosos para uma expedição. Ele tem já alguns cavalos e mulas. Quando ele precisa de mais ele manda uns guerreiros irem até uma tropeada e simplesmente pegar e levar alguns. Mas não vai recusar um bom cavalo ou bons presentes. Se conseguirmos acertar com Nonoai que ele nos dê passagem e, ainda melhor, se conseguirmos a ajuda dele, vamos ganhar tempo. E, quando cruzarmos o rio e entrarmos no território dele, vamos estar vulneráveis e à sua mercê. Se ele quiser tomar nossos cavalos, pode esperar a hora certa e nos pegar num momento de descuido.
Rocha Loures pensou um pouco, coçou a barba no queixo e acabou concluindo que o que Condá dizia fazia sentido:
— Acho que vosmecê está certo, Condá. Agora não é hora de regatearmos na busca de nosso objetivo. Vamos voltar ao acampamento e preparar o presente como está sugerindo. Queremos trazer Nonoai para o nosso lado a qualquer custo e, se o presente é importante para tudo dar certo, vai ficar barato no final.
O alferes foi com Condá escolher um cavalo. Mostrou ao cacique um dos mais bonitos: um potro baio, de quatro anos, recém-domado, com pelagem de tonalidade dourada, com uma bela crina e cauda pretas. O cacique concordou que aquele animal era diferenciado e seria um presente à altura de um Pai-Bang. Um corcel daqueles faria o orgulho de Nonoai, que o usaria pessoalmente.
Separaram o cavalo e o levaram para mais perto do rio, onde dois tratadores receberam ordens para escová-lo e aparar-lhe a crina. Condá pediu a lupa e foi observar a movimentação da outra margem. Viu, com satisfação, que diversos índios se movimentavam e procuravam uma posição para assistir aos cuidados com o corcel. Era um espetáculo a que não estavam habituados. Sem dúvida, aceitariam o presente em nome de Nonoai. Condá, de sua parte, estava certo de que Nonoai ficaria surpreendido e maravilhado com o presente. Estimava que o afago criaria boa vontade e facilitaria um rápido contato.
O dia seguinte amanheceu límpido e azul. Mal a aurora trouxe o sol e sua luz brilhou por sobre as colinas e iluminou os pinheirais, Condá já estava pronto para a tarefa a que se havia proposto. Colocou seu cocar de Pai-Bang coroando sua cabeça e montou seu cavalo para a travessia do Goio-En. Tomou pelas rédeas o cavalo baio encilhado, admirando o porte e a beleza daquele magnífico corcel, de passo garboso e nobreza de andadura que o seguia mansamente. Tendo a seu lado um dos seus índios de confiança que trazia a mula de carga a reboque, foram atravessar o rio. As águas estavam tranquilas e o nível do Uruguai estava raso o suficiente para permitir uma passagem com água a meio corpo. Condá foi avançando rio adentro e observando que o cavalo baio cruzava o rio com nobreza, enquanto seu pelo reluzia sob os reflexos do sol matutino. Invejou Nonoai. Aquela montaria faria o orgulho de qualquer cavaleiro e era um presente digno de um cacique.
Terminada a travessia do Goio-En, na pequena clareira do outro lado do Uruguai, Condá pegou o cavalo baio e a mula pelos cabrestos, e os prendeu em uma árvore da margem. Voltou-se para onde sabia que os índios deviam estar escondidos e apontou para os presentes, dando a entender que podiam vir buscar. Um dos Kaingang escondidos, um índio atlético, pintado com as listras do grupo dos Kamé, levantou-se, um tanto contrafeito, suspeitando ter sido descoberto. Ao reconhecer o cocar de cacique Kaingang que Condá trazia sobre a cabeça ficou mais confiante. Fez menção de descer, mas Condá não esperou que o índio se aproximasse. Não era com ele que queria conversar. Então, montou em seu cavalo, fez sinal para que seu acompanhante o seguisse e voltou a atravessar o Rio Uruguai.
Já de volta à margem Norte, foi até o acampamento logo acima, instalado em uma pequena clareira aberta da mata. Ao chegar, já viu Rocha Loures acenando freneticamente. Aproximou-se. Não entendia o que significava aquela agitação, mas apressou o passo. O alferes, com a luneta na mão, indicava o outro lado do rio. Lá quatro índios, chefiados por um de cocar mais rebuscado, certamente um rekakê-pai, ou um cacique subalterno ao cacique Nonoai, haviam descido até onde estavam os presentes. O rekakê-pai acariciava o baio e examinava os arreios e a sela lustrosa com ar de aprovação, enquanto alguns de seus índios abriam as bruacas do lombo das mulas. Condá viu, com agrado, que os índios de Nonoai se maravilhavam com o que descobriam nas malas e, obviamente, aceitaram os presentes. Era uma manifestação clara de que não havia prevenção contra a comitiva. Houvesse uma prevenção e os índios não se exporiam daquela maneira franca e desabrida. Condá deduziu que os índios levariam os presentes para Nonoai e que eles, mais adiante, criariam boa vontade para um encontro. Para o que planejava Condá, a expedição começava com o pé direito. E tudo isto o alegrava imensamente. Uma conversa de cacique para cacique era tudo o que ele precisava. Quando as coisas começam bem, o mais provável é que continuem bem.
Rocha Loures, cheio de entusiasmo pelo que testemunhava, perguntou a Condá o que significava o comportamento dos índios que estavam observando. Condá pegou a luneta e, após observar que os Kaingang estavam se retirando com os presentes que haviam recebido, deu sua opinião:
— Acho que o rekakê-pai enviado por Nonoai para nos vigiar gostou dos presentes que oferecemos. Agora ele vai levar os presentes, o cavalo e a mula encosta acima, para entregar ao cacique Nonoai. Em minha opinião, ele vai fazer isso pessoalmente para ganhar prestígio com o Pai-Bang.
– Que bom. Então acha que podemos atravessar agora?
— Não, ainda não. Vamos ver os sinais que ele nos vai enviar. Por enquanto, acho melhor nem tentar. – Foi o que aconselhou Condá.
— Mas que sinais ele poderia nos enviar? – Quis saber o Alferes.
— Vamos aguardar e ver. Ele poderá enviar um mensageiro, mas acho que não fará isso. Ao menos por ora. Vamos manter o acampamento e esperar aqui mais um ou dois dias, para dar tempo a que ele nos indique suas intenções.
— E se ele não se manifestar em dois dias?
— Nesse caso vamos seguir nossos planos para abrir a trilha e, enquanto isso, vamos manter vigilância. Penso que não vamos ser atacados. Os índios de Nonoai sabem que vou estar na comitiva com meu grupo de índios, que, aliás, são muito respeitados por todos os grupos Kaingang porque são guerreiros que sabem combater como os brancos, sabem montar e usar armas de fogo. E os índios de Nonoai sabem que teriam poucas chances de vencer nosso grupo e mais os soldados da comitiva. Eles têm algumas armas de fogo, mas não sabem usá-las direito. E nem pensam em nos enfrentar só com arcos, flechas e tacapes. Uma coisa é emboscar um ou dois alvos isolados e no meio da mata. Oura coisa é atacar uma comitiva poderosa e bem armada como a nossa. É preciso lembrar que nenhum dos índios de Nonoai vai decidir um ataque sem que seu Pai-Bang aprove. Portanto, acredito que ele vai enviar algum sinal e esperar um contato.
— Mas, então, o que ganhamos com os presentes? – Quis saber o Alferes.
— Ganhamos uma licença para atravessarmos o Goio-En sem sermos emboscados. Eles vão nos deixar atravessar o Rio Uruguai sem sermos atacados. Eles sabem que é isso o que queremos. Se aceitaram os presentes é porque, por ora, não pensam em atacar. Já não é uma boa vantagem?
— Sim, acho que é. Mas vosmecê é que sabe. É por isso que preciso de ti aqui. Exatamente para me ajudar a decidir sobre como conduzir a abordagem com os índios e a conversa com Nonoai. Eu confio em ti. Mas, na sua opinião, realmente podemos avançar sem receio?
— Sempre é bom acreditar desconfiando. Eu brinco sempre que tenho três olhos e durmo com um fechado e dois abertos. Sempre existem rekakê-pai rebeldes e índios renegados. Na tribo do grande Pai-Bang, o cacique Nonoai fica atento com índio criador de problema. Ainda assim, é pelos índios que se conhece o Pai-Bang. O cacique Nonoai corta as asas de índios rebeldes. Índio rebelde é índio cabeçudo. Igual a branco cabeçudo, pensa que sabe tudo, mas no fundo não sabe nada. O cacique Nonoai exige lealdade de seu grupo. Nenhum de seus homens fiéis vai fazer nada que possa desgostar o chefe. Assim como nenhum dos meus índios faz alguma coisa que seja contra minha vontade. Mas índio rebelde, quando é expulso da tribo, vira índio desgarrado. Por isso devemos ficar atentos. Além disso, não custa lembrar que o perigo na mata pode vir também dos farrapos fugidos, de escravos escapados durante a revolução e até de bugreiros e bandidos brancos.
O alferes concordou:
— Sim, é verdade. Tem toda a razão. Cuidado e água benta não fazem mal a ninguém. Temos que ser vigilantes, seguir o mandamento de que grupo unido é grupo seguro. Mas, de minha parte, sabendo que me ajuda ao dormir com os dois olhos abertos na ameaça dos índios, já fico mais tranquilo.
O alferes confiava nas competências de Condá. Seu instinto treinado e seu extraordinário sexto sentido o faziam indispensável. Já tivera mais de uma comprovação de como seu espírito atilado e seu sempre vigilante instinto de sobrevivência o haviam safado de situações de alto risco. Não conhecia ninguém que rivalizasse com a sua astúcia ou com a sua capacidade de detectar ameaças e antecipar perigos.
O alferes Rocha Loures se divertia em saber que alguns brancos e, mesmo, índios, achavam que Condá, que nos Campos de Palmas e Guarapuava ora aparecia, ora desaparecia, parecia estar sempre por perto nos momentos certos, mesmo nos lugares menos esperados e por isso seria dotado de poderes mágicos. Todo mundo, naquelas plagas, sabia que seus inimigos tiveram frustradas diversas tentativas de eliminá-lo. Haviam tentado apanhá-lo em emboscadas e fazê-lo cair em armadilhas, mas ele continuava ileso e impávido. Havia decidido ser um vencedor, um guerreiro, um cacique que não faltaria a seu povo. Por isso se sabia um alvo permanente. Sabia que desafiava probabilidades e era só por se antecipar aos riscos que sobrevivia às batalhas cotidianas. Sabia que o rancor, a desforra e a vingança eram maus conselheiros. Aceitar provocações era fazer o jogo do inimigo. Daí que não se deixava apequenar pelo ódio ou afoitar-se pela ânsia da vindicta. E agora, que se tornava uma lenda para seu povo, só temia se deixar aprisionar por taipas criadas por sua mente. Contudo, exercitava todo o dia a arte da sobrevivência. A cada dia, sistematicamente, revisava os acontecimentos e procurava o significado das coisas, dos gestos e das palavras. Seu segredo para escapar da sanha de seus inimigos era a consciência de que vivia sob risco permanente e, por esse motivo, o preço da sobrevivência era a eterna vigilância.
Condá não baixava a guarda, não se deixava enganar pelas aparências e desconfiava de tudo. Aprendera que identificar os riscos dissimulados e decifrar o oculto era condição para manter-se vivo. Daí que ficava atento a quaisquer sinais que significassem ameaças. Gostava de dizer que não pisava em graveto antes de certificar-se de que não era cobra. Definitivamente, Condá não tinha vocação para ser vítima desavisada. Havia crescido em um ambiente perigoso e hostil aos índios. Tinha visto muitos de sua tribo serem mortos sem motivo ou por bugreiros que os atacavam de forma covarde e traiçoeira. Também viu com que desfaçatez muitos brancos enganavam a ingenuidade dos índios. E assim, enquanto crescia, tornou-se um observador atento e aguçou seu senso de observação a ponto de perceber sinais que ninguém mais via. Agora, naquele momento de grande importância, ainda que o alferes preferisse agir com pressa e tentar logo um contato com Nonoai, Condá preferia evitar que uma precipitação ou improvisação levasse a um mal-entendido ou a um impasse. Preferia agir com cautela para que, ao obter um entendimento, esse fosse sólido e duradouro.
Naquela tarde, o Rocha Loures e Condá se sentaram novamente em meio a algumas pedras da ravina onde estavam acampados e, usando a luneta, perscrutaram novamente o outro lado do rio. O alferes examinou as touceiras e os lugares onde índios pudessem estar vigiando e observando os movimentos do seu pessoal. Mas nada conseguiu ver de diferente. Condá, entretanto, não demorou para identificar mais dois possíveis espiões. Riu abertamente da forma canhestra como se portavam. Passou a luneta de volta para Rocha Loures e deu as referências de onde se encontravam os dois índios que havia percebido.
— Preste atenção na crista das folhagens daquele arbusto ao lado da pedra grande.
O alferes procurou observar com mais atenção, mas ainda não conseguia ver nada que sobressaísse ou destoasse do ambiente. Condá maneou a cabeça divertido. Aí explicou, com certo humor, apontando para o arbusto que parecia se mover mesmo sem vento:
— Olhe para além do arbusto. Procure ver o que possa estar atrás dele. Veja o reflexo da luz brilhando com tons vermelhos, amarelos e azuis por entre os ramos do arbusto. Aquelas não são cores naturais. Seria um arco-íris nascendo no meio de um alecrim? Nunca vi nada parecido. Então aquilo ou é um papagaio-da-serra ou um índio de cocar. Como papagaio não se esconde em alecrim, só pode ser um rekaké de Nonoai. Mas é bom sinal. Aceitaram nossos presentes, que já devem estar a caminho do toldo de Nonoai. Garanto que se quisessem nos atacar não viriam espionar nosso grupo com cocares coloridos de encantar moça. Viriam, sim, mas com os corpos pintados de guerra e com arcos, flechas e armas de ataque. Agora estou mais sossegado. Amanhã, logo cedo, podemos atravessar o Goio-En e começar nossa empreitada.
Levantaram-se e seguiram para as barracas do acampamento. Tinham ainda de revisar as ferramentas e checar se estava tudo em ordem. Ao chegarem viram que o pessoal do acampamento estava afiando e passando óleo nas ferramentas arrumadas no solo, estendidas sobre estrados trançados de taquara. O alferes e Condá se puseram a examinar os conjuntos de diferentes peças e ferramentas que estavam sendo preparados para a abertura da trilha. Revisar e afiar as ferramentas era tarefa da maior importância. Ferramentas ajustadas e afiadas, além de facilitarem o trabalho, o que certamente fazem, são menos perigosas quando utilizadas corretamente. A faca sem fio pode escapar em vez de cortar. Um machado mal afiado pode resvalar na madeira e machucar quem o usa. Uma picareta frouxa no cabo pode soltar-se e atingir outras pessoas.
Condá observava maravilhado aquelas conquistas da civilização dos brancos. Seu povo vivera feliz durante centenas de anos com apenas algumas pontas de pedra e alguns raspadores de osso de macaco ou veado. É verdade que, mesmo com suas ferramentas toscas e primitivas, suas técnicas permitiam fazer armas letais e arcos maravilhosos. As flechas Kaingang eram certeiras e seus tacapes, mortais. Graças às suas armas e à destreza no seu uso, os Kaingang eram temidos por outras tribos e até mesmo os bandeirantes evitavam as matas onde habitavam. Venceram muitas refregas e guerras tribais e durante centenas de anos defenderam sua terra e seu povo se valendo das tecnologias simples que dominavam. Além das técnicas que usavam para fazer suas armas de guerra e de caça, tinham conhecimentos de cestaria e cerâmica para fazerem seu dia a dia mais funcional e confortável. As mulheres Kaingang eram habilidosas na feitura de cestas, balaios e tuias. Sua cestaria de taquara e de outras fibras era usada também para fazer armadilhas de caça e pesca. Até convertiam cestas em vasilhas para armazenar água calafetando-as com cera de abelhas.
As artesãs Kaingang aplicavam desenhos e grafismo nas cestas e tecidos, adotando cores e formas que seguiam modelos imemoriais de estética e simbolismo. No grafismo, representavam os espíritos de Kamé e Kayru, com a intenção de lembrá-los no mundo das coisas materiais. De modo que os símbolos das dualidades da tribo estavam visíveis na cestaria, nos utensílios, nas armas e em objetos do dia a dia. A simbologia dos desenhos era chamada de kong gar. A metade Kamé era representada com formas abertas, chamadas téi, que se caracterizavam pelo traçado reto e aberto. A metade Kayru era representada pelos ror, cuja característica era terem formato fechado, podendo ser anéis ou quadrados fechados. Eventualmente, alguns desenhos se apresentavam neutros e tinham elementos das duas marcas, fazendo combinações que recebiam o nome de ianhiá, que significa “marca misturada”.
Mas, diferentemente das peças do artesanato de sua tribo, Condá acreditava que as ferramentas dos fóg tinham mágica. Cavavam, cortavam, torciam, plantavam, colhiam e, por ajudarem a dominar a natureza, se convertiam em instrumentos de poder e domínio. Com elas, os brancos transformavam as árvores em casas e construções; aravam a terra e colhiam alimentos em quantidade; com seus machados, derrubavam árvores e faziam grandes barcos que navegavam pelos mares do mundo, enfim, faziam coisas que o índio não conseguia com pedras cortantes ou ossos de macaco. A capacidade de arar para plantar e produzir alimentos matava a fome e criava supremacia e, novamente, poder. Condá tinha grande respeito pela pólvora e pelas armas de fogo, invenções temíveis e mortais e sobre cujo poder não tinha dúvida, mas – pensava –, ainda que fossem letais, eram menos perigosas, para os Kaingang, do que as ferramentas. As armas apenas matavam. Condá entendia que matar apenas eliminava as pessoas, enquanto as ferramentas as dominavam. Os mortos, depois de mortos, para nada mais serviam. As ferramentas, por outro lado, subjugavam os vivos. E esse era um destino pior do que a morte. Eram os vivos que eram submetidos e dominados. O que Condá percebia é que as ferramentas possibilitavam cultivar a terra, produzir abundância e desenvolver um mundo onde quem produzia subjugava quem não produzia. Quem produzia adquiria força, reunia aliados e se tornava o dono. E quem nada produzia ficava impotente para defender sua liberdade e proteger seu espaço. Assim o mundo se dividia entre os que produzem e dominam e os ignaros que nada produzem e acabam subjugados.
O doloroso, para Condá, que tudo via e testemunhava, é que sua tribo estava no lado dos que não tinham o poder dos que produziam. Eles tinham grande conhecimento das matas e usaram esses conhecimentos durante muito tempo. Mantiveram os brancos afastados de suas matas e causaram a derrota final do general Labatut. Tinham, porém, chegado ao seu limite. Os brancos, que sabiam utilizar as ferramentas e produziam com elas mais que os índios, empregavam seu poder para se apossar e cercar a terra que tomavam para produzir. Produzir na lavoura exigia um ciclo de tempo para lavrar, plantar e colher. E na terra que os brancos plantavam não era permitido que os índios dela tivessem o desfrute. Então, com o aumento das terras de cultivo, o espaço dos índios ia sendo reduzido.
As matas nativas, onde os Kaingang podiam catar o pinhão, caçar e pescar, iam ficando cada vez menores. No mundo dos índios, as amplas matas eram livres e os espaços eram francos e abertos. No mundo dos brancos, as matas eram derrubadas e tudo era cercado e vigiado. Os brancos diziam que era preciso cercar a terra para proteger o plantio do trabalho de quem arou e plantou. Mas na terra cercada não havia lugar para o índio. E, como os brancos iam cercando toda a terra, os índios iam ficando desprovidos de terra e de meios para viver. Estavam sendo asfixiados. Não tinham mais onde morar e eram privados de tudo.
Na nova organização dos brancos, o índio não tinha como obter os alimentos dados pela natureza. O índio era afastado do acesso à água e até tolhido na liberdade de ir e vir. Esse mundo de cercas e cercados era como uma gaiola que prendia os Kaingang. O cacique Condá padecia na angústia de saber que seu povo tinha poucas alternativas. Havia que encarar a transformação da realidade, estudá-la, entendê-la e aprender a lidar com ela. Era preciso sobreviver. Com amargura, lastimava que a chegada dos brancos o havia aprisionado em uma armadilha implacável. E, descartando a hipótese de uma guerra suicida, a única saída para os Kaingang era aprender o jogo da sobrevivência. Era imperativo entender a nova realidade e aprender a jogar conforme suas regras. Era preciso ter a humildade de aceitar o novo mundo, como se Kamé e Kayru tivessem, eles mesmos, voltado para refazer sua obra de criação.
Diante daquelas circunspecções, o cacique já tinha se conformado com os fatos. Não iria contrariar a sina inelutável que seu povo enfrentava com atos insensatos ou gestos impensados. Desafiar o que Deus lhe reservava poderia atrair a condenação de seus antepassados. Eles, em seu tempo, também tinham superado grandes adversidades e haviam sobrevivido. Então era preciso ter fé, ter coragem e seguir em frente. Removendo as pedras do caminho. Vivendo um dia de cada vez. Talvez aquelas mesmas ferramentas de ferro que davam poder aos fóg e que agora iriam abrir o novo caminho para as Missões poderiam ser também ferramentas dos Kaingang para dar ao seu povo condições de sobrevivência. Sua tarefa passava a ser descobrir como seu povo poderia aprender a usá-las e se valer delas para conseguir domar a natureza e fazer, com elas, as mesmas proezas que os fóg.
Os índios também podiam trabalhar a terra, arar, plantar e colher, dela recebendo os mesmos frutos e a mesma retribuição do trabalho que os fóg recebiam. Tirando proveito delas, os Kaingang podiam também almejar fartura, vida melhor e destino mais promissor. Entendia ser natural que os índios tivessem justificada revolta por serem tirados de suas terras e tivessem angústia e sofrimento ante as brumas do futuro. Talvez seu povo fosse posto à prova e precisasse de bravura e resiliência. Mas, se os Kaingang sobrevivessem como nação, teriam vencido a grande prova de seu tempo. Teriam honrado seus antepassados. E ainda que tivessem de lutar por 50, ou por 100 anos, para sobreviverem com honra, ainda era só um piscar de olhos para um povo que vagava pelos pinheirais por muitas centenas de anos.
Condá, no íntimo, sentia que havia sido chamado. A liderança que descobria estar sobre seus ombros era mais um fardo do que uma alegria. Os dias de amena despreocupação ficaram no passado. Por algum desígnio que não compreendia, seu povo o tomava como o guia. O irmão mais sábio, o condutor em quem podia-se depositar esperança. Não, Condá não se achava o mais sábio. Apenas constatava como fato ser o cacique a que todos buscavam e em quem todos confiavam. Como o pássaro que voa na vanguarda do bando e descobre que tem o encargo mais pesado, ele estava cada vez mais imbuído de que havia recebido uma missão. Missão que ele nunca pedira nem desejara, mas que iria cumprir com todas as suas forças. Se era seu destino, aceitaria com coragem e determinação.
Após buscar a orientação de seus antepassados decidiu que, ao invés de odiar os fóg, ou mesmo invejá-los, o que seria inútil perda de tempo e energia, iria aprender com eles. Queria entender como pensavam, como viviam, como sentiam e, no campo prático, como agiam no dia a dia, como faziam suas casas, como aravam os campos, como usavam suas ferramentas. Queria descobrir como faziam os carros de transporte, os barcos que levavam mercadorias pelos rios, as armas com que atacavam e se defendiam. Sonhava navegar com aqueles navios assombrosos que havia visto em Santos. Talvez ele, talvez seus filhos, pudessem um dia viajar pelo mar oceano, aquele mar imenso. Singrar no mar que tinha tanta água que chegava até onde alcançava a vista e, diziam os marinheiros, continuava depois dela, por muitas léguas, por muitas luas, até chegar ao outro lado do mar oceano, até a terra longínqua de onde tinham vindo os fóg.
Agora que Condá estava familiarizado com as ferramentas dos brancos, ele as admirava, como acreditava que Kamé e Kayru as teriam admirado. E era necessário que o povo Kaingang passasse a usá-las para transformar seu mundo como os fóg transformaram o deles. E seu povo estava aprendendo o seu uso e as crianças de sua tribo já as usavam com habilidade e destreza. Mas, naquele instante, ainda pasmo pelo que via, reconheceu para si mesmo que ele nunca havia visto tantos e tão maravilhosos artefatos reunidos em coleção tão grande. Frente a seus olhos, em esteiras no chão, haviam sido cuidadosamente arrumadas as ferramentas. Em uma das esteiras estavam aquelas destinadas a escavar, cavoucar, carpir e aplainar. Eram pás, picaretas, enxadas e marretas. Todas forjadas e feitas de ferro e aço. Os cabos eram de guatambu, madeira devidamente assada na brasa para ganhar resistência e flexibilidade. Essas eram as ferramentas para aplainar o terreno.
Em outra esteira estavam as alavancas e pés de cabra, que serviram para afastar pedras e para deslocar afloramentos de material rochoso. Eram feitas de aço forjado e mostravam ser sólidas e resistentes para suportar os esforços a que seriam submetidas. Para deslocar e puxar pedras grandes demais para serem levantadas a mão havia os guinchos, ganchos, cintos, cabos, roldanas e polias. E as argolas para facilitar o arrasto pelos homens e pelos animais. Ainda havia as ferramentas para bater e martelar e para quebrar as pedras, como marretas, ponteiras, talhadeiras, cinzéis, brocas, cunhas e marteletes. Também estavam separadas caixas com as fitas e bandeirinhas que iriam ser usadas para demarcar o caminho.
Ferramentas próprias para limpar a mata e aquelas para corte e poda, destinadas a cortar a vegetação, árvores e arbustos, estavam reunidas em outra esteira. Facões e foices que cortavam o mato e a vegetação do caminho. As serras traçadoras, com dois punhos, serviam para cortar árvores maiores; serras de arco com dois punhos permitiam trabalhar a madeira e cortar árvores menores; serrotes ajudavam a serrar galhos e madeira fina. Para transportar e movimentar o material durante a obra, especialmente as pedras e os cascalhos, havia os carrinhos de mão, as caixas com alças, sacos de lona, cestos, ganchos e baldes.
Finalmente, havia incontáveis ferramentas leves de uso geral, como alicates, torqueses, tesouras, grampos, limas, aplanadores, chaves e mais uma porção de miscelâneas, além dos metros, das trenas e das ferramentas de medição. E ainda havia instrumentos que Condá nunca tinha visto e não conhecia, como medidores de nível e de inclinação, uma bússola protegida com revestimento de couro e até robustos arreios para usar a força dos animais para tracionar árvores e pedras para fora do caminho, quando necessário.
Condá examinou aquele arsenal de abrir caminhos com fascinação e agrado. Ajudou no processo de azeitar as ferramentas e ficou ao lado dos engenheiros, que recém-haviam chegado, até o final da tarde, quando todas as ferramentas estavam revisadas e acomodadas nas caixas de carga que seriam levadas pelas mulas. Finda a preparação geral, o grande cacique estava alegre e otimista. Sentimento que compartilhava com o alferes Rocha Loures. Ambos se compraziam em participar dos preparativos, tinham o gosto da aventura e compartilhavam a vontade da conquista. E, como a aventura os seduzia, tinham como certo que ainda a teriam em muita monta antes de completarem a missão a que se lançavam.
Cruzando o Goio-En
A travessia do Rio Uruguai no Goio-En, quando o passo estava raso ou com água até a altura do rabo dos animais, não exigiria cuidados especiais. Era coisa que um cavalo treinado fazia sem precisar de manejo das rédeas. Mas atravessar com mulas de carga carregadas era sempre um risco. A buraqueira submersa, assim como qualquer imprevisto da travessia podia ter consequências ruinosas e acarretar prejuízo de monta. Por essa razão, qualquer travessia demandava planejamento e execução meticulosa. Um dos cuidados era, antes de começar a passagem dos animais cargueiros, amarrar uma corda-guia entre as duas margens do rio. Em caso de um passo em falso ou de necessidade de apoio, aquela corda seria usada para ajudar os animais a se manterem no curso e para levantá-los, caso caíssem.
Do lado Norte, o lado direito do Uruguai, havia trilhas que serpenteavam morro abaixo em caminhos utilizados com alguma frequência para acesso ao rio. Assim, chegar até ele não era problema. Por isso a comitiva desceu a pé. Condá foi na frente e o alferes Rocha Loures o seguiu. A passagem do rio, igualmente, foi feita com os cavalos apeados. Os cavalos e mulas sendo conduzidos a mão para a travessia. A passagem se deu com os cavalos e mulas com água abaixo da altura do rabo, sendo que a tarefa com as mulas carregadas foi mais crítica. A altura das malas e bruacas precisava ser suficiente para que cruzassem o rio sem que se encharcassem de água. Por isso, algumas bruacas, as maiores e as de conteúdo mais sensível, cruzaram em barcos de couro, arrastados por mulas.
Uma vez do outro lado, o alferes exultava. Se dúvida ainda tivesse, agora não tinha mais nenhuma. A passagem do Uruguai pelo Goio-En era significativamente melhor e mais segura do que a do Rio Pelotas, mais a Leste, no Passo de Santa Vitória, na região de Lages. Mais rasa e com águas mais calmas, salvo em período de cheias, era uma opção que conquistaria muitos tropeiros e muitas comitivas de negociantes. Ele mesmo já havia atravessado por lá, no Rio Pelotas, e tinha base para comparar. Daí a certeza de que, se fizessem um caminho seguro, mais bem aplainado, com boas paradas e invernadas, e conseguissem estabelecer um armistício com os índios, nada deteria o progresso das regiões que margeavam o Novo Caminho das Missões. As tropeadas encheriam as trilhas com as mulas buliçosas e as novas fronteiras dos Campos de Palmas, Guarapuava e, mais adiante, Palmeira conheceriam um progresso prodigioso. Olhou em volta e viu sua gente atarefada preparando o acampamento e foi tomado de uma certeza: aquela era sua chance. Haveria de deixar sua marca naquele novo caminho.
Vencida sem resistências aquela emblemática travessia, precisavam organizar as atividades para iniciarem, de fato, a construção do caminho. O plano a ser seguido foi discutido entre o alferes, Condá e os responsáveis pelo planejamento e engenharia da abertura do caminho. Os mapas que haviam sido trazidos pelos técnicos do governo da província eram de pouca utilidade. Eram precários, pouco detalhados e nada confiáveis, mas ajudavam no entendimento do quadro geral da geografia da região e a definir uma rota. Depois de cruzado o Goio-En, subiriam na direção ao Vale do Dourado e dos Campos do Erechim, e depois seguiriam no rumo da povoação de Passo Fundo. Não era a rota mais curta, mas a mais segura e, dadas as circunstâncias, a mais conveniente. Era a menos acidentada e aquela que, Condá acreditava, seria a menos suscetível de ser atacada, até por ser menos povoada pelos Kaingang. O toldo de Nonoai e a maioria de seus guerreiros ocupavam áreas mais a Oeste. Depois de alcançarem Passo Fundo, teriam vencido o trecho mais difícil. Dali em diante encontrariam a estrada já consolidada no rumo de Cruz Alta.
Construir uma estrada, mesmo que pouco mais do que uma picada, naquela região de terreno íngreme e matas que se alternavam com clareiras exigia um tanto de engenharia e um tanto de arte. O alferes tinha conhecimentos básicos sobre os caminhos nas matas. Mas declividade, drenagem e técnicas construtivas não eram sua especialidade. Por isso, fazer um caminho permanente para o tráfego de comitiva de animais requeria a participação de construtores experientes. Essa a razão da equipe de construção precisar da colaboração de engenheiros qualificados. Era necessário conhecimento técnico para orientar o planejamento e a implantação da nova via. A colaboração de Condá também era de grande importância. O Pai-Bang tinha o conhecimento de quem vivia e vagava naquelas matas e sabia, pela vivência, quais soluções dariam certo e as que não dariam.
Na construção do caminho por aquelas matas a maior dificuldade a ser enfrentada era superar a aclividade do primeiro trecho. Em todo o percurso inicial seria preciso vencer morros e transpor os obstáculos que se sucediam. Os engenheiros, o “mapista” e os topógrafos teriam muito trabalho nessa fase. Ainda que o relevo não se apresentasse particularmente acidentado, apesar de íngreme, precisavam lembrar sempre que as mulas subiriam ali carregadas. As mulas cargueiras, frequentemente, levariam peso de 100 quilos ou mais no lombo. Então a trilha deveria ser adequadamente plana e livre de obstáculos. Uma mula de carga que caísse e quebrasse uma perna, por exemplo, teria de ser sacrificada e era uma mula a menos e um grande prejuízo, já que seu valor equivalia ao de 30 vacas. E, ainda mais, a mula perdida acarretaria uma sobrecarga adicional para as outras restantes, que deveriam carregar parte do peso antes levado pela mula sacrificada.
Para o alferes e sua equipe, o desafio de fazer um caminho viável significava equilibrar as diversas possibilidades e compatibilizar os requisitos frequentemente conflitantes, para que a jornada não se convertesse em um calvário. Ademais, a inclinação das encostas influenciava no trajeto. Menor distância significava ângulo de subida mais inclinado. Entretanto, ângulo de subida muito acentuado significava subida mais penosa e arriscada, tanto para os homens quanto para os animais. A solução era negociar a subida serpenteando a encosta, dando voltas para que se tornassem menos inclinadas. Mais do que um quebra-cabeça, tratava-se, para os engenheiros, de um penoso exercício de avaliação sobre as vantagens e desvantagens do traçado de cada trecho a ser implantado.
Outro ponto de preocupação era que, sendo aquela uma região com longos períodos de chuvas durante o ano, especialmente na primavera, a boa drenagem se apresentava como fundamental para assegurar que o caminho se mantivesse trafegável. Água escorrendo sem controle era a maior inimiga de uma trilha. Quando um caminho era mal planejado, a primeira chuva abundante, a primeira enxurrada com força erosiva, acabava com todo o trabalho feito. Água correndo solta criava veios e sulcava a superfície da trilha, solapando as estruturas de suporte e arrastando a terra solta em seu caminho morro abaixo. Logicamente, o tamanho do estrago dependia da quantidade de água e da velocidade com que fluía em seu deslocamento. Uma boa trilha era tão boa quanto sua drenagem. Era tão boa quanto sua capacidade de resistir às enxurradas e manter-se íntegra apesar do poder destrutivo das águas em aluvião. Em síntese, uma boa trilha era tão boa quanto a qualidade de vazão da água de escape e a proteção da via central do tráfego.
Interessado nas técnicas da construção da estrada, Condá foi indagar dos engenheiros sobre quais os segredos para construir uma boa trilha. Alarico, um dos engenheiros da obra, explicou que era preciso incluir no trajeto frequentes inversões de declividade e assegurar um bom caimento para fora do piso. Para fazer um bom projeto, era preciso saber quanto de chuva tenderia a cair sobre a trilha. E quando e como se dão as chuvas predominantes. A ação da chuva alcança primeiro as plantas, que sorvem seu quinhão e depois, com a saturação da vegetação e do solo, a água forma torrentes, seguindo ou abrindo um caminho para continuar a escoar encosta abaixo. Em razão da capacidade erodente da água, uma boa trilha de encosta precisa prever que a água de enxurrada deve ter um meio de escoar sem passar por sobre o leito de tráfego. Como explicou Alarico, a maneira de garantir um bom escoamento é fazer a trilha acompanhar a curvatura natural da encosta e estar bem encaixada nos acidentes do terreno, com declividades que não passem de 10%.
Esta declividade é também muito importante para que os animais de carga possam subir e descer sem cansar demais. Um sobe e desce com grandes inclinações obrigaria o tropeiro a carregar menos sobre os animais cargueiros e a deixá-los descansar mais tempo. Sendo possível, era preferível alongar o caminho a ter subidas e descidas muito inclinadas. Cada parada para descanso dos animais quebrava o ritmo da marcha e exigia descarregar as bruacas. As trilhas na chuva, com o piso escorregadio e inclinado, aumentavam o risco de acidentes, escorregões e quedas. Especialmente de animais não ferrados. Daí que uma boa trilha tem de ser planejada e construída para que a marcha se dê com firmeza, mesmo sob chuva. Para evitar ser instável e escorregadia é preciso, ainda, colocar uma cama de cascalho ou pedras no leito de tráfego. As pedras ajudam a segurar o solo e a garantir firmeza na passagem de grandes comitivas.
Tudo isso estava sendo considerado nos preparativos da abertura do novo caminho. O moral estava alto e havia um grande entusiasmo. Todos compartilhavam com o alferes Rocha Loures e o cacique Condá o orgulho da missão que haviam recebido. Fazer uma nova estrada era tão sagrado quanto construir uma igreja, era fazer algo perene, que perduraria por gerações. Então todos queriam fazer o melhor que podiam com os meios que dispunham. A nova rota seria não apenas mais curta, mas ofereceria uma alternativa mais conveniente e, sobretudo, mais inteligente para as tropas vindas das Missões. Seguir pela nova passagem do Goio-En deveria ser enveredar por uma nova senda de oportunidades, usufruindo de facilidades e lucratividade diferenciadas em relação à mais longa e perigosa rota pelos Campos de Vacaria. Afora o fato de, por ser menos concorrido, poderia oferecer melhores invernadas, melhores pastagens, melhores condições de tráfego, além de menores pedágios e impostos. O caminho do Goio-En seria, em síntese, a ligação paulista direta para conectar a região produtora de muares do Sul, do Uruguai e da Argentina com o mercado de Sorocaba. Era também evidente para todos que seria caminho de desenvolvimento de uma vasta região ainda inexplorada, porém de potencial ilimitado.
Tudo pronto, o primeiro passo foi reunir todos à frente do acampamento para detalhar o planejamento e coordenar o trabalho. O alferes Rocha Loures iniciou a reunião:
— Senhores, sabemos todos que uma boa trilha não nasce pronta. Às vezes até temos essa impressão quando encontramos uma trilha que parece ter nascido junto com a natureza. Que parece ter sido obra dos anjos. Mas essa impressão é ilusória. Quase sempre aquela perfeição aparente esconde muito trabalho em reconhecimento, em projeto, em construção e manutenção. Agora é a nossa vez. Estamos partindo para fazermos uma trilha. Para fazermos um caminho. Desafio os senhores a fazer uma estrada que também dê a impressão de que nasceu pronta. Que nasceu com a natureza. Esta será a prova que vamos deixar de nossa habilidade como construtores.
Fez uma pausa para medir o efeito de suas palavras, e continuou:
— Por este caminho deverão passar muitas tropas, muitas comitivas e rebanhos. Por aqui, pelo Goio-En, deverá passar muita riqueza. E por aqui vai passar o futuro de nossa região, de nossa gente, da província paulista e da província do Rio Grande do Sul. Por este caminho vai passar o futuro de nossas famílias e o futuro de nossos filhos.
Então dirigiu-se a Condá e seus índios, que estavam agrupados em uma das pontas da área:
— Meu dileto amigo Condá, quero agradecer a vosmecê, que se criou comigo e que tenho como um irmão, e aos seus valorosos Kaingang pela ajuda que vão nos dar para fazer deste caminho uma realidade. Espero que nos ajudem a mostrar aos seus irmãos que eles também têm muito a ganhar. Que este caminho também será aberto para que os Kaingang possam receber os benefícios que o progresso vai trazer para todos. Que todos nós, brancos e índios, podemos nos entender, compartilhar o progresso e viver em paz. Agora, o que temos a fazer é nos empenharmos e juntarmos nossos esforços para cumprir a missão que temos pela frente. Condá, conto contigo e com cada um dos índios de seu grupo.
Em seguida, dirigiu-se a todo o grupo:
— Caros engenheiros, técnicos e trabalhadores que me acompanham nesta empreitada. O nosso criador nos delegou a tarefa de continuarmos sua obra de criação. Quando fazemos uma obra neste mundo de Deus estamos obedecendo ao que Ele nos mandou fazer nesta terra. Por isso, estou certo de que posso contar com o melhor de cada um. E que Deus nos abençoe.
O grupo festejou a exortação com aplausos e se dispersou, cada um foi para seu lado a fim de começar o trabalho. A equipe dos tropeiros havia descido as bruacas do lombo das mulas. Delas os balizadores pegaram suas ferramentas e saíram para marcar a primeira rota da trilha. Os instrumentos que tinham para balizar incluíam um clinômetro – uma espécie de régua circular, dotada de um pêndulo, que serve para medir a inclinação da estrada – e uma bússola. Para marcar a trilha, a equipe ia abrindo passagem com facões e sinalizava o caminho com as bandeirinhas coloridas. Essa marcação inicial permitia ir ajustando a inclinação e o percurso de modo a facilitar o trabalho do corte primário que se destinava a retirar a vegetação usando foices, machados, chibancas, enxadas e ancinhos.
Depois da demarcação vinha o trabalho mais pesado de construção propriamente dito. Para aplainar o terreno, a equipe usava alavancas, picaretas, pás, enxadas e enxadões. Para fazer a terraplanagem e formar o caminho, era preciso remover as pedras, tarefa que ficava com uma equipe especializada e com seus muares, que também arrastavam cargas de terra em pranchas de madeira sobre roletes para remover material ou arrastavam as pranchas diretamente sobre a terra fofa para compactar o solo. O trabalho dos muares era tanto que alguns de seus encarregados brincavam dizendo que metade da estrada se devia às mulas sem cabeça.
Em meio à toda aquela azáfama Condá vivia um encantamento quase infantil. A movimentação da equipe de construção, que trabalhava como uma máquina bem azeitada, avançando sobre a encosta, retirando pedras do caminho, recortando taludes e formando a trilha, era algo que o fazia pensar sobre como Kamé e Kayru teriam feito o mundo. Se tivessem contado com os engenheiros dos brancos o mundo teria menos morros e mais remansos. Mas, conformava-se. Ele havia sido batizado na igreja católica, ainda em Guarapuava, e havia sido ensinado sobre a Trindade e sobre o Deus único dos cristãos. Condá acreditava que, sim, o Deus dos brancos tinha feito as estrelas e criado o universo, mas os ensinamentos de seus antepassados o faziam pensar que Kamé e Kayru tinham sua parte na criação do mundo.
O Deus dos brancos era muito poderoso, mas vivia no céu e no meio das estrelas. Ali, nas matas de pinheiro, Kamé e Kayru eram os senhores. Os dois irmãos eram os reais artífices daquela terra que agora tinha as entranhas sendo abertas pelas ferramentas de ferro que admirava. Aquela terra generosa agradecia a chuva que a molhava enchendo o ar e as almas com seu agridoce cheiro de vida. Acreditava o cacique, ainda mais, que aquelas araucárias imponentes, que engalanavam o céu e alimentavam as matas, que aquelas imbuias majestosas que não fechavam suas copas porque queriam compartilhar o sol com as plantas e criaturas que cresciam sob sua sombra, que a abundante erva-mate que era fonte de energia, de saúde e de alegria de seu povo e dos fóg que a adotaram, todas aquelas maravilhas eram obra dos espíritos jardineiros que sua tribo venerava.
Condá não se cansava de ver tudo e de acompanhar cada detalhe. Seus irmãos Kaingang, incrédulos, eram tomados de admiração ao ver com que prazer Condá se dedicava a ajudar na construção da estrada usando sua ferramenta predileta, uma robusta e prosaica picareta. Condá não precisaria ir, ele mesmo, revirar a terra. Ele era um chefe respeitado e estava ali como capitão dos índios e como principal conselheiro do chefe da expedição, o alferes Francisco da Rocha Loures. O que esperavam dele era aconselhamento com sabedoria, ajuda na definição das estratégias, sugestões para a definição da rota, recomendações na política a ser seguida em contatos com os Kaingang. Mas Condá gostava de tocar e sentir a terra com as mãos. Desde que se conhecia por gente havia percebido seu amor e sensibilidade pela vida e identificava-se com os homens telúricos, homens que sentem uma relação íntima com a terra e nela veem o pulsar do sol e das estrelas. Homens que recebem o chamamento da natureza e lidam na terra para fazê-la mais abundante e mais produtiva.
O ato de escavar o solo com a picareta, o movimento de flexionar os músculos, elevar o cabo à altura da cabeça e, manejando-o com destreza, fazer a lâmina descer com força e penetrar na terra macia, era altamente prazeroso para Condá. Era com encanto que via a ponta da ferramenta revolver torrões de terra virgem, abrir as entranhas da terra para expor as raízes que ficam sob sua superfície, e até se divertia ao fazer surgir minhocas incomodadas em seu sossego. Ao fazer penetrar no solo a lâmina de ferro, sentia encher-se de uma energia transcendente e, ao sentir nos dedos os torrões da terra recém-exposta, era tomado por um terno sentimento de enlevo. Os Kaingang eram filhos aquela terra. Seus ancestrais o diziam. Condá amava a terra e a natureza com todas as forças de seu ser. E trabalhar a terra era, para o cacique, como acarinhar, como retribuir o amor da mãe natureza a quem ele, os Kaingang e todos os seres que a habitavam deviam a vida. Enfim, para o cacique, trabalhar a terra para benefício dos homens era um ato de amor tão significativo quanto era enterrar no chão da mata o umbigo dos Kaingang recém-nascidos.
Condá explicava aos seus guerreiros que o viam esfalfar-se na tarefa de abrir o solo:
— Vejam como a ponta afinada de uma picareta penetra na terra, como o cabo da picareta faz uma alavanca para levantar os torrões de terra, e como a ferramenta escava com facilidade. Eu acho que essa é a melhor ferramenta dos fóg porque ela representa os espíritos de Kamé e Kayru. Vejam – mostrava a seus homens –, ela tem duas pontas. As duas trabalham. É como se tivesse dois espíritos. Cada uma das pontas é diferente e cada uma faz o trabalho que lhe cabe. Cada uma delas penetra na terra de modo diferente, mas se completam e vivem em harmonia. É como nossos espíritos criadores, Kamé e Kayru, cada uma das pontas vive no seu lado e nunca brigam entre si.
Apesar de todo o extenso convívio com os fóg, Condá nunca tivera uma experiência tão íntima com o processo completo de construir estradas. Ficava fascinado ao ver que tudo tinha de ser pensado com antecedência. Planejar o que seria feito, preparar as ferramentas, ensinar aos trabalhadores a maneira de trabalhar e, durante a execução, acompanhar o que ia sendo feito, controlar a qualidade, refazer quando preciso. Era incrível ver como o avanço se dava com a colaboração de tantas pessoas diferentes. Condá cada vez mais entendia por que os fóg conseguiam sucesso e eram tão fortes. E entendia que os Kaingang e os brancos não precisavam ser inimigos. Podiam ser complementares. Os brancos sabiam mais sobre ferramentas, mas os Kaingang sabiam mais sobre as matas. Assim, podiam ajudar-se mutuamente. O que ele notava é que os fóg valorizavam resultados. Respeitavam quem sabia mais e trabalhava melhor, quem tinha méritos.
Era também verdade que muitos eram interesseiros, e antes de fazer alguma coisa sempre mediam o que tinham a ganhar. Mas Condá não estranhava. Na natureza, além dos pinhões, nada caía do céu. E até para comer os pinhões caídos dos pinheiros era preciso apanhá-los no chão. Por isso, esforçava-se para ser útil e contribuía com o que estava ao seu alcance. Seu constante otimismo e bom humor, associado ao seu espírito colaborativo, ganhava o respeito dos fóg. Não de todos, mas consolava-se, já que sempre havia os que tratavam os índios como inimigos. Era preciso lidar com os brancos como se lidava com a onças Mig: tomando cuidado para ficar longe de suas garras. Além disso, nem era preciso culpar os fóg: os índios também tinham muitas brigas e todas as tribos tinham incontáveis inimigos entre si. O que alegrava Condá, porém, é que o alferes Rocha Loures e os engenheiros ouviam seus conselhos e analisavam com ele as melhores alternativas. Resultava daí a certeza de que o caminho que estavam construindo seria também um caminho seu.
O trabalho seguia com a toda força. A trilha foi tomando forma e serpenteando a primeira ravina ao Sul do Rio Uruguai. Um trecho inicial seguiu em linha reta por cerca de 1 quilômetro, mas logo foi preciso fazer uma curva à esquerda, retornar em direção ao rio, fazer uma curva à direita, seguir um trecho reto, uma nova curva à esquerda e outra curva à direita. A visão do Rio Uruguai, que ia ficando mais abaixo, podia ser estendida para todo o vale. O solo, contudo, naquela encosta, era bastante pedregoso. Cavar os taludes era trabalho duro e exaustivo, mas os avanços eram obtidos graças ao incansável esforço das equipes de construção, que começavam bem cedo, mal apareciam os primeiros raios da aurora, e seguiam até o fim da tarde. A trilha estava subindo com largura suficiente para acomodar o cruzamento de dois cavaleiros em direções opostos, mas, ainda que bem construída e protegida das enxurradas, não estava na largura ideal para grandes tropas, especialmente se formadas por pontas de mulas ou récuas de burros. Mas o curso escolhido levava em conta a possibilidade de alargamentos futuros.
Mais de dois meses foram consumidos neste primeiro trecho. Os construtores, ao chegarem ao alto, se depararam com um terreno diferente, de terra vermelha, e uma topografia mais favorável, onde o avanço da estrada se dava mais rápido e onde as picaretas penetravam a terra macia com mais facilidade. Do topo da primeira colina, o alferes e Condá puderam ver o caminho ziguezagueando ladeira abaixo e admiraram-se do progresso que seus homens haviam conseguido em tão pouco tempo. A essa altura, a equipe de precursores e sinalizadores há havia avançado em direção a uma nova elevação, em um trecho mais suave e em terreno mais amigável. Agora vinha a descida. Novamente as rochas afloravam e tornavam trabalhoso o esforço construtivo. Chovia com frequência, mas os períodos de estiagem permitiam continuar a construção.
Ao chegarem à área das franjas do planalto, o terreno foi ficando menos acidentado. Áreas mais planas, ainda que com eventuais subidas e descidas, cercadas por vales verdes e belas ondulações, um colírio para os olhos. Naquele trecho as araucárias ainda eram numerosas, mas conviviam com uma vegetação variada, incluindo figueiras, pau-ferro, açoita-cavalo, butiás, canela-preta, ipê-amarelo, ipê-roxo, pata-de-vaca e muitas outras espécies. Também havia muitas clareiras, cobertas de vegetação rasa, onde a camada de rochas ficava logo abaixo da cobertura de terra. Para ir garantindo o melhor traçado, algumas árvores precisavam ser removidas do caminho, o que é inevitável em estrada feita em área de mata. Para não desperdiçar a madeira, as mais apropriadas eram serradas e empilhadas nas proximidades para futuramente serem convertidas em tábuas para construção ou mesmo lenha para o inverno.
A estrada serpenteou colina acima até alcançar a crista do Vale Dourado, de onde o alferes Rocha Loures e o cacique Condá puderam observar um dos mais encantadores cenários que já tinham vislumbrado. Ambos já haviam ouvido falar daquele vale do lado oriental do Rio Uruguai. Um vale que ostentava uma natureza luxuriante, cheio de encantos e de excepcional beleza. O que contemplavam superava tudo o que haviam imaginado. Depois de alguns minutos maravilhados, apressaram-se em chamar todos os membros da expedição para que pudessem, também eles, contemplar aquele panorama de extraordinária beleza. Naquele dia luminoso, perto do meio-dia, as vertentes do vale eram de um colorido intenso. O sol iluminava, farto e generoso, as matas e as árvores floridas, e a tudo pintava com uma pátina dourada.
O vale se desdobrava em ondulações que se perdiam no horizonte, com alguns trechos cobertos de araucárias, imponentes com suas copas em cálice, outros de erva-mate, de densa cor escura, entremeados pela floração de espécies como ipê e azaleia em uma explosão de flores. O colorido das árvores contrastava com o verde e amarelo das clareiras e o quadro, digno de uma pintura, exibia os encantos da natureza em todas as suas cores, formas, matizes, tons e nuances. Para os Kaingang, era como se os espíritos de Kamé e Kayru houvessem combinado juntar seus talentos para criar naquele lugar um jardim de encantos capaz de apaziguar a angústia dos homens e mulheres que o viessem contemplar.
A comitiva acampou em uma clareira na crista do vale. Todos precisavam de alguns dias de descaço e tinham o desejo de alguns dias de encantamento naquela paisagem deslumbrante. No dia seguinte, a aurora surgiu disposta a atender às mais atrevidas aspirações e expectativas dos visitantes. A luz do sol surgiu límpida, refletindo seus raios nas gotas da relva molhada de orvalho. O que se via era um jardim de fugazes diamantes formando um rendilhado caprichoso que se estendia pelas colinas. Parecia que a natureza tivera a ajuda dos duendes de orelhas pontudas e pele esverdeada para compor aquela paisagem onírica e surreal. Ao meio-dia, o cenário muda e o sol se apresenta resplandecente, descendo do céu para abraçar o vale com seus raios tépidos. Ao cair da tarde, uma suave brisa acaricia os visitantes soprando de leve, enquanto ondula a relva e faz dançar as árvores farfalhando suas folhas pelas dobras do vale.
Em dias frios de inverno, as manhãs costumam apresentar uma manta branca de nuvens baixas que cobre o vale e só deixa ver o cimo resplandecente das colinas, onde a luz oblíqua do sol matutino brinca com as cores, sombras e transparências para fazer poemas de luz de indescritível encanto. Mas, naqueles dias, o tempo foi pródigo em abrir as cortinas do vale e oferecer o palco da natureza para que os membros da comitiva pudessem encher-se de encantamento e deixarem-se extasiar por aquele cenário deslumbrante. Para alguns, o colorido e a pujança da natureza do Vale Dourado rivalizavam com o próprio paraíso. Ali, na comitiva, estavam homens curtidos na vida. Pioneiros endurecidos pela existência dura e implacável de desbravadores, muitos haviam vindo de outras terras e conheciam outras paisagens. Mas nenhum deles ficava insensível diante da grandiosidade e da serena majestade do vale que tinham diante dos olhos.
Condá e seu grupo de indígenas, por sua parte, estavam particularmente entusiasmados com a caça abundante que observavam existir ali. Antas, veados, catetos, queixadas e capivaras estavam entre os mamíferos que por lá perambulavam. Todos capazes de fazer as delícias da cozinha Kaingang. Também era grande a variedade de aves que viam cruzar nos céus, como jacus, urus, papagaios, nambus e macucos. Eram tantas as opções que todos antecipavam muita festa e comilança, já que a habilidade dos Kaingang na caça garantiria a todos um banquete de carne silvestre. O Vale Dourado era também um convite para todos explorarem o verdadeiro pomar do fundo do vale, onde as árvores frutíferas tinham farto acesso à água e ficavam melhor protegidas dos ventos frios do inverno. Além dos pinhões das araucárias – os colhidos no vale eram excepcionalmente cheios e saborosos – havia frutas nativas em abundância, como guabijus, cerejas-do-rio-grande, bacuparis, cambucás, pitangas, pêssegos-do-mato, uvalhas-do-campo, guarirobas, araçás, amoras, goiabas-da-serra, jabuticabas, e tantas outras. Também os enxames de abelhas silvestres prometiam mel em quantidade. Aqueles cinco dias de descanso, determinados pelo alferes, acabariam se convertendo em um verdadeiro festival gastronômico para os integrantes da expedição.
Condá esperava encontrar índios Kaingang vagando por ali, dada a riqueza da região e a proximidade com o rio. Mas ele sabia que a aldeia de Nonoai estava alguns quilômetros mais a Oeste. Ele, pessoalmente, viu sinais de passagem de índios Kaingang, e índios membros de seu grupo relataram terem visto vestígios de outros acampamentos, mas nenhum deles teve contato direto com outros índios. Como os Kaingang eram mesmo nômades e errantes, não havia nada a estranhar. Assim como não haveria nada a estranhar na hipótese contrária. Mas Condá, sempre atento aos menores detalhes, cogitou que uma pequena parada seria notada se a comitiva estivesse sendo seguida à distância, como acreditava. Então, não se deparar com nenhum índio no vale o fazia suspeitar que os Kaingang não queriam ser vistos por ora.
Depois do descanso, era tempo de seguir para a próxima etapa. A fase seguinte tinha por fim abrir o curso do caminho com destino à Vila de Passo Fundo. No planalto, o panorama mudara completamente. Para trás ficava o acidentado da serra e começavam os campos com ondulações menores e amplas áreas livres. A vegetação também mudara e, dali em frente, ficaria tudo mais fácil. Da região do Vale Dourado para Passo Fundo seria só avançar nos campos do planalto médio. Em terreno ainda ondulado, mas com grandes espaços abertos e com vegetação menos densa, a equipe de construção não teria dificuldades.
O alferes antevia o relevo que teriam pela frente graças às boas informações sobre a região que tinha recebido de seu pai. O capitão Antônio da Rocha Loures havia passado por ali, pela região do planalto do Rio Grande do Sul, em 1815. O alferes lembrava da conversa ao pé do chimarrão que seu pai teve com ele e seu irmão, João Cypriano, alguns dias antes de iniciarem a viagem:
— Filhos, antes de seguirem para os Campos do Planalto de Passo Fundo, vou contar o que eu vi e o que testemunhei quando eu mesmo, no meu tempo de jovem, passei por lá. Trinta anos se passaram. Trinta anos que parecem ontem. Mas é preciso dizer que a história começa nas Minas Gerais dos anos de 1700. Foi naqueles idos que a exploração do ouro começou a requerer grande quantidade de animais de carga. Especialmente mulas e burros, as bestas de carga, que levavam a exploração do ouro nas costas. Sem os muares o ouro não sairia das Minas Gerais e ficaria no chão mineiro. Acontece que esses muares vinham de longe. Vinham das fazendas das Missiones. Por isso era preciso buscar uma rota que ligasse o Brasil com a região de criação de mulas. A região de produção de muares, naquele tempo, como ainda hoje, ficava no Sul do continente. Na época, a região da Missiones pertencia ao vice-reinado do Peru. Em 1733, como ainda não havia ligação por terra entre a Capitania de Rio Grande de São Pedro e as capitanias mais ao Norte, o governo português mandou abrir a picada entre Araranguá e Lages, e foi por ali que passou, mercê de Deus, a primeira tropa de mulas visando a atender as minas de ouro de Minas Gerais. As mulas faziam um penoso caminho que vinha dos campos de Córdoba, Santa Fé e Entre-Rios, contornavam a Lagoa Mirim e depois subiam pelo litoral até Araranguá. Era preciso fazer esse longo trajeto para não cruzar com as Missões Orientais do Uruguai, organizadas pelos jesuítas espanhóis, e que eram formadas pelos Sete Povos das Missões. O território pertencia à Espanha e só se tornou português em 1801. Mas era uma fronteira instável e D. João VI, preocupado com as regiões de fronteira entre o Brasil e as colônias espanholas, criou, em 5 de novembro de 1808, a Real Expedição de Guarapuava por meio de uma Carta Régia. O comando da expedição foi entregue a Diogo Pinto de Azevedo. Essa expedição, diferentemente do que muitos pensam, não tinha por finalidade apenas conquistar os Campos de Guarapuava e instalar o fortim de Atalaia. Sua ambição era ir criando condições que permitissem a ligação da província de São Paulo com o chamado “País das Missões”. De modo que o quartel que estabelecemos no forte Atalaia era para servir como ponto de partida para a exploração da região. Assim, foi do fortim de Atalaia que partiu a exploração do sertão de Tibagi e do Rio Iguaçu. Em 1815, com a Real Expedição ainda lutando com os índios Kaingang e Xokleng para firmar-se nos Campos de Guarapuava, D. João VI determinou ao tenente-coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal que enviasse uma comitiva com o fim específico de viabilizar um caminho para as Missões. Para essa incumbência foi designado o capitão Athanagildo Pinto Martins, que estava explorando o Rio Chopim, e eu, para meu espanto, fui escolhido como imediato do capitão Athanagildo. Fiquei maravilhado, como qualquer jovem ficaria, mas recebi um banho de água fria quando, logo na primeira saída, quase fomos atacados pelos índios e só escapamos por nos enfiarmos na água de um rio próximo. Hoje, relembrando aqueles tempos de minha juventude, devo confessar que só atravessei ileso aquela missão por obra e graça de meu anjo da guarda, que era competente e atento. Aquela foi a primeira expedição luso-brasileira que seguiu para as Missões, após a região ter sido incorporada à Coroa Portuguesa, em 1815. Então, como disse, nossa incumbência era encontrar e mapear um caminho operacional que levasse até São Borja, na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
O capitão Antônio da Rocha Loures fez uma pausa para reposicionar o mapa tosco que tinha sobre os joelhos, onde mostrava o caminho que havia percorrido, e continuou:
— Saímos de Guarapuava, que era um povoado muito pequeno naquele tempo. Nosso guia na expedição era o índio Jonjong, um Kaingang muito inteligente e corajoso, que lembra muito o Condá. Era parecido até fisicamente, com estatura maior que a média, sempre alegre e muito forte. Ele não queria tentar um caminho mais curto e fazer a passagem do Rio Uruguai, no local que agora chamamos de Goio-En, exatamente porque temia ter que enfrentar os numerosos Kaingang nas matas da região. Sabia também que os índios viam os brancos como invasores e não aceitariam pacificamente a presença deles do lado esquerdo do rio. Não que aceitassem de bom grado os brancos aqui em Guarapuava, ou Palmas, mas nesses lugares os brancos já estavam instalados e mais nada podiam fazer. No entanto, na região ao Sul do Goio-En as coisas mudavam. Os Kaingang que ali tinham seus toldos estavam dispostos a lutar para manter o controle de seus territórios. Jonjong nos dizia que os índios do Norte da província de São Pedro eram os mais aguerridos e perigosos. Assim, por insistência de nosso guia, a expedição tomou um rumo mais para Leste. Do Pontão, que foi onde nos reunimos para a partida, nossa expedição saiu em busca da Estrada Real, que chamamos também de Caminho de Viamão. Na jornada rumo ao Sul passamos por Campos Novos, cruzamos o Rio Pelotas, no passo de Santa Vitória, e chegamos à Lagoa Vermelha. Ali saímos da Estrada Real e mudamos o curso no rumo do poente. Seguimos o dorso da Coxilha Grande. Atravessamos o Mato Português, o Campo do Meio, o Mato Castelhano e cruzamos o passo do Rio Uruguai Mirim, que é como os índios chamam o Rio Passo Fundo. A partir daí, em uma viagem cheia de peripécias, enveredamos pela rota das Missões até São Borja, onde nos apresentamos ao comando militar português.
Os filhos ouviam em respeitoso silêncio e cheios de admiração. O pai deles tinha vivido aventuras assombrosas, e agora aquelas experiências velhas de 30 anos iriam ajudar seus filhos no retorno àquelas paragens para cumprir uma missão igualmente difícil. Antônio da Rocha Loures novamente correu o dedo sobre o mapa, e continuou:
— Depois de chegarmos a São Borja e de termos feito o relato da jornada aos chefes militares fomos dispensados. Após um pequeno tempo de repouso, recebemos ordens de regressar pelo mesmo caminho. Quando chegamos ao Planalto Médio e ao Pinheiro Marcado, um pouco antes de Passo Fundo, o capitão Athanagildo, cheio de confiança pelo fato de não termos sido atacados em nenhum momento e, ainda mais, por não termos encontrado índios hostis em toda a marcha, passou a acreditar que os Kaingang ou nos ignoravam ou tinham decidido nos deixar em paz. Foi nesse clima de confiança que teve a ideia de cortar o caminho. Imaginou que, saindo da posição do Pinheiro Marcado no rumo Norte e indo direto ao passo do Goio-En, onde cruzaria o Rio Uruguai, e depois marcharia pelos Campos de Palmas vindo direto para Guarapuava, poderia economizar pelo menos quinze dias da jornada. E ainda inscrever seu nome na história. Para explorar essa possibilidade chamou o guia Jonjong e explicou o seu plano. Perguntou a ele o que achava da ideia. Jonjong ficou em dúvida e pensou um pouco para responder ao capitão. O que sabia é que aquela região era território sagrado para os Kaingang. Era certo que ali havia muitos índios. Disse ter certeza que deveria haver mais de um toldo Kaingang na região. Não tinha como saber exatamente quantos e onde estavam, mas o fato de não atacarem a comitiva no caminho entre Santa Cruz e Passo Fundo não devia ser entendido como ausência de perigo. Se não atacaram era porque não viam o que teriam a ganhar com um ataque. Nossa comitiva não levava mercadorias nem conduzia animais valiosos. Mas, repito, o fato de não terem nos atacados não devia ser interpretado como sinal de que aceitariam uma invasão na mata onde mantinham o domínio. O guia disse que não via nenhum sinal de índios nas proximidades da comitiva, mas os Kaingang eram muito bons em se esconder e em passar despercebidos quando queriam.
E continuou…
— O capitão Athanagildo não ficou muito convencido com os argumentos de Jonjong. Disse que pensava enviá-lo pelas margens do Rio Passo Fundo em direção ao Goio-En e aos Campos de Palmas para ver até onde ele conseguiria avançar com segurança. Se encontrasse sinais da presença dos índios, ou se deparasse com situações de perigo, ele deveria retornar imediatamente. Para sua proteção, receberia uma escolta de oito homens bem armados. Jonjong se mostrou alarmado. Uma escolta de oito homens poderia manter os Kaingang à distância nas estradas mais ao Sul, onde havia já um tráfego constante, mas nem de longe seria capaz de escapar de alguma emboscada dos indígenas no interior das matas do Alto Uruguai. Disse isso, mas o capitão Athanagildo insistiu. Para ele, o risco era muito pequeno e valia a pena tentar. Estava convencido de que a escolta teria um efeito dissuasor. Outro erro de avaliação de Athanagildo foi acreditar que os Kaingang eram covardes e só atacavam quando estavam em vantagem e não viam perigo de resistência. Em seu pensar, não iriam atacar um grupo bem armado e se expor a riscos desnecessários. Por isso se irritou com a opinião de Jonjong e não deu ouvidos às ponderações de outros membros da comitiva que recomendavam cautela. Ao contrário, ficou incomodado em ser contrariado, fechou questão e deixou claro que seguir com o plano era uma ordem. No fim, Jonjong foi forçado a concordar, muito a contragosto. O guia comentava comigo e, com os outros membros da expedição, que invadir os matos ao Norte de Passo Fundo seria mexer em um ninho de marimbondos. A ordem para voltar, caso encontrassem sinais da presença indígena, não valia nada se fossem emboscados. Os primeiros sinais seriam também os últimos. Como disse ao capitão, “mortos não voltam”. Tentando tranquilizar o índio, o capitão garantiu que o restante da expedição ficaria em Passo Fundo e aguardaria pelo seu retorno antes de autorizar o prosseguimento da marcha. Só quando seu grupo retornasse, ou depois de um tempo razoável para que ultrapassassem o Uruguai, sua comitiva voltaria a Guarapuava pelo mesmo caminho de ida. A partida de Jonjong e de seu grupo, todos meus amigos e companheiros, se deu com acabrunhamento. Tirando Athanagildo, que estava cegado por suas ambições políticas, ninguém mais acreditava que as coisas acabariam bem. E, de fato, não acabaram.
Antônio da Rocha Loures fez um instante de silêncio. Estava emocionado. Lembrou os dolorosos detalhes daquele dia fatídico. Discretamente, tirou o lenço do bolso e limpou uma lágrima teimosa que a evocação daquelas lembranças fizera aflorar em seus olhos. Seus filhos, também tocados pelos sentimentos de seu velho pai, respeitaram sua tristeza e não ousaram interromper. Após alguns instantes de silêncio, o veterano desbravador levantou-se para ir tomar um copo d’água. Depois, recomposto, voltou a sentar-se e continuou, agora mais lento e com a voz em tom mais grave:
— Como disse, meus filhos, lembro que Jonjong e todos os membros do grupo dele destacados para entrar na mata estavam com medo. Jonjong ainda propôs uma última alternativa: entrar sozinho. Disse ao capitão Athanagildo que um grupo de fóg, de brancos, entrar no território Kaingang assim, sem aviso, iria parecer um desafio arrogante aos índios que ele, tinha certeza, os estavam seguindo secretamente. Jonjong insistiu que teria mais chances de sucesso se fosse sozinho para explorar o território. Mas o capitão ficou desconfiado de que o índio desapareceria nas matas e não voltaria mais, e não concordou. E foi categórico: Jonjong era pago pelo governo para fazer seu serviço e devia seguir suas ordens.
Antônio fez nova pausa para um gole de água e prosseguiu:
— Filhos, aqui entre nós, eu não sei se o Jonjong iria mesmo desaparecer ou não, acho que se quisesse desertar já o teria feito, mas a maioria dos integrantes da expedição, eu inclusive, éramos de opinião que seria mesmo mais sensato o índio penetrar na mata sozinho. Parecia claro, para mim e para alguns outros, que um índio sozinho teria mais chances de sobreviver no território dos seus irmãos de tribo do que entrando na frente de um grupo de brancos. Claro, enquanto uma expedição numerosa como a nossa marchasse na estrada ou acampasse em campo aberto, enquanto a comitiva se mantivesse unida e vigilante, bem guardada por homens armados, todos estariam razoavelmente seguros. Os Kaingang não eram estúpidos a ponto de atacar por atacar. Seria suicídio a troco de nada. Mas tudo mudava se um grupo desgarrado e pequeno entrasse na mata deles. Não era preciso ser nenhum Napoleão para entender que no meio da mata os índios tinham o domínio da situação. Uma simples tocaia bem-organizada e era o fim dos invasores. Outra coisa, alguns de nós, como eu mesmo, temíamos que uma derrota do grupo dos “invasores brancos” seria também uma advertência para nós, os fóg, de que os Kaingang estavam atentos, estavam fortes e não iriam aceitar que tomassem suas terras sem luta.
E continuou relatando suas lembranças:
— Acontece que, infelizmente, o capitão Athanagildo jogou com a sorte. Acho que sua ambição o torturava. Ele estava voltando daquela dispendiosa Expedição Vereda das Missões com as mãos abanando. A viagem tinha sido bem-sucedida e a missão que tínhamos recebido estava sendo cumprida a contento. Estávamos comprovando a viabilidade e confirmando a rota mercantil entre São Borja e a Vila de Castro, aqui, na província de São Paulo. O que angustiava o capitão, entretanto, é que o êxito de nossa missão era uma coisa mais ou menos esperada. Boa parte da rota já tinha sido consolidada por Cristóvão Pereira de Abreu um século antes, de modo que se tratava pouco mais do que um feito de rotina. Portanto, não acrescentava nada de heroico ou especial ao seu histórico. O que se pode deduzir é que aquela ordem arriscada parecia ser sua última oportunidade de ter alguma coisa grandiosa para mostrar. Caso a tentativa de abrir uma passagem pelos campos do Rio Passo Fundo e pelo Goio-En desse certo, teria nas mãos algo importante para exibir ao governo. Seria uma proeza valorizada e poderia significar uma promoção ou uma recompensa. Talvez ele até recebesse uma propriedade do governo imperial. Quem sabe, abriria as portas até para um futuro baronato. Por fim, vendo que o capitão estava irredutível e decidido a fazer as coisas de seu jeito, o guia Jonjong e sua escolta entraram mata adentro e, ao fazê-lo, selaram seu destino. Nunca mais foram vistos. Nunca mais se soube nada deles. Tudo indica que foram emboscados e mortos pelos índios que hoje são liderados pelo cacique Nonoai. Como disse, eu mesmo sofri a perda de amigos que lembro com saudades. No grupo que desapareceu estavam alguns amigos e camaradas das Forças Permanentes com quem tinha compartilhado aventuras e desventuras. Amigos que não esqueci e não esquecerei nunca enquanto viver. Mas é a sina de um soldado. O coração de todo soldado leva um cemitério dentro dele. Que Deus os tenha acolhido em sua graça. Que a coragem com que enfrentaram os perigos desconhecidos nos inspire a seguir em frente e que, mercê de Deus, o sacrifício daqueles heróis seja a semente da grandeza desta região abençoada.
O silêncio sublinhou o desabafo de Antônio da Rocha Loures. Após a pausa, o alferes Francisco perguntou ao pai:
— O capitão Athanagildo fez alguma tentativa de encontrar o índio e seu grupo?
— Não. Depois de umas duas semanas, quando nem Jonjong nem ninguém de seu grupo reapareceu, ele nos disse que acreditava que eles teriam chegado a Guarapuava por dentro e simplesmente ordenou a marcha e trouxe a expedição para Castro. Depois foi se apresentar ao seu regimento em Curitiba, onde justificou a ausência de Jonjong e do seu grupo de soldados dizendo que tinham “sumido”. E insinuou que todos teriam desertado. Ninguém acreditou. Nós sabíamos que havia deserções aqui e ali, mas de todo um grupo? Na investigação que fizeram, ouvindo o testemunho de muitos membros da expedição, ficou a suspeita de que Jonjong e seu grupo foram mesmo mortos pelos Kaingang. Athanagildo conseguiu escapar de uma condenação, mas foi desligado do regimento. Ao que sei, tempos depois ele foi incorporado nas tropas da província de São Pedro do Rio Grande do Sul como capitão e combateu o caudilho José Artigas na chamada Guerra contra Artigas. De volta por aqui, acabou na Vila de Castro, foi eleito juiz ordinário e promovido a capitão-mor. Ficou um tempo, e não sei o que não deu certo, mas penso que os fantasmas dos desaparecidos, que eram de famílias da região, o incomodavam. Acabou por mudar-se para Cruz Alta, onde se elegeu vereador. Ao que me consta, também tinha um negócio de distribuição de sal. Agora, se depois de voltar da expedição ainda tentou localizar Jonjong e seus homens, não sei. Penso que ele sabia que tinham sido tocaiados e mortos. Ele jogou uma parada e perdeu. Foi isso. E, depois do momentoso episódio, ninguém mais da região tinha disposição de tentar passar pelo Goio-En e entrar no território dos Kaingang de Nonoai. Não era só falta de coragem, propriamente. Concordo que, para enfrentar um inimigo, é preciso ter coragem. Mas também é preciso saber qual inimigo se vai combater. É preciso conhecer o inimigo e as circunstâncias do enfrentamento. Entrar de peito aberto em território inimigo desconhecido, penetrar em um mato fechado, cheio de armadilhas, para enfrentar um inimigo escondido, aí não é coragem. É temeridade. Se, durante a expedição, depois do desaparecimento de Jonjong, Athanagldo tivesse ordenado uma busca mata adentro, teria enfrentado um motim. Jonjong e seu grupo entraram na mata sabendo que havia o risco de serem tocaiados. Mas, ainda assim, era só um risco. Depois de seu desaparecimento o enfrentamento com os índios passava a ser uma certeza. Ninguém iria para uma morte inglória sem necessidade. Ninguém estava disposto a deixar a família sem arrimo. Ninguém iria deixar viúva sua mulher e órfãos seus filhos por puro capricho de um comandante ensandecido. Assim, lamentando, tivemos de aceitar aquelas mortes e rezar pelas almas dos falecidos.
Após fazer uma pausa para tomar uma cuia de mate e disfarçar seu sentimento de indignação com mortes tão desnecessárias, retomou a narrativa:
— Durante a nossa viagem de volta, ainda antes de chegar a Passo Fundo, vimos que havia muitos pioneiros se instalando na região do Planalto Médio. Imigrantes e forasteiros começaram a fixar-se nas proximidades do passo do Rio Jacuí Mirim. Ali, nas margens do rio, tinha, e acho que ainda tem, uma enorme araucária que a chamavam de “Pinheiro Marcado”, que ganhou esse nome porque as comitivas marcavam seu tronco com a ferro. Dizem que muitos enterravam sacos de moedas e patacas por perto para pegarem na volta. Tinham medo de serem roubados na viagem. O que sei é que era como um farol visto de longe e sinalizava o ponto do vau para cruzar o rio. A árvore era um colosso de tão alta e tinha tantos braços levantados para céu que parecia ter a copa pendurada no sol. Por isso, acho que meio chistosamente, um gaiato gravou no tronco uma frase escrita em latim. Eu não lembro a frase direito, meu latim de coroinha nunca foi nada especial, mas dizia alguma coisa mais ou menos como Meridiem solem in malum facit caput meum, que, traduzindo, quer dizer “O sol do meio-dia faz minha cabeça doer”. Era uma frase boba, mas que fazia o pessoal olhar para cima e dar uma boa risada. A árvore não tinha cabeça, mas tinha copa. E quem tinha cabeça e olhava para cima ficava pensando que se caísse uma pinha lá de cima no seu cocuruto era bem capaz de acabar ficando com os miolos tão espalhados pelo chão como os pinhões debulhados.
Os irmãos Rocha Loures acharam curiosa aquela história da inscrição no pinheiro, mas que parecia bem apropriada a uma velha araucária, um gigante com mais de 30 metros de altura, de braços erguidos para o céu ao redor de uma “cabeça” que ninguém via, mas que estava exposta ao sol do verão inclemente daquelas plagas. O Capitão Rocha Loures continuou:
— O que pude constatar na minha passagem por aquele trecho do Planalto Médio da província de São Pedro foi que naquela região estavam surgindo muitos povoados como Carazinho, São Luís, Santa Bárbara, Palmeiras das Missões, Cruz Alta e Passo Fundo. Ao passar por lá cheguei a pensar em ficar perambulando por uns tempos mais, porém, depois do triste destino de Jonjong, eu não podia abandonar o Athanagildo e voltei com ele aqui para Guarapuava.
Mas, meus caros filhos, acho que sabem agora das razões da minha preocupação com esta empreitada no rumo do Goio-En. Vosmecês vão tentar atravessar os mesmos caminhos seguidos por Jonjong. Muitos anos se passaram, mas os riscos e as incertezas que o grupo dele enfrentou permanecem. E eu lhes digo que Jonjong não era tolo. Se ele foi surpreendido, atacado e morto é porque os índios de Nonoai conheciam melhor o terreno e eram muito mais numerosos. Acho que dá para afirmar que hoje os tempos são outros, mas os Kaingang são os mesmos. Eles continuam não gostando de forasteiros. Não aceitam que os conquistadores recém-chegados os expulsem das terras em que vivem por tanto tempo. Dadas as circunstâncias, são forçados a conviver com os brancos, mas, mesmo os que se submetem, não aceitam ser enganados ou passados para trás. Por isso, tenham cuidado com o que vão dizer e fazer na terra dos índios. Não subestimem nem ofendam a dignidade dos Kaingang. O que vocês prometerem cumpram. Confiem desconfiando e pensem antes de dar um passo em frente. Fiquem sempre atentos e não se deixem surpreender. Vocês têm a minha bênção, mas tomem cuidado. Desejo todos vivos. Isso é tudo o que lhes pede seu velho pai.
A lembrança daquelas palavras aquecera o coração do alferes. Tinha em alta conta os conselhos do pai, que eram ditados pela experiência de quem sobrevivera aos mil riscos da vida precária daqueles pagos bravios. Conselhos que, para seu próprio benefício, precisava não esquecer. Não deveria descuidar de nenhum detalhe. Os tempos, de fato, tinham mudado. Em trinta anos, os brancos e os luso-brasileiros haviam se multiplicado por todo o Sul e a presença deles era cada vez mais ostensiva. Os brancos estavam ali para ficar. Os Kaingang deveriam saber que ataques aos fóg não seriam tolerados e não passariam impunes, porém uma guerra não interessava a nenhum dos lados. O alferes Francisco da Rocha Loures, seu irmão Cypriano e o cacique Condá foram em frente e, contando com montarias fortes e ágeis e cavalgando em campo aberto, não demoraram a chegar às franjas da Vila de Passo Fundo. Resolveram acampar por ali mesmo, porque o dia findava.
Na manhã do dia da chegada, bem cedo, após terem feito um desjejum à base de pinhão cozido, e já nas proximidades, puderam apreciar melhor a vastidão verde e promissora do planalto. O céu estava de um azul imaculado, enquanto o sol fazia rebrilhar as gotas de orvalho que teimavam em cobrir a relva e a vegetação rasteira da coxilha. Ao contemplarem a vila da elevação de onde a descortinavam pela primeira vez, puderam apreciar, genuinamente maravilhados, a esplêndida amplitude sem bordas do Planalto Médio da Província do Rio Grande do Sul. A comovente vastidão, os grandes espaços, os horizontes infindos que se desdobravam aos seus olhos inspiravam-lhes um sentimento de liberdade. A grande paisagem do Planalto Médio se apresentava em toda a sua dimensão telúrica, diáfana e imanente. E tocavam a alma ao lembrar aos recém-chegados quão vasto é o mundo e quão diminutos somos em nosso destino mesquinhamente tecido pelos instantes em que existimos, pelos momentos fugazes que vivemos, por nossas incertezas e fragilidades. E por cingirem a terra a que nos apegamos e onde criamos nossas raízes. O povoamento do território do Passo Fundo havia começado em 1828. Naquele ano, o capitão de milícias Manoel José das Neves recebeu uma sesmaria medindo 4 léguas quadradas no alto da Coxilha Geral da Serra. Para as terras recebidas da Coroa trouxe tudo o que tinha. Veio com sua família, escravos, algum gado e ali fundou uma pequena fazenda pastoril e agrícola. O capitão era casado com Reginalda do Nascimento Rocha, como ele, original do Paraná. O casal tinha três filhos, Maria Nascimento Rocha Neves, Salvador Nascimento Neves e Francisco Nascimento Neves. Pouco depois de chegarem, sua mulher, em gratidão às bênçãos que haviam recebido, doou um terreno para a construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Quanto à povoação de Passo Fundo, esta teve início, de fato, em 1830. Nesse ano Manoel das Neves separou meia légua quadrada de suas terras e doou para a instalação do povoado.
A filha mais velha dos pioneiros de Passo Fundo, Maria Nascimento Rocha Neves, casou-se com José Prestes Guimarães. Foram abençoados com sete filhos. Ainda em pleno período Farroupilha, em 13 de julho de 1837, Maria Nascimento deu à luz, em Passo Fundo, a um menino, Antônio Ferreira Prestes Guimarães, que viria a ser figura de grande destaque na província. Criança bonita, que encantava a todos, se tornou um jovem alto, elegante, impecavelmente trajado e sempre bem-humorado. Professor e advogado, cultivava sua aparência elegante com cabelos bem assentados e bem cortados, vasto bigode e imponente cavanhaque. Ocupou o posto de juiz municipal e juiz de paz, tendo sido secretário da Câmara Municipal de Passo Fundo, que presidiu entre 1883 e 1886, posto que lhe atribuía a condição de prefeito. Em seguida foi deputado provincial nas legislaturas de 1885, 1887 e 1889, pelo Partido Liberal. Também foi primeiro vice-presidente da Província do Rio Grande do Sul, assumindo a presidência interinamente, de 25 de junho a 7 de julho de 1889.
A Vila de Passo Fundo, ao surgir, pertencia ao município de São Borja. Contudo, a distância da sede municipal era uma enormidade, a cerca de 400 quilômetros. Uma viagem exaustiva de dez dias a cavalo. Em 1834, a povoação de Passo Fundo passou a fazer parte da Vila de Cruz Alta. A sede municipal, agora, ficava a 130 quilômetros. Um cavaleiro bem-disposto, em tempo bom e cavalo robusto, faria o percurso em três dias de viagem. Cruz Alta era um núcleo habitado desde o final do século XVII, quando, em 1698, uma grande cruz de madeira – a “cruz alta” – foi erguida por ordem do padre jesuíta Anton Sepp von Rechegg. A cruz virou referência da vila que ali se formava e que se converteu em ponto de invernada e lugar para o pouso de milhares de tropeiros vindos das fronteiras com Argentina e Uruguai. As tropas de mulas que seguiam para a feira de Sorocaba aproveitavam a parada para readquirir suas forças.
O local consolidou-se ainda no final do século XVIII e, como o pouso dos tropeiros oferecia muitas oportunidades para artesãos e comerciantes, aos poucos esses foram vindo e passaram a fixar residência por ali. Em 18 de agosto de 1821 o Centro da povoação mudou-se mais para o Norte, data em que o governo da província atendeu a uma petição encaminhada pelos moradores. O município de Cruz Alta foi oficialmente criado por uma Resolução em 11 de março de 1833, assinada pelo presidente da província da época, Manuel Antônio Galvão.
A vila nascente de Passo Fundo, que o alferes Rocha Loures, seu irmão, João Cypriano, e o cacique Condá admiravam da estrada, que um dia seria um pujante Centro cultural e econômico, era, naquela ocasião, não mais que um apanhado de rústicas casas de madeira. Ainda que pequena, a vila já via a civilização ali deitar suas raízes. Aquele núcleo de vida plantado na vastidão do planalto, que sobrevivia pela pertinácia de uma gente tenaz e de ânimo inquebrantável, inspirou no alferes Rocha Loures um sentimento de transcendência. Ali, naqueles campos plenos de possibilidades, vicejava uma prova eloquente de que aventura do homem era, com certeza, feita de ousadia e de desafios ao desconhecido. Aquela pequena povoação, vista da estrada, dava testemunho da resiliência do homem daqueles pagos e da sua tenacidade na busca da superação. Aquele povoado havia quase estiolado durante a Revolução Farroupilha, mas agora, poucos meses depois de encerrada a conflagração, voltava a florescer, luxuriante, desafiador e intrépido. Ter sobrevivido aos embates que quase sufocaram a vila, por dela tomarem mais do que lhe seria possível contribuir, dava mostra de quanto de arrojo e de determinação a moviam.
Mas futuro é também destino. E, quando as potencialidades naturais se somam à coragem dos homens, os fados se curvam e as adversidades se submetem. Quando é chegada a hora do encontro dos desígnios humanos com a marcha de civilização, quando tudo está pronto para o irromper das novas musas, nada há o que se interponha ao desabrochar do progresso e nada mais detém o avanço do descortino e da ação dos pioneiros. E assim o alferes pressentia que ali, em Passo Fundo, um novo capítulo da história do desenvolvimento do império se aprestava a surgir. Descortinando os horizontes verdejantes do Planalto Médio da província era natural concluir que aquele território tinha uma vocação e um destino a cumprir. Sua grande riqueza natural e sua privilegiada situação geográfica, abençoada por imensos campos para a lavoura, para a criação de gado e pelos vastos ervais de exuberante folhagem para a extração de erva-mate, faziam de Passo Fundo um eldorado. Ali ficava manifesto, para quem visse ou avaliasse, que o desabrochar da região viria rapidamente e iria convertê-la em rico Centro agrícola, pastoril e industrial.
O que os recém-chegados testemunhavam, sobretudo, é que a vida voltava vibrante para Passo Fundo. As chaminés fumegantes na manhã límpida e fria de inverno, com os fios de fumaça subindo enrodilhados na transparência azul do céu, contrastando com o colorido das roupas drapejando sob o capricho dos ventos nos varais esparsos, sugeriam que naquelas plagas habitava gente disposta a domar o futuro. O alferes Rocha Loures se sentiu muito animado. Era com gente dessa estirpe que ele contava para levar adiante sua missão. Respirou fundo e fez sua montaria partir em direção à vila. Seu irmão e Condá o acompanharam. O cacique, contudo, cavalgando ao seu lado, se mantinha taciturno e pensativo. Sim, o cenário era admirável, mas, como nativo, via tudo com outros olhos. O que enxergava era o avanço inexorável da civilização dos brancos. Campos sendo cultivados, casas sendo construídas, estradas movimentadas. Cada vez ficava mais claro para ele que a sobrevivência de seu povo dependia de encontrar um lugar no novo mundo dos fóg. Estava condicionada a adaptar-se e a conviver com as mudanças que via surgir.
O alferes Rocha Loures planejava dirigir-se diretamente à casa do comissário Joaquim Fagundes dos Reis. Era preciso apresentar-se para a maior autoridade provincial da região para dar a notícia de que o grupo paulista estava chegando à cidade e, mais importante, dar-lhe ciência de que a Província de São Paulo estava prestes a oferecer um caminho alternativo mais curto para os tropeiros que desejassem levar seu gado e seus muares ao mercado de Sorocaba, em São Paulo.
Localizar a casa do comissário não foi difícil. A moradia se destacava na rua principal, sendo a maior e mais bem-acabada e a única com uma acolhedora varanda na entrada. A vila tinha apenas poucas dezenas de casas habitadas, e mais algumas em construção. No fim da rua havia um galpão rústico destinado à produção de erva-mate. Via-se a câmara de secagem, onde as folhas ficavam por cerca de três dias. O familiar cheiro da erva cancheada estava no ar e, mesmo àquela hora matutina, se podiam ouvir os baques surdos dos soquetes pulverizando as folhas da erva-mate para produzir o pó do chimarrão.
A principal rua da Vila de Passo Fundo mostrava sinais de tráfego de carros de bois e carroças na terra batida. Por ali passavam carros e carretas que carregavam mercadorias e a preciosa erva-mate. Havia atividade econômica e gente trabalhando naquela vila. As casas eram todas de madeira, com a fundação feita de troncos e as paredes de tábuas de pinheiro justapostas e pregadas na estrutura feita de caibros, com ripas fechando as junções. Eram casas simples, mas resistentes e confortáveis o ano todo. Os telhados eram os tradicionais, com duas águas, montados sobre uma tesoura de base encimadas por uma trama feita de terças, ripas e caibros. Na maioria das casas, as telhas eram feitas de tabuinhas de madeira lascada. Evitavam a entrada da chuva e isolavam do frio no inverno, resistindo impávidas, mesmo nas pouco frequentes nevascas.
Ao chegarem à casa do comissário Joaquim Fagundes dos Reis, apearam das montarias, tiraram as esporas, os chapéus e os ponchos. O alferes subiu a escada de acesso à varanda, com as tábuas de pinheiro do assoalho rangendo sob seu peso, e foi bater à sólida porta de madeira maciça. Logo um auxiliar do comissário abriu a porta da entrada. Rocha Loures apresentou-se e apresentou os dois membros de sua comitiva, seu irmão e o cacique Condá, explicou quem era e o que desejavam conversar com o comissário. O assistente, pressuroso, pediu que aguardassem e foi avisar o comissário. Não demorou em retornar e convidar os visitantes para entrarem e para o seguirem até a sala do escritório onde o Fagundes dos Reis os receberia. A sala, ainda que rústica, com paredes de tábua de madeira de araucária aparente aplainada a mão, tinha um recanto com uma elegante escrivaninha de estilo português. O contraste chamava a atenção, e notando o interesse dos visitantes, o assistente explicou que o comissário gostava de trabalhar com madeira e tinha orgulho em ser um artesão amador. Ao lado da escrivaninha havia uma estante com livros. Evidenciava, para os visitantes, que o dono da casa era homem culto, que gostava de livros e tinha o hábito da leitura,
Fagundes dos Reis levantou-se para receber os visitantes. Sua figura se impunha naturalmente. De estatura acima da média, trazia uma barba grisalha bem cuidada no rosto largo, onde as sobrancelhas longas e bem proporcionadas se destacavam. O cabelo, ainda preto, repartido à esquerda, apesar das têmporas grisalhas, continuava abundante e mantinha seu apuro natural. Mesmo vivendo, ele e sua família, na fronteira do desbravamento, mantinha a postura, o aprumo e a altivez de sua elevada função. O comissário via seu cargo como um posto avançado do governo da província e, por ter consciência de que sua postura e seus trajes cultuavam a imagem da civilização e do progresso que ali representava, vestia-se sempre com o aprumo da função e com a elegância de homem culto e de boas maneiras. Vestir-se e portar-se como um gentil homem, acreditava, era requisito inarredável da dignidade do cargo.
Fagundes dos Reis estava com 60 anos, mas possuía intactas a postura e a energia. Podia-se depreender isso pela voz forte e pelo vigor de seu aperto de mão.
— Buenos dias, senhores. Sejam bem-vindos a Passo Fundo. – Levantou-se e foi ao encontro dos visitantes estampando um semblante risonho de acolhimento. Era evidente a alegria com que recebia os forasteiros. Desde sua volta a Passo Fundo, depois de ter estado afastado uns tempos por ter sido preso pelo governo imperial em razão de ter ficado ao lado dos Farrapos, na Revolução Farroupilha, se sentia isolado no planalto da província. Muitos habitantes haviam saído da vila para buscar paragens menos perigosas durante as escaramuças, porém voltavam agora que a paz fora restabelecida, com a assinatura da Paz de Poncho Verde em 1º de março daquele ano. A paz, que reconciliava o Rio Grande do Sul com o governo do império e encerrava a Revolução Farroupilha, além de trazer de volta antigos moradores, atraia novos habitantes para a região. Nesse ressurgimento, o comissário Fagundes dos Reis ficaria afamado por receber a todos, visitantes e tropeiros, com a maior cortesia e a todos oferecia seu incomparável chimarrão, uma especialidade feita com erva concheada na vila mesmo, em um galpão convertido em casa de pilões.
Rocha Loures se apresentou, e, também, a seus companheiros:
— Buenos dias, senhor comissário. Sou Francisco da Rocha Loures e, como disse ao seu secretário, sou filho do capitão Antônio da Rocha Loures, que lhe manda um abraço. Este é meu irmão, João Cypriano, que pensa em se estabelecer por estas plagas e gostaria de apresentar também o cacique Condá, que é o guia de nossa expedição e nosso intérprete com os índios Coroados.
Fagundes dos Reis apertou a mão de cada um deles:
— Senhores, me alegra saber que vêm da parte do meu dileto amigo, o capitão Rocha Loures, dos Campos de Guarapuava. E se me honram com sua visita, então são muito bem-vindos. Se aprocheguem e façam de minha casa com se fosse a sua.
E dirigindo-se ao cacique Condá falou:
— Capitão Condá, é imensa a alegria que tenho em revê-lo e poder recebê-lo em minha casa. Estou lembrado que já esteve aqui na nossa Vila de Passo Fundo na companhia do capitão Hermógenes. Isso de quando ele veio chefiando a expedição que procurava o desaparecido capitão Soutto-Maior. Lembro que tinhas conhecimento de umas crianças que, pelo que soube depois, conseguiu resgatar e levou para a capital da Província de São Paulo. Desde então tenho ouvido falar bastante de seu nome. Vosmecê é muito estimado como chefe indígena e Pai-Bang. E, por grande coincidência, ainda ontem um dos meus praças dos permanentes daqui de Passo Fundo, rapaz que é casado com uma indígena Kaingang, soube de rumores que o Cacique Nonoai, o grande Pai-Bang deste lado do Uruguai, está esperando uma visita sua.
O comissário Fagundes dos Reis ficou tentado a comentar sobre o ofício a que havia respondido a Pedro Cortez, na ocasião comandante do contingente dos Permanentes de Palmas. No ofício de resposta havia feito um relato sobre como andavam as coisas no povoado de Passo Fundo e, especialmente, respondia ao que Cortez perguntava em relação aos índios. Era um assunto delicado. Pedro Cortez, entre assuntos genéricos, perguntava especificamente sobre detalhes da expedição de Hermógenes e das crianças resgatadas por Condá na expedição que procurava por Soutto-Maior. Aquele ofício lhe parecera um tanto despropositado. Não era comum aquele tipo de curiosidade de uma autoridade da província vizinha. Qual o exato objetivo do comandante Cortez era algo com que não atinava, mas, suspeitava, bem poderia ser uma tentativa de inculpar Condá de alguma forma. Por isso decidiu que aquele não era o momento para falar no assunto.
O alferes Rocha Loures retomou a palavra e foi direto ao assunto:
— Excelência, tenho comigo as ordens do governo imperial para abrir um picadão que possa ser usado pelos tropeiros que seguem desta província no rumo de São Paulo. Este caminho será custeado pela Província de São Paulo e já foi feito um entendimento entre os presidentes paulista e gaúcho.
— Perfeitamente, meu caro alferes. Já recebi informes sobre o isso. E terei a maior satisfação em ajudar em tudo o que estiver ao meu alcance.
— Fico muito grato. E digo, com satisfação, que nesta viagem já viemos de Guarapuava por um novo caminho que atravessa o Rio Uruguai no Passo do Goio-En.
O comissário olhou com interesse para aqueles três personagens que o visitavam. O cacique Condá ele já conhecia, mas os outros dois o impressionaram positivamente. Que eram homens afeitos à vida rude da fronteira ele não tinha dúvida. Ao saber pelo alferes Rocha Loures que ele e João Cypriano eram, ambos, filhos de Antônio da Rocha Loures, não apenas ficou agradavelmente surpreendido como sentiu imediata simpatia pelos forasteiros. Sabia da importante posição de Antônio da Rocha Loures em Guarapuava e lembrava que o velho Rocha Loures fizera parte daquela infausta expedição em que havia desaparecido o índio Jonjong, um acontecido de muitos anos antes, em um tempo em que ali só havia campo e mato.
— Se acomodem em minha casa, boa gente. E vamos nos assentando que tenho aqui um bom mate. Enquanto me contam tudo, vou mandar servir um almoço, porque devem estar famintos e desejosos de uma boa comida de forno e fogão.
Os visitantes não podiam ter notícia melhor, já que estavam, de fato, famintos. E uma boa comida caseira, feita em fogão de verdade, como aquela que enchia o ar de apetitosos aromas, vinda da cozinha da casa, não era para ser menosprezada. As bocas já faziam água, antecipando o almoço. Contavam-se em muitos os dias em que não haviam comido nada que não fosse charque com feijão cozido no tripé. Se os visitantes haviam bem impressionado o comissário, a recíproca era igualmente verdadeira. A receptividade calorosa e o jeito amistoso dele conquistaram os visitantes de imediato. O alferes, seu irmão e o cacique Condá ficaram logo à vontade. Acomodaram-se nos bancos de madeira toscos, mas acolhedores, e logo que se abancaram viram ser servida a refeição que lhes havia aguçado o apetite. Depois de comerem em silêncio, homenagem da fome àquele almoço que lhes acariciava o estômago e que lhes lembrava como uma comida bem-preparada podia ser apetitosa, tentaram levar a conversa sobre o caminho que estavam interessados em construir.
Mas antes de poderem falar sobre sua missão, o comissário se antecipou contando da Revolução Farroupilha:
— Amigos, antes de me darem ciência do propósito de sua vinda deixem-me falar-lhes da Revolução Farroupilha e de como estamos aqui em Passo Fundo. A luta, nestes pagos de Deus, foi prolongada e terrível. Atingiu a todos. Cada um dos que viviam aqui teve de pagar o preço que toda a guerra cobra dos dois lados. Vidas foram ceifadas, lágrimas foram abundantes e sonhos foram destruídos. Felizmente, a revolução acabou, faz poucos meses, mas parece que faz anos. Estávamos todos exaustos de pugnas, confrontos, confiscos, miséria e uma mortandade inútil e estúpida. Vosmecês, que são nossos vizinhos do Norte, devem ter sabido que aqui, na povoação de Passo Fundo, sofremos uma barbaridade. A Revolução Farroupilha, no começo, parecia ser uma luta justa, mas acabou se tornando um rosário de sofrimentos e foi uma dura prova para os que ficaram na região. A verdade é que sempre sofremos os efeitos das disputas entre portugueses e espanhóis, que vêm de mais de dois séculos. Nossa gente sempre teve que suportar o peso da defesa do país. E nada recebeu em troca. Pelo contrário. O governo central passou a cobrar impostos pesados sobre os nossos produtos como charque, erva-mate, couro, sebo, graxa e outros. Esta taxação exagerada começou lá por 1820. Depois, no início da década de 30, o governo aumentou ainda mais as taxas sobre o charque de nossas charqueadas e, ao mesmo tempo, criou incentivos para a importação do produto do Prata. E, como se isso fosse pouco, aumentou a taxa de importação do sal, que é indispensável para fazer o charque. Ficou impossível produzir. Em meio a tudo isto, também havia os românticos e idealistas que queriam acabar com o império e instalar uma república. – Fez uma pausa e coçou a barba, como para preparar os seus convidados – Tudo o que havíamos construído aqui, em anos de esforço, foi sendo arrasado dia após dia. O povo ficou dividido entre amigos e inimigos. As famílias se desintegraram. Uns lutando contra os outros. Eu mesmo sofri na pele as maldades que o destino aplica aos que se digladiam. Tanto para os que têm razão quanto para os que não têm. E, no caso, acho até que os dois lados tinham sua parte de razão. É a velha história: quando a cabeça não pensa, o corpo padece. O fato é que acabei sendo preso e amarguei uns tempos na prisão do império. Não estou me queixando. Apenas digo o que aconteceu. Não fiz nada de errado, nem confrontei o império, nem maldisse o imperador, que sempre admirei. Fui envolvido, já que fiquei com meus confrades maçons que apoiaram a Revolução Farroupilha. Assim, por ironia, acabei indo contra confrades que ficaram do lado do imperador. Ironias da vida e troça dos demônios que fomentam as guerras. Mas agora, com a paz do Poncho Verde e com o Conde de Caxias no comando da província, tudo está mudando. E o presidente vem fazendo maravilhas para consolidar a paz. Está estimulando o progresso e fazendo obras que há muito carecíamos. Vem abrindo estradas e ajudando a implantar escolas e tudo mais. Só temos a agradecer ao bom Deus que a guerra acabou e que nosso presidente seja, a um só tempo, um grande general e um grande conciliador. Digo tudo isto para falar que agora estou inteiramente ao seu lado, apoiando tudo o que posso com minhas modestas forças.
O alferes Rocha Loures acompanhou a explanação do comissário com vivo interesse e falou de sua perspectiva sobre a Guerra dos Farrapos:
— Imagino o sofrimento que os Sul-rio-grandenses aguentaram, mas nós, da outra banda do Rio Uruguai, nos Campos de Guarapuava e nos Campos de Palmas, na província paulista, também sofremos os efeitos deletérios da refrega dos farroupilhas. O que sofremos não foi um padecer direto. Foram as oportunidades perdidas. Foi um desgosto pelo que poderíamos ter conseguido juntos. Foi um sentimento de amargura pelo desperdício de vidas preciosas. Para nossa sorte, os poucos combates do lado Norte do Rio Uruguai foram travados na região de Lages e em Laguna, no litoral de Santa Catarina, mas, ainda assim, a revolução resultou em tribulações e num grande atraso. A revolução dos farrapos criou grandes incertezas. Incertezas são um fato da vida que precisa ser aceito, mas o seu efeito é paralisar o progresso. Foram dez, quinze anos de paralisia. Quinze anos gineteando com uma mão amarrada nas costas. A luta no Sul não era nossa, mas nos impedia de crescer. Estávamos limitados a esperar que a conflagração se resolvesse. Tirando as orações e preces, não tínhamos nem forças nem meios para nos envolver na disputa. Enquanto a Revolução dos Farrapos manteve a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul conflagrada, tudo o que podíamos fazer era esperar. Todo dia víamos boas oportunidades surgirem e, depois, irem embora rio abaixo.
— Pois é – concordou o comissário. – Mas são coisas da vida. Toda guerra é um conflito de quereres. Uns querem uma coisa, os outros querem outra coisa e, quando os dois lados não se entendem, o caldo engrossa e o tiroteio começa. Quando começou a revolução, os revolucionários em armas eram mais numerosos que os imperiais. Mas, pessoalmente, nunca duvidei que, se os imperiais levassem a luta em frente, acabariam por prevalecer. Estive no Rio de Janeiro uma vez. Conheci a capital do império e ainda tenho contatos com o governo imperial. Igualmente estive em São Paulo e, de vez em quando, vou até nossa capital provincial, Porto Alegre, onde, regularmente, presto contas de meu ofício como comissário. Por isso sabia de primeira mão com quais meios e forças os dois lados se enfrentavam. O governo imperial dispunha de maiores recursos, um exército muito mais numeroso, com oficiais experientes e praças profissionais e, sobretudo, tinha a Armada Nacional do Império. A Marinha foi a força que, ao fim e ao cabo, deu a vitória ao governo central. A armada do imperador patrulhava toda a costa de nossa província e fechava a entrada ao nosso porto de Rio Grande. Era um ferrolho intransponível. O porto de Rio Grande bloqueado era asfixiante para nossa economia. De Marinha mesmo, tudo do que nós acabamos por dispor, pateticamente, foram os dois lanchões do Garibaldi e do Canabarro. Era Davi contra Golias, com a diferença que éramos um Davi frágil contra um Golias portentoso, que não se deixaria surpreender em um ataque por descuido. Aliás, salvo os milagres, Davi só ganha de Golias na Bíblia. Na vida real pode apostar que nove em dez vezes dá Golias. Depois, estrangulados pela falta de acesso ao mar e com o desenrolar dos acontecimentos que nos desfavoreciam e, ainda mais, com o andamento da guerra de desgaste patrocinada pelo governo central, os farroupilhas foram ficando em desvantagem. Tivemos algumas vitórias emblemáticas, como quando derrotamos, aliás, para ser justo, quando os índios Kaingang derrotaram as forças de Labatut, que foram sendo hostilizadas dia sim e dia não até se desfazerem em Cruz Alta. Quando passaram por aqui, em Passo Fundo, já estavam depauperadas e aos frangalhos. E então, antes de poderem se recuperar, receberam ordens para seguir para Cruz Alta. E, acreditem se quiserem, para retomarem a cidade que estava nas mãos dos melhores soldados dos Farroupilhas. Vamos reconhecer a verdade. A ordem foi de uma crueldade sem medida. As forças imperiais de Labatut, esgotadas e exauridas, ao aceitarem a ordem de seguir para Cruz Alta foram para o sacrifício. Do jeito que estavam, com o comandante seriamente doente, desorganizadas, sem armas nem munições, sem cavalhada e sem muares de carga e sem suprimentos, só aceitaram a ordem de marcha para irem ao encontro de um fim digno, ainda que inescapável. Avançando em campo aberto, na região com poucas matas, alguns capões e predominância de coxilhas de vegetação rala, os soldados mal armados, doentes, abatidos e maltrapilhos se sabiam presas fáceis. E, de fato, abandonados à própria sorte, acabaram dizimados pelos Kaingang.
E continuou…
— Contudo, o império abandonou Labatut porque não dependia de suas tropas. Labatut foi descartado. O Império dispunha de efetivos muito mais numerosos. Seu poderio era muito maior que o dos farroupilhas. O imperador tinha as forças do país inteiro. Forças que podia recrutar, quando e como quisesse, e enviar para combate. Assim, era evidente que, decidido a vencer a qualquer custo, ia acabar prevalecendo. Porém a chegada do Conde de Caxias foi o divisor de águas. Homem providencial e com estatura de estadista, patriota, maçom que logo conquistou o respeito dos maçons do Sul que apoiavam a revolução, galvanizou o apoio dos partidários do império e conquistou, de imediato, grandes parcelas de farroupilhas cansados de guerra. Sua postura, digna e íntegra, traçou o destino dos Farrapos. Caxias era um general competente, porém, mais do que isso, era um líder de escol. Sob seu comando, firme e escorreito, a província passou a viver um novo momento. Eu mesmo, alinhado com meus confrades maçons, concluímos que continuar uma luta inglória era infligir mais aflição ao nosso povo. Daí que tomamos posição e nos colocamos ao lado de Caxias. Além disso, aos que preferem números, Caxias tinha com ele mais de 12.000 homens do Exército, bem-organizados, bem treinados, bem equipados e com suprimentos e munição à vontade. Do lado farroupilha o que sobrava? Tudo o que restava eram uns 3.500 esfarrapados. Peões de estância arregimentados sem treino nem cuidado. A única unidade que ainda metia medo eram os Lanceiros Negros, do Canabarro. Era um batalhão de ex-escravos e escravos fugidos que lutavam com bravura, com a intrepidez dos que nada tinham a perder. Eram valentes e imbatíveis, mas eram menosprezados. Guerreiros altivos e generosos que, um dia depois de desarmados pelo patife do Canabarro, foram traídos e trucidados covardemente. Uma página a lamentar na história farroupilha. Mas temos de reconhecer que o Conde de Caxias não se tornou marechal por acaso. É o melhor comandante militar do império. Oficial arguto e competente, estudou e entendeu a lógica da Guerra Farroupilha. Assim, a primeira coisa que fez foi adotar um estilo de combate parecido com o das “companhias de guerrilha” dos farrapos. Os conflitos no Brasil Colonial sempre foram diferentes dos grandes embates da Europa. Caxias sabia como usar os recursos de que dispunha, era um general afeito a lutar com o que tinha à mão. E aqui, no Sul, aprendeu a lutar aperfeiçoando a guerra de guerrilha e preparou suas tropas a não se deixarem surpreender por táticas farroupilhas como os “ataques de trovoada”.
— “Ataques de trovoada”? – Estranhou o alferes Rocha Loures – Nunca ouvi falar nisso.
— Pois exatamente, “ataques de trovoada”. – Continuou o comissário Fagundes dos Reis – Esta era uma das muitas táticas que os farrapos usavam para surpreender e enganar os imperiais.
João Cypriano, que usualmente deixava ao irmão mais velho falar em nome dos dois, desta vez não se conteve de curiosidade e perguntou?
— Excelência, me desculpe, mas como eram esses ataques?
O comissário esboçou um sorriso. Essa era uma tática que pouca gente conhecia, mas que tinha sido muito usada pelas forças farroupilhas e com grande sucesso.
— Sua curiosidade é muito justa. Esses ataques eram assombrosos. Aconteciam de noite e sem aviso. Eu mesmo testemunhei um desses. Como já sabia de sua existência e estava em posição privilegiada, logo vi do que se tratava, mas os soldados imperiais eram surpreendidos e arrancados do sono por aquela barulheira infernal. Apavorados, não havia quem os segurasse. Aterrorizados, fugiam como o diabo foge da cruz. Eu vi, com meus próprios olhos, como meia dúzia de soldados farrapos e alguns pangarés capengas conseguiam produzir um estrondo que se ouvia longe e que causavam mais estrago que muitas companhias bem treinadas e equipadas. A verdade é que os “ataques de trovoada” eram feitos por cavaleiros bem treinados, que sabiam quando e onde atacar. Eram muito bem-preparados e quase sempre logravam assustar os imperiais, que eram apanhados de surpresa. Seu efeito era tal que, como eu disse, levava os soldados a ficarem em pânico e eram quase infalíveis em assustar a cavalhada. Quase sempre os cavalos das tropas, que eram sorrateiramente libertados pelos farrapos, se assustavam tanto que até fugiam, deixando os imperiais a pé.
A técnica desses ataques requeria de 10 a 15 animais que puxavam os “quadrados de trovão”, que eram arrastados no chão seco e irregular. Esses tais “quadrados de trovão” eram molduras de troncos de madeira que mediam de 1,5 metro a 2 metros de lado, com os cantos solidamente presos com presilhas. Por cima dos quadrados era esticada uma cobertura de couro de ovelhas curtido, amarrada e bem retesada, que funcionava como pele de tambor. Os quadrados tinham as peles esticadas nos quatro lados por tiras de couro trançadas e eram arrastados cerca de 2 metros atrás das patas traseiras dos animais. Os cavalos puxavam os quadrados por meio de tiras de reboque que, por sua vez, eram presas numa espécie de barrigueira colocada nos animais.
Quando chegava o momento de provocar a confusão, os cavalos equipados com os tais “quadrados de trovão” eram enxotados na direção do acampamento dos imperiais. Assim que começavam a galopar, os ribombantes trovões do apocalipse começavam a trovejar como mil temporais e a apavorar todo mundo. E, para aumentar o pandemônio das trovoadas, os farrapos espicaçavam o gado dos imperiais com varas pontiagudas para fazer com que guinchassem assustados, davam tiros para o alto, usavam chicotes de estalo, gritavam e se esgoelavam como endemoniados. Os farroupilhas tinham também uns cães enormes que eram treinados para latir e ajudar a enxotar os cavalos, as mulas e até os bois, as vacas e as ovelhas, quando havia.
Para resumir a conversa, esses ataques eram uma coisa medonha. E havia outros truques que eram usados quando possível. Muitas vezes, apanhados de supetão, quase sempre durante o sono da madrugada, os soldados imperiais que entravam em pânico e deitavam a correr tropeçavam em armadilhas de cordas esticadas na entrada das matas e caiam uns sobre os outros. Também eram arremessadas bombas de penas de galinha que voavam em meio à confusão. Enfim, a desmoralização acabava com o moral dos soldados e eram pernas pra que te quero atropelando mato adentro e ribanceira abaixo. Os que não morriam do coração sumiam de vista por uns bons tempos.
O comissário Fagundes dos Reis contava o “causo” gesticulando e arremedando a estripulia dos imperiais em fuga. Os visitantes riam a mais não poder. Deveras, devia ter sido muito engraçado.
O alferes Rocha Loures falou pelo grupo:
— Mas que barbaridade de buchicho. Quase me esborro de tanto rir só de imaginar a confusão de correria da soldadesca assustada. Que o bom Deus me perdoe por achar graça da desgraça alheia, mas, agora que não temos mais a ameaça de novas “trovoadas do diabo”, acho divertido imaginar centenas de soldados correndo com as calças na mão, ziguezagueando tontos pelas coxilhas. Me desculpe por fazer troça dos infelizes, mas a excelência bem há de saber que queimação de urtiga no fundilho dos outros é refresco. O que me parece é que guerrear com os farrapos deve ter sido muito sofrido. Como falei, para nossa sorte, do lado de lá do Uruguai, os farrapos só deram uma passada por Laguna e fizeram uns estragos em Lages, enquanto nós, em Guarapuava e em Palmas, só tivemos notícias deles de segunda mão, meio requentadas.
O comissário assentiu:
— Pois é assim mesmo, caro alferes. Nada é mais tristemente humano do que rir da desgraça alheia. Quando o homem ri da desgraça dos outros ele está aliviando-se da angústia de pensar que as coisas ruins poderiam ter acontecido com ele. Mas não é bom rir da desgraça alheia. Às vezes essa atitude desrespeitosa atrai o mal para nós mesmos. Infelizmente, reconheço que é fácil que qualquer guerra vire coisa engraçada para quem não participa dela. Agora, para aquele que está enfiado no meio da refrega, padecendo na agonia e na mortandade, mesmo a efêmera alegria da vitória dificilmente compensa o desgosto das perdas, a tristeza e o sofrimento pelo que se vai.
João Cypriano, de sua parte, ouviu o desabafo sem interromper, mas naquela hora não tinha disposição para pensamentos lúgubres. O que estava aguardando era uma brecha para entrar na conversa. E foi o que fez perguntando:
— Peço que perdoe minha curiosidade de forasteiro recém-chegado, mas como estão as coisas hoje? Como estão arregladas as coisas agora? Como andam os negócios por aqui? Eu estou pensando em vir me estabelecer por estas bandas.
João Cypriano estava, de fato, menos interessado nas estropelias dos farrapos, coisas do passado, do que em saber detalhes da situação dos negócios na região de Passo Fundo. Ele acalentava o projeto de se estabelecer por ali. Estava convencido que explorar as oportunidades de negócio que iriam surgir com a abertura do novo caminho seria não apenas vantajoso para seus negócios, como também uma forma de obter seu lugar nos negócios da família. Para ele, que estudara o sucesso de outros empreendedores, quem chegava na frente ficava com o melhor quinhão. Ele tinha visto isso acontecer em Guarapuava e nos Campos de Palmas. Agora vislumbrava a oportunidade de ser ele o primeiro a instalar invernadas no novo caminho. E queria agarrar a oportunidade com unhas e dentes. Sua família tinha fazendas e tropas desde os Campos de Palmas, passando por Guarapuava até Castro. Agora era chegada a oportunidade de sua geração entrar nos negócios e expandir a presença dos Rocha Loures na Província do Rio Grande do Sul. Instalando-se na região de Passo Fundo ele iria abrir uma nova frente e ganhar o seu próprio espaço. Porém, precisava apressar-se. Ser rápido e determinado faria toda a diferença. Ser o primeiro significava obter as melhores áreas para as invernadas de modo a estar bem localizado, na beira do caminho em construção. E, claro, contava com a ajuda de seu irmão para ganhar a primazia que almejava.
O comissário Joaquim Fagundes dos Reis, sempre homem de grande perspicácia, detectou a ambição palpitando no coração do jovem, mas não se fez de rogado. Gente ambiciosa são como pássaros de asas grandes. São esses os pássaros que voavam alto. A ambição saudável era auspiciosa, reconhecia, pois ela é que fazia o mundo mover-se. E lembrava-se de suas próprias aspirações na juventude. Foram os sonhos daqueles anos que o haviam levado a plantar suas raízes no planalto. Tinha a lamentar que a revolução houvesse frustrado e roubado anos de seus sonhos. Mas seu entusiasmo sobre o futuro do Rio Grande do Sul e dos Campos do Planalto Médio continuava intacto. E continuava ilimitado. Portanto, ao se deparar com um jovem cheio de esperanças e ambições projetadas na região, alegrava-se e faria o que pudesse para encorajá-lo. E se o jovem estivesse disposto a escutá-lo, ainda mais, se estivesse disposto a encampar suas aspirações frustradas, então seria capaz de falar por horas.
Começou por abordar o recente acordo de Poncho Verde, que pacificava a província e dava fim à Revolução Farroupilha. Ressaltou as qualidades de estadista do presidente da província, seu admirado confrade maçom Conde de Caxias. Da prioridade que este vinha dando para o progresso da província, do esforço que fazia para promover a educação e para estimular as iniciativas da interiorização e da construção de estradas e pontes. Ressaltou sua iniciativa na promoção das obras civis, nas quais multiplicou as verbas por seis, de 48 para 296 contos de réis, colocando em execução o alargamento das picadas dos matos Português e Castelhano e a abertura das estradas de Mundo Novo a Vacaria e de Rio Pardo para Cruz Alta, atravessando a serra. Obras que, sabia com certeza, mudariam a face da região. Tudo isso ao lado de novos estímulos e facilidades para futuros empreendimentos. E tudo o que falava ampliava o interesse de João Cypriano, que via confirmadas as suas expectativas. Ali haveria um surto de prosperidade muito em breve.
O comissário, por seu lado, achava graça na desabrida ambição do jovem e folgava em também partilhar da visão de futuro que o movia. João Cypriano deixava entrever que queria se tornar um estancieiro, queria ter posse de terras e explorar grandes áreas. Se fosse isso mesmo, Fagundes dos Reis ficaria feliz em dar seu apoio. Mas ponderou ao jovem que dispor de invernadas era tão somente parte da equação. Havia que dispor de oficinas e serviços de apoio aos tropeiros. Se João Cypriano conseguisse atrair interessados para as atividades de suporte, aquele poderia ser um lance valioso para fazer a região florescer.
— Meu caro jovem amigo, digo isto a ti, que tens a idade para ser meu filho: esta região tem tudo o que Deus dá a quem quer abençoar. Aqui existem terras férteis, relevo favorável, matas e campos, clima ameno, tirando algumas geadas no inverno, chuvas bem distribuídas, rios e cursos d’água e uma natureza abundante, cheia de promessas a quem acreditar nelas. Eu conheço outras terras e outros rincões de Deus, e poucos são comparáveis a este chão que temos aqui. Por isso sei que aqui vai haver grande crescimento e um futuro de enorme riqueza. O tempo me foi traiçoeiro e, de um lado, a década perdida com a revolução e, de outro, os anos que já me pesam são circunstâncias que traçam a linha que limita os sonhos que ainda posso alimentar. Ainda sonho ver o progresso florescer no planalto, mas mudaram as coisas que eu mesmo ainda possa fazer. Já a ti, se ficares aqui, terás à tua frente os mais vastos horizontes e as mais ricas oportunidades. Toda esta região, a começar aqui de Passo Fundo, incluindo toda a região do Planalto Médio e se estendendo ao vale do Rio Uruguai, está destinada a ser um imenso celeiro. Esta região é bem-aventurada e vai se tornar tão fértil como o Jardim do Éden. Tivemos o infortúnio de retroceder durante a Revolução Farroupilha. Foram anos desperdiçados, anos em que esta região sofreu em meio ao fogo cruzado dos dois campos. Mas a paz sobreveio e nos abre agora uma nova era em que, tenho certeza, tudo vai mudar. Apostei minha vida e meu destino nestes campos e coxilhas abençoados. Vim para cá antes da revolução e posso dizer ao amigo que, mercê de Deus, as bênçãos do progresso voltarão a sagrar estes pagos com abundância, fartura e crescimento. O desenvolvimento ficou represado, é preciso que se diga, mas o progresso da humanidade é cheio de sobes e desces. Tenho certeza de que as amarras em breve vão se soltar e os bons tempos hão de voltar. Isto a mim parece tão certo como o sol ressurgir depois das trevas da noite.
A mulher do comissário, Emília Francisca de Borba, veio avisar que o almoço estava pronto. O anfitrião, então, convidou os visitantes para o seguirem e os conduziu até o lavatório, onde uma mesa laqueada tinha sobre ela uma bacia de louça e, ao seu lado, uma ânfora gomil do mesmo material, formando um delicado conjunto de peças que eram um luxo raro naquelas paragens.
Para o asseio cada um tinha as mãos molhadas por uma mucama que entornava a água da ânfora, depois as ensaboava com um sabão campeiro, rústico, mas capaz de tirar as sujeiras mais entranhadas. E novamente a escrava jogava água sobre as mãos para tirar o sabão e a sujeira. Lavar-se com sabão era outro luxo da casa do comissário. O mais usual seria lavar as mãos com bolsas de pano cheias de cinzas. Essas eram molhadas em água e depois passadas nas mãos e no rosto. Ao usar o sabão e sentir em sua maciez o quanto ele representava de avanço sobre os precários saquinhos de cinza, o alferes lembrou do espanto que teve quando, não muito tempo atrás, soube que até o fabrico de simples sabão para venda no mercado tinha sido proibido no país durante o período colonial. Tudo tinha de ser comprado por intermédio de Portugal. Ou dos ingleses, depois da abertura dos portos às nações amigas, após a vinda de Dom João VI. As famílias, para conseguirem sabão, o produziam elas próprias. Ou o compravam no mercado negro.
Enquanto lavava as mãos Rocha Loures comentou o assunto com o comissário. Este riu e lhe disse que sua mulher tinha grande prática no fabrico do sabão. Explicou que o sabão da casa era feito com sebo de origem animal, misturado com a adição da lixívia das cinzas de madeira, que era obtida com a mistura de cinzas com água de chuva. As cinzas eram colocadas em telhas e molhadas regularmente com a água. Quando a lixívia se formava, escorria e era coletada em vasilhas de barro. Daí era só misturá-la com o sebo em um tacho e colocar no fogo para aquecer. Assim que se faziam os sabões que usavam na casa.
O alferes Rocha Loures estava agradavelmente surpreso com o bom clima da acolhida. Em minutos a dona da casa preparou um almoço tão apetitoso como os mais sofisticados de que lembrava ter desfrutado. No preparo da comida foi ajudada por sua espevitada mucama, uma escrava adolescente, mas que vestia roupas limpas e sandálias de couro. As cestas de frutas silvestres, cuidadosamente dispostas no aparador, eram de taquara trançada, feitas por artesãs Kaingang e belamente coloridas. As travessas de alimentos eram de cerâmica indígena, de estilo guarani, os pratos, porém, eram de porcelana alemã, os copos, de cristal da Bohemia e os talheres, de alpaca alemã. Aqueles, muito provavelmente, não seriam os pratos e talheres do dia a dia. O alferes e seus dois companheiros perceberam que eram recebidos com uma mesa de banquete, com o melhor apuro e a maior deferência. Vaidade à parte, era agradável sentir aquele acolhimento.
Antes da refeição, o comissário Fagundes dos Reis, que era homem de religião e fé, pediu a todos que levantassem, baixou a cabeça e fez uma oração dando graças. Tão pronto terminada a oração, todos sentaram alegres, antecipando a refeição cujo aroma se espalhava pela casa. A título de abrir o apetite – não que fosse preciso abrir um apetite que já quedava escancarado –, o anfitrião serviu uma generosa dose de sua famosa “aguardente do comissário”, uma especialidade já conhecida e reputada entre os viajantes que por ali passavam. O dourado aperitivo do comissário era envelhecido em barris de carvalho europeu, preciosas peças que havia conseguido recuperar desde as adegas dos espanhóis aquartelados nas Missões.
O charque, o alimento mais comum no Sul do país, vinha acompanhado de arroz, feijão-preto, batata-doce e bolinhos crocantes de mandioca e milho. O milho era também o ingrediente usado no pão assado em forno de barro. Famintos, comeram em silêncio. Ao término do almoço, a mucama chegou com a sobremesa. E foi outra deliciosa surpresa: uma geleia de jabuticaba com nata. A geleia, de bela cor de vinho, estava coberta por uma camada de nata branca, alva como a neve. Era uma combinação como nunca haviam experimentado. Um “néctar dos deuses”, foi como definiu o alferes após uma generosa colherada. Depois de comerem e beberem – “pantagruelicamente”, como definiu o alferes, ao agradecer para a dona da casa – e de estarem devidamente saciados com o bom e o melhor, além de alegrados pelo esplêndido vinho da adega do comissário, vinho que encomendava a tropeiros que subiam da Argentina, sentiram-se cheios do bom humor e com grande disposição para prosear sem compromissos. Chistes e piadas afloravam, e anedotas corriam soltas sobre os mais variados assuntos. As horas passaram voando até que, enfim, o sol se pondo e o cansaço os levaram a que cogitassem sobre acomodações para passar a noite.
O comissário convidou-os a que ficassem por ali mesmo e se hospedassem em um dos cômodos da casa, que dispunha de uma edícula com um quarto coletivo destinado aos funcionários e agentes do governo que por ali passavam. Seria uma acomodação provisória para aquela noite. A povoação ainda não tinha um hotel e os viajantes hospedavam-se à moda tropeira na fazenda de Manoel José da Neves. Nesse local, os forasteiros eram acomodados em um celeiro adaptado, que dispunha de estrados com colchões de palha cobertos com mantas de couro curtido. Ali os tropeiros dormiam sobre os arreios, cobertos com o poncho ou a capa.
Antes do jantar os hóspedes de Fagundes dos Reis aproveitaram uma grande tina de madeira usada como banheira e tomaram um banho quente, prazeroso e relaxante, que os preparou para uma noite memorável. Depois de um jantar mais leve, à base de pinhões e bolo de fubá com mel, tiveram o privilégio de desfrutar de uma gloriosa noite de sono em camas com colchões de crina, lençóis de morim, travesseiros estofados de penas de ganso e cobertores acolchoados de lã. Sentiram-se como nobres do palácio de imperador. Provaram a maciez dos edredons e o leve aroma dos lençóis limpos e dormiram felizes e despreocupados. No dia seguinte, acordaram com o cantar do galo. Espreguiçaram-se para ainda uma vez sentirem a maciez dos colchões.
— Buenos dias, João. Dormiste bem? – perguntou Francisco da Rocha Loures a seu irmão.
— Buenos dias, Francisco. Dormi divinamente. Tanto que nem ouvi teus roncos! – Respondeu João Cypriano.
Condá, também saindo da cama, riu da conversa. Apalpou o acolchoado que o cobrira durante e noite e, mais uma vez, reconheceu que a cultura dos brancos era muito cheia de atrativos. Precisava aprender com eles.
Logo ao saírem do quarto foram recebidos pelo comissário, que os convidou para matearem na cozinha da casa. Ali foi servido também um desjejum com ovos, toucinho e bolos de milho com mel. Depois de comerem o alentado estoque de bolinhos servidos, Fagundes dos Reis sugeriu que fizessem um rápido reconhecimento das redondezas. Ele tinha tarefas burocráticas a realizar no escritório. Mas se ofereceu para, na parte da tarde, levar os visitantes a conhecer a povoação.
Os irmãos Rocha Loures e o cacique Condá almoçaram com o comissário e com sua mulher. Durante a refeição, o alferes contou de seus planos de ir falar com o cacique Nonoai. Explicou que tentaria um entendimento com o chefe indígena, o que considerava como essencial para garantir a segurança da estrada. Tentaria conseguir que os Kaingang de Nonoai, ele e seus caciques auxiliares, aceitassem fixar-se em um aldeamento como os que já existiam em Campos de Palmas e Guarapuava. Se conseguisse sua adesão, formataria uma proposta a ser levada ao governo da província. O comissário interveio:
— Se conseguir uma concordância do cacique Nonoai, tenho certeza de que nossas autoridades vão aceitar também. Já se fala em aldear os índios como a melhor solução tanto para eles quanto para os brancos. O governo deseja promover a cristianização e a civilização dos bugres coroados. De minha parte, acho que um aldeamento pacificaria os índios e facilitaria a liberação de terras para a agricultura.
O cacique Condá entrou na conversa:
— Sim, vamos conversar com o Pai-Bang Nonoai e mostrar as vantagens de aceitarem um aldeamento. Isso seria bom para todos os índios fonk indoni, os índios de nossa tribo que muitos brancos chamam de bugres coroados, que estão espalhados por toda a região. Muitos deles vivem ainda em pequenos grupos seminômades liderados pelos rekakê-pai, caciques auxiliares de Nonoai, que vivem em estado de guerra permanente. As rivalidades sempre existiram entre os Kaingang por causa da disputa pelas melhores áreas para a colheita do pinhão. Quando um grupo invadia a terra dos outros o grande Pai-Bang mandava parar as visitas de amizade com os invasores e todos sabiam que precisavam se preparar para a guerra. Mas com a chegada dos brancos essas rivalidades são tolas. Os brancos cortam os pinheiros e existe muitos lugares em que até os pinheiros com as marcas da tribo já se foram.
O comissário Fagundes dos Reis sinalizou com a cabeça sua concordância:
— Pois é, meu caro cacique. Temos de parar de brigar com as mudanças inevitáveis e deixar a realidade ser a realidade. Não podemos impedir a chuva, mas podemos buscar abrigo numa cabana. Os índios fariam bem em aceitar a mão estendida do governo. Hoje o governo é amigo. Amanhã pode não ser.
— É muito verdade. – Concordou Condá, pensando em gente como Domingos Ignácio e Pedro Cortez.
Terminado o almoço, saíram para apanhar os cavalos que estavam abrigados no estábulo próximo. Depois de encilharem as montarias e vestirem os ponchos, porque ventava e fazia um frio tiritante naquele dia de inverno, o grupo seguiu por entre as ruelas que saíam da rua principal. Viram, no amplo panorama do planalto, que, de fato, havia diversas casas novas em construção, enquanto outras estavam sendo reparadas após terem sido abandonadas durante os anos turbulentos da revolução. Visitaram a Fazenda de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, de Manoel José das Neves. No local, acertaram que o grupo de operários da construção da estrada ficaria acomodado nela quando chegasse à cidade. Continuaram circulado pelos núcleos habitados até alcançar as margens do Rio Passo Fundo. Ali, desmontaram para aproximarem-se rio. Desejavam olhar suas águas e conhecer suas características.
O Comissário Fagundes dos Reis esperou que se achegassem e falou sobre o rio e sua importância para o futuro da região:
— Amigos, esse é o Rio Passo Fundo, o nosso rio mais importante. Ainda tem muitos que o chamam pelo nome indígena de Uruguai Mirim. Ele nasce no Mato Castelhano e segue para o Norte, onde, depois de percorrer umas 100 léguas, ao que dizem, já que eu mesmo nunca medi – gracejou o comissário –, vai desaguar precisamente no vau do Goio-En. Daqui para baixo o rio segue sinuoso, cheio de voltas, e desce por uma região que se torna mais e mais acidentada. Suas margens são de mata, com algumas clareiras. Então não dá para seguir a cavalo. E o rio também não favorece navegar longas extensões com canoas.
— Sim, foi o que nos disse nosso pai. – Anuiu o alferes, e continuou – Por isso penso seguir pelo mato com alguns dos nossos operários e mais alguns índios de Condá. Eles devem estar chegando em mais uns poucos dias, porque estão ainda abrindo, aplainando e demarcando o caminho, além de estarem vindo devagar por causa das mulas de carga.
— Serão bem-vindos aqui no Passo Fundo. – Assegurou o comissário – E, a propósito, acho que foi uma boa solução eles se alojarem na Fazenda Nossa Senhora da Conceição. Lá vão poder ficar em segurança, além de deixarem protegidos os cavalos e mulas.
— Sim, acho que foi uma boa escolha. Obrigado. E será muito bom para a nossa comitiva poder descansar um pouco. Como há de saber, abrir picadas e caminhos é trabalho pesado. – Foi a resposta do alferes.
O comissário continuou:
— Se estiver de acordo, eu gostaria de recomendar que levasse no grupo um dos meus praças. O soldado Castilho é de minha confiança. Ele é casado com uma índia nativa e, por isto, tem bons contatos com os parentes Kaingang de Nonoai. Ele fala um pouco da língua dos índios e até já esteve nas aldeias do cacique para visitar a família da sua mulher.
— Excelência, sendo sugestão sua, já está aceita. E fico agradecido. – Respondeu o alferes, que continuou – Preciso de toda a ajuda que puder me oferecer.
O comissário retomou a palavra para acrescentar:
— E quando estiverem com o cacique Nonoai, gostaria de sugerir que tentem negociar também uma passagem direta do Goio-En pelo lado ocidental do Rio Passo Fundo. Se ele concordar, será possível uma outra rota, um pouco mais a Oeste, ainda mais curta do que pelo Vale Dourado. Acho que o caminho pelo Vale será sempre mais bonito e mais agradável, mas um caminho por dentro e direto às Missões será mais curto e mais prático.
O alferes Rocha Loures olhou para Condá. O cacique balançava a cabeça demonstrando que a proposta não era de seu agrado.
Condá retrucou:
— Acho que é melhor dar um passo de cada vez. Nonoai dificilmente iria concordar. E, pior, poderia suspeitar de nossas boas intenções e comprometer um acordo. Sei que seria atraente abrir um caminho mais curto para as tropeadas que vêm de Uruguaiana e de São Borja. Um caminho da Vila de Palmas, em São Paulo, diretamente até São Borja, que penetrasse mais a Oeste, nem precisaria passar por Passo Fundo. Mas hoje ainda me parece inviável. Além disso, a região é pouco povoada e os índios que se mudaram para lá são exatamente os mais rebeldes e arredios. Se Nonoai concordasse, esses índios acabariam brigando com ele. Então é melhor dar um passo de cada vez.
Condá continuou alertando:
— Precisamos ter paciência. Quem enfia a cara no mel acaba lambuzado. Se queremos paz, precisamos primeiro mostrar que vamos respeitar os índios. Cultivar sua confiança e respeitar o tempo que é preciso para acalmar os espíritos. Os frutos precisam amadurecer antes de serem colhidos. Devemos dar tempo ao tempo. Minha sugestão é que devemos iniciar a rota de Goio-En subindo pela crista do Vale Durado e vindo para Passo Fundo. A distância para os Campos de Palmas será um pouco maior do que um curso direto, mas, por ora, é mais prático e mais seguro. Essa rota tem mais apoio, conta com o destacamento de polícia e tem boas áreas para invernadas de descanso para recuperação das tropas e do gado. Mantendo o traçado original vamos cruzar uma área pouco ocupada, com poucos índios. Ao propor essa rota, vamos demonstrar a Nonoai que não estamos tentando desalojar seus índios. O caminho mais a Oeste pode esperar. Um dia, quando o aldeamento estiver consolidado, abrir novas estradas vai ser a solução natural. Tanto para escoar gado produzido nas novas fazendas que vão surgir aqui quanta para trazer muares da Argentina e do Uruguai. Quando esse dia chegar, ficaremos com mais alternativas para o Caminho das Missões. Por enquanto, minha opinião é que não devemos forçar as coisas. Minha recomendação é consolidar o Passo do Goio-En e, após a passagem, vir para Passo Fundo subindo a encosta, margeando o Vale Dourado, e aqui, em Passo Fundo, fazer a ligação com a estrada que vai para Cruz Alta.
O comissário Fagundes dos Reis ficou um pouco embaraçado e, finalmente, concordou:
— Cacique, acho que tens toda a razão. Eu fui um tanto afoito. E suas ponderações são muito sensatas. Vamos esquecer o que eu falei.
Condá não se fez de rogado e continuou dando sua opinião:
— Tudo isso hoje me parece possível. Mais adiante sim, talvez possamos conversar com o cacique Nonoai sobre um novo caminho e chegar a um acordo mais amplo. Tudo vai depender do que o governo vai oferecer em troca. Nonoai deve estar cansado de guerra. Acho que ele também vai preferir um bom acordo do que teimar em enfrentar uma enxurrada de brancos que podem se tornar inimigos perigosos. Eu conheço seus guerreiros e sei que são valentes e destemidos. Mas combater uma multidão de inimigos que vêm com armas de fogo, que são tanto, que não vão acabar nunca e que, os índios já sabem, nunca mais irão embora, ainda mesmo que todos os Kaingang morram em batalha contra eles, significaria um sacrifício tolo e inútil. Me desculpem a franqueza, mas, nós, do povo Fonk Indoni, que os brancos chamam de Coroados, precisamos encarar os fatos de frente. Digo aos meus guerreiros que combater os fóg é como guerrear contra formigas. Os estrangeiros aparecem em nossas terras como zangões saindo de um formigueiro para a revoada. Só que não morrem depois de acasalar, como os zangões. Eles descobriram nossa terra. Por isso vieram, vêm e vão continuar vindo. – A voz de Condá começou a apresentar um tom desolado – Os estrangeiros chegam em navios de mastros altos e de muitos panos, atravessam o mar oceano desde o outro lado do mundo e se espalham tanto pela floresta como pelos campos. E lutar contra esse inimigo de número incontável seria o nosso fim. Seria o desaparecimento de nosso povo das matas e coxilhas. Das campinas e dos prados. E não haveria mais ninguém para fazer a festa do Kiki, para acender as três fogueiras e guiar nossos mortos para o paraíso.
O que Condá disse provocou um profundo impacto nos demais. O comissário e os visitantes se mantiveram em silêncio. O cacique havia dito coisas a ponderar. Lidavam com o fim de um ciclo da vida de um povo e Condá mostrava sabedoria incomum ao reconhecer que uma era findava para os Kaingang. Não era o fim do mundo. Mas podia ser o fim dos Coroados. O maior perigo era insistir em viver um tempo que não existia mais. Se seu povo aceitasse evoluir e adaptar-se às mudanças, poderia até não sair maior e mais forte. Em compensação, poderia sair vivo para viver outro dia. Diante do destino inarredável de nascer, viver e morrer, que sabiam ser inescapável a todos os seres vivos, os interlocutores se viram apossados pela percepção melancólica da impotência do homem para mudar o escrito das estrelas e os fatos da vida. Uma coisa era ouvir falar da ascensão e queda de povos distantes, estranhos, exóticos, desconhecidos. Outra era estar diante de pessoas de carne e osso. E compreender que, precisamente por serem diferentes, fariam falta ao mundo de que, mal ou bem, compartilhavam.
Haviam visto o que havia para ser visto. Após um último olhar para o rio Passo Fundo, cujas águas escureciam com o anoitecer, o grupo tomou o caminho para a casa do comissário. Ainda estava com cada um a questão do futuro dos Kaingang. Como poderiam ser cristãos se não tivessem respeito pelos bugres? Estes seriam filhos do mesmo Deus? Depois de cristianizados, seriam igualmente irmãos diante do Nazareno? E a resposta vinha para cada um na certeza de que o mundo era grande o bastante para reservar um lugar para os brancos e índios. O que sabiam, tanto os brancos quanto os índios, é que viviam tempos de grandes mudanças para aquelas matas e paragens.
Ao chegarem na casa do comissário, cada um dirigiu-se para sua acomodação. Terminado o dia, depois de encerrar as tarefas do escritório, o comissário Fagundes dos Reis mandou chamar seus convidados para um chimarrão. E sentaram todos em bancos no pátio da casa. O dia acabava, mas não acabavam as perguntas. E todos reuniram-se, ansiosos por mais uma rodada de prosa para capturarem outras respostas a suas angústias.
O anfitrião preparou o chimarrão e deu partida à conversa falando um pouco da história da região.
— Amigos, este trecho do Planalto Médio, que desce daqui de Passo Fundo no rumo Norte, até às barrancas do Rio Uruguai, é o último pedaço de chão ainda bravio da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. E isso tem uma explicação. No século passado, muitos anos antes da guerra que travamos em 1801 para a retomada das Missões, que muitos ainda chamam pelo nome de Sete Povos das Missões, aquelas povoações organizadas pelos padres jesuítas eram habitadas por Guaranis. Aquelas povoações, na verdade, eram como cidades no meio do mato. E eram comunidades organizadas e prósperas. Por isso atraíam ataques, especialmente dos bandeirantes paulistas, que queriam saquear as riquezas e escravizar os índios das Missões, que eram muito valorizados porque tinham aprendido ofícios, como carpintaria e forjaria. Eles eram hábeis artesões.
Ao mesmo tempo, para protegerem o gado das reduções e evitar que fosse roubado, os padres fizeram os índios missioneiros levar o gado para áreas mais escondidas e difíceis de achar. Muito desse gado foi escondido em meio de matas e pinheirais. O Campo do Meio, entre os Mato Português e Mato Castelhano, foi uma dessas áreas, mas uma parte desse gado foi trazida até aqui e deixada solta no Planalto, nos campos do Alto da Serra. O gado largado se criou sem predadores e se espalhou numa região que ficou conhecida como “Campo das Vinte Mil Vacas”. Surgiram rebanhos livres e soltos, que se multiplicaram pela graça de Deus e formaram os rebanhos “chimarrões”. Como era um gado de boa qualidade e resistente, que aguentava ser tropeado para o mercado paulista, tinha muito valor. É fato que valia menos do que o gado muar, mulas e burros vindos da Argentina, mas, como disse, era um gado livre, alçado e solto. Muitas vezes os paulistas desciam para caçar esses rebanhos. Às vezes levavam boiadas para Sorocaba, mas muitas vezes matavam os animais apenas para aproveitar o couro e o sebo.
O que sei é que, no tempo das missões, os índios missioneiros vinham muito até aqui para manejar aquele gado. Além disso, aqui na região de Passo Fundo tinha, como ainda tem, muitos ervais. E a erva-mate era um bem valioso, muito apreciado pelos índios Guaranis. A erva servia como bebida e como remédio, e por isso era colhida e levada em grande quantidade para as comunidades das reduções, de modo que havia sempre índios chamados “ervateiros” indo e vindo para buscar erva-mate. Os ervateiros eram quase sempre índios mais aculturados, que sabiam usar as ferramentas de corte e a bússola, e se orientavam pelo sol e pelas estrelas. Eles entravam mato adentro e procuravam trilhas e campos acessíveis às carretas e aos carros de boi. Às vezes a carga saia do mato em lombo de mulas e era transferida para as carretas. Com o tempo, marcaram essas trilhas e, durante toda a duração das Missões, nelas sempre tinha mulas cargueiras e carretas indo e vindo. Para evitar os ataques de surpresa, principalmente os que partiam dos “bugres”, que é como muitos ainda chamam os Coroados, comboios de ervateiros vinham sempre com guardas armados de sua respectiva redução missioneira. Esses guardas eram guerreiros Guaranis treinados na defesa de seus comboios, além de serem famosos por enfrentarem as onças-pintadas, que eram muito comuns por esta região.
O Comissário fez uma pausa para tomar o mate da rodada e continuou longamente:
— O que os padres queriam ao formarem as povoações e reduções era civilizar e evangelizar os índios com o fim de criar, no mundo novo, uma sociedade cristã livre de vícios.
Essas povoações eram organizadas como os Evangelhos descreviam as comunidades dos primeiros cristãos. Nelas os índios eram educados na fé cristã e ensinados a viver conforme prescreviam os evangelistas. Depois de muitas tentativas, em meados do século XVII, o modelo missioneiro já estava bem definido. Mas, na Europa, os governos da Espanha e de Portugal torciam o nariz para ele. Não gostavam nem um pouco que essas comunidades florescessem com independência dos governantes. Havia gente que achava que os índios não deviam ser cristianizados e que deviam ser feitos escravos e forçados a trabalhar para os colonizadores. Apesar de todos os problemas, as Missões foram se fortalecendo. Então, muitos colonizadores, preocupados com seu poderio crescente e até invejosos de seu progresso, começaram a acusar os jesuítas de pretenderem criar um império independente na América. A intriga, feita aqui na América e na Europa, acabou desembocando nas Guerras Guaraníticas. Essas guerras foram movidas contra os jesuítas e os índios que não aceitavam abandonar as reduções e entregar o território das sete chamadas Missões Orientais para Portugal por força do tratado entre os dois países, pelo qual Portugal entregava aos espanhóis a Colônia do Sacramento, no Prata, e recebia em troca as terras da região missioneira. Para cumprir o acordo e forçar os jesuítas e os índios a se mudarem para o lado espanhol, os portugueses e os espanhóis se juntaram e os combateram numa guerra que durou seis anos, entre 1753 e 1759. Finalmente, com a derrota dos Sete Povos e o desmantelamento das Missões, o ministro português Marques de Pombal utilizou o pretexto da resistência dos padres para expulsar os jesuítas do Brasil. O resultado foi que as missões foram extintas completamente e os padres e a maioria dos índios guaranis que sobreviveram foram forçados a se esconder ou a cruzar o Uruguai, e voltaram para o vice-reinado do Rio Prata.
Mas o mundo dá voltas. Em 1777, por disputas na política da Europa, Portugal e Espanha fizeram um novo tratado, chamado de Tratado de Santo Ildefonso. Nesse novo acordo, o território da Capitania do Rio Grande de São Pedro foi cortado ao meio, no sentido Norte-Sul, com a linha divisória passando bem próxima do Centro da capitania. Assim, a nova partição retrocedia 20 anos no tempo e a Espanha recebeu de volta a região missioneira. Acontece que o povo rio-grandense resistia e não aceitava virar castelhano. Também nunca aceitou abrir mão do que sempre considerou parte de seu país. Então aquela era uma área de muitas peleias e atritos.
A questão das fronteiras tinha ficado confusa e piorou de vez quando, inesperadamente, a Espanha declarou guerra a Portugal em 1801. Na Europa foi uma guerra-relâmpago. A “Campanha das Laranjas”, como foi depois chamada, durou um pouquito mais que um mês e alguns dias, quando os dois países ajeitaram suas contendas com o Tratado de Badajoz. Mas a notícia da guerra veio a galope e a do tratado de paz veio devagarito e demorou a chegar aqui, ao Sul. Como o ambiente já andava meio incendiado, tudo aconteceu como fogo em palha seca. Em uma questão de dias, e antes de chegar a notícia da paz acertada na Europa, o governador da província, o tenente-general Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Câmara, partiu para confrontar os espanhóis.
Daí para frente eu entrei no entrevero e dou meu testemunho pessoal. Afinal, eu vivi os acontecimentos e, por isso, podem crer no que digo. Os fatos e causos que eu conto são aqueles que vi com meus olhos. Eu ainda era um piazote quando participei da luta pela reconquista das Missões. Eu era um guri atrevido e me alistei sob as ordens de Maneco Pedroso, um guapo de um guerreiro que era meio branco e meio índio, que já tinha fama de valente por ter brigado com uma onça. As forças que lutavam com o Maneco obedeciam ao comando de José Borges do Canto, um comandante do tipo aventureiro que tinha se afastado das tropas oficiais, mas voltou às boas com os comandantes-gerais logo que veio a notícia da declaração de guerra. Com 40 homens sob seu comando, e mais um grupo de 20 combatentes sob as ordens do Maneco, saímos em combate aos castelhanos. Apanhados de surpresa, foi até com alguma facilidade que conseguimos que os espanhóis capitulassem. E, quando finalmente chegou a notícia do tratado de paz, já tínhamos retomado a posse de todo o território missioneiro. E aí não havia mais volta. Aliás, o Tratado de Badajoz nem lembrou que existíamos. O que acabou sendo bom, porque, no vazio, prevaleceu a situação de fato. Somente em 1804 acabou sendo assinado um acordo entre o vice-rei do Rio da Prata e o governador da ainda chamada Capitania de Rio Grande de São Pedro para reconhecer a nossa posse da área missioneira. Foi assim, meio no laço e no grito, que tomamos a região dos castelhanos. Depois da vitória, o Borges do Canto recebeu do governador Cabral da Câmara o título de “Restaurador dos Sete Povos”, e todos fomos promovidos ou agraciados de alguma forma. Então foi no meio daquela campanha que eu estive pela primeira vez aqui nesta região, no Planalto Médio. Anos depois, quando me ofereceram o cargo de comissário de Passo Fundo, aceitei com grande prazer e aqui estou. Eu me afeiçoei por esta terra galharda e aqui espero terminar meus dias deixando um legado de civilização e de progresso aos meus descendentes, filhos e netos.
Enquanto falava, o comissário colocou mais água na cuia e a ofereceu para o alferes, que a tomou nas mãos enquanto enaltecia aquele homem culto e letrado que escolhera plantar suas raízes naquela fronteira ainda inóspita, encarando de frente tantas e tão variadas dificuldades.
— Comissário, digo com a maior sinceridade, acho sua história e sua vida dignas de admiração. E tenho para mim que seus feitos são de muito proveito para o avanço das luzes da civilização nesta província. E agora, nestes novos tempos que estamos vendo surgir, seu descortino e sua contribuição poderão ser ainda mais decisivos para a prosperidade da região.
— Obrigado, meu caro alferes. Que Deus o ouça. Sei que é generosidade de sua parte, mas é sempre bom ouvir que estamos fazendo nossa parte para dar uns retoques ao mundo de Deus.
Aproveitando a deixa, o alferes levou o assunto de volta para o tema que lhe interessava:
— E se estiver de acordo, acho que devemos manter contato com o cacique Nonoai o mais cedo possível. Sabemos que o caminho só pode ser aberto e utilizado com um acordo com os Coroados. A questão da segurança para transitar na estrada é vital. Por isso precisamos aproveitar as condições favoráveis do momento e ir encontrar Nonoai o quanto antes. Em mais alguns dias chegará aqui a comitiva que ficou abrindo o caminho desde Goio-En. E logo Nonoai vai saber da notícia. É difícil prever como ele vai reagir. Temos de levar em conta que ele, mesmo sendo o Pai-Bang, o grande cacique, poderá ser influenciado pelos outros caciques.
O comissário concordou:
— Neste ponto estou de acordo. Acho que quanto antes melhor. Tenho o palpite que os índios de Nonoai estão com olheiros espalhados pelo caminho. Eles devem estar seguindo o movimento de seus homens. Ao que parece, por enquanto não pensam em atacar. Estão mansos. Se quisessem atacar, seria de esperar que tentassem reunir o maior apoio possível. Iriam chamar índios de outros toldos e tentariam conseguir armas atacando comitivas que passassem nos Matos Castelhano e Português. E uma movimentação dessas nunca passaria despercebida. Eu ficaria sabendo. Mas concordo que devem falar com Nonoai o quanto antes.
Condá novamente interveio:
— As circunstâncias são favoráveis ao contato. Mas precisamos nos apressar porque temos de nos antecipar à influência de índios que têm ressentimentos contra os brancos. Muitos saíram fugidos de Palmas e Guarapuava por causa dos maus-tratos e perseguições e vieram para este lado do rio e para esta região. Muitos tiveram parentes mortos, outros foram expulsos de terras e de lugares onde viviam com suas famílias. Esses Kaingang pensam que não têm nada a perder em um enfrentamento. Suas famílias são as mais arredias e as mais perigosas.
— Mas pode existir perigo de acontecer contigo alguma coisa grave, alguma coisa como aconteceu com o índio Jonjong? – Quis saber João Cypriano.
— Acho que não, senhor João Cypriano. Mas é bom sempre ter cautela, ainda que hoje a situação seja outra. Não acredito que o cacique Nonoai pense em nos atacar como os Kaingang teriam atacado Jonjong e o grupo dele. Mas, de toda forma, se ele foi mesmo tocaiado pelos Coroados, ele não era um Pai-Bang. Ele não era conhecido da tribo daqui nem tinha parentes neste recanto das matas – respondeu Condá.
— Sim, mas era um Kaingang também – insistiu João Cypriano.
Condá respondeu, impaciente:
— Para muitos Kaingang, Jonjong era considerado um traidor. Ele tinha virado as costas para os índios. Os fóg sabiam mais sobre Jonjong do que os Kaingang. Mais que hoje, os homens brancos eram inimigos. Eles entraram no mato sem avisar e invadiram as terras dos índios. Eles não respeitaram os Kaingang. Por isso morreram. Nós vamos fazer diferente. Nós vamos respeitar o grande Pai-Bang Nonoai e já enviamos presentes para dizer que viemos em paz. Nós vamos avisar que estamos indo. Nós vamos reverenciar o cemitério dos Kaingang. E eu sou um Pai-Bang que respeita e tem o respeito dos chefes da tribo.
Condá não nutria especial simpatia por João Cypriano. O Pai-Bang já havia percebido que o irmão mais jovem do alferes Rocha Loures não mostrava por ele a mesma amizade aberta e generosa do irmão mais velho. E, embora Condá nunca tivesse tido maiores problemas com João Cypriano, sentia que só a longa amizade que o unia ao alferes impedia que o irmão o hostilizasse. A confiança de Rocha Loures era uma barreira de proteção contra eventuais maquinações do irmão caçula. João Cypriano, por seu turno, sabia que não era prudente mostrar desapreço ostensivo por Condá. Por isso procurava dissimular a pouca estima que nutria pelo índio, de quem invejava a confiança que o “bugre” recebia de seu irmão, que, a seu sentir, era maior do que aquela que ele, que era irmão e branco, recebia. Desde pequeno temia o irmão mais velho e aprendera que era melhor não o provocar.
Rocha Loures, embora aparentasse ser calmo e cordial na superfície, podia se transformar num temível adversário, se provocado. Era capaz de afastar quaisquer obstáculos que se interpusessem em seu caminho. E, então, era preciso ter cuidado. Era melhor ir com cautela naquela jornada que poderia ser a grande chance de sua vida. Nela apostava todos os seus trunfos. João Cypriano sabia que se interferisse nos interesses do irmão, por mínimo que fossem, enfrentaria sua fúria e as consequências não seriam nada agradáveis. E mexer com Condá, então, estava ainda mais fora de questão. Seria pior que mexer com o amigo de infância de seu irmão. Seria mexer com o projeto da estrada. E isso o alferes não admitiria nunca. Ademais, sua condição de irmão era agravante, como bem o sabia.
Um ataque desmotivado a Condá faria o alferes se sentir não só antagonizado, como também atraiçoado. De modo que era de caso pensado, era por argúcia que João Cypriano agia com prudência. Seu objetivo, ao se engajar naquela empreitada, era cavar um espaço para si próprio. Para ser alguém naquelas paragens precisava ter a posse de terras e, se possível, obter uma posição no governo. E lograr esses intentos dependia muito do empenho do irmão em ajudá-lo. Como encarregado de abrir a estrada, um projeto de grande envergadura que, se bem-sucedido, lhe daria enorme prestígio, seu irmão tinha a faca e o queijo na mão.
Portanto, se era preciso engolir alguns sapos, paciência. Fazia parte. Era o preço do sucesso. Ainda mais quando percebia que seus objetivos estavam cada vez mais ao seu alcance. Condá, entretanto, se mantinha em guarda e não se deixava ficar distraído. Desconfiado por natureza, como todo Kaingang, e gato escaldado por um sem-número de entreveros com os brancos, tomava todas as cautelas para não ser surpreendido por comportamentos dissimulados. Por ter sobrevivido a não poucas arapucas, acautelava-se sempre do ímpeto ambicioso de muitos brancos. Portanto, pelo sim, pelo não, se mantinha desconfiado. E, por ser desconfiado, se mantinha alerta.
O grupo, então, voltou para a residência do comissário. Retornaram a pé, trazendo as montarias pela mão, para poder conversar melhor. O dia já escurecia e caminhava para o ocaso. A noite seria de céu claro e se prenunciava fria. Seria uma madrugada congelante e permitia prever, para o dia seguinte, uma manhã de campos brancos, cobertos de geada. Ao chegarem já encontraram a mulher de Fagundes dos Reis, dona Emília Francisca de Borba, movimentando-se atarefada preparando o jantar para os convidados. Ela os recebeu efusivamente, mas sem interromper suas atividades na cozinha. A casa, agradavelmente aquecida, se mostrava acolhedora. Em um berço, na cozinha, perto do fogão de lenha que aquecia toda a casa, a filha de 1 ano do casal era embalada por uma simpática babá, uma jovem escrava negra que cantarolava uma canção para acalmar a Anacleta, a criança, e a entretinha com bonecas de pano e chocalhos feitos de taquara trançada e sementes secas de araticum.
Os convidados sentaram-se no escritório enquanto esperavam o jantar. O ambiente aquentado, com o fogão na cozinha contígua sempre com lenha crepitando, contrastava com o frio e o vento zunindo lá fora. Um vinho de frutos silvestres foi servido em taças de vidro verde soprado, preciosidades que o comissário trouxera consigo para amenizar a dureza da região ainda em desbravamento e de poucos confortos. O alferes Rocha Loures perguntou ao anfitrião mais detalhes sobre sua ida a Passo Fundo:
— O senhor nos contava suas aventuras e sobre sua vinda para cá. Como disse, sua história é fascinante como poucas. E acho que todos gostaríamos de saber mais sobre como veio dar com os costados aqui no Passo Fundo.
O comissário Fagundes dos Reis se acomodou melhor na cadeira de palha de milho trançada e com presilhas de couro, que era a sua preferida.
— Se querem mesmo saber, então vou puxar pela memória e narrar um pouco de minha vida de aventuras. São tempos que gosto de lembrar. Eu sou nascido em Curitiba, mas muita gente pensa que eu sou uma espécie de biriba. Nasci em agosto de 1785. Sou filho de Domingos e Brígida Fagundes dos Reis. Os meus pais também eram, todos os dois, de Curitiba. Somos uma família antiga no Brasil. Meus avós, João Fagundes dos Reis e Joana Gonçalves Coutinho, igualmente nasceram pelas bandas de Curitiba. Meus antepassados vieram para o Brasil no início dos anos 1700. Um deles, João Rodrigues de França, foi capitão-mor de Paranaguá, no início do século passado. Quanto a mim, depois de muitas andanças e metido nas guerras de fronteira, com a idade de 45 anos, fui convidado para assumir como comissário nesta região do Planalto Médio. Isso aconteceu em 1830, quando a Comandância Militar de São Borja me ofereceu o cargo por saber de minha familiaridade com a região. Acho que também pesou minha experiência de relacionamento com os indígenas. Eu tinha a patente de capitão da Guarda Nacional e servia ao 4º Quarteirão de Cruz Alta. Esse era o comando a que cabia administrar esta região de Passo Fundo.
O comissário apanhou um mapa que tinha na gaveta de sua escrivaninha e, depois de desdobrá-lo, apontou a região de Passo Fundo nele desenhada:
— Aqui, nesta região toda, já havia alguns pioneiros. Em Passo Fundo, especificamente, já se havia instalado o ex-cabo da milícia estadual paulista Manoel José das Neves, que recebeu uma sesmaria nesta área. Para tomar posse de sua fazenda, o cabo Neves veio de mudança com sua mulher, dona Reginalda, e os filhos. Quer dizer, veio com toda a família, com os agregados e alguns escravos. Por ser paulista, dona Reginalda era devota de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, por isso o lugar recebeu o nome da santa. Hoje o cabo Manoel consolidou a sua propriedade aqui bem perto, que foi aquela que visitamos em nosso passeio de hoje. Como já disse, eu fui escolhido para vir para cá porque já conhecia a região desde os idos de 1801. Naqueles tempos, eu ajudava nas lides do quartel e nos cuidados da cavalhada; também era ajudante de cozinheiro, fazia reparos em apetrechos, armas, e em tudo o que me mandavam arrumar. Eu era um guri muito hábil, muito curioso, muito intrometido, que gostava de ouvir os causos dos mais velhos e de saber de tudo, de ler e estudar. E gostava de cavalos e muares. Eu acho que nasci em cima de cavalo. Eu adorava montar e era bom cavaleiro. Além disso, tinha bons olhos e boa pontaria. Hoje já não enxergo direito, mas naquele tempo meus olhos pareciam uma luneta. Eu enxergava longe e atirava com grande precisão, o que me dava o privilégio de receber sempre uma boa arma e a ordem de ficar perto do comandante, o Maneco Pedroso. Quando surgia um alvo que precisava de um tiro certeiro, eu era o atirador chamado. Dei muitos tiros em castelhanos e acertei muitos inimigos.
Depois de mais uma pausa para o mate, continuou:
— Nossas tropas lutaram contra os espanhóis no combate em São Miguel das Missões. Em meu regimento lutavam alguns índios Guaranis que reforçavam nossa tropa. Mas os castelhanos tinham muito mais Guaranis do lado deles. A maioria dos índios que lutavam do nosso lado, porém, eram Coroados. – E olhou para Condá para enfatizar que os Coroados eram magníficos soldados.
Condá apenas sorriu, ainda que estivesse envaidecido. E o Comissário continuou:
— Logo que chegamos a São Miguel, cercamos a cidade. Acampamos ali pensando que o sítio iria ser demorado. Nosso destacamento ocupou um dos lados, por ordem de Borges do Canto. O Borges era conhecido por ser um comandante que entendia de guerra de guerrilha como poucos. Era muito competente e estava sempre de olho nos detalhes. Do jeito que ele montou o cerco, não passava nem agulha. Aí a guarnição espanhola, vendo que não tinha como romper nossas linhas, se rendeu. O Borges do Canto era um comandante implacável na guerra, mas era magnânimo na vitória. Assim, após derrotá-los, deixou os espanhóis livres para voltarem ao outro lado do Uruguai. Depois, na continuidade, entramos em São Miguel e organizarmos nosso quartel lá. Como o grosso das forças dos Castelhanos tinha se retirado, foi com um passeio que conseguimos a rendição das povoações de São João e de Santo Ângelo. E no embalo ainda capturamos São Lourenço, São Luís e São Nicolau.
E prosseguiu…
— Contando assim parece fácil, mas não foi tão simples como parece. O episódio decisivo aconteceu no combate para tomar São Luís. O comandante espanhol, que tinha sido poupado de cadeia e de aprisionamento por ter aceitado o acordo de rendição em São Miguel e se posto em retirada, estava, na verdade, mal-intencionado. O gajo se achava muito esperto. Primeiro, achou que nossas forças eram precárias e somente havíamos vencido por chegarmos de surpresa. Depois, julgou que iríamos ficar ocupados por um bom tempo no cerco a São Miguel, que era a povoação mais importante. E, achando que estávamos distraídos e assoberbados ao tomarmos uma povoação depois da outra, tentou organizar uma resistência. Reagrupou suas forças e reuniu uma tropa perto de São Luís pensando em contra-atacar. Foi uma enorme besteira, pois, quando Borges do Canto soube, virou bicho. O comandante foi tomado de uma fúria como eu nunca tinha visto. Borges do Canto havia deixado o espanhol sair com vida e agora o patife tentava revidar. Nosso comandante chamou uma dúzia de soldados mais experientes, alguns que tinham vindo com ele para a expedição, e mais um grupo de recrutas que estavam em treinamento, e saiu a galope. Ele surpreendeu os castelhanos, prendeu o patife e o enfiou para mofar na cadeia em São Miguel. O espanhol teve muita sorte em sair com vida.
A verdade é que, sob o comando de Borges do Canto, a guerra de retomada das Missões aconteceu em um relâmpago e logo tomamos conta de toda a região em nome da Coroa Portuguesa. A região, que era chamada de Missões Orientais, ainda hoje é pouco habitada, apesar de ocupar um território de grande extensão, que começava na barra do Rio Quaraí e chegava até começar o curso médio do Rio Uruguai. Assim, dá para dizer que nossas tropas, sob o comando do Borges do Canto, renderam à Província do Rio Grande do Sul um grande pedaço de seu território atual.
O lado triste dessa história, devo dizer, foi a morte do Borges do Canto, em 1804. O comandante morreu de uma morte estúpida, pois ele foi baleado pelas costas, tentando fugir depois de ter sido preso em uma vacaria,que é como alguns chamam o arrebanhamento do gado charrua. Ele estava chefiando uma dessas califórnias pelas bandas de Quaraí, mas indo buscar gado penetrando o lado espanhol. O grupo que ele chefiava tinha uns dez peões e uns poucos índios Guaranis. Eles já tinham reunido umas 2.000 ou 3.000 cabeças de gado quando foram surpreendidos e aprisionados por uma patrulha castelhana. Só que o Borges do Canto não era canário para ficar cantando preso em uma gaiola.
E sorrindo do próprio humor negro, o comissário Fagundes dos Reis continuou a contar a história:
— O que aconteceu foi que cinco dias depois, marchando sob guarda dos espanhóis, ele tentou fugir do acampamento onde ele e seu grupo iriam passar a noite. Ao ver que o chefe tentava fugir, seus companheiros tentaram segui-lo, criando uma barafunda que despertou os vigilantes castelhanos. O resultado é que foram novamente capturados. Ao ser trazido de volta, Borges do Canto, que sempre foi um amalucado de coragem, viu um descuido do guarda e aproveitou para lhe tomar a arma e fugir. Dessa vez, porém, não teve sorte. Antes de conseguir se enfiar na mata, foi atingido com uma fuzilaria pelas costas. Ferido de morte, expirou ali mesmo. Foi uma perda que todos sentimos.
Mas, enfim, a vida seguia e eu, um gurizote, ia crescendo no quartel. Meu trabalho era cuidar de coisas de rotina, limpar e engraxar as botinas, ajudar a lavar as fardas, buscar lenha, ajudar o cozinheiro. Também praticava tiro e caçava, para reforçar o rancho. A rotina da vida tinha se arreglado por uns tempos. Mas a região do Prata sempre foi um caldeirão. Assim, por volta de 1825, a fervura política cresceu de novo. Antes de me dar conta, estava engajado na Campanha da Guerra Cisplatina. Aquela foi uma peleja triste e sem glória. Como eu era atilado e tinha a vivência da caserna e das pugnas, logo fui promovido e recebi a patente de capitão. Eu servi sob o comando do general Carlos Frederico Lecor. Ele era um oficial lusitano que veio para o Brasil por causa da invasão de Napoleão. Quando aqui chegou, foi nomeado tenente-general e, em 1815, recebeu o comando da Divisão dos Voluntários Reais, que atuava aqui no Sul. Muito bom de cabeça e ativo, o general sabia como aproveitar as circunstâncias favoráveis e, quando percebeu os pontos fracos do inimigo, atravessou sua tropa para o outro lado do Rio da Prata. Em poucos dias tomou a cidade de Montevidéu e toda a banda oriental. Isso aconteceu em 1817. E por lá assumiu como governador da Província Cisplatina. Ali desenvolveu uma ocupação que, a meu ver, foi muito bem orientada, com a fundação de escolas e cultivando o apoio ao povo. Em 31 de julho de 1821, a Província Cisplatina deixou de ser apenas um território ocupado e foi incorporado oficialmente ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves pelo rei Dom João VI.
O mais notável é que a província aceitou fazer parte do Império do Brasil, inclusive enviando deputados para a Constituinte de 1823. Mas os argentinos não se conformavam em perder aquele território e instigaram um grupo de nativos da província, liderados por Juan Antônio Lavalleja, a iniciar um movimento para se afastar do Brasil, bandear de lado e unir a província com as Províncias Unidas do Rio da Prata. O envolvimento acintoso dos castelhanos foi revidado por uma declaração de guerra do Brasil, em 10 de dezembro de 1825. Infelizmente, apesar de contar com um Exército muito mais forte, o Brasil do Rio de Janeiro não se importava muito com o Brasil do extremo Sul e acabou não entrando firme na luta. Mesmo com o esforço pessoal do imperador, a corte e o governo arrastaram os pés e não empenharam os meios necessários para derrotar as forças rebeldes. Em terra, nós lutávamos em desvantagem, enfrentando uma guerra de guerrilha dos patriotas uruguaios e as forças das tropas das Províncias Unidas Argentinas, que vieram massivamente nos enfrentar. É verdade que a Marinha do Império do Brasil impôs a supremacia naval brasileira, vencendo a Batalha de Monte Santiago, que culminou com os bloqueios navais dos portos de Montevidéu e Buenos Aires. Infelizmente, mesmo com o bloqueio estrangulando a economia deles, o impasse militar persistia. Para não prolongar mais um conflito dispendioso e impopular na capital do Império, o Brasil aceitou a mediação do conflito a ser feito pela Grã-Bretanha. Os ingleses fizeram uma proposta pela qual o Brasil e a Argentina concordariam em desmilitarizar a área do conflito e deixariam os uruguaios independentes tanto do Brasil quanto da Argentina. Feito o acordo, o Brasil reconheceu a independência da República Oriental do Uruguai, dando aos nacionalistas uruguaios o país que queriam.
Em suma, com a graça de Deus ao meu lado, sobrevivi a muitas das peleias em que o Sul andou envolvido naqueles tempos buliçosos, e terminou que dei com meus costados aqui, neste recanto cheio de magia e de encantos e, se me permitem a imodéstia, onde estou empenhado em plantar meu legado.
Os convidados ouviram deliciados a história do comissário. Eram homens acostumados à ação. Aventurosos, experimentados e tisnados na luta. Por isso mesmo, por serem capazes de avaliar as peripécias que o comissário enfrentara, Fagundes dos Reis se fazia merecedor de admiração e respeito.
O alferes Rocha Loures tomou a iniciativa e falou pelos três visitantes:
— Comissário, tenho de reconhecer que o senhor teve uma vida que foi de muita peleja. – Olhou em volta procurando sentir o que pensavam seu irmão e Condá, para acrescentar: Acho que todos nós estamos maravilhados em conhecer suas andanças e proezas. Tenho para mim que nesta província houve tanta querela, tanta batalha, que aqui podemos pegar a história com a mão. Acho que vosmecê foi abençoado com uma vida cheia de grandes conquistas. Meu pai diz sempre que, na história dos povos, são abençoados tanto aqueles que descobrem caminhos quanto os que se dedicam a fazer o futuro. Vosmecê tem muito merecimento na formação do futuro destas plagas. Agora é chegada a hora de a nossa geração continuar sua obra e fazer sua parte.
O comissário mostrou seu agrado ao responder:
— Obrigado por suas generosas palavras, meu caro alferes. Pois é, caros amigos, assim que é a vida. Quem dera fôssemos imortais e pudéssemos realizar todos os nossos sonhos. Mas nossos anos são finitos e nossas circunstâncias nos limitam. Porém, acredito que cada geração tem o dever de desbravar seus sertões e suas matas, lutar suas lutas e empilhar uma nova camada de realizações no amontoado da história. Nós, os mais vividos, já trazemos as marcas de nossas lutas. Ainda assim, enquanto Deus nos dá saúde também nos dá afazeres a cumprir para atender a seus desígnios. E mesmo quando não conseguimos mais caminhar, ainda podemos apontar trilhas e rumos. Que Deus abençoe esta caminhada como abençoou a minha.
— Amém. – Foi como o alferes respondeu.
Sendo homem educado e versado em história, o comissário Fagundes dos Reis tinha a perspectiva do tempo e da maturação dos momentos. Assim continuou:
— As coisas têm seu tempo. Os avanços da história devem ser colhidos na ocasião certa, como frutos maduros. O momento de abrir o novo caminho para as Missões é agora. Da época do índio Jonjong para hoje tudo mudou. A população da província aumentou muito. Os tropeiros são cada vez mais numerosos e estimo que muito breve haverá um passar contínuo de muares, gados e mercadorias na nova rota que estão abrindo. Eu acredito que os governos das províncias do nosso Rio Grande e de vosso São Paulo vão juntar forças, sob a luz do governo imperial, para estimular a nova via de negócios. Essa, queira Deus, será uma rota abençoada que vai nos ajudar a manter a posse definitiva da região e afastar de vez a cobiça insistente dos castelhanos.
Condá, que se mantinha bastante discreto em suas intervenções, mas era sempre preciso em suas análises, aduziu:
— Penso que o senhor tem carradas de razão. Os Kaingang já aceitam melhor conviver com os fóg. A cada dia que passa nossa tribo entende melhor os brancos e os brancos entendem melhor os Kaingang. Cada dia que passa nosso povo se conforma mais com a realidade dos fatos. A verdade é que não existem índios em quantidade suficiente para derrotar os brancos. Somos minoria e, por isso, estamos nas mãos do destino. Os brancos vieram e mudaram o nosso mundo. Chegaram gente boa e gente ruim. Vieram amigos e inimigos dos índios. Felizmente temos mais amigos do que inimigos. Os amigos nos ajudam e abrem novos caminhos para nosso povo. Também a Igreja abriu suas portas. Eu sou cristão batizado. Eu aprendi os ensinamentos cristãos e acredito que Deus é justo tanto com os brancos quanto com os índios. Sei que os brancos também têm um destino. Hoje o destino pode ser cruel com os índios. Mas amanhã pode ser cruel com os brancos. Nossos mundos são diferentes e nossas aspirações são diferentes. Por esta razão, nem sempre podemos pensar igual, mas temos de ter confiança uns nos outros. Os índios não precisam ser inimigos dos fóg. Podemos e devemos ser parceiros. Parceria é paz. Acho que nossa convivência ainda pode ter conflitos e alguns caciques podem não querer a paz. Mas a maioria dos caciques Kaingang hoje pensam como eu, que podemos viver melhor se aprendermos a conviver uns com os outros.
O comissário Fagundes dos Reis concordou e aproveitou a menção sobre o cristianismo de Condá para falar sobre os planos do novo Cura de Passo Fundo a respeito da catequização dos índios.
— Capitão Condá, me alegra ouvi-lo. E me permita que o trate como irmão. Um cristão deve ser como um irmão para outro cristão. Em breve vosmecê estará com o cacique Nonoai. Gostaria que levasse a ele uma mensagem minha dizendo que desejamos cultivar um entendimento de paz e com vantagens para os dois lados. E diga a ele que nosso novo Cura, o padre Antônio Penteado, deseja ajudar no entendimento entre nós e quer levar as luzes do cristianismo aos toldos dos índios da região. Inclusive aos Kaingang de sua tribo. O padre é recém-chegado e tem vindo almoçar aqui em casa aos domingos, depois da missa, e tem me falado da sua intenção de fazer um trabalho missionário junto aos Kaingang. Ele me disse que vem recebendo a visita de vários índios de sua tribo na capela. Muitos desejando saber mais sobre os ensinamentos cristãos e sobre a religião.
Condá não conhecia o padre Antônio Penteado, mas aproveitou a ocasião para agradecer o tratamento fraterno de Fagundes dos Reis e expor sua opinião:
— Senhor comissário, fico muito agradecido por receber o honroso tratamento que tem me concedido, mas peço que me permita fazer algumas considerações com base na minha experiência pessoal e como Pai-Bang de minha comunidade Kaingang. Sim, um padre que se proponha a fazer missão e catequizar nosso povo pode ser de grande ajuda. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Ainda mais se ele vier falar de Jesus Cristo como o salvador de todos os homens, de Deus pai, que criou o mundo e todos os homens, índios e não índios, se vier falar da Igreja como casa do povo de Deus, e se rezar missa para os índios, fizer batismos e pregar o evangelho. Mas nem todos os padres agem assim com os índios. Testemunhei ocasiões em que padres criaram grandes problemas. Se o padre Penteado for amigo sincero dos índios e for capaz de entender a nossa alma e tiver jeito de falar com eles, aí, sim, pode ser de grande ajuda. Ainda mais se ele for capaz de compreender os sentimentos e as necessidades dos índios e respeitar os nossos direitos. Mas, se ele quiser forçar os índios a aceitar sua religião sem que estejam preparados, então teremos muitos problemas. Nosso povo tem crenças que vieram de nossos ancestrais. Tem fé em nosso deus Topen, uma divindade boa e generosa, e temem o deus Detcori, um deus mau e cruel, que é como o diabo dos católicos. Nosso povo tem cerimônias em respeito a Acupli, que representa a alma dos nossos antepassados e que são nossos espíritos protetores. O padre precisa explicar que Jeová, o Deus dos cristãos, é o criador mais poderoso. Então ele é o ser mais importante de todos. Que é o Deus que fez a Terra, o céu e as estrelas. Então o Deus dos cristãos é o mesmo que o deus Topen que os Kaingang conhecem. Também é muito importante o padre respeitar nossos costumes e o espírito de nossos antepassados. O padre não pode dizer que nossos deuses não prestam, que somos bugres, que somos pagãos e que nossos antepassados estão no purgatório ou no inferno. O senhor precisa dizer tudo isso para ele.
Após apresentar seus argumentos, Condá voltou ao silêncio. O rosto sereno do cacique não revelava os sentimentos que o assaltavam nem a preocupação que surgia em seu íntimo. A entrada em cena de um padre missionário bem naquela hora, quando estavam prestes a buscar um entendimento com o cacique Nonoai, poderia ser tanto uma bênção quanto um problema. Condá desconfiava que pôr a religião no Centro das conversas, se malconduzida, poderia azedar os entendimentos com Nonoai e oferecer pretexto para os índios contrários aos brancos. Nem todos os pajés viam com bons olhos uma aproximação com a religião dos brancos. Nonoai, ainda que tivesse grande poder sobre sua tribo e, mesmo vivendo em relativo isolamento, não era um Pai-Bang ingênuo ou mal-informado. O processo de colonização do Sul já tinha dois séculos e, como Condá, Nonoai sabia dos problemas vividos pelos índios Guaranis, que tiveram origem na catequização pelos missionários jesuítas. Esses padres, ligados ao governo espanhol, apesar de bem-preparados e bem-intencionados, acabaram sendo causa de imenso sofrimento e frustração para os índios de suas Missões.
Condá, por ter sido batizado e por manter-se em contato com os padres de Guarapuava e Palmas, além de ter visitado igrejas em Lages e em outras povoações, sabia que nem todos os religiosos eram feitos pelos mesmos moldes. As batinas podiam ser enganadoras. Sabia que havia os bons e os maus padres, assim como havia bons e maus pajés e bons e maus caciques. Ele sabia que alguns padres queriam se aproximar dos índios por outros interesses que não o de pregar a fé cristã. Muitos usavam o manto da Igreja para esconder intenções nada canônicas. A situação era ainda pior na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Ali, o Cisma da Igreja causado pela Revolução Farroupilha havia produzido um ambiente propício ao desregramento. As paixões revolucionárias haviam levado muitos padres e fiéis a tomarem partido contra a linha oficial da Igreja, que mesmo no período revolucionário sempre foi pró-governo imperial. Muitos clérigos, longe dos olhos do bispo, mas perto das tentações, se corromperam, conspurcaram os hábitos, se concubinaram e tiveram sua “moral estragada”, como reconheciam muitas autoridades eclesiásticas.
O comissário entendia as preocupações do cacique. Um bom padre seria, sem dúvida, uma bênção, mas um mau missionário, que causasse a cizânia e gerasse antagonismo, poderia criar problemas de monta tanto para ele quanto para Nonoai. Apesar de uma ótima primeira impressão, Fagundes dos Reis ainda não tinha uma opinião formada sobre o Cura recém-chegado, que estava há pouco tempo na povoação. Desde logo gostara do padre Penteado e tinha grande simpatia pelo paulista de Sorocaba. Ouvira dele sua história e sabia que era filho de um negociante da paulista Itapetininga, o capitão Antônio de Almeida Leite Penteado, e tinha chegado há pouco à Província do Rio Grande. Na visita em que se apresentou ao comissário, disse que tinha desejo de se fixar no Sul. Que desde pequeno sonhava em morar na terra cheia de aventura e coragem, de onde vinham os tropeiros que chegavam a Sorocaba contando causos e peripécias. Naquela terra de matos e coxilhas que se perdiam nos grandes horizontes a que seus familiares se referiam ao falar dos negócios que tinham no Sul. Contou que em sua família havia muitos negociantes com interesses na região Sulina, que seu pai era sócio de seu tio em um negócio de compra e venda de muares, e ambos, como tropeiros, organizavam tropas que muitas vezes subiam desde a Argentina e passavam pelas Missões, rumando para Sorocaba.
O padre contou que, com o fim da Revolução Farroupilha, houve um renovado interesse de diversos membros de sua família em ampliar os negócios na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Alguns de seus parentes estavam pensando, inclusive, em adquirir terras para se fixarem com estâncias nas rotas dos tropeiros. E ele, pesaroso do Cisma Religioso que houvera na região e ciente da reconciliação encetada pela Igreja Católica, acolhendo e perdoando os prelados insurgentes da Igreja farroupilha, também se empolgou com a ideia de dar sua contribuição pessoal a fim de avivar a fé cristã e participar da nova era de prosperidade que, acreditava, estava por vir naquela província.
Padre Penteado, o missionário dos Kaingang
Em sua conversa com o comissário Joaquim Fagundes dos Reis, o padre Penteado revelou que, quando chegou ao Rio Grande do Sul, cheio de grandes expectativas, e tomou contato com a realidade desoladora que ali ainda perdurava mesmo terminada a revolução, sentiu-se inicialmente desapontado. Enquanto em São Paulo as paróquias e capelas haviam se multiplicado e estavam em todo o lugar, sempre repletas de fiéis, no Sul, descobriu, elas eram em muito menor número e se distanciavam dezenas, e às vezes, centenas de léguas entre si. Não podia se queixar, posto que tinha sido alertado sobre a diferente realidade que encontraria no Sul por seu confessor, o frei Giaccomo, um velho e amável capuchinho, veterano dos tumultuados esforços missionários de sua ordem junto aos índios dos campos de Guarapuava e de Palmas. O padre Penteado não deu ouvidos, na ocasião, porque achava que o frei Giaccomo deveria estar desatualizado. Ademais, o entusiasmo do jovem padre falou mais alto. No Sul uma nova fronteira estava sendo conquistada, e ele ansiava por defrontar-se com as míticas matas de araucária. O seu confessor tinha razão em dizer que a Revolução Farroupilha tinha tido um custo alto para a Igreja. A situação que encontrou confirmava a situação descrita por frei Giaccomo.
Na verdade, em alguns aspectos, era até pior do que aquela que o frei descrevera. Mas, agora que estava sob o majestoso dossel dos pinheirais, não iria recuar. Encheu-se de brios e foi procurar o vigário de Cruz Alta, uma vila situada no caminho das tropas, trajeto por onde seus parentes tropeavam. Foi oferecer seus préstimos ao vigário. O prelado o acolheu paternalmente e, desejoso de aproveitar um padre recém-ordenado, jovem e dinâmico, ofereceu-lhe o curato da Capela Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no povoado de Passo Fundo. A capela ficava a boa distância de Cruz Alta, era pequena e estava sem padre há bastante tempo. Ainda assim, era o melhor posto de que dispunha para oferecer a um padre independente, que, suspeitava, não se ajustaria bem como coadjutor de algum padre velho e rabugento de outras freguesias. No início, ao menos, a capela não contava com status para ter um Cura colado, portanto, o padre não receberia a côngrua, o salário mensal pago aos párocos reconhecidos pelo governo, mas o frei prometeu se empenhar para conseguir encontrar um lugar melhor para o padre num futuro próximo.
O padre Penteado era de família abastada e tinha recursos, de modo que ele não precisava se preocupar de imediato com a remuneração canônica. Ainda assim, era legítimo seu desapontamento ao saber que teria de sustentar-se para realizar o trabalho de cristianizar os índios. E não menos ao se deparar com a modéstia da capela que lhe era oferecida. Mas, se ficou um tanto decepcionado, logo afastou a tentação de rejeitar a oferta. Lembrou-se que sua fé lhe dizia que Deus escreve certo por linhas tortas. E deu-se conta, de súbito, de que a mão divina estava, de fato, intercedendo. Ele teve essa percepção quando soube que a capela de Passo Fundo era dedicada à Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Como, então, havia uma capela dedicada à Nossa Senhora Aparecida em Passo Fundo? Todas as suas dúvidas agora se convertiam em júbilo. Sem demérito aos santos mais populares, como São Francisco, Santo Antônio, São João ou São Pedro, que batizavam igrejas e templos país afora, ou a outros santos como Santa Teresa de Ávila, muito querida dos espanhóis, ou, ainda, a São Cristóvão, o padroeiro dos viajantes. Mas havia ali, em meio àquelas matas, uma capela homenageando a mãe de Brasil? Uma capela dedicada à Nossa Senhora da Conceição Aparecida?
Por essa o padre Penteado não esperava. Após o impacto da surpresa, não conteve um acesso de riso. Pois que bela cilada lhe armava sua tão querida mãe inspiradora, sua tão amada Nossa Senhora Aparecida. Então era para essa missão que o conduzia a vontade do Senhor? Era para assumir a curadoria daquela singela capela que levava o nome da santa que, entre todas, lhe era a mais sublime entre todas as que nominavam Nossa Senhora? De repente, como se tivesse sido atingido por um raio, suas preocupações materiais se liquefizeram, enquanto seu coração se enchia de felicidade. Então a Providência Divina o levara para Passo Fundo a fim de fazer dele o arauto de Nossa Senhora Aparecida naqueles pagos? Nunca imaginara bênção mais feliz. A única explicação é Deus; afinal, deveria ter senso de humor. Iluminado por aquela percepção, agora não mais aceitaria trocar aquela capela perdida na vastidão das matas de araucária nem pela prestigiosa Capela Imperial, na Igreja do Carmo, no Rio de Janeiro. Foi com espanto que o vigário de Cruz Alta, que não estava entendo nada, tomou conhecimento do ardor com que o padre Penteado se jogou na missão de transformar aquela pequena capela em ponto de partida de uma radiosa comunidade cristã.
O padre Penteado conhecia bem a história da imagem aparecida. A imagem de Nossa Senhora da Conceição foi encontrada em meados de 1717. Esse aparecimento singular sempre o havia intrigado. Ouvira o relato vezes sem conta no seminário, mas o tema o apaixonava e nunca se cansava de buscar novas informações e descobrir novos ângulos sobre o aparecimento da imagem. E sempre se maravilhava em constatar como podiam ser misteriosos os caminhos do Senhor. A história de Nossa Senhora da Conceição Aparecida começou quando o governador da Província de São Paulo e Minas Gerais, à época, anunciou que iria passar pela Vila de Guaratinguetá a caminho de Vila Rica, na Província de Minas Gerais. Encantados com a passagem daquela alta autoridade pela vila, a população desejou oferecer um banquete condigno ao governador.
A Câmara Municipal de Guaratinguetá, então, pensando em servir o que tinha de melhor ao ilustre visitante, encomendou a três pescadores, Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves, o suprimento para o banquete com base no apreciado pescado da região. Para atender a honrosa encomenda, os pescadores se puseram a lançar as redes no Rio Paraíba do Sul, conhecido por ser altamente piscoso. Embora estivessem fora da temporada de pesca, havia ocasiões em que os peixes pulavam para dentro do barco. Contudo, desta feita, não conseguiam pescar nada. Depois de muitas tentativas frustradas e sem peixes, chegaram ao Porto de Itaguaçu. Antes de desistirem, resolveram fazer uma última tentativa. Novamente lançaram a rede nas águas do rio.
Foi então que, ao puxarem a rede, de tão leve parecia mais uma vez vazia. No entanto, viram que ela trazia uma pequena imagem que parecia ser da Virgem Maria, mas que estava sem a cabeça. Lançaram novamente a rede e, para espanto de todos, dessa vez a rede trouxe a cabeça da estátua. Ao encaixarem a cabeça no corpo da estátua viram que se tratava de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Agora, cheios da sincera fé dos caboclos, lançaram novamente a rede e viram um milagre materializar-se. Ao puxarem a rede viram que estava tão abarrotada de peixes que temeram que se rompesse. No último instante, o milagre salvou a pescaria, salvou o baquete e a reputação de Guaratinguetá. E do episódio nasceu a mais brasileira das devoções à Virgem Maria.
Após o extraordinário sucesso da pescaria, que os três pescadores não hesitaram em atribuir a um milagre da santa, a imagem ficou sob a guarda de Filipe Pedroso. Durante os 15 anos que a imagem ficou com Filipe, ele contava, a uns e outros, a história do milagre, mas, com o tempo, o episódio foi caindo no esquecimento, a imagem foi empoeirando e a lembrança do milagre evanescendo. Os anos passaram e, já idoso, sentindo que seus dias findavam, Filipe doou a imagem a seu filho, que, ao recebê-la, relembrou a história que seu pai contava sobre o milagre da pescaria. E tratou a santa com carinho e desvelo. A primeira coisa que fez foi colocar a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida em um lugar de honra em sua morada, dando a ela um oratório simples, mas condigno. Devoto e ainda lembrando sempre do milagre que a fizera surgir das águas, passou a reunir familiares e vizinhos para fazerem orações e pedidos ao pé da santa. Em pouco tempo, começavam os milagres. E esses eram tão abundantes como os peixes que por pouco não romperam as malhas da rede.
Logo a fama de santa milagreira começou a correr de boca em boca. Curiosos, os visitantes se multiplicavam. Naquele tempo, havia uma imensidão de gente precisada de milagres. Os devotos foram se avolumando e as concentrações de fiéis cresceram a ponto de, em 1734, o vigário de Guaratinguetá interessar-se pela imagem milagrosa. Depois de testemunhar, pessoalmente, o afluxo assombroso de fiéis que acorriam cheios da fé para orar pelas bênçãos de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, sentiu-se instado a fazer sua parte. E foi assim que a Igreja tomou conhecimento do milagre dos pescadores. Cheio de fervor, o vigário começou a construir uma capela que pudesse acolher a imagem aparecida. Não era mais que uma modesta edificação, no alto do Morro dos Coqueiros, e a capela foi consagrada e aberta ao povo em 26 de julho de 1745. Foi um dia de muitas preces e cânticos de louvor. E muitas graças pedidas naquele dia logo foram atendidas.
Os fiéis que viram suas graças serem alcançadas saíram contando suas bênçãos a todos que quisessem ouvir. Não demorou e a singela capela passou a ser pequena demais para acomodar os ex-votos, as muletas, os andadores e os aparelhos toscos de ortopedia. Quanto mais a receber em seu interior os fiéis que desejavam aproximar-se da imagem. Em pouco tempo, as romarias começavam a se formar e a pedir uma capela ainda maior. Então, em 1834, o vigário-geral decidiu que a devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida fazia por merecer uma igreja capaz de receber os fiéis que, já agora, acorriam de todo o país. O seminarista Antônio Penteado tinha peregrinado mais de uma vez até o sítio da nova igreja de Aparecida e se sentia emocionalmente ligado àquela imagem tão frágil, mas que se mostrava tão poderosa diante dos olhos do filho que reinava nos céus.
O tempo passou e os indecifráveis caminhos do Senhor o levaram para a distante Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Lá, o padre Penteado sentiu-se tocado pela bênção da imagem que tivera o privilégio de ver e tocar. Assim, sentiu-se chamado para uma missão. Decidiu fazer daquela capela de Passo Fundo a rede com que iria pescar os fiéis para a Santa Madre Igreja. E exultou com a bênção que recebia, agradecendo, em oração silenciosa, o privilégio de propagar sua fé. Sim, havia entendido o repto que lhe lançava o destino. Assim como a imagem que conquistava a devoção do país tinha surgido na humildade despretensiosa de uma rede de pesca lançada ao Rio Paraíba, agora ele recebia a tarefa de elevar a singela capela dedicada à mesma Virgem Aparecida para se tornar propagadora da mensagem cristã ao povo e aos indígenas que viviam naquela vila de Passo Fundo.
Em uma auspiciosa coincidência, lembrou que faziam exatamente 100 anos que a primeira capela de Nossa Senhora Aparecida havia sido consagrada no Morro dos Coqueiros. Assim, cheio de entusiasmo, assumiu seu curato e lançou-se na messe do Senhor, procurando ser, como São Pedro, um pescador de almas. Não mais pensou na humildade da capela. Para ele, o Jesus nascido numa manjedoura de Nazaré não iria medir as almas de sua capela pela quantidade, mas pela fé. E tinha certeza de que Nossa Senhora Aparecida não o desampararia. Além disso, acreditava no provérbio que sua mãe sempre repetia: “Quando Deus fecha uma porta, abre sempre uma janela”.
A capela era uma construção modesta e não acomodava mais que algumas dezenas de fiéis em seus bancos de madeira. O altar, com a imagem de Nossa Senhora de Conceição Aparecida ao Centro, era singelo, mas inspirador. Se não chegava a ser uma obra de arte, é verdade, era, certamente, uma obra de amor. A capela fora erguida em um terreno doado à Igreja pelo fazendeiro Manuel José das Neves. Local bem escolhido, onde a construção se destacava sobre uma coxilha. A doação fora feita para atender a um pedido de sua esposa, Reginalda da Silva, que cultivava uma religiosidade fervorosa e tinha trazido de São Paulo a devoção por Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Conhecendo essa história, o padre Penteado exultava ainda mais com sua bênção. Senão, como explicar que coubesse a ele, um padre paulista, ter sido ligado pelo destino a um casal paulista devoto para levar a veneração a Nossa Senhora Aparecida para aquela mata distante? E ainda mais não seria um chamamento divino sua capela poder contribuir para que a pacificação da Província de São Pedro e sua integração definitiva à nação brasileira se dessem sob a égide da padroeira do Brasil de todos?
O comissário Joaquim Fagundes dos Reis havia, ele mesmo, se encarregado de mandar erguer a capela, dez anos antes. E tanto por razões religiosas, posto que era homem de fé praticante e ansiava por uma capela no povoado que lhe desse conforto espiritual, quanto por algumas mais prosaicas razões práticas: a capela era importante para o registro de batizados e para a realização das cerimônias de casamento. O comissário era também o juiz de paz da povoação e cuidava dos registros civis, nascimentos, casamentos e mortes. Além disso, no Brasil do século XIX, a existência oficial de um povoado requeria o reconhecimento combinado do governo e da Igreja. E um povoado só conseguia reconhecimento legal se tivesse uma “capela curada”, que significava contar com uma capela com um Cura, ou vigário residente, que ouvisse confissões, rezasse as missas, ministrasse os sacramentos e realizasse as celebrações religiosas em um templo consagrado. Sem ao menos uma escassa capela curada, uma povoação não era reconhecida como tal e viveria no limbo político, sem existir para as leis e para a província.
Resulta daí que, nesse ponto, residia o maior interesse do comissário pela vinda do padre Penteado. Ainda que não houvesse outras razões, e havia muitas, a simples presença do padre na qualidade de “Cura” já seria muito bem-vinda. Um clérigo devidamente tonsurado e ordenado na povoação, com designação para o curato, facilitaria a ascensão política do povoado. Por isso, o comissário estava pessoalmente empenhado em oferecer atrativos para que o padre ali viesse a se fixar. Nos anos anteriores, a Capela de Passo Fundo até tinha registrado alguma atividade religiosa. Contudo, se tornaram rarefeitas durante a revolução. Em 1836 havia até recebido um Cura oficial, o padre José Manuel de Oliveira Libório. Ocorre que o padre Libório era o vigário titular de Cruz Alta e, a princípio, apenas aceitou acumular a responsabilidade na expectativa de uma recompensa do governo provincial, o que não ocorreu.
Logicamente, um Cura sem dedicação exclusiva não era como ter um Cura residente, mas já elevava o status da capela e era melhor do que nada. A solução, porém, não prosperou. A distância entre Cruz Alta e Passo Fundo, cerca de 30 léguas (150 quilômetros) se revelou maior do que aquela que o padre Libório havia imaginado. Dar assistência à Capela de Passo Fundo exigia uma exaustiva viagem de três a quatro dias, e a estrada era muito perigosa, com índios atacando aqui e ali. Como o padre Libório explicou ao Conde de Caxias, justificando sua renúncia ao posto: “Eu compreendo que temos de levar a palavra da Igreja aos selvagens, mas não ao custo do sacrifício da vida. Mais vale um vigário vivo distante do que uma cruz em um jazigo plantado na beira da estrada”. O padre Libório, em sua única visita à capela, no Natal de 1836, celebrou ali as primeiras cerimônias de Natal da povoação. Nos dias 26 e 27 de dezembro daquele ano, realizou os primeiros batizados oficialmente lá registrados. Porém, ficou nisso. Voltar, nunca mais voltou. E logo a Revolução Farroupilha convulsionou a província, e a capela tornou a ficar sem um Cura permanente. Ademais, uma infausta decorrência da revolução foi provocar o cisma da Igreja do Sul, que rompeu com a cúria do Rio, leal ao império. A República Rio-Grandense, ao cortar os laços com o Império do Brasil, que tinha na Igreja Católica sua religião oficial, queria levar a separação política até as últimas consequências.
Assim, em 22 de junho de 1838, os líderes farroupilhas radicalizaram suas posições e nomearam o padre Francisco das Chagas Martins Ávila e Sousa como o vigário-apostólico da província. Um vigário-apostólico é a autoridade religiosa da hierarquia católica, normalmente o próprio bispo ou equiparado ao bispo, que governa um vicariato apostólico em nome do papa e, no tempo do Brasil Império, em consonância com o governo imperial. Todavia, o padre Chagas, ao aceitar essa investidura religiosa, o fez não em nome do papa, mas da Revolução Farroupilha. Desde logo, o novo vigário-apostólico passou a crismar, ordenar padres e promulgar dispensas matrimoniais. Ante o escandaloso gesto de rebeldia – ao menos aos olhos das autoridades eclesiásticas do império –, o padre Chagas foi excomungado e seus atos foram declarados ilícitos pelo bispo-geral do Rio de Janeiro, a maior autoridade oficial da Igreja Católica no Brasil da época. Mesmo assim, parte significativa do clero da República Farroupilha aderiu à nova autoridade eclesiástica.
Durante os anos da revolução, o número de padres diminuiu substancialmente. Muitos, desagradados do cisma, mudaram-se para outras regiões do país. As novas ordenações praticamente cessaram. Diante do quadro de descalabro vivido pela Igreja da província, só em 1843 a capela voltou a ser visitada por um padre. Naquele ano, o padre paulista Candido Lúcio de Almeida, fiel ao governo imperial e que fora vigário da Paróquia São João Batista, da cidade de Capivari, da diocese de Piracicaba, em São Paulo, passou por Passo Fundo a caminho de Porto Alegre. Não seguia a rota mais lógica, pelo litoral, mas evitava o risco de encontrar as forças farroupilhas hostis. Solicitado a ficar alguns dias, ouviu confissões, celebrou missas e realizou batizados. Mas, logicamente, essas atividades religiosas fortuitas não permitiam reivindicar a condição de “capela curada” para a Capela de Nossa Senhora de Conceição Aparecida de Passo Fundo. Portanto, não justificava o título de “freguesia” para a povoação.
Assim foi que a chegada do padre Antônio de Almeida Leite Penteado para ser o Cura da Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida se tornou motivo de grande alegria para Joaquim Fagundes dos Reis. Ao interagir com o novo Cura, porém, o comissário ficou com uma pulga atrás da orelha. Desde logo percebeu que o padre era oriundo de família com posses, tinha refinamento cultural, era homem letrado e era ativo e ambicioso, o que o diferenciava da mediocridade de muitos dos clérigos do Sul, região para onde acorriam muitos padres problemáticos, concubinados ou relapsos e desejosos de escapar dos regramentos mais rigorosos da Igreja das regiões mais desenvolvidas. Era óbvio que o novo Cura seria, sem a mais leve dúvida, uma bênção para a povoação que ele, o comissário, liderava. A questão que o inquietava tinha a ver, precisamente, com as virtudes do padre Penteado. Por quanto tempo um Cura com os predicados que o padre Penteado demonstrava possuir permaneceria naqueles cafundós cuidando de uma pequena capela escondida na mata e longe de tudo?
O Fagundes dos Reis bem sabia que padres jovens, talentosos, cultos, bem-apessoados, agradáveis no trato e dinâmicos na ação eram escassos. Ainda mais um religioso oriundo de família paulista, ligada a comerciantes influentes e bem situados financeiramente. Não demoraria para que alguma grande paróquia ou alguma autoridade da cúria tentasse recrutá-lo e levá-lo embora. Por outro lado – conjeturou o comissário –, se aceitava ser o Cura da capela de Passo Fundo é porque algo ali o atraía. Precisava descobrir o que era, para encontrar formas de mantê-lo na vila. Em princípio, o atrativo não deveria ser de ordem material. Aquela capela era desprovida de côngrua e os estipêndios por celebrações ou missas encomendadas eram praticamente inexistentes. Pelo menos por ora. Tampouco o motivo seria de vaidade ou poder. Ali o Cura não teria como ostentar-se em celebrações solenes incensadas e seu poder material ficava limitado a cuidar de uma pequena construção sem grandes encantos. Portanto, naquela vila não encontraria nem uma nem outro. Mas, claro, o padre Penteado deveria ter planos e ambições. Todo jovem, com ou sem batina, as tem. E se ele se encontrava longe de sua zona de conforto é porque – depreendeu o comissário – buscava alguma realização pessoal que conservava em segredo. Talvez no campo religioso, já que escolhera ingressar na carreira sacerdotal. Talvez como missionário. Talvez como pregador.
Fagundes dos Reis tentou descobrir perguntando ao padre sobre seus motivos, mas não ficou convencido com a resposta de que estava ali porque aquele era o posto que o vigário de Cruz Alta lhe havia oferecido. Sim, tecnicamente estava certo. Mas, sendo um padre secular, ele tinha plena liberdade de não aceitar a curadoria da capela de Passo Fundo e ir em busca de oportunidades em outras paróquias. Enquanto dava tratos à bola, o comissário decidiu duas coisas preliminares: primeiro, tinha de manter o padre Penteado em Passo Fundo a qualquer custo. O padre podia se tornar um aliado valioso para o desenvolvimento do povoado, inclusive para seu reconhecimento como freguesia. Segundo, conquanto o Cura se mostrasse desapegado de interesses materiais e desprovido de ambições imediatas, seria imperdoável de sua parte descurar do lado material e permitir que a inexistência de uma côngrua, de uma remuneração, deixasse um flanco aberto para investidas atraentes de outras oportunidades. Lembrou que até um relógio só gira os ponteiros e marca as horas quando tem corda.
As paróquias de toda a província estavam carentes de sacerdotes e em busca de padres. A revolução havia fechado seminários e reduzido as ordenações a alguns poucos padres. Além disso, mesmo com o fim do cisma e o perdão aos padres que haviam ficado do lado da igreja farroupilha, os processos de reconciliação ainda não tinham sido revisados. Em consequência, muitos padres também não tinham recebido autorização para retomar suas ordens e continuavam proibidos de ministrar os sacramentos. O risco de perder o novo Cura fazia o comissário varrer a noite insone. Ele resolveu que era preciso antecipar-se. Listou um rol de coisas que podia fazer para manter o padre na vila. A primeira providência era pedir ao Conde de Caxias uma dotação para uma côngrua. Seu pequeno orçamento local não tinha como absorver os custos de um “vigário colado”, que equivalia a bem polpudos 400.000 reis anuais.
Enquanto suas démarches fossem se desenrolando, o comissário Fagundes dos Reis decidiu que precisava descobrir que outros interesses moviam o padre Penteado e quais outras atratividades ele poderia conseguir. Para conhecê-lo melhor e entender como poderia conquistá-lo para a causa de Passo Fundo – causa que, a seu entender, valia todos os esforços –, sua primeira providência foi convidar o padre para almoçar com sua família todos os domingos, depois da missa. Dessa forma, conforme o combinado para o almoço dominical, tão logo terminava a cerimônia, o padre e o comissário caminhavam até a casa deste. No trajeto, o comissário falava do progresso que fora represado e que agora voltaria como uma aluvião, terminada a Revolução Farroupilha. Em breve, explicava, seriam retomadas as atividades de pecuária e da extração da abundante erva-mate nativa na região. Falavam também dos índios. O comissário, discorrendo sobre o problema que ainda representavam; o padre Penteado, falando das incontáveis almas pagãs que podiam ser convertidas e conquistadas para o cristianismo.
Assim, as conversas ficavam nas amenidades até o domingo em que o assunto derivou para a Santa Padroeira da Capela. O padre estufou o peito, cresceu de estatura e transformou-se. Parecia outro. E com voz potente, o olhar mirando no horizonte e parecendo em êxtase, contou como havia sido tocado pela aura da imagem milagrosa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Dos milhares de romeiros que acorriam para buscar a sua bênção maternal. De suas visitas à nova igreja que estava em construção em Guaratinguetá. Revelou a profunda emoção que sentiu ao tocar pela primeira vez a imagem milagrosa. Emoção da qual nasceu sua devoção incondicional à Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Ele contou, também, como os caminhos do acaso o levaram a receber o curato daquela capela de Passo Fundo. E confidenciou ao comissário que estava prestes a recusar a oferta de curadoria da capela, mas ao saber que era dedicada à Nossa Senhora Aparecida não só aceitou o encargo de ser o Cura da capela, como também, ao chegar na vila e entrar na capela, ao ver no altar empoeirado a réplica da imagem que tão bem conhecia, foi tomado por uma tão avassaladora onda de carinho por aquela pequena figura de terracota que decidiu que daí em diante ele a protegeria com todas as suas forças. Enquanto vivesse, aquela imagem de Nossa Senhora de Aparecida nunca mais seria abandonada. Nunca mais seria coberta da poeira do desleixo nem esquecida pelos filhos que amava. Este sentimento de compromisso o fizera mais realizado e mais feliz do que jamais imaginara ser possível em seu sacerdócio.
O comissário Fagundes dos Reis, por sua parte, exultava. Agora, com a nova estrada patrocinada pelos paulistas, talvez pudesse agregar os diversos interesses que transcendiam as paixões separatistas e promover atos práticos de modo a promover uma integração efetiva da Província do Rio Grande do Sul com a província paulista e com o restante do país. Facilitando o fluxo das tropas e estimulando os negócios com as outras províncias ele estaria também promovendo a causa maior da civilização. Portanto, para dar abrigo à civilização naquele recanto ainda pouco desenvolvido da província, duas coisas eram prioritárias: pacificar os índios para dar segurança à estrada e criar boas condições para a atividade econômica.
Fagundes dos Reis fechou seu plano de ação: em dois dias seria domingo. Iria à missa, onde apresentaria os irmãos Rocha Loures e o cacique Condá ao Cura. Convidaria a todos, inclusive o soldado dos permanentes Cristóvão Ribeiro e sua mulher, de origem Kaingang, que costumavam ir às missas domingueiras, para churrasquear em sua casa. Ali poderiam conhecer melhor o padre, trocar ideias, criar um relacionamento construtivo e discutir a intenção do aldeamento para os índios na região. Essa ideia já havia sido considerada mais de uma vez, mas agora, com o novo ordenamento do estado e com um presidente interessado em resultados práticos, poderia dar certo. A perspectiva de trazer os Kaingang para um aldeamento e fazer sua conversão ao cristianismo significava mais do que apenas pacificar os índios. Significava aumentar a população da povoação, o que permitiria reivindicar recursos da província e criaria a desejada oportunidade de uma atividade oficial congruada para o padre Penteado.
Para alinhar o grupo em torno das possibilidades que vislumbrava, o comissário Fagundes dos Reis sugeriu:
— Senhores, acho que sei como podemos conciliar todos os nossos anseios. Depois de amanhã é domingo. O padre Penteado vai rezar a missa dominical na capela, às 10 horas. Acho que podemos assistir à missa e, além de fazerem um primeiro contato com ele, teremos a oportunidade de conhecer uma porção de pessoas interessantes. Boa parte da população do povoado vai estar lá.
Todos se puseram de acordo. Inclusive Condá. E assim, com o jantar de ensopado de carne sendo servido fumegante, sentaram-se à mesa.
O domingo nasceu com uma capa de geada cobrindo os campos. O padre Penteado venceu a dificuldade de levantar-se cedo naquela manhã que convidava a ficar sob os cobertores. Pensou em agradecer à pontualidade dos galos da vizinhança. Enquanto eles cantassem ao surgir a aurora, ele não corria o risco de perder a hora. Depois de levantar-se, espreguiçar-se para afastar o sono, tomar seu desjejum frugal com base em bolinhos de milho e em pinhões cozidos na véspera, vestiu a batina e, às 7 horas da manhã, estava a postos na capela preparando o domingo. Começou por verificar se a luz do sacrário estava acessa. Os cânones da Igreja estabelecem que próximo ao tabernáculo em que se conserva a Eucaristia deve brilhar continuamente uma lâmpada para indicar que ali estão hóstias consagradas. A luz no fundo do copo de vidro vermelho da lamparina, pendurada ao lado do altar, ainda brilhava, mas a luz, indecisa e trêmula de um pavio quase todo consumido, requeria providências imediatas ou apagaria em breve.
O Cura, que ainda cumpria as tarefas acessórias como seu próprio sacristão, derramou mais uma medida de cera de abelhas derretida no copo do sacrário para garantir que a luz permanecesse acesa ao longo das cerimônias e do restante do dia. O padre Penteado olhou para a lamparina para certificar-se de que a chama voltava firme. Era uma questão de honra manter a chama acesa na sua capela. Desde o século XIII o Código Canônico preceituava que a luz deveria ser mantida acesa com azeite puro de oliva ou cera de abelha. O padre Penteado sabia ser impossível conseguir azeite de oliva na povoação, mas havia a opção da cera de abelha. Para conseguir um suprimento constante do produto, ele havia negociado sua compra junto aos índios que vinham até a capela.
Depois de ocupar-se das atividades preparatórias, foi cuidar do catecismo. A escola dominical ensinava a algumas poucas crianças que vinham trazidas pelos pais. Mas era uma atividade essencial para o futuro da comunidade religiosa. Logo chegavam seus pequenos alunos do evangelho. Somavam pouco mais de uma dezena. Entre eles havia algumas crianças birivas, filhas de tropeiros paulistas que se fixaram na região, além de filhos de escravos, vindos da fazenda dos Neves, e mais algumas poucas crianças dos demais habitantes do povoado. Os pequenos ouviam fascinados o padre contar histórias sobre os apóstolos que saíram pelo mundo para pregar a palavra de Jesus entre todos os povos. E, quando uma criança perguntou como eles sabiam onde deviam ir pregar, o padre respondeu apenas que “os apóstolos iam pregar onde houvesse almas a serem salvas”. Terminada a aula de catecismo, as crianças foram juntar-se aos pais para aguardarem a missa. As famílias vinham com sua melhor roupa para a celebração e, desde a chegada do padre Penteado, esperavam o domingo com grande ansiedade, sendo a missa o maior evento do dia.
O padre Penteado tinha ainda outra tarefa antes de rezar missa: atender as confissões no pequeno confessionário da capela. Em geral, nos domingos pela manhã, apenas meia dúzia de fiéis da vila iam se confessar. E quase tudo o que diziam eram pecadilhos típicos de uma vida social simples e restrita. Os homens, em geral, confessavam-se menos, assim quase sempre apareciam em menor número. Em compensação, eram mais cruentos. Aos pecados da carne o padre dava penitências mais longas, como rezar um terço inteiro. Quem se desse ao trabalho de observar poderia descobrir quais os maiores pecadores pelo tempo que ficam rezando depois das confissões. Mas o padre até sorria para si mesmo ao comparar as confissões simplórias da vila com as de seu tempo em São Paulo. Naquela manhã de domingo, contudo, o Cura foi surpreendido por uma inédita fila que o esperava no confessionário. Além das pessoas da comunidade estavam ali mais de uma dezena de homens que ele não conhecia. Deduziu que seriam membros da equipe de trabalhadores da construção do novo caminho do Goio-En. Ele sabia que uma parte do pessoal da construção havia chegado na véspera. E com ela tinha vindo uma dezena de Kaingang do grupo de Condá. Foram todos acomodar-se na Fazenda Nossa Senhora da Conceição Aparecida e agora vinham para assistir à missa na capela. Muitos queriam se confessar para, na celebração da missa, estarem aptos a receber a comunhão da forma como preceitua a Igreja.
O padre Penteado, ao colocar a estola e entrar no confessionário, queria apressar as confissões para não atrasar a missa. Ao abrir a portinhola olhou para a fila e viu, sem surpresa, que a primeira a se ajoelhar era sua freguesa desde o primeiro dia na capela, dona Gertrudes Castilho, uma das viúvas agregadas da fazenda do cabo Neves. Tinha sido casada com um miliciano que lutara ao lado do cabo e, com sua morte em batalha, ela recebeu uma oportunidade para trabalhar lá. Era uma velhinha curvada e magra, quase seca, mas fervorosa como poucas, que andava sempre lépida apoiada em sua bengala. Vestia-se com um xale de crochê cinza desbotado e tinha olhos de um castanho esverdeado indefinido, mas sempre curiosos e inquietos.
A anciã, já bordejando os 70 anos, se fez notar ao padre, desde logo, por suas confissões intermináveis. Vivendo solitária, com poucas oportunidades de convívio, a confissão era seu momento de falar com alguém. Assim, aproveitava o ouvido do padre para fazer a resenha não só de seus pecados, como também dos pecados de todos os membros da vila. Com grandes minúcias, contava os fuxicos alheios. Ao vê-la naquele domingo, o padre não conteve um longo suspiro. Conjecturou que precisava de uma estratégia para apressar a confissão da devota. Mas consolou-se: o que era mais uma flechada para São Sebastião? Enfim, ser padre era também ser paciente com os fiéis da Santa Madre Igreja. O diferente é que, naquele domingo de capela cheia, precisava encontrar uma saída para lidar com dona Gertrudes. Então, logo que a piedosa fiel iniciou sua costumeira cavaqueira, relatando supostas infidelidades conjugais que ela se encarregava de espalhar pelas comadres do povoado, o padre, que tantas outras vezes ouviu as infindáveis confissões com resignada paciência, desta feita tentou demovê-la de se meter na vida alheia. E disse a ela:
— Dona Gertrudes, a senhora não percebe que procedendo assim está se metendo na vida dos outros?
A velhinha, espantada, quase deixou cair o véu que ajeitava sobre o coque de cabelos brancos:
— Mas o que é isto, reverendo? Cuidar da vida alheia é minha obrigação! Se eu vejo pecantes desavergonhados e sou testemunha de pecados horrorosos, eu tenho mesmo de advertir os pecadores. É meu dever fazer isso para que essas almas não se percam, para que não queimem no inferno. É meu dever contar esses pecados e apontar os pecadores, para que saiba o que se passa na sua paróquia.
O padre ainda tentou argumentar:
— Mas, dona Gertrudes, a senhora não acha que é melhor deixar o próprio Deus julgar as almas de sua igreja?
Ainda mais escandalizada, dona Gertrudes retrucou:
— Reverendo padre, nós ficamos sem um pároco por muito tempo e o diabo estava sozinho obrando aqui, esparramando tentações e levando todos para o inferno. Faz muito tempo que eu luto sozinha contra as perdições do povo aqui da vila. No tempo da Guerra dos Farrapos vinham os soldados dos dois lados acampar por aqui e era uma perdição só. Uma depravação de fazer a Virgem Maria chorar. Muitas sirigaitas e raparigas acompanhavam os soldados e participavam das bebedeiras e das orgias. O diabo assistia a isso tudo e esfregava as mãos de contentamento, enquanto as almas devassas se perdiam para a eternidade. Mas eu nunca deixei de avisar os pecadores que estavam a caminho das chamas do inferno. Com minha bengala, botava eles para correr. Eles riam e caçoavam de mim, mas eu sempre respondi que estavam zombando de Deus. E que Deus iria rir por último. As almas desses depravados vão tostar no inferno, mas eu tenho a consciência limpa. O senhor dos céus conhece minha alma e sabe que sempre fiquei ao lado da Santa Madre Igreja. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
— Deus seja louvado – respondeu o padre, tentando ainda um último argumento:
— Dona Gertrudes, Jesus falou que quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Muitos desses pecadores podem ter sucumbido às tentações, é verdade, mas a caridade nos manda que sejamos generosos.
Não adiantou muito, posto que a beata era radical como seu ídolo, Girolamo Savonarola, o frei dominicano de quem ouvira histórias contadas por suas antigas amigas beatas vindas da Europa e que combatia, a ferro e fogo, os ímpios que desonravam a fé católica, e não se deixou convencer.
— Padre, quem ama a Deus não pode aceitar o pecado sem luta. Um santo missionário disse uma vez na prédica que Santa Joana D’Arc preferia morrer a cometer um pecado.
O padre até pensou em responder argumentando que uma coisa era não pecar e outra, bem distinta, era se meter na vida alheia, o que seria um pecado por princípio. Mas preferiu dar de ombros. Não conseguiria mudar os conceitos daquela figura frágil e curvada cuja única razão de viver era a sua cruzada solitária contra as perversidades do mundo. E, naquele domingo, a fila do confessionário apresentava um bom número de forasteiros. Forasteiros eram raros em sua capela e queria que se sentissem acolhidos na casa de Deus. Portanto, não podia frustrar seu desejo de se confessarem. Não podia permitir que tantos fiéis ficassem sem confissão e permanecessem em pecado por culpa das idiossincrasias de dona Gertrudes. Para encurtar aquela conversa bolou uma artimanha:
— Dona Gertrudes, a senhora é sempre tão prestativa que vou lhe pedir uma ajuda. Lá na parte da frente da capela tem alguma algazarra. Deve ser um pessoal de fora e preciso de alguém de confiança para evitar que algum pecador faça alguma besteira e macule a casa de Deus. Tem muita gente desconhecida aqui hoje. Precisamos ficar de olho.
Dona Gertrudes reagiu surpreendida, mas nem titubeou:
— Valha-nos Deus, reverendo padre. Que Deus não permita que desrespeitem a casa do Senhor. Que Deus nos livre dos apostatas e dos pecadores sem fé. Farei o que vossa reverendíssima mandar. Pode contar comigo e com minha bengala que foi abençoada pelo padre de Cruz Alta quando por aqui passou.
O padre Penteado suspirou aliviado. O pequeno estratagema dera certo. Dona Gertrudes esqueceu sua lista de mexericos e aprestou-se para a missão incumbida a ela. Recebeu a bênção da confissão e levantou-se pronta para pelear. Aquela barulheira de gente estranha rondando a capela só podia ser coisa do demo. Deviam ser arruaceiros. Talvez um bando daqueles farrapos desregrados que seguiam aquela “padraiada” apostasiada e excomungada dos republicanos. Se invadissem a capela, seria um sacrilégio e ela tinha de agir. Empunhando a bengala, jogou o velho xale de crochê sobre os ombros, foi rezando a penitência de recitar uma Ave-Maria e um Pai-Nosso já no caminho, e correu para a entrada da capela. Com o sangue fervendo nas veias, até esqueceu que estava velha e curvada. Voltou a sentir o frêmito da jovem prenda destemida, que nos antigos entreveros da fronteira galopeava com os soldados e não negava tiro nas refregas com os castelhanos.
Ao chegar ao pátio em frente à capela notou que ali estava, como temia, um bando de desconhecidos em barulhenta agitação. Esfregou os olhos para tentar adaptar-se melhor à luz e poder ver bem o agrupamento. Lamentava que a catarata que enevoava seus olhos não lhe permitisse enxergar com clareza todo aquele movimento, mas, ainda assim, via o suficiente para perceber que se tratava de um grupo de uns 20 a 30 homens aglomerados em frente à capela. De tanto observar revoluções e convulsões, temeu pelo pior. O que um grupo de guapos rapagões estaria fazendo ali, promovendo uma sacrílega algazarra bem na hora da missa? Temia que fossem mesmo partidários do excomungado padre Chagas, aquele Judas Iscariotes traidor, aquele vigário da apostasia criada pelos farroupilhas. Seriam seguidores daquele satânico arauto das trevas que a fazia tremer de madrugada? Ou, ainda pior – persignou-se arrepiada –, seriam os fantasmas dos soldados do general Labatut que foram escorraçados e mortos pelos Kaingang e que agora voltavam para se vingar? Só de pensar teve calafrios. Ela não era de crer muito nessas coisas, mas acreditava já ter visto mula sem cabeça em noite de trovoada, e com coisas do demônio não se podia brincar.
De qualquer modo, fossem quem fossem, aquele grupo de gaudérios espalhafatosos não podia ser de gente boa. Sem mais pensar afastou seus receios com uma fervorosa jaculatória e decidiu estar disposta até ao martírio se preciso fosse, mas não ia fazer fiasco agora que o bom padre havia confiado nela para enfrentar a turba. E se lançou com a bengala em punho. Porém, o que ela não sabia é que o grupo era formado pelos trabalhadores da nova estrada recém-chegados a Passo Fundo, que haviam decidido ir à missa. Era de alegria que confraternizavam com os demais fiéis da capela quando se viram atacados, de repente, pela insólita figura de uma velhinha que, enrolada em um xale, avançava de bengala em riste, gritando a plenos pulmões:
— Pecadores, nojentos, guaipecas, sátrapas, vendilhões do templo, parem a barulhada. Tenham respeito. Façam silêncio porque esta é a casa do Senhor.
A voz indignada, que soava esganiçada, ainda que surpreendentemente aguda e volumosa para uma velhinha tão franzina, continuava vociferando aos gritos:
— Calem-se. Sejam tementes da casa de Deus. calaveiras sem vergonha, cupinchada do diabo, fiquem quietos que aqui é lugar de veneração. E quem quiser pelear comigo que venha que lhe vergo o lombo de bengaladas.
O silêncio foi imediato. Quedaram espantados com aquela anciã de semblante apocalíptico, com sua bengala girando no ar. Coincidiu que, naquele momento, chegava a charrete de Fagundes dos Reis com sua família para a missa. O comissário logo reconheceu a velhinha que, em meio ao grupo de operários da estrada, brandia sua bengala como se fosse a espada de São Miguel Arcanjo. O reconhecimento se deu no ato, afinal, dona Gertrudes era popular na região. Vivia implicando com todos, é verdade, mas não faltava à missa e organizava todas as celebrações da padroeira, ainda que na procissão, no período mais negro da revolução, não aparecessem mais que alguns escravos e agregados da fazenda do cabo Neves para carregar o andor com a imagem.
O comissário foi até o Centro da aglomeração e tentou conter o ataque:
— Se acalme, dona Gertrudes, a senhora pode sossegar, que aqui só tem amigos. Essa rapaziada está meio faceira demais, mas é uma indiada boa e trabalhadora que só quer assistir à missa. Essas pessoas vieram de Guarapuava abrindo um caminho para os tropeiros e ficaram muito tempo enfiadas no mato.
Dona Gertrudes reconheceu o comissário e lhe disse:
— Se o senhor quer que eu baixe a bengala, vou baixar. Mas é com esta bengala que vou expulsar o belzebu que tomou conta destes endemoniados.
Ela baixou a bengala. Se o comissário dizia que estava tudo nos conformes, não tinha motivo para promover querela nenhuma. Acalmou-se, mas não deixou de reclamar do que achava ser um comportamento desrespeitoso da indiada:
— Meno male, meno male, mas vossa excelência precisa dar ordem aos baderneiros para que se calem e respeitem a casa de Deus. Se vosmecê se furtar de defender o respeito à morada do Senhor, eu mesma vou defendê-la.
Fagundes dos Reis sorriu condescendente. Conciliador, justificou para dona Gertrudes o comportamento do grupo, enquanto seus membros observavam, curiosos e divertidos, como o comissário lidava com aquele rompante da velhinha dos xales.
— Mas pode se assossegar, dona Gertrudes. Ainda estamos do lado de fora da capela. Estamos no pátio de frente da entrada. E aqui, do lado de fora, não temos motivo de criar um bochicho. Agora, se alguém fizer barulhada dentro da capela, aí eu serei o primeiro a exigir respeito.
E foi assim, de forma um tanto conturbada, que teve início o primeiro domingo do grupo de obreiros na povoação de Passo Fundo.
Enquanto isso, no confessionário, o padre correu com as confissões. Não conseguiu terminar todas antes do horário da missa, o que a atrasou. A contragosto, fez uma missa apressada, correndo sobre os textos latinos. Ele gostava de saborear as expressões solenes do latim do missal, mas, suspirou, o povo, de fato, não entendia o latim do missal e Deus, certamente, já conhecia os textos de cor. Fez sua homília com grande alegria, sendo aquela a primeira vez que falava para uma capela lotada e com gente do lado de fora. Deu boas-vindas aos trabalhadores da construção da estrada e exaltou a obra do novo caminho das missões. Citou o padre Antônio Vieira:
“Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos”.
Na hora da eucaristia precisou dividir as hóstias em quatro para poder dar a comunhão a todos, mas ninguém ficou sem receber o sacramento. Terminada a celebração, o padre Penteado, após tirar os paramentos, foi ao encontro do grupo que se formou na saída, em frente à capela. O comissário, ao vê-lo chegar, foi ao seu encontro para conduzi-lo ao grupo e fazer as apresentações, começando com os irmãos Rocha Loures e com o cacique Condá. O padre apertou a mão de todos, incluindo a dos trabalhadores da obra de construção da estrada. Foram muitos os cumprimentos. E, a convite do comissário, juntos seguiram para a residência oficial. Foi fácil achar o caminho: seguiam o aroma do churrasco de ovelha que assava enfiada nos espetos fincados ao longo da vala onde um braseiro estalava com a queima dos galhos de pinheiro. Dona Gertrudes, depois de fazer as pazes com a indiada, seguiu junto. Se eram cristãos, então eram gente boa. E passou a participar da alegria do grupo, apoiando-se na bengala e deixando o xale esvoaçar no vento que soprava forte.
Ao chegarem ao local do churrasco, ouviam a música de uma sanfona e de um violão, ambos tocados por dois músicos negros, escravos da Fazenda Nossa Senhora da Conceição. A dupla se encarregava de entoar as melodias nativas que animavam a churrasqueada. O padre Penteado ainda não estava habituado àquelas manifestações gastronômicas musicadas dos Sul-rio-grandenses. A ele pareciam festivais pantagruélicos um tanto exagerados, talvez mais para o gosto de glutões desmedidos do que para os hábitos de um padre fastidioso como procurava ser, embora, naquele domingo festivo, o bom Deus o haveria de perdoar por ceder ante tanta tentação de carne.
Os que chegavam foram sentando-se em mesas improvisadas, posto que a mesa maior estava reservada para o comissário, que convidou o padre e os Rocha Loures para sentar-se ao seu lado e o cacique para sentar-se em frente. Precisava facilitar a conversa. Enquanto se abancavam para o churrasco, o comissário mandou chamar o soldado Castilho. Logo um homem alto, esguio, bem barbeado e envergando um raro uniforme impecável se apresentou. O comissário indicou para que se sentasse ao lado do cacique. Fagundes dos Reis acreditava naquele moço reservado, que não era de fazer graça nem de gabar-se, mas era diligente, leal e tinha se mostrado valente e determinado. Por ser casado com uma nativa Kaingang e por ter excelente relacionamento com os parentes de sua mulher, podia se mostrar estratégico no processo de aproximação e catequese dos índios de Nonoai.
Depois de resumirem sua história, os Rocha Loures explicaram ao padre Penteado como seria o caminho das tropas que estavam implantando com a travessia pelo vau do Goio-En. Falaram sobre o interesse do governo paulista em viabilizar a nova rota alternativa para o desenvolvimento econômico entre São Paulo e Rio Grande do Sul, da importância que teria na integração das duas províncias, especialmente agora que a Revolução Farroupilha tinha acabado e os negócios seriam retomados. Igualmente discorreram sobre tudo o mais que fazia o novo caminho ser interessante para os habitantes dos dois lados do Rio Uruguai. Por fim, chegaram ao ponto que mais os preocupava naquele momento: a conquista do apoio do cacique Nonoai. Um apoio que seria mais fácil e mais seguro caso ele aceitasse uma convivência pacífica com os brancos – e, ainda mais, caso aceitasse converter-se ao cristianismo.
Nesta altura da conversa, foi o comissário quem conduziu o assunto para a questão da conversão dos índios:
—Padre Penteado, o senhor bem sabe do interesse do Conde de Caxias em levar as luzes do cristianismo para os índios de nossa região. Vosmecê já me falou de seu interesse pastoral em fazer um trabalho missionário junto aos índios que vivem em nossa área, que vêm a ser os Coroados do cacique Nonoai.
O padre Penteado concordou:
— Sim, comissário. Eu realmente desejo isso mesmo. Explicarei as razões que me levam a pleitear uma missão evangelizadora oficial junto Coroados. Em primeiro lugar, sinto a vocação de levar o cristianismo e a civilização aos nossos irmãos nativos. Depois, me afeiçoei a estes pagos e gostaria de continuar aqui. Sucede que, como Cura provisório que sou, não recebo côngrua do governo nem tenho proventos. Como sabes, a capela é ainda pequena e não tem receita. Por ora, eu tenho meios para me manter, mas são finitos. Assim, além de meu sincero interesse como missionário cristão, penso que não seria uma má ideia juntar minha disponibilidade imediata com meus interesses futuros. No caso de o governo da província aceitar meus préstimos como missionário, possivelmente eu me credenciaria a ocupar algum cargo, talvez uma capelania, e deste modo receber alguma compensação. Não é minha prioridade nem meu objetivo imediato, mas, ainda assim, não posso esquecer do lado material da vida. De forma que o trabalho missionário seria uma forma de unir o útil ao agradável.
O comissário Fagundes dos Reis respondeu de imediato:
— Bem ponderado e bem pensado, reverendo. Concordo inteiramente. Dou meu apoio e pode ter certeza de que vou fazer o que estiver ao meu alcance para apoiar este seu projeto. No que concerne ao esforço de aproximação com o cacique Nonoai, acho que podemos ouvir as sugestões do nosso amigo, o cacique Condá. Ele é capitão dos índios sob soldo do governo paulista e veio como conselheiro na comitiva que chegou de Guarapuava sob o comando do alferes Francisco Ferreira da Rocha Loures.
O padre Penteado gostou da ideia. De fato, era importante saber o que pensava o cacique. Havia tido excelente impressão daquele chefe indígena que demonstrava postura de líder e era muito resoluto. Então, voltou-se para ele:
— Cacique Condá, o que me diz? Posso contar com sua ajuda para que eu possa me aproximar do cacique Nonoai?
O cacique respondeu de pronto:
— Pode contar, sim, reverendo. O senhor haverá de saber que sou cristão batizado e que sigo a fé católica. E será com espírito cristão e com sinceridade que vou falar com o cacique Nonoai e saber se ele aceitaria receber um missionário junto à sua tribo.
O padre Penteado exultou com a resposta de Condá:
— Será uma bênção contar com sua ajuda, cacique Condá. Desde já fico agradecido por tudo o que puder fazer para ajudar. E como acha que devemos fazer?
O cacique refletiu um pouco antes de responder:
— Eu penso que a primeira coisa a fazer para facilitar a sua aproximação será mesmo falar com Nonoai. Conversando com o cacique vamos saber o que ele pensa sobre o cristianismo e que tipo de entendimento podemos conseguir.
— E o que imagina dizer a Nonoai?
— Nonoai não é tolo. Vou dizer a ele a verdade de nossas intenções. Que queremos um entendimento de paz. Que aceitar o cristianismo será bom para ele e para os índios. Que nosso objetivo por agora é a segurança na estrada, mas temos muitas outras coisas a fazer que serão boas para todos e favorecerão os índios. Acho que falar a verdade para ele será a única maneira de conhecermos quais são os seus sentimentos. E é a melhor forma de evitarmos fazer alguma coisa que possa gerar incompreensões ou mal-entendidos. Será pouco auspicioso para o projeto começar errado. Falar com ele a verdade, frente a frente, é a melhor ideia.
— Concordo – O comissário Fagundes dos Reis olhou em volta para o grupo que seguia atento à troca de opiniões e viu que o alferes Rocha Loures concordava com enfáticos movimentos da cabeça. – Vejo que o alferes também concorda. Acho, assim, que todos estamos de acordo.
O cacique Condá prosseguiu:
— O que originalmente estávamos pensando era ir visitar o cacique Nonoai com uma comitiva completa. O que tínhamos pensado, inicialmente, era propor aos Kaingang que aceitassem a formação de um aldeamento, com a instalação e a manutenção custeadas pelo governo. A compensação seria a licença para usarmos o caminho passando por Goio-En. Agora essas circunstâncias mudam tudo. Se vamos ampliar a conversa para incluirmos uma missão cristã e uma catequese para converter os índios, então acho melhor agirmos com muito tato. No caso, eu iria na frente, sozinho, para conferenciar primeiro. Dessa forma evitaríamos mal-entendidos. Acho que não é preciso lembrar que não queremos colocar os pajés contra nós, não é mesmo?
O comissário colocou sua mão no braço de Condá, em um gesto para sinalizar boa vontade, e perguntou:
— Mas, cacique, desculpe-me por perguntar, mas ir sozinho não é muito arriscado?
Condá respondeu com altivez:
— Viver é arriscado. Eu sou um Pai-Bang. Eu respeito e sou respeitado pelos meus irmãos Kaingang. Eles sabem que vou em paz. Mesmo meus inimigos sabem que vou em paz. Mas eu preciso mostrar que não tenho medo para ser respeitado e poder negociar. Então quando eu digo “ir sozinho” quero dizer ir com meu cocar e com uma comitiva de meus guerreiros Kaingang. Concordo que é sempre mais seguro entrar no mato com companhia e proteção. Sempre é preciso ter cuidado com ataques traiçoeiros. Só porque eu sou índio não quer dizer que estou livre de levar uma flechada pelas costas.
— Vosmecê, cacique Condá, é quem sabe como deve lidar com o cacique Nonoai – Concordou o comissário – De minha parte, se me permite, penso que o chefe Nonoai vai se sentir mais à vontade para conversar de irmão para irmão e estará mais à vontade para revelar seus pensamentos e dizer quais são as suas condições.
O alferes Rocha Loures apoiou a ideia:
— Também concordo. Uma conversa de cacique para cacique tende a ser mais sincera e, portanto, mais produtiva. Acho que, sim, esta é uma ideia excelente. E, depois, concordo que um pouco de precaução é sempre saudável. – Fez uma pequena pausa para sorrir ao lembrar uma frase que seu pai repetia de vez em quando e continuou – Como diz meu velho pai, “o seguro morreu de velho, mas é o desconfiado que ainda está vivo”.
O comissário achou graça. Fazia tempo que não ouvia alguém repetir aquele chiste.
— Pois eis que é uma baita de uma verdade. Quem desconfia se cuida, e quem se cuida se dá bem. É melhor ser desconfiado do que confiado demais.
O alferes retomou a conversa:
— Enfim, se nosso cacique Condá quer, ele mesmo, fazer uma vista preliminar para sondar o modo como pensa o cacique Nonoai, acho que é uma precaução válida e dou todo o meu apoio. Prevenir é sempre melhor do que remediar, não é?
A esta altura, Condá já tinha sua opinião formada, mas, ainda assim, queria ouvir a opinião do soldado Castilho, que estava à sua frente, na mesa do churrasco.
— Soldado Castilho, acho que estás acompanhando nossa conversa. Eu já manifestei minha opinião de que acho melhor ir sozinho primeiro. Mas gostaria de saber sua opinião a respeito, já que conhece melhor os Kaingang daqui.
O soldado foi apanhado de surpresa. Engoliu o naco inteiro de carne sem mastigar direito, tomou um gole daquela cerveja aguada feita ali, na estância dos Neves, limpou a boca com o guardanapo que tinha enfiado no colarinho da farda e respondeu:
— Senhor capitão, eu sou só um soldado dos Pedestres e estou aqui para obedecer às ordens do comissário e às suas também. Mas, se me pergunta, a opinião que tenho é que, sim, acho melhor que na primeira vez o senhor vá conferenciar com o cacique Nonoai solito. Eu já estive em conversa com o cacique Nonoai e sei que é uma pessoa de muita sabedoria. Mas, como há de saber, ele é cercado por pequenos caciques. E nem todos são a favor de conversar com os brancos. Se vosmecê for acompanhado pelos brancos, eles vão se retrair. Até eu mesmo, que sou só um soldado, sou malvisto e ofendido por alguns. Nem todos aceitam meu casamento com a Kary, por ela ser uma índia. Nonoai, porém, é um cacique que exige respeito e não aceita desconsideração. De modo que, até como sinal de consideração e de boas intenções, acho que deve, sim, ir falar com ele antes de levar os brancos.
Condá achou graça no embaraço do soldado. Ele tinha sido apanhado sem esperar a pergunta e mostrou-se meio sem jeito. Mas sua resposta coincidia com o que ele mesmo pensava. Então foi em frente:
— Teus argumentos me parecem bem pensados, soldado Castilho. Obrigado pela franqueza, e saiba que ouço sua opinião com muito apreço. Como tu conheces o caminho, poderias guiar a mim e a meu grupo de índios até o toldo de Nonoai?
O soldado Castilho aprumou o peito. Ficou feliz em ser ouvido e em poder contribuir para uma missão tão importante. Ajeitou a farda, passou a mão pelos cabelos negros e lisos, e respondeu fitando o cacique com disposição e coragem:
— Capitão, agradeço por acatar a minha opinião humilde, porém sincera. Saiba que pode contar comigo. Já vaguei muito por estes costados e conheço o caminho e os atalhos. Se o senhor comissário me der a ordem para seguir contigo, em dois ou três dias de caminhada, levando em conta se o tempo estiver bom, podemos chegar ao toldo do cacique Nonoai. E depois de levá-lo até as proximidades, se preferir, posso retornar discretamente.
O cacique Condá sorriu e retrucou:
— Soldado Castilho, para o meu povo, quando branco se casa com índia da tribo vira índio também. É uma honra tê-lo como nosso guia. E tenho certeza que o cacique Nonoai vai recebê-lo como membro da tribo.
O comissário Fagundes dos Reis, atento ao diálogo, confirmou com a cabeça, enquanto autorizava:
— Soldado Castilho, tens minha confiança e está liberado para acompanhar o cacique Victorino Condá. Pode considerar que a ordem está dada.
A conversa arrefeceu para uma pausa, enquanto todo o grupo aplicava-se em degustar o esplêndido churrasco oferecido pelo comissário. Os espetos de carne gorda saíam da churrasqueira pingando e espalhando o aroma da carne bem churrasqueada de modo a aguçar o apetite dos convivas e levar o cheiro a se espalhar também pela povoação. Em cada mesa havia baciadas de radiche, a verdura amarga e bem temperada com limão e óleo que era o acompanhamento favorito do churrasco, embora houvesse travessas com salada de batatas, polenta e arroz à vontade. Para regar o churrasco, garrafões de um passável vinho tinto caseiro vindos da cantina da fazenda do cabo Neves. Produzido com o esmagamento e a fermentação de uva Santa Izabel do parreiral das encostas da fazenda, era a bebida servida para animar os espíritos, desatar as inibições e soltar as vozes para formar o improvisado coral que entoava as cantigas que todos cantavam juntos, esquecendo as preocupações e espantando os males que a uns e outros afligiam.
O cacique Condá e os guerreiros Kaingang tinham descoberto o prazer de apreciar um bom churrasco assado no fogo de chão e, como os demais comensais, se serviam de macios nacos de carne de gado ou de ovelha com a gordura branca crocante e crepitando. Os índios estavam alegres, gracejavam entre si e comentavam uns com os outros que, sim, os fóg tinham lá seus defeitos, mas assar carne no espeto era uma coisa que sabiam fazer. E assar churrascos era uma coisa que, concordavam unanimemente, valia a pena o índio aprender.
Lá pelo meio da tarde, saciado o apetite, o comissário convidou o padre Penteado, os irmãos Rocha Loures, o cacique Condá e mais algumas lideranças da região, incluindo a família Neves, da Fazenda Nossa Senhora da Conceição Aparecida e mais negociantes de gado, produtores de erva-mate e comerciantes que tinham almoçado com ele, para um encontro em seu escritório. Lá chegando, depois de todos se sentarem, não perdeu tempo com delongas e foi direto:
— Meus caros senhores, como todos sabem, temos a missão de preparar a abertura oficial da nova estrada do Goio-En. Esse novo caminho, que vem sendo construído às expensas da Província de São Paulo, oferece enormes oportunidades de progresso e desenvolvimento para a nossa região. Da margem Sul do Rio Uruguai, nos cabe oferecer segurança aos tropeiros e viajantes que vierem a se utilizar do novo caminho. Por este motivo os convidei para uma reunião hoje. E para alcançarmos este objetivo precisamos conseguir a pacificação dos índios Coroados por meio de um entendimento com o cacique Nonoai. Como sabem, o governo de província apoia a criação de um aldeamento para os Kaingang. Ao mesmo tempo desejamos também apoiar a cristianização dos índios da nossa região e da região do Alto Uruguai, a ser realizada pelo padre Penteado. Acredito que podemos juntar os dois projetos e trabalhar de maneira coordenada. Como vossa reverendíssima vê esta possibilidade?
O padre Penteado pensou por alguns minutos. Precisava ser cauteloso. Não tinha dúvida de que a implantação da estrada era a prioridade e, para viabilizar a segurança do novo caminho, era fundamental a criação do aldeamento. Estas, portanto, eram as prioridades do comissário, enquanto a dele era fazer o trabalho missionário e converter os índios ao cristianismo. O padre acreditava que teria o apoio ostensivo do presidente da província, mas seu esforço missionário não podia resultar em algum embaraço para o aldeamento. Suspeitava que kuiã, os pajés da tribo, não iriam gostar que um missionário fosse interferir em suas posições de líderes religiosos na tribo. Os kuiã tinham grande influência sobre os Kaingang e, se ficassem ostensivamente contra o aldeamento, poderias criar um problema para todo o projeto. Daí que o padre desejava deixar claro que sua pregação missionária seria cautelosa e evitaria conflitos com os kuiã. Queria deixar claro também que uma missão bem articulada e bem-sucedida, com respeito ao papel dos pajés, poderia ajudar o projeto de pacificação dos índios e a aceitação do aldeamento. Por isso, após a pausa para organizar suas ideias, esclareceu:
— Como todos sabem, minha missão de sacerdote é inequívoca. Estou aqui com o propósito de pastorear as ovelhas do Senhor. Minha missão é cuidar das almas, propagar o Santo Evangelho e promover a paz em Cristo. E é de minha obrigação pregar o evangelho para aos gentios. Penso que poderia começar citando a profecia de Isaías, em 9:6, sobre a vinda do Messias: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”. Então é isto que desejo, meus amigos. Desejo falar a todos sobre o Divino Conselheiro, sobre o amor do Deus Forte, que é pai de todos os homens, e sobre o magnífico Príncipe da Paz, que vem para somar e não para dividir. Como cristão e como sacerdote é isto tudo o que eu almejo. Se bem compreendo, os senhores esperam que eu leve as luzes do cristianismo aos nossos irmãos índios, mas, talvez, guardem algum receio de que sobrevenha algum contratempo em razão do trabalho missionário. Quero, portanto, tranquilizá-los. Saibam, senhores, que não ignoro que o momento exige muito tato. Por isso devo assegurar que tenho a preocupação de fazer da minha missão um esforço pela paz. E gostaria de acrescentar que a melhor maneira de pacificar os nativos é mostrar a eles que são importantes aos olhos do Senhor e que um aldeamento vai oferecer melhores oportunidades para que vivam em paz. Em um aldeamento eles poderão viver melhor, ter ferramentas para facilitar o cultivo dos alimentos, viver em casas mais confortáveis, que os abriguem do frio e da chuva. Se me permitem, vou repetir o que o Padre Vieira dizia: “A nossa alma rende-se muito mais pelos olhos do que pelos ouvidos”. Vamos conquistar a confiança dos índios pelos olhos. Vamos mostrar a eles como um aldeamento pode ser melhor do que a vida errante. Se receberem as luzes do cristianismo, irão também ver com seus olhos a importância da estrada e os benefícios que todos terão com ela. Por oportuno, gostaria de acrescentar que muitos índios têm vindo visitar a nossa capela de Nossa Senhora. Muitos mesmo. Talvez uns 200 ou 300, pelo menos. Acho que uns falam com os outros e eles têm curiosidade sobre a religião católica. Outros querem ter um convívio pacífico com os brancos. E todos parecem interessados em ser convertidos e batizados na Igreja. Por isto tenho esperança de chegar a um acordo com o cacique Nonoai e ter a ajuda dos índios para que o aldeamento tenha uma capela. A ele vou dizer que estarei ao lado deles para garantir o que lhes está sendo oferecido, como o conforto da casa dos brancos e meios que lhes propiciem abundância de alimentos. Espero que o governo envie sementes e dê boa orientação para suas lavouras. Que ensine os índios a criar galinhas, porcos, gado e tenham, igualmente, uma escola para a educação cristã das crianças. Essa é uma forma de organizar o trabalho missionário na messe do Senhor que temos aqui em Passo Fundo e que vai poder ser visto com olhos, como aconselha o Padre Vieira. Também será uma forma de evitar que índios isolados sejam alvo de bugreiros ou vítimas de brancos perversos. E, em um aldeamento, a autoridade do comissário e a vigilância do batalhão de Pedestres poderão prevenir conflitos entre os índios e os fazendeiros, entre os índios e os tropeiros e colonos.
Ouvida a explanação do padre Penteado, o comissário Fagundes dos Reis dirigiu-se ao cacique Condá:
— Cacique Condá, me permita, mas, por ser batizado, terás conhecimento pessoal sobre o trabalho missionário junto aos índios, bem como sua conversão ao cristianismo. Qual a sua opinião sobre o que falou o padre Penteado?
— Sim. Por ser cristão acho que sei de muitas coisas sobre os missionários e a conversão dos índios. Conheci muitos padres, a começar pelo padre Francisco das Chagas Lima, que lá em Guarapuava era conhecido como padre Chagas. Ele foi o missionário que catequizou os Kaingang de Guarapuava e que batizou meus pais e me batizou. O padre Chagas foi um santo missionário, muito amigo e protetor dos índios e falava a nossa língua como se fosse Kaingang. Se todos os padres fossem como ele, todos os Kaingang hoje seriam cristãos. Acho que o padre Penteado deve ter ouvido falar no padre Chagas quando esteve em Aparecida. Pelo que sei é que o padre Chagas, antes de ser capelão em Guarapuava, foi capelão da capela de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo.
O padre Penteado foi apanhado de surpresa pela revelação que lhe fizera Condá:
— Cacique Condá, vosmecê disse uma coisa que me surpreende e encanta. Nunca soube da ligação do padre Chagas de Aparecida com a cristianização dos índios Kaingang. E, certamente, não pode haver dois padres Francisco das Chagas Lima. Eu sei de referências do lendário padre Chagas, que foi o abençoado primeiro capelão de Aparecida, mas não sabia que ele tinha ido para os Campos de Guarapuava. É maravilhoso saber que foi ele que levou o cristianismo para os Kaingang de Guarapuava e que um dos seus batizados vem agora ajudar a promover o cristianismo na capela de Nossa Senhora Aparecida aqui, neste sertão.
O cacique riu da surpresa do padre Penteado:
— Pois é mesmo uma feliz coincidência, reverendo. O que digo com toda a fé é que o padre Chagas de Guarapuava é o mesmo padre Chagas de Aparecida. Eu era ainda gurizote e ouvia os sermões do padre Chagas em Guarapuava, quando ele falava da imagem de Nossa Senhora de Aparecida e dos maravilhosos milagres que ela fazia. Não sei se tem outros padres Chagas no mundo, mas o que garanto é que o nosso padre Chagas de Guarapuava foi o mesmo vigário da capela de Nossa Senhora de Aparecida.
O padre Penteado estava completamente atônito:
— Acho que esta noite vou ter dificuldade para dormir. Que coincidência extraordinária. Mais outra bênção que Deus põe no meu caminho. Então, tenho diante de mim um cacique batizado pelo padre Chagas, que agora fico sabendo ser o vigário reverenciado de Aparecida. O padre Chagas foi um santo homem e dele ouvi falar elogiosamente ao visitar a capela da nossa padroeira em Guaratinguetá. E se ele teve sucesso ao levar o cristianismo aos Kaingang em Guarapuava, o que me proponho a fazer é continuar o trabalho missionário dele aqui, junto aos Kaingang de Passo Fundo. Sinto que a cada dia mais sou chamado para esta missão evangelizadora. A começar pela minha inesperada designação como Cura da Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Sei que Deus escreve certo por linhas tortas, mas que este acaso me deixa pasmo, isto deixa. E peço perdão por minha irreverência, mas há momentos em que acho que o Espírito Santo tem especial gosto em pregar peças neste seu humilde servo.
O cacique Condá ficou agradado em saber da disposição do padre Penteado de continuar nas pegadas do padre Chagas. Então, ofereceu sua opinião:
— Reverendo padre, meus caros senhores, foi com o padre Chagas que aprendi a língua dos brancos e com ele aprendi a ler e escrever. Graças a ele, sou índio cristão. Sou batizado na Igreja Católica e meus pais também foram batizados. Sou feliz em dizer que quando o índio é batizado ele deixa de ser pagão aos olhos dos brancos e se transforma em cristão, mas continua com a alma de índio. E quando morre na graça vai para o céu. Isto é o que me foi ensinado na fé católica. Eu acho bom ser cristão e ser membro da Igreja de Jesus Cristo, e desejo que os índios da minha tribo tenham o privilégio de serem cristãos e possam também entrar no céu. Por isto eu desejo o sucesso da missão do padre Penteado. Acho que a missão de evangelizar, sendo conduzida respeitando o sentimento dos índios, pode facilitar um acordo para a paz entre nosso povo e os brancos. Hoje os Kaingang pensam diferente dos índios mais antigos. Antes muitos acreditavam que poderiam combater os brancos de igual para igual e até vencer e expulsar os brancos. Hoje só alguns poucos ainda têm esta ilusão. E, sendo assim, a maioria acha melhor se entender com os fóg e viver em paz. E para viver em paz é melhor aceitar a religião dos brancos. E, porque penso assim, acho que a maioria vai aceitar também o aldeamento. Vai aceitar trocar o mato perigoso pelo aldeamento mais seguro. Mas devo reconhecer que muitos índios ainda têm medo. E com razão. Muitos índios têm sido enganados e atraiçoados pelos brancos. De minha parte, como cristão, vou confiar na palavra do padre Penteado. Se o reverendo padre nos dá sua palavra que vai cuidar bem de nosso povo e ajudar a fazer um aldeamento que acolha os Kaingang com dignidade, vou me esforçar para convencer o cacique Nonoai a aceitar uma missão cristã em seu território.
O padre Penteado respondeu com sobriedade e determinação:
— Caro cacique, fico muito agradecido por sua confiança e lhe asseguro que pode confiar na minha palavra! Eu jamais vou trair a confiança de seu povo. Sei que Deus não me perdoaria se traísse minha palavra e meu compromisso como sacerdote da Santa Madre Igreja.
O cacique Condá retrucou:
— Reverendo padre, eu vejo em seus olhos que suas palavras são sinceras. Eu creio no senhor. Mas saiba que já vi muitos padres e missionários serem desrespeitosos com a história dos índios. Padres que dizem aos índios que devem esquecer a história de seu povo, a história que aprenderam com seus anciãos, as lendas que ouviram deles contadas ao pé da fogueira. Quando um missionário não respeita a história dos índios, os índios não respeitam a história que o missionário conta. Eu sou batizado e acredito no Evangelho, mas sei que a história dos índios não está escrita lá. E isto quer dizer que nem tudo está escrito nos livros do catecismo. Para ser amigo dos índios é importante que o missionário tenha respeito pela história dos índios.
O padre Penteado compreendeu que era preciso aceitar os índios por inteiro. E se apressou a afirmar que, sim, iria respeitar a tradição histórica dos indígenas:
— Cacique, não sou mais nem menos do que os índios. Apenas tenho uma mensagem e um ensinamento para levar aos índios. Assim como a bússola mostra o Norte por uma força que não vemos, o Evangelho mostra qual o caminho que leva a Deus. Minha intenção é mostrar onde fica o Norte do Evangelho. É contar a história de Jesus e levar o cristianismo para os Kaingang. Quero contar a história do Menino Jesus, que nasceu numa manjedoura, em Belém, onde, na noite fria em que nasceu, foi aquecido pelo bafo de um jumento e de uma vaca. E sei que isto os índios compreendem, porque já contei a muitos índios que me procuraram. Quero contar sobre o Salvador, o filho de Deus vivo, o Jesus de Nazaré que pregou para todos e que amava a todos. Que fazia milagres, que curava as doenças e que morreu pregado na cruz para redimir os pecadores. Apenas isto. Tudo o que desejo é que ouçam a mensagem que trago para eles por meio da palavra, do exemplo e da fé. Eu tenho conversado muito com índios que me visitam e a eles tenho falado de Jesus e do Evangelho. Conversando com eles, senti que muitos índios têm seus corações preparados para receber o Espírito Santo. Mas, se tanto tenho falado, outro tanto tenho escutado. E assim já ouvi muitos índios fazerem relatos sobre a fascinante história de Kayru e Kamé. É uma história que se parece com muitas outras do Velho Testamento. Histórias como a da Arca de Noé, que salvou milhares de animais durante o dilúvio. Ou do profeta Jonas, que foi engolido por uma baleia, durante uma tempestade, e passou três dias e três noites na sua barriga antes de ser deixado numa praia a caminho de Nínive. Eu, de minha parte, não sou nem profeta nem adivinho. Sou apenas um missionário, um enviado da Igreja de Jesus Cristo, que quer fazer amigos, e não discutir fatos sobre os quais não tenho o conhecimento apropriado.
Condá gostou do que ouviu, mas ainda guardava algumas reservas.
— Padre Penteado, ouvindo suas palavras como missionário de Jesus Cristo fico mais tranquilo, mas, se me permite, é importante dizer que os índios não têm ilusão. Eles sabem que, mesmo batizados, muitos brancos chamam os índios de bugres e só pensam em exterminá-los para ficarem com suas terras. Tantas são as ofensas e são tantos os brancos que mentem e ludibriam e enganam, que muitos índios ficaram desconfiados das palavras dos brancos. E é com tristeza que digo que há até padres da Igreja que agem com falsidade e tratam os índios como bugres e bichos. Eu tenho mais idade e experiência de vida que a maioria dos Kaingang, por isto eu sei que nem todos os brancos são nossos inimigos. E sei também que, louvado seja Deus, os índios têm muitos amigos entre o povo branco. Ainda assim, muitos índios têm o coração amargurado pelas traições que sofreram e desconfiam de todos os brancos. É também com tristeza que digo que muitos índios suspeitam igualmente dos índios que são amigos dos brancos. Eu, Condá, sei que, nós índios, precisamos da ajuda dos brancos amigos para viver em paz no mundo dos brancos. Sozinhos e sem amigos seríamos perseguidos dia e noite, e nossa vida seria feita só de fugir e fugir. Ou de lutar e morrer. Mas não queremos viver fugindo nem queremos viver escondidos. Digo aos meus guerreiros que a paz é boa para nós porque nunca venceríamos uma guerra com os brancos, que são em número maior, são mais poderosos e contam com armas de fogo e canhões que não temos. Isto para não falar que uma guerra iria atrair mais bugreiros e mais inimigos que vivem das mentiras que espalham sobre nós para nos expulsar e tomar nossas terras.
O comissário sabia que Condá tinha razão, mas, pensava, era inútil lamentar. Era preciso prevenir e buscar uma solução para evitar os dissabores que todos conheciam:
— É verdade, caro Condá. Tudo aquilo que nos diz é verdade. Tens completa razão. Sem dúvida, reconheço que os índios ainda têm muitos inimigos, mas, caso sirva de consolo, no vale de lágrimas que é este mundo, inimigos todos têm. Desde Caim e Abel, muitos irmãos se desentendem entre si. E não preciso nem ir longe. Basta lembrar que nos últimos dez anos insanos andamos nos guerreando uns com os outros aqui pelo Rio Grande do Sul todo. Enfim, o que penso é que o nosso Cura, o padre Penteado, pode ser mais que um amigo, pode ser um bom aliado da causa dos índios.
Condá suspirou. Ele bem sabia que viver era lutar. Ele era um sobrevivente porque aprendera a ser forte. Aprendera a enfrentar a vida e os fatos com o tacape em punho. Sabia que a vida de índio não era fácil. E ainda menos para os fracos. Mas, por ser forte, não temia cruzar para o mundo dos brancos. E sabia que aliar-se aos brancos certos era a chave da sobrevivência. O padre Penteado lhe infundia confiança. Era de família de tropeiros paulistas, gente prática e confiável, e representava a Igreja. Portanto, tinha tudo para ser, de fato, um aliado importante. O cacique tinha formado excelente opinião sobre o padre, que lhe parecia sincero em seus propósitos e estava qualificado para ser o mentor que os Kaingang de Nonoai precisavam para se integrarem com sucesso na sociedade dos brancos. Ao menos ali, no Alto Uruguai, não haveria ninguém melhor. Mas Condá não queria deixar nenhum flanco descoberto. Era preciso que o padre Penteado conhecesse um pouco mais a história dos Kaingang. Por isso continuou:
— O reverendo padre – com voz baixa, recomeçou devagar – disse que já conhece um pouco da história dos Kaingang. Então sabe que o nosso povo tem suas crenças, sua cultura e uma história que é contada para as nossas crianças desde que os Kaingang estão no mundo. Nossos antepassados acreditavam que, quando os irmãos Kamé e Kayru criaram nosso povo e o dividiram em duas metades, os seguidores de Kayru e os seguidores de Kamé, eles queriam que os Kaingang fosse um povo bom e tivesse prosperidade nas matas e nos campos. Queria que os Kaingang tivessem companhia nas matas do mundo. Por isto Kayru fez cobras, e Kamé fez onças, que eram para ser bonitas, e Kamé as pintou. Enquanto isto, Kayru fez um veado. Então Kamé disse à onça: “Tu podes caçar e comer o veado, mas ficas proibida de comer os Kaingang!”. Kayru, que queria ter orgulho de sua criação, caprichou ao fazer o veado, que ficou bonito e muito ágil. E mandou que ele ficasse sempre atento, tomasse cuidado com as onças e fugisse delas como o vento que assobia no inverno. Depois, Kamé fez uma anta, mandando que comesse gente e bichos. A anta, porém, era muito fraca de cabeça e não compreendeu a ordem. Kamé repetiu a ordem mais duas vezes, mas ela era muito curta de cabeça e, por isto, não entendeu. Então Kamé ficou zangado e ordenou: “Tu vais comer folhas de urtiga! Não prestas para mais nada!”. Kayru, em seguida, fez cobras e mandou que mordessem homens e animais. Queimou um espinho e esfregou a cinza nos dentes da cobra para que ficassem venenosos. Kamé desejou, então, fazer um animal muito feroz para combater as onças, e começou a fazer o tamanduá. Ele trabalhou durante a noite inteira, porém, quando o dia começou a nascer, o tamanduá ainda não estava completo: já tinha unhas enormes, mas a boca ainda não havia ficado pronta. Então Kamé arrancou um cipó e fez com ele a língua que colocou na boca do bicho. É por isso o tamanduá ficou para sempre um bicho feio, com língua de cipó, que só serve para comer formigas. Assim Kamé e Kayru fizeram o mundo. O Sol é Kamé e a Lua é Kayru, o pinheiro é Kamé e o cedro é Kayru, o lagarto é Kamé e o macaco é Kayru. E só depois de terem criado todos os seres da natureza, só depois que fizeram as aves para enfeitarem os céus, minhocas para se esconderem na terra e peixes para povoarem os rios, decidiram ser a hora de permitir que os Kaingang se acasalassem para ter filhos. Fizeram uma regra que um Kamé só podia se casar com um Kayru, da mesma forma que um Kayru só podia se casar com um Kamé. Assim ficou decidido que cada metade do povo Kaingang precisava aceitar e respeitar a outra metade, bem como aprender a reconhecer as diferenças que existem entre todos os índios. E hoje, depois de tantos invernos em que vivemos nas matas, descobrimos que existiam criaturas que ainda não conhecíamos. E chegou o momento de conhecermos outras criaturas de Kamé e Kayru, como os homens brancos, os fóg, e como os ka pür, os homens escuros. Por isto, por serem criaturas criadas por Kamé e Kayru, devemos respeitar os fóg e os ka pür. Eles, os homens, assim como as onças, deviam ser proibidos de nos atacar. Então nós também não os atacaríamos e nós poderíamos viver em paz entre nós. Mas as criaturas são como crianças rebeldes e não obedecem ao seu criador. Assim, as onças, mesmo proibidas de atacar os índios, nos atacam quando chegamos perto. Por isso, não podemos estranhar que os fóg e os ka pür desconheçam nossos criadores e atacam os Kaingang. Por isso os Kaingang precisam se defender e, assim como não podemos confiar nas onças, também não podemos confiar nos brancos. Mas devo reconhecer que também existem índios maus, que brigam entre si. Outros que querem atacar e afugentar os brancos. Eles estão errados. O mundo é grande e Kamé e Kayru fizeram muitos lugares para que todos tivessem onde viver. Mas uns querem os lugares dos outros. Por isto, devemos viver vigilantes. Os Kaingang aprenderam que devem tomar cuidado. Os inimigos são muitos. Alguns se disfarçam, alguns são sorrateiros, alguns atacam escondidos nas moitas e nas árvores. Precisamos viver atentos, assim como os veados, que tomam cuidado com as onças e com as cobras. Antes dos fóg, os inimigos dos Kaingang eram outros índios. Agora os maiores inimigos são os fóg. Hoje eu penso, depois de muito ter meditado, que não é sábio fingir que somos fortes para querer guerrear com os fóg, assim como não é sábio os veados desejarem bramar querendo botar medo nas onças. As onças iriam rir dos veados e os atacariam do mesmo modo. Precisamos ser fortes, mas precisamos ser cautelosos. O mais sábio, tanto para os veados quanto para os índios, é não cutucar onças com vara curta.
E Condá continuou a falar, dirigindo-se ao comissário Fagundes dos Reis:
— O senhor, que conhece bem o Conde Caxias, acha ele iria mesmo dar apoio a um aldeamento Kaingang? E vai ajudar a missão do padre Penteado?
O comissário, ainda que sem ter certeza, tinha as melhores expectativas. O Conde de Caxias, que a cada dia mais admirava, vinha demonstrando ser um governante sábio, ponderado e dotado de bom senso e equilíbrio em suas atitudes e iniciativas. Fagundes dos Reis, que havia lido Voltaire, compartilhava da opinião do filósofo quando este escrevia que “bom senso era a matéria prima do senso comum, o tipo do saber que ajuda o homem a não repetir os erros do passado”. Mas, da mesma forma como Voltaire, acreditava que o senso comum podia ser tudo, menos comum. E se alegrava que o Conde de Caxias tivesse grandes doses da escassa virtude do bom senso. Por isso, tinha convicção de que iria apoiar um projeto tão bem delineado como o do padre Penteado. Não queria, contudo, deixar de dar uma resposta. E falou:
— Caro cacique, certeza mesmo, só Deus pode ter. As certezas dos homens são sempre miragens enganosas e traiçoeiras. Como os antigos diziam, “confio muito nos meus dentes, mas as vezes até eles me mordem a língua”. E, nos dias que correm, certezas são tão enganosas como os remansos do Rio Passo Fundo. Entretanto, a lógica me faz crer que os governos de São Paulo e do Rio Grande do Sul vão dar todo o apoio possível. Especialmente porque vejo claros sinais de que o nosso presidente é homem de bom senso, muitos acertos e poucos enganos. Digo mais, acho que o nosso digno Conde de Caxias é uma bênção para nossa província. Depois de tantos homens sem fibra, depois de tantas intrigas vãs e contendas tolas, o nosso novo presidente sempre agiu movido pelo interesse público. Igualmente, o Conde de Caxias tem estado disposto a ouvir e a decidir com seu espírito conciliador. Quero crer que, sim, estará disposto a apoiar qualquer iniciativa que venha apaziguar os Kaingang e estimular o progresso da região. O aldeamento e a conversão dos índios ao cristianismo são duas coisas boas por princípio. O aldeamento é bom para dar teto e comida aos índios e a conversão cristã é boa para o salvamento de suas almas. De modo que a abertura do caminho pelo Passo do Goio-En, além de criar uma bela oportunidade para o progresso da província, cria uma oportunidade para trazer os Kaingang para a graça da fé cristã. E sendo, como dizem, que Deus vê nas almas a boa intenção de seus propósitos, não poderia haver motivo melhor para apoiar o trabalho do padre Penteado. Então, pelo menos de minha parte, poderão contar com todo o apoio. Um apoio sincero e honesto. Por isto eu acho que a proposta do padre Penteado vai ser recebida com a melhor boa vontade pelo presidente da província. E ainda digo mais, minha convicção se apoia em saber o quanto o nosso presidente preza a Deus e o quanto dá valor à religiosidade cristã como promotora da pacificação. Isto me faz lembrar o que o Conde de Caxias disse, certa feita, a seus chefes no governo: “Tirem de mim os meus generais, mas não me deixem sem meus capelães”. Os senhores hão de convir que nada poderia ser mais cristão do que isto.
Todos os presentes ouviam atentos. O entusiasmo com que Fagundes dos Reis falava do Conde de Caxias era evidente. Contagiados pelo ânimo do comissário, a todos parecia que os caminhos do Goio-En se abriam sem amarras. Que, de fato, novos tempos chegavam para a Província do Rio Grande do Sul e que estava próxima a quadra de uma nova era para aqueles rincões cheios de imensas promessas, mas que pareciam ser ainda avaramente guardadas por uma natureza ciosa de suas joias mais preciosas.
— E como devemos proceder? – Perguntou o alferes Rocha Loures, já desejando partir para a ação.
O comissário, entretanto, preferiu aproveitar o momento em que todos compartilhavam o sentimento de transcendência para envolvê-los em um compromisso:
— Senhores, acredito que estamos nos preparando para escrever uma página que marcará para sempre a história do Alto Uruguai. Pacificar e catequisar os índios e abrir uma estrada não são coisas triviais nem que fazemos todos os dias. Por isto proponho que façamos uma oração pedindo as bênçãos do Senhor antes de iniciarmos nosso trabalho. Então abraçou os ombros do padre Penteado e o convidou a fazer a prece:
— Reverendo padre, que representa a Santa Madre Igreja aqui nestes pagos, nos elevaria numa prece para que Nosso Senhor Jesus Cristo e nossa padroeira, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, nos abençoem e para que o Espírito Santo nos conceda sabedoria para bem fazermos nossos planos?
O padre Penteado acedeu com prazer ao pedido do comissário:
— Terei uma grande satisfação em orar ao nosso Pai do Céu, ao Espírito Santo e à nossa queria Mãe Aparecida para que nos orientem nesta tarefa de grande importância para seus filhos que aqui desejam promover a civilização, buscar a legítima prosperidade material e levar o cristianismo aos nossos irmãos Kaingang.
Em continuidade, o padre Penteado fez as orações precedidas de um preâmbulo:
— Pai Nosso que estais no céu, elevamos nossa prece para pedirmos, humildemente, que abençoe a estes seus filhos que se congregam neste rincão de sua imensa seara e anseiam transformar este chão em uma nova Terra Prometida. Oramos aqui, com nosso olhar para o Planalto do Rio Grande do Sul e todo o Alto Uruguai, para o Passo de Goio-En e, para além do Rio Uruguai, para os Campos de Palmas e de Guarapuava. Pedimos a luz e a inspiração do seu Santo Espírito para a tarefa de fazer o novo caminho ligando as Missões e o restante do Brasil pelo Passo do Goio-En e sermos generosos em nossa tríplice missão de trazer nossos irmãos Kaingang para a fé cristã, implantar um aldeamento que seja benfazejo para os índios e garantir segurança aos negociantes e tropeiros que escolham transitar por este novo caminho. Para pedirmos estas bênçãos vamos rezar uma Ave-Maria em homenagem a Nossa Senhora da Conceição Aparecida e, depois, fazer a oração que Jesus nos ensinou no Monte das Oliveiras:
“Ave, María, grátia plena,
Dóminus tecum,
Benedícta tu in muliéribus,
Et benedictus fructus ventris tui Jesus.
Sancta María, Mater Dei,
Ora pro nobis peccatóribus,
Nunc et in hora mortis nostrae.
Amem”.
E agora, todos contritos, rezemos o Padre-Nosso:
“Pater noster, qui es in cælis:
sanctificétur nomen tuum;
advéniat regnum tuum; fiat
volúntas tua sicut in cælo, et in terra.
Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie;
et dimítte nobis débita nostra,
sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris;
et ne nos indúcas in tentatiónem;
sed líbera nos a malo.
Amem”.
Terminada a oração, o comissário procurou envolver o grupo em um compromisso coletivo focando a causa:
— Senhores, eu desejo pedir a todos que juntemos nossos esforços e façamos uma aliança em torno dos nossos objetivos. Sei que estamos todos comprometidos com os objetivos, mas precisamos também nos entender nas prioridades e no passo a passo. Organização, trabalho e disciplina levaram Vasco da Gama até a Índia e trouxeram os navegadores portugueses até cá, ao nosso Brasil. Se atuarmos com diligência, organização e disciplina, nada há neste mundo de Deus que não possamos fazer. E neste afã, vou redigir um pró-memória de nossos entendimentos e pedir aos senhores que o subscrevam, para lembrarmos do que nos propusemos fazer.
Para redigir o pró-memória a ser subscrito pelos presentes, o comissário assumiu um ar solene, arrumou o nó da gravata, estufou o peito e ajeitou-se na escrivaninha. Com a elegância de gestos que usava nos momentos em que oficiava, pegou uma das penas de ganso que repousavam na caixa em que eram guardadas. Queria caligrafar o documento com apuro e refinamento. Coincidentemente, as penas haviam sido por ele mesmo preparadas para escrita na semana anterior e, justamente na véspera, o comissário as havia mergulhado em uma caixa de areia quente para dar-lhes resistência. Experimentou a pena molhando-a em um tinteiro de vidro com tampo de prata. Sua obsessão, bem o sabia, era ser perfeccionista. Um escrivão qualquer acharia o sortimento de penas do comissário de excepcional qualidade, todas meticulosamente aparadas, preparadas e acabadas. Mas ele não era apenas um escrivão que se limitava a escrever seus documentos de modo a serem legíveis. Seu objetivo era alcançar a elegância e a melhor perfeição estética. Por isso, fazia suas próprias penas e não aceitava nada que ficasse aquém da excelência, posto que o que queria era uma apresentação primorosa de sua escrita. Afinal, via seus documentos como páginas de vida e uma dimensão de seu legado. Sabia, por experiência própria, que, por melhor que as escolhesse e preparasse, as penas de ganso eram caprichosas. Algumas funcionavam bem, eram macias e tinham traço firme. Outras, contudo, mostravam-se rebeldes. Soltavam tinta em demasia e borravam a escrita. Havia, ainda, as duras demais, que não deixavam que a tinta as impregnasse como devia.
O comissário suspirou. A seu ver, a arte de escrever com penas de ganso era a arte da pertinácia. Por isso tinha saudade das canetas de amparo e das penas metálicas europeias que havia usado até começarem as escaramuças da Revolta Farroupilha. Era especialmente saudoso da perfeição das penas metálicas alemãs e inglesas. Infelizmente, tivera de voltar a usar penas de ganso. Fazia bom tempo que seu estoque de penas metálicas havia acabado. A ele era frustrante reconhecer que, durante a Revolução Farroupilha, o suprimento das penas metálicas, como, aliás, de tantos outros artigos europeus, tinha declinado a ponto de ser praticamente inexistente. E as preciosas canetas de amparo e suas maravilhosas penas metálicas simplesmente sumiram. E ele – suspirava de quando em quando – distante da capital e do porto de Rio Grande, ficava longe dos olhos e do coração da intendência, o que significava ser esquecido e olvidado na hora da distribuição das pequenas quantidades de produtos que ainda chegavam à província. Ainda bem que os alemães de São Leopoldo faziam tinta de escrever. Não o fizessem e teria de escrever com carvão, como na Idade da Pedra, uma vez que nem mesmo os lápis chegavam ao seu escritório, perdido no Planalto.
Consolava-se, entretanto, por conjecturar que logo as coisas se normalizariam e o suprimento dos mesquinhos artigos necessários ao cotidiano seria regularizado. A paz de Poncho Verde, ainda que recente, prenunciava dias melhores para seu almoxarifado e sua despensa. E não seria sem tempo. Como comissário e juiz de paz, canetas, tinteiros, hastes de amparo, papel para cartas, penas metálicas e mata-borrões eram-lhe indispensáveis. Eram seus instrumentos de trabalho. Letras e missivas faziam o seu ofício. Com penas e amparos de aço sua escrita adquiria vida e a arte da caligrafia lhe dava imenso prazer. Delas dependia para descrever os pensamentos, expressar as vontades, registrar as decisões, transmitir ao papel planos e realizações. Em síntese, aqueles eram insumos e artigos indispensáveis para a civilização. Com eles os homens cultos registavam seus pensamentos para a posteridade. Com eles se comunicavam entre si, escreviam cartas, formalizavam documentos, emitiam certificados, diplomas, atas e tudo o mais pertinente à organização e ao funcionamento da sociedade. E toda a documentação escrita dependia dos instrumentos de escrever. Por isso, para ele, as belas e macias penas de aço eram como pincéis do seu pensar. Com elas, sua grafia adquiria vida e fluía elegante e harmoniosa.
Então, eis que em plena metade do século XIX, numa era em que os pensamentos corriam o mundo, em que as cartas abarrotavam os correios, a imprensa fazia do mundo um lugar de compartilhamento de notícias e novidades, e a humanidade convertia ideias em descobertas e grandes feitos, ele tinha de recorrer às penas de ganso! Ainda bem que os jesuítas haviam trazido gansos para suas reduções e não era difícil encontrar suas penas por ali. Mas, para seu desalento, uma autoridade de governo, como ele, não ter uma caneta para escrever era como um marinheiro não ter um barco para navegar. Era como soçobrar impotente. Era ver os grandes veleiros passarem ao largo e ele, um náufrago da burocracia, ser abandonado na ilha de matas e coxilhas de Passo Fundo.
Enfim, o infortúnio de precisar recorrer às vetustas penas de ganso era fazer seu ofício retornar à Idade Média. As carências do básico lhe davam o desgosto de ver-se forçado a tirar o mofo das velhas práticas. Então, como não tinha cão, tinha que caçar com gato. Fazia o melhor que podia para se desincumbir de suas importantes tarefas, mesmo que de maneira arcaica; maneira, aliás, que via como “penosa” justamente porque grafar com penas de ganso era tarefa “penosa” já quase por definição. Ademais, ele não tinha, como os monarcas de antanho, ajudantes de escrita perfilados ao seu lado, prontos para entintar as penas enquanto escrevia. Mas, enfim, de pouco adiantava lastimar-se. O que naquele momento lhe era possível fazer era usar as penas de ganso que havia preparado.
Tudo já nos conformes, prosseguiu:
— Meus diletos senhores, estou pronto para começar. Proponho que esbocemos juntos um plano para organizar nossa ação futura.
Pensando converter as palavras em um plano escrito pegou um maço de papel e, na primeira folha, colocou um cabeçalho: “Plano Goio-En – Junho de 1845”.
Em seguida abriu um parágrafo para listar as coisas desejáveis para o projeto.
Objetivos gerais:
1) Abrir o caminho ligando as províncias de São Pedro do Rio Grande do Sul e de São Paulo, atravessando o Rio Uruguai pelo Passo do Goio-En. A abertura do caminho já está em andamento e sendo custeada pela Província de São Paulo.
2) Garantir a segurança do novo caminho por meio de um entendimento com os índios do cacique Nonoai e a formação de um aldeamento dos índios Coroados.
3) Concomitantemente, iniciar um trabalho missionário para levar as luzes do cristianismo aos índios e promover sua integração com a comunidade dos brancos.
Passos e Etapas:
Primeira etapa – Desenhar um mapa com o trajeto do caminho e descrição dos obstáculos.
Objetivo: mostrar aos índios qual seria o trajeto do novo caminho e que ele não invadiria a área do toldo de Nonoai. Uma cópia do mapa seria fixada na capela, para permitir que os interessados conhecessem com antecedência o percurso de Passo Fundo ao Goio-En, e vice-versa.
Segunda etapa – O cacique Victorino Condá parte para encontrar do cacique Nonoai em seu toldo.
Objetivo: mostrar o mapa do caminho e discutir as condições para um acordo que dê garantia de segurança às tropas no Caminho das Missões e para estabelecer um relacionamento pacífico e duradouro entre brancos e índios Coroados, tendo como base o aldeamento dos índios e a definição de regras de convívio entre índios e brancos. Simultaneamente tentar obter a abertura da tribo para a missão de catequese do padre Penteado.
Terminada a redação dos tópicos, o comissário recolocou a pena no tinteiro, passou o mata-borrão sobre o texto, para secar a tinta, e explicou:
— Neste segundo passo pretendemos criar um clima de confiança e estabelecer um ambiente de entendimento. Precisamos conversar muito e debater outro tanto. Precisamos saber o que o cacique Nonoai pensa. Enquanto não soubermos os desejos e as intenções do cacique, vamos tatear no escuro. E não adianta ficarmos especulando a esmo, não é verdade? Assim que o cacique Condá conhecer os desejos de Nonoai, ele poderá levar a conversa adiante e chegar a uma base para o possível acordo. Os senhores concordam? Todos se puseram de acordo.
O comissário, então, prosseguiu escrevendo:
Terceira etapa – Após alcançar as bases para um possível entendimento, submeter as condições pré-acordadas com o cacique Nonoai e sua tribo às autoridades das duas províncias.
Novamente o comissário explicou:
— Tudo correndo bem, supondo que o cacique Condá tenha êxito em conseguir um entendimento auspicioso com o cacique Nonoai, que é o que almejamos, o próximo passo será envolver o Conde de Caxias para obter o seu de acordo. Neste intuito e, como disse, no caso que tudo ocorra como o previsto, vou me encarregar de fazer o encaminhamento da proposta aqui da nossa província e sugiro que o alferes Rocha Loures se encarregue de enviar correspondência para o seu governo, da Província de São Paulo. Evidentemente, quem tem a autoridade para implementar o aldeamento aqui na região é o Conde de Caxias, mas o governo paulista pode ajudar, como, aliás, já vem ajudando, ao patrocinar a construção da estada.
Fazendo uma pausa, o comissário olhou em volta e perguntou a todos se estavam de acordo, e, verificando que todos concordavam, foi adiante. Mais uma vez, sem pressa aparente, molhou a pena de ganso no tinteiro de vidro e testou o traço em uma folha à parte, antes de escrever no papel:
Quarta etapa – Estabelecer uma missão cristã sob a liderança do padre Penteado junto aos índios Kaingang.
A respeito dessa etapa o comissário explanou:
— Senhores, as decisões do governo tendem a ser demoradas. Os homens que empreendem têm a pressa da vida, que sabem ser curta e arriscada, enquanto os burocratas do governo tendem a ter a pachorra dos indolentes que possuem seus privilégios assegurados. Mas podemos ganhar tempo. Enquanto as autoridades confabularem sobre o aldeamento dos índios e sobre a abertura ao tráfego da estrada via Goio-En, podemos antecipar os passos de organização de uma missão cristã junto aos Kaingang. Podemos iniciar um diálogo e ir nos aproximando dos índios. Para esta nobre empreitada podemos contar com a disposição do nosso estimado padre Penteado, que, como ele mesmo nos revela, já vem sendo procurado e tem atendido um crescente número de índios. Aproveito para informar aos amigos que o padre está encaminhando, por meu intermédio, uma carta ao Conde de Caxias explicando a missão que deseja fazer e solicitando meios para auxiliar a tarefa de cristianizar os nativos. Alguém deseja comentar?
O comissário olhou em volta, mas ninguém quis acrescentar nada. Seguiu então:
Quinta etapa – Abrir oficialmente ao tráfego a estrada pelo Passo do Goio-En, assegurando prevenção e boa segurança aos tropeiros, negociantes e viajantes.
— Senhores, a utilização da nova estrada virá pelo interesse dos condutores de tropas em encurtar o caminho, ganhar tempo e pagar menos taxas, mas cabe ao estado oferecer as condições de tráfego e a segurança. De modo que o governo só vai dar como aberta a estada se atendidas as condições de trafegabilidade e assegurada uma condição mínima de segurança. Quer dizer, se conseguirmos um acordo com o cacique Nonoai e a implantação do aldeamento para os Coroados. Aí teremos as condições para inaugurar oficialmente o novo caminho para as comitivas de tropas. Uma inauguração que, permitam que lhes diga, promoverá regozijo nas duas capitais, em Porto Alegre e em São Paulo. Aproveito para lembrar aos senhores que o Conde de Caxias e o insigne presidente da Província de São Paulo, Manuel da Fonseca Lima e Silva, são cunhados e possuem elevada estima mútua. Penso que hão de saber que a estimada dona Carlota Guilhermina de Lima e Silva, a esposa do Presidente paulista, é uma dileta irmã do Conde de Caxias. Assim, acho lícito supor que ambos os presidentes devem estar perfeitamente a par do que vem ocorrendo aqui, na divisa entre suas províncias. E acredito que se alegrarão imensamente com a abertura desta estrada, por ora a única a ligar diretamente as duas províncias. Um feito que, sem dúvida, enaltecerá a gente das duas províncias e dignificará sobremodo nossos operosos e patrióticos presidentes.
A pequena plateia tanto gostou do que lhe disse o comissário que o aplaudiu espontaneamente. Vencidas tantas dificuldades e aperturas, seria justificada a alegria de ver premiados os esforços empreendidos e consagrada a nova estrada. Os auspícios eram promissores e a nova estrada se anunciava muito esperançosa e benfazeja.
— Muito bem, amigos. Então, para concluir, precisamos nos empenhar para assegurar a questão crucial da segurança da estrada. Acho que todos concordamos que o novo caminho só haverá de trazer benefícios continuados para nossa região se for capaz de garantir segurança para a passagem proveitosa dos tropeiros e negociantes. Uma estrada deve ser como um rio por onde flui a riqueza. Ataques de índios são como corredeiras. São obstáculos que dificultam a passagem da riqueza. Os condutores de tropas viajam por muitas léguas, trabalham duro por muitos meses e lutam contra grandes adversidades e, no fim da viagem, ainda dependem dos preços conseguidos pelos animais e de quanto dispenderam com as taxas pagas para obter algum lucro ou proveito. É certo que todos os caminhos de tropas têm riscos. Toda atividade humana implica riscos. Mas, penso que, ao sopesar os riscos, os negociantes e condutores olharão com viés mais favorável o Caminho do Goio-En se, além de ser mais curto, oferecer mais segurança do que as opções pelos Matos Castelhano e Português. A vantagem de competir oferecendo mais benefícios e menos riscos tende a ser decisiva. Diria até que ou fazemos a nova estrada se mostrar mais segura, melhor e mais proveitosa, ou a veremos estiolar e fenecer. De maneira que é nossa obrigação prevenir os possíveis ataques e entreveros com os indígenas, especialmente os Coroados de Nonoai, que representam este risco em nossa região. Então, é com o fito de livrar a estrada deste perigo que nós nos devemos desincumbir da tarefa de apaziguamento dos índios. E suponho que o cacique Condá está a concordar comigo. Os índios de bom senso são iguais aos brancos e vão preferir a paz se têm vantagens a ganhar.
Condá concordou:
— Concordo. A paz permanente é possível. E acho que Nonoai e os Kaingang vão fazer acordo com os brancos se tiverem uma proposta vantajosa. – Respondeu Condá com simplicidade e sem elaborar uma resposta mais rebuscada.
Na continuidade, o comissário, com o sentimento da importância do momento e em tom emocionado, falou sobre o que esta etapa compreendia:
— Senhores, me perdoem se a emoção embarga minha voz, mas penso que temos pela frente uma das tarefas mais importantes de nossas vidas. Uma tarefa decisiva para o futuro de nossa região. O que temos a fazer é prevenir, e prevenir, meus amigos, depende de prever. Temos que prever todas as possibilidades e agir, sem bravatas nem arroubos, para nos antecipar e evitar os perigos. A abertura de um novo caminho é sempre uma senda de oportunidades que esperam para florescer. Neste sentido, acho que é como cultivar uma lavoura. Precisamos plantar e cuidar antes de colher. Para nossa região, as tropas de muares já são realidade e representam uma riqueza em movimento. Muitas comitivas que vêm do Sul, no rumo de São Paulo, já passam por aqui para seguir pelos Matos Castelhano e Português para, depois, se incorporarem ao Caminho Geral em Vacaria. Este é o caminho tradicional e deve continuar sendo. O que estamos proporcionando, entretanto, é uma coisa nova, uma nova rota. Uma nova via que vai desbravar uma região de grandes possibilidades, vai encurtar as viagens para o Centro do país e enriquecer nossa região. Desculpem se repito, mas as comitivas só irão enveredar pelo novo caminho se tiverem segurança em primeiro lugar e caso tenham outras boas vantagens que justifiquem apostar nele. O que nos incumbe fazer é assegurar que as vantagens sejam verdadeiras e permanentes. Vou aproveitar que nosso amigo João Cypriano da Rocha Loures está aqui para dizer que seu projeto de criar boas invernadas no novo caminho deve merecer todo o apoio. Todos aqui sabemos que as comitivas de muares têm necessidade de repouso e precisam de intervalos de marcha para sua recuperação. A distância que viajam é longa e desgastante. Tanto os homens como os animais precisam de paradas para recuperação das forças antes de seguirem em frente. Estas necessidades das tropas, para nós, são como bênçãos. Representam oportunidades. Estas necessidades é que irão impulsionar o progresso e os negócios da região que margeia o novo caminho. As tropas precisarão de ferreiros para ferrar os cavalos, coureiros para os arreios e alforjes, carpinteiros para fazer as peças de madeira, cuidadores para tratar animais doentes. Serão necessários mais galpões de pouso, mais casas e habitações. Haverá necessidade de mais agricultores para lavrar a terra e produzir alimentos. Senhores, permitam que lhes diga, a civilização avança por etapas e não existem limites para o progresso. Quando pensamos que chegamos ao limite logo descobrimos que é só olhar adiante para ver que há sempre um novo horizonte a explorar. E, por mercê divina, a mente humana é a maior dádiva que recebem os homens. A mente humana é o mais importante recurso de que dispomos. Da inteligência e da operosidade dos nossos pioneiros surgirão as novas respostas. E serão preciso escolas para educar as crianças, assim como igrejas para fortalecer a fé e confortar as almas dos homens e mulheres. De vilas e cidades para os que aqui vierem lutar ao nosso lado, para promover o nosso desenvolvimento, aqui plantarem suas raízes e aqui ter descendência. Que Deus nos ajude nesta missão que assumimos de, nesta região abençoada, irrigar os frutos da inesgotável esperança de vida digna e próspera que é a aspiração de todas as gentes. Enfim, neste mister de fazer surgir uma civilização no Planalto da província, haverá de se fazer uso profícuo do espírito humano. Porque é com sabedoria, ponderação e diligência que nós iremos atender a todas as demandas, superar todas as emergências, aproveitar todas as oportunidades e, devo lembrar, enfrentar com coragem as inescapáveis tragédias que seguem por perto a aventura humana. E tendo sido o homem criado à semelhança de Deus, devemos acolher e cuidar de todos os homens, já que todos possuem uma alma imortal. Digo isto para sublinhar que dentre estes homens e estas almas devemos acolher os nativos Coroados. Os índios não são os bugres inúteis nem desprezíveis como alguns desalmados os tratam. Na verdade, os nativos têm mais conhecimentos do que nós sobre as coisas das florestas. Coisas que desconhecemos e que podemos aproveitar. E que hão de ser valiosas para acelerar nosso progresso. Resumindo, senhores, é deste modo que antevejo o oásis de civilização que podemos criar aqui. E é assim que podemos fazer surgir, em nossa região, um recanto de progresso para nós e para os que vierem depois de nós. Amigos, é com fé e com diligência que iremos forjar nosso destino nestas plagas. Aqui somos pioneiros. E os pioneiros respondem para a posteridade. Pela história, aprendemos que os pioneiros são abençoados quando sábios e previdentes, e execrados quando se deixam dominar pela tentação e agem com egoísmo. Portanto, senhores, sejamos sábios e que Deus nos abençoe nesta nova empreitada.
O padre Penteado, que ouvia com admiração as palavras do comissário, completou:
— Suas palavras me lembram o que diz a Bíblia em Provérbios, 16:3: “Entrega ao Senhor as tuas obras, e teus desígnios serão estabelecidos”. A nós, humanos, o que melhor podemos fazer é nos entregarmos aos desígnios do Altíssimo. De minha parte digo, então, que assim seja.
O alferes Rocha Loures, depois de sorver cada palavra do relato do comissário Fagundes dos Reis, falou cheio de convicção:
— És um homem de grande sabedoria. Possui o dom dos profetas. Seu plano é de uma clareza e simplicidade admiráveis. Creio que todos entendemos seus objetivos e acreditamos em seu sucesso. Quanto ao cacique Condá, sei que ele está tão engajado neste propósito civilizatório como cada um de nós. E sei de suas qualidades. O conheço como ser humano, como patrício e como negociador. Condá é um cacique valoroso e já o provou inúmeras vezes, inclusive naquele episódio em que resgatou as crianças brancas que estavam aprisionadas pelos Kaingang. Acho que enviá-lo para uma missão de reconhecimento é uma iniciativa de muita sabedoria. E acho que, de nossa parte, acreditar nele e ter fé no sucesso de sua missão vai nos ajudar a avançar com segurança.
O padre Penteado e o cacique Condá também concordaram com as etapas do plano.
O padre Penteado então continuou:
— Suas palavras hão de ter sido inspiradas pelo Espírito Santo. De minha parte, tenho intenções retas. Meu sincero propósito é atender à vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo. O que me proponho a fazer é ser diligente na propagação do conhecimento do evangelho entre os gentios e rezar para que o espírito de Deus nos ilumine e nos guie nesta empreitada.
O padre Penteado tinha a coragem de sua fé, por isto não temia enfrentar os riscos de sua missão. Ainda assim, não queria se lançar em uma aventura missionária sem estar mais bem preparado. Portanto, ao saber da viagem exploratória de Condá, ficou mais tranquilo. O sucesso da sua obra missionária seria medido pelas conversões, e não pelo açodamento. Era óbvia a conveniência de buscar entendimentos prévios com o cacique Nonoai. Neste propósito, ter o cacique Condá como um aliado nativo que se entendia tão bem com os brancos como com seus irmãos índios e que, ainda mais, já havia recebido o santo batismo era providencial. Condá saberia, melhor que ninguém, como conduzir a conversa com o Nonoai, o todo-poderoso líder dos Kaingang do Alto Uruguai, mas que era ainda uma incógnita em relação aos esforços de cristianização. Se pudesse contar com a boa vontade de Nonoai, o Pai-Bang, o cacique dos caciques, metade das dificuldades estaria afastada.
Ao sentir que todos esperavam que manifestasse sua opinião, o Condá, foi objetivo:
— Senhor comissário, gostei de suas palavras, com as quais me coloco de acordo inteiramente, e ainda mais me alegro com as excelentes qualidades de seu plano. Agora temos um Norte para seguir. Agora temos objetivos claros que todos compartilhamos. Portanto, o que temos a fazer é agir sem demora. Se estiver de acordo, podemos partir daqui a dois dias, bem cedo, ao nascer da aurora. Se assim decidirmos, teremos amanhã para nos prepararmos e resolver as questões finais.
João Cypriano, por sua parte, entendeu as palavras do comissário Fagundes dos Reis como um estímulo a seus planos de fixar-se na região. E aproveitou para falar o seguinte:
— Apraz-me dizer que venho aqui acompanhando meu irmão com o fim de estudar a possibilidade de me estabelecer na região. Nossa família lida com negócios de tropas e tropeiros. Meu desejo é instalar invernadas pioneiras aqui na região de Passo Fundo e do Alto Uruguai, especialmente para atender às necessidades do novo caminho. Nossa família tem invernadas nos Campos de Palmas, em Guarapuava e em diversos pontos no Caminho Geral. De maneira que tenho bom conhecimento do negócio e disponho de recursos para investir. Se puder contar com sua boa vontade e seu beneplácito, estou cogitando vir morar aqui na região. Penso em aqui fixar minha base de atividades e daqui tocar os meus negócios.
O comissário ficou feliz em saber da vinda para a Passo Fundo de um empresário tão bem qualificado e relacionado. Concordou de pronto e se ofereceu para dar todo o apoio que estava a seu alcance. A depender dele, João Cypriano seria bem-vindo e atendido em tudo o que precisasse. E foi o que disse:
— Caro senhor João Cypriano, acolho sua aspiração de vir fixar-se por estas plagas de Passo Fundo com a maior alegria. É uma grande satisfação ver um vivente empreendedor de seu calibre vir compartilhar conosco a faina de abrir para o progresso este sertão ainda teimoso e bravio. Precisamos de gente destemida, capaz e cheia de vontade de realizar grandes coisas e grandes negócios. O grande Arquiteto do Universo, na sua generosa bondade, nos deu este primoroso naco de sua esplêndida obra para que fizéssemos aqui uma terra prometida. E, neste sentido, sou profundamente grato à Providência Divina. Não existem lugares escondidos no mundo de Deus. Mesmo neste recanto distante, encoberto pelos matos de araucárias, é possível sentir que os ventos do progresso estão soprando. Quando é chegado o momento ditado pelos desígnios de Deus, os viajantes que navegam a seu talante não precisam mais que abrir as velas para tê-las enfunadas por vento de popa.
Resolvida a questão da premência da viagem de Condá para encontrar Nonoai, a conversa passou a tratar de generalidades e se estendeu por mais um tempo. Finalmente, em clima de grande otimismo, todos levantaram-se, despediram-se e cada um tratou de ir cuidar de suas coisas e fazer sua parte.
O soldado Castilho, eufórico, foi em busca da esposa. Essa era a oportunidade que esperava para destacar-se. Ela o aguardava conversando com uma amiga sob a sombra de uma árvore próxima. Castilho foi ao encontro dela quase correndo e, já sem folego, deu a ela a notícia de que iria seguir com a comitiva de Condá para o encontro com Nonoai. Seria uma ausência de uma semana ou pouco mais, sendo que partiriam dali a dois dias. Ela, contagiada pela alegria de seu companheiro, despediu-se da amiga e, juntos, seguiram para a casa onde moravam, um chalezinho localizado mais adiante, na borda da povoação. Tinham muito a conversar e a celebrar. A oportunidade de participar de uma expedição oficial da importância daquela era a bênção que almejavam. Compartilhavam, com júbilo, a oportunidade que parecia cair do céu. A chance de dar um novo impulso a seus sonhos de uma futura promoção. Castilho sabia que era apenas um soldado em meio a tantos outros. Sem uma oportunidade ou uma bênção especial, seu futuro seria tão opaco como as areias de um regato. Ele se sabia ser nada além de diminuta peça do tabuleiro do destino. Mas aspirava mais. E suas aspirações e anseios, as colocava nas mãos de Deus. Pois, seria essa a tão desejada oportunidade de erguer-se e de escapar da insignificância a que era fadada a soldadesca miúda? Seria a chance de conquistar méritos de modo a qualificar-se para uma promoção? E com esta esperança, abraçaram-se cheios de amor e fé.
A manhã daquela terça-feira, dia 3 de junho de 1845, começou com uma bruma espessa. As primeiras luzes do sol nascente insistiam em anunciar o novo dia. Condá já estava de pé. Calçou as botas, ajeitou o chiripa, o fraldão que era mais para cavalgar, mas que ajudava a enfrentar o frio, e pegou a cuia de chimarrão que lhe davam. Sorveu o mate quente. Era agradável aquecer o esôfago e o estômago em dia que nascia enregelante. Comeu um desjejum de pinhões, leite morno recém-ordenhado e uma fatia de pão de milho no qual passou uma generosa camada de mel e pasta de amendoim. Depois, pôs-se de pé. Com um gesto largo, jogou nos ombros o pala, enfiou na cabeça o rústico chapéu “pança de burro”, seu preferido, e saiu para o pátio. Estava pronto para a jornada e para seguir ao encontro de Nonoai. Despediu-se do comissário Fagundes dos Reis, dos irmãos Rocha Loures e do padre Penteado, que haviam madrugado para acompanhar sua partida. Vestiu a alça do bornal com seus víveres e seguiu o soldado Castilho, que, como guia da expedição, já enveredava pelo caminho de relva molhada pelo orvalho da manhã.
A mata, do tipo que mais tarde os botânicos classificariam como “Floresta Ombrófila Densa”, era um trajeto difícil e cheio de armadilhas. A topografia irregular e a vegetação fechada exigiam esforço e disposição para quem por lá trilhasse. A mata margeava o Rio Passo Fundo na direção Norte, com o curso d’água descendo turbulento no sentido do Vale do Rio Uruguai. Seu curso, que havia iniciado no topo de Planalto, corria agora por um leito escarpado, em meio a vales acidentados e vertentes dissimuladas. Na trilha surgiam afloramentos de rochas basálticas, muitos terminando em perigosos peraus, paredes de rochas abruptas e íngremes que desabavam por dezenas de metros. Muitos desses peraus enganavam, parecendo amenos no início, mas logo se mostravam intransponíveis e não permitem passagem. Andar nesse terreno traiçoeiro exigia grande cautela. Mesmo para um nativo experiente como Condá, o caminho oferecia surpresas e perigos que não podiam ser menosprezados. Um guia, como o soldado Castilho, que conhecesse os segredos da trilha, era a melhor forma de avançar com regularidade e evitar tropeços potencialmente desastrosos. Ainda assim, o avanço se dava palmo a palmo. A vegetação exuberante dificultava a formação de trilhas permanentes. Não era possível visualizar a picada por onde teriam transitado outros viajantes. O caminho trilhado em um dia não deixava mais qualquer vestígio no dia seguinte. Mesmo as marcações nas árvores, ou as estacas fincadas no chão, tendiam a desaparecer em pouco tempo, consumidas pela voracidade da mata.
Dormiram na mata três noites. Sofriam com frio e eram ensopados pela chuva intermitente que insistia em atravessar os ponchos, mas não podiam esmorecer. De toda forma, sobrevier naquelas matas desapiedadas era uma especialidade Kaingang. Onde outros nativos desistiam desalentados, os Kaingang perseveravam. Eles, desde seus antepassados, dominavam a técnica de preparar o pouso naquelas paragens. Quando viajavam sozinhos, roçavam um pequeno espaço, apenas suficiente para fazer caber o corpo, e ali improvisavam um abrigo com um leito de folhas de coqueiro ou de qualquer palmeira que encontrassem nas proximidades. Para esses abrigos de pouso preferiam lugares de mata cipoada ou, quando disponíveis, um espaço entre árvores tombadas. Além de protegerem-se das intempéries precisavam levar em conta as onças e outros eventuais perigos.
Quando viajavam em grupos e a noite se prenunciava chuvosa, improvisavam uma tenda de folhas de palmeira. Faziam um tipo de cobertura rústica, com galhos ou peças de madeira que encostavam em uma árvore e cobriam com ramos de palmeiras amarradas de comprido. Caso precisassem ficar mais de uma noite, como quando tinham que aguardar que as águas de um rio baixassem ou quando necessitavam de um tempo para caçar, faziam pequenas choças improvisando com o material que encontravam nas proximidades. Começavam abrindo um espaço para construí-las e verificando a direção do vento para orientarem a abertura. Procuravam fazer a entrada perpendicular à direção do vento. Assim evitavam que a chuva penetrasse pela abertura da entrada. Em seguida, procuravam troncos ou galhos com forquilhas com comprimento de 2 a 3 metros. Esses galhos tinham a função de “paus de barraca”, servido a forquilha para sustentar a viga central, ou o “travessão”, o galho horizontal que iria formar a cumeeira. Quando o esqueleto inicial ficava pronto, amarravam com cipós as pontas nas forquilhas.
Para evitar que caíssem ou se deslocassem pela força dos ventos ou eventuais esbarrões, amarravam nas pontas estais de cipós enleados e os fixavam em estacas enfiadas no chão e inclinadas em ângulo em torno de 45 graus. O passo seguinte era colocar os “paus de barraca”, as nervuras laterais feitas de galhos longos, em geral caídos de araucárias. Usavam, habitualmente, os galhos mais longos e curvados que caíam das copas dos pinheiros que, originalmente, sustentava na ponta os “pompons” característicos daquelas árvores. Nesses galhos, depois de desbastados superficialmente, talhavam uma ponta na extremidade de baixo. Essa ponta era enfiada no solo para segurar a estrutura. A base da fileira de nervuras ficava espaçada em cerca de 3 a 4 metros uma da outra, sendo apoiadas na vara da cumeeira. As pontas superiores, com a curva dos galhos posicionados para dentro das tendas, ficavam apoiadas sobre a longarina da cumeeira, onde eram amarradas com cipós. Uma vez pronto esse esqueleto, com as nervuras laterais lembrando costelas, começavam a amarrar horizontalmente galhos menores, os quais funcionavam como terças, e terminavam formando uma espécie de grade. Pronta essa grade, sobre ela eram fixadas, de baixo para cima, palmas e folhas de palmeira.
A técnica era amarrar a primeira camada de palmas em baixo e depois ir colocando camadas sobrepostas, sempre usando as terças feitas com galhos. As folhas sobrepostas iam subindo, amarradas com cipós, até chegar à última camada, que era a mais espessa e ficava presa à cumeeira. Acostumados a essas edificações e com o trabalho bem-organizado e dividido entre todos, incluindo os caciques, não precisavam mais do que algumas horas para terem as choupanas prontas para uso. O chão da choupana, mesmo quando molhado, era recoberto com galhos. Sobre esses galhos da base estendiam esteiras de taquara trançada que levavam nas mochilas e, por serem secas e bem trançadas, isolavam a umidade. Em arranjos individuais e em tendas assim, um tanto apertados, é verdade, se abrigavam os membros da comitiva. Alguns índios ficavam de guarda e dormiam solitários, enquanto outros acomodavam-se na choupana. Em seu interior, uns aqueciam os outros e todos compartilhavam a proteção que propiciava.
No quarto dia da jornada, já no meio da tarde, finalmente, estavam próximos do toldo de Nonoai. A mata estava menos densa, indicando que uma clareira não deveria estar distante, mas o sinal mais evidente era, sem dúvida, o cheiro de fumaça que se espalhava pelo ar. As fogueiras sempre acesas dos Kaingang tinham muitos propósitos, embora não a intenção de denunciar a localização da sua aldeia. Acontece que seu odor característico era detectável de longe e, portanto, seu cheiro ocre se encarregava de anunciar a proximidade. Aceleraram o passo e logo chegaram à clareira. O toldo estava a cerca de 200 metros à esquerda do rio, em um trecho mais raso e pedregoso. Era uma localização típica dos Kaingang, que queriam estar próximos a um rio, mas não tão próximos a ponto de se tornarem vulneráveis. A aldeia constava de cinco grandes choças, sendo que a maior ficava logo na entrada, tendo ao fundo um capão com uma roça de milho.
Os índios da aldeia, ao perceberem que havia visitantes, logo correram para receber os recém-chegados. Os meninos, olhos brilhando de curiosidade, se aglomeraram na frente, enquanto os homens fizeram um semicírculo na entrada do toldo. As mulheres, como era costume da tribo, ainda que tão curiosas quanto os homens, ficavam espreitando, discretas, na entrada das palhoças. O alarido causado pelos visitantes chegou ao cacique Nonoai ao mesmo tempo que a notícia. O Pai-Bang levantou-se, colocou o cocar cerimonial e saiu de sua tenda. Já sabia quem chegava e preparou-se para receber a comitiva de Condá, que vinha à frente. Ao ver o cacique Victorino Condá, emocionou-se. Os Coroados podiam orgulhar-se daquele cacique esbelto, de corpo sólido e porte altivo, uma figura admirável, que se destacava pelo andar firme e pelo garbo de sua postura. Envergava o cocar e o uniforme de capitão, o que o tornava singular.
O cacique Condá foi recebido pelo Pai-Bang Nonoai logo na entrada da clareira onde estavam as palhoças. Cumprimentaram-se cerimonialmente e Nonoai o convidou para seguirem juntos para o interior da aldeia, onde, na grande palhoça, receberam alimentos das mãos das alvoraçadas mulheres da tribo. Não era todo dia que um cacique como Condá, belo com um Apolo, famoso e respeitado, visitava a aldeia. Novas visitas eram sempre motivo de alegria, porém esta era especial. Ao vê-lo entrar na aldeia, as mulheres correram para se enfeitar com suas pinturas tribais tentando agradar ao visitante e sua comitiva. Depois de comerem, Nonoai convidou Condá para sentar-se com ele em um tronco existente ao lado de sua tenda de cacique. Mais do que a alegria de receber um visitante ilustre, sentia alívio em poder compartilhar suas angústias com o respeitado Pai-Bang, que, bem o sabia, era mais experiente que ele em negociar com os brancos.
Condá, por seu turno, tinha grande respeito e gostava de Nonoai. Seu instinto dizia que o chefe índio era, de fato, um guerreiro Kaingang como ele. E seu coração ficou feliz em se sentir bem-vindo pelo cacique que admirava. Para Condá, em meio a lutas e frustrações sem fim, não era fácil encontrar alguém de sua estatura com quem compartilhar ansiedades, com quem se abrir, com quem conversar sem reservas e trocar ideias em confiança. Com Nonoai, Condá se sentia irmanado. Com Nonoai podia abrir seu coração e lamentar o mundo que viam desaparecer. Com Nonoai se sentia compreendido ao lastimar, com desgosto e tristeza, o modo de vida que sua tribo conheceu por centenas de anos e agora via desmoronar. E com o grande Pai-Bang sentia liberdade para discutir, com a franqueza que requeria, sobre os efeitos e as consequências da escolha vital que lhes incumbia fazer. Não podiam se esconder dos fatos e tinham de enfrentar a realidade inescapável de que seu mundo se esvanecia, se esgarçava, se dissolvia a cada dia e, mesmo que a contragosto, tinham que buscar adaptar-se ou partir para um tudo ou nada. Para uma pugna suicida, de vitória impossível. Enfrentar os conquistadores seria uma luta inglória e mortal.
Era chegado o momento de decidirem se repetiam o repto heroico de Sepé Tiarajú e bradavam, como ele, que “esta terra tem dono” e, como ele, iriam sacrificar a vida para serem honrados na história, ou aceitavam, com humildade, mas com destemor, encarar as adversidades do destino. Repetir Sepé Tiaraju significaria decidir pela guerra. Mas o mundo era outro. Os brancos não os estavam enxotando de suas terras e lhes ofereciam alternativas. Era a eles, os caciques, que incumbia escolher entre manter os índios isolados e em desafio aos brancos, condenando sua gente a ser dizimada pelos bugreiros sob o pretexto de serem “índios maus”, ou admitir que, na vida dos homens, também há invernos. E entender que nada é permanente na natureza, exceto a mudança. Em seu coração Condá sentia que Nonoai, assim como ele, estava inclinado a aceitar a ideia de que mudar não era capitular. Ao contrário, era ter a coragem necessária para sobreviver. Mudar era aprender com as borboletas que a mudança podia ser uma metamorfose. Mudar seria necessário para ter asas, para poder voar e, então, ir mais alto e mais longe.
Certamente, não era com alegria que eles viam os luso-brasileiros que apareceram do nada e, logo ao chegarem, passaram a tratar os índios como bichos selvagens. Sabiam que os temidos bandeirantes haviam aprisionado e escravizado aldeias inteiras. Os colonizadores brancos chegaram e se puseram a tomar uma terra que sempre fora deles. Os caciques, melhor do que ninguém, conheciam a história de seu povo, que no início lutou com suas melhores armas e com inquestionável coragem e determinação. Mas essa gente estrangeira era poderosa. Veio sorrateiramente, como onças Mig, e atacaram os índios, desatentos e desavisados. E depois, como gafanhotos, passaram a vir sem parar. Chegavam em ondas, como uma enchente que não parava nem dava sinais de que fosse um dia cessar.
Os luso-brasileiros que invadiam suas terras vinham de um outro mundo, do outro lado do “mar-oceano”. Eram diferentes, tinham outro modo de pensar, outro jeito de viver, outra forma de usar a natureza. Acontece que a terra que todos queriam era uma só. E os brancos desejavam tomá-la toda para eles. Enquanto os índios, que eram nômades e em menor número, só tiravam da natureza o que precisavam e, por seu estilo de vida, precisavam de pouco, os brancos, além de serem muitos, pareciam insaciáveis. Portanto, precisavam que a terra produzisse muito. E, para explorar o potencial da natureza, precisavam domá-la e submetê-la. Ambiciosos, precisavam de madeira e cortavam as matas, precisavam de lavouras, de estâncias, de invernadas, de estradas para conduzir suas comitivas e tropas. Acostumados aos confortos da vida urbana, precisavam fazer casas e criar cidades. Com o avanço dos brancos, o espaço dos índios foi ficando cada vez menor. A única chance de sobrevivência que lhes restava, tinham de reconhecer, era estabelecer algum acordo. Era obter um naco de espaço onde pudessem continuar a ser o que sempre foram.
Condá, então, explicou a Nonoai o que era um aldeamento. Explicou como os Kaingang dos Campos de Guarapuava, dos Campos de Palmas, estavam se estabelecendo em aldeamentos negociados com as autoridades dos brancos. E informou que trazia uma proposta de aldeamento para os Kaingang do Alto Uruguai. Um entendimento com o governo daria aos Kaingang uma área que seria dos índios. Uma terra que seria protegida dos ataques dos brancos e onde os índios seriam donos. Para Nonoai, era triste ter de aceitar uma divisão da terra. Ficar com apenas uma pequena parte do que havia sido seu território. Nunca havia pensado que a terra teria donos. Ele sabia que os índios de sua tribo tinham lutado com outras tribos para manter suas áreas de coleta de pinhão, de caça e pesca. Mas nunca havia pensado em cercar as terras. Um acordo, ademais, contaria apenas com a garantia da palavra do governo. Com base na confiança, na justiça e na moral cristã dos invasores. Não se baseava na lei da selva. Não era baseada no uso da força. Ainda mais que indivíduos de índole selvagem existiam dos dois lados. O que mais os dois caciques lamentavam é que nada poderiam fazer para fazer o tempo voltar. Os conquistadores eram tão mais fortes e poderosos que tudo o que lhes restava era buscar um acordo negociado enquanto ainda podiam. Enquanto ainda tinham meios de atemorizar a população branca. Se não aceitassem um acordo teriam que aceitar a guerra. E, nela, seriam aniquilados como o foram os Charruas. Ou os Guaranis das reduções Jesuítas. Aceitar o aldeamento, portanto, era a escolha que tinham, gostassem ou não.
Algo, contudo, alimentava a esperança dos dois caciques Kaingang. Os líderes das duas províncias vizinhas vinham demonstrando respeito e aceitação das posições indígenas. Ambos sabiam que, juntos, seriam, mas fortes nas negociações que anteviam. Juntos poderiam decidir melhor um plano de ação e deliberar sobre o que deviam fazer. Isso era vital. Tantas eram as reviravoltas que vinham revirando o mundo dos índios que mesmo os melhores caciques haviam perdido suas referências. Nada que os Kaingang haviam experimentado em sua história os preparava para aquele momento. Nada que haviam aprendido pela tradição oral de seus maiores servia como orientação para o que deviam fazer nos tempos que ora viviam. Por isso precisavam ter cautela e agir com moderação. Os perigos que os conquistadores traziam eram os mais graves e letais que seu povo já havia enfrentado.
As conversações tomavam o dia todo e entravam noite à dentro, ao lado da fogueira sempre acesa. Decisões estavam sendo cogitadas, avaliadas, ponderadas. Condá e Nonoai não tinham como saber, obviamente, mas os dois caciques viriam a se tornar os dois mais importantes chefes indígenas de toda a história do Sul do país. Condutores sábios de seu povo, líderes prontos a decidir o destino e o futuro de sua tribo Kaingang e de seu relacionamento com os brancos, com os colonizadores luso-brasileiros e com outras tribos indígenas. Naquela conferência decidiriam não só a sorte dos Kaingang, mas projetaram a marca de sua tribo e de seu tempo na história das províncias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e até mesmo de São Paulo.
Nonoai, a certa atura, fez a Condá uma pergunta que o atormentava:
— Mas, meu caro irmão Condá, pergunto a ti, que tens se mostrado tão sábio, será possível que um dia os índios se tornarem amigos dos fóg?
Condá entendeu a profundidade e as implicações da pergunta. Era uma indagação que ele mesmo se fazia, em muitas ocasiões. Por isso sentiu-se tomar de uma ponta de amargura. Respondeu com vagar, falando com o coração:
— Meu amigo e sábio cacique Nonoai, existem questões que só o tempo poderá responder. A verdadeira amizade é um dom divino, assim como a fé e o amor. Um amigo entende nosso passado, nos aceita como somos e acredita em nosso futuro. A amizade está em compartilhar sentimentos, em gostar de estar junto, em compreender e ser compreendido. Quando eu era um gurizote, lá nas bandas de Guarapuava, eu brincava com toda a piazada, caçava e pescava com os meninos brancos e jogava bolita com eles e nunca me senti diferente. Meus amigos, a gurizada toda, ficavam me fazendo perguntas e querendo saber como era a vida de índio. Como era a vida da tribo. Muitos queriam aprender a ser índios, a usar o arco e a flecha. Tinha também o Sadi, um gurizinho negro, filho de escravos, que brincava junto com a gente. O Sadi andava sempre com o nariz escorrendo e enxugava o ranho com a manga da camisa. A mãe dele sempre ralhava com ele por isto e a gente brincava com ele por causa disto. Na tribo eu ouvia os pajés explicarem ao pé do fogo que nossa cor era diferente e que éramos marrons porque os nossos primeiros antepassados saíram das entranhas da mãe terra. Por isto é que somos da cor dela. Alguns pajés diziam que tem montanhas onde ainda existem os buracos pelos quais saíram os primeiros Kaingang. Os pajés dizem que ainda tem muitos de nossos antepassados vivendo embaixo da terra. E alguns pajés dizem que é para lá, de retorno para o ventre da Terra, que vão as almas dos índios que desencarnam aqui em cima. Os pajés contam que os primeiros Kaingang desceram da montanha em dois grupos de índios chefiados pelos dois irmãos, Kayru e Kamé. Cada um deles, ao sair das entranhas da Terra, foi seguido por um grupo de índios. Os seguidores da metade Kayru eram menores, mais magros, pés pequenos, ligeiros, e eram apressados tanto nos seus movimentos como nas suas decisões. Eram índios de cabeça boa, cheios de imaginação, cheios de ideias, mas costumavam ter tantas ideias novas que logo as abandonavam e mudavam de ideia a toda hora. Os pajés diziam que é bom ter muitas ideias, mas ideias ao vento são sementes que não frutificam. É preciso que uma ideia seja colocada na terra e cresça para virar árvore e dar frutos. Já os índios de Kamé eram maiores, mais encorpados, mais fortes e tinham pés grandes, porém eram mais vagarosos no que faziam. Mas eram também mais teimosos e mais persistentes. Quando gostavam de uma ideia se agarravam nela e não aceitavam ouvir outras ideias novas até terminarem de fazer o que tinham em mente com a ideia velha. O que os pajés diziam é que esta diferença entre os que pensam muito e os que fazem muito é auspiciosa para os Kaingang. Esta é a razão que explica por que nossa tribo sempre pensou muito e sempre fez muito. Então, para responder a esta pergunta só posso dizer que é verdade que os brancos têm o mundo deles e nós, índios, temos o nosso. Mas se entendermos melhor o mundo dos brancos e se nossas ideias forem boas para os dois mundos podemos aprender a viver com os brancos. E se o que fizermos for bom para os dois mundos, aí vamos poder ser amigos, mesmo sendo diferentes. Mas será que vamos conseguir isto? Acho que a resposta é que sabemos lidar com mundos diferentes. Nosso povo também vive separado em duas metades. Têm os Kamé e os Kayru. Mesmo assim, vivemos juntos, fazemos nossas festas juntos e nossos filhos se casam uns com os outros. Penso que os índios e brancos serão amigos quando os dois povos admirarem juntos os pinheiros subindo para encostar o céu. Quando se emocionarem ouvindo juntos o canto do sabiá e quando se alegrarem juntos vendo chegar as andorinhas.
Nonoai concordou com a cabeça. E ponderou:
— Sim, amigo Condá, é muito verdade. A amizade nasce quando conhecemos o pensamento dos amigos e descobrimos que gostamos das mesmas coisas. Quando aprendemos as coisas um do outro. Quando saímos juntos para caçar, quando pescamos juntos, quando vamos ao mato para o égrin, para buscar o mel nas árvores do mato. O égrin parece fácil, mas para trazer mel é preciso muita sabedoria. É preciso ter ideia de onde encontrá-lo, saber como procurá-lo. Também precisa saber como subir nas árvores, saber lidar com as abelhas e saber como retirar o mel do oco das árvores. Conseguir colher mel depende de saber todas estas coisas. Quem não sabe não traz mel. Assim, tudo na vida depende de aprender a fazer. Especialmente as coisas que são necessárias para viver. Para conviver com os brancos, o índio precisa ter muitas ideias, assim como precisa ter sabedoria para escolher as boas ideias. O pernicioso é quando o índio tem ideias erradas, ideias de ódio, de vingança ou que não servem para nada de bom. Ideias maléficas, que balançam soltas como as palmeiras ao vento; como folhas que sacodem de um lado para outro e não fazem sombra e nem aparam a chuva, são tão inúteis como buracos feitos na água.
Condá ouvia Nonoai com respeito e admiração. O grande cacique tinha palavras de conhecimento e ponderação. Para ele era confortador constatar a madura sabedoria com que Nonoai analisava os fatos e conduzia sua tribo. Diferentemente de muitos caciques mais afoitos com quem precisara lidar, Nonoai mostrava mão firme e inspirava seus liderados a guardar a pintura de guerra nos tempos difíceis que seu povo vivia.
Condá expressou sua admiração:
— Sim, grande Pai-Bang, vosmecê é sábio e compreende que uma ideia sempre tem dois lados. Às vezes os benefícios aparentes escondem armadilhas terríveis. Outas vezes uma ideia parece ruim, mas tem benefícios e um lado bom que precisamos descobrir. O veado não precisa ter as garras da onça Mig se ele souber correr mais depressa do que ela.
Nonoai abriu um tímido sorriso. Entendia Condá e sabia que o cacique havia enfrentado grandes dissabores, mas dizia coisas que faziam sentido e isso o agradava.
— Sim, cacique Condá, entendo seu ponto de vista. Se aceitarmos um acordo com os fóg vamos ter que aceitar o mal menor. É muito provável que tenhamos que mudar do lugar em que vivemos e, também, mudar nossa maneira de viver. Teremos que alterar muitos dos nossos costumes de coleta do pinhão, da caça e pesca. E concordo com o que disse: se não corrermos rápido como os veados seremos devorados pelas onças. Se fingirmos que não é problema nosso, se dermos as costas e nada fizermos, seremos levados de roldão. Os brancos nos empurrarão para os matos vazios, onde não existem pinhões, longe de rios para pesca ou de animais para a caça e seremos guerreados e exterminados. Se fizermos guerra aos fóg nossa escolha será entre morrer de fome por não ter o que comer ou morrer pelos tiros das armas dos brancos.
Condá concordou mais uma vez:
— Sim, grande cacique Nonoai. Assim também é como eu penso. Conheço os brancos. Cresci no meio deles em Guarapuava e aprendi a língua e os costumes dos fóg. Não faz muito tempo fui para a capital da província de São Paulo e fiquei alguns meses lá. Queria saber mais sobre o mundo dos brancos. Conhecer as grandes cidades. Passei pela feira de Sorocaba e desci até o porto de Santos. Quando cheguei ao porto fui tomado de grande espanto. Vi o grande lago, que os brancos chamam de mar-oceano, e os navios, as grandes canoas que têm em cima árvores cheias de panos que chamam de mastros e velas e que viajam pelo mar-oceano até o outro lado, no reino de Portugal e até ainda mais longe, até o outro lado do mundo e, quando voltam, trazem mercadorias valiosas.
Condá ficou um momento silencioso. Evocou com saudade a lembrança do mar sem fim. Do grande lago de água salgada que o fizera deslumbrar-se por sua imensidão e por sua luminosa majestade. Voltou a lembrar do porto cheio de movimento, dos apitos dos marinheiros e dos sons da madeira dos navios, da azáfama dos marinheiros, do corre-corre de estivadores, plantadores, comerciantes, escravos, numa cacofonia feita de gritos, silvos e ruídos. Sorriu para si mesmo ao lembrar da balbúrdia dos carros de transporte que levavam os fardos de açúcar e café, que, para serem embarcados, exigiam guindastes, enormes braços que guinchavam e rangiam em razão do peso da carga que elevavam e giravam perigosamente até depositá-los nos porões dos navios.
Nonoai, por seu turno, respeitou o silêncio de Condá. Adivinhou que ele voltava às lembranças da viagem ao rico e opulento mundo dos brancos de que ouvira falar, mas não conhecia. Finalmente, espicaçado pela curiosidade, perguntou:
— Condá, pelo que viu vosmecê, as grandes canoas dos fóg são, de fato, tão grandes quanto dizem? Na Guerra dos Farrapos combatemos os soldados do imperador comandados pelo general Labatut quando vieram até aqui e invadiram nosso território. Eram pouco mais de 100 e estavam mal armados, cansados e doentes. Capturamos alguns oficiais que depois soltamos. Um deles era médico e usou sua medicina para curar alguns índios doentes. Ficou meu amigo e me mostrou um livro com figuras dos grandes navios, dos barcos do mar-oceano, com grandes panos brancos pendurados. Pareciam ter pinheiros plantados na coberta.
— Sim – concordou Condá –, os brancos têm canoas gigantes. Eles têm muitos barcos, muitos navios e muitos são bem grandes. Usam grandes árvores enfiadas nos barcos e nelas penduram panos para pegar o vento que empurra os barcos para frente. Alguns têm panos em paus tão altos como pinheiros. Vendo de longe, no porto, os navios parados parecem mesmo pinheiros plantados no mar.
O cacique Nonoai apenas balançou a cabeça. O mundo restrito que conhecia de seus tempos de guri tinha virado de cabeça para baixo. Como era possível existir barcos com mastros da altura de pinheiros que usavam o vento para viajar no infinito lago do mar-oceano? Que usavam as estrelas para saber o caminho? O que mais o mundo dos brancos tinha que os índios não conheciam? O que mais os brancos não inventariam?
Nonoai, contudo, não se deu por vencido. Revelou a Condá uma opinião elucubrada pelo espanto que aqueles barcos lhe causaram e que tinha a ver com os desdobramentos daquele contato:
— Condá, meu irmão, eu fiquei dias meditando sobre aqueles barcos gigantes que vi nas figuras e digo a ti que os barcos dos brancos são poderosos no mar-oceano, mas eles não navegam no Rio Uruguai nem nos rios dos matos de pinheiros. Seus canhões são poderosos no mar-oceano, mas os tiros não alcançam nosso toldo. Bem sei que todo dia os fóg nos trazem uma surpresa. Muitos deles são poderosos e arrogantes. Mas nós também somos uma surpresa para eles. Estamos aqui em nossa terra. Nós conhecemos nosso chão. E aqui nossas flechas são tão letais quanto seus tiros. Digo a ti que não vamos sair derrotados sem mais nem menos. Chegamos aqui antes deles e não vamos sair daqui sem luta. Eles são muitos, mas temos muitas flechas. Se for preciso lutar iremos entrar no mato e guerrear até que não sobre nenhum de nós. Acuados, somos mais perigosos do que a onça, até porque não temos o mar-oceano por onde fugir nem outras terras para onde ir. Porém, não somos nem tolos nem teimosos. Podemos negociar e combinar dividir o espaço que temos para que todos tenham onde ficar. Neste vasto mundo tem bastante espaço para todos. Temos o que oferecer e, em compensação, os fóg têm ferramentas, armas, sementes, panos e roupas e têm comida. Então podemos trocar. Os brancos desejam paz e nós desejamos ferramentas, armas, roupas, sementes e comida, que não temos. Se conseguirmos viver em paz, a divisão será boa para nós e para eles.
Condá achou que a lógica de Nonoai até fazia sentido, embora guardasse algumas dúvidas sobre se o governo da província iria ver as coisas do mesmo modo. Mas, pelo sim, pelo não, não havia razão para compartilhar suas preocupações. Por isso, concordou com os argumentos de Nonoai:
— Seus argumentos são sábios e ponderados, cacique Nonoai. Agora precisamos colocar tudo nas conversas com o senhor comissário e negociar uma troca vantajosa para os dois lados.
E neste ponto interromperam a conversa daquele dia. Condá estava cansado e queria descansar. Nonoai queria pensar um pouco mais sobre tudo o que haviam dito e sobre as bases para estabelecer um acordo de paz. Recolheram-se e dormiram um sono agitado pela ansiedade do que tinham a enfrentar. No dia seguinte Nonoai voltou a chamar Condá para ir sentar-se com ele nos troncos ao lado de sua tenda. Queria conversar mais. Condá concordou. No dia anterior, sua conversa com Nonoai tinha caminhado melhor do que esperava. Assim, decidiu ir logo a seus objetivos:
— Cacique Nonoai, gostaria de dizer por que estou aqui e por que aceitei vir como mensageiro dos fóg para propor uma negociação entre os brancos e os Kaingang.
Nonoai tinha, de fato, grande curiosidade sobre os reais motivos de. Ele teria de ter bons motivos e, considerava, deviam ser motivos legítimos, já que, se fosse para atraiçoá-lo, não seria o caso de os brancos envolverem um cacique como Condá, conhecido e respeitado em toda a nação Kaingang. Por isso respondeu:
— Com sinceridade, amigo Condá, gostaria muito de ouvir o que tem a dizer.
Condá, por seu lado, não via motivos para escamotear suas razões:
— Cacique Nonoai, talvez já tenha chegado ao seu conhecimento, mas os brancos querem fazer um novo caminho que passe por aqui e cruze o Rio Uruguai no Passo do Goio-En.
Este assunto não era novidade e Nonoai sorriu ao responder:
— Sim, cacique Condá, sei que falam disto desde quando vosmecê me mandou aquele belo potro de presente. Um cacique Kaingang deve manter os olhos e ouvidos muito abertos e, por isto, eu já imaginava. E depois, muitos de meus índios são amigos e parentes de índios de aldeias e toldos do outro lado do rio. Estes índios que vão e voltam comentavam o que os brancos falavam sobre o Goio-En. Eu converso com muitos índios que conhecem os desejos dos brancos. E muitos falam que os brancos queriam que as tropas de mulas fizessem um caminho mais curto, desviando aqui em Passo Fundo e indo para o Norte para levar as mulas no rumo de Sorocaba. Eu entendo as vantagens. Eu e meus caciques conhecemos todos os caminhos. Conhecemos os caminhos que saem de Viamão, os que seguem pelo Caminho da Vacaria e depois desembocam na grande Estrada Geral. E, por minha parte, conheço o Caminho das Missões, por onde vêm as mulas das Missiones da Argentina, que passam pelo Passo Fundo e se embrenham pelos Matos para chegar até Vacaria e depois também entram na Estrada Geral. Alguns dos meus caciques têm vigiado estas rotas. Alguns mais rebeldes e afoitos têm feito algumas estripulias com os tropeiros e colonos. Mas eu tenho que ficar quieto. Às vezes é melhor não saber. E, mesmo sabendo, um cacique nunca deve dar uma ordem que sabe que não vai ser obedecida.
Condá entendeu o que Nonoai queria dizer e ficou surpreso pelo sereno conhecimento que ele tinha do que acontecia em seu território. E, ainda mais, do conhecimento que tinha dos ataques às comitivas de tropeiros dos outros caminhos, como os que vinham de Viamão. Ele sabia que havia ataques e emboscadas e compreendeu que o Cacique Nonoai estava bem-informado sobre o que seus caciques andavam fazendo. Ele sabia que os guerreiros Kaingang estavam se movimentando em uma grande região, inclusive mais ao Sul, nas montanhosas regiões da serra e do Rio das Antas. Mas não imaginava que estivesse tão a par dos reais motivos dos brancos. Em seu contato anterior já tivera boa impressão de Nonoai e o colocava em lugar de destaque entre os líderes de sua tribo. Mas agora compreendia que Nonoai tinha um conhecimento bem aprofundado do território que liderava. E isso era muito bom. Significava que ele compreendia quais os interesses em jogo. E como podia negociar no cenário em que índios e não índios disputavam o caminho que passava pelo Goio-En. De repente, ficava claro para Condá que muitos dos acontecimentos recentes, que muitas das incursões dos nativos ligados a Nonoai tinham sido pensados para provar que os Kaingang possuíam trunfos respeitáveis a serem negociados. Afinal, se os brancos queriam paz, deveriam abrir entendimentos sinceros e levar em conta que os índios ainda tinham um ferrão poderoso e eram capazes de infligir muitos dissabores aos tropeiros e colonos. Dissabores que incluíam emboscadas com saques e mortes. Os ataques nas regiões do Mato Português, Campo do Meio, Mato Castelhano e Campos de Cima da Serra mostravam que os Kaingang ainda não estavam vencidos. E que tinham como atuar em uma vasta região sem serem detectados. A perseguição e as escaramuças às tropas de Labatut, desde Passo Fundo, e acossadas no longo do caminho para Cruz Alta, também provavam que os índios sabiam guerrear de modo heroico e contundente. Igualmente, tinham trunfos que colocavam sobre a mesa quando propunham estar abertos a negociar, mas não aceitavam ser menosprezados ou subestimados. Índios, sim, mas nunca “bugres covardes”. Condá, silencioso, não revelou seus sentimentos, mas ficou admirado e, ao mesmo tempo, orgulhoso de sua tribo.
Em razão do que percebeu como uma estratégia, Condá quis saber como o cacique Nonoai via os próximos passos:
— E como vosmecê vê a abertura desse caminho de tropas passando pelo Goio-En?
— Um cacique tem sempre a preocupação como companheira em seus dias como chefe. Acorda com preocupação e dorme com preocupação. Em uma tribo sempre existem motivos de precaução. A vida é frágil e os perigos são muitos. Tem as doenças, a fome, os acidentes e a morte, mas felizmente tem também a esperança, as possibilidades de vitória e a alegria. Por isso a abertura do novo caminho é só mais uma preocupação que preciso carregar. Muitas preocupações trazem medo, mas eu não tenho medo do que posso ver e posso enfrentar. A estrada vai ser igual a outras. Vai nascer como uma picada e depois vai trazer movimento e gente. Com o tempo, vai ser grande como o Estrada Geral. Sei bem que as tropas no Caminho das Missões que vão para Vacaria estão cada vez maiores e mais numerosas. E são ainda maiores aquelas que viajam no Caminho de Viamão. São grandes quantidades de animais. Mulas, cavalos e boiadas. Até porcos são levados pelas trilhas. O que sei é que, mesmo preocupado, não vou poder mudar as coisas. Não é preciso ser kuiã para prever que abrindo um novo caminho muitas tropas vão preferir rumar por ele. Depois que passarem a primeiras tropas, logo virão outras e depois outras e mais outras. Vi nas viagens pelos caminhos das tropas que as comitivas passam e vão embora, mas os rastros e os estragos ficam. Sempre marcam o chão e deixam efeitos. As tropas precisam de pasto para os muares e o gado comerem e precisam de lugares para descansar. Enquanto param para descansar, os peões roçam terrenos para domar as mulas chucras. Outros terrenos são cercados com taipas de pedra que os brancos criam para as invernadas, onde colocam os animais para se recuperarem das longas caminhadas durante o trajeto. Junto com os animais vêm os tropeiros e peões. Com eles vêm movimento e confusão. Outra coisa: com as tropas, vêm novos moradores e muita gente que quer tomar nossas terras. E, depois de tomarem nossas terras, vão começar a plantar e a criar animais nelas. Para muitos brancos nós somos inimigos. Nós só atrapalhamos. Esses brancos ruins querem nos enxotar e nos perseguir. Por isto precisamos ser fortes e estar preparados. Mas não podemos agir sem pensar. Precisamos saber o que fazer.
Condá confirmava com a cabeça que concordava com o que dizia Nonoai. Os fatos eram os fatos e não tinha como deixar de vê-los. Sabia que o futuro vinha atropelando tudo o que encontrava pela frente e que ali, em Passo Fundo e no Alto Uruguai, as coisas não seriam muito diferentes do que tinha acontecido e, na verdade, ainda estava acontecendo mais ao Norte, do outro lado do Rio Uruguai. O aumento da população fóg e o crescimento do tropeirismo tinham reduzido o espaço dos índios e ainda demandava mais cancha para crescer. Agora, findas as estripulias da Revolução dos Farrapos, o mesmo dito “progresso” começava a acontecer no Alto Uruguai. E era ali que viviam. Portanto, viam seu território se converter na fronteira a ser desbravada e era chegado o momento de eles enfrentarem os desafios e decidirem seu destino.
Durante os dez anos da Revolução Farroupilha, os tropeiros que seguiam pelo Caminho das Missões sabiam, sem sombra de dúvida, que deveria haver uma rota mais curta cortando pelo meio das matas do Alto Uruguai. Um caminho por ali deveria reduzir em pelo menos um mês a longa caminhada até Sorocaba. Mas sabiam que, enquanto os índios Coroados estivessem por ali, esse atalho estava fora de cogitação. O território do Alto Uruguai, por onde este caminho deveria cruzar, era terra dos Kaingang. Era território dominado pelos “bugres selvagens”, como os inimigos dos Kaingang os chamavam. De fato, os Kaingang eram ciosos de seu domínio sobre aquele território onde ainda resistiam. A luta contra a ocupação da margem esquerda do rio no Alto Uruguai era a batalha final pela posse dos índios sobre o território que dominavam desde seus antepassados. Do outro lado, na parte chamada de ocidental, após a chegada dos luso-brasileiros aos Campos de Guarapuava (Koran-bang-rê), aos Campos de Palmas (Kreie-bang-rê), aos Campos de Xanxerê (Xanxa-rê) e a outros das proximidades a eles ligados, o território já havia deixado de ser de posse exclusiva dos índios. Nesses campos os nativos Kaingang tiveram de se acomodar à nova situação. E era dali, dos Campos de Guarapuava e dos Campos de Palmas, que o governo paulista lançava as condições para o desbravamento da nova rota.
Condá, cuja família era originária do Koran-bang-rê e havia se tornado cristã ainda nos períodos pioneiros da ocupação, compreendia melhor que qualquer outro chefe indígena o efeito da expansão das fronteiras da civilização europeia sobre os territórios dos Kaingang. Condá era testemunha ocular da transformação que ocorrera em sua região natal. Mais adiante, em 1839, quando participou da ocupação dos Campos de Palmas, os campos que os Kaingang chamavam de Kreie-bang-rê, teve oportunidade de ver as forças dos colonizadores em ação.
Agora, poucos anos depois, via que o mesmo destino dos campos da margem direita do Uruguai estava reservado para as áreas da margem dita oriental, à esquerda do curso do rio. Os colonizadores as tomariam e as dividiriam em propriedades destinadas à pecuária ou à lavoura. E os índios seriam mais uma vez tirados de seu território. O que aconteceria a eles dependia de como conduzissem um acordo com os brancos. O consolo que animava Condá era que as lições aprendidas nas lutas dos Kaingang contra os conquistadores ao Norte poderiam agora ser úteis ali. Não tinha ilusões. Sabia que estavam em inferioridade e nenhuma estratégia dos índios seria boa o suficiente para derrotar os fóg, mas ainda era possível preservar uma reserva ou um aldeamento. O cacique, experimentado em diversos episódios em que conseguira vitórias pessoais em sua relação com os conquistadores, acreditava que seria possível conseguir concessões do governo e um mínimo espaço vital para a sobrevivência de sua tribo. A esta altura de sua vida, Condá já era um líder maduro e seguro de si. Orgulhoso de sua herança e autoconfiante, ele deixara para trás qualquer sentimento de inferioridade. Lidava com os brancos de igual para igual. Era mais bem preparado e mais inteligente do que a maioria dos fóg. Ainda sofria preconceitos, mas aprendera a lidar com eles. E até sabia usá-los a seu favor.
Tendo diante de si essa clara percepção, Condá continuou:
— Nonoai, caro irmão de meu sangue, meu coração sofre ao ouvir este vaticínio sobre o que está em nosso destino. Mas não devemos capitular. Precisamos lutar para que nem os fóg nem o destino insondável decidam se vamos sobreviver. A colonização dos brancos vem como as águas numa enchente. Sabemos que não temos como segurar as águas. O que podemos fazer, no entanto, é subirmos para um lugar mais alto. Sabendo que as chuvas vão trazer a enchente, podemos ir para um lugar onde as águas não alcançam, para escapar da cheia. Errado é ser teimoso e ficar no caminho das águas. É tolo aquele que não faz nada e fica à espera da morte certa. Uma morte sem luta e sem mérito. Uma morte em que o espírito se perde no escuro e vai padecer para sempre afastado de seu povo, de seus antepassados, de seus amigos e de sua família.
Nonoai concordava com ar grave, balançando a cabeça afirmativamente. Quando Condá terminou sua fala, perguntou:
— Irmão Condá, acho que sua comparação da vinda dos brancos com uma enchente é muito adequada. Na sua opinião, é muito grande a enchente dos brancos que está vindo para cá?
— Lamento dizer isso ao meu amigo Nonoai. A enchente que vem é muito grande. O que vem vindo é um dilúvio de brancos. É muito grande a quantidade de povo fóg que vem chegando sem parar. Desde que o rei de Portugal se mudou para o Brasil e ainda mais agora, que o Brasil ficou independente, muitos brancos querem vir para cá. E muitos brancos vão vir para ocupar esta região. É uma certeza tão grande como a de que o sol vai nascer amanhã. Então precisamos nos preparar.
Nonoai colocou o rosto nas mãos. Estava desolado. Mais brancos chegando não era coisa auspiciosa. Mais gente chegando era mais gente querendo terra. Era mais briga, era mais conflito. Os jovens da tribo estavam em pé de guerra e difíceis de ser controlados. Cheios de arroubos de coragem inconsequente, os jovens Kaingang tornavam o ambiente perigosamente explosivo. Os jovens não aceitavam que o mundo que conheciam tinha mudado, que a marcha dos tempos vinha inexorável. Alguns, os mais irrequietos, queriam guerra. Muitos abandonavam seus toldos e saíam para o mato. O momento era difícil e perigoso.
Após suspirar para afugentar o desalento, Nonoai levantou a cabeça e fitou os olhos de Condá. As incertezas eram muitas. As alternativas, bem poucas.
— Eu me sinto como um veado acossado pela onça Mig. Tenho medo. Não por mim, que já vivi bastante, mas por meu povo. Desejo ouvir seu conselho, irmão Condá. O que podemos fazer?
— Se os veados se juntassem para enfrentar a onça, a Mig iria comer capivaras. Conheço e respeito a força do vendaval que vem chegando. Os ventos da mudança sopram forte. Nosso estilo de vida, a liberdade que conhecíamos quando éramos só nós morando nas matas de pinheiros, não vai existir mais. Mas, conhecendo os brancos, acho que não será o fim do mundo. Mesmo o sentimento da perda não deve nos levar ao desespero. Se fôssemos onças acuadas reagiríamos com roncos, com esturros, mas não somos onças. Somos Kaingang. Recebemos sabedoria de nossos antepassados. Fomos abençoados com a capacidade de pensar. Podemos e devemos sobreviver. Vamos ter que aceitar o que o destino nos reserva, vamos ter que agir com sabedoria e consolar nosso povo. Mas, se agirmos com juízo, vamos sobreviver. Devemos ser maleáveis e fazer como a relva que deita quando sopra o vento. O vendaval que se aproxima vai ser o maior de nossas vidas. Portanto, desafiar o destino não é nem astuto, nem sábio. Sei que, muitas vezes, o desejo de retaliar é maior do que o desejo de viver. Mas ainda estamos peleando. Ainda temos alternativas. Somos um povo brioso e não aceitamos viver com indignidade. Porém, não precisamos agir com precipitação. Devemos nos aconselhar com nossos antepassados para que nos ajudem a achar o melhor caminho. Devemos desprezar o ódio e o rancor porque são sentimentos perigosos, sem grandeza, que levam ao erro. Agora o mais importante é que nós dois temos que continuar vivos. Juntos, haveremos de encontrar um caminho para o futuro de nossa tribo e para nosso povo. O mais sábio, no momento, é viver um dia de cada vez e pensar na melhor maneira de aproveitar as circunstâncias do momento. Os fóg ainda nos temem. Não sabem quantos somos e onde nos escondemos. Então ainda temos boas condições de negociar. Talvez daqui um ano as coisas mudem e já não as tenhamos mais. Então, para escapar da enxurrada que antevemos, precisamos conseguir uma posição mais protegida.
Nonoai perguntou, então, deixando entrever seu sentimento de impotência:
— E onde está esse lugar mais protegido e esse morro mais alto para onde devemos ir?
Condá aproveitou a pergunta para renovar a argumentação sobre como confiar desconfiando dos brancos.
— O morro mais alto é o morro de onde podemos ver mais longe. Os brancos dizem que querem paz. Acho que a maioria é sincera. Os brancos também sabem que guerra é morte. Se oferecermos, a paz eles vão querer negociar. Porém, não podemos fazer como os Lanceiros Negros, que entregaram suas armas e foram dormir. Eles nunca imaginaram que seriam atraiçoados pelos comandantes farroupilhas. Sei que alguns poucos lanceiros escaparam exatamente porque desconfiaram. Então não podemos esquecer que muitos brancos querem nos destruir. Penso que são minoria, mas sabemos que mesmo uns poucos podem matar muitos de nós. A maioria prefere a paz por saber que o custo de uma guerra é alto para os dois lados. Assim, não querem a paz porque gostam de nós. Querem a paz por ser melhor tanto para eles quanto para nós. Eles desejam viver suas vidas e fazer seus negócios. Querem a paz para não viver na incerteza dos entreveros. Querem a paz para ter tranquilidade para conduzir suas tropas e ganhar dinheiro. Guerra e conflitos são ruins para os negócios. A simples incerteza da paz já dá prejuízo. Para os donos de tropas, custa muito dinheiro e toma muito tempo ir buscar muares lá no Sul. Cuidar de uma tropa exige muitos homens. São meses e meses de viagem e basta um único ataque nosso para pôr uma boiada inteira a perder. O prejuízo é tão grande que o governo quer paz com os índios para que os tropeiros tenham sossego e segurança. Só que não podemos ter a ilusão de que dá para atacar quando quisermos. Podemos atacar uma, duas ou três vezes, mas depois eles vão contratar montes de bugreiros e vamos ser perseguidos como ratos. Atacar sem aviso não é boa alternativa para um povo que quer sobreviver. O governo quer paz para as comitivas levarem muares e boiadas para Sorocaba e para as tropas trazerem mercadorias para vender no Sul. O governo vive das taxas que cobra das tropas e das mercadorias que viajam. Se os índios atrapalharem as comitivas e prejudicarem as viagens, o governo vai perder dinheiro. E não vai gostar. Por isso, enquanto os índios forem apenas uma ameaça, o governo vai preferir negociar. Mas, se os índios partirem para o ataque, o governo vai responder do mesmo modo, atacando. Um rekakê com um grupo arredio pode atacar e saquear uma carga, mas depois vai ser marcado e perseguido. Ele pode achar que foi vantajoso, mas vai descobrir que só enfureceu a onça. Atacar e saquear uma comitiva de tropa é como derrubar um pinheiro para comer o pinhão. Sem pinheiro não vai mais ter pinhão. Então é muito tolo derrubar o pinheiro. O governo quer que aceitemos ser aliados e propõe um acordo para que deixemos as comitivas passarem em paz pelo novo caminho. Em troca vai dar um aldeamento com coisas que queremos, como roupas, remédios, ferramentas, sementes e até uma escola para ensinar as crianças. Minha proposta é que devemos aceitar. Não vamos perder nada deixando as comitivas passarem por aqui no caminho do Goio-En. Se não deixarmos, elas vão continuar indo pelo caminho de Vacaria. E, no fim, tudo o que vamos conseguir será ver os bugreiros vir matar nossos amigos e parentes. E o governo dos brancos não vai fazer nada para nos proteger. O mais sábio, assim, é aproveitar a oportunidade para negociar um aldeamento. Sei que esta é a melhor escolha para termos paz, para termos matas e rios para pescar e caçar, roças para plantar milho e criar galinhas e matas onde colher o pinhão que alimenta o nosso povo. Esta é a melhor escolha que temos. Esta é a minha opinião.
Nonoai ouvia com atenção. Seu rosto, redondo e de contornos amenos, estava grave e mostrava as rugas de sua luta interior, mas, ainda assim, conseguia ver a ironia da situação.
— Se entendo bem, devemos deixar a onça beber água, porque ela diz que vai nos deixar vivos.
Condá achou graça:
— Acho que é mais ou menos isso mesmo.
Nonoai continuou:
— Se este é o melhor acordo que temos, a este acordo devemos nos conformar. Estou convencido disto. O que sei é que, para fazermos um acordo de paz, vamos ter que conversar com todos os caciques. Conseguir que todos concordem e aceitem as condições e venham para o aldeamento. Mas alguns de nossos rekakê mais novos ainda têm a teimosia da juventude. Alguns são mais difíceis de domar que potros selvagens. E se algum chefe não quiser concordar? Muitos são rebeldes e não querem nem ouvir falar em paz com os brancos.
Condá sabia que Nonoai tinha razão:
— Cacique Nonoai, nossa tribo Kaingang sempre foi conhecida por sua coragem e por ser uma tribo de guerreiros. Nossos jovens aprendem que não fugimos nem nos acovardamos, mas que também agimos com sabedoria. Só um tolo enfrenta a onça sem uma lança de ponta afiada. É bom ser temido por ser valente, mas é melhor ser respeitado por ser astuto. Muitos de nossos caciques cresceram ouvindo nossos kuiã dizer que, às vezes, é melhor morrer na luta do que viver na covardia. Eu concordo. Por isto muitos índios Kaingang morreram fugindo da escravidão. Outras vezes é preciso mais coragem para refrear a gana de brigar e enfrentar a realidade do que brigar com a sombra das palmeiras. Eu não sou covarde e não temo a morte. O que não quero é morrer por teimosia. Vamos ter que mudar muita coisa em nossa vida, sim, é verdade. Porém, saber como mudar pode ser bom. A lagarta aprende a mudar. Quando se fecha num casulo, ela luta até virar borboleta para sair para voar. A lagarta ensina que a natureza tem caprichos e reviravoltas. Até a natureza muda. Tem um tempo para o frio e outro para o calor. Um tempo de sol e um tempo de chuva. E quem não aceita os tempos da natureza sofre por ser tolo. Nossos criadores deram a cada um de nós um tempo de vida. Morrer sem precisar e antes de viver a vida completa é errado. Só que não existe vida sem luta. Lutei sempre e levanto todo dia sabendo que, naquele dia, tenho uma luta para lutar. O que sei é que são muitas as lutas que o índio tem que lutar. Lutar contra a tolice dos tolos é uma forma de luta. Lutar contra a ignorância é outra forma de luta. Só os tolos se comprazem em não saber nada. Eu luto para saber um pouco mais a cada dia. Reconheço que os fóg sabem mais coisas do que os índios, mas muitos índios, mesmo não sabendo tudo o que os brancos sabem, são mais sábios do que eles.
Após uma pausa para tomar fôlego, Condá continuou:
— Seria bom que nossos jovens desejassem aprender a falar a língua dos fóg, a usar as ferramentas de plantar e colher, a usar a medicina deles. O nosso saber não deve ser menosprezado, mas o deles, igualmente, não deve ser desprezado. Saber o que os brancos sabem ajudaria nosso povo a lutar as lutas que devem ser lutadas e até a lutar melhor contra os fóg que são inimigos dos índios e que só querem tomar nossas terras. Não é sábio, porém, lutar de peito aberto contra o vento, contra as enchentes e quando não se pode vencer nem sobreviver. Se não tivéssemos nenhuma alternativa, se fosse uma luta de vida e morte, eu seria o primeiro a lutar e morrer por nosso povo. Mas ainda temos escolhas. Quando olho para meus filhos e para meus irmãos Kaingang, eu vejo o anseio por mais vida. Então eu quero lutar para evitar que se sacrifiquem em vão. Eu desejo vida para todos. Quero que eles vivam com alegria e amor o tempo que cada um recebeu de Kamé e Kayru. O que meu coração sabe hoje é que, mesmo depois de muitas lutas, ainda tenho o desejo de lutar para viver e me recuso a morrer sem lutar.
Nonoai, sentado pensativo, concordava, manifestando com gestos sua aprovação ao desabafo de Condá. E deu sua decisão:
— Condá, meu irmão, compartilho de seus sentimentos. Sim, melhor um mau acordo do que uma guerra cruel que não temos como vencer. Portanto, vamos negociar para termos paz. Vou chamar os meus rekakê e dizer que queremos negociar. Que vamos aceitar um aldeamento onde possamos viver com dignidade. Os caciques que recusarem o aldeamento vão ter que lutar contra dois inimigos: os fóg e nós.
Nonoai falou com decisão. Pessoalmente, estava convencido. Ainda assim, tinha de agir conforme os costumes da tribo. Chamou Valério, o kuiã de sua aldeia. O pajé veio imediatamente. Era um ancião, para os padrões da tribo. Estava na casa dos 60 anos, era alto e magro e tinha a pele curtida pelo sol. Veio com o peito e o rosto marcados pela pintura em traços que o identificava, no dualismo tribal, como pertencente ao grupo Kamé. Na cabeça, um cocar de penas brancas e vermelhas circundava os cabelos cortados em formato de coroa. Vestia um traje cerimonial, composto de uma espécie de xale no pescoço e um saiote que lhe chegava da cintura até a altura das canelas, ambos feitos com tiras de fibras extraídas do tronco de bananeiras. O velho kuiã apresentou-se com o peito elevado, o que os braços cruzados enfatizavam. Seus olhos ainda tinham brilho e seu aspecto demonstrava nobreza e autoconfiança. Era homem consciente de sua posição na tribo e estava acostumado a orientar e aconselhar Nonoai e os rekakê da tribo. Sua fama era de homem sábio. Conhecedor da alma dos homens e das coisas do mundo. Ao mesmo tempo era o grande curandeiro da tribo. Desde cedo aprendera a dominar a arte de tratar os males do corpo e do espírito dos Kaingang. Ninguém, como ele, conhecia a história dos Kaingang e nenhum índio dominava melhor os segredos da medicina nativa. Não havia poção, nem erva, nem produto da natureza que desconhecesse. As rezas para invocar os espíritos em suas benzeduras eram feitas em voz potente, que ressoava por toda a aldeia, alcançava o toldo inteiro e, havia quem acreditasse, era forte o suficiente para ser ouvida do outro lado da vida e chegava diretamente aos espíritos do além. Muitos vinham consultá-lo sobre doenças e pedir para remediar seu sofrimento. Seu animal-guia era a Mig, a onça pintada, “o gato grande”. Quando buscava conselhos, além do espírito de seus antepassados, invocava também os antepassados da onça. Estes eram guardiões de segredos dos bichos que nem os Kaingang conheciam. O “gato grande” observava tudo silenciosamente e guardava o segredo de penetrar na mente de todos, homens e animais. Valério, por ter feito seu pacto de kuiã com a onça, mesmo sendo exímio caçador e tendo excepcional habilidade como arqueiro, cumpria fielmente seu juramento de nunca atacar nenhuma delas. Também não matava nem comia a carne de capivaras, antas e veados, que eram o alimento que as onças caçavam nas matas. Era ao espírito das onças que recorria como vidente quando precisava lidar com as intrigas entre os Kaingang ou, ainda, na solução de assassinatos e crimes ocorridos na tribo. Quem roubasse ou assassinasse sem motivo corria o risco de ser descoberto e expulso da comunidade. Quando uma disputa envolvia outro toldo ou outro grupo Kaingang, sabia conversar com o kuiã da outra parte e negociar um entendimento. Arguto observador, era hábil na leitura dos pensamentos humanos e resolvia muitos dos conflitos internos antes que descambassem para a luta e a confrontação fratricida. Nem sempre conseguia, é verdade. Especialmente quando o embate envolvia os jovens e a disputa se dava pela paixão por uma índia mais bonita ou prendada. Ultimamente, ele tivera algumas situações bem complicadas, com jovens se interessando por jovens brancas que haviam sido sequestradas. Nonoai não permitia o sequestro de jovens brancas e mandava libertá-las, mas outros caciques eram menos escrupulosos. O fato é que Valério ocupava um lugar de grande respeito e era reverenciado na organização da vida social e política do toldo de Nonoai. Até mesmo os índios de outros toldos, inclusive dos toldos da margem direta do Rio Uruguai, vinham consultar o sábio kuiã e receber suas benzeduras e medicinas.
Nonoai sabia, ainda, que seu pajé já andara pelos lados de Palmas e Guarapuava, onde conhecera Condá pessoalmente. Valério propagava que Condá tinha sido abençoado pelos antepassados e falava como as fág juryr, as folhas pontiagudas das araucárias, que eram silenciosas ao sopro do vento, mas espetavam quem fosse tocá-las sem cuidado. Valério, de sua parte, acreditava que Condá sabia ouvir o espírito dos antepassados e evitava ouvir os maus conselhos do japo, o diabo, o que era sinal de grande sabedoria. E seguia o que recomendava o kuiã: Japo tÿ ã krðn sór mø ra ti mÿ: nejé, hem nð! (Quando o diabo quiser lhe dar maus conselhos, não os ouça e lhe diga não.)
Quando o kuiã chegou, Condá continuou sua argumentação:
— Os fóg têm muitos planos para estas terras. E nós somos pedras no caminho deles. Se aceitarmos nos afastar do caminho, eles nos aceitarão como parceiros. O que querem agora é abrir o novo caminho pelo Goio-En. Eles querem que o caminho seja livre de emboscadas, ataques e saques. Preferem conseguir isso negociando a paz. Não querem depender de trazer soldados nem contratar bugreiros para nos perseguir e matar, assim como não querem ser surpreendidos por tocaias ou ter seus negócios atrapalhados. Para eles é vantajoso fazer um acordo com os Kaingang para conseguir isso. Então, prover segurança na estrada e livrar os tropeiros dessa ameaça é nossa moeda de troca. Oferecer segurança é o que podemos negociar com os brancos. O governo das duas províncias tem pressa. Mandar tropas para nos combater seria muito mais custoso e sei que, pelo que ouvi dos brancos do governo em São Paulo, o povo fóg é contra uma guerra contra os Kaingang. Uma guerra seria um risco muito grande. A fronteira ainda está sendo disputada. Os castelhanos podem tentar aproveitar o entrevero e ocupar posições dentro do território ocupado pelos Kaingang. Podem insuflar os Guaranis que vivem por perto a se envolver na luta. Portanto, nas condições atuais, ainda temos trunfos. O que digo é que não tenho medo da luta. Não sou covarde. Tive medo, e ainda tenho vários medos, mas já não temo nem a luta nem a morte. Sofri muito na carne e sofri muito na alma. Mas de que vale a luta inglória? Vi muitos guerreiros morrerem por nada. Deles nada ficou, nem a lembrança. Eu não quero morrer e ter meu espírito preso no Numbé. Quando eu morrer, quero a ajuda dos mortos para ir para a terra dos espíritos. Quando eu morrer, desejo encontrar os nossos mortos e ser celebrado na cerimônia do Kikikoi. E sabes tão bem quanto eu que os parentes dos mortos precisam pedir a cerimônia aos kuiã. E, se todos os meus parentes tiverem sido mortos, quem vai pedir por mim? Mesmo se alguns poucos sobreviverem, a cerimônia do Kikikoi só pode ser realizada com os parentes dos mortos das duas dualidades, dos parentes Kamé e Kayru. Essa é a condição de nossos dois criadores e deve ser aceita pelos nossos antepassados que cuidam dos espíritos de nossas duas metades. Se entrarmos em uma guerra prolongada, como os rezadores vão acender as três fogueiras na “praça dos fogos”? Talvez nem tenhamos mais um lugar para a “praça dos fogos”. E como teremos paz para realizarmos toda a cerimônia? As duas primeiras fogueiras precisam ser acesas dois meses antes do terceiro fogo. As duas primeiras fogueiras, uma para os mortos Kamé e a outra para os mortos Kayru, devem estar acesas antes da derrubada do pinheiro do konkéi, o recipiente de tronco onde os kuiã vão colocar o mel e a água e deixar fermentando para fazer a bebida do kiki. Estes detalhes são muito importantes. E a bebida ainda precisa de dois meses de preparo. Só quando tudo fica pronto é que os rezadores rezam e entoam cantos durante a noite das rezas ao redor das fogueiras, acompanhados das famílias dos mortos. E só com tudo pronto, as mulheres sagradas, as pein, serão preparadas para a cerimônia com as pinturas do ritual para começar a invocar os espíritos dos mortos para pedir a proteção aos vivos. As pein do lado Kamé rezam para os mortos da metade Kayru, e vice-versa. As mulheres rezam, cantam, tocam flautas e agitam os chocalhos. Ao amanhecer do dia seguinte, todos os participantes vão para o cemitério, onde são feitas outras rezas invocando os mortos nas suas sepulturas. Para mim, o momento mais glorioso, e o que mais me emociona, é quando todos voltam para o toldo e homenageiam os mortos. Quando nossos corações agradecem a vida que nos foi dada gratuitamente e a proteção dos espíritos para que nossa vida tenha significado. Então, dançamos ao redor das fogueiras e tomamos o kiki. Portanto, nobre Pai-Bang, fazer uma guerra tola em que todos os Kaingang morram é como trair nossos antepassados, que nunca mais serão lembrados pelos seus descendentes. A luta até a morte de todos os nossos, além de significar o fim dos Kaingang neste mundo, representa a condenação eterna de nossos mortos. Além disso, mesmo que façamos uma guerra com grandes vitórias, a perda de vidas pode ser um mal tão grande que qualquer paz acabará por ser mais vantajosa. O mais triste para o povo Kaingang, entretanto, é que mesmo que tenhamos muitas vitórias improváveis, se olharmos nos anos do futuro, uma guerra com os brancos é suicídio. Mesmo que lutemos com coragem e matemos muitos, hoje conhecemos seu poderio. Uma guerra dos índios contra os brancos é uma luta desigual. Seria tolice. Os índios das Missões eram muito mais numerosos do que nós e os missionários eram muito organizados. Suas cidades eram grandes, construídas de pedra e eram bem defendidas. Os Guaranis tinham também algumas armas de fogo. E eles foram derrotados e expulsos pelo Exército dos brancos. Portanto, guerrear com os brancos é tolice. Iríamos perder a guerra e, no fim, seríamos aniquilados sem dó nem piedade como os Guaranis das Missões dos padres jesuítas. Querido Pai-Bang, o senhor sabe tão bem, ou até melhor do que eu, que os brancos têm tudo do seu lado. Além do poderio das armas e muito mais guerreiros, os brancos ainda têm o tempo em favor deles. Os conquistadores têm muitos homens e muitas armas. E podem continuar mandando soldados até conseguirem nossa derrota completa. Alguns Kaingang tolos dizem que podemos vencer e se vangloriam de nossas vitórias na luta contra o general Labatut. Mas vencer aquele velho general, doente e já sem forças, não conta. É como se se orgulhassem de vencer uma Mig velha e desdentada.Nossa vitória teve méritos, sim, por mostrar que nossos guerreiros podem lutar e vencer alguns brancos esfrangalhados, mas não nos enganemos. A perseguição ao Exército de Labatut foi como perseguir uma onça velha, desdentada, cega e doente. Por isso, repito, a vitória contra o general é enganadora. Aquelas circunstâncias não vão se repetir. Labatut era um grande general. Dizem que lutou batalhas na Europa. Dizem que ele é muito respeitado na capital do império e em São Paulo; que teve grandes vitórias contra os portugueses na guerra da independência, como me contaram em minha viagem. Mas quando veio lutar com os Farrapos acabou escorraçado e chegando ao Mato Castelhano já em frangalhos. Suas tropas estavam famintas, doentes, sem armas e munições. Nós atacávamos de surpresa e fugíamos para o mato. E tirávamos dele o pouco que ainda tinha. No fim, o general acabou traído por sua própria gente. Mas, meu amigo Nonoai, eu conheço as boas tropas do governo imperial. Vi, com meus próprios olhos, o terrível poder delas em São Paulo. Soldados bem treinados, bem fardados, com armas novas, com canhões reluzentes que fariam os matos tremerem. Se não fizermos um acordo, essas tropas poderosas e seus canhões virão para nos combater. É com o coração triste que digo ao Pai-Bang Nonoai que, se os soldados brancos vierem nos combater, virão em grande número, virão fortes e armados e virão com ordens para nos derrotar e nos eliminar.
O cacique Nonoai ficou em silêncio. As palavras de Condá o machucavam. Eram palavras sinceras, que não eram ditas para enganar. Eram ditas para apontar a verdade.
— Sim, Condá. Suas palavras são terríveis, mas reconheço que são verdadeiras. Nosso tempo de escolhas chegou. Meu coração fica apertado, mas eu digo que já tenho vivido muito para saber que tapiti, o coelho que desafia a onça Mig, vira seu sustento.
Condá foi forçado a concordar:
— Sim, cacique Nonoai. Não queremos o destino do tapiti que acaba sendo engolido pela onça. Então temos que agir rápido e aproveitar o momento. Querem os brancos negociar? Então podemos ir conferenciar com o comissário em Passo Fundo agora…
Nonoai fez um sinal com a mão, interrompendo:
— Talvez, mas ainda não estou preparado para ir ao encontro do comissário. Podemos enviar uma mensagem e mostrar que estamos nos preparando para negociar, sim, mas eu prefiro negociar daqui mesmo, do meu toldo. Aqui eu tenho os meus guerreiros comigo e sou mais forte. Temos que avançar com cuidado. Alguns de meus rekakê estão revoltados com os brancos e com tudo o que vem acontecendo. Se eu for a Passo Fundo sem preparar tudo antes, eles podem querer se aproveitar de minha ausência para tumultuar a tribo. Jovens imaturos são muito estouvados. Podem fazer besteiras. A sabedoria recomenda prevenir.
Condá concordou:
— Está bem, Nonoai. Compreendo seus motivos e lhe dou toda razão. Desculpe minha afoiteza. Sei que não é uma boa conselheira. Podemos dar um primeiro passo e agir sem demora, mas sem ficar ao desabrigo da cautela.
Nonoai pegou a mão de Condá, olhou em seus olhos e disse, com voz firme, mas emocionada:
— Meu irmão e meu amigo, então este é o caminho. – Fez uma pausa para acalmar seu turbilhão interior e continuou: – Sim, irmão. Este é o caminho. E eu preciso de sua ajuda e de sua experiência com os brancos.
Condá também se emocionou ao sentir que nele repousava a confiança do velho cacique:
— Estou ao seu lado, Nonoai. Sua preocupação é a minha preocupação. Pode contar comigo.
Nonoai passou a mão nos olhos para disfarçar que estavam mourejados. E preferiu perscrutar sobre uma dúvida que o atormentava:
— Condá, seu apoio me deixa mais confiante. Mas, antes de irmos adiante e falarmos sobre o que fazer, gostaria de saber mais sobre o que motiva sua visita. Suponho que tenha vindo falar em nome dos brancos, como devo deduzir ao saber que seu guia para vir ao meu encontro foi o soldado Castilho, um branco casado com uma mulher Kaingang pertencente ao meu toldo.
Condá sentiu que aquele era um momento delicado da conversa. Nonoai estava agindo com cuidado e procurando palavras com tato, mas sua pergunta buscava resposta para uma dúvida incômoda, que certamente o afligia. Condá, por esse motivo, precisava explicar-se e ser tão sincero quanto possível. Precisava tranquilizar Nonoai e aplacar seus receios quanto aos reais motivos e às verdadeiras intenções de sua visita. Aquele era o momento de mostrar-se digno de sua confiança. Condá falou, sopesando as palavras:
— Sim, prezado Pai-Bang, muito justa sua questão. Vim ao seu encontro com a missão de propor um entendimento para um acordo com o comissário de Passo Fundo. Os governos das províncias do Rio Grande do Sul e de São Paulo têm interesse em construir uma estada que ligue Passo Fundo ao Goio-En. Como o passo fica a apenas algumas léguas daqui a estrada vai passar perto de seu toldo, em uma região em que os Kaingang coletam pinhão, caçam e pescam. Por isso precisam de sua licença e de sua proteção contra os ataques dos Kaingang aos tropeiros que usarem a estrada. Foi por esta razão que o chefe da construção da estrada, o alferes Rocha Loures, me enviou. Ele me pediu para propor um entendimento e um aldeamento dos Kaingang da região. Eu aceitei a missão porque conheço o alferes desde Guarapuava. Ele é meu amigo desde pequeno e sempre agiu como amigo dos Kaingang. Depois que foi encarregado de construir esta estrada do Goio-En ele me procurou e pediu para ajudá-lo nessa obra. E por isso estou aqui para conversar. Todos sabem que a estrada não será bem-sucedida enquanto houver o perigo de ataque de índios. Os governos do Rio Grande do Sul e de São Paulo têm pressa, agora que a Revolução dos Farrapos acabou. Eles desejam que os tropeiros possam logo começar a subir por esse caminho e cruzar o Rio Uruguai pelo Passo do Goio-En para seguir no rumo Norte, e, mais adiante, na altura de Castro, entrar na Estrada Geral, para levar suas tropas e gado até Sorocaba. A estrada da parte de cima da passagem, depois do Goio-En, já está sendo usada. Então, este trecho aqui ainda é um problema que precisa ser resolvido para a estrada ser usada pacificamente.
— Sim, entendo. Mas o que é que você ganha, pessoalmente, com a estrada? – Quis saber Nonoai, intrigado.
Condá prosseguiu na explicação com vagar e cautela. Precisava evitar que Nonoai tivesse dúvidas sobre seus motivos.
— Caro Pai-Bang, eu tenho orgulho em ser cacique Kaingang, mas também sou capitão dos índios. Tenho este posto nomeado pelos brancos. Eu recebo um soldo do governo da Província de São Paulo. Eu sou pago para chefiar o aldeamento dos Kaingang nos Campos de Palmas. Portanto, tenho um compromisso de ser leal aos brancos. Entretanto, em meu coração, eu tenho três outras razões que são, na verdade, os meus verdadeiros motivos: primeiro, eu desejo que nosso povo abandone o sofrimento da guerra e encontre um modo de viver em paz com os brancos. Eu sei, por experiência própria, que viver em paz com os brancos não é fácil. Eu conheço os brancos e sei que, entre eles, existem os bons e os maus. Lamentavelmente, também tenho observado, que, em geral, os brancos maus são, precisamente, os mais ambiciosos e cruéis. Muitos conquistam cargos e posições de cheia. Os fóg gananciosos são cheios de maldade, são brutos e matam sem dó quem atrapalha os planos deles. Muitos atraiçoam e matam os índios e até sua própria gente, sem piedade, para conseguir o que querem. O que me anima é que, a partir de minha experiência de Guarapuava e Palmas, quando existem muitos brancos na povoação, os bons formam maioria e não deixam os maus fazerem o que querem. Especialmente, não perseguem nem aceitam perseguir e matar os índios. Por isto, meu desejo é que venham mais brancos. Ainda que pareça pouco lógico, estou convencido de que, quanto maior for a população branca, mais segurança nós vamos ter. Portanto os tropeiros podem ser nossos melhores aliados. Em minha opinião, nossos inimigos não são os brancos, mas os fazendeiros gananciosos. Estes são os que se dizem nossos amigos, mas querem é tomar nossas terras. A maioria dos brancos apenas quer viver a vida deles, convivendo em paz com nosso povo. Havendo muitos brancos morando em nossas terras, será mais difícil os bandidos nos perseguir e matar sem ninguém ficar sabendo. O segundo motivo é que eu acho bom para o futuro de nossa tribo aprender as coisas dos brancos. Nós somos diferentes, vivemos diferente, temos costumes diferentes, mas devemos aprender o que eles podem nos ensinar. Não precisamos deixar nossos costumes. Ao contrário, podemos aprender a viver com eles sem ser como eles. Eu não quero deixar de ser Kaingang. Aliás, penso que nossos guerreiros não querem deixar de ser Kaingang. Nosso povo não quer deixar de ser índio. Todos nós temos orgulho do que somos. Temos vivido nossa vida por muitas e muitas gerações, e sempre conservamos os costumes que aprendemos com nossos ancestrais. Contudo, sei que os brancos sabem muita coisa que não sabemos e que seria bom que soubéssemos. Coisas que ensinam nas igrejas e nas escolas. Em Guarapuava e Palmas nossas crianças têm escola e estão aprendendo a língua dos fóg. Estão começando a estudar. Nós não precisamos aprender a ser brancos. O que queremos é ser índios que aprendem o saber dos brancos. E o terceiro motivo é que aceitei esta missão porque eu quero ajudar o progresso da província. Quando a província fica mais próspera, tem mais comida, tem mais dinheiro, tem mais animais e tem mais coisas, é mais fácil o índio também ter tudo isso. Finalmente, cacique, gostaria de dizer que eu não era obrigado a aceitar o convite do alferes Rocha Loures, mas aceitei porque eu gosto dele e quero que tenha sucesso. Eu o conheço desde meus tempos de guri. Desde o tempo em que minha família vivia no aldeamento dos Kaingang em Guarapuava. Sei que ele é um branco bom e não persegue os índios. Eu sei que ele defende os índios e luta contra os brancos maus em Palmas e Guarapuava. Com a abertura da nova estrada, ele vai ser mais respeitado e vai ficar mais poderoso. Então vai ter mais poder de ajudar os índios, tanto daqui como do meu toldo. Ele tem sido leal com os Kaingang. Então eu acho que eu e meu povo vamos ser beneficiados. Por isso eu tenho muito interesse na abertura desta estrada. Acho que, no fim, vai ser uma coisa muito boa para nosso povo.
Nonoai coçou a cabeça, pensando se devia fazer a pergunta que o incomodava, e achou que não podia deixar de fazê-la:
— Condá, alguns de meus rekakê dizem que vosmecê virou capitão dos brancos para perseguir os Kaingang que não querem obedecer aos brancos. Que recebe dinheiro dos brancos e mudou de lado. Que prefere a amizade com os fóg e traiu os Kaingang. O que devo dizer a eles?
Esta era uma questão que incomodava a muitos índios. Especialmente aos mais revoltados, para os quais tudo tinha que ser branco ou preto. Condá já se habituara a esse tipo de reação. Sabia que uns eram contra ele por acharem que a separação entre índios e brancos deveria ser total. Outros, por despeito ou inveja. Então, pouco havia a fazer. Mudar opiniões era sempre muito difícil. Quase sempre essas opiniões vinham atadas em frustrações ou sentimentos de revolta.
— Cacique Nonoai, eu não virei branco. Eu não deixei de ser índio. Olhe para meu rosto e para meu corpo. Minha cor é a da terra de onde eu saí. Eu aceito dinheiro dos brancos para poder comprar as coisas boas que vêm dos brancos. Eu preferiria dinheiro dos índios, mas os índios não fazem dinheiro. E o que pode dizer aos seus rekakê é que eu não persigo os Kaingang bons. Só os maus. Diga que sim, que eu sou amigo dos brancos bons, assim como sou amigo dos índios bons. Eu sou amigo de todos os que são bons, tanto brancos quanto índios. Diga que eu sei distinguir e separar os bons dos maus. Muitos brancos me perseguiram e muitos ainda me perseguem, mas muitos me ajudaram e me ajudam quando preciso. E muitos índios me ajudaram também, mas muitos me invejam e outros me abandonaram e me viraram as costas. O cacique Viki aproveitou minha viagem a São Paulo e usou os brancos para pegar meu lugar como Pai-Bang em Palmas. Não foi uma coisa boa. Por isso estou brigado com ele. Diga aos rekakê que muitos que eu ajudei me abandonaram e se revoltaram contra mim.
Pelo rosto de Condá perpassou um momento de amargura, que não passou despercebido ao olhar arguto de Nonoai, que, no entanto, preferiu não interromper. E assim seguiu Condá:
— Diga a eles que aceitei o chamado para ser capitão dos índios porque quero fazer o melhor para os Kaingang. Desejo fazer o melhor que posso para que os Kaingang consigam viver pacificamente com os brancos. E tem ainda outra coisa, Cacique Nonoai, diga a eles que eu tinha que escolher um lado. Todos temos que escolher um lado. Eu escolhi o lado dos que querem sobreviver. Escolhi baixar as armas. Quero viver a vida que recebi de meus criadores. Quero que minha família viva e quero que minha tribo sobreviva. Muitos são tolos, brincam com a vida e querem morrer. Fico triste por eles, só que eu não posso impedir que morram. Por fim, diga aos rekakê que não me rendi aos fóg. O meu testemunho é minha cor. É ela que diz que sou filho da terra e que meu povo é o povo Kaingang.
Nonoai ficou em silêncio durante um minuto. Sentira franqueza e sinceridade na resposta. Condá não escondia que tinha uma boa relação com os brancos. Era uma coisa positiva para facilitar o entendimento. Também reconhecia que o cacique Condá dominava a arte da liderança. E confiava nele. As respostas que recebeu eram límpidas. Era, tinha que reconhecer, um cacique que sabia o que queria e não escondia seus propósitos. Haviam conversado por um bom tempo e tinham afinidade. A partir daí, Nonoai teve uma inspiração: e se Condá viesse ajudá-lo a enfrentar esta fase tão difícil? E se Condá concordasse em dar-lhe conselhos? Nonoai sentiu que ficaria feliz em dividir as responsabilidades da chefia. Não era um chefe ambicioso nem egoísta. Não buscara ser cacique. A posição de chefia dos Kaingang era uma missão que o destino colocara em suas mãos. E que aceitara com carinho e com zelo. Mas se sabia menos preparado do que Condá para os embates com os brancos.
Antes de propor uma parceria na liderança da tribo, que é o que desejava fazer, precisava pensar um pouco. Era uma decisão difícil e melindrosa, contudo necessária. Habitualmente, o Pai-Bang” dividia suas preocupações com o kuiã, o pajé que o aconselhava em situações difíceis. Mas o momento exigia mais do que a serena ponderação e o equilíbrio que Valério, o pajé, tinha a oferecer. Era preciso conhecer bem os fóg, ter familiaridade com seu mundo, habilidade para identificar as ameaças e avaliar as oportunidades. Essas eram qualificações que sobravam a Condá. Apenas seria melhor deixar o convite aflorar em um contexto mais amadurecido. Assim, propôs uma interrupção na troca de opiniões que estavam mantendo:
— Condá, acho que devemos dar uma pausa em nossa conversa. As mulheres já prepararam uma comida fresca e acho que estás cansado após a viagem e poderia descansar e voltarmos a falar mais tarde.
Condá concordou. De fato, um descanso era bem-vindo.
— Como for de seu desejo, cacique Nonoai. Podemos continuar quando for melhor para vosmecê.
Condá apreciou a oportunidade de uma pausa. Até para organizar melhor as ideias. A viagem fora deveras cansativa e gostaria de descansar um pouco mais. Até mesmo seu corpo atlético sentira o grande esforço de vencer as dificuldades do caminho, enfrentando um terreno encharcado pela chuva miúda e precisando vadear os inúmeros cursos d’água que corriam para o Rio Passo Fundo, escoando as águas volumosas trazidas pelas chuvas. As condições de tempo não só dificultavam o avanço como exigiam, a todo o instante, abrir passagem a golpes de facão. Já o esgotamento mental era devido às noites maldormidas, o sono afastado pela preocupação em dizer as coisas certas e em convencer Nonoai a aproveitar a oportunidade que os Kaingang tinham de obter um bom acordo. As condições favoráveis não ficariam esperando.
Finalmente, Condá, após uma refeição leve, à base de pinhão com carne de caça preparada em palha de milho verde, procurou um canto mais sossegado para deitar-se por um tempo. Em uma pequena palhoça, usada para a guarda de pinhão recém-colhido, havia uma esteira convidativa. Ali Condá se deitou. As nuvens prenunciavam que voltaria a chover. O som dos pássaros canoros e o farfalhar das árvores eram como música que o embalava. Ajeitou-se na esteira macia e, mais sossegado com o resultado de sua missão em razão da boa acolhida e da boa vontade mostrada por Nonoai, deixou-se tomar pelo sono e dormiu.
Enquanto dormia, sonhou. Em seu sonho reviveu o tempo de sua mocidade. Havia visitado muitas aldeias e percorrido muitos caminhos. Nos Campos de Vacaria, tinha visto as tropas chucras de muares percorrer as trilhas rumo à Coxilha Rica, conduzidas por muladeiros e tropeiros. Depois das mulas, os tropeiros passavam com cargas e grandes rebanhos de gado, muitos juntados nas vacarias dos campos sulinos. Em seus tempos de moço ainda havia imensos rebanhos charruas, de gado selvagem criado solto – que era levado para o Norte. Em seu sonho, cavalgou pelos caminhos de taipas e reviu as invernadas buliçosas que conhecera, com os domadores de mulas gritando e corcoveando durante o descanso das tropas. Fora um tempo despreocupado e feliz. Seu sonho o levou até as recordações de uma paixão proibida da sua adolescência. Em uma festa do kiri, seu coração juvenil foi capturado pela doce Açucena, a encantadora filha de um Pai-Bang de um toldo mais a Leste. Foi amor à primeira vista. Era, porém, um amor proibido. A encantadora índia de rosto redondo, formosos lábios carmesins e pele de mel, de corpo sinuoso, que exalava o perfume das flores da primavera, que a adornavam, e cujo cabelo, esvoaçando revolto, lembrava as ondulações do prado, correspondeu a seu amor.
O problema intransponível é que Açucena pertencia à mesma metade Kayru. Por isso era proibido envolver-se com uma jovem de sua mesma metade. Inicialmente, Condá e Açucena esqueceram o muro que os devia separar e entregaram-se a momentos de amor e paixão secretamente. Mas, aos poucos, um sentimento de remorso foi crescendo em seus corações e ambos foram conformando-se. Ser Kaingang não era fácil. Finalmente, decidiram que deviam fazer o que os costumes de sua tribo diziam ser o certo. Na despedida, abraçados, choraram a saudade que sentiriam pela vida. Açucena lhe jurou que dele lembraria para sempre. Que nas noites de lua cheia iria sentar-se à beira do rio e lembrar do guerreiro que a cativara. Choraria sua saudade e deixaria suas lágrimas misturarem-se com as águas do rio onde um dia nadaram juntos. Mas respeitaria as regras de seu povo. Sua gente não aceitaria uma união de irmãos. Era preciso consolar-se com a memória e com a saudade.
Condá dormiu mais do que desejara. Passado um tempo, Nonoai se aproximou, mas se conteve. O bravo guerreiro dormia com o rosto sereno. Admirou aquele corpo feito de músculos e que impressionava por sua força e flexibilidade. Preferiu não o acordar. Poderiam falar no dia seguinte. Mas, ao lado daquele guerreiro que era o mais resoluto campeão de sua gente, sua decisão de convidá-lo para uma parceria no comando da tribo se firmava em definitivo. Juntos, seriam mais fortes. Juntos, seriam respeitados. Dificuldades haveria, certamente, mas seriam enfrentadas e vencidas. E juntos veriam nascer um novo sol sobre seu povo. Esta, lhe confidenciava seu coração, era a vontade dos seus criadores. Quando o sol se pôs, Nonoai também se deitou. Seu coração, como o de Condá, igualmente conheceu uma paz que já não era sua companhia há muito. Seu sono veio em meio à natureza amiga, na noite escura e profunda, enquanto a chuva fina voltava a regar a mata pródiga que era sua morada, como antes fora dos seus pais, de seus avós e de gerações sem conta de seu povo.
O dia seguinte amanheceu radioso. A chuva cessara. Um novo dia tinha novos augúrios. Em volta do toldo, a aurora surgia dourada, iridescente, brilhante, luminosa. A aldeia começava a despertar e as fogueiras já assavam o pinhão que crepitava, espalhando seu aroma apetitoso por todo o toldo do cacique Nonoai. Condá acordou surpreendido pela luz do sol batendo em seus olhos. Há tempos não dormia por tantas horas seguidas. Viu-se coberto com um kuru, uma manta para proteger do frio trançada com folhas de bromélia e urtiga, que Nonoai colocara sobre seu corpo para evitar que o frio o acordasse. Afastou o cobertor, espreguiçou-se com vagar, sentindo os músculos alongarem e sua circulação ser ativada. Havia dormido vestido com as calças e a camisa da farda, que agora estavam amarrotadas, mas não era nada que o preocupasse. Despiu as vestes dos brancos. Estava em meio aos seus e, entre eles, não precisava usá-las para vestir-se como os fóg.
Ao ver Condá sair da palhoça, Nonoai foi ao seu encontro. Condá agradeceu pelo kuru. Os dois caciques receberam as cumbucas com os pinhões e as tortas de milho das mulheres que chefiavam a cozinha do toldo e, após tomarem o desjejum, afastaram-se para uma clareira próxima, onde sentaram-se em troncos de madeira que estavam ali, estrategicamente posicionados, para permitir conferências e boas conversas.
Nonoai foi direto ao assunto:
— Condá, depois de nossa troca de ideias de ontem, pensei sobre como encaminhar nossa negociação com os brancos para aceitarmos a estrada e mantermos a paz.
— Sim – respondeu Condá, estimulando o cacique Nonoai a continuar.
Nonoai fez uma pausa, comeu um pinhão assado e, depois, continuou:
— Desejo discutir um acordo de paz, porém, mais do que o conteúdo, o importante é a forma como o apresentamos. Vosmecê saberia como defender nosso interesse melhor do que eu. Por isso gostaria que aceitasse ser meu parceiro e compartilhar comigo a chefia da tribo Kaingang enquanto negociamos com os brancos.
De tudo o que Condá podia esperar, ser convidado para dividir o comando do toldo era o menos provável. Assim, ficou surpreendido e lisonjeado com a proposta. Na verdade, não esperava que Nonoai se dispusesse a dividir seu poder com um cacique vindo de fora. Os chefes Kaingang eram muito ciosos de sua autoridade e não costumavam aceitar de bom grado nem conselhos de seus caciques auxiliares nem, muito menos, de caciques visitantes, quanto mais dividir o comando.
Cacique Nonoai, vosmecê está me convidando para ser o seu segundo cacique aqui no toldo?
— Não, Condá. Eu não iria ofendê-lo oferecendo a posição de meu conselheiro. Vosmecê é um Pai-Bang de seu toldo. O que eu quero é dividir o comando de nossa tribo nesta região. Ao menos enquanto negociamos nosso acordo com o governo da província.
O convite foi tão inesperado que Condá estava sem saber o que dizer. Não esperava a proposta, mas era evidente que era, sim, um bom arranjo. Se ele viesse a instalar-se na região, tudo ficaria mais fácil. Condá poderia fazer o elo de ligação com as autoridades fóg e ajudar Nonoai a conseguir um acordo interessante tanto com a Província do Rio Grande do Sul quanto com a de São Paulo. E assim falou Condá:
— Fico muito lisonjeado, cacique. Eu desejo ajudar e colaborar com minha experiência e meu conhecimento dos brancos, mas nem em sonho pensei em ser cacique de seu toldo. Peço um tempo para pensar a respeito. Talvez eu pudesse ficar por um tempo como um rekakê, mas como sou capitão dos índios e tenho um soldo da Província de São Paulo, lá em Palmas, preciso ver como arranjo as coisas. Penso que consigo uma licença ou uma autorização do governo paulista, que tem grande interesse nesta nova estrada. Além disso, eu também tenho compromisso com meu toldo, na região de Palmas, e vou precisar resolver quem vai chefiar na minha ausência. Isso não chega a ser um problema porque tenho bons rekakê lá, porém não posso deixar de definir com quem a chefia vai ficar em meu lugar.
Nonoai concordou:
— Sim, Condá, eu entendo perfeitamente sua posição. Claro, sei que é chefe de um toldo Kaingang do outro lado do Rio Uruguai. Eu sei por que as histórias correm na tribo, e sei do seu papel muito importante no entendimento dos nossos com os brancos. Porém, lá o acordo com o governo está bem mais avançado. Sei que em Palmas e Guarapuava já existem diversos aldeamentos instalados e nosso povo está convivendo com os brancos. Neste lado esquerdo do Uruguai, estamos com tudo indefinido. Aqui ainda temos muitas matas onde nosso povo domina e não temos nada negociado. Por isso precisamos que fique aqui ao menos por um tempo. Pelo menos até encaminharmos um acordo com os brancos.
Condá olhou em volta e o que viu lhe agradou. O espaço em que estavam era verde e plano, cercado de vegetação típica das regiões de araucária, com as grandes árvores compartilhando a mata com erva-mate, imbuia e enorme variedade de outras espécies, grandes e pequenas. Uma mata cheia de vida, pássaros de todas as cores. Boa caça, pacas e cutias circulando soltas e ao alcance das flechas. Outras espécies viviam na mata e eram importantes para os Kaingang, como onça-pintada, jaguatirica, saguis, macacos, preguiça-de-coleira, caxinguelê e o tamanduá.
Aí Condá olhou para e céu e viu que o azul cristalino era um contínuo festival de animada algazarra. Viu pássaros de todas cores e sons. Reconheceu, entre as aves, andorinhas, gralhas azuis e marrons, jacus, macucos, jacutingas, tiês, arapongas, sanhaços, numerosos beija-flores, tucanos, saíras e lindos gaturamos, com os machos de dorso preto brilhante com reflexos de azul-violáceo e o peito em amarelo vivo. Um cenário que lhe pareceu cheio de encantos, pleno de acolhimento e abundância, que o encorajava a aceitar o desafio de lutar para que seu povo tivesse ali um espaço seguro. Aquela era a terra de sua gente e foi ali, naquele recanto do paraíso, que os seus criadores os colocaram para desfrutar da natureza e se aldear.
— Nonoai – disse Condá – seu convite é uma coisa a ponderar. Quero dizer que estou inclinado a aceitar. Acontece que, uma vez aceito, não tem volta. Passa a ser uma decisão em que empenho a alma. Vira um compromisso sagrado. O problema é que ainda não estou preparado para esta decisão. Meu coração quer aceitar, meu espírito quer aceitar, mas eu ainda preciso examinar as implicações antes de aceitar.
Nonoai achou graça. Era evidente que Condá estava aceitando. As incertezas e dúvidas não resistiriam a empurrão a mais. Nonoai viu, com alegria, que Condá estava propenso a vir compartilhar as responsabilidades de conduzir a tribo nos difíceis momentos que atravessavam. E não titubeou em dar o empurrão final:
— Irmão Condá, precisamos de seus conhecimentos e de sua experiência. Não deixe que as dúvidas se interponham e dificultem uma decisão que já está tomada em seu coração. Precisamos de ti. Eu ficaria muito, mas muito aliviado se estiver ao meu lado. – E Nonoai enfatizou: – Tudo isso vosmecê já sabe.
Condá concordou maneando a cabeça:
— Sei, cacique. E digo que ficaria muito feliz em aceitar o convite. Mas, antes de mais nada, preciso ter certeza de que esta seria a melhor maneira de ajudar.
Nonoai mostrou-se conformado:
— Mate a serpente da dúvida em seu espírito e afaste o medo de seu coração. Compreendo e aceito que tenha cuidados, mas o futuro do povo Kaingang está em risco. Eu preciso de sua decisão. Tome o tempo que precisar, porém, tenha consciência de que o futuro dos Kaingang está em suas mãos. Medite e consulte nossos antepassados. Sei que, então, as incertezas sairão do seu caminho.
Condá ouviu o que dizia Nonoai e ficou em silêncio. Por instantes, não tinha o que dizer. Gostasse ou não, colocadas as coisas naqueles termos, recusar seria quase uma traição.
— Cacique, acho que assim fico sem saída. Vou ter que encontrar uma forma de conciliar meus outros compromissos. E vou precisar de um tempo para poder ajeitar as coisas antes de vir para ficar. Desejo deixar, claro, porém, quando tudo estiver bem e o aldeamento estabelecido, preciso que me libere do compromisso, podemos combinar assim, está bem?
Nonoai sinalizou com a cabeça que estava bem e falou:
— Sim, podemos combinar assim. Sei que nos ensinará o caminho reto e, quando nosso povo estiver seguro e em boa relação com os brancos; quando estivermos aldeados e de posse da terra que nos dê o alimento que precisamos; quando formos respeitados e saibamos como fazer para garantir que exista paz entre nosso povo e os brancos e, ainda mais, quando eu tiver sabedoria para conduzir o meu toldo e liderar meus rekakê, vosmecê ficará liberado de seu compromisso e poderá seguir seu caminho.
Condá mostrou-se de acordo:
— Então, vou me preparar para as festividades de aceitação e para vir assumir meu lugar ao seu lado. –
Foi aí que, vendo a satisfação que sua resposta trazia no rosto de Nonoai, achou que era um momento apropriado para falar sobre a delicada questão do padre Penteado e de seu desejo de catequisar os índios da tribo. Era assunto melindroso. Por isso, antes de ir diretamente ao ponto, preferiu ir tateando o terreno e dar voltas para chegar a ele de forma mais cautelosa. Disse a Nonoai:
— Cacique, com sua licença, tenho mais um assunto de muita importância do qual desejo tratar. Como disse, este assunto é delicado e precisa ser apresentado com jeito, para evitar que eu seja mal-entendido. Entretanto, ainda assim, preciso falar sobre ele com franqueza. O assunto, além de estar entre os motivos de minha vinda, é muito sensível aos governantes da província.
Nonoai ficou intrigado. Que motivo seria este? Não seria, supôs, alguma coisa relacionada ao caminho dos tropeiros passando pelo Goio-En. Ainda que fosse, não traria grande novidade. Ele estava informado da abertura da trilha pelo caminho do Vale Dourado. Seus guerreiros acompanhavam o progresso da obra. Ajeitou-se melhor sobre o tronco que servia como assento e curvou-se para poder prestar mais atenção.
Condá respirou fundo e seguiu em frente:
— Cacique Nonoai, penso que o melhor caminho para uma paz duradoura com os brancos passa pela religião deles. A igreja dos brancos diz que os brancos e os índios podem ser irmãos. A religião dos brancos diz que, quando aceitamos ser batizados, passamos a ser membros da igreja e passamos a ser irmãos e iguais aos brancos na religião católica. Quando aceitamos ser batizados passamos a fazer parte das cerimônias religiosas e da comunhão na missa. E os padres ficam do nosso lado na luta com os brancos maus. O que desejo dizer é que na Vila de Passo Fundo está um padre missionário que quer fazer catequese em seu toldo. Isto quer dizer que ele deseja sua autorização para visitar o seu toldo e ensinar a religião católica aos Kaingang. O padre Antônio Penteado quer cristianizar os índios e ensinar a civilização dos brancos para os Kaingang.
Nonoai sorriu surpreendido. Não esperava nada relacionado a crenças e religião. Então era este o assunto secreto sobre o qual Condá queria lhe falar?
— Eu já ouvi falar neste padre. Alguns Kaingang têm ido falar com ele na capela de Passo Fundo. Alguns até estão aprendendo as coisas da religião dos brancos com ele.
Condá confirmou. E prosseguiu:
— Sim, o padre Penteado já me disse que tem recebido muitos índios na capela curiosos com a Igreja do povo fóg. Os brancos dão muita importância para a religião católica. Os índios batizados recebem mais atenção e mais respeito dos brancos e das autoridades. Eu sei que é assim porque sou cristão batizado. Muitos brancos tratam os índios como bugres selvagens, mas os batizados são tratados como cristãos. E isto é bom para proteger os índios de muitos de seus inimigos. O padre Penteado quer catequisar e batizar o nosso povo. Estive com ele alguns dias atrás. Eu sigo as cerimonias da Igreja. Muitas são bonitas e fazem bem para a alma. E é verdade que o padre Penteado tem recebido muitos índios na capela de Passo Fundo e muitos deles querem saber mais sobre a Igreja.
Nonoai, contudo, não sabia se seu kuiã iria aceitar de bom grado um padre visitando a aldeia. Os padres eram vistos com desconfiança pelos pajés. Por isto perguntou a Condá:
— Será que é bom que um missionário dos brancos venha ensinar religião na aldeia? Nossos anciãos contam histórias terríveis de padres e missionários. Índios Guaranis e Tapes que fugiram dos brancos e vieram viver no mato com nosso povo contavam histórias tristes de missões, na região das coxilhas. Muitas histórias falam de guerras e de milhares de índios capturados e escravizados, de muitas lutas e muitas mortes. Por isto acho que nosso kuiã pode ficar apreensivo se ouvir falar em um missionário aqui no toldo.
Condá teve confirmada sua preocupação com o assunto e da necessidade de lidar com ele tomando muito cuidado.
— Cacique Nonoai, reconheço que é verdade, sim, os índios Guarani sofreram com as missões religiosas no passado. Mas não por culpa dos padres, que lutaram e morreram ao lado deles. Infelizmente nem todos os brancos são amigos dos índios, como bem sabe. Por felicidade, nossos antepassados sempre agiram sabiamente e protegeram os Kaingang. Talvez parte de nossa sorte é que nós sempre vivemos escondidos nas matas de pinhão e não, como eles, nos campos e coxilhas abertas mais ao Sul. E no passado não aceitamos bem os missionários. Aliás, não aceitamos bem os brancos invasores de nossas terras. Só que hoje tudo mudou e temos que agir diferente. Como disse, na guerra dos índios Guarani a culpa não foi dos padres missionários, que queriam o bem dos índios. Eu mesmo vi as ruínas de casas de pedra em que os índios moravam. Eram casas boas e pareciam com as casas em que os bancos moram em São Paulo. Os inimigos dos Guarani foram os conquistadores e os soldados de Portugal e Espanha. Os estrangeiros é que foram cruéis para com os índios. Eu ouvi muitas histórias tristes quando estive na região das Missões. Lá vivem alguns grupos de Kaingang. Alguns que fugiram dos entreveros de Guarapuava e outros mais antigos. Eles se relacionam bem com os Guarani. Pelo que ouvi de alguns que falam nossa língua, filhos e netos dos que escaparam dos massacres e que ainda permanecem por lá, os padres foram expulsos por ficarem ao lado dos índios. Quando eu era criança foi quando os brancos chegaram aos campos de Guarapuava e com eles veio o padre Chagas. O padre me ensinou a língua dos brancos, me ensinou a ler e escrever e, também, me ensinou muito sobre a vida e as coisas dos brancos. O padre Chagas ensinava a religião e batizou muitos índios. Depois que um índio recebia o batismo era tratado igual ao branco e era protegido como cristão. Muitas vezes os padres ajudavam os índios a fugir do ataque dos brancos. Os padres escondiam os índios nas igrejas. Nas disputas por terras, quase sempre ficaram do nosso lado. Os padres têm muito saber e são muito poderosos, principalmente os que têm autoridade do governo, e são respeitados pelos fóg. Por isto sou favorável ao batismo dos índios na Igreja. Eles falam que vamos poder ir para o céu junto com eles depois da morte, que no céu alma não tem cor. Os padres dizem que no mundo dos mortos não tem diferença do índio para o branco. Por isto, em meu toldo todos são batizados. As crianças são batizadas ainda no colo das mães. E recebem um nome cristão para usar na sociedade dos brancos. Eles também têm um nome Kaingang, mas os nomes em nossa língua são difíceis de falar para os brancos.
Nonoai ainda não sabia bem o que pensar. Certamente, ele estava informado de que muitos índios iam visitar o padre em sua capela em Passo Fundo. E contou a Condá que havia conversado com muitos de seus índios para saber mais sobre a igreja dos brancos.
— Condá, um cacique precisa saber tudo sobre seu povo. Por isto tenho a contar que já conversei com alguns dos nossos guerreiros que foram batizados. Eles me falam que o padre de Passo Fundo tem sido amigo dos índios e convence muitos dos membros da tribo explicando o que o batismo significava. Meus guerreiros dizem que o padre conta uma história de que existe um grande campo que tem tudo para os espíritos dos mortos viverem felizes. Que é tão grande que tem lugar para todos. O padre fala que aquele grande cacique do paraíso que morreu na cruz veio visitar o povo da terra para ensinar como fazer uma marca no espírito dos batizados para poderem entrar naquele campo do céu quando morrerem. Quando o espírito tem a marca do batismo, que eu acho que é como as marcas que fazemos no nosso corpo com listas e com círculos para sabermos quem é Kamé e quem é Kayru, eles são reconhecidos no mundo dos espíritos e podem entrar no paraíso que existe no céu. Às vezes eu olho para o céu e procuro ver onde fica este paraíso, mas acho que só um espírito que tenha asas fen-fer como o gavião jogjóg vai poder chegar perto. Mas, sabe, Condá, eu gosto de pensar que os batizados de todas as tribos vão viver juntos no paraíso. O padre diz aos nossos índios que vão visitar a capela que no céu vamos ter que viver juntos, tanto os índios como os fóg, e, como disse vosmecê, no céu, todos são iguais porque a alma não tem cor. Os meus guerreiros disseram que o padre falou que o grande cacique do céu não deixa uns fazerem guerra com os outros no paraíso. Assim, acho que devíamos aprender a nos dar bem aqui na Terra, porque do outro lado da vida vamos ter que nos dar bem, gostemos ou não. E acho um céu assim muito auspicioso. É o que eu penso.
Condá sentiu que Nonoai estava tomado de enlevo ao falar de um céu em que os Kaingang seriam iguais a todos. A reputação de Nonoai era de um chefe sábio das coisas da terra, mas agora ele lhe parecia igualmente versado em muitas coisas do mundo das almas e dos espíritos.
— Nonoai, estou muito contente de ver que pensamos da mesma maneira em todo este assunto de religião e de amizade e relacionamento com os brancos. Mas queria saber se posso dizer ao padre Penteado que ele será bem recebido aqui para fazer sua catequese e pregação.
Nonoai foi incisivo:
— Cacique Condá, pois diga a ele que vamos recebê-lo com boa vontade. Se ele vier em paz será bem acolhido. Mas diga a ele que venha falar de um Deus que fique do lado dos índios. Nós precisamos de um Deus que seja amigo.
Condá sorriu. Cada vez admirava mais daquele cacique que todos sabiam ser altivo e corajoso, mas mostrava compreender o momento e sabia lidar com ele. E tinha humildade para aceitar a ajuda dele, um cacique Kaingang como ele, mas que vinha de outro ramo da tribo. Condá considerou que a corajosa humildade de Nonoai não o fazia diminuir-se, mas, ao contrário, o engrandecia ainda mais diante de seu povo. E ficou convencido de que Nonoai era, de fato, um cacique providencial, que era o cacique certo no lugar certo, no momento certo. Com certeza, Nonoai deixaria um legado importante para seu povo.
Condá, então, voltou a tocar no assunto do aldeamento. Precisavam aprofundar o mútuo entendimento sobre o que seria desejável para seu povo e sobre o que, exatamente, deveriam reivindicar.
— Nonoai, acho que sua disposição para negociar é muito auspiciosa, mas penso que devemos nos preparar bem. Precisamos saber o que queremos para alcançarmos um bom resultado. Precisamos ter um plano pronto. E é importante saber quantos somos e conhecer nossas forças para saber como agir. Ora vamos precisar ser como a onça Mig, quesabe avançar em silêncio e atacar usando os dentes e as garras, ora vamos precisar ser como a anta, que quando atacada escapa para um rio e foge nadando. A onça é melhor caçadora do que a anta, mas a anta saber fugir melhor do que a onça. A onça é mais rápida e mais forte, mas a anta é mais inteligente e tem memória para lembrar os melhores caminhos para fugir.
Nonoai concordou:
— Sim, Condá. Eu penso do mesmo modo.
Condá prosseguiu:
— Fico contente em saber. Então, como já falei, o governo deseja que os índios sejam instalados num aldeamento. Precisamos saber o que vamos pedir aos brancos em troca de levar a tribo para o aldeamento e formalizar um acordo de paz. O principal ponto da negociação, penso eu, é sobre onde vai ser e qual o tamanho do território que a tribo precisa. Eu quero dizer ao cacique que meu compromisso será o de fazer de sua negociação a minha negociação. Eu me incluo como seu emissário. Então o ponto inicial é garantir um bom lugar para nosso aldeamento. Acho que temos ainda boas condições para escolher um lugar ideal. Vosmecê conhece bem estas terras e sabe das necessidades de sua tribo. De minha parte, acredito que precisamos escolher uma área que tenha clareiras e matas, que tenha muito pinhão, que tenha um bom rio por perto, com muito peixe, e campos e matas com muita caça. E que seja localizado em lugar que tenha bons refúgios, em caso de ataque, e seja fácil de defender contra invasores.
— Sim, sim – concordou Nonoai. – Tudo isto é importante. O mais triste é que sempre tivemos tudo isto e sempre achamos que teríamos estas matas para sempre. Esquecemos que quando a onça pintada vem com filhotes para o rio os veados precisam fugir. E estamos sendo encurralados como veados. Nunca pensamos que um dia iríamos perder uma boa parte de nossas matas. Então precisamos esquecer nossas querelas para podermos lutar. É isto ou veremos os brancos tomarem tudo de nós.
Condá sorriu contrafeito. De fato, era verdade, mas o que mais podiam fazer? Pegou um graveto e riscou um quadrado no chão enquanto explicava.
— Uma coisa que aprendi com os brancos é que aquilo que não podemos defender não é nosso. Até as aves se bicam para defender seus ninhos. Deste modo nossa terra só será nossa se formos capazes de defendê-la. Aí faço a pergunta: “Estamos em condições de defender a nossa terra?”. E minha resposta é “não”. Não estamos. Temos guerreiros e temos coragem, mas não estamos em condições de defender toda a terra que sempre pensamos que fosse nossa. Por outro lado, sim, acredito que estamos em condições de lutar para defender um pedaço de nossa terra. Penso que, se não podemos defender tudo, precisamos saber o que vale a pena defender. Tem que ser um espaço escolhido. Claro, o governo tem força para nos expulsar até de um espaço pequeno, mas não vai lutar se o custo for muito alto. Por isto, escolher bem o lugar do aldeamento é importante. Se tivermos a mata para nos esconder, nem todos os pedestres de Cruz Alta e Passo Fundo conseguiriam nos enfrentar e expulsar. E isto significa que o governo teria que usar o Exército. Eu sei, pela minha vivência com os brancos, que chamar o Exército é coisa que depende de aprovação do imperador. Acho que nem o governo da Província de São Pedro nem o de São Paulo gostariam de chegar a este ponto. Muitos do povo branco seriam contra. O que teriam a ganhar? Tirando os fazendeiros diretamente interessados em roubar nossas terras, os governantes vão querer evitar um conflito. Existe uma imensidão de terra sem dono e ainda vazia de colonos. Além disso, ao que diz minha experiência, o governo dos brancos só ataca índios fracos. Se precisar enfrentar índios guerreiros, prefere a paz. Tudo isto significa que podemos conseguir uma boa negociação. Em princípio, sim, concordo que precisamos ter dignidade e não aceitar qualquer coisa. Mas precisamos ser realistas, porque dignidade não enche barriga. Então é melhor não começarmos com ameaças. Pelo que tenho podido observar, no momento os brancos estão ocupados fazendo muitas obras e reconstruindo a província que ficou arrasada durante a Guerra dos Farrapos. E, portanto, só farão guerra contra os Kaingang se os Kaingang atacarem primeiro. E, sabendo que não temos como ganhar uma guerra, atacar os brancos primeiro seria muito tolo.
Nonoai estava ouvindo tudo em silêncio. Condá, depois de fazer mais um risco no chão, continuou:
— Eu sei, grande cacique, que existe mais estupidez no mundo do que água no mar, mas espero que nossos guerreiros não sejam tão tolos a ponto de provocar os brancos para começar uma guerra. Espero que ajam com um mínimo de sensatez. Por isto, precisamos decidir o que queremos e ir negociar.
— Sim, – concordou Nonoai. – Vamos negociar. O lado triste é que vamos ter que negociar forçados. Enfim, já concordamos que ir para a guerra seria tolo. Seríamos derrotados e aniquilados. De fato, não temos escolha e precisamos negociar. Mas, Condá, o que é mesmo que vamos negociar? Vamos negociar abandonar nossas matas? Vamos negociar para ficarmos aprisionados em um aldeamento? E o que vai acontecer com o restante das grandes matas, dos campos e coxilhas? Serão divididas entre os brancos, entre os conquistadores? Pressinto que estamos no fim da era das grandes matas livres. Das matas vazias de homens, mas cheias de animais e de bons espíritos. É uma perspectiva muito triste e muito dura. Desde guri me acostumei com a liberdade dos campos e matas. Eu vivia feliz correndo pelas campinas e achava que seria assim para sempre. E quando nossos anciãos falavam do perigo que vinha com os estrangeiros eu ria e fazia troça deles. Às vezes contavam histórias de índios massacrados pelos sodados nas Missões dos padres jesuítas e nos alertavam para o perigo de irmos muito ao Sul das matas de pinheiros, onde não seríamos protegidos pelo arvoredo. Eles diziam que lá, nos campos das Missões, estava o grande perigo. Só que o perigo veio viajando até chegar aqui. Não demorou e o perigo dos brancos foi chegando cada vez mais perto. E eu cresci sabendo das guerras com os brancos. Quando deixei de ser um piá, livre e solto, tive que aprender as lições da vida por mim mesmo. O conselho dos anciãos estava tão antigo que não ajudava mais. Eles, assim como os kuiã, também estavam assustados. Viam os brancos chegar cada vez mais perto, mas não sabiam o que fazer. Uns queriam luta. Outros aconselhavam fugir. Mas fugir para onde? Os brancos estão em todo o lugar. E é por isso que és tão precioso para nosso povo. Vosmecê sabe o que precisamos fazer e tem a sabedoria que nossos anciãos não têm mais e tem grande conhecimento dos fóg. Vosmecê vive com eles desde pequeno, por isso sabe seu lado bom e seu lado podre. Sabe como pensam e como agem, sabe qual a força que eles têm, quais os seus costumes, quais os seus desejos e cobiças. O mundo dos brancos é diferente do nosso. Por isso preciso de seus conselhos.
Condá se sentiu lisonjeado com as palavras de Nonoai. Era um sentimento muito humano e natural. Mas não se iludia. Era homem acostumado a lidar com a realidade. Não tinha ilusões sobre a luta que Nonoai, ele e os Kaingang teriam pela frente. Por isso sentia algum alívio pela postura cautelosa do grande cacique. Temia que Nonoai se mostrasse intransigente, que tivesse o espírito belicoso, que sempre fora uma característica dos Kaingang, mas que agora, ante a nova realidade, seria letal para a tribo. Ainda por ser realista, Condá também sabia que muitos dos caciques menores queriam a confrontação. E, diante da atitude de moderação do cacique, muitos iriam rebelar-se e, quase certamente, partiriam para a ofensiva, abrindo hostilidades contra os brancos por conta própria.
Temeroso de que uma grande demora em tomar posição facilitasse a articulação dos rebeldes, Condá sugeriu um curso de ação:
— Cacique Nonoai, em minha opinião precisamos agir rápido e aproveitar enquanto temos uma situação favorável. Agir rápido vai permitir que tenhamos a iniciativa. Podemos ir para a negociação já tendo escolhido uma área ideal para nossas necessidades. Pode ser que nos ofereçam duas ou três áreas menores, como temos na Província de São Paulo, mas, de minha parte, preferiria que ficássemos em uma área maior e unidos. Temos que ficar unidos para sermos temidos. Infelizmente, somos forçados a proceder assim. E, como eu disse, brigar com os novos tempos é como querer segurar o sol. Por outro lado, não aproveitar as possibilidades que temos de reforçar a nossa posição pode nos deixar ainda mais vulneráveis. – E continuou: – Acho que o Pai-Bang podia chamar os seus rekakê e os seus kuiã para que ajudem a escolher um lugar que atenda a todos. Um lugar que seja adequado para nos fixarmos e bom também para criar animais, plantar e colher roças de gãr pẽ, o milho, o feijão e as morangas.
Nonoai concordava em princípio, mas os Kaingang eram predominantemente coletores, caçadores e pescadores, e não agricultores, ainda que as mulheres plantassem roças como atividade suplementar.
— Não sei se nossos guerreiros vão aceitar bem a ideia de escolher um lugar bom para plantação. Os Kaingang gostam de ir colher pinhão, de caçar e pescar e de ir buscar mel e trazer frutas.
Condá antevia as mesmas dificuldades, mas explicou as mudanças que, acreditava, precisavam ser introduzidas no estilo de vida da tribo:
— Pois é, cacique Nonoai. Eu sei que os guerreiros preferem ficar no meio da sombra da mata e não gostam do sol no lombo quando precisam plantar. Sei que cuidar de plantação é cansativo. Eu conheço o trabalho de plantação dos brancos e os Kaingang também têm que plantar nos nossos aldeamentos do outro lado do Rio Uruguai. Só que não adianta reclamar. Se quisermos comida vamos ter que nos acostumar a trabalhar na plantação e na criação. Se vamos ter que viver em um território fixo, igual aos brancos, ou aprendemos a plantar e a criar porcos e galinhas ou vamos ter problema de falta de comida. A comida que a mata nos dá não vai ser suficiente para todos. O que sei é que sem lavoura e sem criação vamos correr o risco de passar fome. A consequência vai ser que, quando faltar comida, será impossível controlar nossos guerreiros. Vamos ter mais ataques aos colonos brancos e aos tropeiros. E vamos voltar a ter guerra e sofrimento. Temos que pensar antes nas consequências de um aldeamento. Sei disso porque já passamos por situações de fome nos aldeamentos de Guarapuava e dos Campos de Palmas. O que é certo é que vamos ser obrigados a mudar o nosso costume de mudar de um lugar para outro quando os alimentos escasseiam. Vamos ter que aprender a plantar para ter comida todo o dia. Morando no aldeamento não vamos poder depender só da caça ou pesca para comer quando termina a safra do pinhão. Uma coisa boa que eu aprendi com os brancos e que todos nós, índios, podemos aprender é que as ferramentas fazem nossos braços mais fortes. Com boas ferramentas cada um de nós vale por dois, por três, por muitos. Se vamos ter que abandonar o jeito de vida a que estamos acostumados e se não vamos mais poder mudar o lugar do acampamento quando a comida de um sítio ficar escassa, vamos ter que depender da lavoura e da plantação para conseguir comida para todos. Pode ter índio que não goste, mas se vamos ter que viver do jeito dos brancos teremos que plantar como os brancos plantam. A verdade, cacique, é que hoje plantamos pouco e só fazemos uns roçados para complementar nossa comida, mas teremos que produzir mais para nos alimentar. Este é um problema que estamos enfrentando em nossos acampamentos em Guarapuava e Palmas. Então é muito importante negociarmos com o governo para receber terra boa para plantar, muitas ferramentas para a lavoura e boas sementes para semear.
Nonoai estava silencioso. O semblante crispado mostrava a atenção com que ouvia Condá.
— Condá, meu irmão, são sábias suas observações. Tudo faz muito sentido. Mas quem vai nos ensinar a usar as ferramentas?
— Boa pergunta, cacique. Se conseguirmos as ferramentas, e acredito que vamos receber uma boa quantidade, eu mesmo posso ensinar o que sei, mas não tenho conhecimento para o bom uso de muitas delas. Então vou pedir ao alferes Rocha Loures para ele ensinar ou indicar alguém que venha ensinar. Ele conhece bem as ferramentas dos brancos.
Nonoai gostou da resposta. Teria que convencer seus guerreiros a aprender o uso das pás, enxadas, picaretas e plantadeiras, mas não seria o fim do mundo.
— Amigo Condá, de minha parte estou de acordo. Acho que estamos acertados.
— Muito bem. Então vou encaminhar o assunto como combinamos. Vou transmitir sua posição ao alferes e ao comissário de Passo Fundo. Eles vão levar o que falamos ao presidente da província, em Porto Alegre. E, enquanto quiser, vou estar ao seu lado.
No dia seguinte, 13 de junho de 1845, sexta-feira, ainda madrugada, Condá se despediu de Nonoai com um abraço e, mal a aurora rompia, o capitão e cacique e seu grupo já se punham no caminho de volta. Nonoai mandou um de seus índios conduzi-los por uma trilha que poucos conheciam, mas que tinha menos obstáculos e facilitava a caminhada. Por aquele caminho, garantia o guia, chegariam a Passo Fundo após três dias, mesmo com o tempo frio e chuvoso. Até Cristóvão, o soldado que conduzira o grupo na viagem de ida e tinha bom conhecimento da área, ficou surpreso com o caminho que tomaram. A senda estava inteiramente dissimulada e era preciso reconhecer certos sinais deixados na mata para saber que rumo seguir.
Na segunda-feira, ainda antes do meio-dia, como prometera o guia indígena, o grupo estava nas cercanias de Passo Fundo. O índio que os levara até ali apontou para a povoação de Passo Fundo, assim que viram as colunas de fumaça saindo das chaminés, um sinal de que o almoço estava sendo preparado. Acenou para despedir-se de Condá e dos índios da comitiva, virou e sumiu mata adentro. Condá voltou-se e ainda tentou chamá-lo para agradecer, mas não o viu mais. Assim como não via mais o caminho que haviam trilhado. O grupo seguiu para a vila e logo Condá batia à porta de Fagundes dos Reis. Uma das mucamas atendeu e, ao se deparar com o cacique Condá, correu para chamar o comissário, que se apressou para receber a comitiva e convidá-la a entrar.
— Cacique Condá, que bons ventos o trazem! Sejam bem-vindos, amigos, vamos entrando e sintam-se em casa. Quais são as notícias? Como foi a jornada?
Condá, apreciando o calor da casa, foi tirando o poncho, enquanto perguntava sobre o alferes Rocha Loures. O comissário disse que ele estava na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, com os trabalhadores da estrada e o pessoal de sua comitiva, mas que mandaria chamá-lo imediatamente. Foi o que fez, mandando um escravo que trabalhava na casa correr para levar a informação de que o cacique Condá já estava de volta. Enquanto esperavam o alferes, Condá adiantou ao comissário que tudo tinha corrido bem e fez um resumo dos entendimentos com o cacique, prometendo que, após um banho para tirar o suor que ensopava seu corpo, faria um relatório detalhado da viagem.
O alferes não estava na sede da fazenda; ele tinha saído com o irmão para ver áreas próprias para instalar invernadas. Quando voltou, a noite já vinha chegando. Por isso, foi sob a luz dos lampiões que Rocha Loures e seu irmão chegaram na casa do comissário. Enquanto isso, a notícia do retorno de Condá percorria a comunidade como um corisco trançando no céu. O padre Penteado, surpreendido com a notícia quando iniciava o jantar, tinha chegado ainda com o guardanapo preso no colar clerical. Outros membros da comunidade também acorreram. Com a plateia pronta para ouvir o cacique, na sala repleta, Condá relatou como havia sido a viagem e como tinha sido calorosa a acolhida que recebeu de Nonoai.
— Amigos, queria começar dizendo que o cacique Nonoai me recebeu de braços abertos. Ele já esperava que eu fosse procurá-lo. O cacique ouviu tudo o que eu tinha ido dizer e está disposto a ouvir o que o governo tem a propor. Ele irá receber o alferes Rocha Loures e o padre Penteado e aceita vir a Passo Fundo conferenciar com o comissário Fagundes dos Reis quando tivermos uma proposta de aldeamento formada. Nonoai é um cacique inteligente, deseja a paz e é bem-intencionado. Ele vai apresentar suas reinvindicações e, assim que receber uma proposta, vai discutir seus termos com seus caciques auxiliares e responderá o mais rápido possível. Por ora é o que posso dizer. Daqui para a frente tudo depende do que o governo estará disposto a oferecer e de como o cacique Nonoai e os Kaingang vão ser tratados. O mais importante é que abrimos um caminho para futuros entendimentos e demos um primeiro passo auspicioso. O que asseverei ao cacique Nonoai é que o governo da província está desejoso da pacificação dos Kaingang e aberto a uma negociação justa e cristã.
A plateia, que àquela altura já reunia duas dezenas de pessoas na porta do escritório do comissário Fagundes dos Reis, aplaudiu para mostrar seu contentamento. Fagundes dos Reis, feliz com o sucesso daquela missão precursora e para comemorar o bom resultado relatado por Condá, chamou as mucamas e mandou distribuir generosamente sua famosa caninha do Alto da Serra. Não demorou para a bebida fazer efeito e logo todos celebravam barulhentamente a nova era de prosperidade que, tinham como certo, viria com o apaziguamento dos índios e com a abertura do novo Caminho do Goio-En.
A terça-feira, 17 de junho de 1845, começou cedo. Condá madrugou para assistir à missa que o padre Antônio Penteado rezava na Capela de Nossa Senhora Aparecida. Durante a homilia, o padre falou ao pequeno grupo de fiéis presentes e, vendo Condá, conclamou sua congregação, formada naquela manhã por brancos e índios, a se unir pela paz. Justificou sua exortação citando as palavras do padre Vieira: “Sempre se deve antes escolher paz do que guerra, principalmente quando na guerra é tão certa a ruína”. Terminada a cerimônia, Condá foi visitar a sacristia. O padre Penteado desvestia os paramentos litúrgicos.
— Com sua licença, padre.
O padre Penteado voltou-se para a porta, viu o Cacique e, imediatamente, o convidou para entrar, mostrando alegria pela visita inesperada:
— Seja bem-vindo, Condá. Que bela visita logo cedo. Pode entrar que a casa é sua.
O cacique entrou, enquanto afastava o barbicacho e tirava o chapéu crioulo que usava para cavalgar e que era enfeitado com uma pena de seu cocar.
— Sua bênção, reverendo padre.
O padre Penteado respondeu de pronto:
— Que Deus o abençoe, cacique. Que bons augúrios o trazem?
Condá foi explicando:
— Fiquei feliz em vê-lo ontem na casa do comissário, mas não tive como lhe dar um informe mais completo sobre minha visita ao Pai-Bang Nonoai. Queria fazer o relato do que ouvi dele o mais rapidamente possível.
O padre Penteado indicou uma cadeira ao cacique e confirmou:
— Terei o maior prazer em ouvi-lo. E sobre ontem, claro, eu entendi que ali, na frente de toda aquela gente curiosa, não era possível uma conversa mais aprofundada. Mas me alegrou muito saber de sua volta.
Condá se sentou na cadeira indicada pelo padre, que era a mesma que usava em confissões que ouvia na sacristia, enquanto o padre afastava o anteparo do genuflexório e se acomodava no banquinho que o complementava.
— O que devo dizer é que tenho a clara certeza de que as luzes do cristianismo podem ajudar os Kaingang a entender melhor o mundo dos brancos e facilitar para que convivam pacificamente com eles. E abri meu coração para o cacique Nonoai e revelei a ele meu sentimento de que acredito que será bom para os Kaingang ouvir sua mensagem e sua pregação cristã. Nonoai tem o sincero desejo de fazer o melhor para o povo Kaingang e compartilha de minha visão de que aquele mundo em que os Kaingang mandavam sozinhos nas matas não voltará mais. Daí que precisamos aceitar com boa vontade o que Deus nos reservou e seguir em frente. Isto quer dizer que temos que nos entender com os brancos e aprender o que têm de bom a ensinar. E eu dei a ele meu testemunho, como cristão batizado, de que a igreja cristã é o lado bom dos brancos. Eu expliquei que o senhor deseja ensinar aos índios não só a religião, mas também a civilização e os costumes dos brancos. E ele disse que deseja conhecer o Deus bondoso que criou os homens e o mundo em que vivemos. Então ele me deu sua promessa de que vai recebê-lo em seu toldo. Também me garantiu que vai facilitar seu contato com seus índios e com seus rekakê. Porém, ele colocou uma condição. Nonoai tem muita preocupação em não piorar o desgosto que muitos índios têm de precisar aprender a lidar com os brancos. Por isso, a única coisa que ele pediu é que sua mensagem seja mesmo baseada nas boas novas do Evangelho, que foi como eu disse que seria. Em outras palavras, ele me pediu que sua pregação fale deste Deus que é bondoso e é amigo dos índios.
O padre sorriu ao ouvir o pedido de Nonoai transmitido por Condá:
— Sim, com toda certeza vou falar do Deus que é bondade e amor! Meu querido cacique, acho que estavas inspirado pelo Espírito Santo. E sabe que, como cristão, Deus é amigo dos índios. Aliás, mais do que amigo. Ele é pai amoroso. Sabe ainda que minha mensagem é que Jesus de Nazaré, o filho de Deus vivo, não distingue ninguém pela cor da pele, mas, sim, pela boa vontade que existe em seu coração. Todos os homens são filhos de Deus. Os brancos, os índios, os negros, enfim, todos. E a todos Ele estende sua graça. Mais do que isto, Ele quer, como diz o Evangelho, que todos os seus filhos venham viver em sua morada. E saiba que fiquei muito contente com a possibilidade de ir conhecer o Nonoai e poder cumprir minha missão junto aos Kaingang. Agora é arregaçar as mangas e ir ao trabalho na messe do senhor. Vou apressar meus preparativos. A propósito, antevendo o sucesso de sua visita e a boa acolhida do cacique Nonoai, tomei a iniciativa de escrever uma carta ao presidente da província, pedindo seu apoio para minha missão. E penso em levá-la agora mesmo ao escritório do comissário, que prometeu encaminhá-la à capital.
Levantaram-se e Condá ofereceu-se para ir junto:
— Que bom. Acho, de verdade, que se o governo mandar ajuda sua missão vai ficar ainda mais fácil. Posso acompanhá-lo na visita ao comissário, reverendo?
O padre respondeu concordando:
— Certamente, meu caro amigo. Esperava mesmo contar com sua companhia. Se me der alguns minutos, vou guardar meus paramentos na prateleira e já seguimos para lá.
Dito e feito. Rapidamente, o padre Penteado dobrou e guardou os paramentos litúrgicos que havia usado na missa e, da porta da sacristia mesmo, deu uma última olhada na capela para ver se estava tudo em ordem. Em seguida, apanhou a velha pasta de documentos onde guardava o breviário, conferiu se ali levava a carta endereçada ao Conde de Caxias e, acompanhado do cacique Condá, seguiu a pé para o escritório do comissário Joaquim Fagundes dos Reis. O padre e o cacique, ao chegarem, foram efusivamente recebidos:
— Buenos dias, amigos. Vamos entrado. Quem bom vê-los aqui. Vão se abancando que o mate está pronto e a chaleira está chiando.
— Buenos dias. O senhor há de estar de tão bom humor que até está versejando! – Brincou o padre.
— Sim, mas é a alegria de ver os amigos me visitando e ter companhia para o chimarrão. – Respondeu o Comissário, no mesmo tom chistoso.
O padre Penteado ficou imensamente agradado com as boas-vindas do comissário. A perspectiva de as coisas se ajeitarem para ele poder logo iniciar a catequese dos Kaingang o entusiasmava. Já na casa, os visitantes, o padre e o cacique acomodaram-se nas cadeiras com assento e encosto de palha de milho trançada que estavam da sala. As cadeiras rangiam, mas eram robustas e confortáveis.
— O que lhe conto – retomou o padre – é que o cacique Condá me deu o enorme prazer de vir assistir à missa de hoje. Fiquei muito feliz vendo o vivente na nossa capela que ainda está toda enfeitada com as fitas do casamento de sábado. E mais alegre fiquei com a boa notícia de que vou poder levar as luzes da Igreja ao cacique Nonoai e sua tribo.
— Sim, já estou sabendo. E são notícias boas uma barbaridade. – Concordou, enfático, o comissário, esclarecendo: – Ontem, assim que chegou, Condá veio direto me trazer as boas notícias. Graças a Deus, as coisas parecem muito auspiciosas. Parece que tudo está se ajeitando muito bem. Acho que suas orações são poderosas e estão sendo ouvidas pela nossa padroeira, Nossa Senhora Aparecida.
O cacique Condá interveio para comentar:
— De minha parte devo dizer que, sim, minha vida tem sido muito abençoada. Pude sentir, nessa viagem, que a oração a Nossa Senhora Aparecida é muito poderosa. Eu puder ver, a cada dia, que acreditar na providência divina e no poder da oração é ter um anjo da guarda nos ajudando a abrir nosso caminho. A visita a Nonoai foi, mesmo, uma missão com as bênçãos de Deus. Os medos e angústias que eu levava no coração simplesmente desapareceram ao conversar com Nonoai. Fui recebido com carinho e respeito não só pelo grande cacique, como também por todos os Kaingang de seu toldo. Ele é um chefe de enorme sabedoria e sabe tirar maravilhosos ensinamentos da observação da natureza e da meditação sobre as coisas da vida. Comigo, ele foi imensamente generoso. Deixando de lado o orgulho, e até a arrogância de muitos caciques, ele me convidou para ser cacique de seu toldo, ao seu lado. Nunca vi nenhum Pai-Bang agir assim. Por esse motivo, prometi que farei o que estiver ao meu alcance para ajudar os Kaingang a se pacificarem e a se entenderem com os brancos e com o governo da província. Eu me senti tão feliz no toldo vendo as crianças aprendendo a usar as ferramentas, vendo os kuiã prepararem suas medicinas, comendo comidas que minha mãe fazia em Guarapuava que desejei ficar por mais uns dias me alegrando ao lado dele e de meus irmãos de tribo. Para ser sincero, eu bem que preferia ir para o mato caçar e pescar junto com eles. Lá eu poderia esquecer minhas obrigações e ficar livre por uns dias para voltar a ser o guri de meus tempos de criança. Infelizmente, falo com pesar, tive que deixar para outra ocasião. Nonoai quer que eu o ajude nas conversas sobre o aldeamento. Deseja que eu o ajude a convencer os Kaingang a aceitar o aldeamento. Quer que eu fique ao seu lado para a escolha do lugar do aldeamento. Nonoai conhece muitos lugares nestes campos do lado Sul do Rio Uruguai. Sabe de terras que são desabitadas e que são boas para os índios viverem. Por outro lado, tem a aflição de saber que são muitos os brancos que estão vindo para morar nessas regiões ainda desabitadas. Então compreendeu que, se demorar a negociar terras boas, vai perdê-las para os colonos que vêm chegando. Nonoai, sendo chefe de grande astúcia e capaz de enxergar os perigos do futuro, não quer que os Kaingang fiquem sem território para morar e tenham que guerrear o tempo todos para não serem enxotados. Nas conversas ao pé do fogo, o pï de sua palhoça, vendo o crepitar dos galhos de pinheiro, os fag jugryr, que queimam toda a noite, Nonoai também me confidenciou que está preocupado com a pouca vontade que muitos de nossos guerreiros têm de mudar seu tipo de vida. Muitos resmungam e se mostram teimosos e revoltados. Muitos deles não querem cultivar a terra como os colonos brancos fazem. Eu até entendo os homens da tribo. Eles cresceram acostumados a ir para o mato e pegar tudo na natureza. Acham que carpir na roça é trabalho das mulheres. Hoje são elas que plantam os roçados perto dos toldos. São elas que jogam os grãos de milho e as sementes de abóbora no chão, cuidam para as plantas crescerem e depois colhem o milho e as abóboras para fazerem comida. Nos aldeamentos dos Campos de Palmas e Guarapuava este desapego dos homens ao trabalho na terra é um problema para mim e para os outros caciques. Eu falo por experiência própria. Muitos Kaingang vão para os acampamentos esperando que o governo fóg dê tudo de graça. Querem que o governo faça as moradias e doe tudo, roupas, ferramentas e comida. Quando não recebem tudo de graça, muitos Kaingang se aborrecem e preferem voltar para o mato. Isso significa que voltam a invadir roças, roubar plantações e pegar animais dos colonos. O resultado é que os brancos ficam revoltados, vão dar queixa na polícia e exigem que os pedestres saiam para pegar os índios fora da lei. E isso provoca muita confusão. A polícia fica indo aos aldeamentos para achar os culpados, que quase nunca estão lá, mas assustam os índios inocentes, as mulheres e crianças. Tudo isso acaba sendo muito desagradável. Então a mudança para o aldeamento precisa ser feita orientando cada índio sobre como deve se comportar e exigindo que se comprometam a obedecer às regras e leis dos brancos, e, ao mesmo tempo, ensinando os índios, especialmente os mais jovens, como devem plantar e cuidar das roças, como usar as ferramentas para construir as moradias e tudo mais. Na minha opinião, temos que mudar os costumes de nosso povo.
O comissário estava surpreso com o que Condá contava e falou:
— Cacique, eu sabia que os índios Kaingang nunca aceitaram ser escravizados e sempre combateram os bandeirantes que vinham até nossa província para capturá-los, mas que eram tão rebeldes em trabalhar por conta própria nos seus aldeamentos eu não tinha ideia não. Acho que nem para os brancos nem para os índios é um bom costume ficar vadiando sem fazer nada. Então precisamos de sua ajuda para mudar isto, já que tem conhecimento do problema e a experiência de quem já implantou aldeamentos na Província de São Paulo. Acredito, mesmo, que nenhum outro chefe Kaingang tenha sido tão útil para promover a entrada do seu povo no grêmio da sociedade do império. Se vosmecê não conseguir, ninguém vai conseguir.
Neste instante chegava o alferes Rocha Loures. Vinha esbaforido e da porta pediu licença para entrar:
— Buenos dias. Posso me aprochegar?
— Buenos dias. Entre e seja bem-vindo. Venha abancar-se aqui. – Convidou o comissário.
O alferes entrou e tirou o chapéu e o pala, que pendurou cuidadosamente no mancebo de madeira, e preparou-se para os abraços. Todos tinham levantado para receber o alferes Rocha Loures com as mais efusivas honras. Ali ele representava o agente movedor do progresso que todos ansiavam ver instalar-se na região. E Rocha Loures, como educado cavalheiro das campinas, a cada um dos abraços foi respondendo com barulhento quebra-costelas, bem ao estilo tropeiro. Terminados os cumprimentos, e após beber uma jarra inteira de água para mitigar a sede acumulada no galopeio, tomou a palavra:
— Amigos, acabo de voltar da Estrada do Goio-En que estamos construindo. Modéstia à parte, está ficando uma maravilha. Não vou dizer que está pronta para receber os dignitários da corte, pois reconheço que há alguns pedaços ainda precários, que precisam ser melhorados. Mas uma comitiva de mulas pode passar sem susto. O que tenho a dizer é que só cheguei até o trecho do Vale Dourado. Lá me acampei por uns dias porque cada vez que vejo aquele vale me encanto um pouco mais. O lugar é de uma beleza que parece um jardim imperial. Conheço muitas regiões mais impressionantes e mais espetaculares, mas o Vale Dourado é diferente. Ele é como uma linda joia. Parece um quadro de pintura. Olhando de manhã cedito, com a luz da aurora surgindo, parece que uma manta de ouro vai ondulando por cima do arvoredo. E as faíscas de luz se refletem nas encostas, fazendo tudo rebrilhar como em um festival de cores e matizes. Nessa hora de arrebatamento, o vale nos acaricia e faz um sussurro de amor na alma da gente. Que me perdoem os amigos, mas eu me arrepio só de lembrar.
Fazendo uma pausa, o alferes deixou sua imaginação andar pela memória daquelas paisagens que o encantavam. Suspirou e retomou o diálogo:
— Pessoal, desculpe se me deixei levar meio longe demais pelos devaneios, mas um vivente que, como eu, vaga um tanto solitário por aí às vezes termina perdendo o senso. Entretanto, deixando as formosuras do Vale Dourado de lado, meu pessoal da obra está alargando e melhorando os trechos mais difíceis da estrada. Tenho um grupo grande retrabalhando o trecho de descida para o Goio-En, que é o mais acidentado. Porém, desta vez, nem cheguei a ir até lá. O peão mensageiro me encontrou a meio caminho e avisou que Condá estava de volta a Passo Fundo. Recebi a notícia como uma chicotada nas ancas. E pensei que só podia ser coisa boa, porque para notícia ruim não iriam mandar um mensageiro atropelando cobra na estrada. Por isto, foi só o tempo de pular no pingo, fazer-lhe volver a Passo Fundo, meter-lhe o relho e vir no galope.
Ao fim do relato do alferes, o comissário disse:
— Alferes, me alegro que tenha voltado. Saiba que aqui sempre terá boa acolhida. Aqui a casa vai estar sempre de portas abertas.
— Fico muito agradecido. Sei que aqui tenho amigos de confiança e de fé. – Respondeu o alferes.
Tomando a iniciativa, e antes que a conversa descambasse para frivolidades, o padre Antônio Penteado pegou sua velha pasta de couro, aquela onde levava a carta ao presidente da província, e a abriu, desatando os cadarços de tiras de couro. De dentro tirou uma carta envelopada, cruzada por uma fita vermelha. Depois de examiná-la para ver se estava devidamente fechada e lacrada, passou a carta para as mãos do comissário:
— Aqui está a missiva de que lhe falei e que gostaria de encaminhar para o Senhor Presidente da Província.
O comissário pegou a carta e a examinou com olhos de burocrata conhecedor de documentos, epístolas e afins. Apreciou a excelente apresentação, o papel de linho importado, com as dobras impecavelmente vincadas, a fita e o lacre posicionados no canto direito e arrematados com arte. O endereçamento ao presidente da província, “O Exm Sr. Conde de Caxias, Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul”, estava grafado com pena metálica e tinta nanquim, com caligrafia elegantemente rebuscada. Fazia tempo que não via correspondência tão bem-acabada. Apesar de curioso, não tinha como ler o conteúdo. O que fez foi levantar-se e ir até uma mesa no canto, onde deixava a sacola do correio, e nela colocou a carta do padre Penteado.
Depois, enquanto voltava ao seu lugar, assegurou ao padre Penteado:
— Reverendo, pode vosmecê ficar seguro de que vou encaminhar sua correspondência ao Conde de Caxias com o primeiro mensageiro que partir. Aliás, coincidentemente, tenho um correio que deve seguir para a capital já amanhã.
O padre Penteado externava seu contentamento friccionando as mãos.
— Agradeço muito. Coloco minhas melhores expectativas nesta missiva. Estou ansioso para começar. Então, caso nosso presidente me autorizar ao trabalho com os índios, como espero, e contando com o apoio do cacique Condá e com a afirmada boa acolhida do cacique Nonoai, confio poder começar logo a ensinar a doutrina cristã ao povo Kaingang.
O comissário completou:
— Padre Penteado, nossas expectativas são tão grandes como as suas. E penso que todos estamos otimistas com sua missão. Todos desejamos que as luzes do cristianismo iluminem os Kaingang do mesmo modo como tem iluminado o governo do Conde de Caxias e este nosso incipiente núcleo de civilização. Eu, dentro das limitações de meu cargo e dos recursos de que disponho, vou ajudar tanto quanto me seja possível.
O padre agradeceu:
— Fico muito grato. Tenho certeza de que Deus lhe irá ser grato por seus préstimos e por tão generoso gesto de apoio à catequização dos Kaingang.
O comissário respondeu com simplicidade:
— Padre, não faço nada além de minha obrigação, mas permita que eu lembre que estamos todos no mesmo barco. A cada dia os desígnios divinos nos irão trazer novos desafios. Nós e os Kaingang estamos condenados a enfrentar as mesmas borrascas e vendavais que nos reserva São Pedro. Daí que, penso, se nos aliarmos, poderemos superar juntos as atribulações e intempéries que venham a nos acometer. Por fim, passado o mau tempo, veremos juntos o arco-íris colorir o céu que encobre a nós todos.
— Sim. Só posso concordar. E acho muito feliz sua analogia. O arco-íris foi o sinal da aliança que Deus fez com os homens após o dilúvio. Deus colocou nas nuvens o seu esplendoroso arco de cores em um gesto de amor e como símbolo de aliança com todos os homens, tanto os brancos quanto os negros e os índios.
Condá fez questão de concordar com o padre Penteado e explicou:
— Amém, reverendo padre. Para os Kaingang o arco-íris, que chamamos de ta no, é uma pintura feita no céu que traz uma mensagem auspiciosa para o nosso povo. Do mesmo modo como a pintura no corpo dos membros de nossa tribo diz se somos Kamé ou Kayru, e também diz se a pessoa é Pai, Votoro ou Penye e o que ela deve fazer nas rezas, danças e enterros. A pintura do arco-íris no céu diz que os nossos antepassados querem paz e alegria para o povo Kaingang.
— Que bom que os Kaingang veem o arco-íris assim e, do mesmo modo que os cristãos, enxerguem nele uma mensagem divina. Acho que este é um belo sinal de que seu povo está preparado para ser cristão e destinado a aceitar as palavras do Evangelho. – Replicou o padre Penteado.
Era evidente a satisfação com que Condá ouvia as palavras do padre. Mas, antes que pudesse manifestar seu agrado, o comissário interveio na conversa, dirigindo-se ao alferes Rocha Loures:
— Bueno, meu caro alferes, aproveitando a jovialidade que o espírito do arco-íris trouxe para nossa reunião, penso que, com o que tenho visto sobre a abertura da estrada e com as boas notícias que nos trouxe Condá, nosso rincão nunca viveu momentos tão auspiciosos. Mas não podemos achar que a pacificação dos Kaingang vai cair do céu como um presente do arco-íris. Precisamos de coisas palpáveis, de condições objetivas para negociar o aldeamento. Além disto, o padre Penteado necessita de autorização do Conde de Caxias para ir pregar nos toldos Kaingang. De modo que, meu caro alferes, se me permite uma sugestão, o melhor a fazer agora seria vosmecê ir à capital e tratar pessoalmente com o conde. De posse das suas credenciais da Província de São Paulo e com seu trabalho já encaminhado na abertura da estrada, tenho certeza de que nosso presidente vai dar total apoio ao projeto de aldeamento e vai liberar meios e recursos para irmos negociar com os índios. Eu estou ciente, como todos que trabalham no governo, das intenções relativas à cristianização e ao aldeamento dos índios. Vosmecê sabe melhor do que ninguém que o Conde de Caxias tem grande interesse na Estrada do Goio-En e na melhoria da comunicação do Rio Grande do Sul com São Paulo.
O alferes não precisou mais que alguns instantes para ponderar a sugestão do comissário:
— Muito boa ideia. Penso que esta é a melhor maneira de amarrarmos todas as pontas ainda soltas desse projeto. Estou pronto para ir até a capital. Eu até já tinha cogitado ir para Porto Alegre assim que pudesse, mas agora, com seu incentivo e pela conveniência das circunstâncias, me ponho a caminho imediatamente.
— Então está combinado. Neste caso, o melhor a fazer é aproveitar e viajar na companhia de nosso correio que segue amanhã para a capital. O nosso mensageiro é um correio experiente, homem valente e ligeiro, que conhece a província como a palma da mão. Entre Passo Fundo e a capital já foi e voltou uma porção de vezes. O vivente partirá amanhã cedito levando documentos, ofícios e cartas. E vai levar no alforje, inclusive, a missiva de nosso reverendo padre Penteado. – Confirmou o comissário.
Não havia nenhuma dúvida sobre a oportunidade que se oferecia. Precisava ser aproveitada e convertida em resultados. Boas oportunidades, bem o sabia o alferes, são pepitas de destino que surgem no rio da vida. Ou são aproveitadas ou desaparecem em um átimo, escorrendo por entre os seixos como as borbulhas que se formam na água. Estava evidente, tanto para o alferes Rocha Loures quanto para o comissário Fagundes dos Reis, que os ventos das circunstâncias sopravam a favor e aquele era um momento de tomar a iniciativa. Falar pessoalmente com o presidente da província significava aclarar dúvidas e elucidar detalhes. Essa missão dependia de detalhes; portanto, não convinha deixar que os detalhes e as circunstâncias que envolviam a estrada e o necessário acordo com os Kaingang pudessem sair dos trilhos. Ir ao encontro do presidente da província poderia significar, para o alferes, a diferença entre obter êxito na missão ou ver o imponderável fazer estragos na grande empreitada a seu cargo. Ademais, quanto antes os tropeiros começassem a cruzar o Goio-En, antes o caminho se consolidaria.
Do outro lado do Rio Uruguai, a Província de São Paulo, especialmente os Campos de Palmas e Guarapuava, se beneficiariam com um grande impulso em sua economia. Claro, também não eram para ser esquecidos os benefícios que favoreceriam os negócios da família; de forma especial, o desejo de seu irmão de fixar-se com negócios e invernadas na região da nova estrada. A óbvia conclusão é que seguir para Porto Alegre seria unir o útil ao agradável. Depois, havia ainda outros possíveis benefícios. Obter um bom acordo para o aldeamento de Nonoai seria um deles; conseguir uma reserva generosa e, quem sabe, verbas da província para custear todo o processo de aldeamento, aumentando a influência de Condá, tanto entre os Kaingang como entre os brancos. Por fim, já que era preciso ir a Porto Alegre para ligar os pontos de seu projeto, viajar para lá ao lado de um guia que conhecia o caminho prenunciava uma viagem mais segura e menos solitária.
Após considerar todos os lados da questão, sua reposta foi incisiva:
— Excelência, sou um soldado às suas ordens. Fico agradecido por sua oferta que considere aceita. Aproveitando, gostaria de solicitar sua permissão para que meu irmão nos acompanhe na viagem. – E completou o alferes: – Como penso que já saiba, ele tem o desejo de vir fixar-se por estas bandas de cá, no Alto Uruguai. Então conhecer a capital e as autoridades da província só poderia ajudar e ser de muita conveniência
O comissário Fagundes dos Reis cofiou a barba por instantes, refletindo:
— De minha parte, está bem. Não vejo inconveniente. O que posso dizer é que, em geral, o correio é levado por um único cavaleiro, por um único mensageiro. Um correio que procura viajar sem ser notado e que, quando possível, usa caminhos alternativos para escapar de índios hostis e bandoleiros. Porém, devo reconhecer que três cavaleiros, homens de sólido traquejo de cavalos e armas, contam com a vantagem de poder se proteger mutuamente e de escolher rotas mais curtas, e seguir sem a preocupação de precisar se esconder o tempo todo. Juntos, imporiam respeito e atemorizariam eventuais atacantes.
O alferes concordou que, de fato, os três viajando juntos lucrariam em rapidez e segurança. Afinal, como lembrou ele, seu irmão era veterano de andanças nos matos e trilhas. João Cypriano não era soldado, mas atirava tão bem como se o fosse. Havia sobrevivido a não poucos entreveros, sabia como lutar e, caso fosse preciso, sabia se defender. Rocha Loures continuou:
— Então, se me permite o atrevimento, queria pedir uma apresentação protocolar ao Conde de Caxias. Duas linhas que fossem.
O comissário Fagundes dos Reis, cuja disposição era a de preparar um documento apresentando o alferes, aquiesceu com naturalidade:
— Sim, mas é claro, meu caro alferes, uma carta de apresentação pode facilitar seus contatos lá, na capital. Embora acredite que suas credenciais paulistas sejam mais fortes que as minhas. O que minha carta pode fazer é mostrar que estamos alinhados e estamos juntos no esforço de garantir prioridade ao aldeamento de Nonoai e dos Kaingang.
O comissário, na continuidade, dirigiu-se ao padre Penteado e a Condá:
— Senhores, temos muito a fazer e, por ora, acho que estamos combinados. Sem querer apressá-los, recomendo que fiquem à vontade. De minha parte vou me demorar um tanto mais com o alferes Rocha Loures para fazer a carta de apresentação dele ao Conde de Caxias.
O padre Penteado e Condá perceberam que nada mais tinham a fazer ali. Levantaram-se, pediram licença, despediram-se e saíram.
Fagundes dos Reis sentou-se na escrivaninha. Seu intuito era apenas fazer uma carta de apresentação do alferes e seu irmão. Pensou em escrever umas poucas linhas. Fazer uma apresentação pró-forma. Mas mudou de ideia. A viagem do alferes Rocha Loures estava longe de ser um fato corriqueiro e, portanto, merecia ser bem aproveitada. Sendo um funcionário do governo, sua obrigação seria tão somente a de fazer o que mandava o protocolo. Mas sentia ser sua obrigação ir além. Devia informar ao presidente da província que o governo tinha sorte em contar com o alferes Rocha Loures. Suas qualificações, tanto como militar quanto como membro de família pioneira dos Campos de Guarapuava e Palmas, aliadas a seu histórico pessoal de amigos dos índios, o faziam particularmente indicado para liderar uma aproximação com os Kaingang. Em especial, o antigo e fraterno relacionamento do alferes com o cacique Condá, uma amizade que vinha dos idos da infância, era trunfo que o valorizava ainda mais.
Na carta, o comissário fez questão de realçar a importância da família Rocha Loures no desenvolvimento de Guarapuava e Palmas. Destacou o cargo do pai, como autoridade em Guarapuava. Lembrou, na missiva, que Antônio Ferreira da Rocha Loures tinha integrado a Real Expedição da Conquista de Guarapuava, que realizara a abertura do caminho entre Curitiba e os Campos de Guarapuava. Quanto ao filho, o alferes Francisco da Rocha Loures, destacava o trabalho que havia realizado na implantação dos aldeamentos indígenas do outro lado do Rio Uruguai. Igualmente enalteceu o esforço que o alferes estava empenhando na abertura da Estrada de Goio-En e descreveu o quanto o jovem oficial já tinha feito avançar o novo caminho passando pela crista do Vale do Dourado. Aproveitou para dizer das intenções do padre Penteado e dar ciência ao Conde de Caxias da missão recém-realizada por Condá e de suas démarches junto ao cacique Nonoai para pacificar seus índios. Completou oferecendo sua opinião pessoal de que estavam diante de uma oportunidade única para convencerem Nonoai e sua tribo a aceitarem um aldeamento, algo que já tinha sido tentado outras vezes, porém sem sucesso.
A redação da carta tomou mais de uma hora, durante a qual o alferes observou a elegante coreografia das mãos do comissário em sua lide com o papel, a pena e o tinteiro, mas se manteve silencioso e paciente. Concluído o texto, o comissário colocou uma sobrecarta e, nela, o endereçamento: “Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conde de Caxias, MD Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul – Em Mãos”. Em seguida, passou em volta a fita de amarração, acendeu a pequena lamparina e nela derreteu o lacre carmesim que pingou sobre o nó do laço que havia feito na fita vermelha. Sobre o lacre quente, usou seu sinete para fazer a marca que tinha por fim garantir sua inviolabilidade. Após tudo pronto, passou o documento ao alferes.
— Pronto, meu caro alferes. Aqui está a carta de apresentação. Estimo que meu confrade, o Conde de Caxias, a receba com agrado e dê a atenção que vosmecê merece.
O alferes pegou cuidadosamente o envelope lacrado e o colocou na bolsa que levava presa na guaiaca:
— Fico muito grato. Esta carta de apresentação há de fazer toda a diferença.
— Nem tanto, meu caro alferes, nem tanto. Confio que, de algum modo, há de ajudar. Mas muito mais importante que minhas modestas linhas é a apresentação paulista que carrega consigo. A carta de apresentação que me mostrou no dia de sua chegada, da lavra do senhor Manuel da Fonseca de Lima e Silva, além de insigne presidente da província paulista, o que não é pouco, vem a ser cunhado de nosso estimado Conde de Caxias. Sua apresentação, enobrecida com a chancela do barão, faz minha desataviada missiva empalidecer e minguar. De toda forma, de algum adjutório sempre haverá de ser. É no que confio.
O alferes, porém, discordou do tom de modéstia do comissário e enalteceu a apresentação:
— Devo discordar de sua humildeza. A apresentação do presidente paulista muito me honra e, devo supor, me credencia a ser recebido pelo senhor conde. Contudo, a carta me enaltece e, sobretudo, empresta seu valioso testemunho pessoal a meu respeito. Diz quem sou e a que títulos posso reivindicar o apoio do governo para encaminhar as démarches com Nonoai. Assim, estimo que será recebida com atenção e resultará de grande ajuda. Que será útil, disto tenho certeza. – Concluiu o alferes.
— Vamos, então, rogar aos céus para que tal se dê. – Foi a resposta do comissário.
O alferes levantou-se para sair e perguntou:
— A que hora partimos para Porto Alegre?
O comissário foi incisivo:
— O correio deve seguir sem tardança. Assim, o melhor é partir bem cedito, no más, que é bom atravessar o trecho da estrada do Mato Castelhano em plena luz do dia. Acho o pernoite no Campo do Meio mais seguro e, ao que eu saiba, é o procedimento usual de Thiago, o nosso mensageiro.
O alferes, ao despedir-se, fez continência e disse apenas:
— Sou soldado, excelência. De minha parte, estou acostumado a encilhar meu cavalo e sair em missão sem titubeio. Estarei pronto pela madrugada.
O comissário chamou um dos seus assistentes e mandou avisar ao correio que ele teria companhia em sua viagem. Que junto com ele seguiriam o alferes Francisco Ferreira da Rocha Loures e seu irmão, João Cypriano.
E assim, no dia seguinte, ainda antes do romper da aurora, enquanto as últimas estrelas relutavam em ir embora do céu, o grupo pôs-se a caminho. O mensageiro ficava hospedado em um dos quartos de hóspedes da residência oficial do comissário, por isso foi lá que os irmãos Rocha Loures conheceram Thiago Miranda. O correio era neto de portugueses que tinham vindo dos Açores e cuja família se fixou na região da Campanha Gaúcha no século XVIII. O mensageiro era uma figura pitoresca. De média estatura, corpo sólido e compleição robusta, quase troncuda, tinha rosto quadrado, olhos verdes, sobrancelhas espessas, cabelos negros como azeviche, barba bem aparada, dentes brancos e brilhantes, voz poderosa, sorriso fácil e farto. Vestia-se com aprumo, todo de preto, à exceção do lenço vermelho que trazia ao pescoço e da fivela de prata da guaiaca que segurava os dois revólveres e a faca churrasqueira na cintura. Na cabeça, usava um chapéu de aba mole com o barbicacho pendurado.
O homem se movia com agilidade. Parecia ter molas. Para montar, nem se apoiava no estribo: se segurava no pito da sela e jogava as pernas sobre o assento. Cavalgava solto na sela e conduzia o animal com os joelhos, como se estivesse se apresentando num picadeiro. Thiago levava a mala postal num peçuelo de garupa. Às vezes, quando a correspondência era muita, levava o correio numa mula, mas nesta viagem a mula havia ficado em Porto Alegre, para curar-se de uma bicheira no casco. Logo que enveredaram pela estrada revelou-se um proseador de quatro costados. Um contador de “causos”, tanto os que ouvira na sua vida de carteiro e missivista de confiança do governo, que perambulava por toda a província, quanto os que parecia inventar para ocupar o tempo.
Começou contando que tinha nascido numa estância na região de Piratini, bem no Sul da província, perto da fronteira com o Uruguai. Ali sua família aproveitou os tempos em que aquele território era vizinho da ainda Província Cisplatina, sob o domínio temporário do Império Português, para negociar gado e abastecer de carne e couro as forças portuguesas que por ali passavam durante o reboliço. Enquanto o trio viajava através de matas e campinas, Thiago foi contando sua história e proseando no seu jeito de gaúcho de fronteira:
— Sou meio xucro e meio bagual, como se diz pela fronteira. Me criei no campo. Tropeando pelas coxilhas. Ainda piazito trabalhei nas charqueadas, mas a matança dos bois era uma lida ingrata. O matadouro sempre nojento e o chão das estacas cheio de sangue coalhado. A fedentina era medonha e as moscas, que vinham em enxames, eram tão encorpadas que pareciam besouros. Aí, cansado daquela desgraceira toda, dei no pé. Escapei para ser um faz-tudo nas estâncias. E, te digo, tchê, que na minha vida, fazendo as contas, já vivi mais tempo na garupa do cavalo do que no chão de terra firme. Aprendi todas as lidas do campo desde guri. Eu laço, peleio e gineteio. Capo touro, ovelha e cavalo. Marco o gado. Mato carneio qualquer animal. E digo, sem me gabar, que meu churrasco é o mais macanudo dos pampas. – Depois, de arroubo riu gostosamente.
A certa altura o alferes perguntou ao mensageiro Thiago:
— Acho que tu, que tens andado gauderiando por todos os recantos da província, sabe dizer o que de bom e de ruim aconteceu por estas bandas nestes anos todos. Então me diga, como foi a revolta dos farroupilhas por aqui?
Thiago afagou a barba pensando em como responder ao paulista. Aquele alferes bem parecia gente boa, mas, desconfiado com ele só, procurou descobrir se a aparência elegante não encobria um biriva odiento, um daqueles galegos descendentes dos bandeirantes que vinham para carchear o que achassem de valor pelos pagos adentro. Por fim, se convenceu, o alferes e o irmão não tinham cara de porqueiras extraviados sem eira nem beira. Convenceu-se porque, se os Rocha Loures eram amigos do comissário, deviam ser gente boa e ser bem tratados. Assim, resolveu confiar e dizer o que pensava:
— Se me permite, Alferes, vou falar sem peias. A Guerra dos Farrapos demorou demais. Aqui, na querência, sempre tem falta de muita coisa, mas nunca faltou guerra. Ora batalhamos com a castelhanada, ora peleamos contra os caramurus e os legalistas, ora nos atracamos entre nós mesmos. Dá para dizer que, por aqui, tem uma guerra enfileirada na outra. Mal uma acaba e já vem começando outra. Mas estes dez anos de padecimento na província foi de muita tristeza. Pois te digo que vi muita mortandade. Foi uma barbaridade de massacre o que eu vi com estes meus olhos. Foi muita chacina à toa e sem precisão. Muitas vezes vi os urubus dando voltas no céu depois dos combates. Era doído até olhar. O vivente, mesmo com o coração curtido por tanta morte, nunca se acostuma de ver corpos despedaçados. Como mensageiro e correio, indo daqui para ali o tempo inteiro, vi não sei quantos mortos nos campos de batalha. O que dizem é que morreram mais de 4.000.
Thiago adicionou um toque de humor negro:
— Eu não garanto que morreu tudo isto ou se foi até mais. Não fui eu que contei. Mas, beirando uns duzentos, eu mesmo vi. – Fez uma pausa e continuou: – Conheci alguns comandantes dos dois lados da guerra. Eram gente boa, cristã. Mas viravam carniceiros quando se confrontavam uns com os outros. Guerra é coisa do belzebu. O que sei é que quando a guerra foi ficando mais acerbada, lá pelo idos de 36, chamei toda a minha família para Porto Alegre. A cidade ficou do lado dos legalistas. A vida era um pouco melhor lá. Os imperiais sempre dominaram o Rio Guaíba e a Lagoa dos Patos até a barra de Rio Grande. Então os navios vinham do Rio de Janeiro ou de Laguna e abasteciam a capital com o mais necessário. De quando em quando chegava algum navio de carga. Quem morava lá sempre conseguia alguma coisa, ainda que faltasse lenha e tivesse pouca comida. Só que, no resto da província, era muito difícil viver cada dia. Na região de Piratini, onde eu nasci e que foi capital dos Farroupilhas por uns tempos, a situação estava pior. Muitos dos meus amigos que se meteram na refrega combateram e morreram. Foi muito sofrimento por pouco ganho. A Guerra dos Farrapos foi uma luta dos estancieiros, dos charqueadeiros, dos donos de terras. Quanto ao povo mesmo, quase toda a gente foi levada pelo vendaval. O vivente ia levando a vida, cuidava do cavalo, carneava umas ovelhas, se enrabichava com uma prenda cheirosa, e, de repente, se viu no meio do bochicho sem nem saber por quê. Mas, graças a Deus, como diz o ditado, “não tem bem que sempre dure nem mal que não se acabe”. Finalmente a guerra acabou. Em grande parte, tenho que reconhecer, foi um feito do Conde de Caxias, um general dos bons, talhado em ferro, que veio de relho na mão e convenceu os farrapos a baixarem as armas. Depois de nomeado para presidente da província, não tinha mais contemplação. Ele veio disposto a pôr cobro aos renitentes. Sua primeira providência foi mandar debandar as cavalhadas dos farroupilhas. Sem cavalos, iam fazer o quê? Montar nas reses de gado xucro arrebanhadas nas vacarias? De maneira que fez os dois lados se entenderem e se amansarem. O Conde de Caxias foi homem mandado por Deus. Foi uma bênção. Ele é um governante muito justo e respeitado. Não entra em cambalacho nem toma partido em troca de benefícios ou vantagens. É enérgico e atinado. Com mão firme, está botando as coisas para funcionar. Faz pouco meses que ele enfiou as mãos nas obras e fez tantas coisas que já se nota uma baita de uma diferença. Foi só acabarem as confusões e muita gente nova vem chegando. Outro dia passei pela Vila de Rio Pardo, onde tenho uns parentes de minha família que veio lá dos Açores, e vi que as estripulias da revolução ficaram esquecidas. Tem muito alemão indo lá plantar lavoura e começando a criação de aves e porcos. Fiquei espantado. Era muito movimento e animação. Também viajo muito cruzando os Matos Castelhano e Português. Nunca vi tantas tropas e tanto gado. Proseando por aqui e por ali, tirando uns poucos exaltados, a maioria do povo quer paz. E apoia o presidente da província como homem de bem. Eu, de minha parte, fico de seu lado. Tem xiru que quer se meter comigo dizendo que sou legalista. A verdade é que eu sou, mas não desprezo os farroupilhas sinceros. Só que para defender o Conde de Caxias viro bicho. Se tiver que pelear, carrego a garrucha e tasco fogo em qualquer velhaco que fale mal do homem.
O alferes achava graça na conversa do mensageiro, mas suspeitou que a última frase tinha sido dita a sério. Por isso tratou de deixar claro de que lado estava:
— Tenha sossego, seu Thiago, que estamos do teu lado. E pelear contigo, nem pensar. Afora o fato de que somos partidários do Conde de Caxias. E, ademais, tudo o que queremos é fazer a nova estrada. E tem também o interesse do meu irmão, João Cypriano, que quer fazer negócios. Para isso o que precisamos é de paz.
O mensageiro Thiago não tinha pensado em antagonizar seus companheiros de viagem, por isso respondeu tranquilo:
— Sei que os senhores são gente de paz e bem. Foi o que me garantiu o senhor comissário. E quando ele fala, pode confiar no que ele diz.
O alferes quis mudar o assunto da Guerra dos Farrapos. Havia perguntado com uma curiosidade superficial, mas viu que, para Thiago, era um tema espinhoso e controverso. Era difícil sair do tema, que tivera tão grande influência na vida da província, por isso perguntou:
— E agora, mensageiro, sua vida melhorou depois do fim da guerra?
Thiago tangenciou a pergunta e deu de ombros:
— A vida no Rio Grande sempre foi difícil uma barbaridade. Tirante um punhado de estancieiros e charqueadeiros, o resto da gauchada sempre padeceu e ainda padece na apertura. De modos que, como não sou nem estancieiro nem charqueador, minha vida continua no aperto. Mas não me abalo nem rezingo. Quem tem fé não esmorece. Com saúde e hombridade vou campeando pela vida. Sou feliz no casamento e tenho três filhos, que não troco por nada deste mundo. Conhecendo o quão grande é esta província, sei que algum dia vou conseguir um naco de terra para plantar uma lavoura e ter uma criação. Aí vou parar de viajar. Vou fazer como a alemoada lá de São Leopoldo, que gosta de plantio. Este é o sonho de minha patroa, que é alemoa e que não se abala nem com o minuano assoviando nos costados. Por enquanto, vou tocando. Ainda não dei com a sorte. Nem antes, nem durante as refregas farroupilhas, nem agora que as coisas se acalmaram. Então é difícil dizer se estou melhorando de vida. Mas estou vivo, o que já é uma prova da bondade divina. O que me anima é a confiança de que as melhoras hão de vir. Estou muito esperançoso. Como disse, já dá para ver que algumas melhoras estão vindo. O triste é que, por estes pagos, quando uma coisa começa a melhorar a política vem e estraga. Uma coisa que melhorou é que não encontramos mais aqueles bandos de soldados vagando soltos. Tinha muito soldado, dos dois lados, fazendo estafaréu. O que acontece é que, no lugar da soldadesca, agora encontramos pencas de salteadores e bandidos. Índios, tenho visto poucos. Só que não dá para descuidar. Especialmente no Mato Português e na região do Rio das Antas. E depois, de um jeito ou de outro, desde que me conheço por gente, gaúcho pobre vive de dignidade. Todo dia é dia de luta. Tem que trabalhar uma barbaridade. É uma vida sem descanso, tendo que fazer das tripas coração, como se diz lá na fronteira. Ou, como dizia minha vó, o vivente tem que se virar que nem bolacha em boca de velha. Coisa de pirado, né, tchê? Mas estou esfolado de tanto ver sofrimento. Sei bem que a pobreza é a tristeza de ter falta de tudo; de comida, de roupa, de remédio, de um teto para te proteger do frio. Tem uma indiada que nem tem um pelego para botar a cabeça para dormir.
O mensageiro suspirou e fez uma pausa. Depois, sacudiu a tristeza e voltou ao tom alegre:
— Minha prenda, lá em casa, diz que remédio para pobreza é dinheiro. Olha, pois não é que a patroa está certa? Só que nunca achei dinheiro nem em árvore nem em planta. Nem no chão nem em buraco. Um parente meu disse que uma vez acharam uma pataca no bucho de um cabrito. Pois carnearam mais de dúzias de cabritos e nunca acharam outra. Daí que eu digo sempre: “Dinheiro não dá nem em árvore nem em bucho de cabrito!”. E falando nos meus ganhos, eu recebo menos do que eu valho, mas sou mais faceiro do que mereço. Os meus caraminguás são curtos como poncho de pobre. Nunca consegui guardar mais que uns pilas aqui e ali. Isso porque minha patroa controla cada réis que cai na minha mão. E sou de dizer a verdade. Sabe, tchê, a mentira te gasta a cabeça. A mentira é sempre uma boleadeira arrodeando as tuas ideias. Um descuido e tu te esborracha todo. Outra coisa, eu sou de beber pouco. Só que, quando bate o frio brabo do inverno campeiro, aí entorto umas goio-fá, umas graspinhas, para esquentar o bucho. Quer dizer, quando o frio está de matar, aí é questão de vida ou morte, né, tchê? Ou eu mato o frio ou o frio me mata, né, tchê?
Thiago riu de seu próprio chiste. Mas continuou:
— No inverno, quando o minuano açoita no descampado e uiva nas coxilhas, tu tens que ter um remédio para fazer aquecer o coração do vivente. Sabe, tchê, esta vida de chasque levando correio e fazendo zigue-zague pelas matas e coxilhas é dura. Tu não tens tempo para a família nem vê crescer a gurizada. Mas vou vivendo e gostando da vida que Deus me deu. Tenho um ranchinho com uma ramada bem de fronte, e lá moro com a minha prenda, que hoje é a minha patroa, que é doce que nem mel. Ali a vida é vivida a céu aberto, e não no sombreado como aqui, no miolo do matagal.
A conversa o animava e o deixava de bom humor. Continuou:
Minha chinoca se engraçou comigo nem sei por quê. Ela é alemoa, bonita e educada em colégio. Não sei como é que foi se casar com um guasca xucro que nem eu. Ela é um encanto e se perfuma toda para me esperar nas folgas de minhas viagens. Quando chego em casa ela me dá aquele abraço bem chinchado. E com ela tenho três piás, que são danados, barbaridade. Mas a Thereza, minha patroa, não dá folga para a piazada. Ela faz os piás estudarem e pega no pé deles o tempo inteiro. Ela quer que eles deem gente. Quer que aprendam um ofício. E todo dia faz os piás aprenderam música. Essas coisas de alemão. E eu também aprendi um pouco com ela. Os guris já sabem tocar um pouco de acordeona, como eu, e um pouco de violino, como a mãe deles. Também sabem ginetear como gente grande. Tenho orgulho da minha piazada. Numa cancha não tem quem ganhe deles. Tchê, mas vou te contar que meu maior prazer mesmo é fazer churrasco de ovelha. É uma coisa de lamber os beiços. Bah!! Só de pensar já me aperta o estômago e fico louco de fome. Nisso sou caprichado uma barbaridade. Prefiro carnear ovelha gorda, bem fofa, que é para tu ver chover gordura na brasa. O perfume da gordura de ovelha é coisa de louco. O cheiro se espalha por léguas e léguas em volta. Vem guaipeca de tudo que é lado só pelo cheiro. Mas vou confessar a vancês: eu desconfio que a Bíblia mandava fazer sacrifício com ovelha só para o cheiro dar água na boca da indiada das alturas. Pois é verdade, tchê. Churrasco de ovelha é assim, com aquela gordura branca pingando e chamuscando no fogo. Depois escolho bem o carvão. Carne de ovelha tem que demorar no espeto. E já vou falando que churrasqueiro apressado só devia assar linguiça. Mas, como eu dizia, churrasco de ovelha precisa de carvão graúdo, que dê muita brasa e que não se apague quando escorre a gordura. Carne de ovelha exige ser assada despassito, ficar ali, chorando na brasa e ir tostando por fora e ser bem assada por dentro. Leva meio dia no espeto, mas deve ser assada devagarito, no más. E um bom churrasco tem que ter chimarrão e companhia de prosa boa. A cada causo, uma volta do espeto. A cada cuia servida, uma mexidita na brasa. A receita é infalível. E te garanto que não tem majestade imperial neste mundo de Deus que coma melhor do que gaúcho bom de espeto comendo churrasco de ovelha.
Conversando e contando causos, seguiram estrada afora. Nem viram o tempo passar.
A leal e valerosa Porto Alegre
Herrmann Wendroth: Porto Alegre vista do sul, 1852. Aquarela. (domínio público)
O alferes Rocha Loures, seu irmão João Cypriano e o mensageiro Thiago chegaram a Porto Alegre no domingo à tardinha. A encantadora cidade, localizada em meio a um anel de morros graníticos com 730 milhões de anos que emoldura a região de planície onde estava a povoação, havia recebido do Imperador D. Pedro II, em 1841, o título de “Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre”. Tratava-se de retribuição de Sua Majestade ao posicionamento de seus habitantes a favor do império e pelos feitos de seu povo durante a Revolução Farroupilha, resistindo a três dolorosos cercos dos rebeldes. Apesar de, no decreto de outorga do Imperador constar a palavra “Valorosa”, grafada da maneira moderna, o vocábulo foi grafado nos documentos da cidade como “Valerosa”. Esta grafia se devia a um arcaísmo da preferência pessoal do secretário da Câmara, José Joaquim Afonso Alves, que assim prestava uma possível homenagem a Luís Vaz de Camões que, nos Lusíadas, desta forma a escrevia. Ainda que acusassem o secretário Afonso Alves de ser mais realista do que o rei, ele pouco se importava e continuou a usar a palavra “Valerosa” na abertura das atas do Legislativo municipal até deixar o cargo, em 1842.
Thiago indicou aos irmãos Rocha Loures uma pousada de açorianos aparentados seus, onde o alferes, que estava com 37 anos, e João Cypriano, que tinha 33 anos, poderiam ter colchão de crina, travesseiro de pena de ganso e se cobririam com acolchoado de lã penteada. O guia fez questão de apresentar os viajantes aos estalajadeiros e dizer que deviam ser tratados com capricho e rapapé. Eram paulistas ilustres que tinham vindo falar com o Conde de Caxias. Depois de registrados no livro de hóspedes, os irmãos Rocha Loures e o chasque Thiago Miranda despediram-se na frente da pousada. Os Rocha Loures, que já estavam com a cabeça na visita que fariam ao palácio do governo no dia seguinte, foram ver se conseguiam um banho quente. Tinham a opção de um banho de moringa ou, por um preço extra, um banho na velha tina de madeira, com água morna aquecida no caldeirão. Foi o que escolheram. Depois, jantaram um ensopado de peixe à moda açoriana, com arroz e legumes, e tomaram um vinho decente. Enfim, alguns confortos da civilização, para variar.
Na segunda-feira madrugaram. O alferes revisou as credenciais e verificou que estava tudo em ordem. Vestiram sua melhor roupa, encilharam seus cavalos e dirigiram-se ao palácio. Apresentaram-se ao oficial da recepção, na antessala do edifício, que recebeu as cartas de apresentação e as credenciais das mãos do alferes, que pediu uma audiência para ele e o irmão. Imaginavam que seriam recebidos, mas, eventualmente, precisariam esperar dias para serem colocados na agenda do presidente. O oficial da recepção levou os documentos para o interior do palácio. Não demorou e os irmãos viram entrar o tenente João de Souza Fonseca Costa, que se apresentou como o ajudante de ordens do Conde de Caxias. Era um oficial jovem, estatura mediana, cabelos pretos e um vasto bigode, que explicou ter vindo pessoalmente conhecer os irmãos e dizer que o presidente teria imensa satisfação em recebê-los e, mais, que o faria já no dia seguinte. Agendou o retorno ao palácio para terça-feira, no primeiro horário após o almoço. O ajudante de ordens perguntou, ainda, se os irmãos já estavam acomodados para o pernoite. Eles responderam que sim e agradeceram.
Após despedirem-se, os irmãos Rocha Loures decidiram que a melhor forma de ocupar o tempo livre seria dar uma volta para melhor conhecer Porto Alegre, a capital da província. Depararam-se com uma cidade ainda pequena, pouco mais do que uma vila provinciana. Contudo, aquela era a capital da mais setentrional das províncias do Brasil. Distava 360 léguas (1.500 quilômetros) do Rio de Janeiro, a capital do império, e mais de 2.300 léguas de Lisboa, o Centro luminoso da civilização do mundo da época. De tão longe, as luzes do Velho Continente só chegavam aqui esmaecidas, filtradas pela distância.
Na cidade, o chamado Caminho Novo se revela uma das atrações. Na extremidade de uma colina que vem do Leste, no topo de uma inclinação de mais ou menos 60 metros, eleva-se a visão panorâmica da pequena urbe, cujos tetos cor-de-rosa, um pouco elevados e proeminentes, destacam-se coroando casas brancas caiadas ou pintadas de amarelo, formando um conjunto de arquitetura simples, mas graciosa. Ali, cinco rios se reúnem trazendo suas águas para formar o grande rio que empresta seu nome para Província do Rio Grande do Sul. O maior e mais importante deles é o Jacuí. Alguns autores comparam a configuração desses rios com uma mão aberta, sendo que o Jacuí, o primeiro, a Oeste, representa o polegar da mão direita; depois seguem o Rio Caí, o Rio dos Sinos, o Rio Gravataí e, por último, o Riacho, que forma o dedo mínimo. Este, contudo, talvez até para justificar o comparativo, não permite a navegação comercial por barcos.
Os rios se abrem em um palco que apresenta, diante da cidade, uma vasta bacia semeada de numerosas ilhas fluviais. Muitas delas arborizadas e se mostram salpicadas de diversas quintas e habitações campestres. Atrás da cidade, à distância de 1 légua, ou pouco mais, uma sequência de elevações, morretes com altura em torno de 200 metros, forma um semicírculo e dirige-se ao Sul, margeando o rio, onde desenha margens de um airoso rendilhado, por espaço de 8 a 9 léguas. Entre essas elevações e a cidade, estende-se uma planície baixa, uniforme, espalhando-se por 3 a 4 léguas, que se insinua entre as montanhas do Sul, as colinas do Leste e do Norte, e o magnífico Rio Grande, a Oeste. Este, com seu portentoso volume de água, dirige seu curso no rumo Sul, passando guapo e lhano em meio a uma paisagem variada para formar a Lagoa dos Patos.
No geral, a urbe de Porto Alegre encontra-se no meio de duas grandes baías, separadas pela colina sobre a qual a cidade está situada: uma ao Norte, que forma a enseada e o porto, e outra ao Sul, formando uma discreta cidade baixa, enfeitada de jardins e pomares. Ali podiam se ver alguns alfaiates, sapateiros, artesãos, oficinas e ferreiros trabalhando barulhentamente em seus foles e bigornas, ao lado de engenhos diversos.
Em seu afã de descobrir a cidade, os irmãos Rocha Loures subiram ao ponto mais elevado da colina. Então descobriram ser o lugar em que ficava a praça principal. Ao Norte, a cidade mostrava a enseada. Nela, repousando sobre águas calmas, de tom achocolatado, que toma da cor natural do solo rico em ferro, estavam abrigadas diversas embarcações. Depois, as ilhas e o curso sinuoso dos cinco rios, que, caprichosamente, se alongam. Mais além repararam nas casas espalhadas pela paisagem, com as chaminés revelando a azáfama do cotidiano. Era um espetáculo de singela beleza ver as colunas de fumaça branca esculpirem circunvoeios em direção ao céu e contrastando com a margem sombreada da baía.
Ainda mais adiante, os vales verdes se prolongam alinhados às colinas ao nordeste. Por lá vicejam a crista-de-galo, de inflorescências aveludadas e multicoloridas; o camboim, cujos frutos vão do amarelo ao púrpura; a pitangueira, apreciada por seus frutos doces e perfumados; a salsaparrilha, uma planta de frutos vermelhos cuja raiz tem poderes curativos reconhecidos pela medicina indígena; a aroeira, famosa como planta medicinal diurética, anti-inflamatória, antimicrobiana, tônica e cicatrizante; e ainda aparecem o louro, o cedro, a majestosa canjerana, a timbaúva, a capororoca, a figueira, a batinga-vermelha e o popular e temido ingazeiro, também conhecido como ingá-ferradura, ingá-macaco, ingá-graúdo, ingá-carneiro ou, simplesmente, angá.
Então surge a várzea, uma extensão plana que fica atrás da cidade, colorida por seus hortos, seus laranjais, suas inesperadas bananeiras, palmeiras e figueiras, engolfadas por moitas espessas, desinibidamente cobertas de mimosas amarelas, vermelhas, violeta e brancas. Por fim, pousando o olhar na planície do Sul, contemplaram lindas casas de campo, idílicas residências com seus pomares, hortas e vinhedos. Era um espetáculo admirável que os encantou e os comoveu.
Em 1845 Porto Alegre era diminuta e singela se comparada à efervescente Rio de Janeiro. Em compensação, nela, apesar de ondas esporádicas de calor, não se tinha a canícula impiedosa e sufocante das praias da capital do império. A cidade do Rio era um contraste de extremos. De um lado, uma natureza de beleza ímpar, de outro, parecia um caldeirão fumegante que abrasava no calor do verão e tornava os trajes europeus, obrigatórios na corte, um suplício tormentoso. Já Porto Alegre tinha temperaturas mais amenas, um ar temperado, puro e saudável. Lá a primavera trazia um dilúvio de chuvas abundantes, enquanto no inverno eram comuns as alvas geadas e, de tempos em tempos, neves episódicas branqueando telhados e colinas.
Nessa caminhada, os irmãos Rocha Loures puderam ver que a cidade tinha predileção pelos bangalôs, que dividiam as ruas com uns poucos edifícios. Estes, em sua maioria, construídos com tijolos e pedras de cantaria, tinham um andar térreo e um superior, no estilo característico dos sobrados. Para ambos, o resplandecente casario sugeria uma cidade acolhedora, que morava bem, ainda que com limitações, por não ser uma metrópole rica, porém onde, ainda assim, os moradores tinham zelo e cuidavam de suas moradas com desvelo. Também notaram que os porto-alegrenses gostavam de deixar a luz do sol entrar em suas casas. As janelas tinham aberturas generosas no andar de cima dos sobrados e eram bem amplas as portas duplas no rés do chão.
As janelas se destacavam por serem altas, arqueadas, com grandes áreas. As molduras de seu entorno costumavam ser requintadas e tinham perfis em formato de losangos, quadrados ou hexágonos. Algumas poucas residências ostentavam o requinte de janelas envidraçadas, um luxo reservado para os poucos proprietários abastados que podiam comprar o produto trazido de fora pelas casas importadoras. Os balcões, muitos de ferro trabalhado, às vezes com detalhes e apliques dourados, tinham um ar mediterrâneo. Algumas habitações mostravam toldos de arcos leves sobre as janelas, com a função de evitar a insolação direta no verão. O telhado da maioria das construções era coberto de telhas redondas que avançavam nas laterais apoiado em cornijas bem ornadas. Um detalhe que, além de dar um toque elegante à coberta, tinha o propósito de proteger o revestimento e a caiação das paredes da ação desgastante da chuva. Esta parte saliente do teto costumava ser pintada de vermelho e ressaltava o branco das paredes.
Entretanto, as construções mais recentes conviviam com casas remanescentes de construção mais antiga. Tais casas eram mais baixas e guarnecidas de janelas corrediças e portas com gelosias. Esta solução, gelosias formadas por um trançado de madeira que originalmente visavam a impedir que a luz e o calor excessivos penetrassem no interior das casas, já não era mais adotada nas novas edificações. Ainda que as gelosias se constituíssem em uma inteligente e charmosa solução da arquitetura tropical, haviam perdido o favor das classes mais abastadas pela mais prosaica das razões. É que as grades facilitavam o olhar indiscreto das comadres fofoqueiras desocupadas, alimentando os mexericos e as maledicências. As janelas e portas gradeadas escondiam as bisbilhoteiras na penumbra, o que facilitava para que se inteirassem dos mais picantes detalhes da vida privada de vizinhos e de toda a gente ao alcance do olhar enxerido que vazava pelas frestas. Por isso, em certo episódio de indiscrição, o próprio imperador, tomado de fúria, determinou que as abelhudas “viseiras do diabo” fossem proibidas no Rio de Janeiro. E, dado que a ordem se propagou pelo país afora, não demorou que caíssem em desuso também em Porto Alegre.
Após circularem por algum tempo, os Rocha Loures pararam em uma estalagem para uma água e um descanso. De onde estavam podiam observar um grupo formado exclusivamente por mulheres que pareciam se aprestar a viajar para o interior da província. Curiosos, perguntaram sobre o que viam ao estalajadeiro. O homem explicou ser muito normal as mulheres do Sul terem liberdade para viajar desacompanhadas da figura masculina. E o faziam frequentemente, tanto em grupo quanto sozinhas. Ante o espanto dos visitantes, o estalajadeiro disse que as mulheres da província tinham adquirido grande independência ao longo dos anos da revolução. Durante a refrega, elas participaram ativamente da movimentação das tropas, da logística e até dos combates. Especialmente do lado revolucionário. Agora, com a chegada da paz, não aceitavam mais voltar aos costumes antigos. Obviamente, nem todos os homens aceitavam ver as mulheres agirem com tanta independência e desenvoltura, mas o presidente da província se recusava a estabelecer regras restritivas e, assim, afora reclamar, nada mais podiam fazer.
Outra coisa que chamou a atenção dos visitantes é que as mulheres montavam como os homens, passando as pernas sobre a sela. Por isso vestiam bombachas por baixo dos vestidos, uma concessão aos mais conservadores. Para protegerem os vestidos da poeira da estrada ainda usavam por cima, à guisa de guarda-pó, uma espécie de capa, porém leve, feita de chita florida ou listrada. Os cabelos eram presos em forma de coque e levavam na cabeça chapéus de tafetá, feltro ou castor, enfeitados com um penacho de plumas de pavão ou de avestruz. O mais surpreendente é que, apesar de vestidas dessa maneira aparatosa, aparentavam elegância e nobreza, e montadas tinham um ar de autoridade. Se conduziam como se fossem damas da corte. Os cavalos das damas eram, usualmente, bem cuidados, com o pelo escovado e seus arreios tinham toques caracteristicamente femininos. A rédea, a testeira, o recado, as esporas, os estribos em forma de turíbulo eram recobertos de prata trabalhada. Aquela cavalhada das damas era um espetáculo desusado e que nenhum dos irmãos havia visto antes. Até mesmo o alferes, mais viajado que o irmão caçula, não lembrava de nada parecido. Nem em São Paulo nem no Rio de Janeiro. Talvez, considerou, porque no Rio e em São Paulo as damas viajariam em charretes ou coches, já que dispunham de estradas e caminhos carroçáveis.
Os irmãos observaram, entretanto, que os homens da capital da província também caprichavam mais em suas montarias do que os cavaleiros interioranos e dos pampas. Muitos cavalos tinham nos rabichos, nas barrigueiras e nas peiteiras, assim como no resto dos arreios, detalhes e enfeites de prata. Ademais, os cavaleiros gostavam de levar na mão, como os argentinos, um pequeno chicote, com cabo de prata maciça. Também as indispensáveis facas churrasqueiras, complemento das vestimentas que levavam sempre à cintura, tinham o cabo e a bainha de prata. Os menos afortunados as usavam de alpaca, mas não as dispensavam. Os trajes dos cavaleiros consistiam em botas em couro, largas bombachas, uma jaqueta, um amplo manto de pano, o poncho, usado para proteção do frio e do vento e colocado sobre a vestimenta usual, sendo feito em teares com lã de ovelha. Cavalgando sob as intempéries do outono e inverno do Sul, o poncho era usado sobre as ancas do cavalo e ajudava a abrigar da chuva. Nas cidades, servia como sobretudo. Ao acampar, o poncho era, ainda, o cobertor improvisado.
O comércio da capital parecia muito ativo. A Rua da Praia, a mais antiga da cidade, começava na ponta do Gasômetro, onde foram instalados os Armazéns Reais e o Arsenal da Marinha, e ia até a General Câmara, junto à Praça da Alfândega, na época, Largo da Quitanda. Naquele corredor se aglutinavam os comerciantes. Era uma sucessão de pequenas lojas, artesãos, ourives especializados nos adereços de prata dos cavalos e cavaleiros, artesãos que faziam produtos de couro e objetos em courinhos, enfim era um bazar de variedades colorido e movimentado. A rua recebeu seu primeiro calçamento, provavelmente, em 1799. Da Rua do Ouvidor até a Senhor dos Passos era conhecida como Rua da Graça, o que durou até 1843, quando as ruas foram emplacadas.
Ainda assim, os Rocha Loures não deixaram de se surpreender ao contarem mais de uma dezena de navios, tanto nacionais quanto estrangeiros, ocupando a enseada. Isso sem contar uma grande quantidade de outros tipos de embarcação de todos os tamanhos, como escunas, chalanas, canoas e pirogas. Os mais numerosos eram os barcos de transporte de mercadorias, especialmente as chalanas, que, por terem fundo chato, eram mais adequadas ao transporte de cargas pelos quatro rios que facilitavam as comunicações com o interior. O Rio Jacuí, especialmente, além de barcos de carga, via desfilar elegantes gôndolas de passeio dos mais abastados. Diziam os locais que, aos domingos, eram tão numerosas que havia que tomar cuidado para navegar entre elas. Com a tarde caindo, os irmãos voltaram para a hospedaria. Junto a alguns outros comensais com quem trocaram rápidas impressões, jantaram frugalmente. Apesar de desejosos de conversar sobre tudo o que haviam visto, estavam demasiado exaustos para entreter uma prosa sem compromisso. Foram para o quarto em que estavam alojados e preferiram descansar. Deitaram-se prazerosos, tendo a expectativa de que o dia seguinte seria ainda mais aventuroso.
Após uma noite bem-dormida, acordaram com os galos saudando a aurora. O sol mal apontava na manhã fria e os irmãos Rocha Loures já estavam de pé. Até podiam ter se dado ao luxo de estender o sono, mas estavam excitados demais com as perspectivas que lhes reservaria o dia que começava. O alferes vestiu a farda paulista. Era de bom tom ir em sua melhor gala para a audiência oficial com o presidente Conde de Caxias. Depois, como o frio era desapiedado, vestiram os ponchos e foram para a rústica cozinha da hospedaria. Lá, o cheiro de toucinho e carne na brasa abriram-lhes o apetite. Tomaram leite recém-ordenhado e comeram o toucinho e a carne tostada com ovos mexidos e pão com manteiga. Em seguida foram em busca dos cavalos. Como tinham a manhã livre, haviam programado estender seu reconhecimento da cidade. E começaram o passeio rumando para o Centro. O que não esperavam foi encontrar ali, em frente à Igreja de Nossa Senhora da Dores, na Rua dos Andradas, o triste espetáculo do açoitamento de um escravo. Sabiam, de ouvir falar, que os escravos eram tratados pior que cães. Tinham ciência de punições públicas e outros castigos infligidos aos cativos, mas em Guarapuava e Palmas era praticamente desconhecido o suplício público de um escravo.
Em Porto Alegre, contudo, o açoitamento era um evento que atraia a atenção do público. Ao lado do arsenal, defronte da igreja, havia um pelourinho. Constava de um cepo de madeira levantado sobre um pedestal de pedra. O cepo, em forma de coluna, tinha enfiado no topo uma grande argola de ferro, e presa a ela se esvaia em sangue um escravo que havia sido condenado a 300 chicotadas. Em volta da coluna de açoitamento estava reunido um grupo de desocupados e curiosos que se mostravam insensíveis ao doloroso espetáculo. Pior, pareciam divertir-se com o flagelo do escravo. Perguntando a alguns dos curiosos que ali se acotovelavam, souberam que aquele era um evento diário. Todos os dias, das 7 às 8 horas da manhã, era possível assistir a dramas sangrentos como o açoitamento que testemunhavam. O escravo preso ao cepo apenas gemia e chorava, enquanto o carrasco fazia assobiar a chibata que vergastava suas costas. O que restava do dorso do escravo era não mais que um conjunto de pedaços sangrentos de carne exposta.
O doloroso espetáculo era cruel até para aqueles homens tisnados e provados. Em Guarapuava e Palmas, ou mesmo em Curitiba, também havia escravos. Muitos deles eram tratados com desprezo e crueldade. Mas os irmãos Rocha Loures nunca tinham visto cenas de brutalidade como aquela, em que homens eram descarnados com açoites e humilhados com execração em praça pública. Talvez a explicação fosse que, mais para o interior do país, como em Guarapuava e Palmas, nas fronteiras da civilização, os riscos que vinham do meio ambiente ameaçavam a todos, homens livres e escravos. Assim todos precisavam se unir para se proteger da selva bruta.
Enquanto testemunhavam o vergastamento, os irmãos viram aproximar-se um cidadão vestido com aprumo e que parecia tomar notas e registrar o evento. O gentil-homem se diferenciava da massa de transeuntes e dos curiosos que assistiam ao triste espetáculo. O alferes foi em sua direção e perguntou a ele:
— Perdoe minha curiosidade de forasteiro. Percebo que estás tomando assentamentos. Assim talvez pudesse me dizer quais seriam os motivos deste pobre-diabo estar sendo açoitado?
O gentil-homem levantou os olhos de seu bloco de anotações e reparou que o alferes vestia farda de oficial dos Pedestres de São Paulo. Assim, imediatamente dispôs-se responder:
— Buenos dias, senhor oficial. Ao que me consta o negro tentou fugir mais uma vez e foi apanhado com um cavalo roubado. Ele foi perseguido e, como montava a pelo no animal, caiu e se machucou. Mesmo ferido foi trazido para o pelourinho. Sou jornalista do jornal O Imparcial e estou redigindo uma notícia sobre este castigo. Nossos leitores dão muito valor a estas notícias. Eles têm boa quantia de escravos e querem saber tudo sobre as coisas relacionadas aos negros cativos, como fugas, revoltas e que tais.
O alferes se apresentou e agradeceu:
— Obrigado por suas informações. Eu sou o alferes Francisco da Rocha Loures, dos Pedestres de São Paulo, e este é meu irmão, João Cypriano. Agradecido pela sua cortesia. Confesso que fui surpreendido por esta cena um tanto insólita. Acho que meu irmão também ficou surpreendido.
O jornalista ficou um tanto sem graça:
— Em São Paulo os senhores não têm a punição pública de escravos?
O alferes percebeu que o repórter estava um tanto encabulado. Por isso esclareceu:
— Suponho que sim. Infelizmente, penso que na capital e em cidades como Itu e Santos também deve haver pelourinhos ativos. Mas eu venho de uma região nova, ao Sul da província, já na divisa com o Rio Grande do Sul. Em Guarapuava e Palmas, que compõem a região onde estou lotado, os escravos são poucos. A expedição em que nosso pai chegou à região, liderada por Diogo Portugal, reunia 300 pessoas e, entre elas, só vieram nove escravos adultos e duas crianças. Além disto, tanto nas invernadas como nas casas, o convívio com os escravos é geralmente pacífico. As punições costumam ser mais na base de palmatórias e algumas surras de vara no tronco, mas não como essa aqui, com centenas de açoites. Os casos mais graves, de escravos que matam senhores, são punidos com penas de morte, mas são ocorrências bastante raras. Nós, da polícia, temos mais problemas com os índios do que com os escravos.
O jornalista explicou, então, o que sabia:
— Bem, aqui em Porto Alegre, que eu me lembre, o primeiro padecente levado ao patíbulo foi um escravo africano que pertencia a Joaquim Machado Leão. Ele matou a mãe de seu senhor, dona Maria Joana do Nascimento Leoa, e foi condenado à morte pelo crime que cometeu. A junta do julgamento que o condenou mandou que sua cabeça fosse decepada e exibida ao povo. Ainda na década de 20 houve diversas execuções. Em 1822, no ano da independência, ao que eu saiba, foram três. Dois outros escravos foram enforcados em 1826, mais três em 1828 ou 1829. Na década de 30, antes e durante a Revolução Farroupilha, cerca de 20 negros transgressores foram enforcados por aqui. Estes foram os casos oficiais, com condenação pela junta e preparativos cuidados pela Casa de Misericórdia. Nestes casos o escravo que ia para o cadafalso seguia num cortejo. Na frente ficava o meirinho, o oficial de Justiça que ia presidir a sentença, explicando ao povo o crime do condenado. Em seguida vinha um padre e um sacristão carregando a bandeira da Misericórdia. O padecente vinha a seguir, com os punhos amarrados e presos com uma corda segurada por soldados. Antes de ser enforcado, era levado para assistir a uma missa de corpo animado. Em seguida, logo após a missa e a bênção com a absolvição dos pecados do condenado, se dava a execução pública. O enforcamento atraia um grande público de curiosos e era visto por outros escravos que eram levados ali para saber o que lhes poderia acontecer caso não aprendessem a se comportar. Mais recentemente, o que estamos tendo muito são casos envolvendo negros fugidos durante a revolução. Escravos que foram recapturados e devolvidos aos seus donos. O problema é que esses negros que sentiram o gosto de viver livres têm se mostrado muito rebeldes. Eles não aceitam mais se submeter e, por isto, tem-se registrado muitas fugas. Para coibir novas fugas, as punições têm sido mais rigorosas, como a de hoje.
— Sim, entendo – respondeu o alferes. – Lá em nossa região as fugas são até poucas. Mas sempre tive que lidar com outros crimes cometidos por escravos. E a punição é mesmo no açoite. O Código Criminal de 1830 diz que se o condenado for escravo ele não vai para a cadeia. Isso porque se o escravo é colocado na cadeia causa uma perda de mão-de-obra e de dinheiro para o seu senhor. Assim, a regra é punição do escravo por açoitamento público. O escravo, depois da sova de açoita, fica uma ou duas semanas se curando para voltar ao trabalho.
O alferes e João Cypriano, conversaram mais alguns minutos com o jornalista. Ele fez uma exposição sobre os diversos jornais que circulavam na capital, uma cidade de “gente letrada”, como explicou, falando de seu jornal com grande orgulho. Depois, despediram-se. Ao voltarem a percorrer a cidade, ainda levavam na retina o espetáculo de cruel insanidade que haviam testemunhado e que os acabrunhou. Afastaram-se cabisbaixos. Não tinham muito o que falar. Enquanto seguiam para a praia do Guaíba, pensavam na impiedade da escravidão. Claro, longe de serem ingênuos, ambos os irmãos eram sabedores da realidade vivida pelos escravos em todos os quadrantes do país. Mas uma coisa era saber de ouvir falar e outra, testemunhar a crueldade das punições. Ver o sangue fluir da carne viva daquelas costas açoitadas, mal presa pelos fiapos de pele que restavam inteiros, era aflitivo. Ouvir o desespero rouco dos supliciados era angustiante.
O travo amargo produzido pela cena cruel que haviam testemunhado, contudo, não arrefecia o prazer do passeio pela formosa cidade que descobriam. As aparências sugeriam uma cidade amável e acolhedora. As crianças brincando buliçosas nos jardins das aprazíveis residências, os elegantes guarda-sóis que enfeitavam as varandas, as charretes luzidias puxadas por cavalos garbosos, os cavaleiros bem trajados cavalgando para seus negócios. A cidade vibrava de vida.
Os irmãos Rocha Loures almoçaram em uma agradável casa de pasto no Caminho Novo. O restaurante era atendido por um pitoresco casal português há pouco chegado da terrinha. O casal contou que viera contratado para cuidar de propriedades de um rico magistrado lusitano, na capital do império, mas que, após desentendimentos com seu patrono, resolveu tentar a sorte abrindo um estabelecimento no Brasil. A escolha recaiu sobre Porto Alegre porque nela residiam alguns parentes distantes. Ambos também contaram que logo fizeram bom relacionamento com as autoridades locais, abriram sua casa ao público e viram seu negócio florescer.
Sua especialidade eram os vinhos vindos da Europa, que chegavam em barris. Na casa, eram vertidos em garrafas arrolhadas e lacradas com cera de abelha. Os vinhos, devidamente engarrafados, eram conservados em uma adega construída no subsolo e dela eram retirados para servir aos gentis-homens e damas da sociedade que iam almoçar aos domingos na “Casa das Perdizes”, que foi como nomearam o restaurante. O nome foi escolhido em homenagem às perdizes frias, que era especialidade de dona Maria, a proprietária da casa. Aos domingos, muitas famílias da fina flor da sociedade porto-alegrense iam lá comer os pratos típicos de Portugal e, na sobremesa, deliciar-se com os pastéis de nata, chuviscos e outros doces de deliciosas receitas ibéricas.
Entre as várias alternativas do menu escrito na lousa da entrada, os Rocha Loures escolheram o cozido português, acompanhado de pão, azeite e uma taça do famoso vinho da casa. O prato, que incluía frango, carne de gado, porco e variadas salsichas, em um fumegante festival de carnes, ainda continha vegetais, batatas, cenouras cozidas, couve e feijão. Cheiroso e apetitoso, o prato sobejava em sabores memoráveis para os dois visitantes que, no seu rústico cotidiano, se alimentavam quase exclusivamente à base de charque, feijão-tropeiro, pinhões e quirerinha de milho.
Dona Maria, baixinha e atarracada, era alegre e lampeira e parecia gostar de exibir suas prendas culinárias e seus predicados na cozinha. Especialmente, demonstrava ter orgulho de suas habilidades na doçaria portuguesa. Assim, fez questão de oferecer uma seleção de seus doces e quitutes aos dois visitantes. Ambos os irmãos tiveram, além disso, a oportunidade de apreciar o chá de folhas de laranjeira, que encerrava com chave de ouro a refeição e era servido na ampla sala da bela casa caiada, enfeitada por elegantes cornijas azuis e cercada de belas árvores copadas.
Ainda durante o almoço, os irmãos haviam lembrado a cena de punição ao escravo. E a conversa resvalou para o pequeno grupo de ex-farroupilhas que haviam sido encontrados por uma patrulha de soldados do batalhão de Pedestres na região de Campos Novos, a Leste do Goio-En. Com o fim da revolução, o grupo fugira para o Norte e tinha ido instalar-se perto da divisa das duas províncias, na área onde já existia um núcleo com alguns moradores liderados por João Gonçalves de Araújo, um fazendeiro originário de Curitibanos que foi o descobridor daqueles campos. Em 1839 ele tinha sido atraído pela fumaça das queimadas feitas pelos índios Kaingang. Organizou uma expedição e enveredou pela Serra do Espinilho. A esplêndida região que encontrou era muito adequada à povoação e, desse modo, fixaram-se ali os moradores iniciais.
Ainda durante a Revolução Farroupilha, alguns gaúchos que fugiram das áreas conturbadas tinham se estabelecido no lugar. Entre eles estavam Chico Ferro, Chivida Araújo e Miguel dos Anjos, que foram procurados pelos fugitivos e deles receberam ajuda. O grupo de ex-farroupilhas reunia seis ou sete ex-Lanceiros Negros e outros ex-revolucionários mulatos e caboclos que se uniram temerosos de que pudessem ser escravizados novamente. Os mais preocupados eram os ex-lanceiros. Por serem negros, buscavam refúgio para ficarem fora do alcance da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, que tinha ordem de prendê-los e enviá-los para o Rio de Janeiro. Se fossem capturados seriam julgados e possivelmente retornados à escravidão. Em meio às matas dos Campos Novos conseguiam refugiar-se com segurança. Para chegar até a região, subiram pelos Campos de Cima da Serra, cruzaram o Rio Pelotas, passaram ao largo de Lages, escolhendo trilhas escondidas e caminhos pouco trafegados.
Em Campos Novos os ex-farrapos foram bem recebidos. Eles tinham extenso conhecimento da criação de gado, do charqueamento, do trato do couro, além de possuírem maestria no manejo de armas, forjas, ferramentas e, logicamente, das montarias. Foi por meio deles que o alferes e seu irmão souberam do inglório fim dos Lanceiros Negros, o mais temível batalhão das forças farroupilhas. Foi deles que ouviram o relato do Massacre de Porongos, uma infâmia perpetrada pelas Forças Imperiais no final da Revolução Farroupilha, recém-terminada. A carnificina ocorreu quando o corpo dos Lanceiros Negros do Exército Farroupilha, traído por seu comandante farrapo, Davi Canabarro, foi entregue de madrugada, indefeso e desarmado, para ser aniquilado pelas tropas imperiais. O Massacre de Porongos foi o mais vexaminoso “confronto” da Revolução Farroupilha. O que os ex-lanceiros que escaparam com vida relataram é que foram traídos porque as Forças do Império tinham ordem de eliminar o “problema” dos combatentes negros libertos durante a revolução.
O massacre era coisa ainda recente. Ocorrera há pouco mais de seis meses, em novembro de 1844. A Revolução Farroupilha se esgarçava e os líderes rebeldes ansiavam acertar o armistício com o governo do império. Entre os entraves das negociações de paz estava a questão da escravatura. A maioria dos farroupilhas queria que a escravidão fosse abolida no Rio Grande do Sul. Tanto que o lema dos revolucionários tinha sido “Liberdade, Igualdade e Humanidade”. Acontece que a “Liberdade” do mote revolucionário era entendida de forma diferente por abolicionistas e escravocratas. Para os abolicionistas, a liberdade seria para todos, brancos, negros e índios. Para os escravocratas, no entanto, a liberdade seria um privilégio apenas dos brancos, que em sua grande maioria se diziam “civilizados”, ou seja, seriam os europeus e os luso-brasileiros. No máximo, o privilégio se estendia aos índios convertidos, por exigência da Igreja. Para o grupo de escravocratas, que incluía a maioria dos estancieiros e donos das charqueadas, os negros escravos e seus descendentes deveriam continuar cativos. Libertá-los, argumentavam muitos dos comandantes farroupilhas, quase todos ligados aos estancieiros, era acender um barril de pólvora nas estâncias e charqueadas gaúchas. Nelas a principal mão de obra ainda era a dos negros escravizados.
Ademais, a política de manter a escravatura era a posição oficial do governo imperial. E a escravidão existia em todo o país, de Norte a Sul e de Leste a Oeste. No Brasil inteiro muita gente tinha escravos e muitos achavam, não só os fazendeiros, que o país iria se arruinar se abolisse a escravidão. Esta opinião era ainda mais arraigada no Rio de Janeiro. Na capital do império, na década de 1840, a cidade contava com 260.000 habitantes, sendo que 110.000 eram escravos. Nas cidades de todo o país até mesmo gente remediada tinha um ou dois escravos. Portanto, na lógica de império o trabalho escravo era um fator de unidade nacional. Era inimaginável ter uma província sem escravidão. Ademais, nas colônias portuguesas, como foi o caso do Brasil, o trabalho manual sempre teve uma conotação depreciativa. Os indivíduos responsáveis por atividades manuais seriam inferiores, e por isso a atividade laboral era atribuída aos escravos. Esse entendimento preconceituoso e discriminatório permeava a cultura luso-brasileira da época. Tanto que muitos dos senhores de escravos e membros da elite vestiam ternos de linho branco. Era uma forma de ostentar sua condição de “asseados” e limpos das sujeiras do trabalho. Diferentemente das colônias inglesas, em que o trabalho era considerado algo dignificante e onde a elite estigmatizava a indolência entre seus membros, no Brasil acontecia o inverso.
Por estas bandas, a elite se julgava acima do trabalho manual e dedicava seu tempo à erudição, aos negócios e à política. A estrutura do Estado era toda montada em cima de um parasitismo institucionalizado. A elite aceitava com naturalidade os privilégios e a inequidade cultivada a partir do patrimonialismo do Estado, um pecado original que o país nunca enfrentou. Assim, a escravatura era aceita como política oficial do governo. Ocorre, porém, que já vinha sendo contestada por parcela crescente da opinião pública. Decorre daí que, para evitar que a questão da escravatura se tornasse ainda mais prevalente no debate político, os governantes acreditavam ser preciso cortar o mal pela raiz.
O governo imperial temia que os combatentes negros, alforriados e bem-vistos por sua bravura, se convertessem em fonte de contestação à escravidão e, por fim, desestabilizassem o governo. Diante dos riscos, o governo imperial decidiu ser necessário eliminar os combatentes negros que lutaram ao lado dos revoltosos. Entre eles especialmente os Lanceiros Negros. Os Lanceiros formavam um grupo de elite excepcionalmente bem-preparado e cujos integrantes haviam escolhido os riscos da guerra à humilhante certeza dos grilhões. E foi por sucumbirem à essa lógica atroz e canhestra que os líderes do governo imperial impuseram aos líderes farroupilhas a condição de traírem seus companheiros de armas para que conseguissem o armistício.
Em amparo aos motivos de Davi Canabarro para a traição de Porongos, o alferes e seu irmão entenderam que o general viveu um dilema: ao ver sua província exaurida por uma guerra fraticida de dez anos e desejando superar o obstáculo que remanescia para obter a paz com o governo imperial, intransigentemente escravagista, teria decidido que uma última mortandade dos combatentes negros se justificava ante a alternativa insustentável de continuar a guerra. Àquela altura, os farroupilhas já estavam derrotados, e continuar os combates resultaria no aniquilamento completo não só dos Lanceiros Negros, mas de todos os revolucionários que estivessem em combate. Canabarro teria entendido que aquela seria a derradeira batalha. Ainda que a mais covarde e pusilânime de todas. Mas entre infligir mais sofrimentos ao povo da província e o sacrifício inglório dos Lanceiros Negros, o comandante farrapo teria mandado os escrúpulos às favas e optado por sacrificar aquela tropa leal e valorosa que entregou à sanha dos soldados imperiais.
Para os Rocha Loures, observadores afastados da guerra, não havia dúvida de que os imperiais temiam os Lanceiros Negros. A fama que haviam alcançado não tinha sido à toa. Seus feitos eram cantados em verso e prosa. Suas habilidades eram lendárias. Mesmo vencidos, os ex-escravos negros poderiam tentar continuar a luta por conta própria. Depois de terem experimentado o néctar da liberdade; depois de terem cavalgado com o vento; depois de terem feito seus caminhos seguindo o Cruzeiro do Sul e dormido na companhia das estrelas nas coxilhas dos pampas ondulantes era evidente que não mais aceitariam a canga de escravos. E, se as circunstâncias os convertessem em um bando de renegados, logo levariam intranquilidade para as populações espalhadas pelo interior, que se encontravam indefesas. Um risco que seria agravado se os lanceiros conseguissem formar alianças com os indígenas mais arredios. Pela lógica dos imperiais, o mal devia ser cortado pela raiz. Os lanceiros precisavam ser exterminados porque, vivos, seriam um elemento perturbador a comprometer a tão esperada pacificação do país. Entretanto, ainda que buscassem entender os motivos, os irmãos não deixavam de deplorar a traição dos farroupilhas por seus camaradas de armas. De uma forma ou de outra, o Massacre de Porongos seria sempre coberto de desonra.
Ao se prepararem para o encontro com o presidente da província, os Rocha Loures se perguntavam se o Massacre de Porongos teria contado com a concordância do Conde de Caxias. Afinal, ele era o comandante-geral das tropas imperiais no Rio Grande do Sul. A seu favor seria possível argumentar que o Massacre de Porongos teria sido, tecnicamente falando, uma batalha entre inimigos em luta. Guerra e traição sempre andaram de mãos dadas. Para os legalistas, os Lanceiros Negros seriam ainda soldados inimigos. Os mais aguerridos e perigosos. E a revolta ainda tinha núcleos dispostos a manter a luta. Dos farrapos remanescentes, os Lanceiros Negros pareciam ser o único corpo intacto e disposto a lutar até a morte do lado farroupilha. Até porque seus integrantes nada tinham a perder, a não ser a vida. Mas seu exemplo poderia frutificar e estimular novos apoios. Ademais, as tratativas de paz entre o governo imperial e os revoltosos poderiam estar avançadas, mas a paz ainda não estava firmada. De modo que era preciso prevenir para que a luta não recrudescesse e novas hostilidades não irrompessem, com as negociações votando à estaca zero. Além do problema militar, havia a questão da escravatura propriamente dita, um ponto de discórdia que travava os entendimentos. Portanto, eliminar os Lanceiros Negros significava afastar o principal obstáculo a um acordo e eliminar, em definitivo, quaisquer veleidades separatistas dos revoltosos.
No ataque em Porongos, os Lanceiros Negros foram praticamente exterminados, porém nem todos, mas poucos sobreviveram. Alguns entre eles, desconfiados, antes de separarem-se em definitivo das lanças, espadas e boleadeiras, as haviam escondido em um capão próximo. Outros poucos preferiram se afastar e acampar isolados em uma elevação próxima. Não se sentiam tranquilos em dormir sem a fiel companhia de sua lança, a arma que era a extensão de seus corpos e a tinham como companheira fiel, que, por precaução, haviam levado consigo para o leito ao longo de toda a guerra. A verdade, reconheciam os lanceiros sobreviventes, é que nem eles suspeitavam do ataque em preparo. Então, às 2 horas da madrugada, quando o assalto começou, os mais afastados estavam em melhor posição para se defender. A sua cavalhada havia sido retirada, mas alguns dos lanceiros, se dando conta do que se tratava, conseguiram esgueirar-se até a retaguarda do ataque e tomar alguns cavalos dos atacantes. Foi com essas montarias que lograram escapar. Mas a grande maioria de seus camaradas, confiante, dormia sem de nada suspeitar. Deste modo, na ignomínia, iludidos e atraiçoados, sucumbiu a maior parte dos indômitos Lanceiros Negros. O corpo de Lanceiros acampados naquela noite contava com pouco mais de 150 dos mais valentes e melhores guerreiros farroupilhas e foi surpreendido por uma força de ataque composta por 250 soldados imperiais.
Retrato de um lanceiro (Soldado do corpo de lanceiros negros Farroupilha) – Juan Manuel Blanes – Museu De Bologna – Itália
A investida se deu na madrugada de 14 de novembro de 1844, no acampamento localizado em um cerro, na curva do Arroio de Porongos, em Pinheiro Machado, no Rio Grande do Sul. Para comandar o ataque o Conde de Caxias escolheu Francisco Pedro Buarque de Abreu, o Barão do Jacuí, conhecido pela alcunha de “Moringue”, um dos mais importantes comandantes dos legalistas e homem de sua mais estrita confiança. Nascido em Porto Alegre, em 1811, Moringue era filho do comerciante português Pedro José Gomes de Abreu e de Maria Alves de Menezes, descendente de Jerônimo de Ornelas Menezes e Vasconcelos, donatário de Sesmaria de Sant’Ana, sobre a qual teve início o povoamento da cidade de Porto Alegre. Como oficial, teve decisiva participação na resistência ao cerco de Porto Alegre pelos farrapos e realizou diversas sortidas para arrebanhar gado e garantir alimentos para a capital, que sofria com o estrangulamento de suas vias de suprimento. Também participou de vários combates, tendo sido fundamental na conquista de Caçapava, no ataque e destruição dos estaleiros navais farroupilhas no Rio Camaquã, ainda como capitão, em 1839.
Em outros combates como, em novembro de 1841, fez 20 prisioneiros e tomou 400 cavalos dos farroupilhas, perto de São Gabriel; em 20 de janeiro de 1842, atacado por Bento Gonçalves e 300 homens, os derrotou, provocando 36 mortes, 20 prisioneiros e capturando toda a cavalhada e a bagagem, sofrendo somente três mortes e sete feridos. Moringue, assim, era o homem talhado para a missão. O Conde de Caxias, que estava, com sua coluna, acampado nas proximidades de Porongos, certamente acompanhou os preparativos para o ataque. Entre outros cuidados para realizarem a “surpresa de Porongos”, Moringue mandou que amarrassem panos nas patas dos cavalos de modo a que não fizessem barulho ao se aproximarem.
Os Lanceiros Negros, surpreendidos dormindo desarmados, resistiram como puderam ao ataque da infantaria imperial. A maioria morreu sem nem saber o que ocorria. Os que despertaram a tempo lutaram com o que tinham à mão. Foi uma luta desesperada, com os lanceiros, de peito aberto, sendo vastamente superados em número. Dos pouco mais de 150 lanceiros que estavam no acampamento, 96 foram mortos naquele ataque. Mas, mesmo surpreendidos, ainda assim venderam caro sua derrota. Empregando a força do desespero, improvisaram lanças com os paus das barracas, achas de lenha, facas toscas de carnear, pedras que seguravam as barracas, e o que conseguiram tomar dos soldados inimigos. Revidaram loucamente. Os gritos de repto cruzaram à noite e aterrorizaram os atacantes, que nunca esperaram enfrentar resistência. Mas, no final da refrega, os legalistas tinham vencido sem a perda de um único soldado.
O episódio, que manchou de forma indelével uma luta que tinha sido galante em muitos momentos, serviu para colocar na história uma plêiade de guerreiros que souberam dignificar seus sonhos de liberdade e não temeram perder a vida por eles. O major Teixeira Nunes, principal líder dos Lanceiros Negros, conseguiu escapar com vida e reuniu o grupo de sobreviventes para uma última batalha, travada em 28 de novembro, quando acabou atingido e morto pela lança do alferes Manduca Rodrigues, que lutava pelos imperiais. E assim findava a epopeia do que fora uma força temível, que chegou a reunir mais de 500 lanceiros em dois esquadrões com quatro companhias.
Os Lanceiros, na época sob o comando do tenente-coronel Joaquim Pedro Soares e subcomandados pelo então major Teixeira Nunes, tiveram atuação decisiva na importante Batalha do Seival, vencida pelos farrapos, em 11 de setembro de 1836, em reforço à Brigada de Antônio de Sousa Netto. Mais tarde, tiveram papel relevante na maior vitória farroupilha, em Rio Pardo, no dia 30 de abril de 1939, e na expedição por terra a Laguna, Santa Catarina, em 1839, quando lá foi proclamada a efêmera República Juliana. Sobre o quão valentemente lutaram, Giuseppe Garibaldi escreveu, lembrando Teixeira Nunes e seus Lanceiros Negros, com os quais conviveu na campanha de Laguna:
“Eu vi batalhas disputadas, mas nunca e em nenhuma parte homens mais valentes nem lanceiros mais brilhantes do que os da cavalaria rio-grandense, em cujas fileiras comecei a desprezar o perigo e a combater pela causa sagrada dos povos. Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa viril e destemida gente, que sustentou, por mais de nove anos contra um poderoso império, a mais encarniçada e gloriosa luta!”.
Como tributo a seus companheiros de aventura na América do Sul, atribui-se a Garibaldi a encomenda do quadro Farroupilha, exposto no Museu de Bolonha, na Itália.
O Primeiro Corpo de Lanceiros Negros havia surgido da transformação do corpo da Guarda Nacional de Piratini por insistência do comandante farrapo João Manuel de Lima e Silva, um defensor da libertação dos escravos e do seu engajamento nas tropas rebeldes. A criação dos Lanceiros Negros se deu no dia 12 de setembro de 1836, às vésperas da Batalha de Seival, reunindo mais de 400 homens no Primeiro Corpo de Cavalaria de Lanceiros Negros.
Na Batalha de Seival as tropas farroupilhas foram dispostas por Joaquim Pedro, na qualidade de imediato e assessor militar do comandante Antônio de Souza Netto. Joaquim Pedro deixou os Lanceiros Negros como reserva. Durante a luta, quando empregados em momento decisivo, selaram a sorte do combate. E ali, naquele triunfo, começava a lendária trajetória daquela plêiade de guerreiros que se notabilizaram pela coragem e destemor. Seus integrantes eram negros livres ou libertados pela revolução, e após pela República Piratini, com a condição de lutarem como soldados pela causa farroupilha. Em sua maioria, os lanceiros eram campeiros, domadores e tropeiros das charqueadas de Pelotas e do então município de Piratini, um vasto território que hoje inclui Canguçu, Pedro Osório, Pinheiro Machado, Herval, Bagé, Pirai e parte de Arroio Grande. Manejavam com grande habilidade suas lanças, que, medindo 3 metros, eram bem mais longas do que as comuns. Altamente treinados e cavaleiros insuperáveis, infundiam pavor aos legalistas.
Além das lanças, eram armados com boleadeiras, adagas ou facões. Alguns possuíam armas de fogo. Nos combates, os lanceiros utilizavam seus grossos ponchos de lã – os bicharás –, que lhes serviam de cama, cobertor e proteção do frio e da chuva. Quando atacavam a cavalo, enrolavam o poncho no braço esquerdo para amortecer ou desviar um golpe de lança ou espada. Desmontados, usavam os ponchos para aparar ou desviar golpes de adagas ou de espadas, uma arma que também dominavam com extrema habilidade, por treinarem seu uso no “jogo do talho”, simulação realística de combate com espada, faca, adaga ou facão em que não eram raros os talhos verdadeiros causados nos contendores.
Os Lanceiros eram robustos, rústicos e disciplinados. Comiam se houvesse alimento e dormiam ao relento, tendo como teto apenas o céu estrelado do Cruzeiro do Sul. A maioria montava a cavalo quase em pelo, à moda charrua. Seu vestuário era constituído de sandálias de couro cru, o chiripá de pano grosseiro, um colete recobrindo o tronco e na cabeça uma vincha, um lenço vermelho que era símbolo de república farroupilha. Como esporas improvisavam uma forquilha de madeira presa ao pé com tiras de couro cru. Essa peça farroupilha acomodava-se ao calcanhar e possuía a ponta bem afiada, que usavam para espicaçar sua montaria apenas em caso de necessidade extrema. Mas agora, depois de eliminados com indignidade, traídos e trucidados, os Lanceiros já se transformavam em lenda. Aqueles guerreiros exóticos, ágeis, espigados, destemidos, cujo alvo sorriso se destacava nos rostos negros, loucos de coragem e apaixonados pela liberdade, entravam para a história.
Os relatos e causos passaram a fazer parte das conversas e prosas das rodas de chimarrão, ao redor do fogo, nas noites frias dos galpões. Os causos e lendas, que iam aumentando de boca a boca, contavam que os Lanceiros combatiam lançando chispas pelos olhos, cavalgando à moda charrua em corcéis que pareciam ganhar asas e nem tocar o chão. Os Lanceiros preferiam não usar selas. Queriam sentir nas pernas o corpo do cavalo e, por isso, usavam apenas um pelego de ovelha que jogavam sobre o dorso das montarias. Suas lanças eram arremessadas com pontaria mortal. Atiravam suas adagas com tanta precisão que, a 10 metros, cortavam fios de cabelo que suspendiam pedras ou pencas de frutas. Também treinavam com o laço e as boleadeiras. Muitos conseguiam derrubar os cavalos adversários a mais de 10 metros. Por outro lado, as lanças eram a arma de ataque mais contundente. O guerreiro que empunha uma lança só tem uma chance e, por isso, deve atacar com determinação e destemor. Mas a lança, uma arma de ataque que não servia para defender o cavaleiro, podia ser usada em defesa da montaria no caso de esta ser atacada pelas boleadeiras dos adversários. Ao perceber que um inimigo se preparava para lançar as boleadeiras, o lanceiro colocava a lança sobre a anca ou sobre a cola do cavalo e fazia a ponta da haste arrastar-se no chão. Nessa técnica, a ponta da lança, ao ser arrastada no solo, formava como uma espécie de terceira perna traseira do animal. Quando as boleadeiras vinham girando para atingir as pernas do cavalo, enrolavam-se na lança também. Bastava o lanceiro erguer a lança para as boleadeiras se soltarem. Desta forma não trançavam as pernas do cavalo, que continuavam livres.
Outro modo utilizado pelos lanceiros para evitar que as boleadeiras derrubassem suas montarias era jogar o poncho sobre as ancas do cavalo, cobrindo sua cola e toda a parte traseira até arrastar-se no chão. O poncho impedia as boleadeiras de chegar às canelas dos cavalos. O método, porém, só era usado na falta da lança, quando esta se tivesse partido ou ficasse presa no corpo de um inimigo. Mas, mesmo quando, apesar das precauções, a boleadeira se enrolava nas pernas do cavalo, nem sempre conseguia derrubá-lo. As montarias dos Lanceiros Negros eram treinadas para desvencilhar-se desse tipo de ataque. Graças à extrema habilidade que tinham como ginetes, eles adestravam seus cavalos para manterem-se de pé mesmo com suas patas traseiras travadas e enroladas por boleadeiras. Muitos cavalos conseguiam até mesmo correr boleados, saltando com as duas patas traseiras ao mesmo tempo. Uma façanha que assombrava os inimigos.
O Conde de Caxias, que combatera implacavelmente os Lanceiros Negros como inimigos, os respeitava enormemente e, para fazer-lhe justiça, lamentou o seu destino, ditado por forças e circunstâncias às quais tiveram de submeter-se. A prova disso foi o comportamento do Conde quando chegou a Bagé dias após o massacre. Ele marchou para Bagé para fazer os acordos finais com os farroupilhas e para encaminhar para a corte o principal líder civil da revolução, Antônio Vicente da Fontoura, enviado ao Rio de Janeiro para negociar a paz de Ponche Verde e reintegrar o Rio Grande do Sul ao Brasil. Antes de entrar com as forças imperiais em Bagé, Caxias mandou chamar todos os comandantes dos diversos corpos do Exército e determinou que não houvesse a menor demonstração de júbilo em relação à vitória sobre os Lanceiros Negros em Porongos. Também deu ordem expressa aos comandantes para que não consentissem a nenhum soldado o menor insulto aos habitantes de Bagé, sob pena de sua responsabilização imediata.
Ao entrar em Bagé, Caxias foi recebido festivamente por toda a oficialidade, pelas autoridades locais e pelo pároco da cidade. O sacerdote, após cumprimentá-lo efusivamente, lhe perguntou a que horas queria que rezasse um Te Deum, uma missa solene de ação de graças para comemorar a recente vitória. Caxias assumiu um ar grave e respondeu ao padre dizendo:
“Senhor reverendo, a causa do governo ganhou um triunfo, mas este triunfo foi obtido, ainda que não perigasse um só de meus soldados, com o derramamento de sangue brasileiro. Eu não o conto com um troféu, não, eu não me vanglorio com ele, porque não posso vangloriar-me com as desgraças de meus concidadãos. É verdade que faço a guerra aos rio-grandenses dissidentes, mas sinto as suas desditas e choro pelas vítimas que eles perdem nos combates como um pai pode chorar a perda de seus filhos. Vá, senhor reverendo, e em lugar de um Te Deum em ação de graças pela vitória que obtiveram os defensores da lei diga antes uma missa de defuntos, que eu, com o meu estado-maior e a tropa que couber na sua igreja, irei amanhã ouvir, pelas almas dos nossos irmãos iludidos que pereceram no combate”.
Para demonstrar que sua consternação era genuína e sua determinação era para valer, ao saber que um de seus ajudantes de ordens tinha desrespeitado uma família negra que havia perdido um parente no combate em Porongos, Caxias o destituiu de imediato e, não julgando esse ato suficiente, foi pessoalmente até a casa da família enlutada levar seus pêsames e pedir desculpas pelo comportamento leviano do oficial.
Essa conduta apaziguadora do Conde de Caxias, contudo, não contava com unanimidade na corte do Rio de Janeiro. Muitos exigiam que ele agisse com dureza contra os rebeldes. Na própria província ele recebia críticas acerbas dos chamados “puritanos”, nome dado aos primeiros antirrevolucionários da província. Esses cobravam do comandante das tropas imperiais a extirpação ou, ao menos, a punição exemplar dos revolucionários farroupilhas, algo que Caxias se recusava a fazer. Ao contrário, Caxias vinha sistematicamente dando anistia a todos os inimigos que a solicitavam, o que ocorria desde sua chegada, mas que vinha se avolumando todos os dias. Todavia, ainda que agisse buscando aplainar o caminho da pacificação, Caxias precisava agir politicamente para conservar o apoio indispensável à sua administração.
É de se presumir, portanto, que o ataque aos Lanceiros Negros se devesse à necessidade de atender as ordens da corte no que diz respeito aos ex-escravos que constituíam a maioria dos integrantes daquele corpo. Ao fazer aquela operação, cujo comando preferiu dar a Moringue, ainda que ele mesmo estivesse próximo e, se quisesse os louros, poderia ter liderado o ataque pessoalmente sem nenhum risco, Caxias pretendeu dar “carne aos leões”. Ao atender aos “puritanos” e a seus detratores na corte, o conde ficou com crédito político e com as mãos livres para agir a seu modo. Tanto que, pouco após firmada a Paz de Poncho Verde, o Conde de Caxias mandou que os Lanceiros Negros restantes, um pouco mais de uma centena de homens, fossem incorporados aos três Regimentos de Cavalaria de Linha do Exército na província.
De todo modo, o episódio de Porongos não foi suficiente para aplacar os sentimentos escravagistas predominantes na corte, entre os “puritanos” do Sul e entre muitos dos ex-farroupilhas. Era evidente, para os ex-lanceiros e ex-escravos, que o fim do conflito, longe de lhes trazer a paz, ampliava o risco de serem reconduzidos à escravidão. Para fugirem desse destino, muitos cruzaram para o outro lado do Rio Pelotas e foram vagar pela região de campos de altitude, florestas e grandes cânions do Planalto Serrano, que haviam conhecido durante sua luta pela República Juliana. Passaram ao largo de Lages, para evitar os soldados do império, e avançaram para os amplos espaços de Campos Novos, Guarapuava e Palmas. Era uma vida dura e desafiadora, mas vivida nos braços da liberdade.
Naquela vasta região, os ex-lanceiros foram se espalhando. Seus membros, perambulando de um canto a outro, quando instados a falar de sua desventura, contavam como combateram ao lado de Garibaldi e de sua Anita, e como se empenharam na luta animados pela ilusão de que, na sonhada República de Piratini, não haveria mais escravidão e eles seriam livres. Relatavam seus sonhos de alvedrio e o quanto deixaram voar alto suas esperanças. Mas agora, sobreviventes por milagre, se davam conta de que tudo não passara de uma quimera. As promessas de alforria e de liberdade, que viriam com o fim das escaramuças, se desmancharam no ar. E sempre tomados de emoção é que os fugitivos relatavam a dor da traição. Conheciam de perto e lutaram ombro a ombro com Canabarro. Nunca imaginaram que seriam apunhalados pelas costas precisamente pelo seu comandante. Os que escaparam por pura sorte ou por um anjo da guarda providencial culpavam-se pela ingenuidade em se desfazer das armas com base na confiança em seu comandante, apenas horas antes de sofrerem o ataque traiçoeiro. Indagavam-se como se haviam deixado ludibriar naquele dia fatídico. Logo naquele dia em que se encheram de júbilo, fiando-se nas promessas de que, enfim, poderiam voltar para os braços de suas companheiras, de seus filhos e de suas famílias. Promessas de que eles, os Lanceiros Negros, teriam seu pedaço de chão para viver em liberdade e em paz. Então, naquela noite de infâmia, tão certos estavam de que seus dias de guerra e sofrimento tinham terminado que, pela primeira vez naquela longa guerra, descuidaram da vigilância.
A insigne audiência
Luís Alves de Lima e Silva – 1841
Os irmãos Rocha Loures, ao terminar o almoço, seguiram para o Palácio do Governo. Estavam em cima da hora e trotaram para logo chegar ao local. Seus pensamentos e sua conversa mudaram de direção. Mesmo sendo lastimável o infortúnio dos escravos, eles estavam ali para cuidar do futuro que anteviam como alvissareiro graças ao novo caminho pelo Passo de Goio-En. Após se apresentarem ao ajudante de ordens, na antecâmara do palácio, o Conde de Caxias os recebeu na porta. O alferes, que estava fardado com seu melhor uniforme, bateu continência ao ver chegar o comandante das forças do império. O conde respondeu à continência e depois estendeu a mão aos dois recém-chegados.
— Viva, senhores paulistas, que bela surpresa. Sejam bem-vindos ao Rio Grande do Sul. Então, vieram da Província de São Paulo, lá dos Campos de Palmas. Já palmilhei por muito do Brasil, mas lá não estive ainda. Li a carta de apresentação do comissário de Passo Fundo, o meu confrade maçom Joaquim Fagundes dos Reis. Ele foi mui generoso em seus cumprimentos pela minha investidura como marechal de campo e por ter sido elevado a conde por nosso imperador em 2 de abril passado. Vou escrever agradecendo, mas desejo que os amigos sejam portadores de meu agradecimento por viva voz. Na missiva da qual foram portadores ele os recomendou com palavras de muito entusiasmo. Assim, muito me alegra recebê-los. Entrem, por favor.
O alferes Francisco Ferreira da Rocha Loures e João Cypriano da Rocha Loures estavam maravilhados com a recepção calorosa. Caxias ir recebê-los na porta era uma deferência excepcional. O conde era uma figura que irradiava autoridade, mas revestia sua postura de comando com o calor de sua simpatia. Obedeceram ao gesto de acolhida e de boas-vindas do presidente da província e entraram no gabinete do grande pacificador. Caxias tomou o assento em sua mesa e esperou que os visitantes se sentassem à sua frente. Depois surpreendeu o alferes com uma novidade:
— Eu já o esperava. Recebi uma carta do presidente de São Paulo dando ciência de sua intenção de construir o novo caminho passando pelo Goio-En e dizendo que, oportunamente, eu seria procurado pelo oficial responsável por sua construção. Ele se refere também ao tenente Francisco da Rocha Loures. Suponho que seja o senhor.
O alferes foi tomado de assombro. Era razoável esperar que fosse promovido com o sucesso da construção da estrada, mas era a primeira notícia que tinha de que teria sido, de fato, promovido.
— Senhor conde, minha patente ainda é a de alferes.
O conde sorriu amplamente. Gostava de dar boas notícias e achou graça no embaraço do alferes.
— Imagino que as notícias demorem para chegar no nosso interior. Mas, neste caso, muito me alegra ser o primeiro a felicitá-lo pela promoção e a desejar-lhe sucesso em sua carreira, meu caro tenente.
João Cypriano levantou-se para também cumprimentar o irmão:
— Tenente Rocha Loures, posso dar-lhe um abraço de cumprimentos?
O tenente levantou-se, um tanto contrafeito, para receber o abraço de João Cypriano, enquanto o conde sorria para comentar:
— Bravo. Pouca coisa neste mundo me parece mais sincera que um abraço fraterno. Que Deus, o grande arquiteto do universo, se agrade e os abençoe.
Após o abraço de seu irmão, o tenente Rocha Loures respondeu a Caxias:
— Meu caro presidente, agradeço do fundo do coração suas palavras. João Cypriano e eu somos muito unidos e valorizamos muito a nossa família. Nosso pai nunca nos deixa esquecer a história do feixe de varas e como é importante sermos unidos.
— Que bom que pensem assim. Logicamente, conheço essa história a de que uma vara só é frágil e pode ser quebrada, mas, unidas a um feixe, as varas resistem até ao mais forte dos homens. E, vejam meus caros, é precisamente por isso que tanto me empenho em manter o Brasil unido. Para sermos uma grande nação e termos o respeito do mundo precisamos ser um feixe de varas. Ficando juntos seremos mais fortes. Mesmo os farroupilhas rio-grandenses vão entender um dia que são as nossas diferenças e peculiaridades que serão a fonte de nossa força.
Após este início sem formalismos a conversação se tornou mais descontraída. O conde perguntou mais sobre o comissário de Passo Fundo. Precisava conhecer as lideranças da província e estava intrigado. Queria saber mais sobre aquele homem, possuidor daquelas magníficas credenciais, que preferia ficar semi-isolado no Planalto. Ainda mais sendo maçom, o que pressupunha ser homem de conexões e grande relacionamento. Ele mesmo tinha sido iniciado maçom poucos anos antes, em 1841. Sua iniciação havia se dado numa das Lojas do Grande Oriente Brasileiro, no Rio de Janeiro. E, sabendo ser o comissário de Passo Fundo também iniciado, abria para ele, desde logo, um crédito de simpatia, predispondo-se a ajudar no que estivesse ao seu alcance.
Percebendo que seus visitantes estavam à vontade, pediu que falassem sobre Guarapuava e os Campos de Palmas, sobre Passo Fundo, sobre os potenciais daquela região que lhe diziam ser fértil como o Jardim do Éden e sobre a nova estrada que estavam construindo com a travessia do Rio Uruguai pelo Goio-En. Caxias ficou empolgado com tudo o que ouviu. Gostou do agora tenente Rocha Loures, que mostrava ter grande conhecimento da região, sentimento patriótico e temperamento de pioneiro. João Cypriano se mostrava mais silencioso, mas pareceu ao conde ter o mesmo estofo e a mesma disposição para assumir um papel de desbravador.
Caxias, ainda quando era barão, foi chamado a presidir a província e pacificar as forças rebeldes dos farroupilhas e havia logrado êxito, agora, elevado ao título de conde, empenhava seus esforços para que os dois lados da contenda esquecessem as animosidades e desenvolvessem um novo entendimento. O império tinha vencido, sim, mas a vitória poderia ser ilusória se não fosse seguida de um armistício que permitisse superar as causas do conflito e caso continuassem as mágoas a gerar ressentimentos e a erodir o sentimento de pertencimento com a nação brasileira. Esse sentimento de pertencimento que renascia na província, ele buscava fortalecer de todos os modos possíveis. Enfim, havia que fazer cessar as desconfianças de parte a parte. Manter a província unida ao país era sua tarefa cotidiana e afastar os motivos que levavam ao sentimento de secessão era o que considerava da mais relevante importância.
Diante da comoção causada pelo massacre dos Porongos, e por insistência do Conde de Caxias, o império aceitou incluir na cláusula IV da Paz de Poncho Verde e determinar que os escravos que haviam lutado pela república manteriam sua liberdade: “São livres e como tais reconhecidos todos os cativos que serviram à República”. Mas o império não tinha intenção de cumprir o acordo e enviou ordens para que o Barão de Caxias recolhesse os lanceiros como escravos estatais e os entregasse para a Fazenda de Santa Cruz no Rio de Janeiro. Caxias, no entanto, que por sua conta e risco e do alto de sua autoridade moral como vencedor da Guerra dos Farrapos já os tinha incorporado à Cavalaria Ligeira do Exército Imperial no Rio Grande, simplesmente ignorou a ordem. Com o respeito e o reconhecimento de suas qualidades como guerreiros, os Lanceiros sobreviventes foram alocados para as tropas dos coronéis Manuel Marques de Sousa e Manuel Luís Osório. Pouco tempo depois, em 1851 e 1852, os ex-Lanceiros Negros voltariam a lutar, dessa vez enfrentando Oribe e Rosas na Guerra do Prata, novamente defendendo a integridade e soberania brasileiras no Sul, ameaçadas pelos caudilhos platinos.
A paz, ainda que possa ser definida de muitas maneiras, no fundo é a ausência de guerra. E um povo próspero não deseja a guerra. Assim, nada promove mais o desejo da paz do que a prosperidade. Então, era para esvaziar o desejo de guerra que o Conde de Caxias, depois de ter enfrentado e vencido revoltas por todo o país, sabia melhor do que ninguém que para pacificar era preciso conciliar os interesses e apaziguar as paixões. Ele já tinha constatado pessoalmente como erros políticos primários resultaram na Secessão da Província Cisplatina, que se tornou independente em 1825, formando a República Oriental do Uruguai. Depois, já havia atuado na supressão da Revolta da Balaiada, na Província do Maranhão, campanha onde, justamente, recebeu o título de Barão de Caxias. Na sequência, recebeu a incumbência de acabar com as Revoltas Liberais de São Paulo e Minas Gerais, onde teve que se haver com o padre Diogo Antônio Feijó, o ex-regente do império que, ao ser eleito em 1834 pela Assembleia-Geral, se transformou no primeiro chefe do Poder Executivo regularmente eleito da história do país. E, agora, se desincumbia da missão de curar as feridas abertas com a Guerra dos Farrapos. Já vitorioso e sazonado, o Conde de Caxias se tornara o Grande Pacificador.
Ele compreendia que nada criava um mais genuíno desejo de paz do que o progresso e a prosperidade. Ele acreditava no que Shakespeare dizia: “A prosperidade é o próprio elo do amor”. E acreditava no ditado popular que advertia: “Em casa onde não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão”. O problema é que criar prosperidade era um processo delicado e cheio de vicissitudes. Exigia o esforço meticuloso de erigir um castelo de cartas. As cartas vão sendo organizadas e empilhadas camada após camada, de baixo para cima. Sua estabilidade, contudo, é sempre precária. As cartas dependem umas das outras para se manterem no lugar. E, assim como acontece em um castelo de cartas, para destruir a prosperidade e fazê-la desmoronar basta mexer nas cartas sem cuidado. Daí que, em seu esforço para criar um círculo virtuoso de prosperidade na província, o conde acreditava ser a paz o mais indispensável dos ingredientes. Assegurar um ambiente sereno e desanuviado é o que permitiria ir colocando as cartas e formando o castelo. A paz, entretanto, não era varinha de condão. A paz era condição necessária, mas não suficiente. Isoladamente, não criava prosperidade, mas, sem ela, os conflitos e desavenças sociais se encarregariam de fazê-las desabar. Enfim, a prosperidade só poderia ser construída se todos os lados ficassem imbuídos de que era hora de construir e se se dispusessem a somar esforços.
Para conseguir que todos cooperassem, contudo, havia que existir uma tensão na sociedade. Uma aspiração coletiva, uma força social que levasse todos a perceber que não era socialmente aceitável ficar à margem da ação, arrastar os pés ou se comportar como peso morto. Em razão dos esforços de Caxias, logo um sentido de urgência tomou conta de grande parte da sociedade rio-grandense. Havia saudáveis expectativas no ar, porém, também a preocupação de que ainda caminhavam sobre a areia movediça da mútua desconfiança entre a província e o império, e qualquer desarranjo social poderia pôr a perder o que haviam conseguido superar.
Enfim, a liderança de Caxias conseguiu criar ventos favoráveis para estimular o progresso. Ventos que favoreciam mudanças de humor para somar vontades e fazer avançar um projeto de desenvolvimento. O progresso, como navegar em um veleiro, não avança nas calmarias do desalento, mas quando sopra o vento das aspirações coletivas que enfunam as velas. Por acreditar nisso, o Conde de Caxias agia febrilmente e se mantinha atarefado, buscando apaziguar os ânimos e dissipar a animosidade ainda existentes, enquanto tomava medidas para fomentar o crescimento. Caxias acreditava, como Camões: “Cesse tudo que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”. A prosperidade se constituiria na nova Musa dos rio-grandenses. A velha Musa da secessão perdia seus atrativos e virava história.
Por isso o presidente da província estava feliz com a chegada dos irmãos Rocha Loures. Aquela visita apresentava o tipo de oportunidade que buscava aproveitar para fazer avançar projetos que criassem prosperidade. O novo caminho do Goio-En, além de estimular o comércio e os negócios, facilitava um entendimento com os Kaingang e era a oportunidade de alinhar-se com o pensamento do imperador, especialmente com a Secretaria do Império, que vinha empenhando esforços em uma campanha para “chamar a população nativa para a civilização”. A secretaria preconizava a catequese e propunha o aldeamento dos povos indígenas que ainda resistiam em ceder suas áreas para a plena ocupação do território brasileiro.
No caso dos Kaingang, um grupo ainda visto como rebelde, o governo imperial estava convencido de que a melhor estratégia para os conquistar era promover a sua conversão religiosa. Torná-los cristãos era, portanto, “a melhor maneira de trazer aqueles indígenas à civilização”, e a de fazer cessar as mortes e os estragos que “cometiam nas suas frequentes incursões”. Em um despacho da Secretaria de Estado dos Negócios do Império, Caxias havia lido que “Nos aldeamentos era possível tornar úteis braços não só improdutivos, como prejudiciais e devastadores”. E, de total acordo com tal modo de pensar, o conde acreditava que era preciso estimular a catequização e promover os aldeamentos. Dado que o Conde de Caxias não era homem de dúvidas nem de hesitações, ansiava por agir e contribuir para resolver o problema dos indígenas da província que presidia.
Caxias era um patriota visionário, um homem de resultados. Ele já tivera papel relevante em 1823, na luta contra Portugal pela independência do Brasil e, depois, passara três anos lutando na Província Cisplatina, enquanto o governo tentava resistir, sem sucesso, à secessão da província. Ele permaneceu sempre leal ao imperador D. Pedro I. Foi leal até o momento de sua abdicação, em 1831, em favor de seu filho, Pedro de Alcântara, D. Pedro II. A este, que contava com apenas 5 anos de idade quando se tornou imperador, o futuro Duque de Caxias serviu como mestre de armas, a ele ensinando esgrima e hipismo.
Com a abdicação de Dom Pedro I e com o novo monarca ainda criança, o Brasil foi governando por regentes, cuja missão era conduzir o país até que o herdeiro atingisse a maioridade e assumisse o trono. O Poder Legislativo assumiu a incumbência de indicar a regência. Inicialmente, houve uma rápida transição, com a Regência Trina Provisória, que governou no curto período de abril a julho de 1831. Como regentes, assumiram os senadores Nicolau de Campos Vergueiro, José Joaquim de Campos e o brigadeiro Francisco de Lima e Silva. Finda a transição, o Parlamento elegeu a Regência Trina Permanente, composta de José da Costa Carvalho, Bráulio Muniz e, novamente, o brigadeiro Francisco de Lima e Silva, que era o Barão de Barra Grande e pai de Duque de Caxias. A Regência Trina era formada por um grupo de moderados e exerceu o governo de 1831 a 1835. A figura de maior destaque dessa corrente era o padre Diogo Antônio Feijó, que ocupou o cargo de ministro da Justiça. Ainda em 1834, os moderados conseguiram fazer uma reforma na Constituição do Império. Por meio de Ato Institucional mudaram a forma da Regência, que passou a ser a chamada de Regência Una. E o padre Diogo Feijó foi eleito para o cargo, que exerceu de 1835 a 1837.
No período de sua administração, o padre Feijó tentou conciliar interesses divergentes das correntes políticas, mas não conseguiu impedir que numerosas revoltas e movimentos separatistas eclodissem no país. Antes da abdicação de Pedro I, três correntes políticas predominavam no cenário nacional, organizadas em dois partidos políticos. O Partido Brasileiro, que representava os interesses dos grandes proprietários rurais e o dos liberais, corrente com maior presença da população urbana, e o Partido Português, que representava os comerciantes portugueses e os funcionários públicos. Logo no início do período regencial, em razão da fluidez dos acontecimentos, essas forças se reorganizaram. Surgiram, então, novas legendas: o Partido Moderado, o Partido Exaltado e o Partido Restaurador.
O Partido Moderado, que reunia os chimangos, que eram contrários à descentralização e às reformas, queriam a ordem, a continuação da monarquia e favoreciam o voto censitário, baseado nos recursos econômicos do eleitor, passou a representar o interesse dos grandes proprietários rurais. Eles defendiam o status quo, notadamente a escravatura, e preconizavam uma monarquia moderada, ao mesmo tempo que se posicionavam pela unidade territorial do país. Novamente emerge como o principal líder dessa corrente o padre Diogo Antônio Feijó.
O Partido Exaltado, cujos membros eram favoráveis a reformas para melhorar a situação dos mais pobres e reivindicavam o direito de manifestação, regime republicano, voto para todos, independentemente de suas posses, independência da Inglaterra, industrialização e autonomia de províncias, passou a defender o interesse das camadas urbanas. Além de propugnar por mais autonomia administrativa nas províncias, desejava substituir a monarquia pelo regime republicano.
O Partido Português, por seu turno, modificou seu nome para Partido Restaurador. Seus membros eram chamados de caramuru” e tinham como objetivo articular o retorno de D. Pedro I ao trono imperial. Caxias, porém, ainda que precisando opor-se a seu pai e tios, que eram simpatizantes dos caramurus, sempre foi leal ao imperador D. Pedro II e se posicionou ao seu lado. Essa lealdade foi retribuída pelo monarca, que lhe deu o comando das Forças Imperiais na supressão de revoltas como a Balaiada, que ocorreu no Maranhão entre 1838 e 1841, e das Revoltas Liberais, de São Paulo e Minas Gerais, quando teve de enfrentar exatamente o padre Feijó, o antigo Regente Uno e homem que respeitava imensamente, mas que derrotou sem dificuldade e com quem, à época, trocou uma amargurada correspondência, deixando entrever a ironia de um destino em que ambos se viam enredados.
Ocorreu que, como líder que chefiava os revoltosos liberais paulistas, o padre Feijó estava instalado na autointitulada “capital provisória”, sediada em Sorocaba, em 14 de julho de 1842, data em que enviara ao comandante das tropas leais ao imperador, ou seja, ao Barão de Caxias, uma carta propondo condições para render-se:
“Ilmo. e Exmo. Sr. Barão de Caxias. Quem diria que, em qualquer tempo, o sr. Luís Alves de Lima e Silva seria obrigado a combater o padre Feijó? Tais são as coisas do mundo… Em verdade, o vilipêndio que tem o governo feito aos paulistas e as leis anticonstitucionais de nossa Assembleia me obrigaram a parecer sedicioso. Eu estaria em campo com a minha espingarda se não estivesse moribundo; mas faço o que posso…”.
Na missiva relacionava condições para a capitulação dos revoltosos que Caxias jamais poderia aceitar. Entre elas demandava a cessação de hostilidades, afastamento da província do Barão de Monte Alegre, a suspensão da lei das reformas promulgada pelo imperador e, especialmente, que houvesse anistia geral para os revoltosos. Caxias recebeu a carta sabendo que o padre Feijó, já fragilizado e doente do corpo, ainda que lúcido e bravo no espírito, não tinha mais condições para continuar a luta em que se empenhava. Ainda assim, como tributo à coragem e à resiliência do ex-regente do império, respondeu no mesmo dia. Na carta endereçada ao padre Feijó, deixou transparecer a ironia do episódio:
“(…) Quando pensaria eu, em algum tempo, que teria que usar da força para chamar à ordem o sr. Diogo Antônio Feijó? Tais as coisas do mundo! As ordens que recebi de S. M. o Imperador são em tudo semelhantes às que me deu o ministro da Justiça em nome da Regência, nos dias 3 e 17 de abril de 1832, isto é, que levasse a ferro e fogo todos os grupos armados que encontrasse, e da mesma maneira que então as cumpri, as cumprirei agora. Não é com as armas na mão, Exmo. Sr., que se dirigem súplicas ao monarca, nem com elas empunhadas admitirei a menor das condições que V. Exa. propõe na referida carta. (…)”.
E assim o Conde de Caxias, tendo vencido incontáveis desafios e dispondo de incontrastável prestígio junto ao imperador, desejava agora levar o projeto civilizador para os índios Kaingang, uma população nativa que tinha potencial para se tornar social e economicamente atuante e alcançar o patamar da plena cidadania.
Na conversa que entretinha com os irmãos Rocha Loures, Caxias pediu ao tenente para discorrer sobre a questão dos indígenas da tribo Kaingang no Alto Uruguai. Este discorreu sobre as crenças, valores, hábitos e costumes dos Kaingang e de seu potencial como cidadãos, dando exemplos citando Condá e outros chefes da tribo. Enfatizou a necessidade de um acordo amplo com o cacique Nonoai. Explicou que o cacique era a figura-chave de qualquer acordo duradouro com os índios Coroados, tanto para o Alto Uruguai quanto para toda a província. E completou:
— Minha missão não termina com a construção do novo caminho para a região dos Sete Povos das Missões. Essa parte já está em andamento. Minha missão só estará completa quando os índios estiverem pacificados e a estrada for segura para os tropeiros e viajantes. Isto significa dizer que tenho a questão da pacificação e do aldeamento dos Kaingang para encaminhar.
— Vosmecê vai manter contato pessoalmente com os índios? – Perguntou Caxias.
— Sim. Tenho o aconselhamento do cacique Condá e espero ir pessoalmente conferenciar com o cacique Nonoai. E lhe asseguro que tenho a melhor das expectativas.
O Conde de Caxias então perguntou:
— Já conhece o cacique Nonoai? Conhece a língua Kaingang?
O tenente respondeu:
— Sim, eu conheço a língua Jê, falada pelo Kaingang. Eu convivo com os índios Kaingang desde Guarapuava, por isso tenho familiaridade com o idioma. A respeito ao cacique Nonoai, ainda não o conheço pessoalmente, embora é como se já o conhecesse. O cacique Condá, o chefe Kaingang que veio em minha comitiva para servir como guia, o conhece bem e esteve recentemente com o grande Pai-Bang dos Kaingang, que é o chefe de todos os Coroados da região de Passo Fundo e do Alto Uruguai.
Foi a essa altura que o Conde de Caxias resolveu introduzir o assunto da carta do padre Penteado:
— Senhor tenente, possivelmente estás a par do interesse de um eclesiástico de Passo Fundo, o padre Antônio Penteado. Ele se apresenta a mim como desejoso em iniciar um serviço de missões junto aos índios Coroados da região. Estou certo?
— Sim, certamente. Tive a oportunidade de conhecer o reverendo padre Penteado e acompanhei suas tratativas com o senhor Joaquim Fagundes dos Reis, o comissário de Passo Fundo. A propósito, meu irmão e eu viajamos para a capital na companhia do mensageiro oficial, Thiago Miranda, que foi o portador da carta do padre Antônio Penteado. O mensageiro, permita-me dizer, é um grande admirador do senhor. – Entendeu que devia acrescentar o comentário para retribuir o tratamento generoso que recebera do mensageiro.
O Conde Caxias abriu um sorriso enquanto cofiava a barba bem aparada:
— Interessante saber. É sempre bom ter ciência de que estou fazendo amigos entre os meus provincianos. Muito alvissareiro, deveras. Aliás, a propósito, a carta do padre Penteado que chegou às minhas mãos me parece muito oportuna. Tão oportuna que até sugere que, talvez, tenha sido enviada sob os auspícios do Altíssimo.
O tenente Rocha Loures concordou:
— Sim, de fato, tenho que convir que é uma coincidência abençoada. Gostaria também de dizer que o reverendo padre, embora tenha vindo de São Paulo, já assumiu a capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida da Vila de Passo Fundo e já está bem relacionado com os indígenas da região. Outro detalhe alvissareiro é que o cacique Condá já nos trouxe informações de que a missão religiosa do padre Penteado será bem recebida pelo cacique Nonoai.
O conde esfregou as mãos de contentamento:
— Ótimo, ótimo. Fico feliz em saber. – Caxias, então, pegou de uma sobrecapa de couro que tinha sobre a mesa a carta do padre Antônio Penteado. Ele havia recebido a missiva no dia anterior e perguntou ao tenente: – O senhor teria conhecimento do teor do texto?
A pergunta surpreendeu o tenente.
— Certamente que não. Não sei o que ela diz. Trata-se de correspondência privada. Obviamente, eu tenho ideia do seu propósito, mas imagino que padre Antônio Penteado julgou pouco apropriado me mostrar a missiva antes de enviá-la a vossa excelência.
— É possível. – Concordou Caxias. – Deve ter sido por zelo que o reverendo padre não a quis mostrar. Mas, sendo que o assunto da missiva está intimamente ligado à sua missão, acho bom que a conheça.
O presidente da província, ato contínuo, passou a carta para as mãos do tenente, que a leu:
“Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conde de Caxias,
Tendo eu vindo a esta província o anno pp., onde tendo de demorar-me, e como sempre animado a prestar-me ao serviço da S. May Igreja; e todas as Parochias se achem providas, e sendo esta vasta, pelo Reverendo Parocho fui encarregado do curato de uma nascente população denominada – “Passo Fundo” e “Butucarahy” – pontos freqüentemente invadidos pelos selvagens: e como o Tenente Rosa, encarregado do Exmo. Sr. Presidente de São Paulo e por hum pique d’quella para esta pelos fundos de Palmas casualmente sahio pelos toldos de numerosas tribus, e por via destas somos suficientemente informados da existência de mais 6, quase em torno d’aquelles que juntos somão grande número. Impellido pelo irresistível patriotismo que me açula sempre a ser útil a minha Pátria, e recordando-me da utilidade que em S. Paulo se tem colhido da cathequese, tomei a ousadia de dirigir-me a V. Ex. que, tomando em consideração quanto posso a expender de suas luzes primeiramente partirá indulgências a meu atrevimento, e de suas comprovadas medidas, e disvellos a prol do Brasil partira providências, que muito aproveitará ao futuro. Sim Exm. Sr, encarnando o deplorável estado desses meos patrícios, primeiros senhores deste, o mais ameno torrão da América, perseguidos a ponto de se encantoarem por estes apertados desertos, só tendo abrigo dessas escarpadas serras, sempre hostilisados, e hostilisando; parte das maneiras mais com que aliás nossos maiores os illudirão, quando aproveitando-se de sua boa fé, e ignorância começarão a assassina-los, roubar seus filhos, e escravisa-los, factos estes e outros que de alguma maneira não deixa de justificar, seus bárbaros feitos, por quanto atacão seus toldos. Ora sendo um 1º toldo pouco distante desta praça parece que nenhuma occasião seria mais oportuna para a cathequese, que essa; e que o governo com alguma despesa em ferramentas e fazendas grossas mandando fazer huma visita à 1ª Tribu por hum Ecclesiástico accompanhado de huma força de defeza tendo por fim agrada-los, etc. Por via destes reuniria os outros toldos; e que repetendo pela 2ª e 3ª vez se poderá traze-los ao largo, onde o governo possa chamar os homens ao serviço de estado em ponto que lhe não ofereça vantagem a deserção, e então as famílias destituídas deste apoio se podem concervar sem perigo de tornar as mattas, e educarem se 2º medidas que houverem a respeito: ommito de fazer reflexões por não tomar o tempo a V. Exm. – Entretanto em offereço a V. Exm, o empenho de minha mesquinha erudição por esta cathequese, e mormente para imbuir nos rudimentos da Fé e mesmo para a visita.
Rogo a Deus queira prosperar a V. Exm. felizes annos de cujos serviços muito aproveita a pátria.
Capella de N. Sra. da Conceição do Passo Fundo, 17 de junho de 1845”.
Depois, o tenente passou a carta para o irmão e disse a Caxias:
— Agradeço sua confiança me confiando a leitura da missiva. Gostaria de enfatizar que, de minha parte, apoio integralmente o projeto do padre Penteado. Apreciaria aduzir ainda que, se me for dada a oportunidade, estou pronto a acompanhar o padre e reunir uma comitiva para ajudar na evangelização e na negociação com o cacique Nonoai e com seus rekakê-pai, que são os caciques auxiliares dos Kaingang.
João Cypriano, ao acabar de ler a carta, também opinou:
— Senhor conde, se me permite, nos Campos de Guarapuava e de Palmas meu irmão e eu temos tido uma grande experiência no convívio com os Kaingang. E lá, em nossa região, a população de índios mansos tem crescido e contamos com diversos aldeamentos já instalados. Os índios Kaingang que vivem aqui no Rio Grande, na margem oriental do Rio Uruguai, são parte do mesmo povo indígena que povoa a região onde moramos, no outro lado do Rio Uruguai, em São Paulo, na margem ocidental do rio. Esses Coroados têm parentes dos dois lados da divisa e mantêm ligações familiares entre si. Eles cruzam o rio frequentemente e todos seguem os mesmos costumes. Então, com o fim da Revolução Farroupilha e a pacificação da região, estamos diante de uma grande oportunidade de unificar toda a nação Kaingang desde o Alto Uruguai até Palmas, Guarapuava e mesmo adiante. Podemos aproveitar o bom relacionamento de Nonoai com os caciques da outra margem do Uruguai, como Victorino Condá, que está nos esperando em Passo Fundo, e outros, como Estevão do Nascimento Viry, que é o cacique em Palmas. Ele está um tanto estremecido com Condá, mas se dá bem com Nonoai. Contando com esses chefes poderemos superar as rivalidades ainda existentes entre os grupos da tribo e criar uma boa base de segurança para os tropeiros, com núcleos de comércio e invernadas para os muares e rebanhos de gado em todo o caminho, desde Cruz Alta, passando por Passo Fundo e seguindo até os Campos de Palmas e Guarapuava. Como certamente há de saber, de lá em diante já existem os caminhos para Curitiba e para Sorocaba, em São Paulo.
O conde anotava aquelas informações e mostrava genuíno interesse pelas possibilidades que via surgir:
— Senhor João Cypriano, confesso que não tenho uma grande familiaridade com a situação de Guarapuava e Palmas. E ainda menos conheço detalhes dos assuntos dos indígenas de lá, mas sinto que posso confiar nos senhores para ajudar nesse esforço de cristianização e fazer a paz definitiva com os indígenas. É desejo do governo de nosso imperador, Dom Pedro II, promover seu aculturamento e trazê-los para a civilização. Esse parece ser um bom início para criarmos uma nova corrente de progresso para toda a região de Passo Fundo, o que asseguro aos senhores que a mim muito agrada.
O tenente Rocha Loures voltou a participar da conversa:
— Saiba que pode contar conosco. Nossa família tem sua história ligada àquela região. Nosso pai, o capitão Antônio da Rocha Loures, foi um dos pioneiros. Como tenente, em 29 de agosto de 1812, foi o comandante da defesa do Fortim da Atalaia quando do ataque dos Kamés, que formam o grupo dos Kaingang daquela região. O ataque durou seis horas e foi vencido pelas tropas do tenente-coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal que estavam sob o comando de nosso pai. Como resultado daquele embate, os Campos Guarapuavanos, que os índios chamam de Koran-bang-rê, foram definitivamente conquistados, sendo agora o sítio onde está a cidade de Guarapuava. Após a derrota, os índios amansaram e seu cacique Pahy aceitou formar uma aliança com os brancos. Muitos, então, concordaram em vir aldear-se, e nosso pai sempre os acolheu e ajudou a criar uma ponte de confiança e bom relacionamento com eles. Além disso, em 1830 nosso pai publicou uma “Lista de Índios Habitantes”, para registrar os índios mansos de modo que as autoridades da província pudessem saber quais os indígenas que tinham aceitado o aldeamento e tinham sido acolhidos no convívio com os povoadores.
Que houvesse um registro de “índios mansos” era uma informação nova para Caxias. Se os índios mansos tinham nome de batismo e eram conhecidos e listados como cristãos, era um sinal auspicioso de que a civilização estava chegando àquelas plagas. Notícia mais agradável para os ouvidos do presidente da província não podia haver. Se um número significativo de índios viesse para a civilização em Passo Fundo, isso iria dar um impulso significativo a seu crescimento e progresso. E a experiência e o compromisso dos irmãos Rocha Loures com a política de civilização e apaziguamento dos índios Kaingang podia ser extremamente útil naquelas paragens. Agora, mais do que antes, o conde ficava tranquilo em relação ao curso de ação que pretendia seguir, especialmente quanto ao esforço de promover o aldeamento dos índios e apoiar a construção da nova estrada ligando o Rio Grande do Sul a São Paulo pela passagem do Goio-En.
Caxias voltou a se dirigir a seus visitantes e assumiu um tom mais solene:
— Senhores, sua vinda não podia ser mais oportuna. A sua missão vem bem ao encontro do meu desejo, e ao de sua majestade, o nosso dedicado imperador, de desenvolver a província. A construção da nova estrada me é particularmente grata, especialmente porque aproxima ainda mais nossa a província da de São Paulo, que é presidida por meu estimado cunhado, Manuel da Fonseca Lima e Silva. Estradas são as veias do progresso, mas as estradas desta província estão em situação lastimável. Estou trabalhando para reparar o maior número delas e, ao mesmo tempo, trabalhando para abrir as novas. Além disso há problemas de segurança. Como os senhores devem saber, temos registrado ataques dos bugres selvagens aos viajantes nas picadas dos Matos Português e Castelhano. Isso não pode continuar e ali estou providenciando melhorias. Já enviei ordens ao tenente-coronel Antônio Maria de Souza, o oficial que comanda o 2o Batalhão de Caçadores e a Guarnição de Cruz Alta, para reunir sua companhia de pedestres, seus praças e recrutar um grupo de trabalhadores civis para alargar em mais 30 braças essas picadas nos trechos mais perigosos. Minha intenção é alargar a picada do Mato Português na extensão de 2 léguas e a do Mato Castelhano em meia légua. Com essa providência os bugres não terão mais a facilidade de se esconderem para atacar as tropas e viajantes.
E indagou:
— Os senhores já ouviram falar de um cacique bugre chamado Nicué?
Os irmãos Rocha Loures, obviamente, já sabiam da existência daquele cacique, mal afamado por toda a região, assim como sabiam de suas arruaças.
— O que se comenta é que esse cacique é um rebelado desgarrado. – Replicou o tenente. – Ao que consta foi do grupo dele que o cacique Condá libertou, uns tempos atrás, umas crianças brancas que estavam sequestradas.
O conde confirmou:
— Foi o que me disseram. Aliás, esse bugre é muito atrevido. O grupo dele tem atacado nas picadas dos Matos Português e Castelhano e até no Campo do Meio. Ele aproveita a vegetação das margens para se camuflar e surpreender. Mas a recuperação das crianças foi mesmo notável. Ouvimos falar sobre elas lá na corte do Rio de Janeiro. Foi um assunto muito comentado pelo país todo. Minha esposa, Ana Luísa, e eu não podíamos ir a um sarau sem sermos inquiridos sobre essas crianças.
— Isso mesmo. Se dizia em Guarapuava que os jornais de todo o país falavam do feito. Mas temos na nossa região algumas autoridades que disputam se Condá realmente libertou essas crianças ou se foi um estratagema para ludibriar o governo e obter vantagens. Eu, que conheço bem Condá, sei que a verdade é que ele ficou sabendo das crianças e foi buscá-las. E sendo respeitado por todos os Kaingang, o grupo, que as tinha prisioneiras na região do Rio das Antas, as entregou. Minha suspeita é que o mandante tenha sido, de fato, o cacique Nicué, mas Condá não fala sobre isso.
— Ele terá suas razões. Talvez tenha prometido ao cacique que não o entregaria.
— Pois é. Imagino que deva ser algo assim. O fato é que o cacique Condá foi muito celebrado pelo feito. Mas eu estou certo de que ele fez o que fez pelas crianças. E, penso, para evitar que a tribo toda acabasse sendo inculpada. Ele afirma que nunca pensou em recompensas, mas acabou sendo festejado por todo o país. A maior surpresa dele, entretanto, foi quando recebeu um prêmio em dinheiro do presidente de São Paulo. Ainda mais ao ser convidado para viajar para receber o prêmio na capital da província paulista. Lá ele ganhou uma premiação bem expressiva diretamente das mãos do presidente paulista. A mim ele contou que essa foi a grande emoção da sua vida. Deve ter sido bem gratificante a experiência de ser tratado como herói pelos governantes brancos. O que compensa as perseguições que viveu, e ainda vive, por parte de gente mesquinha que o despreza e quer destruí-lo, como, aliás, a todos os índios.
— Alegra-me ouvir isso. – Falou o Conde de Caxias, enfatizando: – Quem tem espírito cristão sabe que os índios são filhos de Deus como todos nós. Eu andei tendo umas diferenças com o padre Feijó, mas sempre admirei a grandeza que ele teve, quando regente do império, em revogar aquela barbaridade que eram as Cartas Régias de D. João VI que autorizavam a “guerra justa aos índios”. Que tipo de guerra poderia ser “justa” se os índios estavam tendo seus territórios usurpados, estavam sendo escravizados e sendo dizimados sem dó nem piedade?
— Certamente – concordou o Tenente –, guerrear contra os índios sem motivo justo era uma injustiça que clamava aos céus. Mas, enfim, graças ao convite do presidente de São Paulo Condá teve oportunidade de conhecer uma cidade grande dos brancos. Saber como vivem as gentes civilizadas no mundo dos brancos. Pelo que ele afirma, contudo, o que mais o impressionou foi descer a Serra do Mar e ir até a cidade de Santos. Foi ali que viu o mar pela primeira vez. A imensidão das águas o emocionou profundamente. No porto, observou os muitos navios que ali estavam ancorados. Em seus relatos, depois de retornar, ele dizia que voltou maravilhado. Ainda hoje fala dos grandes veleiros que, ao seu ver, pareciam pinheiros plantados no mar-oceano. Ele ainda se emociona cada vez que relembra as águas imensas que formam uma lagoa tão grande que a vista não alcança onde acaba. Depois dessa viagem, o cacique veio mais amistoso com os brancos e com uma nova visão do mundo. Ele voltou convencido de que o entendimento entre índios e brancos é o único caminho para o futuro dos índios em um mundo em que os brancos têm tão grande poderio que podem usá-lo tanto para destruir quanto para civilizar os índios. Condá, um homem honrado que eu conheço desde guri, assegurou que vai nos ajudar a trazer os índios para a civilização. O primeiro passo é, logicamente, o aldeamento. Na sequência, a abertura do Caminho do Goio-En. Por ele, virão as riquezas e o progresso que beneficiarão a todos, brancos e índios. Ao menos, é o que espero.
O conde anuía com gestos de cabeça e juntou as mãos para completar:
— Deus o ouça! Deus o ouça!
Caxias dirigiu-se a ambos os visitantes:
— Meus caros senhores, sinto que estamos vivendo um momento histórico. Não há dúvida de que a pacificação do Rio Grande se consolidará à medida que esta, que após a desafortunada separação da Província Cisplatina se converteu na mais meridional das nossas províncias, se integre ao restante do país. Não tenho dúvida de que a passagem pelo Goio-En vai abrir uma nova fronteira para o desenvolvimento da província. Então é certo que precisamos agir com determinação e tomar a iniciativa. Espero que o aldeamento dos Kaingang do cacique Nonoai não só pacifique os índios de Passo Fundo e do Norte da província, como também convença o cacique Nicué a aceitar aldear-se e cessar seus ataques aos colonos. Estamos recebendo muitos colonos que vêm da Europa, especialmente alemães, e eles têm reclamado da insegurança. A Coroa tem particular preocupação com eles, que são industriosos e têm se dedicado à produção de alimentos de que muito carecemos na província. É lastimável que as notícias de ataques de bugres, ainda que muitas vezes exageradas, venham assustando muitos imigrantes e feito diminuir o fluxo de vinda de colonos.
O tenente respondeu:
— Excelência, saiba que, conhecendo os Kaingang e sua visão prática, acho que é provável que o cacique Nonoai e seus rekakê-pai, na medida em que fizermos um acordo vantajoso para eles, vão cuidar de dar cobro às rebeldias de Nicué. Ainda mais se o cacique Condá vier estabelecer-se por uns tempos na região para ajudar o Nonoai a organizar o aldeamento, como me consta que ficou acertado entre os dois. Os caciques dos Kaingang são muito ciosos de sua autoridade, e não acredito que deixem um chefe desgarrado se tornar um problema para os interesses maiores da tribo.
As palavras do tenente animavam Caxias. O frio tiritante teimava em penetrar no escritório, o que levou o conde a esfregar as mãos para aquecê-las. Apesar de estar já por algum tempo na Região Sul, o presidente da província ainda não estava acostumado com a inclemência de um inverno bem mais rigoroso do que aquele que conhecera no Rio de Janeiro ou nas províncias mais ao Norte. O aquecedor que tinha na sala era de pouca ajuda e, agora, com as brasas se apagando, quase não tinha mais serventia. Mas não queria distrair-se, e cuidar das brasas do aquecedor não era sua prioridade. Chamou seu ajudante de ordens, que aguardava sentado em uma sala contígua:
— Tenente Costa, poderia vir aqui, por favor?
Em segundos, o tenente pôs-se de pé e veio colocar-se em posição de sentido em frente ao presidente:
— Às suas ordens, excelência.
— À vontade, tenente. – Respondeu Caxias para, em seguida, fazer a apresentação de seu ajudante de ordens aos irmãos Rocha Loures:
— Senhores, gostaria de apresentar-lhes o tenente João de Souza Fonseca Costa. Ele é filho de meu amigo e companheiro de lutas, o Visconde da Penha, que foi meu ajudante de ordens em São Paulo, em 1842, quando tive que enfrentar, muito a contragosto, meu confrade, o padre Feijó, na Revolução Liberal de São Paulo. Suponho que os senhores, como paulistas, devem ter bom conhecimento daquele episódio que, lamentavelmente, tumultuou sua província há três passados. O tenente Costa hoje me serve com a dedicação que tive de seu pai. Recentemente o tenente esteve comigo na ação do Poncho Verde e a ele devo o excelente relatório da Posição das Forças Imperiais por ocasião do final do conflito.
Ambos os irmãos o cumprimentaram efusivamente. O tenente Rocha Loures mostrou-se surpreso com a juventude do ajudante de ordens:
— Parabéns, tenente Costa, por ocupar uma posição de tamanha responsabilidade sendo tão jovem. Penso que, pelo que aparenta, deve ser ainda mais jovem que nosso império.
O Tenente se mostrou agradado com o comentário:
— Sim, senhor tenente, acertou em sua conjectura. Sou nascido em 30 de abril de 1823, portanto cerca de oito meses depois da Proclamação da Independência do Brasil.
— Que auspicioso podermos contar com uma geração de brasileiros nascidos na pátria já liberta e que se mostram prontos a servir a nosso imenso país – comentou o Rocha Loures com efusão.
O Conde de Caxias, de sua parte, também aduziu:
— Pois assim é, senhores. Como podem ver, meu galante ajudante de ordens vem me atendendo com grande presteza e empenho. Mas, enfim, dado o esplendido pai que tem, outra vez confirma-se o ditado: “Tal pai, tal filho”.
E, ao dirigir-se ao jovem, deu a ele instruções de como proceder:
— Tenente Fonseca Costa – Caxias usou os dois sobrenomes para enfatizar a importância da tarefa que estava lhe passando –, apreciaria que tomasse providências para atender ao que solicita o nosso caríssimo padre Antônio de Almeida Leite Penteado. Vamos proporcionar todos os meios ao nosso alcance para que aquele bravo sacerdote disponha de condições para levar as luzes do cristianismo aos toldos dos Kaingang da região de Passo Fundo. Vamos providenciar um carregamento de mercadorias que sejam de agrado dos índios. Cortes de tecidos, roupas, utensílios e ferramentas para que o padre distribua aos indígenas. Providencie também um altar portátil completo, com os paramentos, cálice, galhetas, alfaias etc. Pela importância desse pedido, recomendo que cuide pessoalmente da incumbência.
O jovem Costa foi objetivo ao responder:
— Sim, senhor, presidente. Vou providenciar o cumprimento de suas ordens de imediato.
O presidente da província continuou:
— Também peça ao meu amanuense, o tenente Salustiano, para preparar ordens para o tenente-coronel Antônio Maia, o nosso comandante militar de Cruz Alta. Determine a ele que mande acompanhar o padre Antônio de Almeida Leite Penteado por escolta armada até o toldo do cacique Nonoai. Igualmente determine que providencie proteção para o altar portátil, assim como para as roupas e ferramentas que vamos enviar ao toldo dos Kaingang. Ademais, faça constar da ordem que nenhum indígena deve ser usado para prestar qualquer serviço sob comando militar. Os índios Kaingang não devem ser subjugados, humilhados ou escravizados, nem submetidos vexaminosamente sob nenhuma hipótese. Mais do que isso: as ordens precisam deixar claro que os Kaingang devem ser tratados com total consideração e até, diria, serem acariciados pelo comando militar para melhor atraí-los para a civilização. Meu intuito é desanuviar os espíritos e dissipar toda a má suspeita a nosso respeito. O propósito é mostrar espírito cristão e fazer amigos. Queremos um entendimento e uma aliança duradoura.
O tenente Costa respondeu afirmando:
— Sim, entendi suas determinações e vou cumprir suas ordens escrupulosamente. Vou zelar pelo atendimento às suas orientações. Alguma coisa mais, senhor?
O Conde de Caxias anuiu com a cabeça e sinalizou com as mãos a seu ajudante de ordens para que aguardasse, acrescentando:
— Sim, tenente Costa, queira, por favor, aguardar enquanto vamos acertar outras providências.
Dirigiu-se novamente a Francisco da Rocha Loures:
— Meu caro tenente, a seu ver, essas disposições atendem às necessidades do padre Penteado?
Rocha Loures sentia-se jubiloso. Imaginou que encontraria no Conde de Caxias um dignitário formal e pouco acessível, mas se deparava com um homem de ação, afeito a obter resultados, que tomava decisões com objetividade e precisão.
— Atendem perfeitamente, e creio que vão superar as melhores expectativas do padre Penteado. Penso que o senhor procede de forma muito acertada. E fico muito feliz com o apoio que dá ao trabalho missionário do religioso.
Caxias adotou um tom assertivo ao dizer a Rocha Loures:
— O senhor, o padre Penteado e o povo de Passo Fundo podem contar com o meu irrestrito apoio. O padre se propõe a uma missão evangelizadora que merece os meus mais efusivos encômios. Ademais, estarei sempre ao lado de tudo o que possa pacificar nossa gente, o que inclui ampliar nosso fraterno relacionamento com os indígenas e promover o avanço da civilização. O futuro da nossa nação passa pela união de todos. Felizmente, terminada a infausta revolução que tanto atormentou esta província, nada mais deve nos separar neste vasto território que nos une. Alegra-me dizer que, mais do que nunca, somos todos brasileiros.
O tenente Rocha Loures concordou:
— Vossa Excelência tem a mais completa razão. E, permita-me, devo asseverar que nos Campos de Guarapuava e Palmas a pacificação da Província do Rio Grande do Sul já nos alcança e mostra ser do mais imenso proveito.
O Conde de Caxias estava feliz com seus visitantes. Sendo homem de resultados, valorizava pessoas realizadoras como ele. A seu ver, a nação precisava de gente fazedora. E ele, que já estivera em distantes lugares do país, compreendia como poucos as dimensões e as potencialidades do Brasil. Cinco anos antes, em 1839, quando ainda era o coronel Luís Alves de Lima e Silva, viu-se chamado para assumir a presidência do Maranhão. Sua missão foi pôr em ordem a província e, ao mesmo tempo, organizar a repressão ao movimento revoltoso que ficou conhecido como Balaiada, que se constituiu em uma confrontação entre duas facções políticas, os Cabanos (de linha conservadora) e os chamados Bem-te-vis (de linha liberal). Eram esses os dois partidos que representavam os interesses políticos da elite maranhense na época.
Até 1837, o governo daquela província tinha sido chefiado pelos Bem-te-vis. Então, naquele ano, deu-se a eleição do conservador Pedro de Araújo de Lima para a Regência Única do Império e a consequente ascensão dos conservadores ao governo central, no Rio de Janeiro. Aproveitando o ensejo, seus correligionários locais, os Cabanos, não demoraram a se impor no Maranhão e logo trataram de afastar os adversários do poder. Essa mudança política repentina alterou a relação de forças local e acabou criando uma grande instabilidade na província. Em meio a uma situação fluida e cheia de animosidade, um incidente que parecia ser desimportante acabou tomando as proporções de uma revolta. Raimundo Gomes, um vaqueiro empregado em uma fazenda ligada aos Bem-te-vis, ao passar pela Vila Manga com um grupo de homens que trabalhavam com ele, teve seu irmão e alguns companheiros presos sem motivo. Depois de tentar, sem sucesso, soltá-los pela intercessão do subprefeito José do Egito, decidiu buscar ajuda e resolver a questão pelas próprias mãos.
Em 13 dezembro de 1838, Raimundo Gomes retornou à Vila Manga acompanhado de nove companheiros, todos bons de briga, bem armados e dispostos. Arrombou a prisão e, além de seu irmão e de seus companheiros, soltou também os outros presos da cadeia. Diante da facilidade do arrombamento e agora contando com um grupo de homens dispostos a tudo, decidiu tomar o controle da vila. Para sua surpresa, os 22 soldados encarregados da segurança policial local, igualmente inconformados com as mudanças políticas, resolveram aliar-se a ele. O ato repercutiu imediatamente em toda a província e muitos maranhenses, uns revoltados com as arbitrariedades dos novos donos do poder e outros por puro oportunismo, acorreram a unir-se à Raimundo. Entre eles estava Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, um fabricante de cestos de transporte, os chamados balaios. Manuel era um sertanejo nordestino desabrido e curtido na luta, alto e robusto, tinha, além de motivos políticos, forte motivação pessoal: havia sido afrontado pela autoridade policial da vila, que tinha violentado duas de suas filhas. Inconformado com a injustiça, juntou-se aos revoltosos e partiu para a vingança.
A agitação social causada pela revolta favoreceu os Bem-te-vis e colocou os desagradados contra o governo cabano. Em 1839, os balaios tomam a Vila de Caxias, a segunda cidade mais importante do Maranhão. A escalada dos rebelados estava pondo em xeque o governo do império. E foi a essa altura que a Regência decidiu intervir. Para retomar o controle, enviou ao Maranhão o coronel Luís Alves de Lima e Silva, que chegou com plenos poderes, ocupando a presidência da província e o cargo de comandante das Armas.
O coronel havia adquirido boa reputação como estrategista militar durante a Guerra da Independência da Bahia e na Guerra Cisplatina, entre 1825 e 1828, período em que foi o subcomandante do Batalhão Sagrado. Possivelmente, contudo, o que mais pesou para sua escolha foi seu desempenho na organização e comando por nove anos do núcleo policial que deu origem à Polícia Militar do Rio de Janeiro, em cuja função neutralizou ameaças ao Poder Central e conquistou a confiança da população carioca. A ele foi dada autoridade sobre todas as tropas do Maranhão e mais as do Piauí e do Ceará. Como comandante das Armas, o novo presidente da província deu solução aos problemas que encontrou e que desagradavam as forças militares. Pagou os soldos atrasados, organizou as tropas, treinou suas forças e, na sequência, iniciou o cerco e ataque aos redutos balaios.
Em 1840 o governo ofereceu anistia aos revoltosos, o que resultou na rendição de 2.500 balaios, inviabilizando o já combalido Exército. Os poucos que resistiram foram enfrentados e derrotados. Por ter obtido sucesso ao debelar aquela revolta que se arrastava e que teve como Centro a Vila de Caxias, foi oferecido ao coronel o título de barão. E, numa deferência especialíssima, o imperador permitiu que escolhesse o título de sua preferência. Luís Alves de Lima e Silva, então, optou por homenagear a vila onde obteve sua maior vitória naquela campanha e tornou-se o Barão de Caxias.
O novo barão havia nascido em 25 de agosto de 1803, na fazenda que era propriedade de seu avô materno, Luís Alves de Freitas, no tempo em que o Brasil era Vice-Reino de Portugal. A fazenda, chamada São Paulo, estava localizada no Taquaru, Vila de Porto da Estrela, na Capitania do Rio de Janeiro. Em 22 de maio de 1808, ocasião em que a família real portuguesa se transferiu para o Brasil, Luís Alves é titulado cadete de primeira classe, aos 5 anos de idade. O principal cenário de sua infância foi a Rua das Violas, onde sua família morava. Para fazer jus ao nome, naquela rua se concentravam diversos fabricantes de violas e violões e ali se reuniam músicos, trovadores e compositores. Luís Alves de Lima e Silva estudou no Convento São Joaquim até 1818, quando, aos 15 anos, matriculou-se na Academia Real Militar, de onde egressou em 1821. Já como tenente, foi servir no 1º Batalhão de Fuzileiros, unidade de elite do Exército do imperador.
Membro de família influente e bem relacionada na corte, logo definiu-se como patriota. Para ele, o Brasil era sagrado e manter a unidade do país, a maior das prioridades. Pregava que só uma nação unida podia ser uma nação forte. E preconizava que “não se pode ser súdito de uma nação fraca”. Segundo sua visão de patriota, as desavenças e disputas internas nunca deveriam superar os interesses maiores do país. Todos os brasileiros deviam deixar as mesquinharias em segundo plano para que o Brasil se tornasse a nação pujante com que sonhava. E, de tudo mais importante, entendia que o Brasil só teria um lugar privilegiado entre as nações do mundo se mantivesse intacto seu vasto território e, ao mesmo tempo, fosse capaz de reunir um povo que construísse sua grandeza, que o amasse e o defendesse.
Assim, por sua apaixonada dedicação ao Brasil, via como sagrada a missão de atrair novas almas para virem somar-se a uma ainda rarefeita população. O país precisava de gente, de modo que cada nova alma cidadã era para ser acolhida e festejada. Cada bugre selvagem que viesse para o lado civilizado somava poder e dava força para que a nova nação se consolidasse. Seu coração de patriota se deixava emocionar ao ver que o país tomava forma e se robustecia. Quem se alinhasse a esse pensamento era aliado e amigo. Quem discordasse seria combatido e precisava ser afastado do caminho.
Para concluir a audiência com os irmãos Rocha Loures, dirigiu-se mais uma vez a seu ajudante de ordens determinando:
— Tenente Costa, prepare ordens adicionais para o tenente-coronel Maia, de Cruz Alta, e dê instruções para que ele assegure apoio também ao tenente Francisco Ferreira da Rocha Loures, das Forças Pedestres paulistas. O tenente seguirá com o padre Penteado para visitar o toldo do cacique Nonoai e tratar com ele sobre a pacificação da tribo. O tenente Rocha Loures foi encarregado pelo governo de São Paulo para abrir uma nova estrada entre a província paulista e nossa província. E para executar a obra ele precisa que os índios não moLestem seus trabalhadores. Para obter a colaboração dos índios da região da estrada, o senhor Rocha Loures vai se encontrar com o cacique Nonoai e negociar os termos de um acordo.
Então voltou-se para Rocha Loures, indagando:
— Os termos estão adequados, senhor tenente?
– Sem dúvida que sim. Quem sabe poderia acrescentar na mensagem que vou com a disposição de ensinar os índios a utilizar as ferramentas para melhorar suas roças. Essa é uma ação que deve ser feita paralelamente à pregação do padre Penteado. Eu e meu pessoal vamos nos dedicar a ensinar o uso das ferramentas e o padre vai trabalhar na conversão dos índios ao cristianismo. Ele, por mais que tenha boa vontade, não terá como fazer as duas coisas. A meu ver, é muito importante que os índios saibam que desejamos levar a eles uma civilização que se preocupa tanto com os alimentos da alma quanto com os alimentos do corpo. Além disso, penso que a atividade de treinamento no uso das ferramentas vai deixá-los ocupados e contentes.
— Sim, o que diz faz todo o sentido.
O conde dirigiu-se novamente a seu ajudante de ordens:
— Tenente, vamos colocar um tópico com esse esclarecimento no texto das ordens ao tenente-coronel Maia.
Rocha Loures completou sua sugestão ao Conde de Caxias:
— Pelo sim, pelo não, acho que seria bom se pudéssemos ter o apoio da presença de uma Força Armada por alguns dias mais. Uma semana, duas, ou um pouco mais, para conduzir com tranquilidade esse primeiro contato. A simples presença do cacique Condá já será um fator de apaziguamento, mas seria bom respaldar sua autoridade com o apoio da força policial. Será uma forma de mostrar que ele conta ostensivamente com o respaldo do governo. Eu tenho o apoio de um pequeno destacamento policial comigo, mas são soldados da província paulista, e não conviria usá-los para prover segurança aqui no Rio Grande. Uma ação mais forte causaria desagrado entre os gaúchos. Além disso, penso que vamos precisar de Condá para convencer os recalcitrantes a aceitar um acordo. Condá talvez tenha que visitar alguns toldos como um gesto de boa vontade. E talvez seja conveniente ele ir conversar pessoalmente com alguns caciques rekakê para convencê-los. Então seria melhor ostentar força de modo a deixá-lo prestigiado para agir no primeiro momento. Também não podemos esquecer que todos esses cuidados visam, igualmente, a garantir que a estrada se mostre segura a seus usuários futuros, sejam eles tropeiros, comerciantes, colonos ou viajantes.
O Conde de Caxias concordou. Sorriu para si mesmo e pensou: “Este tenente é um rapaz de futuro. Sou capaz de apostar que chegará a brigadeiro em alguns poucos anos. O jovem sabe o que deve fazer para obter resultados e demonstra habilidade política”.
— O senhor tenente tem toda a razão. Vou emitir ordem ao coronel Maia para que dê cobertura à presença do cacique Condá entre os indígenas de Passo Fundo e região. Quando se trata de segurança, é melhor errar para mais do que para menos. Vamos prover-lhe a segurança necessária para cuidar dos entendimentos com o cacique Nonoai e seus índios.
Caxias voltou-se novamente para seu ajudante de ordens e inclui mais essas orientações. Era bom deixar claro ao coronel Maia que Rocha Loures tinha uma missão que ia além de abrir uma estrada às expensas da Província de São Paulo. Sua missão, para ser bem-sucedida, requeria criar um entorno de segurança de modo a fazer a estrada ser conveniente não só por ser mais curta e jeitosa. Estes eram motivos óbvios, que sensibilizariam muitos tropeiros, mas uma estrada bem protegida e acolhedora a fariam ser preferida por muitos dos tropeiros e colonos que demandavam à São Paulo. Interessava para a província atrair os negócios que viriam com tropeiros e com os povoadores do novo caminho no rumo de Sorocaba e de São Paulo. E qualquer pessoa sensata iria garantir que só haveria um entorno de paz no Alto Uruguai se envolvesse a boa vontade dos Kaingang, se compreendessem as vantagens de se aldearem em paz. Com prosperidade à vista, acreditava, estaria fechado o ciclo e garantido o sucesso de toda a operação.
Para avançar nesses esforços, outra vez voltou-se para seu ajudante de ordens e determinou:
— Tenente Costa, acrescente em minhas ordens ao tenente-coronel Maia que ele deve dar cobertura militar ao tenente da polícia paulista Francisco da Rocha Loures durante o trajeto até ele chegar ao toldo de Nonoai e, depois, pelo período que precisar. Coloque, como estimativa, que ele irá acampar nas proximidades do toldo por uns dez ou quinze dias. Dessa forma ele fica sob proteção nossa durante o período de entendimentos entre os caciques Condá e Nonoai, e durante o período em que o tenente Rocha Loures e seu pessoal vão ministrar ensinamentos aos índios sobre o uso das ferramentas agrícolas que vamos enviar aos Kaingang.
O jovem tenente Costa anotou escrupulosamente as ordens do presidente:
— Excelência, está tudo devidamente anotado. Vou passar suas determinações para o capitão Salustiano transcrever em suas ordens.
— Providencie também para que o tenente Loures e seu irmão recebam as ferramentas, as roupas e uma tropa de mulas para fazer o transporte. Quando tudo estiver pronto, indique uma escolta para acompanhá-los até Cruz Alta. Se for possível, peça para que a expedição para Cruz Alta seja conduzida por aquele mesmo guia que os trouxe de Passo Fundo até a capital.
Caxias lembrava do que Rocha Loures havia falado sobre o mensageiro que os tinha conduzido desde Passo Fundo. O presidente sabia que o moral elevado de seus comandados era meia vitória e, se bem entendera o testemunho do tenente ao relatar a opinião lisonjeira do mensageiro a seu respeito e a seu governo, aquele correio seria um apoiador valioso. Não se tratava de uma questão de ego: líderes curtidos como ele sabem que, quando seus homens da base começam, espontaneamente, a falar bem dos seus comandantes, o efeito multiplicador é instantâneo. E um mensageiro, a exemplo de Thiago Miranda, que circulava por toda a província e levava sua opinião para todos os seus distantes recantos, tinha efeito relevante na formação e na difusão de um moral elevado. Caxias, sempre atento aos detalhes, não deixaria de aproveitar a oportunidade de ampliar a boa imagem de seu governo junto aos irmãos Rocha Loures e, em Cruz Alta, junto aos agentes de seu governo e aos membros da comitiva do tenente. E o fazia menos pensando em seu governo, propriamente, e mais no ansiado esforço de integração entre as províncias do Rio Grande e de São Paulo.
Com a clara compreensão de que era necessário criar apoio popular para suas políticas, se valer do mesmo mensageiro que os tinha trazido a Porto Alegre para que, agora, os levasse a Cruz Alta e de retorno a Passo Fundo, tinha uma razão objetiva: difundir opiniões favoráveis a suas iniciativas. Era um pequeno lance de boa política, sim, mas nunca se sabe quando um pequeno gesto vai se multiplicar e tornar-se significativo. Mesmo pequenas decisões fazem diferença na luta cotidiana do líder pelos corações e mentes de seus liderados. Caxias imaginou que a prosa do caminho favoreceria o desenvolvimento de uma parceria “ombro a ombro” entre eles. Esses núcleos de relacionamento, já havia aprendido, eram fundamentais para ir tecendo a malha social da pátria. Ademais, Caxias valorizava, mais que isso, cultuava o companheirismo. Era nele que se forjavam as lealdades sobre as quais se construía a solidariedade e, em última análise, a civilização. Ao recomendar que o guia do retorno fosse o mesmo mensageiro criava o ensejo para que eles, os irmãos Rocha Loures e o mensageiro, fortalecessem uma amizade que poderia, ao sedimentar-se, render bons frutos futuros a eles, à própria província e à pátria. Também seria benfazeja a oportunidade de reunirem uma coleção de causos e histórias originárias das duas províncias vizinhas. Essas narrativas boca a boca entretinham as rodas de chimarrão e cimentavam as crenças e tradições do povo. Caxias desconfiava que as rodas de chimarrão eram um poderoso mecanismo de formação de opinião política no Rio Grande. Usá-las a seu favor era uma boa prática e um mensageiro de boa prosa, que ia de um lugar a outro na província, passando adiante suas narrativas e causos, podia se converter em um aliado muito útil. Especialmente se falasse bem do governo, o que parecia ser o caso.
Com essa disposição em mente, Caxias voltou-se para o tenente:
— Como é mesmo o nome daquele mensageiro que, como disse, é meu apoiador? Aquele que os trouxe lá de Passo Fundo?
— O nome dele é Thiago. Thiago Miranda. – Respondeu o alferes.
— Thiago Miranda. Muito bem.
O conde voltou a dirigir-se a seu ajudante de ordens:
— Tenente Costa, creio que ouviste o nome do mensageiro Thiago Miranda, pois não?
— Certamente. Tenho seu nome devidamente anotado.
— Ótimo. Então procure localizá-lo e, caso ele ainda esteja na capital, peça a seus superiores que determinem que ele fique a meu serviço e se incumba da tarefa de guiar os irmãos Rocha Loures e a comitiva de transporte que segue com eles até Cruz Alta e, depois, até Passo Fundo.
— Vou providenciar. Suas ordens serão executadas com toda a presteza.
O conde fez um sinal para que ainda aguardasse. E dirigiu-se aos visitantes:
— Senhores, acho que com estas providências podemos dar início ao nosso esforço de atrair o cacique Nonoai e sua tribo para um acordo de aldeamento, para a cristianização e para a civilização. Vou pedir para o tenente Costa acompanhá-los até meus secretários para que providenciem o que acharem útil. Temos um armazém com ferramentas onde poderão escolher o que julgarem mais proveitoso para uso dos índios. Para os outros itens de armarinho necessários, nosso depósito central dispõe de morim, chitas, tecidos e roupas de uso geral. Separem um lote do que desejarem lavar aos indígenas do cacique Nonoai. Não esqueçam do altar portátil. E se precisarem de mais alguma coisa, basta pedir ao tenente Costa, que ele está, desde já, autorizado a providenciar.
Os irmãos Rocha Loures levantaram-se, agradeceram a atenção que receberam e as providências do Conde de Caxias. O presidente, antes de se despedir, finalizou:
— Digo-lhes, com sincero agrado, que meu dia foi muito proveitoso graças à vinda dos senhores. O recanto Norte de nossa província, a região de Passo Fundo e do Alto Uruguai, é uma nova e preciosa fronteira a ser resgatada para a civilização. Um mister de que os senhores vêm ajudando a dar conta. Garanto-lhes que vou acompanhar pessoalmente os progressos da missão que estão empreendendo. Saibam que a considero uma das mais importantes em que envolvo meu governo.
E dirigindo-se ao tenente Rocha Loures acrescentou:
— Senhor Rocha Loures, fico muito grato por poder contar com seus préstimos. Vou oficiar ao presidente de São Paulo relatando sobre o quanto apreciei e estimei esta honrosa visita ao meu gabinete. Vou referir ao Senhor Presidente Manuel da Fonseca Lima e Silva, uma vez mais, que vejo auspiciosamente a iniciativa da construção da nova estrada e reafirmar a ele que coloco à disposição todos os meios de que dispomos para apoiar a iniciativa, na medida de nossas possibilidades.
O tenente Rocha Loures respondeu, agradecendo:
— Vossa Excelência está sendo mui generoso. Nós é que fomos imensamente honrados por sua acolhida. E temos a agradecer sua iniciativa de nos oferecer a escolta a partir de Cruz Alta. Vamos mantê-lo informado de nossos progressos com o cacique Nonoai e tudo o que diz respeito à estrada. Espero poder, em breve, comunicar boas notícias.
O Conde de Caxias achegou-se ao tenente e a seu irmão e tomou-lhes os braços afetuosamente, enquanto dizia:
— Amigos, confio no sucesso de vossos esforços. Entre as tarefas do meu cargo cabe-me lembrar sempre que não são só os grandes feitos que sustentam a existência humana. No passado, nossos maiores sobreviveram da caça e da coleta, como hoje ainda sobrevivem os índios selvagens. E como éramos individualmente frágeis, nós nos reunimos para sobreviver. Quando a agricultura foi descoberta, nós cultivamos trigo e domesticamos animais para sobreviver. Quando as habilidades fora da agricultura se tornaram necessárias, os artesãos trocaram seus apetrechos com os frutos do cultivo da terra para sobreviver. Aos poucos aprendemos não só a sobreviver, mas também a acumular riqueza e a prosperar. E os povos primitivos se organizaram em nações para pudessem atingir seus desígnios. E cada geração é colocada diante de novos desafios. O nosso Brasil é parte das Américas, o novo continente que a nós cabe desbravar e desenvolver. E se hoje estamos desbravando novas fronteiras aqui, neste rincão colosso; se estamos nos irmanando aos índios que aceitam o cristianismo e vêm se somar aos brasileiros; e se estamos abrindo estradas por estas matas de Deus, caminhos por onde irão circular as novas riquezas de nossa nação, devemos agradecer aos céus; precisamos elevar nossas preces de gratidão porque somos abençoados. De modo, senhores, que meu coração de patriota fica imensamente feliz em saber que essa importante estrada do Goio-En, essa que os senhores se incumbem de abrir, vai ajudar a trazer prosperidade aos patrícios desta província, assim como para os de São Paulo e de todo o país. Acredito que estão plantando uma semente de progresso que permitirá à gente desta terra sonhar com dias melhores. E é isto o que nos cabe fazer. De coração, desejo-lhes boa sorte. Sigam com Deus.
E assim despediram-se. Os irmãos Rocha Loures foram conduzidos aos funcionários do governo a que cabiam as providências determinadas pelo Conde de Caxias.
Guiados pelo tenente Costa, circularam pelas diversas repartições e, finalmente, foram orientados a aguardar na hospedaria as informações sobre os preparativos para a viagem. Enquanto isso, o pessoal do palácio iria encarregar-se de localizar Thiago, o mensageiro.
Ao saírem do palácio já se aproximava o fim da tarde. O céu, transparente como cristal, começava a mostrar as primeiras estrelas. O dia, que começara gélido e fora aquecido e iluminado pelo sol, agora voltava a ser um friorento dia do inverno rio-grandense.
Uma missão para Thiago, o mensageiro
Thiago Miranda, o mensageiro, estava atarefado. Sua casa, uma típica casa de madeira com cozinha de pedras de cantaria, construída em meio a um jardim com cercadinho baixo, no recorte do uma pequena elevação, precisava de reparos. O telhado tinha sofrido com a força dos ventos do inverno. A calefação precisava de reforço, com muitas frestas deixando o frio entrar. E ainda tinha outras necessidades de que Thereza, a companheira com quem estava casado há 15 anos, cobrava atenção. Thiago fez uma lista do que precisava fazer. Seria trabalho puxado, dele e dos garotos, para bem uns 15 dias. E teria de comprar algumas coisas.
“Menos mal” – pensou consigo mesmo – “acredito que devo dispor destes quinze dias antes da próxima viagem”. O tempo entre as viagens costumava ser menor, mas ele havia praticamente emendado as duas últimas missões e alimentava a esperança de que seu chefe não iria escalá-lo tão logo. Apenas não imaginava que o presidente da província tinha outros planos a seu respeito e havia, pessoalmente, determinado sua escalação para uma nova tarefa.
Do alpendre, foi Thereza que viu o grupo se aproximar. Eram três cavaleiros e pareciam vir apressados. Mas ela nem precisou chamar a atenção do marido, que, de cima da escada encostada no telhado, viu os homens vindo na direção de sua casa. Pressentiu logo más notícias. Temia que seus planos se dissolvessem no ar. Ainda mais quando reconheceu que os seus companheiros da viagem de vinda estavam acompanhando um dos ordenanças do Corpo de Mensageiros do Palácio. Suspirou desanimado e, de coração na mão, desceu lentamente os degraus. Os visitantes, ao verem Thiago no pé da escada, foram ao seu encontro:
— Buenos dias, caro Thiago, salve. – A voz inconfundível do tenente Rocha Loures, treinada no comando de ordem unida, podia ser ouvida acima do barulho dos cascos e do alarido dos cães de Thiago.
Logo os cavaleiros chegaram até a casa do mensageiro e apearam dos cavalos. Seguiram-se os cumprimentos do reencontro. O sargento da brigada que servia no Corpo de Mensageiros, depois dos cumprimentos, foi direto ao assunto que o levava até Thiago Miranda, que o conhecia do palácio:
— Senhor Thiago, buenos dias. Trouxe ordens do presidente da província. Ele determinou pessoalmente que vossa mercê seja o guia do retorno do tenente Rocha Loures e de seu irmão para Cruz Alta e depois para Passo Fundo. O assunto já foi tratado pelo tenente Fonseca da Costa com o chefe do Corpo de Mensageiros e as ordens já estão acompanhadas da sua liberação para esta a missão.
Thiago sentiu um frio no estômago. Era o que ele temia. Enfrentar novamente a estrada e, mais uma vez, afastar-se da família por semanas. Para Thiago não poderia haver perspectiva mais dolorosa. Se pudesse escolher, preferiria abandonar seu trabalho de mensageiro. Oportunamente procuraria outra opção, mas não tinha nem como pensar nisso agora. Ao seu lado, a doce Thereza, ao ouvir a mensagem trazida pelo sargento de ordens, sentiu como se um raio caísse sobre si. E não teve como evitar um sentimento de amargura profunda. Em seu pranto silencioso, uma lágrima escorreu por sobre sua face. Mais uma ausência. Ela novamente antecipava a dor do vazio do companheiro que amava, do homem cheio de vida que preenchia suas horas com alegria e humor e do pai modelar que, mais uma vez, ficaria longe dos filhos. Para ela, na ausência de Thiago, o tempo embromava preguiçoso. Os dias sem o ser que a completava e a preenchia ficavam ermos, tristes, desolados. As noites escureciam cedo e se enchiam de medos. E logo agora, que a paz voltava na província e que prometia oferecer ao menos alguns dias felizes, o dever vinha outra vez deixá-la solitária e na companhia da saudade.
Thereza tinha consciência de que os dias de Thiago em casa eram sempre contados. A vida de mensageiro era de ausências. Por isto, valorizava cada um dos momentos vividos em família. Preciosos tanto para ela como para os filhos. Desta vez, especialmente, alimentara a esperança de que poderiam viver uma sequência de semanas juntos. Talvez pudessem festejar a paz recém-conquistada. Ao lado dele, poderia dedicar-se, sem receios, ao carinho que nela ele inspirava. Ansiar pelas noites em que atravessariam abraçados. Pelos sussurros que a inebriariam. No conforto que iria haurir do corpo daquele homem. Estavam casados por quase 15 anos, mas o fervor do amor que nutriam um pelo outro continuava intacto como no primeiro dia. Thiago era a extensão de sua vida. A alma gêmea que a fazia tremer de abandono e viver a plenitude de sua alma e de seu corpo de mulher. Quem mais saberia encantá-la com suas canções viris? Quem mais seria capaz de levá-la ao êxtase com a magia da voz rouca, declarando, arrebatado, uma paixão sem limites? Balbuciando palavras de ardor incontido, modulada de tons másculos e do frêmito do minuano? Ela pensava também nos seus meninos. Os guris eram criados com carinho, mas com escassa presença do pai. A falta que ele fazia seria sentida mais uma vez.
O tenente Rocha Loures notou o semblante sofrido de Thereza e percebeu que Thiago a fitava com evidente desalento. Viu ele ir abraçá-la para consolar seus soluços reprimidos. Apeado, aproximou-se. Queria dar um abraço no mensageiro e cumprimentar sua mulher. Rocha Loures era duro nos embates da vida, mas, sob sua aparente fortaleza, era sensível às lágrimas femininas. E, secretamente, invejou o amigo. Naquelas paragens rústicas, onde viver um amor apaixonado era raro como os eclipses do sol e tão infrequente como as nevascas na primavera, onde um casal raramente se expressava com gestos de desvelo e carinho, aquela demonstração de mútua devoção era notável. Na fronteira rude em que viviam, os casamentos costumavam ser mais parcerias de conveniência do que de comunhão de almas. Muitos se casavam por interesse ou alguma forma de proveito. Uns por razões financeiras, outros pela necessidade de constituir família, ou mesmo de obter mútuo arrimo, de complementar as tarefas da vida diária. Isto não significava, claro, que a totalidade dos relacionamentos fosse desprovida de amor ou com base em motivos toscos ou brutos.
Em meio à luta cotidiana, encetada para domar as dificuldades da sobrevivência e superar os obstáculos da vida, havia histórias de paixão e arrebatamento, como eram exemplo Garibaldi e Anita. A força do amor sempre encontrava brechas. Mesmo entre as pedras, vez ou outra, se encontravam flores que desabrochavam por entre as frestas. Este era o caso de Thiago e Thereza. Mesmo em meio à dura refrega da Revolução Farroupilha e, agora, no pós-guerra ainda doído, Thiago e Thereza conseguiam manter intacto seu conto de fadas. Juntos ainda preservavam o frescor do encantamento, dos gestos galantes e da ternura de se redescobrirem mais apaixonados a cada dia. Isto é o que os irmãos Rocha Loures testemunhavam ali. Ambos tinham aprendido a estimar aquele mensageiro sui generis, um misto de menestrel com gaudério, que parecia sempre seguro de si e determinado a encarar tudo o que fosse e viesse, mas que lhes surpreendia revelando uma inesperada faceta sentimental que trazia escondida.
O tenente, por seu lado, lamentando ser a causa involuntária daquela situação de amargura, pensou em fazer algo para amainar um pouco a agonia que uma nova ausência forçada do mensageiro causaria naquela família. Então, voltou-se para o sargento e perguntou:
— Ilustre sargento, a seu ver, quanto ainda será a demora de nossa partida?
O sargento respondeu coçando o barbicacho do chapéu:
— Dado que as ordens vieram diretamente de Sua Excelência, o presidente da província, acredito que teremos tudo pronto em um par de dias. Menos o altar portátil, que foi preciso mandar fazer. O altar deve demorar mais uns três ou quatro dias.
O tenente voltou-se para Thiago:
— Pois então, Thiago, tens ainda um par de dias para aproveitar. – Consolou. – E se quiser, desde que estamos sem outra coisa mais premente para fazer, podemos voltar amanhã e ajudar nos consertos de sua casa. – E dirigindo-se ao irmão, perguntou o que ele achava.
—Mas com toda a certeza. Sim, podemos vir para um mutirão e ajudar no que pudermos. – Foi como respondeu João Cypriano, que a esta altura já tinha sido inspirado por uma ideia e maquinava um plano que envolveria Thiago. Contudo, antes de falar sobre a ideia precisava conversar com seu irmão.
O tenente de novo voltou-se para Thiago e confirmou:
— Como vê, meu irmão concorda com a ideia. Combinado, então?
Thiago ficou tão surpreso quanto sensibilizado pela inesperada oferta de ajuda.
— Obrigado e aceito. Toda ajuda é bem-vinda. Mas não precisam se incomodar.
Foi João Cypriano que respondeu:
— Fazemos questão e teremos satisfação em ajudar. E, depois, será melhor do que ficar sem ter o que fazer.
Thiago completou:
— Amigos, nem sei como agradecer, mas não vou me fazer de rogado. Minha Thereza tem sofrido com os problemas da casa, que fica sem reparos por todo o tempo que ando fora. Alguma coisa ela e os meninos consertam, mas telhado gotejando, janelas que não fecham direito, frestas na madeira por onde entra o frio são coisas que eu mesmo preciso resolver.
O tenente concordou, respondendo com bom humor:
— Pois é o que meu pai sempre diz para minha mãe, quando ela reclama que tem que fazer tudo: “Casa sem homem de martelo na mão é casa que não tem porta nem tem tampa no alçapão”. – Riu de sua tirada e continuou. – Então estaremos aqui amanhã, bem cedito no más.
Nessa hora chegavam os três garotos do casal. Vinham com os bodoques pendurados na cintura e uma coleção de aves, pombas e perdizes, que haviam caçado para reforçar a dispensa.
Thiago, ao vê-los, os chamou e os apresentou aos visitantes:
— Estes são meus guris. Este é o mais velho, Rodolfo, que tem 14 anos. O meu segundo aqui é Jonas, que tem 13 anos, e o caçula é o Lucas, com 12 anos. Eles são meus substitutos. São os homens da casa que assumem meu lugar quando viajo a serviço.
Os irmãos Rocha Loures cumprimentaram os meninos, que, educadamente, estenderam a mão. E ficaram admirados com a forma polida como se comportavam. Tinham os cabelos alourados e os olhos claros, que herdaram da mãe, mas Rodolfo tinha a compleição robusta, que herdara do pai. Os meninos ficaram lado a lado, aguardando que a mãe os liberasse. Era evidente que formavam uma família unida e bem ajustada. Os Rocha Loures perceberam que os pais precisavam dar atenção aos meninos e, portanto, não tinham mais razão de prolongar a visita. Visita, aliás, que ocorrera por mero acaso, quando o sargento do palácio os viu e foi ao encontro deles dizer que seguia para a casa do mensageiro com a precípua incumbência de comunicar a Thiago a decisão do presidente da província. Despediram-se e, ao lado do sargento da brigada, voltaram pelo caminho pelo qual vieram.
No caminho da volta se separaram do sargento quando se aproximavam da hospedaria onde estavam alojados. No trajeto até a hospedaria, com os cavalos a passo, João Cypriano explicou sua ideia ao irmão:
— Francisco, como tu sabes, meu projeto é estabelecer-me em definitivo na região de Passo Fundo.
— Sim, tu tens falado sempre destes teus planos.
— Pois é verdade. Aquela região vai crescer muito e acredito que o novo caminho vai dar certo. E isto significa que o negócio de invernadas deve se expandir rapidamente pela região da nova estrada. Com a pacificação da província aqui, no Rio Grande, o negócio das tropas deve se multiplicar. Tu sabes, como nos informam de São Paulo, que a expansão das lavouras de café e da “avalanche cafeeira” no Vale do Paraíba está uma coisa de loco. Os produtores de café estão pagando um absurdo pelas mulas que chegam a Sorocaba. E estão a exigir mais e mais animais de transporte. De maneira que o novo caminho, que é mais curto e menos taxado que o caminho via Lajes, vai conquistar muitos tropeiros novos e deve atrair até tropeiros que já estão acostumados ao trajeto antigo. Portanto, quem for o primeiro a montar invernadas para o gado no rumo de Guarapuava vai ficar rico. Tudo o que é preciso é o acordo com o cacique Nonoai para fazer a estrada ter segurança.
Francisco concordou com o irmão:
— Sim, concordo com o que dizes, João Cypriano. Acho esta uma muito boa ideia e já estamos acertados neste ponto. E concordo que tens em mão um negócio de muito potencial e que pode fazer a tua fortuna.
João Cypriano continuou:
— Pois muito bem. Ocorre que, para montar estas invernadas, bem o sabes, vou precisar ter ao meu lado homens que conheçam a lide do gado. Alguns posso trazer emprestados de outras invernadas da família. Por aqui mesmo posso conseguir alguns antigos soldados farrapos. Gente guapa que sabe lidar com animais e com as mulas. Mas o que mais me faz falta é um bom capataz que consiga me trazer fregueses. Neste negócio, como em qualquer outro, a coisa ainda mais importante é ter fregueses. E meu sucesso vai depender de atrair comitivas para usarem as invernadas. E o primeiro passo será convencer os donos de tropas a fazer o caminho pelo Goio-En, que será onde vou instalar as invernadas.
Francisco ficou bem impressionado com o que seu irmão João Cypriano lhe disse:
— Bem pensado, meu irmão. – Sorriu divertido ao comentar. – Eu sabia das invernadas, mas, reconheço, ainda não tinha pensado na freguesia. E devo concordar que faz sentido o que tu me dizes: o mais importante é mesmo conseguir freguesia.
— É um assunto que me faz pensar. Acho que as invernadas da família em Ponta Grossa e Castro podem nos fazer a indicação de alguns condutores e dono de tropas, mas acho que vou ter mesmo que me virar. Lá por cima existe muita concorrência e cada um cuida de si.
— Pois é, meu caro. Acho que um negócio que fica na dependência dos outros não costuma dar muito certo. O que pensas fazer?
— O que penso é que eu vou precisar sair atrás e ir buscar minha freguesia. Veja, se tu tens as invernadas instaladas no Caminho do Goio-En, as tropas que escolherem aquele trajeto vão acabar vindo utilizar as invernadas existentes. Especialmente se tiverem um bom preço comparadas com as invernadas de Vacaria e dos Campos de Cima da Serra. Não tenho dúvida que muitas tropas acabarão vindo, mas não quero ficar anos esperando. Tenho que sair na frente. Quem chega primeiro bebe água limpa, como sabes.
— Bem, mas o que é mesmo que tens em mente, mano? – Perguntou o tenente Rocha Loures.
João Cypriano pegou a guampa onde levava a água e bebeu um gole bem demorado. Depois, pigarreou para preparar a voz. Era importante falar claro para que seu irmão entendesse e aprovasse sua ideia.
— Mano Francisco, o que me deu na veneta foi um lampejo de boa ideia. O que penso fazer é muito simples: eu quero contratar esse mensageiro, o Thiago. Eu quero propor ao mensageiro para que venha trabalhar comigo. Penso propor a ele que se mude com a família para Passo Fundo.
O tenente Rocha Loures ficou boquiaberto:
— A la pucha, tchê, que por esta eu não esperava. – A expressão aflorou espontânea por conta da surpresa.
João Cypriano continuou:
— A ideia surgiu de repente. Mas, quanto mais penso nela, mais me agrada. Eu acho que ele seria um baita capataz no meu negócio de invernadas. Ele sabe tudo sobre o trabalho em uma estância e deve saber lidar com a mulada dos tropeiros. Além disto ele apresenta duas qualidades que vem a calhar: primeiro, ele sabe tudo sobre as trilhas e caminhos aqui no Rio Grande e, segundo, ele deve conhecer um mundaréu de gente que lida com tropas. E deste modo pode ter facilidade de divulgar o meu negócio e atrair uma boa freguesia. E tem mais: o vivente é de fala macia e apto a uma boa conversa. Se ele sair apregoando o novo caminho vai convencer miles e miles de tropeadores e condutores de tropas a seguir pelo Goio-Em, e aí, no embalo, essas tropas vão desaguar direto nas nossas invernadas.
O tenente Rocha Loures ficou absorto por alguns momentos considerando a ideia do irmão. E acabou por concluir que era, de fato, muito boa. Se João Cypriano convencesse Thiago a se mudar para Passo Fundo e a trabalhar com ele, seria uma aquisição e tanto.
Respondeu sem esconder sua admiração pela excepcional ideia do irmão:
— Gostei, João Cypriano. Tiveste uma barbaridade de uma boa ideia! Duvido, e te digo que faço pouco, que há de existir alguém mais talhado para ser teu capataz. E pelo que vimos agora a pouco, acho que não vai ser difícil convencê-lo. Penso que podes começar por oferecer a ele uma casa nova e muito maior e melhor do que aquela que ele tem hoje. Eu ajudo na construção com o meu pessoal.
— Obrigado, Francisco. – João Cypriano agradeceu com entusiasmo. – Tu me ajudas a convencer o Thiago?
— Mas é claro, mano. Repito que a ideia é boa por demais. Te digo que se convencermos o Thiago a mudar para Passo Fundo vais ter um capataz de prima qualidade. Creio mesmo que a contratação do Thiago será um primeiro passo importante para tu formares uma equipe capacitada para tocar teu negócio e para juntares teus interesses com os outros negócios da família.
A conversa cessou por momentos. Os irmãos cavaleavam sem pressa. Compartilhavam aquele tão raro quanto precioso momento de companheirismo. Era como se o tempo tivesse parado e os irmãos retornassem à infância. Voltassem a um tempo de folguedos e alegrias que lhes parecera eterno, mas que passara em um vapt-vupt feito uma garça em voo. Enquanto cavalgavam, começaram a trocar opiniões sobre aquele pitoresco mensageiro que João Cypriano queria recrutar. A perspectiva de contarem com Thiago abria novas possibilidades. Ele seria uma nova peça a se encaixar, à perfeição, no projeto de João Cypriano. A colaboração de parceiro tão ajustado ao que os irmãos precisavam os vinha deixando empolgados. Aquele mensageiro era, sem dúvida, um personagem sui generis. Dotado de mil talentos, se afigurava a pessoa certa para o lugar certo. Estavam convencidos: recrutá-lo era o que deviam fazer. Tratariam de convencê-lo, de um modo ou de outro. Debateram sobre o que oferecer até chegarem à hospedaria. E depois, durante o jantar, consolidaram a decisão. Por fim, tudo deliberado e decidido, foram dormir antecipando as emoções do dia seguinte.
Quem conhece o Sul sabe que o inverno do Rio Grande pode ser congelante. O dia subsequente fez jus à fama frígida da estação do frio nos pampas. A manhã estava, de fato, fria e garoenta. A cama da hospedaria convidava para mais um sono, mas era preciso afastar a tentação, posto que tinham um combinado a cumprir. Levantaram resmungando e vestiram a roupa sobre as ceroulas com que haviam dormido. Na cozinha deram com um desjejum de entrevero de pinhão, uma apetitosa mistura de pinhão com carnes bovina, suína e toucinho, feito na chapa, uma fritada de ovos mexidos e pão de milho com mel, acompanhado de leite espumando, recém-ordenhado das vacas da hospedaria. Antes de saírem ainda tomaram uma rodada de chimarrão e, com as botas ressoando no assoalho de madeira, trataram de pôr-se a caminho. Meia hora depois, enrolados nos ponchos, chegavam até a morada do mensageiro Thiago Miranda. Ainda no caminho viam a fumaça saindo da chaminé da casa dos Miranda e sentiram o aroma de pão recém-assado. Tinham feito o desjejum, sim, mas aquele aroma prometia. Por isso aceleraram o passo de suas montarias.
Apearam dos cavalos e logo foram recebidos por Thiago e toda a família. Ele, Thereza e os guris, todos perfilados na porta de entrada.
— Buenas, amigos. – Gritou Thiago a plenos pulmões. – Vamos se achegando e entrando que a casa é vossa e o chimarrão está pronto. – Thiago foi sinalizando para que ambos os irmãos entrassem na pequena sala de jantar que ligava com a cozinha e se mantinha aquecida pelo fogo de lenha no fogão.
Os irmãos Rocha Loures entraram e foram acomodar-se nas banquetas da sala. Observaram alguns pães dourados sobre uma mesinha perto do forno. Os irmãos olharam um para o outro encabulados: seria de boa educação tomar a iniciativa e pedir uma fatia? Mas não foi preciso. Thereza percebeu o olhar de interesse de ambos os irmãos e agiu rápido:
— Acho que este pão campeiro, de trigo bem moído, deve ter aguçado vosso apetite. Vou preparar umas fatias com mel silvestre e servir com leite recém-ordenhado.
Os irmãos Rocha Loures riram prazerosos.
— Mas certamente que aceitamos. – João Cypriano falou pelos dois. – Nós já fizemos o desjejum, mas o aroma de seu pão abriu mais um lugar no nosso estômago.
Rapidamente Thereza cortou duas generosas fatias do pão recém-assado e serviu com um pote de mel de abelhas silvestres, um pote de manteiga e dois copos de leite morno. Os irmãos cobriram as fatias daquele pão macio e cheiroso com uma generosa camada de manteiga, e sobre ela puseram uma camada de mel, que escorria pelas beiradas. Eles nem acreditavam que um simples pão com manteiga e mel, acompanhado de um copo de leite morno, pudesse ter tanto sabor.
— Obrigado, dona Thereza – falou o tenente depois de comer sua fatia. – Nunca pensei que um pão com manteiga e mel pudesse ser tão gostoso. E o pão está maravilhoso. Acho que este foi o melhor pão que já comi.
Thereza apenas sorriu ao responder:
— Fico feliz em saber que os senhores tenham gostado. Meus meninos vão ficar alegres em saber que o mel que ontem colheram no mato agradou aos senhores.
O tenente falou pelos dois:
— Pois diga aos guris que o mel deles está doce como mel – gracejou entre uma mordida e outra.
Thereza pediu licença e foi cuidar de outros afazeres, deixando os visitantes na companhia do marido.
Os irmãos Rocha Loures olharam em volta. A sala era simples, mas acolhedora, com o telhado à mostra. E era evidente que o vento e o frio penetravam por muitas frestas. Algumas perderam o piche com que haviam sido calafetadas e outras tinham enchimento de musgo, mas este precisava ser reposto. Era uma morada singela, embora mantida com dignidade. Ao olhar em volta, uma coisa que surpreendeu o tenente Rocha Loures foi uma prateleira com muitos livros e cadernos. E, num canto, um acordeão de botões, do tipo que os alemães tocavam, um instrumento de cordas que não conhecia, que lembrava uma pequena harpa de mesa, e um violino, que parecia estar com cordas faltando.
— A la pucha, Thiago, pois então gostas de ler? Observo que tens uma biblioteca bem formosa. E quem toca estes instrumentos? – Perguntou o tenente.
Thiago explicou:
— Os livros e os instrumentos de música são da Thereza. Eu também gosto de ler. Levo sempre uns livros e almanaques em minhas viagens e dou uma lida quando dá, mas o caso é que minha mulher tem paixão pelos livros. Quanto ao acordeão, este é meu. Foi presente dela. E eu aprendi a tocá-lo e ainda hoje ela me estimula. Foi meu interesse pela música que me aproximou dela. Mas, vejam, ali está uma cítara e um violino, que vieram com ela da Alemanha. Thereza era filha única de um casal de imigrantes e vieram no navio Germania, em 1824. Quando desembarcou era ainda menina. Tinha, beirando, uns 10 anos de idade. Desde guria, na Alemanha, seus pais a educaram do jeito alemão, com cultura e música. Os pais contavam que aos 4 anos ela já conseguia ler em alemão. Aos 6 ela já lia em latim, aos 8 anos lia em grego os escritos de Aristóteles e Platão. Toda noite eles faziam com ela leituras que estudavam e discutiam. Aos 9 anos seu pai começou a dar a ela noções de geometria e durante a viagem de vinda passou a ela conhecimentos da obra de Euclides. Quando decidiram vir para o Brasil, o fizeram pensando no futuro da menina. Queriam que ela continuasse a estudar aqui, no novo continente, e pensavam que a colocariam numa boa escola. Mas aqui, no Sul, quase não havia escolas. E, mesmo as poucas escolas alemãs, não aceitavam meninas. Por isto os pais resolveram, eles mesmos, dar a ela a melhor educação que podiam. Aos 11 anos ela já escrevia e lia em português. Com apenas 15 anos, Thereza já se tornara professora da escola alemã, onde dava aulas de música e ensinava piano e violino e ainda tocava cítara. Nessa época eu a conheci por acaso. Os pais de Thereza eram técnicos em próteses e atendiam alguns médicos alemães na província. Meu trabalho de mensageiro me fazia ir sempre levar encomendas e pacotes com material ortopédico na casa deles. Acabou que eu conheci a menina Thereza e me apaixonei feito bobo. Ela parecia ser uma princesa dos livros de contos de fadas. Aos meus olhos, ela era a pessoa mais encantadora que eu jamais havia visto. E quase desmaiei quando soube que ela perguntou por mim. Eu era um xiru xucro. Um bagual sem eira nem beira. Mas, em compensação, sempre fui bom de laço, ligeirito e maneiro com as gurias. Pois te digo, tchê, nunca deixei um cavalo arriado passar sem pegar as rédeas ou, em último caso, agarrar as crinas. Eu tinha aprendido um pouco de música numa gaita de boca velha que comprei trocando por pinga com um marinheiro alemão, no porto de Rio Grande. O marinheiro me ensinou a escala e pedi para ela me ensinar um pouco mais. Ela topou. Então ela tocava violino e eu ia atrás, arranhando na gaita e boca. Ela ficava aborrecida com as poucas músicas que dava para tocar na gaita de boca e, até hoje não sei como, conseguiu arranjar este acordeão com o pastor da igreja dela e me deu de presente. Aí comecei a estudar feito doido para impressionar a guria. Acabou que ela gostava de me ensinar música e eu passei a ensaiar umas cinco horas por dia para arranjar uma desculpa e poder tocar com ela. Mesmo quando eu viajava tocava pelas matas. Tinha vez que vinha índio ouvir. Eles gostavam de escutar e nunca me atacaram. Até me chamavam de “un gre megeme gaita”, que quer dizer “homem da gaita de ouvir”. Mas, como dizia, me tomei de paixão pela guria e andei nas nuvens por um bom tempo. Bom, para dizer a verdade, acho que ainda não desci das nuvens até hoje. E me acho a ponto de dizer que, enquanto tiver nuvem, não vou é descer nunca.
Rio dos Sinos – 1852 – Aquarela de Hermann Rudolf Wendroth (domínio público)
Thiago pausou para respirar e retomar o folego, daí prosseguiu com a prosa:
– Bem, o fato é que nos casamos em 1830 e pensei em me estabelecer com algum comércio. Comecei a negociar com couro e a fazer bolsas e objetos que chamam de “courinhos” para vender para a Alemanha, aproveitando o relacionamento dos imigrantes. Para que eu pudesse negociar melhor, Thereza até começou a me ensinar um pouco de alemão. A vida estava de bem para melhor quando estourou a Revolução Farroupilha. De repente, a confusão virou tudo de cabeça para baixo. De um dia para outro, nossos planos viraram fumaça. Em São Leopoldo e no Vale do Rio dos Sinos os alemães vinham chegando todo o dia e ainda estavam se instalando.
Quer dizer, muitos não falavam português e não estavam bem integrados. A alemoazada, apanhada pelo buchicho, ficou dividida. Uma parte decidiu ficar ao lado do doutor Daniel Hillebrand, que ficou com os legalistas. Ele era o médico mais importante da colônia e achava que os revoltosos representavam um perigo para os alemães. Afinal, os imigrantes tinham vindo por causa do convite do império. Os farroupilhas, é evidente, não gostaram nem um pouco da posição dos alemães do doutor Hillebrand. E, depois, diga-se na chincha, tinha montes de farroupilhas que, mesmo antes, já desgostavam uma barbaridade dos imigrantes, e de graça! Como represália, ainda no começo dos reboliços, os revoltosos que ocuparam a cidade passaram a perseguir e a ameaçar de morte os alemães que ficaram do lado do império. Temerosos, muitos decidiram ir de mudança para um núcleo alemão mais no Centro da província, em Santa Maria do Monte. Thereza e eu, que não morávamos em São Leopoldo, mas aqui mesmo, em Porto Alegre, estávamos um pouco mais afastados e protegidos da luta que envolvia os colonos de São Leopoldo. Os pais de Thereza, tendo que fugir, preferiram ir para o Uruguai. Seus pais tinham uma oficina de artigos de ortopedia onde faziam muletas, pernas de pau, mãos de gancho, botas especiais, cadeiras de rodas e coisas assim. Pela sua especialidade de artesãos ortopédicos, eram muito requisitados e tinham muito serviço no Uruguai. Um cirurgião de Montevidéu, um tal de doutor Sanches, que os conhecia de um contato em Porto Alegre, foi quem os convidou e os levou para lá. O cirurgião cuidava de feridos do Exército deles. Não demorou e, em 1836, os ventos mudaram de novo. A cidade de Porto Alegre decidiu se posicionar em favor dos legalistas e contra os revolucionários. Os farrapos foram forçados a sair da capital. Diante da nova situação, uma boa parte dos alemães liderados pelo doutor Hillebrand voltou para a colônia de São Leopoldo. Os pais de Thereza, entretanto, decidiram esperar um pouco mais. Thereza, que os ajudava na oficina, queria que retornassem logo, mas eles estavam bem no Uruguai e desejavam ver a situação se definir antes de voltar. Além disso, eles viviam atolados de trabalho, porque, afinal, não tem nada que faça mais aleijado do que guerra, não é mesmo? – Achou graça de seu humor negro. – O pai de Thereza, que se chamava Klaus Krueger, havia sido aprendiz, na Alemanha, em uma oficina de próteses para amputados. Tanto lá, na Europa, como aqui, a profissão deles era um negócio que dava um dinheiro bem macanudo. De modo que os pais de Thereza tinham conseguido uma posição confortável em Montevidéu e iam tocando a vida. Aí, em 1839, estourou no Uruguai outra guerra civil, dessa vez por um entrevero entre liberais e conservadores. Apanhados entre os dois grupos, os pais de Thereza passaram a ser disputados para prestar serviços aos dois lados e sofriam ameaças de um lado e de outro. Aí eles decidiram que era hora de voltar para São Leopoldo. Tiveram que fugir de noite, porque nenhum dos lados iria deixar que escapassem. Quando voltaram, compraram uma pequena propriedade nos arredores da cidade, mas do lado de fora dos muros de defesa contra os republicanos. Eu falei que era arriscado, com os farroupilhas sempre fazendo o cerco à cidade. Mas eles achavam que, por isto mesmo, o preço estava barato. E que a oficina deles atendia também os mutilados dos republicanos, de modo que podiam se sentir seguros. Neste meio tempo, eles resolveram que precisavam de couros melhores para os aparelhos que faziam. Como não conseguiam os couros na qualidade que precisavam, decidiram começar um pequeno curtume de animais. Eu já estava fora do negócio de couros, que foi paralisado com a revolução, mas os ajudava a instalar o curtume. Eles tinham intenção de abater os animais, processar o couro para dispor das correias para as próteses e venderiam a carne. Eu até pensava em parar de viajar como mensageiro e em aproveitar o couro para voltar ao negócio de fabricação das sacolas e bolsas e objetos de courinhos. Para iniciar o curtume eles aproveitaram uma oportunidade e compraram algum gado de couro bom. Infelizmente, antes de terem condições de abater as primeiras rezes, eles foram vítimas de uma incursão de roubo de gado por parte de um bando de renegados farrapos. Eles foram atacados no começo de 1841, e ambos os pais de Thereza foram mortos. A ironia é que foram assassinados na chácara perto de São Leopoldo onde estavam montando o curtume e onde tinham colocado os animais. Aconteceu que, quando viram que os animais estavam sendo roubados, saíram de arma em punho e enfrentaram os ladrões. Foi uma pena morrerem assim, tentando defender os animais que tinham acabado de escolher pela qualidade do couro. Animais que serviriam para fazer próteses para os legalistas e para os farrapos igualmente, uma gente que eles nunca haviam se recusado a atender. Para Thereza e para nós, foi uma tragédia. Os pais dela tinham feito muitas dívidas para montar o curtume e nós não estávamos preparados para tocar o negócio deles. Então, após sua morte, tudo o que tinham foi tomado. Para Thereza o que ficou foram os livros, as partituras e estes instrumentos musicais, que ela agora protege como o seu bem mais precioso.
O mensageiro, fez um momento de silêncio, interrompendo sua narrativa, tomado pela emoção. E, com a cabeça entre as mãos, lastimou os fados de um destino que tinha sido traiçoeiro e cruel com os pais de sua mulher e avós de seus filhos. Escolher viver naquelas paragens rudes, disputadas a ferro e fogo numa arena de ambições desenfreadas, ódio e selvageria, cobrava seu preço. Contudo, se a cada um cabia um destino, era forçoso enfrentar os fatos e superar a dor. Naquelas terras conflagradas ser forte era a condição de sobrevivência, e sobreviver era preciso. O tenente Rocha Loures pousou os olhos em Thereza. Sentiu grande pesar pela desventura daquela mulher ainda jovem, que se conservava esbelta, não obstante seus 30 e poucos anos. O custo humano de desbravar fronteiras e alargar horizontes sempre foi alto. Ele bem o sabia. Thereza, como tantas pessoas que viviam naqueles tempos turbulentos, pagava um tributo pela simples ousadia de escolher aqueles rincões para viver.
Thereza, mais afastada, a tudo ouvia silenciosa. Tinha o coração apertado pela dolorosa lembrança de seus pais. Sim, é verdade, o destino fora traiçoeiro. Mas sua religião a ajudava a entender que Deus é justo e intervém de maneira nem sempre entendida por seus filhos. E se a vontade dos homens podia ser poderosa e contrariar os desígnios divinos, no final Deus compensava para que a justiça prevalecesse e recompensava seus filhos a seu modo, a seu tempo e no seu mundo, de tal modo que os desígnios divinos sempre terminavam por prevalecer. Se fosse da vontade Dele, os caminhos iriam levá-los para onde deveriam estar. Sua família fora abençoada. Tinham sido felizes. A vida de seus pais, que compartilhara, pouco conhecia rotinas. As conversas à noite eram sempre muito alegres, animadas e prazerosas. O trabalho de seus pais, sempre envolvidos com cirurgias, órteses e próteses, fazia com que os assuntos ligados aos traumas, especialmente as cirurgias, fossem temas sempre presentes e que ela achava fascinantes. Em sua casa eram frequentes as visitas dos cirurgiões ambulantes. Muitos vinham e pernoitavam. E havia sempre muita música, o que, ao menos, consolava as agruras da vida desafiadora de quem lidava com o sofrimento em uma região sempre conflagrada. A ausência de seus pais era sentida e lembrava do carinho que sempre recebera. E como sempre se sentira privilegiada diante das suas amigas, que, salvo poucas meninas da elite, raramente tinham chance de receber a educação que ela tinha tido. As gratas lembranças daqueles dias estavam conservadas em seu coração e por todas elas agradecia ao criador. Sendo resoluta e determinada, todavia, estava resolvida a proteger seus filhos e a dar-lhes um destino que orgulharia seus avós, estivessem onde estivessem.
João Cypriano aproveitou a deixa para levantar o assunto que o fazia ficar inquieto:
— Thiago, se me dás um minuto, eu gostaria de tratar contigo um assunto que conversei com meu irmão e a respeito do qual estamos de acordo.
Thiago voltou-se para João Cypriano ao responder:
— Mas certamente, amigo. – Aproveitou para afastar da lembrança a desventura de seus sogros e se mostrou um tanto intrigado. – Podes falar que estou de ouvido prontito no más. Me diga do que se trata.
João Cypriano limpou a garganta antes de continuar:
— Eu gostaria de fazer a ti uma proposta que acredito possa te cativar sem ressalva. Vou te falar sem rodeios: gostaria de te oferecer uma colocação de capataz nos negócios que vou abrir em Passo Fundo. Acho que é uma oportunidade macanuda por demais. Nossa família tem invernadas do lado de riba do Uruguai, nos Campos de Guarapuava e nas rotas de tropeiros até os lados de Ponta Grossa. Nossa gente negocia com animais, tropas de muares e gado. Meu intuito é me estabelecer com invernadas em Passo Fundo e, especialmente, no novo caminho que cruza o Uruguai no Passo do Goio-En. Vislumbro um grande futuro neste caminho. Cada dia sobem mais muares das regiões missioneiras da Argentina e são mais numerosas as comitivas arregladas nos Campos de São Borja e tropeadas para Vacaria e para o Caminho Real, passando por Passo Fundo. Essa rota velha cruza o Mato Castelhano, o Campo do Meio e o Mato Português, trechos cheios de bugres onde são comuns os ataques de índios rebeldes e até de bandidos desgarrados. O novo Caminho do Goio-En desvia deste trecho e encurta o caminho passando por dentro, indo pelos Campos de Palmas e por Guarapuava. Só bem adiante, quando chega aos Campos Gerais, é que encontra o Caminho Geral. Nesse trecho do caminho novo ainda não existe quase nenhum apoio para as tropas. E é por isto que eu vejo que nele existem imensas oportunidades para montar minhas invernadas. Eu observei que tu tens todas as qualidades para me ajudar neste negócio. Se quiseres, tu podes ser o meu braço direito nos negócios que vou montar para aproveitar o novo Caminho do Goio-En. Aceitando este convite, tu terás um futuro muito melhor do que o que tens hoje. O risco é quase nenhum. E, como diz o ditado, quem chega na frente bebe água limpa.
Thiago ouviu a proposta com assombro. De tudo o que poderia cogitar, nunca imaginara que iria receber uma proposta de trabalho. Olhou surpreso para os irmãos enquanto absorvia a novidade.
Respondeu a João Cypriano:
— Oigalê, amigo, que tu me pegas de supetão. Isto é uma proposta? De verdade? Te digo, sem enlear debalde, que nunca esperava por uma enrodilhada como esta. Ainda estou meio aturdido pelo que me dizes. Mas, sem bem ouvi e bem entendi, tu queres mesmo que eu trabalhe para ti?
— Sim. Bem ouviste e bem entendeste. O que desejo é que venhas somar forças comigo e me ajudar a implantar as invernadas que quero criar no Ato Uruguai. Esta é a minha proposta. – Confirmou João Cypriano sem rodeios.
Thiago coçou a cabeça antes de responder:
— E, neste caso, tu queres que eu me mude para lá?
João Cypriano confirmou com a cabeça e completou:
— Sim, o quanto antes. Acho que tenho uma proposta que é tão vantajosa que é irrecusável. E acho que a posição que te ofereço pode ser um grande negócio para ti. O que proponho é pagar o dobro do que tu ganhas como mensageiro e, ainda, pagar boas comissões nos negócios que conseguires. E, entre outras vantagens, não vais mais precisar fazer tantas viagens nem ficar longe da família tanto tempo. Afinal, preciso contar com um homem como vosmecê para ser meu braço direito nos negócios que vou montar.
O tenente Rocha Loures achou que tinha bons argumentos para acrescentar aos já apresentados por seu irmão e interveio na conversa:
— Thiago, tu tens a grande oportunidade de dar um impulso na tua vida. Os negócios de meu irmão vão dar certo, assim como estão dando certo os negócios da nossa família em Guarapuava e Ponta Grossa. E nós dois gostamos muito de vosmecê. Assim, dou todo o apoio a meu irmão na proposta que ele te faz. Ele não poderia fazer melhor escolha. E a prova de que acreditamos nesta parceria contigo é que a primeira coisa que vamos fazer, caso estejas de acordo, vai ser construir para ti uma casa nova. Uma boa casa para mudares com tua família. Uma casa de verdade, de parede dupla e de madeira aplainada, bem melhor do que esta. Meu pessoal de construção está lá com todo o necessário. Em um mês terás uma casa nova. Pronta para acolher tua família. E se aceitares se mudar já, tua família pode viajar na comitiva porque nós vamos custear tudo. Chegando a Passo Fundo, Thereza e teus filhos poderão ficar hospedados na Fazenda Nossa Senhora da Conceição enquanto fazemos a tua casa nova.
Thiago ainda estava atordoado. Aquela proposta era tão surpreendente quanto tentadora. Muito tentadora, na verdade. Ele olhou em volta e se deu conta de que nada tinha que o prendesse àquela casa nem a Porto Alegre. Tinha o emprego de mensageiro, mas este era arriscado uma barbaridade e pagava demasiado pouco. Os proventos que recebia mal davam para viver. E, conquanto o status de mensageiro era melhor do que o de soldado ou pedestre, sua condição social era, no entanto, muito aquém daquela que queria oferecer a Thereza. Os meninos ainda não tinham idade para se importar com o nível social da família, mas suspeitava que Thereza, ainda que nunca reclamasse, haveria de sofrer mortificada pela precariedade de sua condição. Ele, que acreditava serem as oportunidades como cavalos arriados que passam ao lado do vivente e que metade do sucesso na vida dependia de estar preparado para agarrar as crinas e pular na sela antes que outros o fizessem, entendeu que a proposta dos irmãos Rocha Loures era sua chance:
— Amigos João Cypriano e Francisco, estou sem palavras. Esta proposta é como um relâmpago que me cai do céu. É, digo sem resguardo, uma oportunidade que me soa esplêndida.
— E então? – Quis saber João Cypriano, revelando sua expectativa.
— Preciso pensar um pouco. – Respondeu Thago. – Preciso conversar com Thereza e com meus guris, mas meu primeiro pensamento é o de aceitar. Falo por mim e, penso, falo por Thereza. Eu conheço o Planalto e a região de Passo Fundo desde que fui recrutado para a viajar como mensageiro. Eu conheço muitos dos caminhos de lá porque precisei me esconder nas matas e evitar os revoltosos farrapos mais de uma vez. Em mais de uma vez eu me vi como a caça. Em mais de uma vez eu me senti como perdiz fugindo de perdigueiros. Este seu amigo era uma presa valiosa. Toda vez que este mensageiro do governo imperial carregava alforjes abarrotados com documentos e missivas oficiais dos legalistas representava um troféu glorioso para os revoltosos. Sinto um calafrio só de lembrar, mas caso eu fosse apanhado, Deus me livre e guarde, eu poderia ser pendurado na primeira árvore. – Sentiu um arrepio só de pensar, enquanto passava a mão pelo pescoço. Respirou fundo para acalmar-se e continuou. – Amigos, no meu mister, enfiado nas sendas e matas, saltando peraus e margeando os rios, o que pude ver é que a região do Planalto é de muita riqueza. Vale a conquista. Ao mesmo tempo, conheço as picadas pelos Matos Castelhano e Português e sei que os bugres de lá são numerosos e traiçoeiros. Por isto, acho que um caminho que bifurque em Passo Fundo e tome rumo para o Norte, cruzando o Rio Uruguai neste falado Goio-En, haverá de ser muito requisitado. Com a condição que os bugres de lá sosseguem e deixem as comitivas passar.
O Tenente disse, na sequência:
— Sim, meu caro Thiago, é nisto mesmo que acreditamos. Ademais, como bem o sabes, viemos a Porto Alegre precisamente para tratar com o presidente da província de detalhes sobre esta nova estrada. Entre eles, o mais importante foi, justamente, a questão dos índios e da segurança. Queremos amansar os bugres, queremos que os Kaingang aceitem ir para um aldeamento e sejam amigos. Precisamos fazer o que seja necessário para ter paz na estrada.
Thiago concordou:
— Sim, de fato, sei qual foi o objetivo de vossa viagem. – Thiago dirigia-se aos irmãos. – Estou bem lembrado que conversamos muito a respeito do assunto durante nossa viagem.
João Cypriano sentiu o momento favorável e dourou ainda mais a proposta:
— Amigo Thiago, queremos vosmecê em nossa equipe. Nem preciso repetir que eu tenho intenção de montar uma estância de invernadas para abrigar e revigorar os rebanhos cansados que venham do Sul e da Argentina e que seguem com destino a Sorocaba, em São Paulo. Tu deves saber que estas invernadas são um bom negócio e já existem no Caminho da Costa, na região de Lages e em toda rota do Caminho de Viamão. E como conheces muitos tropeiros e tens conhecimento com autoridades em todo o Sul, tu podes ser um agente de corretagem de minhas invernadas e ganhar muito dinheiro agenciando invernadas. Para cada rebanho ou tropa que tu trouxeres para invernar terás garantida uma comissão. Logo vais ganhar mais dinheiro em um mês fazendo corretagem do que ganhas em anos como assalariado neste trabalho de mensageiro.
O tenente Rocha Loures, que além de observar as reações de Thiago observara também as de sua mulher, viu que os olhos de Thereza brilhavam e que ela demonstrava que a proposta lhe agradava. Aí, teve mais uma ideia:
— Thiago, não preciso repetir que eu apoio a decisão de meu irmão em fazer-lhe uma oferta irrecusável. E levar sua família para lá é parte da proposta. Por isto, perdoe por cogitar, mas sua esposa, se for de seu gosto, poderia também ter uma ocupação. Se ela e vosmecê aceitarem, acho que ela poderia ser contratada como professora para ensinar as crianças lá em Passo Fundo. Precisamos urgentemente de uma professora. Para ter sucesso em atrair novas famílias precisamos oferecer uma escola instalada e funcionando. É uma necessidade urgente. No caso de meu irmão, por exemplo: visando a atender à necessidade das invernadas, ele vai precisar montar um entreposto comercial. O local deverá contar com armazéns, lojas e afins. Também vai precisar de forjarias e oficinas. Enfim, para fazer as invernadas funcionarem será preciso atrair gente. O João Cypriano vai, igualmente, precisar de peões para o manejo dos animais. Irá precisar de domadores para fazer a doma das mulas xucras que venham para invernar. E não dá para esquecer que serão necessários tropeiros com experiência para conduzir tropas entre as invernadas. Da parte do controle e conservação da estrada, que é a minha preocupação maior e o tema que me diz respeito mais direto, vamos precisar de contadores, escreventes e gente para cuidar da administração. Assim vamos ter que trazer trabalhadores e suas famílias. Concluindo, se tivermos condições de oferecer uma escola de letras na localidade, com uma boa professora, teremos uma ajuda de muita valia para convencer as famílias a se mudarem levando os filhos. Caso dona Thereza aceitar a função, nem preciso dizer, ela terá um salário e será bem recompensada. Ademais, além dos ganhos de professora, ela poderá oferecer uma escola oficial para os guris.
Thiago, que já estava um tanto assombrado com o seu convite, agora o estava ainda mais com o convite feito a Thereza. Seus olhos procuraram o dela. Eram parceiros e companheiros. Estavam juntos para os bons e maus momentos. Haviam prometido, um ao outro, estarem juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. E um havia prometido ao outro que iriam amar, respeitar e manterem-se fiéis até que a morte os separasse. Estava implícito, nos compromissos que tinham entre si, que, caso decidissem assumir riscos e se abrir para a aventura, ambos o fariam juntos. Thiago, ao olhar para Thereza, o fazia como se lhe entendesse a mão. Antes de responder, antes de dizer “sim”, tinha que saber como Thereza responderia. Claro que Thiago, depois de tantos sonhos juntos, acreditava intuir o pensamento de sua companheira. E estimava saber de antemão o quanto ela apreciaria a oportunidade de recomeçar a vida em um novo horizonte.
Thereza, como Thiago julgava, tinha alma de professora. No convívio da família, Thiago divertia-se vendo aflorar em Thereza os gestos da educadora que adorava ensinar. E ensinar, para ela, era explicar o mundo. E, em seu afã de explicar o mundo, precisava, antes, dedicar-se a compreendê-lo. Estudar e desvendar os segredos do mundo era a vocação de Thereza em tempo integral. E nada a comprazia mais do que compartilhar o que descobria com seus filhos e com todos ao seu redor. Assim, por conhecer Thereza, sabia que ela iria adorar ser professora. De maneira que era com efusiva alegria que via surgir a ocasião de desamarrar as restrições que a limitavam na capital. Ali, nas condições em que viviam, era óbvio que Thereza sentia falta das oportunidades culturais que tivera em sua adolescência e que lhe foram cerceadas pela Revolução Farroupilha. O assentimento que ele esperava veio na forma de um sorriso luminoso e por meio de duas lágrimas de alegria que viu escorrer no rosto da companheira que amava. A manifestação de emoção de Thereza fez Thiago decidir que sim, abraçariam o novo desafio e iriam encarar o que a ocasião lhes apresentava. Fé, coragem e disposição tinham de sobra e, assim, não havia nada a temer. A decisão estava tomada.
E depois, tudo considerado, permanecer na capital também oferecia incertezas de monta. Apesar dos esforços do presidente da província, ainda havia áreas inconformadas, carências e dificuldades na pacificação. Para Thiago e Thereza, o que era meridiano é que as certezas que haviam conhecido durante os anos turbulentos da Revolução Farroupilha tinham sido bem poucas. Viveram anos de angústia, especialmente tendo sido ele um servidor do império que atravessava as perigosas áreas inimigas. Thiago e Thereza ansiavam por viver em paz e mudar-se para outro lugar. Queriam desfrutar mais da companhia um do outro e verem os filhos crescerem juntos. E se mudar lhes parecia desejável, esta era a hora. Com a graça de Deus, e com as sofridas lições da vida que tinham vivido nos anos recentes, aprenderam a reconhecer uma oportunidade quando a tinham diante de si.
O mensageiro temia, por vezes, agir impulsivamente e se comportar como um dantesco desbragado, mas vinha refreando seus rompantes. A preocupação com a família o fazia tomar cuidados extras. Não tinha mais gosto em entrar em buchicho de peito aberto e aprendera que era sempre melhor apertar o barbicacho do chapéu antes, e não depois, de partir no galope. Enfim, cautela boa é aquela que aconselha verificar se os arreios estão firmes e não aquela que impede de cavalgar. Contudo, naquele momento e circunstâncias, não era preciso mais que instantes para sopesar os prós e os contras para tomar uma decisão. É verdade que na vida todas as certezas são enganosas, mas diante daquela chance que, num repente, se abria para eles, era aceitar os riscos ou perder a oportunidade. Um sentimento de alegria começou a irradiar de seu coração. Não iria deixar escapar aquela chance que podia abrir um novo horizonte para ele, para Thereza e para os filhos. Se não aceitasse o desafio, soube na hora, para sempre se apequenaria. E fazê-lo tolhendo o futuro dos filhos era algo impensável. Olhou para Thereza, a chamou para perto de si com um gesto e tomou sua mão. Ela mostrava sua aprovação com um sim silencioso, mas eloquente. E foi com convicção e de coração leve que fizeram saber aos irmãos Rocha Loures do que decidiram.
Thiago, apertando a mão de Thereza, falou por ambos:
— Bueno, meus amigos João Cypriano e Francisco da Rocha Loures, vamos aceitar a oferta. Estamos prontos para seguir com vosmecês e ver o que o futuro nos reserva em Passo Fundo.
João Cypriano abriu um largo sorriso ao receber a resposta.
– Mas que bela notícia me dão, amigos. Fico feliz barbaridade e lhes dou a garantia de minha palavra que lá não terão motivos de arrependimento.
Thiago apenas acrescentou:
— Preciso que nos deem um par de dias para arreglarmos nossas coisas. – Buscou o olhar de Thereza, enquanto ainda segurava sua mão. – Minha patroa e eu precisamos nos despedir dos amigos e eu preciso pedir meu desligamento do governo e informar aos meus chefes que estou indo de mala e cuia para morar no verdejante planalto de Passo Fundo.
Assim foi que combinaram.
Rumo aos campos abertos do Planalto Médio
Agora mudavam as prioridades. Era preciso pensar na mudança, preparar a viagem e separar o que deveriam levar. João Cypriano, para facilitar as coisas, disse que as mesas, cadeiras, o rústico fogão a lenha, as camas, tudo podia ficar. Eles fariam tudo novo na casa nova. O mais, roupas, utensílios de cozinha, ferramentas da oficina que foram dos pais de Thereza, poderiam levar. E, para evitar perda de tempo com preparativos, João Cypriano tomou a iniciativa de perguntar se Thiago conhecia um tropeiro de cargas que dispusesse de mulas e animais de aluguel para fazer a mudança.
Sim, Thiago conhecia um homem que fazia mudanças por empreitada. Trabalhava tanto com carroças como com tropas de mulas. Considerando as estradas, a distância e o tipo de carga, a escolha das mulas era a mais lógica. Thiago e os irmãos Rocha Loures foram conversar com o homem e acertaram que ele faria a mudança até Passo Fundo. Contrataram uma comitiva com dez mulas a serem conduzidas por um tropeiro experiente que viria como mestre-de-tropa. Assim, além de levarem toda a mudança, poderiam carregar as duas bruacas com alimentos para a viagem. Nelas colocariam biscoitos, arroz, feijão, farinha, sal, açúcar e charque.
Thereza e os garotos se puseram a trabalhar na separação e no empacotamento da mudança. Thiago fez caixas para proteger os bens mais preciosos e, portanto, mais bem cuidados, que eram os instrumentos musicais, os livros de canto e as partituras. Havia o violino, que fora do pai de Thereza, instrumento que estava silencioso por lhe faltarem cordas, difíceis de conseguir por causa da revolução, e por também carecer de reparo nas cravelhas. Tinha ainda o bandolim, o instrumento que Thereza mais tocava nas sessões de canto da família, uma cítara austríaca e o acordeão de Thiago, que fora uma aquisição mais recente. Assim como os instrumentos, os livros e partituras de músicas e cânticos tinham vindo da Europa.
Dois dias depois, enquanto terminavam os preparativos para a mudança, o emissário do governo comunicou que o altar portátil estava pronto e que uma parte da carga destinada aos índios, formada por roupas e ferramentas, também estava já pronta e arrumada para seguir viagem. A parte restante seria enviada para Passo Fundo assim que possível. De modo que a comitiva poderia seguir para Cruz Alta e lá receber a escolta para prosseguir a Passo Fundo e, depois, até o território dos índios Kaingang.
Na sexta-feira pela manhã, sob grande algazarra e atraindo a atenção de um grupo de curiosos, as mulas da tropa de carga do governo do estado, e mais as mulas e cavalos da comitiva da família de Thiago, puseram-se a caminho. Na liderança da comitiva das mulas ia a mula madrinha com o cincerro preso ao pescoço badalando. A madrinha era uma mula veterana, viajada e de muitas caravanas. A essa mula cabia liderar os animais fazendo soar o cincerro, que servia como referência para os demais muares. As mulas seguiam alinhadas e levavam a carga que havia sido colocada em seu lombo. Os três vira-latas da família pareciam exultar com a novidade da viagem. Corriam e latiam excitados, fazendo voltas em torno da comitiva. Os cavalos mostravam nervosismo, mas as mulas nem tomavam conhecimento.
As 70 léguas de distância que havia entre a capital e Santa Maria da Boca do Monte tomaram dez dias de viagem. Nem foi tanto, graças à ajuda do tempo e à disposição de todos para enfrentar as trilhas recém-alargadas por decisão do novo presidente da província. O caminho via Santa Maria foi o escolhido por ser o mais seguro para o grupo e que seguia as trilhas mais habitadas. Além disto, a preferência de Thiago por este caminho, que era 12 léguas mais longo e tomava um dia extra, tinha por fim permitir que Thereza mantivesse contato com alguns amigos de seus pais que estavam morando em Santa Maria. Muitos dos alemães que haviam saído de São Leopoldo nos primeiros momentos da Revolução Farroupilha tinham ido para lá visando fugir das perseguições que sofriam por parte dos revolucionários.
Ao chegarem a Santa Maria da Boca do Monte, Thereza, acompanhada de Thiago, foi em busca do pastor Nicolaus Becker. Ela sabia ser ele o pastor de confissão luterana que era o responsável pela comunidade religiosa alemã ali radicada. Seguindo indicações de pessoas que encontraram no caminho, logo encontraram o pastor. Ele era também o professor da escola da comunidade, a Gemeinschaftsschule. A casa onde estava a escola, e que fazia às vezes de capela, não podia ostentar símbolos religiosos não católicos. A Constituição do Império dizia, em seu parágrafo quinto: “A religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Estado. Todas as demais religiões serão toleradas, em casas para tanto destinadas, sem qualquer forma exterior de templo”. Isso queria dizer que não eram permitidos torre, cruz, vitrais, sino, enfim, nada que lembrasse igreja. Segundo o pastor, porém, não havia necessidade de sinais exteriores. A fé ou existia nos corações dos fiéis, ou não existia.
O pastor tinha sido amigo dos pais de Thereza nos tempos mais amenos de São Leopoldo. Ao reconhecer Thereza e Thiago, ele os recebeu com grande alegria. Imediatamente os levou ao encontro de outros imigrantes que foram amigos dos pais de Thereza. Alguns que tinham viajado juntos e feito a travessia do Atlântico alimentando as mesmas esperanças. Amigos que lembravam daquele casal de pioneiros alegres e generosos que tinham chegado ao Brasil ainda em 1824, cheios de sonhos, muitos dos quais compartilhados com os de outros imigrantes das primeiras levas de pioneiros. Imigrantes que, como eles, desembarcaram no Rio de Janeiro e, de lá, seguiram em navios “Costeiros” em direção a Porto Alegre, um lugar remoto que, afinal, ninguém tinha ideia de onde ficava. Alguns dos quais tinham embarcado juntos nos lanchões que os levaram pelo Rio dos Sinos acima, até as proximidades da extinta Feitoria do Linho Cânhamo, um galpão fabril desocupado em que ficariam acomodados. O trajeto final, da área de desembarque dos lanchões até a casa da Feitoria, era feito em carros de boi.
A Real Feitoria do Linho Cânhamo tinha sido um empreendimento do governo colonial instalado em 1783, a mando do Marquês de Pombal, primeiro-ministro do império de Portugal, para produzir velas e cordéis para o velame dos navios. Originalmente instalado em Canguçu Velho, na região de Pelotas, os produtos eram escoados pela Lagoa dos Patos a partir de um porto localizado no Arroio Corrientes.
Por causa da pouca fertilidade do solo, a Feitoria foi transferida, em 14 de outubro de 1788, para a região denominada Faxinal da Courita, no Vale do Rio dos Sinos. Da nova feitoria a produção era transportada para Porto Alegre pelo Rio dos Sinos, que assim se convertia na primeira via econômica da região. A Feitoria do Rio dos Sinos se compunha de uma casa-grande, onde ficava o Centro das atividades fabris e que dispunha de moradia para o feitor e sua família, de uma senzala para moradia dos escravos, de estábulos para animais e depósitos diversos. A Feitoria havia persistido por 36 anos, mas devido a seus parcos resultados foi extinta em 31 de março de 1824, sendo sua casa-grande e suas terras de cultivo destinadas aos imigrantes alemães que recém-chegavam ao Rio Grande do Sul por intermediação do major Jorge Antônio von Schaeffer.
O reencontro inesperado de amigos que se imaginavam para sempre perdidos no olvido animou os espíritos dos que perseveravam, mesmo que acabrunhados pelas aperturas, e reacendeu em muitos a esperança de conseguirem, um dia, vencidas as dificuldades, construir nos pampas o destino auspicioso que lhes havia sido prometido pelo major Schaeffer em nome do imperador. Um mundo que, se para muitos não se tinha mostrado tão acolhedor e receptivo como esperavam, ainda assim mantinha a promessa de prosperidade e oferecia uma alternativa ao destino de dificuldades do Velho Continente. Em meio a um panorama que desconheciam – as árvores eram outras, os pássaros, diferentes e até a luz do sol e o azul do céu pareciam ter matizes distintos –, uns suspiravam para os outros: “Gott sei Dank dass wir endlich ganz angekommen sind”… (Graças a Deus que, finalmente, chegamos aqui inteiros…).
Todavia, o que os imigrantes não demoraram para descobrir é que deste lado do Atlântico, apesar da natureza mais amena e generosa do que na frígida Alemanha, os homens que aqui encontraram também eram belicosos e as desavenças deste lado do Atlântico igualmente desencadeavam guerras e conflitos. Mas, não obstante o desapontamento que esta constatação lhes causava, ainda apostavam nesta terra que lhes parecia tão pródiga e generosa. Quando aceitaram trocar os panoramas da Europa invernosa pelo horizonte mais tépido e iluminado do novo mundo, vinham esperançosos, mas prevenidos e resilientes. Enfim, consolavam-se, o gênero humano parece não conseguir viver uma vida sem conflitos. Talvez por seus pecados. Deus, o criador, se deu ao trabalho de esculpir as Tábuas da Lei com os 10 Mandamentos a serem respeitados por suas criaturas. Mas cupidez, ciúme, inveja, raiva e outros tantos sentimentos pecaminosos são sementes do mal inseparáveis da condição humana. O diabo disfarça-se de mil formas, ainda que se denuncie por suas obras e maldades. Desde Caim e Abel, como relata a Bíblia, o bem e o mal sempre conviveram neste mundo e se apresentam como faces da mesma moeda. E, ao contrário do que recomendava Jesus, odiarmo-nos uns aos outros parece ser a preferência prevalente na humanidade. Então, o que os imigrantes tinham que fazer, enquanto pioneiros, era saber que viveriam tempos turbulentos e deveriam estar preparados para uma luta cotidiana e sem descanso.
Para os pais que Thereza havia perdido, o novo mundo reservara o supremo sacrifício. Contudo, os pais vivem nos filhos e agora eles viveriam através dela e dos netos. Thereza sabia que os sonhos de ambos – ela o sabia no coração – haviam passado para ela e para os meninos. A vida seguia sua marcha e, na fronteira da civilização, continuava a apresentar as mesmas oportunidades e ameaças; os mesmos riscos que ela bem conhecia. E Thereza não vivia no passado.
Ao chegarem a Santa Maria, Thereza emocionou-se. Como seus pais teriam apreciado reencontrar os amigos com que conviveram na colônia alemã de São Leopoldo! Amigos como os Höpper, os Pfingst, os Rust, os Timm, os Bentzen, os Jackes, todos evangélicos, e os católicos como os Hämel e os Krämer, imigrantes da primeira leva que, na nova colônia, esqueciam as diferenças religiosas para se ajudarem mutuamente. Amigos de fé cristã, com que seus pais haviam cantado hinos de louvor ao redor da Christbaum, a árvore de Natal, e tantos outros que lhes sobreviveram. Thereza suspirou e sentiu seus olhos lacrimejarem. Mas tinha que aproveitar o encontro para obter as respostas que precisava para completar a narrativa de suas vidas para contar aos filhos. Estes, a nova geração que nascia no novo mundo, precisavam conhecer suas origens e honrar seus maiores. Foram dias felizes para Thereza, que se sentiu reviver ao avivar um mundo de recordações que guardava com carinho.
Entre outros motivos de alegria para Thereza foi ter logrado encontrar ali um luthier que dispunha das cordas do violino faltantes e arrumou as cavilhas que se soltavam. O homem, um artesão habilidoso, também consertou e afinou o acordeão de Thiago. Contar com seus instrumentos recuperados significava que poderia encher sua futura escola de música. E, alegria ainda maior, poderia voltar à prática da Hausmusik, entreter a família tocando e cantando em casa, e a ensinar os instrumentos aos filhos, seguindo a tradição imemorial da família de seus pais. Igualmente ficou feliz ao obter, com ajuda do pastor, alguns livros, lousas, cadernos e material para sua nova escola. Todos procuravam ajudar na medida do possível. Para celebrarem devidamente o reencontro, no último sábado de permanência dos visitantes à colônia, o presidente da comunidade, Udo Schneider, e sua esposa Elga Schneider, nascida Müller, o casal também tinham sido padrinho e madrinha de batismo de Thereza, resolveram que, para tornar memorável aquele reencontro, deviam promover um Schweineschlachtung.
O Schlachtung, o abate e o carnear de um porco gordo, era um evento festivo para os colonos. Na prática, era um mutirão que reunia a família e a parentela, vizinhos, membros da igreja e da comunidade, amigos e convidados. Era comum contar com 20 ou mais “voluntários” ativos, sem contar as crianças que acorriam para presenciar o “espetáculo” e ajudar em pequenas tarefas. Sabendo do programa, diversas pessoas da comunidade, antecipando o acontecimento, se ofereceram para ajudar. O porco a ser abatido já vinha sendo engordado para uma ocasião especial. As crianças que o alimentavam com milho e restos de comida diziam, no dialeto da colônia, “das gebt mol gude Woscht” (‘tu vais dar boa linguiça, um dia”). O processo de carnear um porco adulto, com peso que pode beirar as 20 arrobas (cerca de 300 quilos), e bem aproveitar suas carnes e vísceras, era tarefa para ocupar muita gente. O projeto daquele sábado era abater o animal para fazer um belo assado no forno de pão, fritar os Kriwe, os torresmos, produzir as Schweinswurste, as linguiças de porco, derreter e envasar a banha, o mais nobre dos produtos derivados do porco, e ainda aproveitar outros subprodutos. Udo e Elga, ao promoverem Schlachtung, queriam, além de ensejar uma atividade que os colonos tinham como prazerosa, enriquecer com os torresmos, as linguiças e as morcelas o cardápio dos membros da comitiva durante o restante da viagem até Passo Fundo.
Sábado, o grande dia, começou bem cedo. Os voluntários e convidados chegavam em cavalos e carroças, que eram deixados em um gramado assombreado próximo. Havia muito trabalho a fazer e deveria estar terminado até o final da tarde, com tudo limpo e arrumado. O abate e todo o processo do Schlachtung teriam lugar no Schuppen, o pequeno galpão que havia na propriedade, como de resto, em quase todas as propriedades coloniais alemãs. Normalmente, nesse galpão ficavam guardados a carreta, as carroças, os arreios, o arado e as ferramentas como pás, picaretas e enxadas. No entanto, para fazer espaço para o Schlachtung, tudo isto devia ser retirado e levado para debaixo de uma cobertura improvisada feita com galhos e folhas de bananeira. Na véspera do dia do abate, Thiago, alguns escravos da comitiva e os garotos tinham se apresentado para ajudar a preparar o Schuppen, movendo as carroças e toda a parafernália para o local em que ficariam durante o abate. Sob a orientação de Udo Schneider, que era o dono da propriedade em que se daria o Schlachtung, Thiago e seus voluntários ajudaram a preparar a mesa de carnear, a Schlachttisch, que vinha a ser uma mesa de tábuas grossas, apoiadas sobre dois cavaletes, e a Wursttisch, a mesa auxiliar para o enchimento das linguiças. Também afiaram a Schlachtermesser, a faca comprida e fina do abate, a Fleischermesser, a faca pesada e larga de açougueiro, usada para cortar ossos, e as demais facas a serem usadas para descarnar e picar.
O processo de afiar as facas foi realizado em duas etapas. A primeira requeria um rebolo redondo, feito de pedra abrasiva em formato de queijo, o Schleifstein. Este rebolo ficava com a metade inferior mergulhada em uma canaleta cheia de água que servia para facilitar o processo de amolação e para evitar o aquecimento da lâmina no contato com a pedra. O rebolo, por sua vez, era girado por meio de uma Handkurbel, uma manivela ligada ao eixo da pedra e que os garotos disputavam para acionar. A segunda etapa requeria uma pedra chata de amolar. Uma bela amoladora, de 20 centímetros, tinha vindo da Alemanha e era usada apenas para afiar as facas de melhor qualidade. Udo ensinou a Thiago que o truque para ver se a faca estava corretamente afiada era olhar o fio contra a luz. A luz batendo no fio não pode mostrar áreas ou pontos brilhantes. Quando esses aparecem, significa que ali existem áreas achatadas refletindo a luz. Esses pontos precisam desaparecer com desbaste na pedra. Finda esta etapa era ainda preciso fazer o assentamento do fio por meio do Stahl, a chaira, o utensílio feito de aço roliço usado para passar a faca de um lado para o outro e dar maciez e uniformidade ao fio.
No sábado foi também preparado o tacho com água fervente a ser usada para a raspagem do pelo. Após uma última olhada para verificar se estava tudo em ordem, Udo e Thiago foram buscar o porco na pocilga, um cercado coberto com telhas de madeira. O animal tinha ficado em jejum as últimas 24 horas, somente bebendo água e, parecendo pressentir que iria para o sacrifício, reclamava ruidosamente. Os dois homens e mais dois escravos deram-lhe um banho de água fria. Além de limpar o animal, o banho frio ajudava na liberação de maior quantidade de sangue, resultando, assim, em carne de melhor qualidade. Após o banho amarraram o porco e levaram o suíno para o abate. O bicho resistiu o quanto pode, mas, de toda forma, acabou sendo arrastado até o Schuppen. Ali, com ajuda de Thiago e de um dos escravos, o animal foi preso e seguro com dois laços, um de cada lado, permitindo que Udo usasse uma marreta para dar uma pancada na testa do animal, acertando um pouco acima dos olhos. O golpe da marreta atordoou o bicho e o fez silenciar, evitando seu sofrimento quando Udo fez a faca penetrar fundo em seu pescoço, atingindo-lhe diretamente o coração.
Assim que a faca foi retirada, o sangue jorrou abundante, sendo cuidadosamente recolhido em uma tina de madeira. Esse sangue seria utilizado para fazer a Blutwurst, as linguiças de morcilha vermelha. Depois, o porco foi lavado com água fria para tirar o sangue que tinha vazado. Em seguida, Elga e Thereza comandaram as mulheres para a raspagem do pelo. Começaram jogando água fervente sobre o corpo do porco, usando canecas, panelas e outras vasilhas, e iniciaram a raspagem. Em menos de meia hora o animal estava raspado e pronto para ser novamente lavado com água fria. O próximo procedimento era abrir a barriga. Thiago segurou as pernas do suíno estendido na mesa, afastando-as para os lados, enquanto Udo fez um corte ao longo do ventre do animal. Pelo corte já era possível ver aparecer a banha e o toucinho. Outro corte, e surgem os intestinos. Um cheiro forte enche o ambiente. Os miúdos e órgãos internos são retirados e colocados em tinas de madeira para serem trabalhados na wursttisch.
Com a carcaça vazia, usaram uma serra para dividir o animal ao meio. Começa o processo de retaliação. As costas do porco são destinadas ao fabrico da banha. A gordura é separada do couro e jogada em um panelão de ferro, onde fica fervendo até soltar-se do torresmo. Uma das mulheres da colônia se encarregou de manter o fogo e cuidar da fervura, para os torresmos serem retirados no ponto certo, quando adquiriam uma coloração bege-claro. Nesse ponto, quase toda a gordura já teria se soltado. O tacho da banha requeria um cuidado especial porque, caso os torresmos ficassem além do ponto e adquirissem coloração mais escura, começariam a dar amargor à banha e a deixariam com sabor desagradável. No passo seguinte, a gordura líquida foi transferida para potes, onde iria “talhar”, isto é, se solidificar. A essa altura, o chão de terra batida do Schuppen já estava empapando de água e restos de sangue. Os meninos foram chamados para jogar uma camada de terra por cima.
Na Wursttisch, a mesa de linguiça, as tripas foram sendo limpas para o fabrico das linguiças. Uma máquina de moer carne tinha um tubo na boca de saída. Sobre este tubo eram enfiadas as tripas. A carne moída ia enchendo as tripas e, a cada 20 centímetros, a linguiça era girada em volta dela mesma para criar o ponto de amarrar. Prontas, as linguiças eram penduradas em uma armação de madeira.
As Blutwurst, morcilhas vermelhas, as Leberwurst, morcilhas feitas de fígado, e ainda as mais elaboradas Weisswurst, morcilhas brancas que seguiam um processo mais elaborado, foram sendo colocadas no panelão para serem cozidas, mas um tipo de cada vez, para não misturarem os sabores. Entre as linguiças, as Weisswurst eram as mais apreciadas. Para fazê-las eram moídos juntos coração, rins, língua, miúdos suínos e partes da pele. Na receita ainda entrava a fécula de mandioca (polvilho doce) e temperos como sal, alho, cebola, pimenta, salsa e outras especiarias.
Ao meio-dia, o grosso do trabalho com a carcaça tinha terminado. Ainda restavam ser feitas parte das linguiças, os Knistern, torresmos, parte da banha, mas o mutirão, propriamente, já tinha acabado. Os convidados foram, então, sentar-se à mesa para comer o assado de porco, com arroz, feijão e farinha, que tinha sido preparado para o almoço. Uma dose de butiá Schnapps, aguardente feita com os butiás nativos, serviu como aperitivo. Para o início do almoço fizeram uma rápida prece para agradecer pelo alimento:
“Komm, Herr Jesu, sei unser Gast und segne diese Gaben, di Du uns becheret hast”
(Venha, Senhor Jesus, seja nosso convidado e abençoe esses presentes que você nos deu).
Após a refeição a maioria dos convidados voltou para casa. Alguns tinham que percorrer até duas horas a cavalo. Na parte da tarde, Elga, Thereza e algumas mulheres ainda cuidaram da produção das linguiças e da banha, enquanto os homens arrumaram e puseram ordem no Schuppen. Em torno das 5 horas, o Schlachtung terminou com um chá servido com cucas e biscoitos. Os visitantes restantes despediram-se. Thiago e Thereza, os últimos a sair, junto com os meninos, agradeceram aos donos da casa e receberam a promessa de que, na segunda-feira, o dia da partida, receberiam um quinhão das linguiças e torresmos para a continuidade da viagem.
Para todos, o dia tinha sido memorável. No domingo, o pastor Nicolaus Becker reuniu sua pequena comunidade para um culto. No portão da casa que servia como templo, o pastor mais sua esposa, Udo e Elga Schneider se postaram para receber os membros da comunidade e dar boas-vindas à família de Thiago. Na porta de entrada estava afixado o programa da celebração, destacando o hino de abertura da cerimônia: Die Himmel Erzählen, von Haydn” (“O Céu Fala, de Haydn”). Após o início da cerimônia, da saudação do pastor e das orações preliminares, todos se levantaram dos rústicos bancos da pequena igreja para, ao som do violino do maestro, entoar o hino que dedicaram aos visitantes e cuja letra agradecia a Deus pelas bênçãos recebidas. A música, composta em 15 de setembro de 1668, com letra de Ämilie Juliane Schwarzburg-Rudolstadt e melodia de Peter Sohren, era tida quase como o hino dos imigrantes alemães, assim todos a conheciam e a cantaram com grande emoção:
Bis hierher hat mich Gott gebracht
durch seine große Güte,
bis hierher hat er Tag und Nacht
bewahrt Herz und Gemüte,
bis hierher hat er mich geleit,
bis hierher hat er mich erfreut,
bis hierher mir geholfen.
Hab Lob und Ehr, hab Preis und Dank
für die bisherge Treue,
die du, o Gott, mir lebenslang
bewiesen täglich neue.
In mein Gedächtnis schreib ich an:
Der Herr hat Großes mir getan,
bis hierher mir geholfen.
Hilf fernerhin, mein treuster Hort,
hilf mir zu allen Stunden.
Hilf mir an all und jedem Ort,
hilf mir durch Jesu Wunden.
Damit sag ich bis in den Tod:
Durch Christi Blut hilft mir mein Gott;
er hilft, wie er geholfen.
Até Aqui Me Trouxe O Senhor.
(versão em português)
Até aqui me trouxe o Senhor; guiou-me com bondade.
Ele amparou os passos meus com graça e fieldade.
Até aqui me protegeu, perdão e paz me concedeu,
conforto e alegria.
Louvor te rendo e gratidão por tudo o que fizeste;
por toda a graça e proteção que sempre, ó Pai, me deste.
Quero exaltar, meu Salvador, o teu poder, o teu amor
com que me agraciaste.
Ajuda no porvir, Senhor, com teu poder me guia;
revela o teu eterno amor em dor e em alegria.
Confessarei até morrer: por Cristo, ó Deus, me hás de valer!
Somente em ti confio!
Após o culto, Thiago, Thereza e os meninos voltaram para a hospedaria e foram preparar a partida. Era tempo de seguir viagem no rumo de Cruz Alta, o que fariam já no dia seguinte, segunda-feira. Mal o dia amanheceu e um grupo de amigos foi se reunindo diante da hospedaria. Udo e Elga Schneider estavam entre os primeiros a chegar. Vieram trazendo a carga de linguiças e torresmos que foram acomodados em sacolas de taquara trançada.
Os irmãos Rocha Loures, que aproveitaram o domingo para fazer um reconhecimento dos arredores, examinaram a capa de proteção de linóleo dos documentos que levavam. Os condutores da tropa verificavam os arreios e cangas. Thiago e Tereza preparavam os meninos para a jornada. E, de repente, a surpresa. O pequeno coral da congregação luterana apareceu para cantar algumas canções de despedida. Trouxeram também cucas e doces para um desjejum. Em minutos, um piquenique foi improvisado no gramado que existia ao lado a hospedaria. Um fogo foi aceso para esquentar a água do chá. Toalhas de mesa guardadas com carinho são estendidas sobre a relva e cestos de pães com mel, biscoitos, bolachas e bolos alemães são colocados sobre aquelas toalhas bordadas à mão, e todos são convidados a se aproximarem para participar, inclusive os escravos que conduziam as mulas da pequena tropa.
Acostumados a serem tratados como escravos, mantidos a distância e sem confraternizar com os brancos, no início eles não se sentiam à vontade e não desejavam se aproximar. Mas os alemães insistiram. Para o grupo de escravos, alguns que até tinham vivido uma experiência de liberdade durante a Revolução Farroupilha, era confortador se ver tratado como ser humano. Aqueles loiros imigrantes agiam de modo diferente de outros europeus, queriam que eles se aproximassem. Após muita insistência, os escravos se achegaram, enquanto comentavam entre si que não era de estranhar que aqueles imigrantes que falavam esquisito tivessem sido hostilizados em São Leopoldo. Os escravos se entreolhavam assustados. Aqueles imigrantes loiros e de olho azuis se comportavam de modo diferente dos portugueses, espanhóis e outros imigrantes que conheciam. Aquele gesto de convidá-los a fazer parte do piquenique de despedida era mais que inusitado; para a maioria era atemorizador. Não sabiam o que fazer. Temiam que, se aceitassem o chá, as cucas de uva, os doces confeitados, as bolachas de mel e os bolos glaciados que os visitantes protestantes ofereciam, poderiam, depois, sofrer alguma represália de seus senhores. Mas o convite do pastor e dos membros da congregação e os sinais de aprovação do tenente Rocha Loures os convenceram a participar. Foi uma alegria e uma exultação que seria, para muitos, a primeira e talvez a única oportunidade de fruírem de momentos de convívio sem discriminação. Por mais simples que fossem, eram momentos que guardariam como preciosos na vida de penúrias a que os condenava a condição de escravos e párias.
A visita de surpresa e o piquenique improvisado, porém, não se prolongaram muito. No meio da manhã, após o pastor ter feito uma oração e seu pequeno coral ter entoado uma canção de despedida, a comitiva agradeceu e se pôs na trilha a caminho de Cruz Alta. O novo trecho a vencer, na extensão de 20 léguas, começava em mata mais fechada e em relevo mais acidentado. Não por acaso, Santa Maria era também conhecida como Santa Maria da Boca do Monte. Um nome bem apropriado, posto que a povoação se situava em uma região cercada por morros e elevações. Não obstante as curvas e desvios, as dificuldades de avançar numa trilha irregular não impediram a comitiva de manter bom ritmo de viagem. No primeiro trecho, até metade do caminho, fazendo entre 3 e 4 léguas por dia; depois, onde a ondulação se tornava menos acidentada, o avanço acelerou para ritmo de 5 léguas por dia.
Ao se aproximarem de Cruz Alta avistaram a grande cruz que dava a todos as boas-vindas cristãs. Thiago, que já estivera muitas vezes em Cruz Alta cumprindo tarefas de sua função de mensageiro, reuniu o grupo para contar o que sabia da história daquele marco de presença civilizatória e da cidade que o ostentava. Ele disse que aquela cruz de madeira existia desde mais de um século.
— Vou contar-lhes uma coisa: visualizar esta cruz sempre me dá uma grande tristeza. Eu, que sempre fui um xiru curioso, sempre que venho aqui e tenho um tempo para ficar meio debalde para gastar comigo mesmo gosto de visitar as ruinas dos missionários e ouvir histórias do passado destes pagos. Por ser conhecedor de um pouco das histórias, acaba acontecendo que, em minhas andanças para cima e para baixo na província, sempre tem algum vivente que me pergunta a respeito desta cruz alta. Eu tenho muitas histórias sobre a cruz e sobre coisas destas bandas das Missões. Causos, então, tenho em quantidade. Muitos eu ouvi de índios, de xirus e viandantes com quem proseei em tantas rodas de chimarrão e noites ao pé do fogo. Outros foram contados pelos campeiros e soldados mais antigos. Garanto que olhando as ruínas não dá para atinar que aqui teve uma cidade em que morava uma população de índios cristianizados de mais de 4.000. Num tempo de uns cem anos passados, esta era uma cidade bem primorosa, que fazia parte do que chamavam de Sete Missões. Estas cidades, que também eram chamadas de “reservas”, eram vilas bem arrumadas, cheia de casario e melhores que muitas localidades que se pavoneiam hoje na província. Aqui mesmo moravam índios que faziam parte de um povo educado pelos jesuítas. Contam os antigos que os índios tinham muita comida boa, muita carne de qualidade, carne de reses que carneavam todo o dia. Eles tinham gado que criavam e sabiam onde tinha um gado que eles soltaram nas vacarias que só eles conheciam. A indiada tinha plantações de milho e colhia pinhão. Os Guaranis plantavam abóboras e melancias de um jeito que as frutas cresciam sem sementes. Eu não sei como eles faziam, aliás, ainda fazem, mas já provei e as melancias sem sementes são mais fáceis de comer. As casas eram caprichadas, bem resistentes, feitas com tijolo vermelho. O chão era revestido de lajotas de olaria e os telhados eram feitos com armações de madeira aparada, com as telhas iguais àquelas das nossas cidades. Ainda existem ruínas da igreja. A construção foi erguida entre 1735 e 1745. A igreja foi construída toda em pedra grés. Pena que não foi terminada. Faltou fazer a segunda torre, que teria no topo um observatório estelar. Historicamente, os Guaranis já realizavam observações do céu e os movimentos da Terra e das estrelas. Eles tinham lendas e sabiam mistérios do céu que foram contados de geração em geração. Sabiam usar o conhecimento das estações para auxiliar na caça e na agricultura. É conhecido que o padre Antônio Sepp queria fazer a instalação de uma luneta na torre do observatório. Mas, enfim, pelas ruínas dá para ver como eram caprichadas as construções da cidade fundada pelos padres. Campeando por aí ainda dá para achar esculturas e imagens, ferramentas e coisas de casa feitos pelos índios. Eles eram caprichosos e pintavam as casas de branco usando um barro esbranquiçado de tabatinga, que cavavam dos riachos. E nos domingos e dias santificados tinham procissões com muitas festas e missas com músicas e cânticos.
Thiago, então, fez uma pausa e preferiu passar a palavra para Thereza.
— Thereza, agora é tua vez de contar tudo o que sabes da história deste lugar de Deus que parece perdido nas coxilhas e da qual sabes bem mais do que eu.
Thereza, que estava também sentada na roda, continuou de onde Thiago parou:
— Amigos, queria dizer que é para mim uma grande emoção chegar tão perto da famosa Cruz Alta. Mesmo sem nunca ter estado aqui antes, eu tinha ideia desta cruz pelas gravuras que tinha visto. Afinal, esta cruz é o mais significativo marco cristão da Província do Rio Grande do Sul. – E voltou-se para os irmãos Rocha Loures e para os encarregados das tropas, que a ouviam atentos: – O que Thiago disse é verdade. Eu conheço um pouco da história da Cruz Alta e deste lugar que abrigava uma Missão Jesuíta que se chamava Redução de São João Batista. E o que sei aprendi de maneira muito curiosa. Eu devia ter de 11 para 12 anos quando chegou lá em casa o doutor Walter Sepp, um médico que depois se tornou um grande amigo de meu pai. Ele veio até nossa casa por indicação do doutor Hillebrand, o médico que é diretor da Colônia de São Leopoldo e foi um dos pioneiros da colônia. Ele queria conhecer meus pais porque estava interessado nas próteses que eles faziam. O doutor Sepp era médico cirurgião e meus pais faziam as próteses para quem precisasse de uma tipoia, um braço ou perna artificial. Ele veio indicado pelo doutor Hillebrand, que o conhecia desde a Alemanha. Eles cursaram medicina juntos, na Universidade de Göttingen. O doutor Sepp veio ao Brasil como médico da equipe de pesquisa daquela universidade chefiada pelo Príncipe Alexander Philipp Maximilian zu Wied-Neuwied. O príncipe alemão era um pesquisador da universidade e veio ao Brasil para fazer estudos de antropologia. Um colega dele da universidade, o professor Blumenbach, estudava as diferenças entre as raças humanas. Ele acreditava que o homem havia surgido branco e tinha origem na África. Em sua visão, os negros eram brancos que tinham se tornado negros em razão do sol e do calor. Assim, para completar os estudos do professor Blumenbach, que era chefe do departamento de antropologia daquela universidade, o príncipe procurava crânios de índios para mandar para estudos na Alemanha. No caso do grupo do Príncipe William, a intenção era estudar as diferenças entre as raças nativas do Brasil com base nas características do crânio dos índios. Soubemos pelo doutor Sepp que o príncipe conseguiu levar para a Alemanha alguns crânios que conseguiu obter negociando com os índios. Ele queria achar o que seria o “elo perdido” entre as raças menos desenvolvidas, na opinião dele, e os brancos europeus. E o príncipe achava que os índios Botocudos, que ele descobriu em 1816 e que habitavam a Província do Espírito Santo, seriam os mais próximos ao macaco. A expedição do Príncipe Maximilian esteve no sudeste do Brasil entre 1815 e 1817. No Espírito Santo, por causa da guerra entre algumas tribos que pesquisava, ele precisou ficar escondido na floresta por algum tempo, aproveitando para pesquisar plantas e insetos. Entrando ao Norte do Rio Belmonte, ele atravessou a floresta e, depois de muitas dificuldades, sua expedição chegou à Província de Minas Gerais. Lá ele enfrentou problemas de saúde e já pensava em voltar quando foi preso por autoridades locais. Prenderam o príncipe alemão sem nenhuma acusação e por suspeitas sem qualquer fundamento. Quando descobriram que era um professor de renome, o soltaram, mas já era tarde. As autoridades de Minas Gerais, por superstição, haviam destruído boa parte da coleção de insetos e plantas que ela havia reunido. A essa altura, em maio de 1817, desgostoso e com sua saúde abalada, resolveu deixar o país e embarcou de retorno à Alemanha. Para dar testemunho de suas descobertas levou para a Europa, com ele, um índio Botocudo que conheceu em sua expedição. De retorno na Alemanha, escreveu dois livros que o doutor Sepp mandou depois para meu pai: Reise nach Brasilien (“Viagem ao Brasil”) e Beiträge zur Naturgeschichte von Brasilien (“Contribuições para a História Natural do Brasil”). Quanto ao doutor Sepp, este ficou mais uns anos no Brasil. O motivo que o manteve aqui foi que desejava saber mais da história de seu parente, o padre Antônio Sepp, que tinha sido missionário neste pedaço do mundo e tinha se tornado uma figura importante entre os jesuítas. O padre Sepp, que o Thiago mencionou ao falar da luneta que ele queria instalar na torre da igreja, tinha um nome complicado que precisei escrever para gravar na memória: Anton Clemens Sepp von und zu Rechegg. Era de família nobre. Além de membro da corte imperial da Áustria, ele possuía o título de Barão de Kaltern. Meu pai perguntou ao doutor Sepp que razões teria um nobre austríaco para vir se enfiar aqui, neste fim do mundo. O doutor Sepp respondeu que ser nobre era bom, mas ser santo era melhor. O padre Sepp, que era chamado pelos índios como “Pay Antô”, foi o fundador da Redução de São João Batista, que estava localizada umas 15 léguas mais para Oeste desta Cruz Alta, que aliás, foi ele pessoalmente quem a construiu para servir como ponto de referência das reduções missioneiras.
O tenente Rocha Loures ouvia a narrativa assombrado e não se conteve:
— Mas que história mais ponchada. O mundo deve mesmo ser redondo, como dizem. Então esse médico austríaco veio até aqui, nessa lonjura, para conhecer a obra de seu antepassado?
— Sim – continuou Thereza. – Ele veio até aqui conhecer as ruínas e descobrir coisas sobre esse seu parente, que era do Tirol, na Áustria, como ele. Fez pesquisas e procurou descobrir quem soubesse de alguma coisa. Em sua passagem pelas ruínas encontrou cemitérios indígenas e aproveitou para fazer estudos sobre os crânios dos índios das reduções. Encontrou até facilidade nessa pesquisa. Muitos índios foram sepultados em cemitérios que foram destruídos nas guerras guaraníticas e ficaram abandonados no território das Missões. Mas, voltando ao padre Antônio Sepp, o que a história registra é que ele era homem de sete instrumentos. Além de dominar as artes do bel canto como maestro do coral da redução, era músico e compositor. Também era luthier e ensinou os índios a fazer instrumentos como violinos, violas e harpas. Chegou a exportá-los para a Europa em troca de ferramentas. Como artista das belas artes, foi pintor e escultor. Como arquiteto e construtor, projetou e comandou a construção da igreja e das edificações da redução de São João Batista. Como geólogo, descobriu como extrair ferro da pedra itacuru, comum na região, e fez funcionar uma fundição onde começou a fazer ferramentas, panelas e muitas outras coisas. Fundiu, inclusive, os sinos da igreja da redução. Mas, apesar de ser homem de muitas habilidades e de muito saber, não tinha muita paciência e teve algumas desavenças com outros padres. Alguns índios também reclamaram de suas intransigências e, por isso, acabou sendo removido do cargo pelo provincial da ordem. Mas, depois de quatro anos, voltou ao comando da Missão de São João Batista, que se converteu na mais avançada das cidades missioneiras, tanto no plano cultural quanto no plano econômico e técnico. A cidade também cresceu e chegou a contar com mais de 4.000 habitantes. O padre era incansável e, entre outros avanços da redução, fez um relógio para a torre de igreja, que chegou a ser instalado no campanário da torre e, ao dar as horas, mostrava não só os números, mas também as imagens dos 12 apóstolos.
Os irmãos Rocha Loures e os membros da comitiva ouviram o relato com genuíno espanto. Não imaginavam que ali, longe de tudo, em meio a matas e coxilhas, tivessem existido cidades habitadas por indígenas e que foram pontos avançados de civilização. Estavam também assombrados que os índios Guaranis, sob orientação dos padres jesuítas, tivessem alcançado tanto progresso.
O tenente Rocha Loures ficou curioso em saber como foi possível que povoações, verdadeiras cidades, até maiores do que as atuais da região, tivessem sido varridas da paisagem. Por isso perguntou:
— Que barbaridade, dona Thereza. É até difícil de acreditar. Tudo isto parece mais coisa de um contador de causos. E como foi que essas Missões acabaram?
Thereza respondeu contando o que sabia:
— Pois assim é, tenente. Foi preciso que as tropas portuguesas e espanholas se unissem para conseguir derrotar e expulsar os índios e os jesuítas. Foram as chamadas Guerras Guaraníticas, que acabaram com os Sete Povos das Missões. Mas o que ainda é mais incrível é que as Missões tiveram duas vidas. Tudo durou uns 150 anos. As primeiras Missões chegaram a ter cidades organizadas e produtivas que, em alguns aspectos, podiam ser comparadas com as cidades da Europa. Eu não conheci nem as da Europa nem as das Missões, claro, mas foi o que ouvi do doutor Sepp. Ele conhecia bem a Europa e disse que, excetuando as mais desenvolvidas, muitas cidades europeias não eram superiores às cidades missioneiras. Ele ficou espantado com a semente de civilização plantada aqui, em meio às coxilhas. O doutor Sepp, que era homem culto, não se conformava que Portugal e Espanha, que se julgavam civilizados, tivessem se unido para destruir a civilização que nascia no novo mundo. O que ele tinha para contar eram coisas fantásticas. Eu escutava suas histórias fascinada. A cada dia eu ficava esperando-o vir conversar com meu pai para ouvi-lo contar suas histórias e depois anotava muito do que ele falava. Ainda tenho alguns cadernos onde escrevi o que me pareceu mais interessante.
João Cypriano também ouvia absorto. Aquela sua futura professora era um achado surpreendente. E foi o que disse:
— Dona Thereza, estou maravilhado. A senhora está nos dando uma aula preciosa. Só posso dizer que estou deslumbrado com seu conhecimento. A senhora vai ser uma grande professora de nossa escola.
Thereza não se deixou desviar do eixo da história que contava compenetrada:
— O doutor Sepp contou que, de tudo, as duas coisas que mais o impressionaram ao estudar os sítios de ruínas das Missões foi a amplitude do trabalho dos missionários e a qualidade do trabalho dos indígenas que as ruinas demonstravam. A qualidade da cantaria, a qualidade das construções. A fundição do ferro extraído de pedras, os sinos, os objetos e ferramentas de ferro fundido que fizeram, os instrumentos musicais de madeira; alguns ainda restam e os índios os fabricavam e mandavam para a Europa. Assim como a arte sacra, com imagens esculpidas e altos relevos. Foi uma civilização de extraordinário grau de evolução a que essas comunidades chegaram. E, em minha opinião, acho que foi isso o que assustou os colonizadores. Eles ficaram atemorizados com os avanços dessas comunidades. Logo ficariam poderosas demais e invencíveis. Os padres nunca esconderam que tinham o propósito de criar uma sociedade com os conhecimentos, os benefícios e as qualidades das sociedades cristãs europeias, mas livre de seus vícios, de suas futricas e maldades. Infelizmente, não previram que os vícios e maldades da Europa viriam até aqui. Para o doutor Sepp ficava demonstrado que os índios podiam ser aculturados. Podiam ser indivíduos diferentes, ter uma cor de pele mais escura do que a dos europeus, mas de modo nenhum eram seres inferiores. Se fossem educados como os europeus, seriam civilizados do mesmo modo. Eles não eram obtusos nem estúpidos. Todavia, as circunstâncias foram madrastas e as Missões foram apanhadas em fogo cruzado. Um século atrás esta região aqui foi disputada pelas Coroas Espanhola e Portuguesa. Um tratado de 1750, entregou esta área para Portugal, que em troca abriu mão da Colônia do Sacramento. A colônia tem uma localização privilegiada: fica localizada no lado esquerdo do estuário do Prata e do lado oposto da cidade de Buenos Aires. As cidades são separadas a menos de 20 léguas pelas águas do estuário.
Fez uma pausa e continuou:
— Nesse tratado foi estabelecido que os missionários espanhóis e os indígenas que lá viviam deveriam deixar a área ocupada pelos Sete Povos das Missões. Os nativos se recusaram a sair de seu território. Os índios temiam que voltassem a ser vítimas dos bandeirantes ou encomendeiros que capturavam os índios para convertê-los em escravos. Ademais, aqui os índios viviam independentes, em cidades criadas na terra de seus antepassados e não aceitavam ser tratados como moeda de troca. As cidades que em conjunto eram chamavam de Sete Missões Orientais, ou Siete Pueblos Orientales de Missiones, reuniam, só deste lado do Rio Uruguai, quase 30.000 habitantes. Como estavam ligadas com as do outro lado do Uruguai, onde contavam com outros 60.000 habitantes, a população indígena vivendo nas comunidades organizadas pelos jesuítas somava cerca de 100.000 habitantes. De toda forma, o tratado de 1750 estabelecia que os nativos deveriam abandonar as suas vilas e cidades, suas casas, suas lavouras, suas oficinas, os ervais, o gado, enfim, tudo o que tinham construído. Receberam o prazo de apenas um ano para sair de suas casas e abandonar a terra que lhes era sagrada e bandear-se para o outro lado do Rio Uruguai ou para o Sul do Rio Ibicuí, áreas castelhanas. Os nativos ficaram indignados. Tentaram ser conciliadores. Escreveram cartas para os governantes dos dois lados pedindo que olhassem por eles. Argumentaram que esta terra era deles desde os tempos mais remotos. Que eles agiam como cristãos e segundo as leis de Deus. Que eles, aqui, tinham seus filhos e enterravam seus mortos. Que aqui eles tinham suas plantações, suas oficinas, tinham construído suas igrejas, construído suas casas e viviam suas vidas. E, ainda mais, eles avisavam que não iriam abandonar o que possuíam pacificamente. Que não imaginassem que iriam passar para o outro lado do Rio Uruguai abandonando tudo sem compensações, como ordenavam os portugueses. Mas foram ignorados e tratados com indignidade e indiferença. Os europeus os viam como selvagens. Como se selvagens incultos ainda fossem. Então, sabendo-se enjeitados como cristãos e rejeitados como povo, resolveram lutar e resistir. Mandaram avisar que, se preciso, lutariam e morreriam por sua terra. No final, desacorçoados, não tiveram mais escolha. Seria preciso resistir e lutar. Logo a luta por sua terra descambou na Guerra Guaranítica.
— E como agiram os padres? De que lado ficaram?
— Os padres jesuítas eram espanhóis, mas ficaram contra o acordo assinado pelo seu governo. Eles tinham seus próprios projetos para as Missões. Alguns dizem que os jesuítas foram criados como resposta da Igreja Católica ao protestantismo. Seriam agentes da Contrarreforma Católica. Ao que consta, Ignácio de Loyola, o fundador da ordem dos jesuítas, teria como principal projeto a construção de um império cristão secular no mundo como forma de garantir a supremacia católica. Foi com esta finalidade que se espalharam por todos os continentes procurando organizar a expansão da cristandade. É preciso reconhecer que eles eram disciplinados e aguerridos. Assim, para manterem-se nos territórios que ocupavam e defender suas terras e seus interesses, os jesuítas criaram uma força militar respeitável. Convenceram os índios a se organizarem militarmente, os armaram e treinaram. Cerca de um século atrás, mais precisamente em 1754, começaram os conflitos, que se estenderam até 1760. Os índios lutaram com grande bravura e a Guerra Guaranítica foi muito sangrenta. Mais de 30.000 indígenas foram mortos ou escravizados pelas tropas conjuntas de Portugal e Espanha. O líder da resistência foi um índio de grande coragem chamado Sepé Tiaraju. Ele comandou as forças nativas e enfrentou o conjunto de tropas portuguesas e espanholas que se uniram contra eles. Sepé Tiaraju inspirava os índios guaranis bradando o lema de sua campanha em defesa de sua gente: “Esta terra tem dono”.
Thereza olhou em volta para ver se o interesse no que contava se mantinha e, ante o sinal de estímulo para que seguisse em frente, continuou:
— Sepé Tiaraju foi um comandante indígena valoroso e competente. Tinha sido alferes do Exército espanhol, o que significa que tinha tido treinamento militar e, portanto, estava familiarizado com as estratégias e táticas dos europeus. Ele sabia ler e escrever e era amado por seus comandados. Ele não ignorava que sua luta seria desigual e que seria de sacrifício. Mas não temia a morte. Temia mais ser indigno de seu povo. No começo, sob seu comando, os guaranis foram conseguindo pequenas vitórias aqui e ali, mas com poucas armas e lutando com inferioridade e contra os Exércitos combinados de Portugal e Espanha, o desfecho era inevitável. Então, numa grande batalha, os guaranis foram atacados de surpresa por mais de 4.000 soldados dos Exércitos de Portugal e da Espanha. Nessa grande batalha decisiva morreram 1.500 índios guaranis. Sepé Tiaraju foi morto em combate e, como os missionários diziam que aqueles que perdessem a vida na defesa das Missões Cristãs iriam para o céu, e como seu corpo nunca foi encontrado no campo de batalha, começou a se espalhar a crença de que o próprio arcanjo São Miguel, o guerreiro de Deus, tinha vindo à Terra para recebê-lo e o havia levado direto para a presença do pai celestial. Desde então índios e brancos o veneram como o santo São Sepé. Os europeus haviam vencido a batalha, mas nunca derrotaram o coração dos nativos e do povo guarani, que ainda lembra do seu grande guerreiro Sepé Tiaraju.
Thiago e Thereza findaram assim seu relato e os membros da comitiva, ainda impressionados com a história de grande coragem que parecia fluir daquelas coxilhas, foram levantando-se para cuidar de suas coisas. Mas uns e outros se perguntavam: por que os portugueses lutaram para expulsar os missionários e os índios convertidos ao cristianismo? Que tipo de cristianismo hipócrita teria levado o governo lusitano, que se autointitulava “cristão”, a destruir uma obra civilizatória tão magnífica quanto aquela criada pelos índios e pelos padres jesuítas? Afinal, o objetivo das Missões jesuíticas no novo mundo não era o de propagar o cristianismo? Não era de criar uma sociedade cristã de molde europeu, mas isenta dos seus vícios e perversidades?
Os irmãos Rocha Loures, conversando ente si, comentaram que a decisão de eliminar as Missões a ferro e fogo, arrasar suas povoações, desterrar seus habitantes – homens, mulheres e crianças – e expulsar os padres jesuítas, cujo crime era ter sido leais a seus fiéis, tinha sido deplorável. E se, de fato, São Miguel tivesse vindo mesmo buscar Sepé Tiaraju para fazê-lo santo, era melhor persignarem-se. E foi o que fizeram.
Mas o tempo havia passado. As ruínas eram as cicatrizes que ainda perduravam para denunciar que a implantação da “civilização” na América do Sul tinha sido tudo, menos civilizada. No entanto, a obra dos missionários havia deixado raízes. A criação de mulas, que permitiu o tropeirismo no Brasil, foi uma delas. A partir do declínio da exploração das minas no Peru, os criadouros de mulas, fundados pelos jesuítas no território das Missiones para atender à mineração e ao comércio de prata, redirecionaram a venda dos animais cargueiros para o nascente mercado das minas no Brasil.
Ainda naquela tarde, quando o sol ia se escondendo no poente e o dia ia chegando ao ocaso, as pessoas taciturnas, ainda sob o impacto das histórias desventurosas que Thereza compartilhou sobre a saga das comunidades missionárias, moveram-se para preparar o acampamento para o pernoite. Thereza, então, lembrou que os católicos celebravam a hora do Ângelus e convidou Thiago a acompanhá-la no acordeão. Súbito se ouviram os acordes e as estrofes da Ave-Maria, de Schubert, que Thereza sentiu-se inspirada a cantar com sua cristalina voz de soprano. Embora Thereza fosse de confissão luterana e Thiago fosse católico, e ambos desejassem conservar suas raízes religiosas, a beleza da composição não conhecia fronteiras e reverberava pelas coxilhas. Era uma homenagem do casal aos índios cristãos que haviam tombado ao lado de Sepé Tiaraju na infausta defesa daquelas plagas que irrigaram com seu sangue. Era um tributo singelo aos nativos que, em seu tempo, naquela hora do Ângelus, ao cair da tarde, ouviam o badalar dos sinos se espalhar pelos campos chamando para a prece da Ave-Maria. E com a escassa luz do entardecer, com as copas das árvores filtrando o sol poente, vieram todos reunir-se em volta do caldeirão que fervia pendurado no tripé. Finda a melodia, Thiago rezou uma prece antes da refeição da noite.
Depois do jantar, o acampamento manteve-se em um silêncio raramente observado naqueles homens ruidosos por natureza. E o céu, acima de todos eles, abriu-se em uma esplêndida abobada estrelada, mostrando o inigualável esplendor do Cruzeiro do Sul. A bela e abençoada constelação dos céus meridionais se afigurava tão próxima que parecia ao alcance da mão. Foi sob a luz das estrelas que cada um acomodou-se em um poncho para dormir. Levaram consigo suas conjecturas, seus devaneios e suas quimeras sobre uma civilização incipiente que um dia, precisamente naquele rincão, havia brilhado e reluzira em um lampejo do tempo. Um tempo breve, mas intenso, apaixonado, arrebatado, cujo pecado foi ter brilhado demais. Uma promissora civilização que atemorizou os poderosos e foi apagada como uma vela assoprada pelo vento, mas que agora, embirrada, ressurgia na imaginação daquela comitiva.
Thereza e Thiago, ao deitarem-se naquela noite, demoraram a pegar no sono. Conversaram longamente sobre os Guaranis que, ingênuos, acreditaram na mensagem de uma civilização cristã que lhes prometia um Jardim de Éden, mas que, concupiscente e pecadora, posto que despudoramente humana, atraiçoou os índios e os perdeu. Ali, sob aquele mesmo céu, uma plêiade de missionários idealistas ousou criar um mundo novo e, nesse afã, deixaram os confortos da Europa para virem estender a mão aos índios Guaranis. Em sua ilusão, haveria de ser possível, juntos, plantaram uma semente civilizatória naquele território longínquo. Quiseram os fados, contudo, caprichosos e cruéis como o soem ser, que esse desiderato estivesse agora perdido para os homens. Restava a esperança de que aquele generoso esforço não tenha sido esquecido pelo Deus de bondade, que a tudo e a todos criou. Finalmente adormeceram. E a noite lhes seria afável. Como o são, por vezes, as noites dos que veem o mundo com olhos da alma e o sentem pelo pulsar dos corações.
A cruz alta
No dia seguinte a comitiva entrou na Vila de Cruz Alta. Thiago mostrou o caminho. Seguiram pela rua das carretas. Dentro da cidade havia 16 ruas, sendo sete principais, alinhadas em direção Norte-Sul, e nove transversais, posicionadas em direção de Leste a Oeste. Sem contar com o conhecimento de Thiago, descobrir como chegar ao quartel tomaria muito tempo. Entretanto, rapidamente estavam lá. Na entrada, um portão com guarita e sentinela era a clara evidência de que chegavam ao estabelecimento militar. Ali todos precisavam se apresentar. Tão logo os cavaleiros informaram que vinham da capital, o praça que guarnecia o portão chamou o sargento de serviço, que o reconheceu e foi cumprimentar o mensageiro Thiago. Ao saber da identidade do tenente Rocha Loures e tomar conhecimento dos propósitos dos integrantes da comitiva, o sargento foi imediatamente informar ao tenente-coronel Antônio Maria. O comandante interrompeu o despacho que dava aos assuntos do dia do quartel e foi pessoalmente receber os visitantes. Convidou a que entrassem e se acomodassem na sala de recepção, enquanto conduziu à sua sala o mensageiro Thiago e o tenente Rocha Loures. Abriu as missivas lacradas que os visitantes trouxeram da capital e leu as ordens do presidente da província, sob o selo do marechal Luís Alves de Lima e Silva, o Conde de Caxias.
Leu as ordens com evidente satisfação. Não era todo dia que recebia ordens com a chancela do presidente da província. E, ademais, um comandante de tropa se realiza pelo cumprimento das missões que recebe. Como chefe do Segundo Batalhão de Caçadores e da Guarnição de Cruz Alta, acreditava ocupar uma posição importante na estrutura militar da província, mas ficara por um bom tempo esquecido. Todavia, recentemente havia recebido sucessivas missões, ao que, somando mais esta, lhe dava a convicção de que ele era tido como homem de resultados. É verdade que alargar caminhos não era bem o tipo de missão que o aprazia, ainda que cumprisse as ordens recebidas com diligência e disciplina. Já providenciar escolta para o padre Penteado e para o tenente Rocha Loures era, esta sim, uma missão dignificante. Ao seu sentir, muito mais marcial que capinar as margens dos Matos Castelhano e Português. Nunca, nem em sonho, teria refugado a ordem do presidente da província para alargar aqueles caminhos, mas, na condição de homem de armas, tinha suas preferências in pectore. Enviar uma escolta requer solados e armas militares, e não roceiros munidos de enxadas, foices e ancinhos.
O que de certo modo o consolava é que a tarefa tinha como propósito dificultar os ataques dos “bugres selvagens”. Os Coroados estavam novamente tocaiando os viajantes que cruzavam os ditos Matos. O movimento dos tropeiros vinha aumentando significativamente e a província estava recebendo muitos imigrantes, especialmente alemães, e era preciso garantir a segurança dos que tropeavam, bem como dos colonos e viajantes. O Rio Grande do Sul saía de uma revolução traumática e paralisante. Era preciso recuperar o tempo perdido. E uma condição necessária era dispor de estradas seguras. Alargar os caminhos, ampliar seu leito e desbastar as laterais era uma forma de impedir que os nativos tivessem como se esconder na capoeira das margens. A vegetação densa e alta facilitava a que os bugres se escondessem e, no momento aziago, saíssem para emboscar os viajantes. De modo que, objetivamente, o tenente-coronel Antônio Maria compreendia que a ordem para alargar em 30 braças meia légua do caminho do Mato Castelhano e 2 léguas do Mato Português fazia sentido e lhe cabia cumprir.
Ao terminar de ler as ordens, o tenente-coronel falou aos visitantes:
— Meus senhores – adotou um tom solene –, observo que as determinações de nosso presidente são meridianamente claras e bem definidas: ele determina aqui que eu providencie uma escolta a vosmecês e ao padre Antônio de Almeida Leite Penteado até os toldos dos índios das proximidades de Passo Fundo.
— Sim, estas são precisamente as ordens do Conde de Caxias de que somos portadores. – Concordou o tenente Rocha Loures.
— Muito bem, caro tenente, todos poderão contar com meu empenho em atender a essas ordens da melhor forma possível.
O tenente Rocha Loures agradeceu:
— Fico grato ao seu empenho. Tenho certeza de que o padre Antônio Penteado também lhe ficará grato.
— Perfeitamente, senhores. Vou providenciar a execução das ordens. Nesse meio tempo, fiquem à vontade no quartel. Vou ver para que lhes providenciem alojamento e seja servido um chimarrão com a fina erva-mate que nós mesmos produzimos aqui em Cruz Alta.
— Obrigado, comandante. – O tenente Rocha Loures fez uma continência e encaminhou-se para a saída.
Após os irmãos Rocha Loures e seus acompanhantes deixarem a sala, o tenente-coronel acomodou-se em sua cadeira. Precisava achar a melhor maneira de cumprir as ordens do presidente da província. Enquanto pensava, pegou o caderno em que registrava suas anotações diárias e nele escreveu: “Lembro que minha primeira missão como militar foi fazer escolta. Hoje não mais cavalgo para proteger e defender. Porém, fazer escoltas é missão que ainda me agrada, embora apenas as organize e envie. Mas meu coração ainda segue junto e fica inquieto, se perguntando sobre a sorte e o bom êxito de cada dia. E nada me alegra mais do que ver o retorno bem-sucedido dos soldados a quem confio uma missão”.
Enquanto seguia o ritual de registrar seus pensamentos com jeito minucioso, refletiu sobre como melhor atender às determinações recebidas. Ponderou, de si para si mesmo, que o mais acertado seria enviar uma escolta formada por um grupo de combate. Escoltas nem sempre eram tão numerosas. Neste caso, enviar um efetivo de nove combatentes, sendo um terceiro sargento, como comandante, e duas esquadras com quatro integrantes cada uma, compostas de um cabo e três soldados, seria talvez excesso de zelo. Mas entrar em território indígena era uma incógnita. Melhor pecar por excesso do que por falta. O problema imediato é que os seus melhores homens estavam nas obras de alargamento das picadas dos Matos Português e Castelhano.
Em princípio, formar um grupo com o pessoal que tinha à disposição seria uma solução simples, mas, reconhecia, um tanto precária. Os militares que estavam no quartel eram, em sua maioria, um pessoal menos apto fisicamente para marchar em mata fechada. Os sargentos e cabos que tinham permanecido eram os mais velhos, estavam fora de forma ou apresentavam algum problema de saúde. Dois, inclusive, tinham se ferido nas obras e não tinham ainda recuperados. O grupo funcionava bem na instrução, mas nenhum deles parecia talhado para receber a incumbência de sair em escolta. Alternativamente, havia os recrutas em formação. Era um grupo promissor, que dera trabalho recrutar. Alguns eram ex-revolucionários farroupilhas reconciliados com os legalistas, mas ainda estavam em treinamento. Por outro lado, chamar alguns homens de volta das frentes de obra para formar uma escolta mais perto do ideal tomaria alguns dias. Após pensar um pouco achou que era melhor trocar ideias com o tenente Rocha Loures. Ele, como militar conhecedor da realidade dos riscos que poderiam se apresentar à escolta, saberia opinar com acuidade.
Mandou chamá-lo e explicou:
— Tenente, queria ser sincero com vosmecê. Tenho um bom grupo de oficiais, sargentos e praças aqui em Cruz Alta. Mas os meus melhores homens estão fora, enviados para as frentes de trabalho do alargamento dos caminhos nos Matos Português e Castelhano, de modo que o contingente que está aqui é formado de efetivos fora das boas condições, por saúde ou idade, ou é de recrutamento recente. E sendo o senhor um militar experiente, saberá me aconselhar na escolha entre as alternativas que tenho: ganhamos tempo reunindo um grupo entre os melhores homens que tenho disponíveis, o que permitiria à sua comitiva seguir em frente amanhã, ou esperamos alguns dias para formarmos um grupo ideal com soldados que mandaria chamar das frentes de trabalho?
Rocha Loures não teve nenhuma dificuldade em entender o dilema a que o tenente-coronel estava submetido. E sua resposta foi direto ao ponto:
— Coronel, creio que o mais importante agora é nos apressarmos. Tenho meu pessoal esperando lá em Passo Fundo. As pessoas estão sem notícias nossas e já devem estar um tanto cismadas. Lá tenho também soldados que estão comigo para proteger os trabalhadores da estrada e que seriam um reforço de retaguarda se necessário. Além disso, em nossa ida a toldo do cacique Nonoai vou contar com o apoio do cacique Condá e seus índios. Sua escolta nos honra imensamente, mas trata-se de zelo com que nos homenageia sua excelência, o Conde de Caxias. Portanto não vejo motivos para retirar seus homens das frentes de trabalho onde estão alocados.
O coronel mostrou-se aliviado e concordou:
— De certo, acho que vosmecê tem bons argumentos e faz uma boa opção. Penso que, de fato, o tempo é a coisa mais crítica. Acho que daqui a Passo Fundo seu grupo vai seguir em boa segurança. Grupos de tropeiros e comerciantes têm seguido daqui, de Cruz Alta, até lá sem sofrer emboscadas e sem ser hostilizados. Os trechos mais perigosos são os do Mato Castelhano e, notadamente, do Mato Português, mas, ao que sei, sua comitiva desviará para o Norte em Passo Fundo e não vai passar por eles.
O tenente Rocha Loures continuou:
— Sim, é exatamente isso. Depois de Passo Fundo seguiremos no rumo Norte, e é no território de Nonoai que seu pessoal será mais necessário. Será para proteger o padre Penteado e evitar que assaltem a tropa de mulas com a carga a ser entregue aos Kaingang. Como eu disse, vou seguir com meus homens da Polícia de Pedestres de Palmas. Não custa lembrar que o cacique Condá, que vai seguir com o nosso grupo, é o mais respeitado cacique Kaingang lá do lado de cima do Rio Uruguai. Condá é capitão fardado da polícia de São Paulo e já conferenciou com Nonoai sobre nossa missão. De modo que posso assegurar ao senhor que precaução é o que não faltou. Mesmo contando com o imponderável ou com o inesperado, que sempre existem, estamos bem providos de segurança e bem acautelados no nosso proceder.
O tenente-coronel definiu a decisão:
— Neste caso, estamos acertados. Vou agora mesmo escolher o melhor grupo entre os homens que disponho aqui e todos poderão seguir amanhã, sem mais delongas.
O tenente Rocha Loures deu um suspiro de alívio:
— Muito bem. Fico muito feliz que possamos seguir. Como pode vossa excelência imaginar, eu estou ansioso para voltar. Os entendimentos com os índios me parecem estar indo bem e não vejo a hora de abrir o novo Caminho do Goio-En.
O tenente-coronel riu do ar afobado de Rocha Loures:
— Certamente, caro tenente. Em seu lugar eu também estaria ansioso. Sei como é ter o senso de missão a cumprir. Eu mesmo vivo cheio de ansiedades para completar as minhas. Agora mesmo, com a missão de alargar os picadões do Mato Castelhano e do Mato Português, eu nem mais consigo dormir à noite. Acho que é a tal de “noção do dever” de que o Conde de Caxias fala sempre.
— Deve ser, caro coronel, deve mesmo de ser…
Ato contínuo, o tenente levantou-se, ajustou o cinto e preparou-se para sair.
— Excelência, se o senhor me concede permissão, vou já tratar dos detalhes para podermos partir amanhã cedo.
— Permissão concedida, senhor tenente. – O coronel levantou-se e estendeu a mão. Rocha Loures, contudo, antes de apertar a mão do coronel, preferiu demonstrar sua apreciação fazendo uma continência.
O coronel completou:
— Enquanto vosmecê organiza sua comitiva eu vou dar ordens para organizar o grupo de escolta que ficará a sua disposição.
E assim despediram-se.
O tenente Rocha Loures foi ao pátio e chamou todos os membros da comitiva. Com todos reunidos em círculo, à sua volta, informou que partiriam no dia seguinte.
— Companheiros, tenho boas notícias. Queria dizer a todos que partiremos amanhã de madrugada no rumo de Passo Fundo. São 20 léguas de estrada em terreno mais favorável do que aquele que cruzamos. Se fizermos uma boa marcha, em dois ou, no máximo, em três dias estaremos em Passo Fundo.
O grupo vibrou com a boa notícia. Todos, João Cypriano, Thiago, Thereza e os tropeiros, desejavam chegar logo.
Recolheram-se em seguida e, após uma noite de sono tardio, agitado pela expectativa de seguirem para Passo Fundo, os integrantes da comitiva acordaram e puseram-se de pé, dispostos a fazer o dia render. O sol ainda não descolara do horizonte quando se ouviu o tropel da escolta que vinha apresentar-se. Era um grupo de combate, composto de um alferes comandante e um efetivo de combatentes, sob a chefia de um terceiro sargento e duas esquadras com quatro integrantes cada – um cabo e três soldados –, que vinham com os estandartes das esquadras desfraldadas ao vento.
O tenente Rocha Loures saiu para ver o grupo de combate chegar. Como militar, ele apreciava ver os garbosos cavaleiros e seus estandartes vindos em formação. O alferes dos caçadores, um homem dos pampas, média estatura, olhos negros perscrutadores, barba negra mostrando fios grisalhos, dentes inteiros, sorridente, mas um pouco acima do peso, enfiado em uma farda dos tempos em que sua barriga era menos proeminente, teve alguma dificuldade para desmontar. Dificuldade ainda maior para, depois de apeado, arrumar a farda, fechar alguns botões rebeldes da jaqueta, ajeitar o cinturão e a correia transversal da patrona, a bolsa da cintura para a guarda da cartucheira. O quepe tinha o penacho de cor indefinida, o que significa dizer, do lado positivo, que ainda tinha o penacho. Apresentou-se ao tenente, fazendo continência. A voz soava aguda, em um tom de contralto feminino, mas amistosa e bem modulada:
— Senhor tenente, sou o alferes Moreira, do Batalhão de Caçadores de Cruz Alta. Recebi ordens de fazer a escolta do senhor e do padre Antônio Penteado até o toldo dos índios da região de Passo Fundo. Estou às suas ordens.
O tenente devolveu a continência, fixou os olhos naquela figura pitoresca, com a qual simpatizou desde logo:
— Alferes Moreira, muito me alegra saudá-lo e a todo o seu grupo. É uma satisfação contar com sua escolta e tenho certeza de que o padre Penteado ficará ainda mais satisfeito que eu ao saber que terá seus soldados para irem com ele aos toldos de Passo Fundo.
O alferes, porém, tinha uma sugestão a fazer:
— Senhor tenente, vejo que sua comitiva está pronta para partir. Na vinda passei por uma tropa de muares que também se apronta a seguir para o Norte. Se demorarmos na partida e seguirmos depois dela vamos ficar nos atrasando um bom tempo pela necessidade de acompanhar o passo sossegado da tropa mista que vai na frente. O caminho para o Norte vai umas 10 léguas bastante estreito, e não é largo o suficiente para permitir duas tropas cruzando ou uma passando a outra. Eles seguem com uma tropa de aproximadamente 300 mulas, 50 cavalares e 50 cabeças de gado. E com gado o avanço sempre é ainda mais vagaroso. Então, se me permite, acho que devemos ir logo para garantir a estrada livre.
O tenente percebeu o contratempo que representaria.
— Acho que tens toda a razão em nos alertar. Saindo depois teremos que ir bem mais devagar. Qual sua sugestão?
O alferes apontou para o caminho e sugeriu:
— Sua comitiva pode sair para a estrada e partir logo, sem mais delongas. E eu sigo rápido na frente e peço ao pessoal daquela comitiva para que nos dê passagem.
O tenente ficou em dúvida:
— Eles fariam isso? Não os irá atrasar?
O alferes foi enfático:
— Pela lei da estrada, o mais lento dá passagem para o mais rápido. Se vosmecê decidir sair agora, sua comitiva passará pela deles em menos de meia hora. E eles até vão gostar. Uma comitiva escoltada pela polícia passando na frente vai afugentar os bugres que possam estar de tocaia.
O tenente concordou:
— Acho que é o que devemos fazer, então. E se vosmecê me permitir, vou pedir para meu irmão ficar com o grupo e ir liderando a marcha e sigo com vosmecê para falar com os membros daquela comitiva. Gostaria de saber mais sobre eles, para onde vão e como farão a viagem. Pode bem ser que eles formem o tipo de comitiva que queremos atrair para a viagem pelo Caminho do Goio-En.
— Caminho do Goio-En? – Quis saber o alferes.
— Pois é. Esse é o novo caminho que estamos abrindo para seguir ao Norte de Passo Fundo, vadear o Rio Uruguai no Passo do Goio-En e cortar um colosso de naco do trajeto pela via dos Campos de Vacaria. – Esclareceu Rocha Loures.
— Um novo caminho para São Paulo? Subindo no rumo Norte direto? – Insistiu o alferes Moreira.
— Isso mesmo. E vai ser um caminho bem mais curto. Depois de atravessar o Rio Uruguai, vai subir por Palmas e Guarapuava, indo encontrar lá em cima, na Vila de Castro, o velho caminho para Sorocaba.
— Isso de novo caminho, nunca tinha ouvido falar. – O alferes estava admirado.
— Pois lhe digo que já está pronto. Ainda falta acertar com os Kaingang do cacique Nonoai um aldeamento para sossegar os índios e evitar que eles ataquem as comitivas. É isso o que vamos fazer agora, indo para lá. – Esclareceu o tenente.
O alferes, agora, estava verdadeiramente assombrado.
— A la fresca, tenente! Mas isso vai dar muito bochicho. A tropeirada vive reclamando das taxas lá de Lages. Se tiver um caminho que seja mais curto e que não seja esfolado com aquela taxação dos catarinas, não tenho dúvida de que vai ser muito concorrido.
— É o que nós também achamos, meu caro alferes. De maneira que é sobre isso que eu quero perguntar a esses tropeiros que vosmecê me diz que encontrou prontos para partir.
— Então vamos até eles. Em um tiquito de tempo chegaremos lá.
O alferes virou a montaria para o caminho e logo foi seguido pelo tenente, que, após dar instruções ao irmão para colocar a comitiva na estada, saiu trotando rápido.
Os cavalos foram colocados em passo longo e, após vencida a elevação que tinham no caminho, mudaram para um trote ligeiro. O ar da manhã era saudável e refrescante e até mesmo os cavalos estavam lépidos, parecendo se dar conta de que começava mais um dia de marcha pelos campos. Naquela marcha rápida, não demorou para que o alferes Moreira e o tenente Rocha Loures alcançassem a invernada de onde a tropa de muares se aprestava para partir. Ao chegarem, os dois oficiais perceberam que, de fato, a tropa mista da comitiva já estava pronta para entrar na estrada. Um grupo de dez peões e outro tanto de escravos terminavam de verificar os arreios.
O tenente Rocha Loures e o alferes Moreira se aproximaram da área aberta da invernada, formada por um pátio que dava para o caminho. O dono da tropa, um homem que aparentava estar na casa dos 30 anos, de estatura média, rosto bem proporcionado, testa alta, cabelos abundantes e negros, nariz fino e olhos castanhos penetrantes, ao ver os dois homens fardados vindo apressados ao seu encontro, ficou um tanto desassossegado. Não imaginava o que poderia ser, mas eram tempos confusos, que ainda não haviam serenado por inteiro após os entreveros da revolução. Então, podia ser coisa à toa, mas também podia ser que tivesse alguma estorvada que vinha com os cavaleiros que se aproximavam. Decidiu que, pelo sim, pelo não, era melhor ir ao encontro deles para saudá-los e recebê-los.
— Buenos dias, senhores. Sou David dos Santos Pacheco, dono desta tropa que está prestes a partir.
A voz denotava firmeza e autoconfiança, mas não escondia a inquietude de quem temia sofrer atraso por algum evento inesperado que fosse a causa daquela visita repentina. O alferes Moreira percebeu o desassossego de David Pacheco e se apressou a responder e a fim de tranquilizar o dono da tropa.
— Senhor Pacheco, buenos dias. Sou o alferes Moreira, do Corpo de Caçadores aquartelado aqui em Cruz Alta, e meu companheiro é o tenente Francisco da Rocha Loures, de Polícia de Pedestres de Guarapuava, da vizinha Província de São Paulo. Estamos prestes a seguir com uma comitiva que está na sua retaguarda, aqui bem próxima. Nossa comitiva é de muares cargueiros que viajam leves e já está pronta para ganhar a estrada. A nossa vinda aqui é para indagar se o senhor nos dá passagem e nos permite ultrapassar sua tropa com nosso grupo. Sua tropa é grande e deve seguir a passos mais lentos, em marcha mais devagar. Nós somos bem menores e mais ágeis. Assim, com su permiso, pedimos para cruzar na frente de sua comitiva de modo a não ficarmos vagarosos na sua retaguarda.
David do Santos Pacheco visivelmente se aliviou:
— Senhores, sempre me alegra e me honra receber a visita de oficiais da polícia, ainda mais sendo um daqui e outro de São Paulo. Em Guarapuava, minha família tem muitos amigos e negócios. Mas eu não sabia de sua comitiva, mas se se apressarem eu certamente posso segurar meu pessoal para ceder passagem. Só pediria que não se demorassem porque, vejam, até a mula madrinha está pronta e ficando indócil, com o madrinhador segurando no cabresto. De toda forma, só posso concordar que minha tropa vai seguir no despacito e podem atrasar a sua. – E dirigindo-se ao tenente falou: Se ouvi certo, o tenente é da família Rocha Loures.
O tenente tocou o quepe em saudação e respondeu:
— Sim, senhor Pacheco, com sua licença, quero me apresentar. Sou Francisco da Rocha Loures, filho do capitão Antônio da Rocha Loures.
O tropeiro abriu um vasto sorriso:
— Ora, que extraordinária coincidência. Pois saiba que conheço bem o capitão Antônio da Rocha Loures? Ele é homem de grandes qualidades, que conta com minha amizade pessoal e da minha família. O capitão é autoridade admirada lá em Guarapuava. Eu sei que seu pai foi pioneiro de Guarapuava e chefe da luta de resistência na batalha contra os índios que atacaram o Forte Atalaia, no início do povoamento. Já estive com ele, pessoalmente, em mais de uma ocasião. É pessoa muito grata para minha família. De modo que conhecer aqui um de seus filhos é evento inesperado, mas que me dá a maior satisfação.
O tenente Rocha Loures deu notícia que seu irmão também estava na comitiva dele:
— Senhor Pacheco, igualmente me alegro em conhecê-lo. Meu irmão mais novo, João Cypriano, também está na minha comitiva e ficou mais atrás. Com certeza ele vai ter grande agrado em conhecê-lo também.
Diante daquela recepção e da cordialidade do dono da tropa, os dois oficiais apearam para poder conversar com o tropeiro. Seria indelicado continuar a conversa com o interlocutor no solo e eles sobre as selas. Depois de apeados, os dois oficiais estenderam a mão para o homem que haviam imaginado ser o condutor da tropa, mas que agora sabiam ser o dono. Mais do que isso. Sabiam agora que aquele homem jovem, elegante e aprumado era ninguém menos que o famoso David Pacheco, conhecido e respeitado onde houvesse tropas e comitivas. Mas algo de que o tenente também lembrou é que David Pacheco havia sido uma das testemunhas contra o cacique Victorino Condá no processo de Justificação movido por Pedro Siqueira Cortez e Domingos Ignácio. Preferiu, contudo, nada comentar. Afinal, seu pai também dera depoimento no caso da Justificação de Condá.
O tenente conhecia as circunstâncias do caso e lembrava que seu pai só fizera o depoimento por insistência de Domingos Ignácio, a quem devia favores. Também recordava que seu pai lhe disse que tinha muitas dúvidas sobre o envolvimento direto de Condá, mas não poria a mão no fogo por ele. Afinal, como repetia amiúde, ele “confiava muito nos seus dentes, mas, de vez em quando, eles lhe mordiam a língua”. Achava, também, que o cacique era cobra criada. Sua condição de capitão dos índios não lhe fora atribuída por acaso. Índio aculturado e bem vivido, criado em meio à comunidade branca, da qual conhecia virtudes e defeitos, era ladino como poucos. Sabia como conduzir-se no mundo civilizado e como valer-se de truques e subterfúgios da política para atuar na defesa dos Kaingang. E era sabido que Condá não tinha por hábito engolir desaforos. Portanto, como lhe confidenciou o pai, ainda que visse como pouco provável uma culpa de Condá no rol de acusações que lhe faziam, não eliminava por inteiro a hipótese de que ele pudesse ter tido algum envolvimento em uma guerra de desgaste travada para defender os interesses de sua tribo. Ademais, o capitão achava que aquele dossiê não daria em nada. Em São Paulo, seria visto como intriga. Por fim, com seu depoimento, quitava os favores que devia ao todo-poderoso capitão-mor Domingos Ignácio.
A verdade é que o capitão Antônio da Rocha Loures ainda conservava réstias do prestígio adquirido como comandante da vitória sobre os ataques indígenas ao Forte Atalaia. Vez por outra, era citado na escola da vila ou louvado em cerimônias, mas, àquela altura da vida, apesar da mente saudável e do físico robusto, era tido como homem idoso, sendo que muitos achavam que devia recolher-se a uma aposentadoria. E dentre esses muitos, não poucos olhavam seu cargo com cobiça. Portanto, para manter-se no cargo, dependia das boas graças de Domingos Ignácio. Outro fator que havia levado em conta era a preocupação com a carreira militar do filho. O capitão-mor, ao chamá-lo para depor, fez uma sutil observação a respeito da carreira do então alferes Francisco da Rocha Loures: “Seu depoimento pode ajudar seu filho a livrar-se do estigma de ter sido amigo daquele bugre selvagem”.
A insinuação, jogada no ar como quem não quer nada, soou como uma ameaça velada que Antônio da Rocha Loures entendeu como um aviso. O velho capitão sabia muito bem de que lado soprava o vento e queria evitar contratempos para a carreira do filho. Reconhecia que o capitão-mor poderia ser de grande ajuda para alavancá-la, ou prejudicá-la, o que, desconfiava, faria sem pensar duas vezes. Podia não ser justo, mas era assim que as coisas funcionavam nas fronteiras truculentas do império. Por isso, agora, o tenente Rocha Loures compreendia a posição a que fora levado seu velho pai. E a revolta ante o constrangimento a que seu pai fora submetido para depor contra Vitorino Condá o tornava ainda mais determinado a respaldar o cacique que admirava por sua luta nos campos de Palmas, Chapecó, Irani e nos amplos campos do Planalto Meridional.
Enfim, de toda forma, ali estava ele, o tenente Francisco da Rocha Loures, frente a frente com o influente e renomado dono de tropas David dos Santos Pacheco, que um dia viria a ser o primeiro e único Barão dos Campos Gerais. E apertou-lhe a mão estendida com grande calor:
— Senhor David Pacheco, tenho um grande prazer em conhecê-lo. Encontrar o senhor aqui, em Cruz Alta, é uma dessas agradáveis surpresas que a vida nos reserva de vez em quando. Nunca poderia imaginar que fosse encontrá-lo aqui, nesta estrada e nestas circunstâncias. Seu nome é muito conhecido como dono de tropas na região de Guarapuava e Palmas, e sua família é muito influente tanto nos Campos de Palmas como em Guarapuava e em todos os Campos Gerais.
David Pacheco mostrou-se lisonjeado pelas palavras daquele esbelto oficial paulista que, como o sabia, era, ele também, membro de influente família pioneira de Guarapuava.
— Meu caro tenente, o prazer é mútuo. Encontrar aqui, longe de casa, no caminho de Cruz Alta, um oficial da família Rocha Loures é um grande acontecimento. E um ensejo que só pode significar bafejos de sorte e bons augúrios.
O tenente respondeu na mesma linha do que lhe disse o tropeiro:
— Que os bafejos da sorte e os bons augúrios sejam pródigos para nós todos. Confesso que certas coincidências me parecem mais que feitas de retalhos de destino ou de fragmentos do acaso, como se por encomenda dos duendes e elfos. Ouso dizer que a mim parecem mais destino que acaso. Pois imagine o senhor que eu, na noite passada, estava insone e matutando em como fazer para encontrar um dono de tropas experiente para consultar sobre estradas e invernadas. E não é que hoje, logo de manhã cedo, me deparo com vosmecê? Não apenas um dono de tropas trivial, mas o de maior nomeada e prestígio. Então, aproveitando meus elfos e minha sorte, gostaria de ouvir sua opinião. Estou incumbido de fazer um novo caminho saindo de Passo Fundo e rumando para o Norte, para cruzar o Rio Uruguai no Passo do Goio-En. A missão, que me incumbiu o governo de São Paulo, vai além de abrir a estrada que deve seguir até Guarapuava, de onde deve chegar a Castro para entroncar com o Caminho Geral. Cabe a mim também montar todo o necessário para oferecer serviços de apoio e dar segurança à estrada. Além disso, tenho a meu encargo escolher pontos de parada e organizar invernadas para as tropas, uma incumbência que passo ao meu irmão que está na comitiva comigo. E devemos, igualmente, colaborar na pacificação dos índios, de modo a dar segurança ao tráfego na estrada. Então gostaria de me aconselhar com Vosmecê e me valer de sua experiência e conhecimento.
David Pacheco demonstrou surpresa e satisfação:
— Homessa! Pois então é vosmecê que está encarregado de abrir o tal Caminho do Goio-En? Muito me agrada saber. Fala-se que o governo paulista queria abrir um novo caminho que encurtasse o trajeto para as tropas. Ainda na viagem de ida eu ouvi falar sobre uma nova estrada, porém estava custando a acreditar. Já tenho o lombo curtido pelas confusões que aparei. Boatos e causos são tão comuns nas conversas entre tropeiros como butiás na beira da estrada. Só que, feito eles, quase sempre são abichados. Ultimamente começaram de novo a falar sobre uma nova estrada. Mas eu, cá, ouvia e só balançava a cabeça. Não dá para dar muita trela aos causos contados no caminho. Na estrada, os dias um tanto que se arrastam. O buçal do tempo fica meio pendurado num palanque de amarração. Então se proseia muito, mas se diz pouco. Depois, temos que saber que, no caminho, cruzamos com todo o tipo de gente. Tem quem fale coisa boa, mas tem muito guasca que fica só na embromação. Às vezes, no meio da prosa à toa, tem até um pouco de verdade misturada com a lorota, mas o vivente precisa ficar aceso e desconfiar. No geral, a verdade, quando tem, é pouca, já a mentira, quase sempre é muita.
— Pois é assim mesmo. Só que desta vez o novo caminho é para valer. – Informou o tenente Rocha Loures
David Pacheco continuou:
— Por uns tempos, durante a Revolução Farroupilha, pararam as histórias duma nova estrada, mas de uns tempos para cá, como o assunto dos entreveros ficaram ralos como sopa de aipim, recomeçou o zum-zum. Tinha para mim que a boataria era pura especulação, porém me alegro muito em saber que a estrada vai sair mesmo. Neste caso quero ser dos primeiros a tirar proveito e lucrar com ela.
— O senhor será bem-vindo e, desde já, pode contar com nossos préstimos para que tudo transcorra a seu contento.
— Eu já vou agradecendo por conta. Já ia dar passagem e precedência à sua comitiva por educação, mas agora é por consideração. Por isso, caro tenente Rocha Loures, se precisar de alguma coisa, estarei seguindo em sua retaguarda e ficarei às suas ordens. E, se me permite o amigo, vou contar a todos sobre a novidade da estrada. Se calculo certo, a redução do tempo de marcha pelo novo caminho vai nos dar de presente de um ou até dois meses por ano.
O tenente concordou:
— Sim, o ganho de tempo vai ser daí para mais. E vosmecê está certo. As comitivas vão cruzar o Goio-En e depois vão poder cruzar por dentro, pelo vau do Rio Iguaçu, como hoje fazem muitas boiadas e comitivas que têm origem em Palmas e Guarapuava. Para o pessoal daquela região a descoberta do vau pelo Pedro Siqueira Cortez foi um achado que veio a calhar. Tenho que reconhecer, mesmo que a contragosto, que essa foi uma coisa boa que aquele guasca tinhoso acabou fazendo.
— Pois de fato. – Respondeu o tropeiro. – Conheci o Siqueira Cortez por ocasião dos depoimentos sobre aquele processo de Justificação do Cacique Condá. Aquele processo deu em alguma coisa?
— Ao que me conste, não deu em nada. Tanto que o cacique mantém a patente de capitão dos índios e está trabalhando para o governo paulista na pacificação dos Kaingang do Alto Uruguai.
David dos Santos Pacheco preferiu deixar o assunto de lado. Não tinha nada a ganhar cutucando na ferida. Estava com 35 anos, mas já era tropeiro experiente e grande conhecedor das intrigas políticas que se mesclavam aos negócios com tropas e tropeiros. As somas envolvidas eram muito altas e os negócios se baseavam em fiadores que bancavam os riscos financeiros. Distúrbios nas relações entre os operadores do mercado se refletiam diretamente no custo das operações de fiança, que levavam em conta o nível de risco do dono das tropas.
– David era filho de um capitão de ordenanças, Manoel dos Santos Pacheco, e de sua mulher, Maria Collecta da Silva. O tropeiro tinha nascido na cidade da Lapa, que pertencia à Província de São Paulo, em 28 de junho de 1810. Como a cidade em que cresceu dependia economicamente do caminho das tropas, o jovem, desde cedo, se deixou conquistar pelo tropeirismo. Empolgou-se pela aventura e pela a azáfama das comitivas. A vida de peripécias e as possibilidades sem limites que antevia na atividade tropeira o conquistaram; e, se de um lado, eram grandes os riscos, por outro, eram generosas as recompensas. Por isso decidiu que nela faria o seu futuro e, quisesse Deus, sua fortuna. Em busca desse propósito, empenhou-se com determinação e denodo e, sendo dotado de espírito empreendedor e enorme capacidade de trabalho, a essa altura já era homem de sucesso, de fortuna e de respeito. Em sua região de origem já era dono de fazendas, onde criava gado, e invernadas, que alugava para as comitivas que necessitavam paradas de descanso e recuperação dos animais. Quando se deparava com uma nova alternativa para expandir seus negócios, estava decidido a não deixar a oportunidade passar.
Para expressar seu entusiasmo diante do Novo Caminho das Missões, David fez uma mesura aos oficiais que tinha à sua frente:
— Agradeço aos senhores por tão boas notícias, que acenam com tão proveitosos lucros. E, agora, sabedor das razões da pressa, terei todo o prazer em ceder-lhes primazia na passagem. Minha pressa vem do ritmo da viagem que me empenho em manter, mas nunca é tão justificada quanto as sobejas razões dos senhores.
O tenente Rocha Loures não quis ser deselegante e se adiantou para, mais uma vez, justificar:
— Senhor Pacheco, fico-lhe imensamente grato e peço que desculpe nosso alvoroço, mas observo que bem entende os motivos que nos apressam. Meu pessoal está em Passo Fundo aguardando meu regresso de Porto Alegre para dar continuidade às minhas incumbências de construtor da estrada. Outro motivo é que meus superiores de São Paulo devem estar ansiosos por notícias. Meu retorno está demorando mais do que o previsto.
Enquanto a conversa entreteve os interlocutores, a comitiva do tenente Rocha Loures já se tinha posto a cainho e vinha se aproximando pela estrada sob a liderança de João Cypriano, e já era possível vê-la apontando sob uma nuvem de poeira. Pela posição em que conversava, David foi o primeiro a notar a vinda da comitiva e apontou para a estrada, chamando a atenção dos seus interlocutores para que se voltassem e pudessem ver sua aproximação.
— Vejam, acho que é a vossa comitiva que está se aproximando. Então agora fica fácil resolver esta questão da passagem.
O tenente Rocha Loures e o alferes Moreira se voltaram e não tiveram dúvida, aquela era a sua comitiva que avançava pela estrada e vinha chegando. O tenente, que ainda estava surpreso em saber que as notícias da abertura da estrada tinham se espalhado tão rápido, ficou feliz em encontrar David dos Santos Pacheco. Uma coisa seria esperar que a abertura do Caminho do Goio-En tivesse boa aceitação, outra era viver a experiência da aprovação por parte de um dono de tropas influente.
De toda forma, Francisco da Rocha Loures tinha para si que, por mais que o novo caminho correspondesse às expectativas dos tropeiros, não era de esperar que suplantasse a rota em uso, via Campos de Vacaria. As invernadas já estabelecidas, os relacionamentos, as vilas que floresciam no caminho continuariam a atrair comitivas e tropas. Levaria tempo para consolidar o novo caminho e outro tanto para tornar suas vantagens e virtudes conhecidas. E, depois, naquela região de tantas refregas, contendas e divergências, onde a política era praticada desde o berço, consenso era coisa que raramente se via. O tenente lembrou de uma frase que ouviu de um antigo biriva, um paulista que havia mudado para o Sul, que lhe disse que duvidava que algum dia encontraria dois gaúchos que pensassem igual e se entendessem sobre de que lado o sol iria nascer no dia seguinte. Como, então, conseguir unanimidade entre os donos de tropas que tinham seus interesses investidos nos velhos caminhos das tropas?
A história do Caminho das Missões, bem o sabia, foi aberto pelas tropas de muares que saíam da região de São Borja. A nova estrada pelo Goio-En se valia do trecho inicial, que ia da fronteira até Passo Fundo, e ali tomava rumo Norte até desembocar em Castro, onde voltava ao leito principal. Era um pedaço de 160 léguas, ainda não totalmente preparado, mas encurtava em cerca de 40 léguas a distância via Vacaria e em cerca de 10 dias o percurso a percorrer. Era uma nova opção. Caravanas menores, especialmente de muares domados, poderiam subir rapidamente e aumentar seus lucros.
Para os estadistas do império, e para o Conde de Caxias particularmente, que observava de uma posição privilegiada, como presidente de província, o olhar cobiçoso da Argentina e do Paraguai lançado sobre as fronteiras não consolidadas com o Brasil, a nova senda que se abria no Brasil meridional era uma declaração de posse. O caminho ajudaria a consolidar o domínio brasileiro de toda uma região que já havia pertencido à Espanha e ao Paraguai, sob o nome de Gobernación del Guayrá, e ainda sofria contestações da Argentina, que queria tomá-la para si. (Essa disputa só veio a ser resolvida em 1895, graças ao talento do Barão do Rio Branco e com o arbitramento do presidente americano da época, Grover Cleveland, cujo parecer foi inteiramente favorável ao Brasil, com a definição das fronteiras pelos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio.)
A região que a nova estrada interligava, por seu clima favorável, terra fértil e relevo de suaves ondulações e colinas, salvo nos vales que a entrecortavam aqui e ali, tinha excepcional aptidão para as atividades agrícolas e estava destinada a ser um vasto celeiro. Proporcionava, portanto, todo um amplo território cheio de potencial para a povoação, o desenvolvimento e a prosperidade. Em um quarto de hora a comitiva alcançou o grupo que a aguardava à beira da estrada. O tenente Rocha Loures e o alferes Moreira despediram-se de David Pacheco com a certeza de que tinham feito um amigo.
A comitiva, vinda de Porto Alegre, pôs-se a caminho. Agora era apressar a marcha. Se o tempo continuasse favorável, em três dias chegariam a Passo Fundo. Com a tropa bem alimentada e descansada, dava gosto ver as mulas seguirem lépidas, como se a carga que levassem nada pesasse e o caminho fosse macio e fofo como campinas gramadas. E seguiram faceiros. Os três dias se sucederam como se fossem um só. Um tropeiro não contava os dias que são abençoados. Esses vêm e vão na monótona certeza de que avançar pelos caminhos de Deus é o que faz a marcha da vida; é o que dita a natureza. No caminho das tropas um dia se segue a outro. Os dias surgem com o sol despontando, depois caminhando sob sua trilha no céu, irrigando com sua luz que a tudo ilumina e, no ocaso, volta a esconder-se para findar seu ciclo. À noite, as estrelas do firmamento ora vêm, ora vão, ora resplandecem em noites claras de lua cheia, ora brilham, solitárias, no veludo negro das noites de lua nova, mas estão sempre lá, visíveis ou escondidas pelas nuvens, prontas para serem admiradas e brilhando impávidas.
De súbito, sem se darem conta, eis que Passo Fundo estava à vista. A alegria perpassa a todos. A jornada está terminando e antecipar a chegada é a alegria do viajante. Thereza se deliciava vendo os meninos, todos risonhos, exuberantes na alegria da novidade que descobriam. Para os piás, a infância é emoção e festa. A mocidade desfruta as novidades sem considerar as circunstâncias. Ela tem a proteção da inocência. Para Thereza, no entanto, o destino que estava cada vez mais próximo era a conclusão de uma jornada rumo a um novo lar. E ela também sonhava. Como iria ser linda a casinha de madeira aplainada, cercada de jardins e de flores onde as borboletas viriam pousar! A ela encantava a natureza exuberante que via se espalhar à sua volta. Lembrava seu pai dizer que Lutero afirmava que “Deus escreve o Evangelho não apenas na Bíblia, mas também nas árvores, nas flores, nas nuvens e nas estrelas”.
Thereza observou, divertida, que os jumentos e mulas, parecendo sentir que estavam perto do destino, saltavam mais lépidos e alegres. Ela observava os animais dedicados a levar suas cargas. Era inquestionável que, animais abençoados em cumprir com seu mister e que tinham nascido para essa faina, pareciam regozijar-se com a chegada ao destino e não se queixavam do peso e da marcha, mas apenas se compraziam na sua missão. Humildes, cumpriam seu papel. Abençoados, viviam para servir. Os ateus os desconsideravam. Diziam que os animais não têm alma. Para Thereza, contudo, enganavam-se. As almas que animam os bichos se realizam cumprindo o destino que lhes reservara o criador. Se os homens não os apreciam, ou não os compreendem, pior para eles. Na grande ordem do infinito, onde nada é por acaso e a vida é a celebração do divino, eles fazem a parte que lhes incumbe. Levam sua carga. Nascem, vivem e morrem para cumprir seu destino. Eles não têm satisfações a dar aos homens e aos ingratos. Esta vida não é um lugar em que esperam gratidão, recompensas ou justiça.
Thereza, em sua sensibilidade, entendia os animais e os admirava. Cogitava, para si mesma, como seriam as almas deles e se existiria um céu preparado para elas. Um lugar longe, no cosmo, para onde suas almas seguiriam para desfrutar a eternidade quando terminassem seus dias de lavar suas cargas e enfrentar caminhos ingratos. Um campo verde e suculento onde pudessem pastar, sem pressa, desfrutando a companhia de bichos como eles, onde seriam felizes compartilhando suas histórias, suas aventuras, lembrando quantas trilhas enfrentaram, quantas cargas conduziram. Onde iriam recordar o quanto contribuíram para que este mundo fosse melhor e mais feliz, compartilhando as alegrias singelas dos que vivem dias opacos, mas proveitosos, de vidas vividas para servir e comprazer os outros. E sem pedir nada além da oportunidade de viver seus dias e servir sem esmorecer. Vidas vividas sem deixar outra descendência que não a memória fugaz das marcas dos cascos na poeira da estrada. Poderia parecer pouco, mas virar pó é o destino final de todos os viventes. Assim como de todos os astros que povoam o universo. Thereza considerou então que Jesus devia ter especial carinho pelos jumentos. Afinal, não fora um deles, na noite fria em que nasceu, que permaneceu na manjedoura, ao seu lado, para dar-lhe o calor de seu bafo e o aquecê-lo com o zéfiro de seu sopro?
Quando a comitiva se aproximava de Passo Fundo, um grupo cavalgou, estrepitoso, ao seu encontro. À sua frente, Condá trotava e conduzia sua tropa de índios e alguns dos capatazes do Grupo de Construção da Estada para Goio-En, que vinham acenando com seus lenços e, a 1 quilômetro de distância, aceleraram suas montarias e se aproximaram a pleno galope. O tenente Rocha Loures fez um sinal para a comitiva suspender a marcha. Esperou que Condá chegasse e, quando as montarias emparelharam, cumprimentaram-se efusivamente.
— Oigalê, tchê, que bons ventos o trazem? – Perguntou o tenente ao cacique Condá, feliz em reencontrar o amigo e com a calorosa recepção.
— Pois faz menos de uma hora que tivemos notícia da chegada de vosmecês. E foi uma correria para virmos ao seu encontro, que faz tempo que não há quem não pergunte por onde andariam seus costados. – Foi a resposta de Condá ao tenente.
E logo os irmãos Rocha Loures confraternizavam com todos os cavaleiros da comitiva de recepção. Os grupos se juntaram e seguiram na marcha rumo a Passo Fundo. Continuaram até a entrada da vila, onde havia uma ampla área de descanso. Naquele lugar existia um pequeno bosque e um campo de pasto abundante. Ali, a comitiva se preparou para uma parada, enquanto o tenente, seu irmão, Condá e o alferes Antônio Miranda, que chefiava a escolta enviada pelo presidente da província, seguiam para a casa do comissário Joaquim Fagundes dos Reis. Lá se aproximaram com a barulheira natural de cavaleiros que chegam ao local de desmontar confraternizando e falando alto. A cacofonia incluía os cavalos fazendo ressoar os cascos ferrados batendo no solo, as montarias relinchando e resfolegando com as narinas abertas, enquanto os cães, correndo em volta, latiam espalhafatosamente.
Logo o comissário soube quem estava chegando e saiu para o pátio para receber o grupo. Da porta, já acenava com a mão e saudava a comitiva.
— Tchê, que baita surpresa! Se aprocheguem, pois vêm alegrar o meu dia. – Estava feliz em ver os irmãos Rocha Loures de retorno da viagem.
O tenente apeou e prendeu sua montaria na argola do poste da entrada. Os demais o seguiram. O comissário convidou os recém-chegados a entrar em sua sala de visitas e, enquanto eles se acomodavam, pediu à sua mulher para servir uma dose de aguardente e refrescos, e mandou botarem água no fogo para preparar um chimarrão.
— Entrem e se acomodem. Fiquei muito faceiro de ver que estão de volta. Vamos tomar um gole da minha aguardente especial porque quero destravar as línguas para saber das novidades tim-tim por tim-tim.
Logo o tenente explicou que o restante da comitiva tinha ficado na entrada da vila, com sua tropa de mulas, escolta e cargas. Em voz pausada, para melhor efeito de seu relato, dava conta do resultado da viagem. Não se delongou, mas disse de como fora bem recebido pelo Conde de Caxias. Tinha sido uma grande honra. E relatou, orgulhoso, que soube por intermédio dele que tinha sio promovido de alferes para tenente. Contou, ainda, como recebera ferramentas e materiais para levar aos Kaingang e deu detalhes de como recebeu o altar, que o presidente tinha feito empenho em enviar. Na sequência, falou da escolta para apoiar o trabalho missionário do padre Penteado.
João Cypriano aproveitou uma deixa para dar notícia de sua decisão: iria iniciar imediatamente a abertura de invernadas. “Quem chega primeiro é que bebe água limpa”, disse. Era evidente que muitas comitivas de tropas e boiadas iriam desviar em Passo Fundo e seguir pelo Goio-En. Se poucas, ou se muitas, o futuro diria. Mas, fossem quantas fossem, ele estaria preparado para recebê-las. Descreveu seu projeto e deu uma visão geral do empreendimento. Demorou-se, especialmente, detalhando como pensava atrair uma freguesia que sustentasse o negócio. Com grande entusiasmo, revelou sua grande novidade: havia convidado o mensageiro Thiago para trabalhar com ele como seu capataz-geral.
O comissário, de início, ficou surpreendido, mas se alegrou com a notícia. Thiago era muito benquisto por ele e por todos que o conheciam. Na mesma hora percebeu que aquela era uma grande aquisição. O relacionamento do mensageiro por todos os rincões da província era conhecido. Suas constantes viagens e seu trabalho como correio de confiança do governo lhe haviam granjeado uma sólida reputação entre as autoridades públicas e os donos de tropas. Como capataz-geral do empreendimento de João Cypriano e divulgador do novo caminho, certamente seria de grande ajuda para impulsionar os negócios na região. Não conhecia ninguém melhor talhado para a tarefa de atrair tropeiros e comitivas.
João Cypriano, igualmente, contou que ele e seu irmão haviam convidado a esposa de Thiago para ser professora na povoação. Eles precisavam de uma mestra para os filhos dos novos empregados da manutenção da estrada e das invernadas, já que dispor de uma escola seria um grande atrativo para conseguir bons trabalhadores e suas famílias. E completou:
— Se o senhor tiver interesse, o governo da província pode aproveitar para abrir uma escola pública e contratá-la como professora. Nesse caso nós abrimos mão da primazia, que para nós o mais importante é educarmos nossas crianças. O que posso garantir, desde logo, é que ela é pessoa muito bem qualificada. Ademais, acho que a remuneração pelo governo poderia ser mais generosa do que nossos negócios permitem oferecer inicialmente.
O comissário gostou da ideia na hora. Com a pacificação da província, abrir uma escola passava a ser uma necessidade primordial para a vila. E havendo a possibilidade de contar com uma professora, era sua responsabilidade aproveitar a oportunidade. Qualquer protelamento seria um desserviço para a povoação de Passo Fundo. Era evidente que uma escola ajudaria a atrair mais famílias, especialmente a de colonos, que seriam muito bem-vindas.
— Meu caro senhor João Cypriano, preciso dizer que abrir uma escola me parece, deveras, uma esplendida ideia. Aliás, devo dizer que, em minha opinião, tanto contratar Thiago quanto sua ilustrada esposa foram ideias inspiradas. Carecemos de gente preparada e precisamos semear este chão com talento. Se depender de mim, Passo Fundo vai progredir cultivando talentos. Então conte com meu apoio. Minha experiência de vida me fez saber que, em qualquer iniciativa humana, o sucesso depende de gente que sabe fazer, quer fazer e faz. E tenho para mim que esse moço, o Thiago, é um fazedor de muito saber, muito querer e de muito fazer. Tem sido um mensageiro operoso e de inteira confiança. Como oficial do governo, sei que vamos sentir sua falta como mensageiro, mas, de outro lado, como comissário que quer o progresso deste povoado, me dá consolo a certeza de que ele, vindo para se tornar um morador, vai ser um grande reforço na nossa retomada de crescimento. De modo que, no fim das contas, será uma troca vantajosa para todos nós.
João Cypriano concordou, continuando:
— Excelência, é verdade. Acho que o Thiago, bandeando-se para nosso lado, vai somar uma barbaridade. E, de quebra, ainda ganhamos uma família que é um brinco. Thiago e a senhora dele trouxeram os três filhos, que já são guapos e crescidos. Sei que o senhor vai ficar bem impressionado ao conhecê-los. Eles ficaram com o restante do grupo no acampamento que arreglamos na entrada da povoação. E digo outra coisa: a dona Thereza vai ser uma professora de mão cheia. Ela vai ser do maior agrado de toda a vila. E como já veio junto com a comitiva, logo poderá iniciar as lições.
O comissário era todo satisfação:
— Mas que beleza. Ótimo. Ótimo. Gostaria de conhecer esta preciosa professora o quanto antes. Assim que tivermos acertado as coisas por aqui, gostaria de ir até o acampamento para dar ao Thiago e à dona Thereza as boas-vindas e me colocar à disposição.
O tenente Rocha Loures, que não se continha de curioso, perguntou ao Comissário sobre o que havia se passado durante sua ausência.
— Excelência, estou curioso para saber o que sucedeu por aqui durante nossa viagem.
O comissário abriu um vasto sorriso ao responder:
— Nem precisa me dizer, caro tenente. Pois tanto é natural que vosmecê queira saber dos acontecimentos havidos aqui, como eu desejo saber das coisas acontecidas em sua viagem. O que tenho a adiantar é que, de tudo o que aconteceu por aqui, o mais importante foi a nova visita de Condá a Nonoai e o progresso das conversas entre os caciques.
Na sequência, o comissário fez um sinal para Condá, que estava mais afastado, e pediu para que viesse sentar-se com eles.
— Cacique, nosso tenente Rocha Loures está ansioso por saber como foram seus entendimentos e acertos com o cacique Nonoai.
Enquanto Condá se aproximava e trazia sua cadeira, o comissário se voltou para o tenente antecipando o assunto:
– No retorno ao toldo de Nonoai eles se entenderam bastante bem e parece que estão combinando um acordo para o aldeamento. Ao que me disse, as conversas também estão envolvendo outros chefes indígenas e os anciãos da tribo. E isto é verdadeiramente muito auspicioso. Ao que me relata, as conversas já estão girando em torno da escolha de uma área para o aldeamento. Portanto, a possibilidade de uma pacificação duradoura parece estar ao nosso alcance.
O cacique Condá concordou:
— Sim, tenente. É com muito gosto que confirmo tudo o que o senhor comissário falou. Durante a viagem de vosmecê achei que seria proveitoso voltar ao toldo de Nonoai e me demorar uns dias conversando com ele. Tenho grande alegria em conversar com um cacique sábio e prudente, que tem tantas lições a me ensinar. Além disto, havia muitos assuntos pendentes. Por isto voltei a procurá-lo. Acho que o resultado foi muito proveitoso. Levei meus índios comigo para confraternizarmos e para aprofundar a amizade deles com os índios de Nonoai. Foi uma boa oportunidade para os meus índios falarem sobre os brancos e seus costumes. E contarem como é que nos relacionamos com os brancos em Guarapuava e nos Campos de Palmas. Também conversei bastante com vários rekakê-pai. Se o presidente Caxias atender aos pedidos da tribo, estou convencido de que a maioria dos Kaingang vai aceitar ir para o aldeamento. Alguns ainda não parecem muito dispostos a sair do mato, mas são poucos e prometem que não vão tentar guerrear com os brancos. Até porque o Nonoai deixou claro que quem atacar os brancos vai brigar com ele. Não são obrigados a vir para o aldeamento, mas vão ter que ficar em paz.
O comissário Joaquim Fagundes dos Reis interveio para acrescentar:
— E outra boa novidade, meu caro tenente, é que os índios de Nonoai falaram ao cacique Condá sobre outras sendas que podem conduzir para a passagem do Goio-En. Caminhos que podem ser mais curtos do que o Caminho do Vale Dourado. Assim, além do caminho que está sendo aberto pelo vale, existem outros possíveis mais a Oeste. Por agora não parecem ser de muita serventia, mas mais caminhos podem significar mais invernadas e mais comitivas de muares seguindo para São Paulo.
João Cypriano não ficou muito animado em saber de caminhos alternativos. Esses, acreditava, haviam de haver. Mas uma boa rota nem sempre seria a do caminho mais curto. A melhor rota era aquela que levava ao destino com mais segurança e mais conveniência. O novo caminho para o Goio-En via Vale Dourado estava testado, seria adequadamente implantado e bem protegido. Os índios, como o andar dos entendimentos indicava, o aceitavam sem grandes questionamentos. Além disso, sua topografia, apesar de acidentada, permitia boas áreas de invernada e recuos que facilitavam o policiamento e o apoio básico. João Cypriano sabia que, para um dono de tropas, como para qualquer comerciante ou homem de negócios, as incertezas eram tóxicas. De que valiam dez caminhos alternativos possíveis, porém difíceis, arriscados e desprotegidos? O mais acertado era seguir o plano original. Era preciso definir logo um aldeamento Kaingang que não conflitasse com a estrada, fazer um acordo que agradasse aos índios e seguir em frente.
Ademais, João Cypriano estava começando a alimentar outra aspiração. Já que iria haver um novo aldeamento, também haveria de ser criado o cargo de inspetor do aldeamento. Este era o cargo que se encarregaria de administrar e fiscalizar os aldeamentos de Palmas e Guarapuava. E sendo o aldeamento de Nonoai inspirado nos da província paulista, este cargo, ou um equivalente, seria criado ali. Caso conseguisse a nomeação, seu projeto teria um grande impulso. Iria ganhar influência sobre o aldeamento e sobre os índios, e, indiretamente, sobre a segurança da estrada e de suas invernadas. O cargo também lhe garantia um status político na província, o que seria como colocar uma camada de mel sobre seu bolo de milho e teria poder para fazer as coisas do seu jeito. Por isso, sem querer revelar a Condá as suas segundas intenções, perguntou se a área que os Kaingang desejavam para o aldeamento já tinha sido escolhida.
O cacique respondeu para João Cypriano que sim, que Nonoai já tinha uma área em vista. Mas que ainda não tinha a autorização do Grande Cacique para indicar o local como definitivo. E esclareceu:
— O cacique Nonoai é sábio e muito prudente. Ele tem ouvido todos os seus rekakê-pai e procurou ouvir as melhores sugestões dos anciãos da tribo. Eu escutei longamente suas ideias sobre o que fazer. De minha parte, dei algumas sugestões. Na verdade, eu voltei ao toldo pensando muito na localização do aldeamento. Conversei também com seus pajés e anciãos do conselho da tribo. Trocamos informações e avaliamos cuidadosamente as áreas que seriam mais apropriadas. Se escolhermos bem, as necessidades da tribo serão bem atendidas, não haverá fome e assim teremos harmonia, paz e sossego. Se escolhermos mal, os Kaingang terão fome e logo ficarão insatisfeitos. Se faltar alimento, os mais jovens vão criar problemas. Perguntei aos caciques onde ficam localizados seus toldos, onde estão os cemitérios de nossos mortos, as matas de coleta de pinhão, os rios da pesca, as trilhas de buscar mel e os caminhos que os índios usam e muitos outros detalhes importantes. Por fim, após muito debater sobre as alternativas, Nonoai e seu grupo estão preferindo um território que fica próximo da margem esquerda do Rio Uruguai, tem matas de pinheiro com pinhões em abundância, rios e campos de caça, ampla área para os toldos e onde os Kaingang poderiam viver sua vida seguindo suas tradições. A área tem 9 ou 10 léguas no lado comprido e mais ou menos 1 légua e meia na largura. Sua localização fica perto de onde desemboca o Arroio Passo Fundo das Missões. Eu acho que será o local definitivo, mas Nonoai só dará a palavra final depois de percorrer pessoalmente toda a área e ouvir toda a tribo.
João Cypriano fiou mais tranquilo:
— Ótimas notícias, Condá. Eu me alegro muito em saber que as conversas estão indo bem e a solução está se encaminhando. Um bom acordo com os índios é bom para os dois lados. Estou ansioso por ver as comitivas de tropas começarem a viajar pelo novo caminho e cruzar pelo Goio-En com segurança. Do Sul da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul até o mercado de tropas de Sorocaba, este trecho de Passo Fundo ao Goio-En ainda é o pedaço mais temido. Agora parece que, finalmente, não precisaremos mais dar uma volta de muitas léguas só para evitar o território Kaingang do Alto Uruguai. Acertado um acordo com Nonoai, em um ou dois dias as comitivas que passarem por Passo Fundo poderão vadear o Uruguai e passar para o outro lado. Do Goio-En para cima já vão encontrar um ambiente de civilização nascente e de boa segurança. Portanto, um acordo de paz aqui vai permitir criar negócios tanto deste lado do Uruguai como do lado ocidental, e a região inteira vai se desenvolver.
O comissário, que ouvia com agrado a fala do mais novo dos irmãos Rocha Loures, concordou sem titubear:
— Vosmecê tem carradas de razão. Concordo in totum. Os tempos são outros. Os bugres selvagens estão se convertendo para a civilização. Ainda nos criam algumas dores de cabeça, mas Nonoai vem se impondo e pacificando os grupos arredios. Os novos chefes percebem que os tempos mudaram. Cada dia chegam mais brancos. Os colonos estão se estabelecendo. De maneira que caciques influentes como Nonoai preferem uma paz negociada a uma guerra permanente. Alegra-me ver que terminaram os buchichos da Revolução Farroupilha e o presidente Caxias está açoitando a pilantragem e botando ordem nas coisas públicas. O que também significa combater os índios desgarrados que atacam nos Matos Português e Castelhano. Não tenho receio de garantir que a província vai crescer numa enxurrada de progresso de tontear qualquer vivente. E vai ser num upa. O Rio Grande e, especialmente Passo Fundo, vai recuperar o crescimento que ficou represado. E aí todos vão melhorar. Especialmente se os senhores me ajudarem a convencer a todas as gentes de que não devemos nem provocar nem brigar com um índio à toa. A não ser em legítima defesa. Para conquistar a confiança dos índios a primeira coisa é agir com sinceridade e não trair a confiança deles. Com honestidade e com coisas simples vamos poder fazer uma paz duradoura e boa para os dois lados.
Condá ouvia em silêncio. Torcia para que o comissário tivesse razão, mas sabia, por vivência própria, que não seria assim tão simples.
— Senhor comissário, me perdoe a cautela, bem sei que vossa excelência é sincero em sua intenção, mas o índio anda desconfiado. Tem levado muito susto e sofrido muito contratempo com a ambição dos brancos. Para que o índio aceite ir para o aldeamento ele precisa saber que o que for combinado será cumprido. Que o governo não pode deixar que, sem mais nem menos, tirem do índio alguma coisa que algum branco queira tomar. E o índio está escolado e sabe que o governo não está em todo o lugar. E sabe que o governo, muitas vezes, olha para o outro lado para não ver o que os brancos fazem com o índio. Por isto ele precisa estar preparado para defender o que é seu. Os Kaingang querem a paz, mas não a submissão. Eu tenho conversado com o cacique Nonoai sobre isto, e ele também acha que o índio não pode mais fazer de conta que os brancos não existem. Por isto o índio precisa chegar a algum acordo com o governo branco, mas tem que ser um acordo que deixe o índio forte para se defender e que ele possa viver com dignidade e sem precisar de favores. E a hora de fazer um acordo forte é agora. Depois de implantado o aldeamento será tarde demais.
Antes do Comissário poder responder ao cacique, ouviu-se a barulhada de um cavalo chegando apressado. Era o padre Antônio Penteado que chegava, esbaforido. Mal prendeu o cavalo em um balaústre do alpendre, entrou na sala arrumando a batina, que tinha erguido até a cintura para poder cavalgar. Estava afogueado pelo galope e não escondia a expectativa de reencontrar o tenente Rocha Loures após a viagem. Não era preciso ser adivinho para saber que estava ansioso por boas notícias. Cumprimentou os presentes com um aceno, mas levou sua mão estendida na direção do tenente.
— Bom-dia, excelência, bom-dia, senhores. Meu caro alferes, aliás, vejo que sua gola agora tem duas estrelas. Parabéns, tenente.
O tenente Rocha Loures riu da observação do padre Penteado.
— Pois é, meu caro padre. Eu fique sabendo de minha promoção por causa da carta do presidente de São Paulo para o presidente desta província, que dava notícia de minha ida a Porto Alegre. Na carta, conforme me revelou o Conde de Caxias, eu era referido como tenente Rocha Loures. O conde mesmo achou a situação hilária e me disse que, para todos os efeitos, eu tinha sido promovido. Como sou homem prevenido, eis que eu levava na bagagem dois uniformes com as insígnias. De modo que tinha duas estrelas sobrando. Assim, achei que me cabia o direito de colocar a segunda estrela na gola. Especialmente porque Caxias me apresentou como tenente dos Pedestres de São Paulo ao oficial de Cruz Alta, e seria esquisito me apresentar a ele só com uma estrela de Alferes. Achei que seria quase uma desfeita, como se eu desmentisse o presidente.
Foi a vez do padre Penteado achar graça:
— Nada mais justo. Seria quase uma mentira, e mentir é pecado. A promoção é com mérito. É merecida. Serve como mais uma prova de que Deus escreve direito por linhas tortas. De toda maneira, meu caro tenente, meus parabéns. E que Deus abençoe sua promoção!
O tenente redarguiu agradecendo e, finalmente, abordou o tema que interessava ao padre Penteado.
— Obrigado, reverendo padre. E me agrada poder dar-lhe excelentes notícias. O Conde de Caxias não só atendeu a seu rogo, como destacou uma escolta para acompanhá-lo na visita ao cacique Nonoai. E foi generoso com o senhor ao enviar-lhe de presente um altar portátil, com a toalha de altar, um cálice para as celebrações da eucaristia e demais pertences e apetrechos. Até hóstias e um garrafão de vinho de missa fez questão de lhe mandar.
— Mas que maravilha, meu caro tenente!
— Pois é mesmo. Caxias queria saber tudo sobre sua missão e estava muito feliz em apoiar sua iniciativa de cristianizar os Kaingang. Como, aliás, faz questão de apoiar também o aldeamento. Enviou um carregamento de ferramentas, roupas, tecidos e muitos outros presentes aos índios, que trouxemos junto com nossa comitiva, e prometeu que vai enviar ainda mais. E quanto à sua escolta, desejo lhe apresentar o alferes Teodorico Moreira, da Guarnição de Caçadores de Cruz Alta, que veio no comando.
O alferes levantou-se para se aproximar. Estava acomodado em um canto da sala, sentado em um banco rústico, mas que oferecia o conforto de um pelego jogado por cima. O oficial veio fechando os botões da túnica que revelava que havia engordado desde que tirara as medidas para a farda. O padre viu a figura guapa chegar lutando para acomodar seu corpo roliço na farda apertada e simpatizou com o rechonchudo oficial, que o fez lembrar do sargento Garcia das histórias de Dom Quixote. Recentemente havia relido algumas de suas histórias sob a luz de lamparina, antes de dormir.
O Tenente fez a apresentação:
— Padre Penteado, queria lhe apresentar o alferes Teodorico Moreira, da Guarnição de Cruz Alta, que comanda a escolta enviada pelo presidente da província para acompanhá-lo em sua missão de cristianização dos Kaingang do cacique Nonoai.
O alferes fez uma continência e, em seguida, apertou a mão que o prelado lhe estendia.
— Reverendo padre, muito prazer. Sou o alferes Moreira, do destacamento de Caçadores de Cruz Alta. Minhas ordens são as de colocar-me a seu serviço para dar escolta e proteção ao senhor em sua missão de evangelizar os índios. Estou com um destacamento de soldados que ficou no acampamento da invernada fazendo guarda do altar e das ferramentas e roupas enviadas pelo presidente Caxias para serem entregues aos índios. Portanto, desde já, eu e meus homens aguardamos suas ordens.
O padre agradeceu o comprimento:
— O prazer de conhecê-lo é todo meu. Obrigado, alferes, por sua vinda. Foi grande gentileza do presidente Caxias enviá-lo, e a escolta também. Eu me apoio sempre na fortaleza de meu anjo da guarda, mas mesmo ele terá um alívio com sua vinda, já que anda sobrecarregado com meus apelos de todo o dia. Então espero me valer de seus préstimos para chegarmos aos índios em segurança. E permita-me dizer que não vejo hora de seguir para os toldos e iniciar minha missão com os índios.
O alferes dos Caçadores respondeu ao padre:
— Padre Penteado, fico feliz em poder ser útil ao seu anjo da guarda, se ele me conceder a honra. Vossa reverendíssima pode contar comigo e com meus homens.
Nesse momento o comissário Fagundes dos Reis se aproximou. Com o retorno do tenente Rocha Loures e, especialmente, com a ajuda que vinha do governo da província, percebeu que, finalmente, os novos tempos começavam. Não que tivesse dúvidas sobre a prosperidade futura da região, cujo potencial ninguém negava, mas avigorava-se em saber que Passo Fundo iria tomar impulso ainda em seu tempo de comissário. Colocou-se entre o tenente e o alferes Moreira, passou os braços sobre os ombros dos dois militares e, ficando de frente para o cacique Condá e o padre Penteado, assumiu ar solene para dizer ao grupo:
— Senhores, que Deus perdoe minha afoiteza, mas me confesso cheio de esperança. Meus caros amigos, agora que estamos perto de nossos objetivos, precisamos nos encher de fé e seguir com destemor para a última e a mais importante etapa de nosso trabalho. Agora é que vamos demonstrar nossa verdadeira capacidade de unir a história de nossas duas províncias.
Suas palavras foram recebidas com um sonoro “apoiado” de todo o grupo.
Condá foi o mais enfático:
— Precisamos aproveitar que está tudo indo bem. Os anciãos dizem que índio lerdo, que não cata o pinhão quando a pinha cai e debulha, acaba vendo a gralha azul ficando gorda e rindo dele. Temos que aproveitar que Nonoai está disposto a ajudar. Ainda temos muito a fazer e temos que ir tocando a boiada enquanto o chão está firme.
Com o incentivo de Condá, decidiram seguir na segunda-feira. No domingo iriam reunir-se festivamente para assistir à celebração da missa na Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, a ser rezada pelo padre Penteado, e na madrugada da segunda tomariam o rumo do toldo do Cacique Nonoai. Com grande entusiasmo o grupo separou-se para ultimar os preparativos. Em meio ao lufa-lufa das preparações, o fim de semana foi muito agitado na povoação de Passo Fundo. Uma nova expedição chegava de Porto Alegre, trazendo mais ferramentas e materiais para serem entregues aos índios. Vinha junto um grupo de praças de primeira linha, como reforço para a instalação do aldeamento, e um grupo de artesãos e artífices, cuja tarefa seria ajudar o tenente Rocha Loures no ensino das diversas atividades aos índios do aldeamento. Vieram oleiros, mecânicos, ferreiros, sapateiros e alfaiates. Toda aquela gente foi acolhida na Fazenda Nossa Senhora da Conceição com enorme alegria pela comunidade da vila.
Em meio aos recém-chegados, contudo, a grande curiosidade foi dirigida à família de Thiago Miranda: sua mulher, Thereza, e seus filhos, Rodolfo, o mais velho, de 14 anos, Jonas, de 13 anos, e o caçula, Lucas, que tinha 12 anos. As damas e esposas dos dignitários da povoação logo se relacionaram com a nova família e se dispuseram a ajudar em sua acomodação. Rapidamente ela estava instalada. Thereza, o marido e os filhos foram alojados em uma ala da casa principal da Fazenda Nossa Senhora da Conceição. O grande quarto que ocuparam tinha uma cama de casal e os filhos, conquanto dormissem no chão, dispunham de confortáveis colchões de crina. Logo todos se sentiram em casa.
O domingo foi, de fato, um dia a ficar na memória. Houve a novidade das expedições recém-chegadas, mas também outras razões para isso: a missa do padre Penteado, rezada com toda a solenidade e dedicada a celebrar o começo das missões junto aos Kaingang; o grande churrasco com sorteio de prendas; e, especialmente, o acidente que tirou o brilho da grande carreirada com que o comissário queria reinaugurar a cancha reta da praça principal.
A missa começou pouco depois das 8 horas. O velho sino, uma peça fundida pelos índios Guaranis das Missões e que tinha vindo por encomenda por dona Reginalda da Silva para ser instalado na capela da povoação, ainda antes da Revolução Farroupilha, voltou a badalar para chamar todos para a missa. Thereza, que professava a religião luterana, mas achava que naquelas regiões pioneiras não devia haver separação entre católicos e protestantes e que todos deviam juntar-se para louvar o mesmo Deus, se ofereceu para cantar e tocar durante a celebração, acompanhada por seu marido, no acordeão, e por seus filhos, formando um pequeno coral.
O padre Penteado celebrou a missa acompanhando os cantos litúrgicos com entusiasmo. O celebrante exultava em ver sua pequena capela lotada, com um público nunca visto. O pátio em frente também estava cheio de fiéis. Eram os soldados da escolta do alferes Moreira, os soldados do tenente Rocha Loures, os artífices que vieram da capital, e os trabalhadores da estrada, que ainda permaneciam na vila enquanto faziam melhoramentos no caminho para o Goio-En. Todos rezavam e estavam animados com o churrasco que estava sendo assado na Fazenda Nossa Senhora da Conceição.
O churrasco já era uma tradição de iniciativa do comissário. Em sua experiência, nada como um churrasco para forrar o estômago e nada como barriga cheia para aplainar disputas e criar boa vontade. Sobre as valas abertas no chão crepitava o fogo em que estavam assando uma rês gorda e um par de ovelhas criadas por ali. As carnes, enfiadas em longos espetos de madeira, gotejavam gordura sobre brasas rutilantes, e os vapores cheirosos das carnes assando enchiam o céu com seu olor inconfundível. E para acompanhar, como de gosto e de costume, não faltavam as baciadas de radiche com vinagre e azeite, nem escasseava a maionese feita com batatas e ovos de gema cor de ouro das galinhas que ciscavam livres e soltas nos pátios dos colonizadores.
Mas, além do churrasco generoso e do vinho farto, o comissário Fagundes dos Reis havia preparado um outro evento para empolgar e entusiasmar a todos. Tratava-se de uma carreirada. Uma corrida de cavalos em cancha reta. A carreirada foi marcada para as 3 horas, e havia um prêmio de valiosos 10.000 réis, oferecido pelo organizador ao ganhador. Todos podiam competir. Soldados, trabalhadores e até mesmo os índios Kaingang. Muitos competidores trataram de comer rápido e beber pouco, que logo iriam competir com suas montarias caprichosamente encilhadas. A cancha, que não tinha visto uso desde antes da Revolução Farroupilha, foi replainada e estava pronta para receber os competidores.
O acidente
Quando eram 3 horas, o sino da capela tocou para avisar que as corridas teriam início. A cancha começava na praça principal e seguia em linha reta por perto de 1.000 metros. Cada corrida era disputada por dois competidores. O que vencesse continuava e o perdedor participava de uma repescagem. Os cavaleiros e seus grupos se organizavam rapidamente para competir. Os preparativos eram feitos com enorme entusiasmo e grande algazarra. Na hora marcada para o início já havia mais de 20 cavaleiros inscritos. E, como seria inevitável, mesmo à revelia do comissário, começaram as discussões e as apostas.
O Comissário se encarregaria de dar a bandeirada da partida e indicou o tenente Rocha Loures para ser o juiz responsável pela bandeira da chegada. Esta era uma grande homenagem e um atestado de idoneidade. Ao juiz da chegada cabia designar o vencedor. Sua isenção e imparcialidade eram indispensáveis, já que cabia a ele validar os resultados, especialmente nos casos das corridas emparelhadas e chegadas cabeça a cabeça. Os competidores e o público desejavam resultados justos e honestos. Por isso o público referendou ruidosamente a escolha do tenente Rocha Loures para a função.
O tenente, por sua vez, indicou seu irmão, João Cypriano, e mais um de seus homens para serem seus auxiliares na linha da chegada. A eles cabia verificar a passagem da cabeça dos cavalos tendo como referência uma estaca caiada fincada na linha de chegada. Os contendores se inscreviam na mesa improvisada. Ditavam seus nomes e de seus cavalos, bem como a equipe que representavam. Muitos cavaleiros usavam esporas e faziam questão de exibir o barulho das rosetas tocando e girando no chão. Mas nem todos as usavam de fato. Um bom cavaleiro não usa as esporas para aguilhoar sua montaria. Ele as usa com carinho, como um toque no ombro de um amigo. Não tem por finalidade ferir o flanco do animal, mas confirmar um comando. Para um cavaleiro bem-preparado, as esporas constituem-se em um refinamento, um toque de cumplicidade entre o cavaleiro e sua montaria. É uma forma de se entenderem durante uma cavalgada ou uma corrida. Na carreirada, o cavaleiro entra na disputa sobre sua sela e dialoga com o cavalo com suas pernas e tronco e, então, somente se precisar, usa as esporas para levar o cavalo a usar suas últimas reservas de energia.
Depois de diversas corridas classificatórias, chegou a vez de uma das carreiras mais esperadas. Na raia da direita o cacique Aldo Polino, um ágil e esbelto rekakê-pai do grupo do cacique Condá, e, na raia da esquerda, Alarico de Góis Saldanha, o engenheiro capataz da obra do Caminho do Goio-En. O engenheiro, que tinha feito o curso de Caminhos e Calçadas da Academia Militar do Rio de Janeiro e estava a serviço do governo de São Paulo, tinha sido enviado para dirigir tecnicamente a construção do Caminho do Goio-En. Alarico Saldanha, apesar da estatura e peso acima da média, se jactava de ser grande cavaleiro e disputava a prova por puro capricho. De família de posses, não corria pelo prêmio. Desejava vencer para exibir seu excepcional cavalo Atila, do plantel da raça portuguesa Alter-Real, que sua família criava na propriedade que tinha no Vale do Paraíba.
Esses belos e portentosos cavalos, vindos dos haras reais da cidade de Alter, eram originados dos cavalos da Andaluzia e faziam parte de um pequeno grupo que havia sido resgatado pelos ingleses e trazido para o Brasil antes que as tropas de Napoleão invadissem as cavalariças reais e distribuíssem os cavalos entre suas tropas. O rekakê, porém, que era cristão já batizado e recém-casado aspirava o prêmio para fazer uma casinha na Vila de Passo Fundo, onde queria vir morar com sua mulher, que estava grávida. Na linha de partida, os cavalos foram emparelhados dois a dois. Nessa carreira, o cavalo do cacique Aldo estava na raia da esquerda. O Atila, de Alarico, na raia da direita. Era a segunda carreira de cada um deles e o que ganhasse seria classificado e o outro seria eliminado. Os xirus, como eram chamados os competidores, foram avisados pelo juiz para se prepararem. Um amigo de cada competidor o ajudava a posicionar o cavalo, segurando-o na posição certa.
O comissário, na qualidade de juiz, observou se estava tudo em ordem e em conformidade, se as montarias estavam adequadamente encilhadas e se os cavalos estavam alinhados com a cancha. Entendendo que estava tudo pronto, deu, para o alto, o tiro de pólvora seca, carregado na garrucha, para sinalizar a partida. Ouvido o estampido, os cavaleiros partiram desabalados. Os dois contendores usaram o relho para comunicar aos cavalos que agora era para valer. Alguns animais eram nervosos e bons de corrida, lépidos, disparavam com um simples comando de pernas do cavaleiro; outros ganhavam velocidade ao longo da corrida e tendiam a ser mais regulares e resistentes. O cavalo do índio Aldo era do primeiro tipo. O cavalo de Alarico era do segundo.
Lançados no galope, ouviam-se os cascos baterem no chão de terra seca, rufando como tambores. A poeira que levantavam, acumulada já das disputas anteriores, era tanta que escondia os cavalos e cavaleiros numa nuvem vermelha. Ouviam-se os gritos dos contendores, ouviam-se os hurras das torcidas, mas só se conheceria o vencedor quando os cavaleiros voltassem com suas montarias.
A maior parte do público estava apinhada no ponto da partida, mas um bom grupo tinha preferido ficar ao longo da raia. Os cavalos, excitados por já terem competido nas eliminatórias, faziam o solo soar como tambor do apocalipse. Os metros iam sendo engolidos e os cavalos seguiam cabeça a cabeça. No meio da corrida o cavalo crioulo do índio corria forte, mas não no seu limite. Por estratégia, para acumular energia para um arranque final, o rekakê relaxou a pressão e deixou seu cavalo ficar meia cabeça atrás. O cavalo de Alarico Saldanha, ao contrário, corria no seu limite, tanto por levar o sobrepeso de seu cavaleiro como por ter vencido a corrida anterior, apesar dos 100 quilos do cavaleiro que agora o fustigava com o relho e com as esporas.
Quando faltavam 150 metros para a chegada, o cacique Aldo sinalizou a seu cavalo que agora era o momento da arrancada final. Soltou as rédeas e estimulou sua montaria com pressão das pernas. O animal, acostumado aos comandos do cavaleiro, respondeu de pronto. Acelerou o galope e passou a ganhar terreno. As longas pernas flexionavam como elásticos retesados e o impulsionavam com velocidade crescente. Logo sua montaria estava, novamente, cabeça a cabeça. E seguia avançando, exibindo folego e disposição para ultrapassar e vencer facilmente o cavalo de Alarico, que se esfalfava na outra pista.
Alarico, ao ter visto o cavalo do rekakê se deixar ficar atrás e ao ter acreditado já estar com as mãos no prêmio, tomou-se de fúria. Não tinha intenção de perder a carreira e ser eliminado. Ainda menos para um índio, para um reles “bugre” selvagem. Então, ao ver que o rekakê e seu cavalo começavam a ultrapassá-lo, que o cavalo do cacique parecia ensandecido, flutuando sobre a cancha e correndo como o vento, e ao se dar conta que ele estava prestes a ser humilhado, perder a carreira e o prestígio, não pensou duas vezes. Aproveitando que as montarias ainda estavam emparelhadas, estendeu o pé esquerdo para empurrar o adversário que corria ao seu lado. Queria desequilibrá-lo.
Não foi feliz na primeira tentativa e viu que o índio se abaixava e se agarrava ainda mais no cavalo para evitar ser alijado de seu lombo. Alarico irritou-se ainda mais. A ousadia daquele índio passava de todos os limites. Sem pensar, resolveu partir para o tudo ou nada. Fincando as esporas e puxando as rédeas, procurou trazer sua montaria ainda mais para a esquerda, para mais perto do cavalo do índio. Tomado de fúria, levantou o corpo sustentando-se com o pé direito no estribo e jogou todo o seu peso na tentativa de um novo pontapé no índio. Tarde demais. O cacique havia percebido a manobra traiçoeira e se antecipou a uma nova tentativa desleal do adversário.
Era um momento decisivo da corrida e, percebendo a intenção traiçoeira de Alarico, o cacique Aldo fez algo que não costumava fazer e, por puro instinto, usou as esporas para cutucar o flanco e fustigou com o relho a anca de seu cavalo. Este, surpreendido pela urgência do comando desusado, reagiu como se atingido por um raio. De olhos esbugalhados, deu um salto para a frente, abriu as narinas e, tal como se fosse um puro-sangue inglês, lançou a perna dianteira direita na frente. Na sequência, impulsionou a perna posterior esquerda, a posterior direita, a dianteira esquerda e, novamente, a dianteira direita. Súbito, como se ignorasse a gravidade, o cavalo tinha todas as quatro patas se movendo no ar. Em segundos estava fora do alcance do pontapé de Alarico.
Como o engenheiro nunca tinha visto nada igual e não previu a reação do rekakê e de seu cavalo, a nova tentativa de acertar o corpo do índio redundou em desastre. Sem acertar seu contendor, perdeu o equilíbrio e acabou chutando o vento. Não precisou mais que um átimo de tempo para perceber que a tentativa de dar um golpe baixo iria redundar em uma tragédia. Ainda se esforçou para agarrar o pito da sela, mas não o alcançou e, sem conseguir se reequilibrar, agarrou-se nas rédeas e as puxou violentamente. Foi outro grave erro. Seu cavalo respondeu com uma parada de chofre. Relinchando, empinou sobre as patas traseiras. Alarico, que já não conseguia manter-se na sela, foi alijado de seu cavalo, que com o freio lhe ferindo a bouca, corcoveava alucinado. Alarico caiu ao solo, mas ainda tinha o pé direito preso no estribo. O cavalo, descontrolado, em meio aos saltos e relinchos, ia arrastando Alarico pela cancha da carreira. Alguns espectadores, vendo o inesperado, acorreram na tentativa de segurar o cavalo. Caído e sendo arrastado, Alarico sentia dores lancinantes na perna direita e urrava de dor. Estava apavorado. Algo saíra muito errado.
O rekakê Aldo percebeu quando Alarico perdeu o equilíbrio e, no instante seguinte, ouviu seus urros de dor. Instantaneamente intuiu o desastre. Esqueceu a corrida, freou seu cavalo, que estava tão embalado que precisou ainda de uns bons 20 metros para parar, e olhou para trás. Assustou-se. Viu que o cavalo de seu contendor estava sendo precariamente segurado por espectadores e que o cavaleiro não estava mais sobre a sela. Por entre a nuvem de poeira, viu que Alarico estava no solo, mas ainda com a perna direita presa no estribo. Era uma situação desesperadora. O cavalo, mesmo sendo contido por espectadores, continuava corcoveando. Havia o risco de, a qualquer momento, a montaria pisar sobre o cavaleiro caído e consumar a desgraça.
Incontinente, Aldo fez seu cavalo dar meia volta, acercou-se do cavalo de Alarico, estendeu o braço esquerdo e conseguiu segurar as rédeas do animal ensandecido. Com determinação e firmeza, logrou acalmar o animal. Enquanto isso, os juízes da chegada, que testemunharam o acidente que ocorreu a menos de 50 metros da linha de chegada, bem como o público ali reunido, correram para ver o que havia acontecido. João Cypriano, um dos primeiros a chegar, tomou do rekakê Aldo as rédeas do cavalo, permitindo que saltasse para o solo e desprendesse do estribo o pé de Alarico. Ao soltar a perna do cavaleiro e colocá-la no chão, observou que o pé direito estava torcido numa posição claramente antinatural. Parecia evidente, inclusive, por uma protuberância na bota, que a perna havia sofrido fratura.
O rekakê Aldo e João Cypriano mantinham os curiosos afastados e impediam que se aproximassem e que mexessem com o ferido. De todos os lados vinha mais gente. Em minutos o comissário chegou com o tenente Rocha Loures, o padre Penteado e Thiago. Foi este que, ao ver as condições do engenheiro no solo, percebeu que precisava agir rápido e tomou o controle da situação. Os curiosos queriam mover o ferido, mas não estavam preparados para lidar com a fratura e era evidente que só iriam agravar o ferimento. Assim, Thiago tomou a iniciativa e pediu ao comissário para enviar alguém para chamar Thereza, sua mulher, que estava junto ao público do ponto de largada. Explicou que ela saberia lidar com a fratura. Gesticulando e dando ordens, foi se impondo e impedindo que mexessem com o engenheiro.
Não demorou para que Thereza viesse com seu cavalo a toda brida. A mulher de Thiago sabia o que fazer. Tinha muita experiência com fraturas e vezes sem conta tinha ajudado no trabalho de protesista realizado por seus pais. Desde a mais tenra infância tinha se acostumado a ver pacientes com fraturas e ossos quebrados e vezes sem conta ajudara a realinhar ossos, a colocar talas e a enfaixar pernas e braços quebrados. Usando a faca de Thiago, rasgou a bombacha do ferido e viu que a bota estava cheia de sangue e mostrava uma deformação que indicava o ponto do ferimento. Thereza percebeu que ali não dava para fazer nada. Era preciso colocar o ferido em um local onde pudesse abrir a bota e ter acesso à fratura em lugar mais limpo. Thereza orientou Thiago a fazer uma padiola improvisada com galhos, folhas de palmeira e ramos de folhas macias.
Enquanto uma carroça era providenciada para o transporte, Thereza orientou a transferência do ferido para a maca e fez um corte na bota de Alarico com todo o cuidado. Depois de abri-la em duas metades viu que a parte central da tíbia, o meio da canela, estava quebrada. E uma pequena ponta do osso da parte inferior furava a pele e se projetava para fora. Por pura sorte, a bota que o cavaleiro usava impediu que a fratura produzisse uma ferida maior ou tocasse o solo e a sujasse na terra, o que seria uma virtual sentença de amputação. Com método, pôs-se a examinar o ferimento e viu que a perna precisaria ser recolocada em alinhamento. Mesmo para transportar o ferido seria preciso colocar uma tala, para evitar movimentos que agravassem a ferida. Feito um torniquete para reduzir a perda de sengue e estabilizada a fratura para o transporte, colocaram a padiola sobre uma cama de folhas na carroça e em menos de uma hora conseguiram transportar o ferido e o levaram para a casa do comissário.
Uma cama foi colocada na sala da residência e Thereza providenciou o que precisava ser feito. Terminou de cortar a bota que ainda estava na perna e arregaçou a calça até a coxa. Depois, usando uma bucha vegetal e água fervida com mel e ervas medicinais misturadas em uma tina de madeira, lavou o local do ferimento, que estava na parte frontal, na altura de metade da canela. Em seguida preparou o realinhamento do osso. Amarrou duas guias de couro na canela, abaixo do ferimento, e as prendeu na estrutura dos pés da cama. Pediu que colocassem um pedaço de couro na boca do ferido, para que pudesse morder e suportar a dor durante os procedimentos para tracionar a perna. Recrutou quatro homens fortes e mandou dois segurarem o ferido com força e aos outros dois pediu que puxassem as guias de couro enquanto ela se encarregava de fazer o alinhamento.
Esta parte coube a Thiago e Condá. Os gritos de Alarico podiam ser ouvidos por toda a vila. Contudo, não afetavam a objetividade de Thereza, que já os ouvira em muitas situações análogas em sua casa. A dor era inevitável, afinal, recolocar ossos no lugar não prometia ser indolor. Usando a habilidade manual que adquiriu como artesã e os conhecimentos de ortopedia que havia aprendido com seus pais, Thereza conseguiu manobrar rapidamente e, logo na terceira tentativa, conseguia encaixar as duas pontas e recolocar os dois lados da perna quebrada no lugar. Em seguida, amarrou talas de taquara nas laterais da canela e, depois de limpar a ferida, juntou os pedaços de pele e fez a sutura, costurando as bordas juntadas por aposição. Liberou o torniquete e verificou que a sutura tinha conseguido estancar a hemorragia; irrigou o corte com uma dose da aguardente do alambique do comissário e limpou a área do procedimento com a água fervida com ervas.
Para evitar infecção da ferida e facilitar a cicatrização, aplicou sobre ela um cataplasma de folhas e raízes frescas de gervão devidamente amassadas e untadas com uma fina camada de mel recém-colhido. Com tiras de lençol limpo fez uma bandagem. Para completar, recolocou as talas de taquara nas laterais e as amarrou para manter os ossos alinhados. Então, aliviou as tiras de couro que mantinham a perna tensionada. O primeiro atendimento tinha terminado. Alarico suava profusamente e gemia. O kuiã que tinha vindo no grupo Condá e cuidava da saúde em sua tribo, preparou um chá de ervas para acalmar a dor e o deu para Alarico. Este, sedento, bebeu o líquido e, exausto, desfaleceu. Apesar das dores e da agonia indizível, sua perna estava tratada e em repouso. Agora era com a natureza. Seriam meses de sofrimento, mas, tudo considerado, ele tinha tido sorte. Muita sorte.
O comissário, que assistira a todo o procedimento, ficou impressionado com a habilidade de Thereza. Já vira muitos médicos tratando ferimentos no campo de batalha e em hospitais militares, mas não lembrava de nenhum que a superasse em calma e segurança. Se o engenheiro Alarico tinha esperança de cura, não encontraria médico melhor. O que cabia a ele fazer, como maior autoridade do governo da província na localidade, realizaria com empenho e presteza. Sugeriu, então, a Thereza que ela se valesse das mucamas para ajudar nos cuidados ao paciente. Como Thereza de pronto concordou, o comissário chamou duas das mucamas que ajudavam na casa, ambas já de meia-idade, e as apresentou. As mulheres, sob as orientações de Thereza, prepararam uma tina com água morna, cortaram a calça do ferido para retirá-la e desvestiram a camisa, que se sujou na queda. Deram um banho de leito em Alarico e o cobriram com cobertores. Thereza ainda orientou as mucamas sobre como proceder para continuar os cuidados ao paciente e procurou o comissário, que estava agora em seu escritório.
—Com sua permissão, excelência, acho que o que podíamos fazer por agora está feito. Felizmente o engenheiro Alarico usava botas até o joelho. Elas contiveram a ruptura da pele e evitaram um mal maior. A perna não estilhaçou e o rasgo da pele não foi muito grande e nem parece contaminado pela terra. Isso significa que as chances de complicações serão menores. Conseguimos colocar os ossos no lugar e parece que conseguimos alinhar a perna bem no Centro. É difícil dizer se ela vai soldar direito. Ossos são caprichosos e rebeldes, mas estou otimista. Outro bom sinal é que não se nota um sangramento muito grande. A ferida possivelmente vai inflamar e talvez precise ser drenada. Mas agora é com a natureza e com Deus. De toda forma, será uma recuperação demorada. Alguns meses, certamente, antes que ele possa cavalgar novamente. Tudo vai depender de possíveis complicações. E ainda vamos ter que evitar que o paciente fique com feridas nas costas, ou que tenha outros embaraços como coágulos na perna. Ele vai precisar ter paciência e aguentar muita dor. Mas, se as duas mucamas, que me parecem ser muito jeitosas, puderam continuar me ajudando a cuidar do doente, acho que ele vai sair desta vivo e curado.
O comissário ficou aliviado com a opinião de Thereza e concordou em manter a ajuda das mucamas.
— Dona Thereza, lhe digo com sinceridade d’alma que estou maravilhado com suas prendas médicas. Acho que devo agradecer à providência divina por termos a senhora conosco e termos podido contar com seus préstimos hoje. Sem a senhora esta tragédia teria sido ainda maior e mais desafortunada. Sem seus cuidados estaríamos, a esta hora, perdidos e desamparados. Portanto, tudo o que for preciso lhe será fornecido. Quanto às mucamas, sim, elas estarão ao seu dispor e vão ajudar no que for preciso. Elas são as parteiras aqui da vila e têm muita prática em lidar com complicações de parto. Acho que não é a mesma coisa que tratar de feridas, mas também são elas que cuidam dos ferimentos dos escravos que se machucam ou se acidentam. De modo que, acredito, haverão de ser muito úteis. Estão em nossa casa há muitos anos e, inclusive, além de nossos escravos, trataram de muitos dos nossos soldados durante a revolução. Outra coisa que merece ser destacada é que elas têm conhecimento da medicina de seus antepassados e aprenderam muito com os índios. Apesar de sua simplicidade aparente, elas têm curado muita gente. Então vou dizer a elas que devem ficar à sua disposição, seguir suas orientações e cuidar do ferido da melhor maneira possível.
Thereza agradeceu:
— Excelência, fico muito agradecida por sua gentileza. Assim fico mais sossegada em bem cumprir o meu dever cristão de cuidar de uma pessoa necessitada. Os próximos dias vão ser cruciais. O senhor Alarico vai precisar de boa alimentação e de repouso absoluto. A perna deve ficar imobilizada para o osso partido soldar alinhado, mas precisa ser mantida limpa e o curativo precisa ser trocado todos os dias. Vamos precisar de muitas ataduras limpas e os panos usados pelas mucamas nos partos podem servir. Para limpar a ferida, gostaria de poder ter sempre disponível um jarro com água pura de mina. Outro detalhe: se a ferida formar pus vai precisar ser drenada. Para isto vou precisar de uma faca bem fina, bem afiada e pontiaguda.
— Tudo isto vou conseguir sem problemas. Gostaria de solicitar-lhe uma lista do que devo providenciar para atender às suas necessidades.
— Vou fazer a lista, excelência. E fico grata por suas providências. Enfim, vamos enfrentar um dia de cada vez. Então, com sua concordância, me proponho vir aqui cuidar do senhor Alarico todos os dias, pela manhã e à tarde. Pelo menos nos primeiros quinze dias.
O comissário ainda estava desgostoso com o acidente tolo e desnecessário, mas lamentar-se de nada servia. A energia e a disposição de Thereza o acalmavam. Era evidente que aquela jovem senhora tinha caridade, bondade e altruísmo. Eram atributos que lhe emprestavam enorme encanto pessoal, mas o seu atributo maior era a capacidade de enfrentar e resolver problemas. E não há substituto para os três elementos que definem a competência: saber fazer, querer fazer e, efetivamente, fazer. O comissário não ocultava a admiração com a competência, a desenvoltura e a capacidade de iniciativa daquela jovem senhora. Ela apenas chegara na véspera e já cativava a todos por suas qualidades e seu espírito prático.
— Dona Thereza – começou o comissário com voz pausada, para dar ênfase –, estou encantado, repito, estou encantado, com sua habilidade em lidar com este lamentável acidente. Vendo sua maneira de conduzir os cuidados médicos, tenho o conforto de saber que o engenheiro Alarico está em boas mãos. Este triste evento era tudo o que não precisávamos. Mas temos que levar as mãos aos céus para agradecer a Deus pelo desfecho não ter sido pior.
Para si, o comissário concluiu que tinha mesmo de agradecer aos céus. Devia ter havido um empurrão da divina providência para que pessoa tão improvável ali se apresentasse em hora tão oportuna. Sem Thereza o acidente teria se constituído em uma tragédia ainda maior. Sentiu um calafrio só em imaginar. Sem ela, o que ele poderia ter feito? Precisaria ter improvisado. Sem embargo, os homens da fronteira, aqueles que ali plantavam a civilização, eram corajosos e enfrentavam os riscos da vida aventureira com galhardia. Mas as desventuras que sofriam não eram menos dolorosas por alcançá-los em pagos distantes.
O fato é que, sem a presença oportuna de Thereza e sem seus conhecimentos da arte de emendar ossos, ele teria tido que mandar chamar um médico em Cruz Alta ou Santa Maria, e contar que houvesse um médico lá que aceitasse enfrentar a viagem. Ou, ainda mais temerário, tentar levar o ferido para a capital, uma tarefa quase impossível. Uma alternativa seria transportar o ferido para Cruz Alta ou Santa Maria. A distância era menor, mas o doente resistiria ao traslado? Expor o paciente a uma viagem longa e penosa, estirado em leito improvisado em um carro de boi ou uma carroça, sacolejando em estradas inadequadas e deploráveis, era tudo o que não queria. Pelo momento, as coisas estavam sob controle.
Obviamente, era de se prever que o curso a convalescença teria uma piora antes de uma esperada melhora. Era preciso ter paciência e manter os cuidados possíveis. Eventualmente, os fados lhe seriam favoráveis e ajudariam a recuperar o engenheiro. Os riscos, porém, continuariam altos por semanas, senão meses. Uma piora poderia resultar na temível gangrena e na necessidade de amputação. E ele se sentia responsável. Não tinha culpa do estouvamento do engenheiro, mas a ideia da carreirada tinha sido de sua lavra. E este era um fato inescapável. Por outro lado, consolava-se ao alojar o ferido em sua casa e o abrigando sob os cuidados de Thereza, que mostrava saber como tratar a fratura, e por ter adotado a mais razoável solução que tinha ao seu alcance. O bom senso lhe dizia que, eliminando os imponderáveis de uma viagem insólita, o paciente poderia beneficiar-se da imobilidade e da proteção sob um teto confiável e ter aumentadas as chances de cura.
Mais tranquilo, procurou afastar da mente lembranças desagradáveis que teimavam em levá-lo de volta a seus tempos de militar da ativa. Ferimentos de guerra, fraturas como a sofrida pelo engenheiro Alarico, que eram comuns nas pugnas de que participou, lhe sugeriam que a convalescença, mesmo se a cura sobreviesse, ao fim e ao cabo, dificilmente escaparia de uma infecção e complicações. Agora toda sua esperança repousava naquela jovem senhora que, conquanto não ostentasse formalmente a condição de médica, nas técnicas que a vira usar, se revelava mais apta do que muitos dos charlatães itinerantes que, de quando em quando, apareciam por ali.
Refeito do susto, o comissário descobriu-se acabrunhado. Como é que ele, tão calejado nas lides da vida, tinha entrado em uma enrascada como aquela? Olhando em retrospecto, a carreirada tinha tudo para dar errado. Muitos daqueles homens acostumados à ação tinham ficado demasiado tempo inativos e estavam excitados e inquietos. Seu intuito era o de estimular um clima de camaradagem entre os diversos grupos que se encarregariam da etapa final da abertura da estrada, de negociar o acordo com Nonoai, de fazer a demarcação do aldeamento indígena, de ministrar o treinamento aos índios e da missão de cristianização dos Kaingang do Alto Uruguai Sul-rio-grandense. A iniciativa lhe parecera capaz de gerar camaradagem e nutrir de boa vontade o grupo que se encarregaria de alavancar o sucesso daquelas iniciativas fundamentais para a nova era de prosperidade na região. Além de que a carreirada quebraria a monotonia do dia a dia da vila e do acampamento dos operários da estrada, seria um incentivo para os homens e uma diversão para as mulheres. Essas eram suas expectativas e anseios que se frustraram. E agora, suspirou, tinha aquele baita contratempo para resolver.
Com as coisas acomodadas, o comissário foi ouvir as testemunhas para saber detalhes de como se dera o acidente. Precisava de depoimentos para fazer um relatório e enviar para a capital. O tratamento de Alarico demandaria providências e acarretaria despesas que precisava justificar. E o que ouviu o entristeceu ainda mais. Reconheceu que havia subestimado a possibilidade daqueles homens criarem problemas. Cair do cavalo foi, de fato, um castigo merecido para o estroina que tentou um golpe baixo para ganhar a corrida. Mas o fato de o castigo ser merecido não diminuía em nada o enorme transtorno que causava. Pois, então, aquele encrenqueiro havia tentado derrubar do cavalo o cacique Aldo, no momento em que era ultrapassado e percebeu que perderia a corrida? Que bela maçada! Agora aquele cabeça de vento só podia culpar a si mesmo pela jornada de dor e sofrimento que teria que enfrentar. Maneou a cabeça. Como pode ter gente tão estouvada neste mundo de Deus? Gente tão imprudente e irresponsável?
O comissário viu pela janela que o dia estava terminando. Ficar lamentando eventuais percalços não era de seu feitio. Era preciso cuidar da comitiva que estava sendo preparada para ir ao encontro do cacique Nonoai. Havia entendimentos que precisavam ser convertidos em resultados. O aldeamento estava prestes a se tornar realidade. Com tudo isto em mente tratou de se inteirar dos preparativos para a comitiva que partiria no dia seguinte. Vestiu seu pala, saiu para a tarde fria, pegou seu cavalo e, já sob a luz do crepúsculo, foi ao local onde acampavam os soldados e os homens que seguiriam para o toldo do cacique Nonoai. Como a noite se anunciava, o acampamento estava se preparando para o jantar. Nas tendas e meias-águas havia pequenas fogueiras que esquentavam os alimentos e que, depois, ficariam acesas para dar luz e manter o calor na noite gelada. Ao lado do acampamento estavam as cargas enfileiradas e prontas para serem colocadas no lombo das mulas que as carregariam.
O tenente Rocha Loures viu o comissário chegar e foi ao seu encontro. E fez uma continência:
— Boa-noite, excelência. Seja bem-vindo. Estamos nos aprontando para partir amanhã cedito.
O comissário, que observava a correria dos preparativos, mostrou seu agrado:
— Dá para ver que o pessoal está se mexendo feito revoada de papagaio charão. Peça para a sua gente para me desculpar por decidir esta expedição assim, em cima do laço. Mas temos que aproveitar as condições favoráveis. Afinal, não é todo dia que passa na nossa frente um cavalo arriado. – Sorriu ao esclarecer: Eu cá me refiro ao apoio desabrido que vem do presidente da nossa província.
— É verdade, excelência. Depois de ter visitado e conhecido pessoalmente o Conde de Caxias, compartilho de sua pressa. – Respondeu o tenente Rocha Loures, que continuou: Enquanto ele for o presidente desta província, vamos ter todo o apoio que precisarmos. Mas o que penso, e acho que esta é também sua preocupação, é que ele é homem de confiança do imperador e destinado a grandes missões. Acho que logo Dom Pedro II vai chamá-lo para o Rio de Janeiro e dar a ele outras missões de relevo. E, se ele for substituído na presidência da província, não se poderá saber se o novo mandatário vai manter a disposição para facilitar a construção do Caminho do Goio-En e para o entendimento com os Kaingang. De modo que compartilho inteiramente, e sem peias, da visão de vossa excelência que, neste caso, temos que malhar o ferro enquanto está quente. Seguiremos amanhã, como combinamos, e tenho convicção de que vai dar tudo certo.
O comissário olhou em volta. O acampamento estava organizado com capricho e em ordem. As barracas formando um semicírculo. Os animais acomodados em um cercado de pedras, uma taipa feita por escravos antes da Revolução Farroupilha, em que ficavam protegidos e podiam descansar antes de saírem a campo para a nova jornada. Gostou do que viu. A boa preparação era um auspicioso sinal de que começavam com o pé direito a conquista definitiva do sertão despovoado do Alto Uruguai.
Nicanor, o lanceiro que veio de longe
Depois de conversarem por mais alguns minutos sobre trivialidades, a inclemência do tempo naquele inverno, as condições do acampamento e dos animais cargueiros, o comissário Fagundes dos Reis pediu para ser conduzido até onde estavam acomodados os índios. O chão estava limpo e mostrava sinais de ter sido recentemente varrido. As cargas estavam prontas, arrumadas e protegidas por uma cobertura de meia-água no estilo Kaingang. O comissário ficou intrigado. Não tinha ainda visto as dependências da invernada tão bem cuidadas. Por isso perguntou ao tenente Rocha Loures a que se devia aquele zelo incomum. A resposta que recebeu foi que o encarregado da invernada tinha cuidado pessoalmente da preparação do local do acampamento e o varreu usando a técnica dos Lanceiros Negros, de amarrar um feixe de galhos de árvore na sela do cavalo e fazê-lo arrastar a folhagem como uma vassoura sobre o terreno, a fim de limpá-lo. O tenente aduziu o comentário de que o zelador, um ka pur negro, agia com discrição, mas era incansável em seus esforços para agradar e para manter tudo impecavelmente limpo e arrumado. Informou, também, que o zelador falava a língua dos índios, o que os surpreendeu e os encantou.
O comissário não sabia das qualidades do zelador, que tinha sido contratado quase por acaso. Nicanor dos Anjos era um ex-lanceiro negro farroupilha e tinha aparecido na região em busca de algum serviço em troca de comida. Disse que estava de passagem e ofereceu-se para fazer trabalhos avulsos e ajudar no que fosse preciso. O comissário ficara sabendo que o ex-escravo havia ajustado com o pessoal da Fazenda Nossa Senhora Aparecida a doma de alguns novos potros e se desincumbiu tão bem da tarefa e mostrou tal habilidade em lidar com a cavalhada que lhe foi recomendado. O que lhe disseram é que Nicanor tinha conseguido escapar do massacre dos Porongos porque foi ferido em uma patrulha e não estava presente quando do ataque a seus camaradas. Com o fim da revolução, Nicanor ficou desconfiado das promessas de anistia, logrou safar-se das buscas de captura dos ex-escravos que haviam servido nas tropas dos farrapos e procurou refugiar-se mais para o interior. Temia ser aprisionado, novamente submetido ao cativeiro e enviado ao Rio de Janeiro na condição de escravo, destino de muitos de ex-escravos que lutaram nas fileiras dos revolucionários. E foi por saber disso que o comissário resolveu dar a ele a ocupação. Empregado como servidor do governo da província, mesmo em função humilde, estaria protegido desse risco.
Assim foi que o ex-lanceiro se viu com a tarefa de cuidar da invernada que pertencia ao Comissariado. Tratava-se de um conjunto de campos e taipas usado para receber comitivas e tropas de animais de viajantes ou capturados. Nicanor aceitou o emprego. Por ora, era sua tábua de salvação. Uma oportunidade de manter-se livre e a ela agarrou-se com todas as suas forças. Seus receios, contudo, vinham de outros motivos. Nicanor dos Anjos, seu nome abrasileirado, era um ex-escravo hauçá, que, na Bahia, onde desembarcou originalmente, era classificado no grupo dos malês, os escravos negros de religião muçulmana.
A designação vinha da palavra imalê, que significa muçulmano na língua iorubá, que era falada pelos nagôs, o principal grupo étnico entre os negros adeptos do Islã, do qual a minoria hauçá também fazia parte. Os malês falavam e escreviam em árabe e mantinham grupos de estudo sobre o Corão, assim como secretamente registravam sua história na diáspora forçada. Eram, de modo geral, culturalmente muito superiores e mais bem preparados que seus senhores na colônia, a maioria deles oriunda dos estratos mais baixos da sociedade portuguesa. Assim, era normal que se ressentissem não só da condição de escravos, mas também da humilhação de servir a senhores e feitores intelectualmente inferiores e aos quais não respeitavam. Esta insatisfação permanente os levava a planejar fugas e a maquinar levantes e revoltas o tempo todo.
Nicanor, quando esteve na Bahia, não acreditava na possibilidade de que os escravos pudessem ser bem-sucedidos em um movimento sem respaldo da população. Assim, evitava se envolver e não se comprometia com os revoltosos. Mas, ainda que sem o desejar, acabou sofrendo os efeitos da revolta deflagrada na madrugada de 24 para 25 de janeiro de 1835, que coincidia com o fim do mês do Ramadã, na noite do Lailat al-Qadr (a Noite da Glória), que relembrava o dia em que o Corão teria sido revelado ao profeta Maomé. O episódio, que ficou conhecido na história como a Revolta dos Malês, foi, como o nome indica, um levante dos escravos muçulmanos. Reuniu cerca de 600 participantes, todos africanos, uma vez que os crioulos, os negros nascidos no Brasil, compartilhavam das incertezas de Nicanor e preferiram não aderir. O levante, apesar de ter sido o maior da Província da Bahia até então, acabou fracassando. Toda a movimentação terminou em menos de 24 horas e, nos embates espalhados pela cidade, muitos escravos morreram. Os rebeldes sobreviventes foram julgados e apenados de diferentes formas. Dezesseis dos líderes foram condenados à pena capital, ainda que apenas quatro deles tenham sido, de fato, executados pelo pelotão de fuzilamento no Campo da Pólvora, no dia 14 de maio de 1835.
Alguns dos rebelados foram condenados à pena de açoites, que variaram entre 300 e 1.200 chicotadas. O líder revoltoso, Pacífico Licutan, que escapou da pena de morte por estar preso para ser leiloado por dívidas de seu senhor, foi condenado a 1.200 chibatadas. Tiveram que dividir em diversas sessões para que ele sobrevivesse ao suplício. Os participantes libertos e suspeitos foram deportados de volta para a África. Terminado o levante, dos sete líderes identificados, cinco eram nagôs: os escravos Ahuna, Pacífico Licutan, Nicobé, Dassalu e Gustard, e o liberto Manoel Calafate; um era escavo de origem tapa, Luís Sanim; e só o liberto Elesbão do Carmo era hauçá, como Nicanor. Acontece que era a ele que Nicanor seguia como seu líder religioso e, ainda que não tivesse saído às ruas vestindo o abadá branco que identificou os revoltosos, sua ligação religiosa com um dos líderes do movimento o tornava suspeito. Nicanor ainda tentou adotar a prática de esconder suas crenças pelo artifício xiita do al’tagiyya, que significava praticar sua religião de forma oculta, mas não escapou da desconfiança dos comerciantes e autoridades portuguesas que o conheciam.
Nicanor exercia a função de guarda-livros, e nesse mister mantinha contatos com fornecedores e clientes para registrar compras e vendas, redigir documentos de crédito, efetuar pagamentos, realizar avaliações de mercadorias e representar seu senhor nas repartições públicas e diante de notários e tabeliães. Colocado sob suspeição, muitos dos comerciantes e autoridades com que precisava tratar de negócios e assuntos legais passaram a recusar-se em recebê-lo. A revolta havia criado um clima de tal prevenção e hostilidade contra os malês que seu senhor, com receio de perder amigos e bons negócios, mesmo lamentando perder auxiliar tão importante, acabou decidindo se desfazer de seu guarda-livros. Como o valor dos cativos malês estava em baixa na praça e havia caído para uma fração de seu antigo preço, seu senhor se valeu de amigos para vendê-lo no porto, onde eram muito bem avaliados e seus eventuais laços religiosos eram relevados, posto que seriam levados para diversos destinos e atuariam em outros contextos sociais.
No porto, Nicanor acabou sendo arrematado pelo comandante de um pequeno veleiro de cabotagem que o queria para cuidar de seus livros de negócios. Sua condição de marinheiro, todavia, não durou muito. Tão logo o veleiro aportou em Rio Grande, na Província de São Pedro, seu senhor acabou atraído para uma taberna da zona portuária, onde, depois de comer e beber sem medida, pôs-se a jogar dados. Foi aí que apostou e perdeu o novo escravo. Seu novo dono, que desejava passá-lo adiante com bons lucros, mercador ladino e versado em negócios de ocasião, notou que aquele não era um escravo comum. Assim, prometeu que daria a ele uma parcela da sua própria venda se o ajudasse a reputá-lo melhor. Nicanor concordou e lhe deu a conhecer quais eram suas habilidades como poliglota, conhecedor de leis e posturas governamentais, escrevente, navegador com balhestilha, quadrante e astrolábio, ferreiro, armeiro, cuteleiro e domador de cavalares e muares. Impressionado com o escravo negro e com os atributos de Nicanor, logo o negociou com um rábula itinerante que atuava como causídico na região de Alegrete, que ficou interessado nas habilidades de escriba demonstradas pelo escravo.
Como a maioria dos hauçás, Nicanor era alto, magro, flexível, forte e inteligente. Dado que, na condição de escravo, não lhe era permitido usar a barba muçulmana, em seu lugar usava um pequeno cavanhaque. Enquanto a serviço do rábula, sua vida pessoal permaneceu regular e austera. Nas madrugadas e em seus momentos de lazer se dedicava aos estudos e à prática da caligrafia árabe, cuja arte dominava à perfeição. Pouco tempo depois, quando estourou a Revolta dos Farrapos, seu senhor acabou envolvido no conflito e o liberou. Nicanor, livre, mas impossibilitado de valer-se da liberdade, aproveitou para alistar-se nas fileiras dos Lanceiros Negros. Aos escravos que aceitavam lutar ao seu lado, os farrapos prometiam a alforria e até direito a uma propriedade ao fim das hostilidades. E Nicanor, sabendo que nada tinha a perder, engajou-se de corpo e alma na causa farroupilha. Lutou com paixão e coragem e seus feitos eram motivo de inspiração e estímulo aos companheiros de armas.
Já no fim da revolução, antevendo que perderiam a guerra, abandonou todas as cautelas e, na escaramuça em que foi ferido, tentava salvar um lanceiro que estava caído ao solo. Ele, ao ver que o lanceiro à sua frente teve o cavalo atingido e era arremessado ao chão, acorreu em seu socorro e o puxou para a garupa. Conseguiu escapar, mas, ao cruzar com um grupo de legalistas, foi atingido e sofreu um ferimento a bala no ombro. Recuperado, soube do massacre de seus companheiros em Porongos e pensou rumar para o Norte. Pensava em atravessar o Rio Uruguai e buscar refúgio na região de Coxilha Rica, que lhe diziam ser o destino buscado por outros ex-escravos que haviam lutado ao lado dos farroupilhas. E ao seguir para o Norte, ao passar por Passo Fundo, recebeu a oferta do comissário. Nem pensou duas vezes e aceitou o emprego como uma bênção. Ansiava por um lugar onde, após uma vida tão eivada de angústias, decepções, perigos e desafios, pudesse respirar um pouco de paz.
O Comissário Joaquim Fagundes dos Reis saberia dois dias mais tarde, ainda intrigado, depois de começar a fazer perguntas sobre Nicanor, que seu zelador tinha sido exímio arremessador de lanças longas e de dardos, as lanças curtas. Esta sua habilidade o tinha feito um instrutor das técnicas de envergar e arremessar a lança no corpo dos Lanceiros Negros, tanto do dorso dos cavalos como do solo. Para sua surpresa, soube que o ex-lanceiro continuava a montar e a treinar com a lança e com os dardos e, com esses, lhe garantiram, era capaz de acertar e debulhar uma pinha pendurada em um pinheiro a 20 metros do solo. Com respeito ao trabalho para o qual fora contratado, era notável o empenho com que cumpria suas obrigações e o capricho com que conserva as instalações, as cavalariças e os galpões.
Mas naquele começo de noite, ao chegar ao acampamento onde os Kaingang estavam acomodados, o comissário encontrou o cacique Condá e o padre Penteado sentados e conversando junto à fogueira.
— Buenas. Parece que a charla aqui está rica de assunto e não quero me intrometer. Vim para desejar aos amigos e à peãozada toda o maior sucesso do mundo na missão que vão iniciar amanhã. E vim para dizer que tenho fé que o Patrão-Velho, lá de riba, vai nos ajudar nesta incumbência que Ele colocou nas nossas mãos, nas minhas e nas vossas, de abrir a porteira destes pagos para a civilização. E encareço que digam ao cacique Nonoai que estou pronto para ir ao encontro dele conferenciar no seu toldo quando ele quiser. E – enfatizou – garantam a ele que pode confiar que vamos fazer um tratado justo e equânime.
Assim que o comissário se despediu, as pessoas já foram se recolhendo para as tendas e palhoças e a o acampamento foi sossegando, apenas ouviam-se os grilos, o vento farfalhando as ramagens e os sons líricos da mata.
O dia seguinte foi típico de inverno. Amanheceu com tempo frio e fechado. Uma garoa fina molhava a grama. A comitiva tinha planejado seguir por uma rota mais extensa, diferente daquela usada por Condá em suas visitas a Nonoai. O trajeto planejado era alcançar as margens do Rio Uruguai nas proximidades do Passo do Goio-En para, então, dirigir-se no rumo sudoeste, saindo da estrada e subindo as encostas pelas trilhas dos índios. Seria uma progressão árdua e difícil. Prevendo-se a dificuldade de subir por caminhos estreitos e trilhas brutas, as mulas da caravana receberam o reforço de mais alguns muares em Passo Fundo. Uma dúzia extra para servir como montaria nas encostas e para dividir as cargas que a comitiva carregava. Foi uma precaução decidida pelo comissário, pensando no trecho de subida naquela que seria parte final da missão.
A primeira parte, até o Goio-En, seria na trilha já aberta. A equipe de construtores havia conseguido demarcar e firmar o leito da estrada. Acontece, porém, que subir do Goio-En até o toldo de Nonoai seria outra história. Era enfrentar encostas e mata bruta. Ainda assim, mesmo naqueles aclives bastante inclinados, o guia índio, que conhecia bem o terreno, as curvas e os acidentes geográficos, encontraria maneiras de circunscrever os obstáculos naturais e de negociar a passagem. Ademais, era por aquelas sendas e desvãos da mata que os Kaingang perambulavam na coleta de alimentos, na caça e na pesca, na busca dos pinhões e do palmito, na colheita das frutas e verduras do mato, como guabiroba, guamirim, jabuticaba, pitanga, araticum, a deliciosa maria-preta, kumĩ, a folha da mandioca-brava, que precisava de três fervuras para perder o veneno, broto de abóbora, o ndâr, nome do broto de uma bromélia, e, especialmente, a mais deliciosa das especialidades, o mel das abelhas silvestres, sem ferrão.
De modo que foi exatamente pensando em conduzir as mulas cargueiras por essas trilhas que Condá conseguiu convencer Nonoai a indicar um dos seus melhores trilheiros para servir como guia da expedição. Ele, pessoalmente, apesar de toda a sua experiência nas matas, temia guiar uma expedição cargueira como aquela sem conhecimento minucioso das dificuldades ou das armadilhas naturais que deveriam vencer.
Padre Penteado e os encantos do Vale Dourado
Gralha azul – Arte do Autor
A comitiva saiu bem cedo. Todos, os cavaleiros e os escravos, vestiam seus palas, capas e sobrecapas, porque o frio amargava e ameaçava piorar. Os cavaleiros seguiam na frente e as mulas, com a carga, marchavam na retaguarda. Dois peões experientes fechavam a coluna, ao lado de dois soldados armados de carabinas. Os peões tinham o encargo de evitar que alguma mula desgarrasse e os soldados tinham a missão de evitar que algum bugre rebelde tocaiasse a caravana. Esta era uma possibilidade de baixo risco, mas não dava para facilitar. Algum rekakê rebelde, com meia dúzia de seguidores, poderia ser tentado a fazer incursões por ali e, se encontrasse facilidade, desengatar sorrateiramente algumas mulas. Conhecendo o terreno, poderia capturar e sumir com os animais e com as respectivas cargas, antes que os peões ou tropeiros se dessem conta.
Assim que a comitiva enveredou no rumo do Vale Dourado, os seus integrantes observaram que o caminho para o Goio-En se mostrava em boas condições e pronto para ser utilizado. Se não era uma perfeição, certamente estava bem-marcado e fácil de trafegar. O trabalho dos engenheiros e operários da estrada estava sendo bem-feito. Pelo menos na parte inicial, aquele caminho permitia seguir em boa marcha e sem exigir grande esforço das montarias e da tropa de carga. Os obreiros, em locais mais favoráveis, haviam limpado áreas para descanso dos cavaleiros e animais. Era uma conveniência sempre apreciada por viajantes e tropeiros. Seguindo à frente da comitiva, alguns metros adiante dos demais, cavalgava um dos soldados da escolta. Era uma precaução.
Na verdade, o tenente Rocha Loures não esperava ataques e as boas condições da estrada não fazia supor que topassem com obstáculos inesperados, mas precaver-se e ter cautela nunca era demais. Logo depois, seguiam os irmãos Rocha Loures, o alferes Moreira e seus comandados. Alguns metros atrás cavalgava o cacique Condá com seus índios. E este viu quando o padre Penteado adiantou sua montaria e veio postar-se a seu lado. A aproximação deixava claro que o padre se achegava a ele querendo conversar. O tempo que viajariam juntos ensejava ao clérigo paulista uma preciosa oportunidade para aprender mais sobre os Kaingang do Sul, sobre seus costumes, suas crenças, suas motivações. O padre ansiava desvendar os segredos daqueles indígenas que esperava conquistar para o cristianismo com seu trabalho missionário.
Logo que emparelhou sua montaria com a de Condá tratou de estabelecer um diálogo.
— Cacique Condá, posso cavalear ao seu lado?
Condá aceitou de bom grado a companhia do padre. Ao cacique, a quem agradava apreciar os sempre renovados encantos da natureza, usualmente não aborrecia viajar absorto em contemplação daquela paisagem gloriosa que o cercava, mas o propósito daquela viagem inquietava seu espírito. Naquele momento, assim, conversar com o padre o ajudaria a lidar com suas inquietações e, ademais, trocar ideias com o sacerdote era algo que vinha apreciando cada vez mais.
Assim, respondeu:
— Mas com toda a alegria, reverendo. Sua companhia me dá grande satisfação. Cavalgar somente com nossos pensamentos, por vezes, é muito solitário.
O padre sorriu ao assentir, mas confidenciou:
— Sim, é verdade. Isto é o que também acho. Quando viajo sozinho, o andar cadenciado do cavalo facilita minhas orações e me facilita pensar e admirar a esplendorosa obra do criador. Mas tem dias que estar solito é triste. Ainda mais para um pescador de almas. De toda maneira, espero não vir atrapalhar sua concentração e seus pensamentos.
— Nem pense nisso, reverendo! Não atrapalha de maneira nenhuma. O senhor sabe que tem meu respeito e nunca me estorvaria.
— Folgo em saber. E lhe digo, meu caro Condá, que o respeito é recíproco, mas, ainda assim, é muito bom ouvir isto. – Fez uma pausa para animar-se a prosseguir: – Cacique, permita-me uma confidência. Esta missão de levar o cristianismo para sua tribo é a tarefa mais desafiadora que já enfrentei. E ficaria muito agradecido se puder contar com sua ajuda. Sei que és cristão e batizado na Santa Madre Igreja. Tive oportunidade de observar sua devoção cristã e fico honrado em que me tenha como seu confessor. Isto me encoraja a revelar que ainda preciso aprender muito sobre a melhor maneira de levar a mensagem de Cristo aos Kaingang. Eu sempre tive curiosidade de conhecer mais sobre nossos irmãos que têm a cor da terra, como diz vosmecê. E sempre tive curiosidade de aprender sobre como se deu a cristianização dos índios na minha província de nascimento. O fato é que, desde seminarista, sempre tive o sonho de levar a mensagem de cristianização aos índios. Para mim esta é a mais nobre missão para um missionário que venha fazer seu ministério na fronteira avançada de civilização. Este desidério, mercê de Deus, agora estou perto de realizar. E se me permite, gostaria de lhe contar um pouco da cristianização dos índios de São Paulo.
Condá riu. Era óbvio que o padre Penteado estava ansioso para lhe contar sobre os índios de São Paulo, mas não havia mal nenhum em ouvir a narrativa, posto que ainda tinham muito para cavalgar. Assim o estimulou:
— Sou todo ouvidos, reverendo. Acho que conhecer um pouco mais da história dos meus irmãos nativos só vai me fazer bem.
O padre acomodou a batina de cavalgar, mudou de posição na sela e começou a contar a história dos aldeamentos de São Paulo.
— O Brasil era uma grande extensão de terras e toda a costa era coberta de mata. Os conquistadores portugueses foram se fixando em povoações que vinham do Norte para o Sul, desde o descobrimento. A colonização das terras paulistas teve início no século dezesseis. Como em toda a costa, ali habitavam índios, sendo que, no planalto, predominavam os Tupiniquins e os Tupinambás. A primeira cidade da colonização da região foi a Vila de São Vicente, fundada no litoral. Nos idos de 1554, depois que os colonizadores portugueses se firmaram na região, o padre jesuíta Manuel da Nóbrega subiu a serra, chegou ao planalto e fundou o Colégio São Paulo de Piratininga. Isto se deu em 25 de janeiro de 1554. Os jesuítas, ao chegarem ao Planalto Paulista, ficaram escandalizados ao encontrar o português João Ramalho. O europeu vivia com os índios Tupiniquins, era casado com a índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá, e andava nu como os nativos. Além disto, ele tinha outras mulheres indígenas e muitos filhos mamelucos. De início, os padres condenaram o português. Diziam que se tinha “barbarizado”. Mas logo perceberam que João Ramalho nada fazia senão seguir os costumes indígenas locais e obedecer à velha máxima do conquistador português: “em terra de sapo, de cócoras com ele”. Depois de ponderarem um tanto, decidiram que era melhor unir-se a João Ramalho e formar uma aliança com os Tupiniquins. Não demorou e esta aliança se provou decisiva para que a Vila de São Paulo de Piratininga continuasse existindo, pois foi graças a ela que os Tupiniquins lutaram ao lado dos portugueses nos ataques que a vila sofreu dos Tupinambás. Este enfrentamento, que aconteceu entre 1554 e 1567, ficou conhecido como a Confederação dos Tamoios, sendo que Tamoios é o outro nome dos Tupinambás. Uma das versões sobre a confrontação culpa o português João Ramalho pelo conflito. Segundo falam, ele seria parceiro do governador Brás Cubas, que governava a Capitania de São Vicente na época, e de entendimento com ele se aproveitou de um costume dos índios chamado de “cunhadismo”, pelo qual bastava alguém se casar com uma índia para se tornar membro da mesma tribo. Assim, João Ramalho teria se casado com a índia Bartira para virar membro da tribo dos Tupiniquins e usar os índios para favorecer os interesses do governador. Eu, pessoalmente, não acredito muito nesta hipótese. Acho que ele aportou no país. se sentiu solitário, se aprochegou aos Tupiniquins, se adaptou ao modo de vida deles e decidiu se casar com a índia Bartira porque gostou dela. A meu ver, não era um plano conspiratório.
O cacique Condá balançou a cabeça:
— Pode mesmo ser que vosmecê tenha razão, mas pode também ser as duas coisas. Pode ser que tudo aconteceu por acaso, mas pode ser que tenha sido de caso pensado. Eu fico sempre com um pé atrás porque parece que os brancos sempre querem tirar vantagem dos índios. É triste, mas o índio precisa viver desconfiado. Eu mesmo já vi muito branco se casar por interesse, mas de um branco casar com uma índia para enganar uma tribo inteira eu nunca tinha ouvido falar. Em todo caso, entrar na tribo por casamento é fácil assim mesmo. Só que entre os Kaingang não existe esta palavra “cunhadismo”. Os anciãos da tribo Kaingang aceitam um fóg para ser recebido como membro da tribo por casamento porque ele não tem parentesco com nenhuma das nossas duas metades. Um estrangeiro não é nem da parte Kamé nem da parte Kayru. Um estrangeiro é diferente e não quebra a regra dos Kaingang, que não podem juntar coisas iguais porque elas não são abençoadas.
— Sei desta regra dos Kaingang. – Reconheceu o padre Penteado, afirmando em seguida: Inclusive acho que é muito acertada. – Continuou, então: – Mas, como eu dizia, o João Ramalho teria engendrado um ataque à tribo dos Tamoios para aprisionar seus membros e cedê-los aos portugueses como mão de obra escrava. No ataque eles capturaram o chefe dos Tamoios, Cairuçu, e o aprisionaram. Não sei os motivos, se foram os maus-tratos ou coisa igual, mas o triste é que o cacique acabou morrendo no cativeiro. Seu filho, Aimberê, assumiu o lugar do pai como chefe indígena e a primeira coisa que fez foi juntar sua tribo com outras para fazer guerra aos inimigos tupiniquins e aos colonos portugueses. Entre as alianças conseguiu acertar o apoio do cacique Cunhambebe, de Angra dos Reis. Cunhambebe, que era mais velho e respeitado, assumiu a liderança da Confederação dos Tamoios e, além de fazer alianças com as tribos dos Goitacás e Aimorés, fez um acordo com o francês Villegaignon, que era recém-chegado ao país e queria estabelecer no Brasil a “França Antártica”, começando por invadir o Rio de Janeiro. O francês achou que era uma oportunidade de fazer os índios guerrear contra os portugueses em seu benefício e ajudou os Tupinambás com pólvora e armamentos. Aconteceu que os índios foram atingidos por uma epidemia que matou muitos dos guerreiros, inclusive o chefe Cunhambebe. Vitimada pela a epidemia, a Confederação dos Tamoios ficou muito enfraquecida. Ainda assim, Aimberê, mesmo com a perda de muitos homens, continuou a revolta contra os portugueses. Tentou até convencer os Tupiniquins a mudar de lado e ficar a seu favor. Chegou a mandar um sobrinho de Tibiriçá, Jagoaranhó, para argumentar com ele, mas o cacique ficou fiel aos portugueses. Mais tarde, quando os Tamoios atacaram, Tibiriçá matou seu sobrinho com um golpe de espada, quando este vacilou em matá-lo, durante os combates. Depois do ataque, Tibiriçá adoeceu e acabou morrendo no fim de 1562. Sua morte foi muito lamentada pelos portugueses e pelos jesuítas, que encomendaram seu corpo em missa solene e o sepultaram na igreja deles. Os combates, porém, continuaram. As duas tribos chegaram a fazer um armistício em Iperoig, mas nem assim as escaramuças cessaram. Só em 1567, com a chegada de Mem de Sá ao Rio de Janeiro e a derrota definitiva dos franceses e de seus aliados tamoios é que o conflito terminou de fato. Enfim, o plano original dos jesuítas era instalar vilas e aldeamentos indígenas na região, mais ou menos como fizeram aqui no Sul, na Região Missioneira. Nesses aldeamentos planejavam promover a civilização e a cristianização dos índios, além de criar escolas para educar as crianças nativas. No começo, apesar dos entreveros com os indígenas, tudo parecia ir bem. Tanto que, por volta de 1560, os jesuítas foram aumentando o número de aldeias. Nelas os indígenas aldeados estavam mais protegidos da escravização promovida pelos colonos. Mas, apesar dos esforços dos padres, os colonos não reconheciam os direitos dos índios e não aceitavam que os jesuítas protegessem os nativos. Os conflitos vieram num crescendo e, então, em 1640, veio a expulsão dos jesuítas. Sem os padres para os proteger, muitos índios foram escravizados. Em busca de mais mão de obra barata, os colonos paulistas foram criando “bandeiras” e mandando grupos de brutamontes capturar indígenas pelo sertão adentro. Os bandeirantes vieram capturar indígenas inclusive aqui, nesta província. A bem da verdade, porém, nem todos da população eram a favor de escravizar os nativos e, já naquele tempo, existiam leis que proibiam a escravização dos índios. Estas leis, entretanto, eram letras mortas, posto que, como bem sabe o cacique por experiência própria, este país nunca foi muito respeitador de leis e os colonos nunca se importaram com elas. Acho interessante lembrar, ainda, que antes do período pombalino, no início do século XVII, um homem visionário, Dom Francisco de Sousa, foi nomeado governador da Capitania de São Paulo. Ele até falava em transformar São Paulo no “celeiro do Brasil”, inclusive incentivando o plantio de trigo para o abastecimento da colônia. Dom Francisco era homem de grande inteligência e energia e impulsionou expedições de desbravamento do sertão, até mesmo procurando jazidas de metais preciosos. Embora tenha feito um curto governo de três anos, Dom Francisco tentou dar nova vida ao aldeamento dos índios e teve o mérito de criar novas aldeias, como as de Barueri e Santo André. Infelizmente, após sua morte, em 1611, o ideal dos aldeamentos arrefeceu e as aldeias ficaram novamente órfãs. A grande aldeia de Barueri, por exemplo, foi desfigurada pelas bandeiras e muitos de seus aldeões foram se refugiar em outros aldeamentos, como a Aldeia de Nossa Senhora da Escada e a Aldeia do Rio Comprido. Enfim, atualmente, depois de 200 anos de assimilação dos indígenas, os aldeamentos originais da cidade de São Paulo já fazem parte da história e o índio é parte da formação do povo paulista.
— Sim, padre. Acho que é isto mesmo. Quando estive em São Paulo vi que no meio do povo da cidade há muitos indígenas e mamelucos vivendo misturados com os brancos. Foi o que eu mesmo pude constatar. – comentou Condá, que continuou: – O interessante é que ninguém me falou nestes aldeamentos de que fala vosmecê.
– Pois é – continuou o padre Penteado –, muitos desses aldeamentos viraram vilas e neles mora todo tipo de gente. Os índios estão bem miscigenados, tanto que nem dá para separar os índios dos outros moradores. Lembro que em meu tempo de seminário conversei com diversos padres docentes que tinham tido convivência com os índios. Em uma ocasião um padre jesuíta, um velhinho bem avançado em anos, me falou sobre as aldeias de índios que a Companhia de Jesus havia criado nas fazendas que eles tinham no tempo da Capitania de São Vicente. Ele me contou da Fazenda de São José e da Aldeia de Nossa Senhora da Ajuda de Itaquaquecetuba, um nome fácil de lembrar porque ajuda todo mundo precisa e eu mesmo invoco esta Nossa Senhora quando ando atrapalhado. Também tinha a Aldeia dos Pinheiros, na Fazenda Carapicuíba, e as aldeias do Embu e Itapecerica. Essas aldeias dos jesuítas aguentaram bem até o período Pombalino, quando os membros da Companhia de Jesus foram expulsos. Sem eles as aldeias ficaram desorganizas. Mesmo depois que os jesuítas retornaram ao Brasil e receberam as aldeias de volta, os padres não recuperaram o poder que tinham antes. As mudanças para pior afetaram também as aldeias do Padroado Real, que tinham párocos encarregados que recebiam pagamento do governo, mas que não eram jesuítas. Entre estas visitei as Aldeias de Pinheiros, Barueri e a Conceição dos Guarulhos. Nelas todas ainda existem igrejas e nelas fui convidado a celebrar missa. O que lhe digo, caro Condá, é que fiquei maravilhado com a acolhida e com a fé vibrante dos fiéis, muitos deles índios e descendentes de indígenas. As filas das confissões sempre concorridas e a santa comunhão recebida com o verdadeiro espírito de Jesus. Em minha curiosidade eu ainda tinha planos de visitar as Vila de São Miguel, a de Nossa Senhora da Escada e de São João de Peruíbe, mas não tive oportunidade. Agora, meu estimado amigo, eis que o bondoso Jesus de Nazaré me concede a alegria de apresentar sua mensagem de amor e paz para os índios de sua tribo aqui, na Província de São Pedro. Tenho inteira consciência de que os índios que vivem nestes pagos, nossos irmãos nativos que habitam as matas de pinheiro, estão em um tempo bem diferente daquele dos nativos de São Paulo, que já vêm sendo civilizados e ouvem o Evangelho desde o descobrimento. Mas nunca é tarde para aceitar a mensagem da salvação, um privilégio que não deve ser recusado a quaisquer dos filhos de Deus. Então, mercê de sua generosa deferência, gostaria muito de ouvir seus conselhos sobre como devo me conduzir e como devo falar aos índios Kaingang daqui sobre a Igreja de Jesus Cristo e sobre a fé cristã.
O cacique Condá percebeu a angústia do padre Penteado. Mas ficou silencioso por um tempo antes de responder. Ele tinha suas próprias convicções sobre a melhor maneira de levar a mensagem da Igreja aos seus irmãos Kaingang. Condá havia crescido em uma comunidade indígena cristianizada, que praticava os ensinamentos da Igreja Católica, ia à missa regularmente e recebia os sacramentos, contudo não abdicava de sua natureza indígena e conciliava sua condição de nativo das matas de araucária com a de cristão. Crescera ouvindo os anciãos reafirmarem as crenças da tribo e elas lhe davam sua razão de ser. Sentia, em sua alma, que não devia renegar as crenças de seus ancestrais e abandoná-las por outras, ainda que lhe afirmassem ser melhores. Convicto, respondeu com serenidade e firmeza, deixando o olhar pousar no horizonte.
— Padre, me sinto honrado por sua confiança em minha singela opinião. Entretanto, sei que nada mais sou que um Kaingang que vive as aflições do momento de perigo que ameaça meu povo. Nossas escolhas farão o nosso futuro e eu tenho feito as minhas procurando o conselho de meus antepassados e com o melhor de minha habilidade. Acredito que o cristianismo é o caminho para meu povo. Nossa sobrevivência vai depender de nossa capacidade de convívio com o mundo dos brancos. Por isso, acredito ser de meu maior interesse, como batizado cristão e membro da Igreja, fazer o melhor que puder para ajudar o trabalho missionário de vosmecê. Todavia, meu coração me obriga a dizer que, para converter o índio, é preciso, antes de tudo, acreditar nele. Respeitar o índio e saber que, mesmo cristão, continua a ser índio. Nós, Kaingang, podemos ser bons cristãos, seguir os ensinamentos da Igreja e aprender as viver com os brancos, sem abandonarmos nossa origem e nossos costumes. Com todo o respeito a vosmecê, se for sua intenção sincera pregar a palavra de Deus imbuído do desejo de fazer o bem para o povo Kaingang, a primeira coisa que haverá de ter em conta é que a alma que tem o índio é igual a alma que tem o branco.
O padre Penteado, que ouvia com atenção o que lhe dizia Condá, retrucou um tanto contrafeito:
— Caro cacique, digo a vosmecê, com minha maior sinceridade, que acredito, e sempre acreditei em meu coração, que alma não tem cor. Por isto, brancos e índios são iguais aos olhos do criador. Deus olha a seus filhos com o mesmo carinho e com o mesmo amor de pai. Assim, a nós, que somos suas criaturas, não cabe fazer distinção entre as almas que Ele criou. Não neste mundo e ainda menos no outro. Quem pode saber qual alma haverá de cativar mais os olhos do criador?
Condá ouviu os protestos do padre, mas continuou:
— Tem missionário que acredita que índio não tem alma. Tem missionário que trata índio bem, mas não acredita no índio. Tem padre que não maltrata, mas despreza e tem pena do índio. Acha que a alma do índio é inferior. Há de ter missionário que concorda com vosmecê na opinião de que alma de índio não tenha cor, mas pensa que tem cheiro…
O padre não conseguiu deixar de sorrir e comentou:
— Homessa, cacique, alma com cheiro? Nunca cogitei, mas, se alma de índio tem cheiro, deve ser cheiro bom, que índio toma mais banho que branco. Aliás, tem povo branco que nem toma banho e cheira muito mal. E, como confessor, sei de muita alma de branco que cheira muito mal.
Foi a vez de Condá sorrir:
– Branco que cheira mal tem em penca. Tem branco que não gosta de tomar banho, e isso é verdade. Tem branco que só toma banho sábado à noite, ou na quaresma, pela páscoa da ressureição. Já índio, quando vê rio, logo quer entrar para tomar banho. Por outro lado, tem branco que foge da água como o diabo da cruz. Muito branco desiste de tomar banho só em pensar que, para entrar na água, tem que tirar toda aquela roupa.
O padre riu sonoramente e concordou com a observação, acrescentando:
— Com mil trovoadas, o que vosmecê me diz é hilário. Só de imaginar alguns brancos roliços tirando a roupa para um banho de rio já me põe a rir. O que diz me faz lembrar de cenas insólitas que vi na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Algumas das damas da corte agora usam as “cabines de banho” importadas da Inglaterra. Conhece estas geringonças, cacique?
Condá respondeu apenas pró-forma, entendendo que o padre não queria uma resposta, apenas, aguçar o seu interesse:
— O que diz vosmecê, “cabines de banho”? Nunca ouvi falar, não faço ideia do que sejam e nem sabia que existiam, reverendo.
O padre, que esperava esta resposta, continuou:
— Pois pasme, meu amigo, tais tralhas existem e estão em voga entre as damas da corte que seguem os estilos que vêm da Inglaterra. Essas “cabines de banho” estão abrolhando às dúzias nas praias do Rio de Janeiro. Elas são montadas em carros de duas rodas, como se fossem charretes, e tem um tipo de casinhola montada em cima. Pela manhã, os escravos empurram esses carros mar adentro, até a água chegar no rés do piso. As damas e donzelas já estão instaladas nos assentos das cabines e são deixadas ali, com a água do mar borrifando seus pezitos, enquanto desfrutam o mar com todo o deleite e recato por horas. Quando desejam sair, ou à tardinha, sinalizam com bandeirolas aos escravos, que trazem os cavalos para rebocar os carros de banho de volta para a areia. De modo que as damas, preocupadas com sua cor de leite, nem saem nem se expõem ao sol. Daí que não cogitam banhar-se em rio, como fazem as índias. Além da trabalheira que teriam em desfazer-se das roupas, suas peles seriam queimadas pelo sol, afetando a alvura estrangeira que tanto prezam. Em nosso país, plotado nos trópicos pela graça de Deus, avassalado pelo calor do sol inclemente, esta conduta me parece carecer de méritos. Se bem que muitas destas damas possam alegar que procedem com tal recato buscando esconder-se dos olhos maliciosos do populacho, não sei, não. Sem querer julgar, que não é papel que me caiba, parece-me manifesto que muitas delas apenas o fazem por hipocrisia e para preservar uma modéstia aparente. Bem dizia o padre Vieira quando afirmava que “Tudo aquilo que se faz para os olhos dos homens, ainda que se faça, não se faz”. De todo modo, há de compreender-se como natural que os brancos europeus, por virem de países mais frios e acostumados a usar muitas vestes, estranhem a nudez dos índios brasileiros, julgando-os sem moralidade e de pouco pudor. Entendo, claro, que roupas decentes devem ser usadas para cobrir a nudez impudica e são necessárias para a vida em comunidades civilizadas. Mas isto não justifica que, no tórrido verão do Rio de Janeiro, os cortesãos e cortesãs tenham de vestir roupas que, na canícula do verão, mais parecem fornalhas. A esta altura penso eu cá, comigo mesmo, que o português João Ramalho restava muito justificado em abandonar suas roupas de Europa e perambular pelas matas desvestido, feito os índios.
O cacique Condá concordava com o que dizia o padre, mas não resistiu à tentação de fazer mais uma provocação:
— Pois assim é, de fato. Mas o senhor vestindo sempre essa batina preta também há de sofrer sob as canículas de nosso verão.
O padre foi apanhado de surpresa e tomado por um acesso de riso. Na verdade, estava se divertindo com aquele colóquio descompromissado. Era um momento de humor e leveza de espírito que amenizava a seriedade do assunto de que falavam. E, sobre a batina, esclareceu:
— Touché! Mas não é o que parece, meu caro cacique. As batinas enganam. Uma batina folgada funciona como um guarda-sol nas pernas clericais, que ficam sempre na sombra. A batina deixa o ar circular por baixo e protege contra a inclemência da luz direta do sol. Inclusive em cavalgadas como a nossa. Para um padre branquelo, como eu, que tem pele sensível ao sol e sofre queimaduras sob o sol direto, uma batina folgada e um chapéu de clérigo são mais confortáveis do que a pele nua desprotegida.
O cacique maneou a cabeça, conformado. O padre Penteado sempre tinha uma boa resposta e sempre o divertia em momentos de acabrunhamento. Resolveu fechar a digressão e voltar para sua argumentação:
— Acho que o senhor está muito certo. A cor do índio dá melhor proteção para o sol ardente do verão do que a pele branca. Ao menos é o que me é dado ver. Eu saio e fico o dia todo no sol e não sinto nada. Um branco desacostumado fica meio-dia e já fica com a pele vermelha e doída, que depois descasca feito couro de cobra. Mas eu estava dizendo que, ao lado de bons missionários, tem os que só querem enganar e tirar proveito do índio. E isto revolta o índio. Para conquistar confiança o missionário precisa respeitar a vida e a tradição do índio. Como já disse, sou batizado e sou cristão, mas não deixei de ser Kaingang. E tenho orgulho de ser Kaingang. Temos nossos costumes, nossas tradições, nossa medicina e nossos sentimentos. Me ensinaram no catecismo que existe um Deus que criou o mundo e é pai de todos os homens. Os índios são homens. Por isto são filhos de Deus. Por isto todos os homens deviam ser irmãos. Mas muitos brancos acham que o Deus deles é só deles. Que Deus criou um céu melhor só para os brancos. Tem branco que diz que o índio não tem alma. Que o índio não tem kãnhvég. Mas, se só existe um Deus, e Ele só criou o branco, como pode ter outro Deus que criou só os índios? E outro Deus que criou só os negros ka pur? E qual o Deus que existe para criar a alma do filho do branco que casa com mulher índia? Ou do índio que casa com mulher branca? Será que tem um Deus que existe para criar alma do mameluco, que é filho do índio com mulher branca? Qual o Deus que cria a alma do filho do ka pur com o branco? Se existissem tantos deuses, um para cada raça, teria guerra no céu. Porém, sendo Deus um só, como a Igreja aceita que possam existir filhos do mesmo Deus que são livres e outros que são escravos? E como aceita que tenha massacre de seus filhos índios sem punição? Devia ser ensinado no catecismo que quem persegue e mata o índio, ou o ka pur ou o mestiço, comete pecado igual a quem mata o branco. E devia ser punido do mesmo modo.
O padre Penteado ouvia com fascínio o que lhe dizia o cacique. De fato, era tudo de uma lógica inquestionável.
— Condá, o que está me dizendo é inspirador e está certo. Seus argumentos estão cheios de boa lógica e forrados de razão. Por dever de justiça, a mim incumbe reconhecer que existem alguns padres da Igreja que se acham melhores do que os índios e tratam os nativos como se fossem bichos do mato. Uns deles, ainda bem que parcos, dizem, à boca pequena, que o bugre selvagem não sabe pensar e até sustentam que o índio não tem alma. Não os padres jesuítas, aos quais respeito e, devo reconhecer, amavam os índios e fizeram grandes esforços para civilizá-los, sendo que, por causa mesmo de seus méritos, chegaram a ser expulsos. Eu me refiro aos padres que se ordenam por conveniência, aos “sepulcros caiados” a que se referia Jesus no Evangelho. Aos padres hipócritas e arrogantes que não acreditam em um Deus de todos os homens. Suspeito que, alguns, nem sequer acreditem em Deus. Eu não penso assim e tenho certeza de que os padres que seguem o Evangelho de Jesus Cristo não pensam assim. O que meu coração diz é que os que pensam com preconceito estão errados, cometem pecado por duvidar da bondade de Deus e hão ser condenados a queimar no inferno.
Condá respondeu sereno:
— Se, como diz, Deus é pai e faz valer a justiça divina para punir os impenitentes que cometem injustiça contra os índios, não resta dúvida que os pecadores devem ser condenados a arder no inferno. Sinto que vosmecê fala com convicção e sabedoria, reverendo padre, mas estes pecadores empedernidos, ainda que creiam no inferno, não sei se acreditam que é para lá que vão.
O padre Penteado ficou intrigado:
— Vosmecê acha que eles não acreditam que podem acabar nas fornalhas do Belzebu? Por quê?
— Eu acho que eles pensam que não vão. Veja, padre, o branco persegue e mata o índio a vida inteira e, na hora da morte, se confessa, reza penitência de dois padre-nossos e pronto. Fica limpo dos pecados de uma vida inteira e pode ir para o céu.
Aquele era um argumento complicado de refutar. Mas o padre Penteado tentou:
— Cacique, para merecer o céu, não basta o pecador se confessar. O pecador precisa se arrepender de verdade. Essa é a condição necessária para receber o perdão. São Tomás de Aquino ensinou que três condições são indispensáveis para a penitência: a contrição, que é a tristeza pelo pecado cometido; o propósito de emendar-se, de corrigir-se e não voltar a cometer o pecado; e a reconciliação com Deus, o que se dá por meio de boas obras. A confissão é só o lado visível do arrependimento.
Condá sorriu e coçou o queixo, mas não se mostrou convencido:
— Padre, desculpe-me por insistir, mas ainda não acho justo. Então o bandido que matou o índio promete que não vai mais matar o índio que já matou, se arrepende e vai para o céu, enquanto o índio inocente que ele matou, só porque não era batizado, vai para o Limbo. Não é justo com o índio.
O padre Penteado conjecturou consigo mesmo: se todos os índios pensarem como Condá, vou precisar me preparar melhor para pregar para eles. Mas, naquele momento, argumentar era preciso. Assim, foi em frente:
— Cacique, a justiça divina é uma só, quer seja para o branco, quer seja para o índio. E só Deus sabe o que está no coração de cada um, tanto do branco como do índio. Só Deus sabe o que é justo e só Ele é que pode julgar. Agora, sobre esta questão do Limbo, tem uma parte que é dogma da Igreja. A Igreja diz que existiu um lugar que os antigos chamavam de Limbus Patrum. Esse lugar, na nossa língua, é traduzido como o Limbo dos Patriarcas. Este Limbo era também chamado de a “Mansão dos Mortos” e serviu como morada provisória para os justos do Antigo Testamento. Ali estavam os profetas e os justos, aqueles homens e mulheres que acreditaram na vinda do Messias e que se arrependeram e fizeram a contrição de seus pecados. Aqueles justos e puros de coração que morreram sem pecado, só que ainda tinham que limpar a mancha do pecado original. Segundo a Igreja, eles foram levados para o Limbo porque Jesus ainda não tinha nascido nem tinha sido sacrificado pelos homens. Ou, como aprendemos no catecismo, Jesus ainda não tinha realizado a Missão Salvífica na Terra. Os justos que viveram naquele lugar, que também era chamado de Sheol, ou Seio de Abraão, tiveram que esperar o sacrifício de Jesus. Só após o martírio do filho de Deus e o momento de serem levados para a presença de Deus, depois da redenção que veio pela morte de Cristo na cruz. Ou seja, depois de morrer na cruz, Jesus Cristo desceu à “Mansão dos Mortos”, como lembramos no Credo, e deu a todos os que ali esperavam os benefícios do seu sacrifício. Foi deste modo que as almas justas que haviam finado antes de Jesus morrer na cruz foram por ele levadas para o céu. E tem uma outra parte do Limbo que é o Limbo das Crianças, que no latim, na língua oficial da igreja, é chamado de Limbus Puerorum. A tradição da igreja ensina que as crianças inocentes que morrem sem o batismo iriam para este lugar. Elas não sofreriam nenhuma punição, mas ficariam sem a visão beatífica de Deus. Como essa explicação não é dogma, não sabemos todos os detalhes. De minha parte, acho que é para um lugar como o Limbo que vão os índios inocentes. Como os índios da América ainda eram desconhecidos pelos judeus no tempo de Jesus, ele nunca falou nada sobre a salvação dos índios. O mais provável é que os índios que não receberam a palavra de Jesus e são justos e puros de coração sejam como crianças aos olhos de Deus. O que a Igreja Católica prega, entretanto, é que é necessário o batismo para obter a salvação, já que este é o sacramento que elimina o pecado original, que marcou todas as almas em razão da expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Agora, Deus é onipotente, o que quer dizer que Ele tudo pode. E assim, se Ele, em sua bondade infinita, quiser dar a graça do batismo aos seus filhos que a desejarem, mesmo sem que tenha havido ocasião para o sacramento formal, não seremos nós, pobres mortais, que haveremos de impedi-lo.
Condá considerou com grande interesse a explicação do padre Penteado, mas tinha dificuldade em entender aquela explanação. Parecia muito confusa, imprecisa e contraditória. Contudo, não queria polemizar. Pensou, consigo mesmo, que se fosse verdade que os Kaingang bons de coração, ao morrer sem batismo, iriam todos para um lugar bom de viver, chamado Limbo, onde teriam tudo o que precisavam, sendo que lá eles poderiam viver felizes até o dia do Juízo Final, então não era um lugar ruim. Se nesse tal Limbo o espírito do índio pudesse estar com seus antepassados, sua família, os parentes e os amigos, seria como estarem juntos num toldo de almas. Se, juntos, pudessem todos conviver em paz, então o Limbo era um bom lugar e lá estariam melhor do que neste mundo. E, ainda, se este lugar fosse uma morada para os mansos de coração, como falavam as tradições de sua gente, destinado a receber a alma de todos os Kaingang de boa vontade e que morreram sem culpa, então haveria de ser um lugar de júbilo e alegria, exatamente como explicavam as tradições dos Kaingang. Para Condá, fazia sentido e atendia à ânsia de eternidade de seu povo, conforme periodicamente celebrada no reconfortante ritual do Kikikoi, em que cultuavam seus mortos.
O cacique retomou a palavra para continuar:
— Reverendo, pelas suas palavras a Igreja oferece uma existência depois da morte que o índio anseia e vai aceitar. Então não vai ser difícil converter os índios ao cristianismo. O que o índio quer é saber se pode ser cristão sem deixar de ser índio. O batismo não vai mudar a cor de sua pele nem vai tirar seus ancestrais. Acho que um índio batizado pode ser um índio mais completo. Só que eu penso que o batismo não muda que o índio nasceu índio e que vai continuar a ser índio toda a vida, mesmo depois de batizado. E não faz diferença se ele gosta de ser índio ou não. Eu gosto de ser índio, mas tem uns tolos que não gostam e ficam tristes. Tem índio que acha que seria melhor ter nascido branco. Tudo bobagem. A gente é o que é. O que eu sei, e que eu digo para meu povo e ensino para meus filhos, é que ser índio Kaingang é muito bom. O Kaingang também vive junto no mundo e deve ter orgulho de ser índio, porque esta é uma dádiva que vem de nossos antepassados Kamé e Kayru. Uma dádiva generosa que não pode ser recusada. Ensino a meus filhos que fazer parte de uma das tribos do povo Kaingang, dos Camés, dos Votorões ou até mesmo dos Dorins, é um privilégio. E é igual privilégio tanto nascer do lado Kamé como do lado Kayru. Em qualquer tribo Kaingang o índio ouve de seus anciãos que o povo Kaingang tem duas metades. A metade Kamé e a metade Kayru. E todo o Kaingang sabe de qual metade ele faz parte. Eu sou da metade Kayru e minha mulher, com quem me casei aos 14 anos, que foi batizada com o nome de Rita, é da metade Kamé. Um Kayru aprende que deve procurar a companhia de uma mulher Kamé e um Kamé deve procurar uma mulher Kayru. Assim foi determinado pelos nossos ancestrais. O que lhe digo, padre, é que sou leal ao meu povo e por ele sou respeitado. Mesmo sendo cacique não sou mais que os outros índios ou diferente dos outros índios. Só que tenho mais responsabilidade. O que lamento é que, no meio dos brancos, eu não sou tratado igual. Tenho o título e o soldo de capitão, e acho que muitos brancos me respeitam mais pelo soldo que ganho do que pela farda que visto.
O padre Penteado riu e aproveitou para comentar:
— Mas aí é que acho que vosmecê é tratado igual aos brancos. Para os invejosos e gananciosos o dinheiro sempre fala mais alto. Gente de pouco caráter vai sempre olhar primeiro para o dinheiro e só depois para a pessoa.
Condá parou para se dar conta do que o padre falava e logo concordou com um gesto de impotência:
— Isto é verdade. Mas o que eu queria mesmo dizer é que, muitas vezes, só meu pequeno soldo me salva de humilhações gratuitas por eu não ser branco. Ora, eu sei que não sou branco como os brancos. Mas eu não quero ser branco. A Igreja diz que os homens são feitos de pó e voltarão a ser pó depois de morrerem. Eu prefiro acreditar que os índios são terra e voltarão a ser terra depois de morrerem. Eu nasci do ventre da terra e por isto tenho a cor da mãe terra em que nasci. Eu gosto de mim do jeito que sou. Se Deus me criou índio, deve gostar de mim como índio. Então, sou o que sou, e sou feliz assim.
O padre Penteado estava admirado. Agora entendia por que o cacique Condá era tão respeitado por seu povo. Mostrava ser sensato e sábio.
Mas Condá ainda não havia terminado:
— Padre Penteado, eu digo com a fé que a Igreja me ensinou a gostar do índio que tenho dentro de mim. Gosto de minha família e de meu povo. Gosto de nossa história e de nossa cultura. É verdade que não temos escrita como os brancos. E isto nos faz falta, embora eu tenha a opinião de que seria difícil para meu povo guardar escritos nas palhoças. Nelas, todo mundo mora junto e elas precisam ser queimadas quando se enchem de piolhos e bichos-de-pé. Mas os tempos são outros. Com os brancos tomando nossas matas, vamos ter que viver em aldeamentos demarcados e vamos ter que aprender a viver igual a eles. Vamos ter que morar em casas limpas e deixar nosso costume antigo de ficar mudando nossas palhoças. Para viver no mundo dos brancos nossas crianças precisam aprender a língua deles e precisam aprender a ler e escrever, assim como eu aprendi. E tem muito mais coisa que o índio precisa aprender. Precisa aprender muitas coisas novas, precisa descobrir os lugares do mundo, e as coisas do mundo, como eu mesmo estou descobrindo. Eu estive na capital da província, em São Paulo. Nunca tinha visto uma cidade grande de verdade, e ali vi maravilhas. De algumas coisas gostei, de outras não gostei. Fui ver o mar-oceano em Santos e fiquei encantado com a imensidão das águas que nossos anciãos diziam existir, mas que eu nunca tinha visto. Eu trouxe comigo um livro de gravuras para mostrar o mar-oceano para nossas crianças, e elas ficam admiradas e de olhos esbugalhados ouvindo o que eu contava. Eu digo para elas que, se existe um mar-oceano tão grande, longe dos olhos, que só podemos ver quando viajamos até o mar, do mesmo jeito pode existir um céu grande acima de nós, que só vamos poder ver depois da viagem da morte. E aprendi que existem maravilhas que eu e meus filhos nunca vimos, mas poderemos ver um dia. Por isto ficou mais fácil para mim acreditar no céu que eu nunca vi, mas que a Igreja diz que existe, e ficou mais fácil acreditar nas palavras de Jesus, que eu aceitei como meu salvador e como meu guia para ir para o céu. O que eu penso, padre, é que o índio, assim como o branco, também quer conhecer coisas novas e tem curiosidade em aprender. Por exemplo, falam que existe uma terra gelada, que tem montanhas de um granizo que nunca derrete. Dizem que é mais frio que no inverno, mas eu aguento bem o frio e gostaria de ver essa maravilha. Já aprendemos muita coisa com os brancos. Aprendemos a criar cavalos e a usar os cavalos para puxar carroças e viajar longe. Aprendemos com os brancos como usar ferramentas para plantar mais depressa nossas roças de milho e de batata-doce. A aprendemos a carnear o boi e a ovelha para a assar no fogo, assim como os brancos aprenderam com os índios a assar carne de caça no fogo de chão e a tomar erva-mate na cuia de chimarrão. Também aprendemos com os brancos a usar armas de pólvora na caça, na guerra e para nossa defesa. Pena que nem tudo dos brancos seja bom. E pena que nem todos os brancos sejam bons. Muitos brancos são falsos e traem os índios. Outros trazem doenças; outros enganam nossas filhas; outros vendem bebida forte para viciar os índios. Nós queremos aprender tudo o que os brancos têm de bom, mas não queremos as coisas ruins dos brancos. Especialmente, queremos viver em paz com os brancos. Se estas coisas forem possíveis, o índio vai querer ser cristão. Se puder ter sossego, se puder ter vida melhor, apender coisas boas, como ler, escrever e cultivar a terra e, principalmente, se puder viver em um aldeamento onde possa plantar, ter campos para caçar, rios onde pescar e matos para buscar o pinhão e o mel, o índio vai viver em paz. O índio vai aceitar o batismo cristão e vai agradecer ao Deus criador de todas as coisas, assim como sempre agradeceu aos ancestrais Kamé e Kayru, que a tradição dos Kaingang diz que deram vida aos índios, aos animais e aos seres da natureza. Como agradece a Kayru por ter criado as cobras e os veados e a Kamé, que fez a onça e pintou círculos na pele dela, e disse a ela que podia comer veados, mas não podia comer os Kaingang. Depois Kamé fez a anta e mandou que ela comesse gente e bichos. Só que a anta ficou um bicho embotado e não entendeu a ordem. Kamé falou mais duas vezes, mas ela não entendeu nada. Kamé acabou ficando zangado: “Teu castigo vai ser comer folhas de urtiga. Tu não prestas para nada!”. Depois Kayru fez as cobras, que andam escondidas, e mandou que elas mordessem homens e animais. E Kayru e Kamé, assim, foram criando todos os bichos de nossas matas.
O padre Penteado, que ouvia em silêncio, interrompeu para comentar:
— Cacique, as histórias que vosmecê conta sobre a criação dos Kaingang são ricas, cheias de minúcias e emocionantes. Mas uma coisa sempre me intrigou: como é que os Kaingang guardam sua história e conservam seus costumes geração após geração, mesmo sem ter registros escritos em que se apoiar? Eu sei como é difícil manter coerência e repetir sem mudar substancialmente os detalhes de uma narrativa. Como confessor, eu me deparo com confissões confusas de gente que não consegue lembrar direito coisas que aconteceram um ou dois anos atrás. Então, é notável como as lendas dos Kaingang se perpetuam, sendo apenas contadas pelos anciãos ao redor da fogueira.
Condá, após um leve sorriso, explicou:
— Caro Padre, para começar, posso asseverar a Vossa Reverendíssima que os índios têm memória muito boa. Mas, além disso, usam a mesma coisa que a Igreja quando usa o credo para lembrar sua doutrina. O credo não muda de um padre para outro. Nós também temos alguns versos que ajudam a lembrar nossa história. Quando me sento ao redor da fogueira para ensinar às crianças, concentro minha atenção no fogo e vou recitando as histórias do mesmo modo que as ouvi quando eu era pequeno. Eu consigo lembrar dos anciãos falando e vou repetindo o que eles diziam, palavra por palavra. As imagens vêm na minha memória e eu vou repetindo o que lembro. Aliás, eu também lembro o que diziam os primeiros padres da Igreja que vieram pregar em nosso toldo. Eu ouvia, arrebatado, eles nos contarem que Deus criou o mundo em sete dias e fez no mundo um paraíso com jardins e matas onde tinha cobras e frutas. Lembro que diziam que Deus criou Adão e Eva e que, um dia, Eva ouviu a cobra falar. A cobra a convenceu a experimentar a fruta da maçã, que naquele tempo era uma fruta proibida. Ela ficou com vontade de comer a maçã e comeu a fruta. Pois foi só comer a maçã e pronto, foi expulsa do Paraíso. Devia ser uma maçã muito especial para Eva desobedecer a Deus só para comer a fruta. E esta história sempre me fez ficar curioso em conhecer a tal maçã. Vosmecê sabe que não tem árvore de maçã aqui nas nossas matas e, por isso, eu nunca tinha visto essa fruta e não sabia como era. Foi então, por puro acaso, que conheci a maçã em São Paulo. Aconteceu que, quando estive em São Paulo para receber o dinheiro do prêmio que me deram por ter achado aquelas sete crianças brancas que viviam com os Kaingang, me convidaram para almoçar com o governador e a esposa dele, no palácio do governo. Depois do almoço, que foi muito bom, me deram de sobremesa aquela fruta diferente. Perguntei o nome e me disseram que era uma maçã e falaram que tinha vindo da Inglaterra. Era uma fruta muito bonita, por fora de casca vermelha e por dentro, branca e macia. Experimentei, claro, e até achei gostosa, mas, meu caro reverendo, não achei que valesse a pena ser expulso do Paraíso por causa dela. Mas, enfim, o que os padres diziam é que o Paraíso que Deus fez na Terra era parecido com o Paraíso que nossos criadores, Kamé e Kayru, fizeram para os Kaingang aqui. Tinha muitas plantas, árvores, córregos, rios e coisas boas. Só que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso deles e, agora, seus descendentes vieram para o lado de cá do mar-oceano e querem nos expulsar de nosso Paraíso. E nem temos maçã proibida para comer, que essa fruta não dá em nossas matas. Mas, apesar de tudo, eu acho que o Deus dos brancos deve ser amigo de nossos antepassados, Kayru e Kamé. E o nosso paraíso aqui é grande o bastante para caber brancos e índios. Por isso, podemos todos viver sem brigas, dividindo este pedacinho de mundo criado por Deus.
E, assim, iam cavalgando lado a lado, sem pressa e distraídos na conversa, quando, de repente, foram assustados por um barulhento bando de gralhas-azuis revoando baixo sobre suas cabeças. As aves iam ziguezagueando sobre a estrada, seguindo para a borda do pinheiral que crescia à direita, não muito longe das margens da trilha. O padre ficou um tanto assustado, mas o cacique se mostrou encantado com aquela aparição colorida e barulhenta. Apontou para as aves, um bando de cerca de 20 gralhas de plumagem azul brilhante, gloriosas e resplandecentes, que enchiam o céu de festa e encantamento.
— Veja padre, estas são sagsos, que é como chamamos essas gralhas cor de céu na língua dos Kaingang. Os brancos chamam de gralha-azul. As sagsos são aves que medem mais de um palmo de cumprimento e falam entre elas como se fossem gente. Nossa tradição diz que essas gralhas é que plantam o pinhão que cresce em nossas matas.
O padre observava, curioso e maravilhado, aquelas aves de porte de pombos e de plumagem azul brilhante, que pareciam fazer piruetas mágicas no céu. Com a cabeça e a parte frontal do peito de um preto brilhante, o contraste valorizava ainda mais o azul das asas. Nunca havia visto essa espécie em São Paulo e nem as havia visto em bando tão numeroso em suas andanças anteriores.
— São aves admiráveis, cacique. Nunca as tinha visto voando em bando tão grande. Ainda menos fazendo todo este festejo. Vosmecê me disse que essas aves é que plantam os pinheiros? Isto é verdade?
— Sim – continuou o cacique –, as sagsos são aves sagradas. Elas são as plantadoras dos pinheirais. Nossos kuiã contam a lenda que, antigamente, essas gralhas nem eram azuis nem eram bonitas. Antigamente, a gralha-azul era apenas uma kãgðnh, uma gralha-preta comum. Mas ela tinha a inquietude em seu coração e não se sentia feliz sendo uma gralha comum. E se queixou a Kamê, dizendo que não queria ser igual a um corvo e queria fazer coisas boas que fizessem bem às matas. Kamê, então, olhou para aquela ave que parecia triste e ficou com pena dela. Olhou em volta e viu um pinhão. Pegou o pinhão e entregou para ela dizendo: “Para melhorar as matas você pode ir plantar pinhão”. Daí pegou um pinhão e ensinou que, quando ela encontrasse um pinhão na mata, devia segurar o pinhão com os pés e comer só a ponta mais fina. A outra parte, a parte mais gordinha, ela devia enterrar no chão. Ela devia escolher um lugar fofo, fazer um buraco com o bico e empurrar o pinhão bem para o fundo do buraco. E, depois, devia cobrir o buraco com folhas e galhos para que ninguém visse o pinhão plantado. Ela deveria lembrar o lugar onde plantou o pinhão, porque, se ficasse com fome, ela teria comida guardada e poderia ir lá para desenterrar e comer o restante. Kamé disse que ela devia plantar bastante pinhão e, se não precisasse de mais comida, devia deixar os pinhões enterrados como semente, para que, de cada pinhão plantado, viesse a nascer um novo pinheiro.
A gralha-preta, kãgðnh, que queria ser diferente dos corvos, ouviu com atenção e nunca mais esqueceu a lição ensinada por Kamé. Quando voltou para a mata em que morava ficou cheia de entusiasmo de poder ajudar e ficou tão feliz com a tarefa que recebeu de Kamé que passou a dedicar-se todos os dias, do amanhecer ao escurecer, a procurar e plantar o pinhão. Quando encontrava um, batia as asas de contentamento, grasnava para agradecer a Kamé, pegava o pinhão com o pé, tirava um pouco da casca, mas comia só parte da ponta do pinhão e corria para plantar a outra parte.
A gralha kãgðnh vivia tão ocupada plantando pinhões que nem viu seu tempo de vida passar. Um dia, já velhinha, ela sentiu saudade dos lugares onde tinha passado a juventude plantando pinhões. Voou um dia inteiro e, ao chegar ao lugar do ninho onde havia nascido, ficou deslumbrada com os grandes pinheirais. Ali, naquelas colinas onde tinha enterrado os pinhões, nasceram milhares de pinheiros. E viu que cada pinhão que ela plantou tinha crescido e virado um grande e formoso pinheiro, e dava muitas pinhas cheias de muitos pinhões. E a velha gralha ficou encantada. Olhou cada pinheiro com carinho, como se fosse um filho e foi, toda orgulhosa, pousar nos galhos mais altos deles, de onde grasnou para agradecer a Kamê. E viu que, agora, tinha comida para todas as gralhas e elas podiam comer quanto pinhão quisessem e não iam mais passar fome. Então ela começou a falar na língua delas e chamou as outras gralhas para mostrar que ali tinha muito pinhão e comida de sobra para todas. Quando as outras gralhas chegaram, ela contou sua história e fez com que todas jurassem que iriam fazer como Kamé ensinou: comer só uma parte e enterrar o restante do pinhão para servir de semente. Todas as gralhas concordaram e ficaram tão cheias de contentamento que grasnaram juntas de alegria. O som foi tão alto e tão alegre que Kamé ouviu e veio saber o que estava acontecendo. Quando viu os pinheirais plantados pela gralha kãgðnh, que obedeceu a seu ensinamento, e viu que ela tinha plantado muito pinhão e tinha espalhado muitos pinheirais, ficou maravilhado e orgulhoso. E quis recompensar aquela gralha que não tinha pensado só nela, mas também havia pensado nas lindas matas de pinheiros e que, agora, pensava também nas outras gralhas que viviam naquelas matas. Kamé então decidiu que ela merecia um prêmio por sua bondade. Assim, escolheu o azul mais bonito que tinha no céu e pintou as asas da gralha da cor do firmamento. E falou para todas as outras que as gralhas que plantassem pinheiros e fizessem as matas mais bonitas seriam também sagsos azuis e seriam lindas como ficou a antiga kãgðnh. Assim foi que Kamé transformou a gralha-preta kãgðnh na gralha-azul sagso, que agora vestia o mais lindo azul que Kamé encontrou e se tornou a mais bonita e a mais feliz das aves das matas de araucária. Assim, as sagsos passaram a encher de alegria aquelas matas e florestas de todo o Sul.
Condá sentiu-se tomar de emoção ao relembrar aquela lenda que tinha ouvido nos tempos de menino. Não se envergonhava de, a cada vez que a recordava, voltar a emocionar-se. Ele nem lembrava de quantas vezes, em Guarapuava, ficara horas observando as gralhas comendo e plantando pinhões, e, depois de cada pinhão plantado, saírem voando e grasnando felizes. Tanto Condá gostava das sagsos que um dia foi ao encontro do kuiã de sua tribo, um ancião já curvado em anos e com a tez tisnada pelo sol, o mesmo que lhe contara a lenda daquelas aves incomparáveis, para dizer que, se ele se tornasse kuiã um dia, quando crescesse, não iria querer a onça Mig como guia. Preferiria escolher a sagso e poder ser como ela, voando pelo céu azul, cantando de alegria pelo sol e pelas matas, e plantando o pinhão, que era um presente de seu criador.
O velho kuiã fez um muxoxo à guisa de riso e profetizou:
— Guri, tu não vais ser kuiã. Cada um nasce para atender aos conformes de seu destino. Tua missão está determinada por teu nascimento. Quando cresceres serás um grande cacique, como teu pai. Tua missão vai ser neste mundo dos homens, e não como um kuiã, como eu, que faço ligação com o mundo dos espíritos de nossos antepassados. E, se tu tanto gostas das sagsos, tu podes aprender com elas a sabedoria de plantar mais do que colher. E, como elas, podes aprender usar a língua para falar coisas boas e para guiar seu povo. E, se tu fores amigo das sagsos e protegeres essas lindas criaturas que Kamé ama mais do que todas, também protegerás os pinheiros e as matas que elas plantam. Kamé vai ficar orgulhoso de seu filho Victorino Condá.
Condá lembrava, o velho kuiã levantou a voz agudizada pela idade e, de repente, seu falar parecia o de uma gralha brava ao xingar os índios que matavam gralhas-azuis para tirar-lhes as penas. Ele fez Condá prometer que, quando se tornasse um cacique Kaingang, iria proibir os índios de matar, atirar flechas ou jogar pedras nas gralhas-azuis. Disse que matar uma sagso era como matar o pai e a mãe dos pinheirais que alimentavam os Kaingang. Era uma desconsideração tão grande como atirar pedra nos antepassados que viveram nos pinheirais e nos índios que tinham seus umbigos enterrados sob o dossel dos pinheiros.
Enquanto evocava aqueles tempos de infância em Guarapuava, o cacique foi surpreendido por nova revoada daquele magnífico bando de gralhas-azuis. Ficou sem fôlego diante da encantadora beleza daquele barulhento bando de aves iridescentes. Suas voltas e contravoltas pareciam desejar exibir seu azul coruscante em uma coreografia especialmente dedicada ele e ao padre Penteado. Era como se as aves soubessem que estavam no Centro da atenção do grande cacique e do missionário biriva que começou a descobrir os encantos do Alto Uruguai. Finda a revoada e terminado o momento de fascínio, os dois cavaleiros se deram conta que o devaneio que os enleava ainda permanecia no ar, para, apenas aos poucos, ir se desmanchando como se fosse uma bolha de sabão solta ao vento. Entretanto, era preciso voltar para a áspera realidade terrena. A comitiva agora se encaminhava para um capão da mata. Certamente com o intuito de apearem para descansar.
Ao longo do dia pararam três vezes em espaços como aquele. Era preciso reestabelecer a circulação nas pernas e atender às necessidades naturais dos cavaleiros, e, não menos importante, era preciso mitigar o cansaço das montarias. Alguns dos membros da comitiva se deitaram na grama, outros sentaram-se na relva para formar rodas de conversas, outros, ainda, preferiram exploraram as proximidades. Passada meia hora, retomaram a marcha. Não podiam perder o ritmo. Para vencer distâncias, mais do que a velocidade da marcha, o importante é sua regularidade. Era preciso marchar sempre. Légua após légua. Ao findar do dia haviam percorrido pouco mais de 12 léguas. Aquela distância representava cerca de um quarto do trajeto até o Goio-En. É certo que podiam acelerar o passo, mas não havia motivo para forçar a marcha. Ainda que as montarias pudessem render mais, já que estavam descansadas e o terreno ajudava, afora a temperatura fria do inverno, todos sabiam que, nos dias seguintes, precisariam vencer trechos bem mais difíceis e cansativos até chegar ao Passo do Goio-En.
De qualquer modo, terminado o primeiro dia de caminhada, todos se mostravam contentes. A viagem se dava sem sobressaltos. Acamparam, fizeram a fogueira em um lugar protegido do vento e, ali, o cozinheiro preparou o feijão e o arroz com charque. No lusco-fusco da tarde jantaram, contaram os causos, comentaram a beleza barulhenta das gralhas-azuis, a surpresa dos veados campeiros que fugiram em saltos espantados ante a aproximação da caravana, e riram das desventuras do dia. Por fim, arrumaram seus pelegos e se deitaram para dormir. O pouso em campo aberto não tinha nem o escasso conforto de um galpão aberto ou de uma cobertura de palha, mas significava menos trabalho no preparo do descanso e a noite, afora o frio, não parecia prenunciar chuva. Então, todos se arrumaram para dormir sobre os arreios e cobertos com as capas e ponchos.
A noite estava escura e as nuvens cobriam boa parte do céu estrelado. Durante a madrugada, porém, o tempo piorou. A temperatura caiu ainda mais. Mesmo que se cobrissem com cuidado, ninguém estava livre do frio e da umidade que penetrava pelas frestas das capas e roupas. No fim da madrugada, uma gélida garoa começou a cair. O céu tornou-se opaco, úmido, glacial. Ao amanhecer a garoa foi se transformando em um chuviscar monótono. Ainda assim, muitos dos membros da comitiva relutavam em se levantar. Algumas tosses entrecortadas ressoavam pelo acampamento. Todos torciam para que não sobreviesse um resfriado ou gripe. Casos de gripe eram contagiosos e, se uma gripe acometesse a comitiva, seria muito desagradável. Viajar com febre era uma agonia. Além disso, um simples resfriado que se espalhasse pelo grupo o transformaria numa barulhenta cacofonia de tosses a competir com o coaxar dos sapos das lagoas à beira da estrada.
O tenente Rocha Loures e o cacique Condá estavam entre os primeiros a se pôr de pé.
— Acho que vamos precisar ainda de três dias até o Goio-En e mais uns dois na subida até o toldo de Nonoai. – Foi a opinião do tenente para o cacique Condá.
— É possível – respondeu o cacique, olhando o tempo em volta –, mas vamos pedir aos céus que não chova. Se estiver chovendo ao chegarmos ao Goio-En, acho que vamos ter que acampar até o tempo estiar. Subir com a animalada e a carga nas trilhas brutas em tempo chuvoso é um baita perigo. Se já é difícil em tempo seco, com chuva é convite ao desastre. Um vivente sozinho, bom de pernas e braços, iria resvalando, mas, provavelmente, conseguiria, porém, subir a trilha com um séquito de animais seria loucura. As patas das mulas converteriam a trilha em uma ensopadela de barro molhado. As mulas afundariam até a barriga e acabariam ficando atoladas.
Entrementes, a vigem prosseguiu como o esperado. Os animais avançaram sem grande esforço, porque o leito da estrada estava bom. Ainda não havia tráfego e, portanto, a estrada não tinha sofrido desgaste. Para os construtores, era confortador verificar que a nova estrada passava no teste e aguentava o tráfego. Finamente, alcançaram o último pedaço do caminho. Era o trecho da descida da encosta que chegava ao Rio Uruguai. Eram voltas e curvas em declive, com trechos estreitos e solo escorregadio. Foi só no meio da tarde do quarto dia após a partida que chegaram ao Passo do Goio-En. Ali, na margem do Rio Uruguai, havia uma pequena clareira. O espaço plano, porém, não permitia acomodar toda a comitiva. Foi preciso espalhar a tropa e usar outros trechos de áreas livres ou roçadas. Por isso, acampar não foi fácil. Mas acabaram se ajeitando. Em compensação, a vista do vale era magnífica e o rio se mostrava em toda a sua beleza. Armaram as barracas e as meias-águas para aguentar uns dias. Precisavam de tempo para preparar a subida até o toldo de Nonoai.
Por curiosidade, diversos membros da comitiva foram olhar o Rio Uruguai e alguns tentaram a travessia. Usando cordas para evitar serem arrastados pela correnteza escondida, conseguiram cruzar até o outro lado com água na altura da cintura. A experiência os deixou maravilhados. A facilidade com que cruzaram deixava claro que o Passo do Goio-En seria uma alternativa muito mais prática para ir de uma província para a outra do que o traiçoeiro Passo do Rio Pelotas. O passo que até então era usado pelos tropeiros e que os farroupilhas passaram a chamar de Passo da Santa Vitória, depois de ali terem vencido os imperiais. Terminada a montagem do acampamento, o cacique Condá disse ao tenente Rocha Loures que desejava estudar a subida com o guia enviado por Nonoai, o índio Chopim.
Condá, o tenente Rocha Loures, João Cypriano, o alferes Moreira, Kokoj, o kuiã da comitiva de Condá, e o guia índio Chopim foram sentar-se isolados sob uma cobertura de meia-água, feita de palmas, para conferenciaram. O tenente Rocha Loures, mesmo familiarizado com a língua Jê, falada pelos Kaingang, teve dificuldade em acompanhar o diálogo de Condá com o índio Chopim. Condá se voltou para o tenente e viu, pela expressão de seu rosto, que não devia ter entendido muita coisa. Por isso indagou:
— Tenente, vosmecê conseguiu entender o que o guia e eu acabamos de conversar? – Perguntou, desconfiando de que a resposta seria negativa.
O tenente Rocha Loures fez uma expressão frustrada e maneou a cabeça:
— Não. Não consegui entender patavina. Vosmecês pareciam dois bugios conversando. O seu guia índio fala muito rápido e tem um sotaque diferente do seu.
Condá riu da comparação e esclareceu que o sotaque dos índios do toldo de Nonoai era, de fato, diferente daquele dos índios de Guarapuava. Depois elucidou:
— O guia me disse que conhece bem estas ribanceiras. Tem subido e descido com frequência. E contou que as trilhas têm pedaços muito traiçoeiros, com barrancos e trechos muito inclinados, valetas e peraus escondidos e que, neste tempo chuvoso, ficam difíceis de enxergar. Também me disse que está preocupado com o chão das trilhas. Ele acha que a caravana inteira não iria conseguir subir toda junta. O terreno está molhado e as mulas iriam transformar a trilha num lodaçal. O que ele recomenda é que, antes de a comitiva tentar subir, um pequeno grupo deve ir na frente, a pé, para verificar as condições da trilha. Quando o grupo chegar na parte alta, se estiver tudo bem, ele mesmo voltaria para levar o restante da comitiva.
— Entendo – concordou o tenente. – Parece sensato o que ele recomenda. – E voltando-se para os outros participantes da reunião perguntou: – O que vosmecês acham?
— Todos estavam de acordo com a sugestão do guia e ficou decidido que primeiro subiria um grupo a pé e, depois, já no alto, seria decidido como proceder. E sem demora passaram a tratar dos detalhes da subida exploratória. Ficou combinado que o índio Chopim mais Condá, Kokoj e dois índios jovens seguiriam encosta acima até alcançar um lugar com espaço para acomodar toda a comitiva e de onde a expedição, depois de reunida, pudesse seguir para o toldo de Nonoai. Saíram na manhã seguinte, antes ainda do nascer do sol, após um desjejum de canjica de milho com calda de mel.
A Mig estava no caminho
Mig, a onça pintada – foto de Ramon Vloon (Unsplash)
O índio Chopim foi na frente. Era jovem, robusto, bom rastreador e ágil escalador de encostas. Tinha, contudo, uma vulnerabilidade: o arrojo da juventude. A verdade é que a missão o deixara encantado. Guiar uma comitiva com aquele porte, formada por grande número de homens e animais de carga, liderada por ninguém menos do que o respeitado cacique Condá, era um grande desafio, mas ele nada temia. Tinha enorme autoconfiança e coragem não lhe faltava. Assim, lançou-se na trilha de forma temerária e sem considerar outros riscos além daqueles inerentes ao terreno traiçoeiro que encarava. Conhecia bem a área e isso o fazia arriscar-se além da medida. Certamente, foi por isso que menosprezou os perigos que sabia existirem na mata que enfrentava.
De súbito, sem se dar conta, entrou num recanto onde se refugiava uma onça pintada com seus três filhotes recém-nascidos. Antes de entender o que se passava viu o vulto que se lançava sobre ele e mirava direto sua cabeça. A onça é uma mãe extremada, particularmente nas primeiras semanas após o nascimento de sua prole. Os filhotes, por nascerem cegos, são inteiramente dependentes da mãe, que instintivamente os defende com as mais poderosas mandíbulas entre os felinos e com a força de garras que podem rasgar um corpo humano inteiro. O índio, surpreendido com um ataque fulminante, não teve a menor chance. O bote foi certeiro e arrasador. E, num átimo, o grupo que o seguia ouvia o urro de desespero do índio. E ouviram o estalido de seu crânio sendo despedaçado. Também ouviram seu corpo cair na mata se debatendo. Assustados, ainda sem entender o que se passava, sabiam que precisavam se proteger. Algo de inesperado e cruel acontecera.
Condá, com sua experiência, foi o primeiro a deduzir o que havia se passado. Uma Mig deveria estar por perto e atacara sem aviso. O avanço de Chopim tinha sido rápido e temerário demais. O guia se descuidou e pagou com vida seu arrojo. Naquele instante, contudo, era preciso evitar que a situação se agravasse. Gritou para que todos recuassem e se protegessem. Tomou sua carabina e posicionou-se para atirar se fosse preciso, mas ordenou que não atirassem a não ser que fossem atacados. A onça não costumava atacar os seres humanos, a menos que se sentisse ameaça. Atacou o índio Chopim porque este, inopinadamente, invadiu o seu reduto. E tudo o que o grande felino fez foi reagir aos seus instintos para defender suas crias.
Condá deu um tempo para ver como a onça se comportaria. Com cautela, aproximou-se do ponto do ataque e, ao ver o índio decapitado, de pronto entendeu o que havia acontecido. Protegendo-se por detrás dos arbustos de uma pequena elevação, o cacique conseguiu observar que a onça se afastava levando os filhotes. Pegou um de cada vez, com a boca, e os levou a uma pequena distância. E depois pegou os filhotes daquele ponto e os levou mais para o interior da mata, em uma área fora da visão de Condá. A Mig era um magnífico espécime, o maior e mais belo felino que o cacique já havia visto. O corpo, flexível e feito de músculos, devia ter cerca de 2 metros de comprimento e ter o peso de dois homens, possivelmente superando os 130 quilos. Seu pelo lustroso e reluzente era de uma bela cor de areia, com rosetas escuras espalhadas em fileiras. Após aguardar um tempo, Condá concluiu que a onça, que acabara de atacar e eliminar o que acreditou ser uma ameaça a seus filhotes, tinha voltado para dentro da mata em definitivo. Daí em diante, a comitiva iria precisar tomar cuidado redobrado. Para a Mig aquele era o seu território. Dela e de sua prole. Quem mais ousasse perturbar o seu espaço teria que enfrentar sua determinação de proteger seus filhotes.
Quando todos estavam mais tranquilos, após a onça desaparecer no interior da mata, Condá voltou-se para seu grupo e determinou:
— Vamos recuar e seguir outra trilha. Vamos deixar esta área para a Mig. Não atirem e nem moLestem a onça. A Mig é a guia sagrada de nosso povo. Não viemos aqui para enfrentar a onça. Nem para deixar seus filhotes órfãos de mãe. Não queremos ser amaldiçoados por Kamé.
Todos recuaram. Condá, contudo, antes de recuar, enfrentou o risco de ser alvo da onça, caso ela estivesse à espreita. Avançou com cautela e foi até o corpo imóvel do índio Chopim. Atento e de arma pronta, com uma mão arrastou o corpo de Chopim e o trouxe para trás. Estava desolado. Sabia, entretanto, que o índio morto tinha quebrado as regras da sobrevivência daquelas paragens. Haviam princípios. Quebrá-los era um erro. Ele, que andava sempre por ali, devia saber que haviam onças circulando naquela região. Desafiar o direito que as onças tinham a seu espaço era errado. Os Kaingang sempre respeitaram as regras de seus antepassados. E apesar das recomendações dos anciãos para nunca avançarem desprotegidos em trilhas que conduzam aos cursos de água, onde as onças vão matar a sede, os descuidos aconteciam e cobravam vidas preciosas.
Chopim não era o primeiro nem seria o último a ser surpreendido pelo felino que era o mais poderoso dos animais que vagavam pelos pinheirais. Os Kaingang acreditavam no direito da natureza de assegurar regras justas para suas criaturas. Cada uma delas defenderia seu território e lutaria pela própria sobrevivência. As onças apenas lutavam pelo direito de viver, assim como os índios também lutavam. O índio havia violado seu território e pagou com a vida. Numa terra que era de todos cabia a cada um respeitar o direito dos demais. E nada havia a questionar ou reclamar da Mig. Agora só lhes restava lamentar e prantear o sacrifício de uma alma afoita. E prosseguir na caminhada.
Após certificarem-se de que a onça levara seus filhotes para outro lugar e que estavam relativamente seguros, o kuiã preparou o corpo do índio para o sepultamento. Usando os materiais do pequeno balaio de medicinas que trazia sempre consigo, ele pintou no corpo do índio morto os círculos que indicavam sua origem Kayru, a marca de sua dualidade na tribo, para fazê-lo ser reconhecido pelos guias espirituais que iriam indicar o caminho para a terra de seus antepassados. Em seguida, após um ritual sumário, os indígenas o enterraram na terra que já havia recebido seu umbigo.
Terminado o funeral, cabia aos sobreviventes lembrar de seu espírito e aceitar os desígnios do destino que o surpreenderam. Para o índio, viver era um efêmero ato de amor de seu criador. Viver era apenas exercer o direito de fazer da vida um ato de respeito aos fins da natureza. Aos que tombavam no caminho, aqueles que sobreviviam deviam oferecer homenagens de gratidão e respeito em uma cerimônia do Kikikoi. Esta cerimônia, quando viesse a ser realizada, devia lembrar seus feitos e contar seus atos de bravura. As rezadeiras, as péin, e os kuiã ajudariam o morto a encontrar a paz e o caminho para viajar por entre as nebulosas do mundo do além.
Terminados os preparativos fúnebres e após terem enterrado o corpo de Chopim, Condá reuniu os membros do grupo e disse a eles:
— Meus caros amigos, brancos e Kaingang, estamos de coração partido. Foi uma fatalidade imensa e todos choramos o amigo que o destino levou, mas temos uma missão a cumprir. Vamos continuar a subir pelas trilhas no rumo do toldo de Nonoai. Chopim explicou bem como devíamos fazer e nos indicou os caminhos e a volta que precisávamos dar para podermos trazer as mulas da comitiva. Com o que ele nos disse, o caminho não é difícil de achar. Muitos índios passam sempre por ele, subindo e descendo do toldo de Nonoai até a passagem do Goio-En. Como este terreno não é familiar para nós, precisamos ir marcando a trilha para nos guiar na volta e na subida da comitiva. Eu vou na frente do grupo. Vamos continuar com cautela redobrada e manter os olhos atentos. Deste modo seremos capazes de alcançar as terras planas com segurança. Vamos demorar um pouco mais, mas chegaremos lá.
Então, retomaram a subida. Condá, que tinha a vivência de muitas trilhas percorridas e de muitos caminhos desbravados naquelas matas, foi percebendo os sinais que indicavam as trilhas. As marcas de território de coleta de pinhão, as marcas deixadas por trilheiros Kaingang que os precederam, as marcas sutis deixadas nos troncos por caçadores e coletores de mel que só um Kaingang experiente saberia decifrar. Continuaram a subida marcando o caminho percorrido com touceiras feitas de palha colorida que iam amarrando nas árvores mais destacadas. Com alívio, quando o dia já findava, perceberam que chegavam a um platô. Já não era sem tempo. Ficaram mais tranquilos. Não haviam atingido o topo, mas ali poderiam pernoitar.
O acampamento teve de ser improvisado, posto que não havia a intenção de pernoitar no campo. Mas aquele infausto evento que vitimou o índio Chopim obrigou a que se alterassem os planos. Ainda assim, tendo em conta a habilidade dos Kaingang de montar acampamentos com o material do mato, logo estavam prontas pequenas tendas para todos passarem a noite. O mais demorado foi fazer a fogueira. Os Kaingang acreditavam que uma boa fogueira era a melhor garantia para uma noite segura e tranquila. Por isto sempre levavam consigo uma lasca de madeira mole, um chumaço de musgo seco e uma ponta de madeira dura, quase sempre moldada em nó de pinho. Quando a noite se anunciou, Condá apanhou uma flecha, retirou a ponta de osso do encaixe e a substituiu pela ponteira de madeira dura. Em seguida, colocou o musgo na concavidade da madeira mole e encaixou a ponta de flecha de nó de pinho naquela concavidade. O objetivo era aquecer o ponto de contato de tal maneira que ali viesse a se formar uma pequena brasa.
Naquela tarde Condá foi auxiliado por quatro de seus índios que se revezaram girando rapidamente a haste no ponto de apoio da madeira seca. Não foi preciso muito tempo para a madeira friccionada aquecer e dela começaram a sair traços de fumaça. Então os índios aceleraram a rotação da flecha e sopraram no ponto de atrito. A fumaça foi aumentando até que, de súbito, uma diminuta brasa apareceu e uma pequena chama acendeu o feixe de musgo seco. O resultado era esperado, mas os índios exultaram mesmo assim. Acender o fogo era sempre uma pequena vitória. Mesmo com prática, saber como girar a haste no processo de acender o fogo era uma habilidade preciosa e, por vezes, frustrante.
Em certos casos a umidade da madeira mole impedia que a brasa se formasse, mesmo fazendo fumaça. Outras vezes o esforço de girar a haste não era bem aplicado e o calor gerado pelo atrito era dissipado. Exatamente por ser uma arte esquiva, os Kaingang procuravam manter o fogo sempre aceso em suas palhoças de morada coletiva. Conservar o fogo era tarefa para os mais velhos e os que já não tinham condições de seguir nas pescarias e caçadas. Nesta tarde, contudo, os índios tiveram êxito em acender a fogueira, o que significava uma noite com menos sobressaltos. Afinal, era sempre preciso levar em conta que aquela Mig continuava nas proximidades e a fogueira a manteria afastada do acampamento.
Retomaram a caminhada no dia seguinte. Condá seguia à frente com cautela, abrindo passagem com o facão que usava na mão direita. Já se sentia mais familiarizado com os sinais que ia descobrindo na mata. Perto do meio-dia ele observou que o avanço se dava em um terreno menos inclinado. Uma hora mais e chegava ao planalto. Dali até ao toldo de Nonoai, imaginou, seria um avanço rápido. Olhando em volta examinou o terreno com cuidado. Havia ondulações e campos entremeados por matas típicas da região. Ficou indeciso. No plano original, encontrado o caminho e um local para acampar, iriam voltar para trazer a comitiva. Mas isso foi antes da morte do guia Chopim. Em razão das novas circunstâncias, talvez fosse mais sensato seguir até o toldo e voltar com mais índios para ajudar na subida dos animais cargueiros.
Enquanto ficava na dúvida, o cacique percebeu um movimento inusitado na folhagem à beira da clareira. Vento não era, porque o ar estava parado. Poderia ser um animal. Não aquela onça que surpreendera Chopim, já que a Mig não iria tão longe levando filhotes ainda cegos. Condá parou, rebuscou no alforje a luneta que trazia consigo – Rocha Loures o presenteara com a sua – e pôs-se a examinar o touceiral em que vira os movimentos estranhos. Com cuidado, foi dando passos em direção ao local em que observara o movimento. Se tivesse paciência, o causador do movimento iria novamente se mexer. Ele sabia que, à medida que se aproximava, o animal se sentiria acuado e iria fugir ou revelar-se. Mas, conforme ia chegando mais perto e olhando pela luneta, foi vendo sinais que o surpreenderam.
Ao invés de um animal, como um lobo-guará, que era comum por ali, o que ia vendo sugeria que se tratava não de um animal, mas de um prosaico índio à espreita. Possivelmente algum observador de Nonoai. Nem precisou demorar-se. De mais perto, as lentes revelavam que ali, agachado, havia um índio tentando passar despercebido. Condá até achou graça em observar a forma canhestra como o índio espião tentava se esconder. Na era das lunetas era preciso ter mais cuidado. Condá abandonou as cautelas que tomava, levantou-se e gesticulou para o índio, deixando claro que sabia de sua presença. O índio, inicialmente desconcertado, soube que havia sido descoberto. Saiu de trás do arbusto em que estava e apareceu de corpo inteiro. O índio respondeu aos acenos de Condá e veio em direção ao cacique e ao grupo que estava com ele.
Condá ria com gosto. A situação toda lhe parecia cômica. Apanhar o índio que o espreitava de forma um tanto inepta apenas confirmava sua opinião de que os Kaingang precisavam melhorar suas técnicas de espreita se, de fato, queriam competir com os brancos e suas lunetas. Para ir ao encontro do índio deixou as armas que portava no chão e caminhou em sua direção. Ao seu lado seguia o kuiã da comitiva. Ao se aproximarem, porém, foi este que se surpreendeu mais. Reconheceu o índio que vinha e logo o foi saudando:
— Kamurerê, Kamurerê. Que seu espírito seja abençoado! – Abriu os braços e correu para abraçar o índio que vinha ao encontro do grupo.
Condá foi tomado de espanto. Aquela reação era algo que não esperava. Ainda mais tendo em conta que seu kuiã era um xamã tão silencioso e introspectivo que podia passar dias sem articular palavra. Vê-lo correr estabanado, a ponto de deixar cair seu bocó de ervas medicinais por causa dos arroubos e gestos espalhafatosos, era completamente inesperado. Vê-lo abraçar o índio que se aproximava, então, o deixou literalmente pasmado. Enquanto Condá ficava imaginando a razão para tão inesperada transformação de seu kuiã, de regra sereno e circunspecto, o xamã veio trazendo o índio que haviam encontrado. Sua voz denotava alegria e alvoroço:
— Grande cacique, os augúrios são benfazejos. Este é meu sobrinho Kamurerê. Ele é filho de minha irmã e do rekakê Minetorá. Ele está se convertendo em kuiã. Fui eu que o preparei e agora ele está passando por provas para se tornar kuiã.
Condá percebia que aquele jovem devia ser muito querido de seu kuiã. Dirigiu-se ao jovem:
— Kamurerê, tenho grande alegria em conhecê-lo. Me agrada saber que Kokoj, meu kuiã de muitos anos, tem um discípulo tão jovem e belo como tu és.
O jovem estava silencioso. Não sabia bem como proceder diante do cacique Condá. Mas sentiu que devia dizer alguma coisa:
— Sim, nobre cacique Condá, eu estou fazendo minhas provas para ser sagrado kuiã. E meu orientador é o meu tio Kokoj.
Condá estendeu as mãos e pegou o jovem pelos ombros:
— Meu jovem, tens como orientador o melhor kuiã vivo de toda tribo Kaingang. Seja bem-vindo. Espero que sejamos amigos e possamos confraternizar juntos muitas vezes.
Kokoj explicou a Condá:
— Muitas luas atrás a família de Kamurerê o trouxe para viver comigo e ser meu discípulo. Ele era um guri novinho e queria aprender a ser kuiã. Eu morava do outro lado do Rio Uruguai e era kuiã dos Kaingang de Palmas, mas meus parentes da família que morava deste lado do Uruguai queriam que eu aceitasse ser o mentor do menino, que era filho de minha irmã. Ensinei tudo o que sabia e no verão passado, quando ele completou 17 anos e estava pronto para as provas, ele voltou para junto da sua família e veio para morar no toldo do cacique Nonoai. Foi fato assombroso encontrar ele aqui. Este foi um acontecimento muito auspicioso e enche meu coração de muita alegria.
Por seu lado, o novel kuiã, um jovem esbelto, alto e esguio, com corpo pintado com as marcas rikutu, os três pequenos círculos da metade Kayru, aparentando menos do que seus 17 anos, estava radiante. Para ele, especialmente, encontrar o kuiã, tio e mentor, em meio a sua expedição de prova para encontrar e constituir seu guia animal, significava que os espíritos de seus antepassados estavam abençoando sua sagração. Na verdade, ele tinha acabado de fazer sua iniciação e estabelecido sua relação espiritual com um parceiro animal. Esta era uma condição essencial a que todo kuiã precisava atender a fim de obter reconhecimento como xamã. Uma relação de enlace espiritual que duraria por toda a vida e que, para sua ventura, havia sido estabelecida com o mais soberbo dos animais das matas de pinheiros, uma onça pintada, uma Mig. Formar uma parceria com uma Mig era a suprema ambição de todo o aspirante a kuiã, embora se constituísse em um ditoso privilégio reservado a alguns poucos, posto que as condições para a mais prestigiosa, poderosa e aguerrida das parcerias que um kuiã poderia desejar dependiam de acontecimentos além de sua vontade.
O jovem, agora com as precondições para a sagração como kuiã atendidas, ainda tinha presente os dramáticos eventos de sua recente aliança com a Mig. Seguindo o que prescrevia o ritual ancestral dos Kaingang, o jovem entraria desacompanhado na mata virgem. O encontro para formar a aliança, que deve cingir-se a apenas dois espíritos, o dele e o do guia animal que lhe estava destinado, requeria aceitação e desprendimento. Desejava, ardentemente, que a Mig aceitasse seu convite, mas teria que aceitar o espírito animal que o escolhesse. Como seus antepassados que, antes dele, buscaram ligar seu destino a um guia animal, procurou um lugar em que pudesse sentir a alma da mata. Um ponto onde o ar, os perfumes, os sons, o vento e a luz do sol filtrando por entre as copas das araucárias o inspirassem. Chegou até a borda da vertente do vale do Rio Uruguai. Olhou em volta. Ainda não sentiu ser aquele o lugar que procurava. Preferiu descer um pouco mais.
Kamurerê buscava um lugar onde houvesse uma cacimba natural ou uma nascente que minasse água. A água límpida e virgem é que selaria sua aliança cerimonial com seu guia. Esquadrinhando a mata viu um ponto mais verde e de folhagem abundante e, em seu Centro, encontrou, finalmente, um lugar que o capturou. Um feixe de luz filtrava por entre as copas dos pinheiros e iluminava, no Centro, uma cacimba cristalina, alimentada por um pequeno fio de água. Os filetes de sol faziam a água reluzir e se refletir na mata em volta. Seria um sinal? Resolveu que aquele ponto idílico determinaria sua aliança e ali formaria parceria com o animal. Com o coração aos pulos, se sentia abençoado e certo de que sua busca terminara. Ali, o animal destinado a ser seu guia espiritual sentiria as mesmas emoções e a mesma integração com a mata e com a natureza em volta. E isso o faria sentir-se como seu igual. Estava convencido que não encontraria lugar mais radioso ou mais inspirador. Assim, decidiu, não precisava procurar mais.
Cortou folhas de palmeira e, com elas, cuidadosamente, modelou um recipiente onde colocou a água cerimonial. O animal que bebesse dessa água estava destinado a ser seu guia. Esse ritual vinha de seus antepassados e era repetido geração após geração. Quando um índio se sentia chamado para a sagrada tarefa de guiar espiritualmente sua tribo, ele precisava contar com o aconselhamento e o arrimo de um guia animal ao qual pudesse recorrer em situações difíceis. Um guia animal coadjuvante que o ajudasse a desincumbir-se das desafiadoras tarefas de sua missão. Para atender ao requisito do ritual de sagração, Kamurerê preparou o local da acedência de seu guia conforme ditavam os costumes da tribo. Em volta do recipiente com a água pura da fonte, espalhou uma leve camada de terra fofa, para registrar possíveis pegadas. Elas revelariam qual o animal que aceitara beber de sua água e, portanto, aceitara seu chamado. Feito isso, afastou-se para um lugar onde pudesse meditar. Havia que dar um tempo para que o animal destinado a ser seu parceiro recebesse o chamado do espírito de seu comparte e, sob a influência dos antepassados Kaingang, encontrasse a água ritual e dela bebesse para selar a aliança.
Ansioso pelo resultado, Kamurerê manteve-se apreensivo e cheio de expectativa, mas procurou serenar seu espírito. Estava pronto a aceitar, de coração alegre, o que o destino lhe tivesse reservado. Recolhido a seus pensamentos, deixou sua mente ser tomada por devaneios. Tudo o que sempre sonhara agora estava acontecendo. Desde menino almejara ser um kuiã. Observara como o xamã do toldo se conduzia, como preparava sua medicina, que ervas usava, que cerimonias conduzia. Depois, na iniciação ao lado de seu tio, aprendeu que o conhecimento do kuiã tem como base a observação da natureza. O homem faz parte da natureza, e sua saúde e sua felicidade dependem de irmanar-se com ela. O homem precisa aceitar suas regras de equilíbrio para o corpo e a mente. Aprendeu que é a natureza que cura. Assim, o kuiã deve usar seu conhecimento da natureza e do mundo natural para criar as condições para a cura.
A cura vem quando a energia da vida é mais forte que as forças da doença e quando as forças do bem vencem a luta contra o mal. Aprendeu que é o mundo natural que favorece a vida em abundância. Para isso é preciso que suas regras sejam obedecidas e os ensinamentos sejam aprendidos. O mundo natural rege os mortais e não pode ser visto nem tocado, mas pode ser observado, sentido e experimentado, tanto direta quanto intuitivamente. Assim como não se pode tocar a vida interior de um ser humano, embora se saiba que ela existe, também o mundo tem uma vida interior que vem das forças e energias que estão na natureza. Elas nos envolvem e ditam nosso destino, por isso precisam ser respeitadas e mantidas em equilíbrio. Para promover a cura, tudo é importante. O corpo, a mente, o espírito, as emoções, o grupo, o modo de vida. E um kuiã, ao tratar um doente, deve respeitar suas escolhas e invocar seus antepassados para criar harmonia.
Para que a tribo tenha uma vida proveitosa e feliz, o kuiã deve aconselhar os chefes para que sejam sábios. Deve lembrar os antepassados, para que sejam honrados, deve pregar respeito aos mais velhos e exaltar a vida em harmonia, que só é possível quando todos são justos uns com os outros. E, assim, Kamurerê tinha evoluído em sabedoria e estava preparado para assumir a missão de kuiã. Seu coração exultava e lhe dizia que seu tempo chegara. Faltava apenas receber da natureza seu guia animal. Enquanto aguardava o momento de descobrir qual seria ele, seus cinco sentidos registravam, em uníssono, o pulsar da natureza à sua volta.
O perfume da floresta, a vibração da mata, o farfalhar do vento nos galhos, a ondulação da dança das copas, o gorjear dos pássaros, o zumbido das abelhas, o sol luminoso penetrando pelas frestas das ramadas, o som relaxante da água descendo por um arroio. Neste estado de enlevo, de comunhão sublime com a mãe natureza, pedia a seus antepassados que o guiassem naquele momento de exaltação. O instante mais decisivo de sua jornada pela vida. E, absorto como estava, nem notou a passagem o tempo. Quando se deu conta, era noite. Improvisou uma cama onde achou que estaria mais protegido e mergulhou num sono profundo. E sonhou que sua água ritual era sorvida pela mais bela e sagrada das criaturas do universo mitológico Kaingang: a onça Mig.
Kamurerê acordou no dia seguinte com um raio de luz incidindo sobre seus olhos. O sonho permanecia vívido em sua retina. E foi com o coração cheio de esperança que voltou ao local onde havia instalado o recipiente com a água cerimonial. E foi com enlevo que percebeu que, sim, boa parte da água tinha sido bebida. E constatou que, sim, na terra fofa de testemunho, estavam pegadas, muitas pegadas. Nem precisou analisar muito para deslindar o que elas revelavam: ali havia estado uma Mig. Maravilhado, Kamurerê contemplou os indicativos da presença da onça e, sem demora, concluiu o ritual. Como mandava a tradição, ele próprio bebeu e se banhou com a água restante. Estava, assim, concluída sua aliança com a Mig, o espírito do animal que seria seu guia neste mundo.
Vivendo um momento de profunda emoção, Kamurerê sentiu-se arrebatado. Em meio à majestade da mata de pinheiros, sentiu em seu coração a certeza de que aquela onça seria sua companheira na trajetória de kuiã que se abria para ele. A Mig seria sua guia espiritual pelo restante de seus dias. Estava feliz. Sentia-se venturoso. Sentia-se tomado de imenso júbilo, mesmo solitário no meio da mata. Ali, apenas na companhia de seus antepassados, dançou a dança da Mig e elevou seu agradecimento aos céus. A tradição Kaingang dizia que nenhum guia animal poderia ser melhor do que a Mig. Nenhum mais desejável ou mais sábio. Podendo contar com a parceria e o aconselhamento da onça, ele seria respeitado por seu povo.
Também poderia aconselhar os mais jovens na escolha de suas esposas, poderia aconselhar os casais na escolha dos nomes mais auspiciosos para seus filhos e poderia ver o futuro. Para os membros de sua tribo, poderia ministrar a medicina de seus antepassados, curar doenças, expulsar os maus espíritos e fazer o bem. Poderia, como acreditavam os Kaingang, trazer de volta à vida pessoas cujos espíritos tinham sido enganados e seduzidos pelos mortos, interceptando e interrompendo sua viagem para o Numbé, o lugar situado entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos e que era o destino dos bem-aventurados. Tornar-se um kuiã era o que queria da vida. O destino que queria para si. E a forma como desejava servir ao povo que amava, os Kaingang, os valentes e indomáveis reis das matas de pinheiro.
Kamurerê, o novo kuiã, pertencia ao toldo de Nonoai. Ele, não obstante sua juventude, sabia que seu povo vivia um momento de grande perigo. Os brancos estavam chegando em número crescente. Era uma realidade ameaçadora. Seu coração temia que a situação se deteriorasse e fosse preciso escolher entre lutar ou morrer. Se sua geração não conseguisse conviver com os brancos, não tinha dúvida de que ele e seus contemporâneos seriam as vítimas e, os sobreviventes, as testemunhas do fim de seu povo. Mas essa sorte não era a que o novo kuiã queria para os Kaingang. Seus sentimentos ainda eram confusos, mas ele já tinha tomado partido. Ele, como outros jovens da tribo, ouvira muitos rekakê-pai afirmarem que deviam expulsar os brancos que invadiam suas terras. E ele também se tinha indignado contra os invasores e pensado em lutar. Mas isso foi antes de conhecer o poderio dos brancos. Acabou compreendendo o que dizia seu tio kuiã: os índios lutarem contra os brancos seria como a lebre lutando contra a Mig. Uma lebre inteligente não pensa em lutar com uma Mig. A sabedoria de uma lebre não está em enfrentar a Mig, mas em sobreviver nas matas escapando das garras da Mig.
Kamurerê levava em conta, também, que sua mulher estava grávida. Intimamente, esperava que o filho fosse homem. Ele já amava aquela criança que ainda iria nascer. Sonhava vê-lo crescer, sair com ele para apanhar pinhões, ensiná-lo a pescar, a caçar, a acender o fogo, a buscar o mel no oco das grandes árvores. Enfim, concluída sua iniciação e feita a aliança com seu parceiro espiritual, Kamurerê lembrou que tinha prometido para sua mulher que levaria algumas favas de mel quando voltasse. Atender ao pedido seria uma manifestação de seu amor por ela e pelo novo ser que ela traria ao mundo. O mel seria bom para ela e para o filho que levava em seu ventre.
Disposto a conseguir o mel, seguia algumas abelhas para encontrar sua colmeia quando foi surpreendido ao ver um grupo desconhecido surgir nas bordas da ravina. Inicialmente, ficou assustado. Não esperava encontrar estranhos por ali. Seu primeiro impulso, para evitar que tomassem conhecimento de sua presença, foi esconder-se. Rapidamente, correu para agachar-se por detrás de uma touceira de arbustos. Foi nessa tentativa malsucedida de esconder-se que seus movimentos foram notados pelo cacique Condá. Agora, eis que se encontrava frente a frente com o grande cacique que toda a tribo conhecia.
Mais tranquilo, contou sua vida em poucas palavras e destacou o evento de sua inicialização à condição de kuiã. Especialmente, relatou as marcas deixadas por uma onça no seu ritual de iniciação, o que significava que tinha logrado conseguir como animal guia a uma Mig. Condá logo cogitou da possibilidade de a onça que bebeu a água ritual fosse a mesma que havia atacado o guia do grupo. Relatou a Kamurerê o episódio que vitimou o índio Chopim e falou de sua suspeita. Kamurerê ouviu com tristeza o relato do ocorrido. Ele tinha ficado feliz com a aliança com a Mig e agora sentia o coração pesaroso por saber que seu guia espiritual fora o responsável pela morte do amigo de infância, um companheiro de muitas aventuras, de muitas saídas para ninhar, procurando ovos em ninhos de aves, de muitas excursões mata adentro para melar, subindo nos troncos em busca de mel.
Ele pranteava a morte do amigo, mas o que mais o entristecia era a possibilidade de o ataque ter sido, precisamente, de sua onça. Mas, no episódio havia uma lição a ser aprendida: devia confiar, desconfiando. Essa é a melhor forma de evitar ser traído. Um cuidado, pensou, que também devia ter no relacionamento com os brancos. Assim era a vida e suas contradições. Todavia, não lhe cabia questionar o destino. E, ainda menos, questionar o respeito dos kuiã para com seus guias animais. Esta era uma obrigação sagrada. Ainda que fosse a mesma onça e mesmo sendo caçador, um kuiã não podia matar o seu guia animal sob pena de perder sua condição de kuiã de forma irremediável. O que restava a Kamurerê fazer, contudo, era lembrar do espírito de Chopim e fazer-lhe rezas na próxima cerimônia do kiki.
Condá, então, contou sobre a subida exploratória da ravina:
— Até o acidente com Chopim, vínhamos subido rápido. O guia conhecia bem as trilhas da encosta. Aí tivemos o infortúnio. A bem da verdade, Chopim, como todo jovem, queria exibir sua destreza e ia subindo tão afoitamente que ficou descuidado. Após o acidente e sem contar com a ajuda do guia, assumi a tarefa de escolher o caminho e tive que subir mais ou menos tateando morro acima. Um tanto por acaso, encontrei algumas trilhas com marcas de coletores de pinhão, mas quase todas eram picadas de coleta, acidentadas, estreitas e difíceis de subir. Para vencer a encosta que sobe do Goio-En é preciso subir dando voltas, porque é muito inclinada, cheia de vaus e peraus, e o mato é bem fechado. Foi uma pena perder nosso guia. Entretanto, para nossa sorte, ele já tinha subido a parte inicial e superado o pedaço mais difícil, quando deu de encontro com a onça. De lá em diante, eu pude prosseguir, ainda que bem mais devagar. É sempre frustrante ter que ficar dando voltas para escapar de peraus, de pedreiras e buracos do caminho, mas é o jeito. Mais que tudo, tem que ficar de olho aberto. É perigo o tempo todo. De vereda, basta tentar saltar um vão desajustado e, sem querer, dar um trompaço na borda, e pronto. O vivente desaba destrambelhando e se debulhando feito pinha caindo ribanceira abaixo. O difícil não é subir o morro, mas saber que voltas precisa dar para encontrar caminhos que as mulas consigam subir.
Kamurerê concordou:
— Sim, cacique Condá, este caminho de subida do Goio-En é sempre desafiador. Subir a pé já é difícil, subir com mulas é ainda mais. Achar os caminhos é demorado. O mato cresce rápido e esconde as marcações e sinais. Uma trilha parece boa, mas avançamos uma, duas léguas e, de repente, a trilha acaba num perau. Aí tem que voltar e pegar outro caminho. Às vezes tem que pegar um desvio. Mas, tendo paciência, dá para subir. Eu vou muitas vezes ao Goio-En. Lá, na beira do rio, tem muita caça, tem muita abelha, tem muito ninho para pegar ovos e tem muito butiá. O rio tem muito peixe fácil de pegar. A água do rio é muito boa para tomar banho. Por isso eu conheço bem as trilhas. Eu sei os caminhos para descer e sei os caminhos para subir. E, se vosmecê quiser, eu posso ajudar. Mas já falo que não tem jeito de subir montado. A subida precisa ser feita a pé, com as mulas guiadas na mão.
Condá ouviu a resposta com agrado. Ele, embora sem conhecer as trilhas, tinha suficiente conhecimento daquele território para saber que as mulas conseguiriam subir. Lembrou do cavalo que deram ao cacique Nonoai. Os índios conseguiram subir com o animal sem grande dificuldade. Mas, claro, uma coisa era subir um animal desmontado e sem carga e outra era subir uma tropa com carga. Por outro lado, as mulas eram animais robustos, mais inteligentes e mais dóceis do que os cavalos. Por isso, as mulas é que levavam as cargas.
Com a ajuda de Kamurerê, a descida se deu em dois dias. Quando, finalmente, chegaram ao Goio-En, eram esperados com ansiedade. A excursão exploratória tinha tomado mais tempo do que o incialmente previsto. E a falta de notícias já começava a preocupar. Ao retornarem, encontraram novidades. O pessoal que aguardava em baixo estava alvoroçado. Três tropeiros, guiados pelo mensageiro Thiago, tinham vindo de Passo Fundo para conhecer o Passo do Goio-En. Queriam se certificar das condições da passagem e verificar, in loco, se era viável cruzar e seguir do outro lado do rio com uma tropa de 150 muares xucros.
A pequena tropa de muares tinha saído de São Borja e acabara de chegar a Passo Fundo. O dono da tropa era o capitão Antônio Caetano de Oliveira, o Nhozinho, que, com seus filhos, estava implantando três novas fazendas nos belos verdes e ondulados Campos de Palmas. A tropa era destinada a, principalmente, atender às necessidades das três fazendas do capitão: Boa Vista, Renascença e Santa Maria, porém, uma parte dos animais era para ser vendida. Embora fosse tropa relativamente pequena, que além dos 150 muares conduzia apenas uma dúzia de cavalares destinados à reserva de montaria dos peões, seria a primeira a aproveitar o novo caminho.
A intenção original do capitão era seguir o caminho usual, passando pelo Mato Português e Mato Castelhano, demandando a Lagoa Vermelha e Vacaria e cruzando pelo Passo de Santa Vitória. Todavia, como era praxe da maioria das comitivas, o dono da tropa foi visitar o escritório do comissário para registrar a passagem de sua comitiva e verificar se havia alguma informação ou mensagem de seu interesse. Na visita, para seu agrado, foi recebido pessoalmente pelo comissário Joaquim Fagundes dos Reis, que gostava dessas oportunidades de conhecer os tropeiros e trocar informações, saber das novidades e ouvir alguns novos causos.
Um dos assuntos sobre o que conversaram, como não poderia deixar de ser, foi o novo caminho atravessando o Rio Uruguai no Goio-En. O capitão, como todo mundo que lidava com tropas, ouviu notícias esparsas sobre uma nova estrada, mas não tinha notícias atualizadas. Ficou encantado ao ter a notícia de que o novo caminho estava pronto para utilização e que os sempre perigosos “bugres” coroados estavam formalizando um acordo de paz. Gostou ainda mais de saber que o cacique Victorino Condá, que conhecia da região de Palmas, onde sua família vinha implantando as fazendas, estava participando das negociações com o cacique Nonoai para criar um aldeamento na região. Se Condá estava participando, o resultado só poderia ser bom.
— Caro comissário, mas esta é a melhor novidade que poderia me dar. Seu eu puder levar minha comitiva pelo Goio-En, subo direto para minhas fazendas nos Campos de Palmas e evito dar uma volta de centenas de léguas sem precisar.
O comissário, ao perceber o interesse do capitão Nhozinho, tratou de incentivá-lo a conduzir sua tropa pela nova via alternativa. Seria a primeira tropa a cruzar pelo Goio-En e o feito teria repercussão tanto na Província de São Pedro como na de São Paulo. De sua parte, o capitão Nhozinho cogitou que ganharia uma enormidade de tempo se pudesse evitar a imensa volta que teria que dar seguindo até Vacaria e de lá prosseguir pela Estrada Geral até o vau no Rio Iguaçu, que, depois de descoberto em 1842, facilitava a passagem das tropas que iam ou vinham dos Campos de Palmas.
A tropa que vinha conduzindo era formada por animais seus e de seu irmão, o alferes José Caetano de Oliveira. Nhozinho se sentia um tanto frustrado porque ele e seu irmão tinham pensado em adquirir uma tropa muito maior. No mínimo uns 1.000 animais. Uma centena para as fazendas e o restante para vender em Sorocaba. Mas tivera que contentar-se com um número reduzido de muares porque chegara atrasado para comprar uma quantidade maior. Outros tropeiros tinham arrematado os animais disponíveis ainda antes de sua chegada a São Borja, onde foi informado que, para adquirir uma tropa maior, teria que esperar que viessem mais animais da região de Missiones, do outro lado da fronteira. Uma espera de, talvez, até uns 60 dias.
Por isso, dado que precisa antecipar a volta para atender a compromissos em São Paulo, decidira retornar com os animais que conseguiu reunir. Então, como a tropa que lavava estava destinada às fazendas, não havia motivo para seguir pelo caminho mais longo, se, de súbito, surgia um caminho mais curto e que chegava a elas. Afinal, estava apressado e ganhar tempo era música para seus ouvidos. De maneira que, tudo considerado, valia a pena estudar a alternativa. Certamente, haveria algum risco em ir por caminho inexplorado e em território povoado pelos Kaingang.
A tribo era famosa por ser hostil aos brancos. Menos que seus primos Xokleng, os botocudos que povoavam a região mais ao Leste das matas de pinheiro, porém, ainda assim, os bugres continuavam bugres. Poderiam parecer mais mansos, mas não dava para prever com segurança seu comportamento. Tanto que corriam relatos de que Kaingang desgarrados tinham voltado a atacar comitivas nos Matos Português e Castelhano. Agora, a vida de tropeiro era feita de riscos. Antecipá-los e saber como lidar com eles era a sina inescapável a que os homens de aventura estavam sujeitos. O que precisava considerar é se os eventuais riscos do novo caminho seriam compensados pela menor distância e pelo menor tempo de viagem. Outro ponto que o atraía é que, sendo bem-sucedido, seria bem agradável lançar na coluna dos lucros os impostos escorchantes de que escaparia de pagar no tradicional Caminho de Viamão.
De modo que respondeu, sem mais delongas:
— Uma ideia deveras interessante, excelência. Acho que vale a pena dar uma olhada no novo caminho com mais apuro. Afinal, desbravar um novo caminho é sempre uma nova aventura para incluir em meu repertório de causos. Só por isto vale dar uma espiada.
O comissário riu, animado com a resposta. Os irmãos Caetano de Oliveira eram famosos como tropeiros de grandes tropas. O capitão, especialmente, era conhecido como vivente de não parar para olhar miudezas e estava sempre fazendo lucros na estrada, com tropa sua ou combinando com tropas de terceiros. Daí que, se ele adotasse o caminho do Goio-En para conduzir suas tropas, mesmo só uma parte delas, estaria dando um aval de grande importância para impulsionar a estrada. Isto significaria mais tropeiros querendo seguir naquele caminho. Mais tropas invernando nos capinzeiros da estrada e mais povoação e progresso para toda a rota seguida pela estrada. O comissário também sabia que, tirando os Santos Pacheco, os irmãos Caetano de Oliveira eram os que mais puxavam tropas das Missões para Sorocaba, em São Paulo.
Para ajudar no convencimento o comissário argumentou:
— Capitão, quem sabe se vosmecê não dá uma chegada exploratória até o Goio-En para conferir as condições do caminho e o passo pessoalmente? Enquanto isso podes deixar sua tropa invernando por aqui. Temos muito espaço, piquetes de excelentes campestres com grama alta e bem protegidos dos ventos. Suas mulas vão ser bem tratadas nos entrementes. Nos piquetes existe abundância de butiazeiros, que a mulada come com gosto e que engorda os animais a olhos vistos. Então vosmecê pode deixar suas tropilhas invernando por aqui enquanto estuda o caminho e decide o que fazer.
O comissário pensou logo em chamar Thiago, o ex-mensageiro e agora capataz das invernadas de João Cypriano, para seguir como seu enviado acompanhando o capitão. Thiago não tinha estado naquelas bandas do Goio-En, ao que sabia, mas era experiente em andanças por aquelas matas e seria uma companhia qualificada para acompanhar o tropeiro, ouvir suas opiniões e reportar suas sugestões. Essas seriam de grande valia para o comissário, e de não menos valia para os irmãos Rocha Loures, que tinham seguido na frente.
Thiago, nesse meio tempo, estava atarefado com a construção da casa nova. A essa tarefa se entregava com entusiasmo e desatada energia. Do primeiro traço de luz no horizonte da aurora até a chegada da noite, era vencido pela exaustão. Fazer a morada dos sonhos de Thereza era sua obsessão. Os meninos, convertidos em carpinteiros e mestres de obras, ajudavam tanto quanto podiam. E tê-los ali, ao seu lado, compartilhando o trabalho de cortar e aparelhar a madeira, de medir, serrar e pregar, de juntar o quebra-cabeças da estrutura da casa, era algo que o comprazia e o alegrava imensamente. Vinha descobrindo em cada um dos guris um talento diferente. Um era imaginativo e inovador; o outro dominava as técnicas construtivas como se fossem a sua segunda natureza. O terceiro sabia dimensionar, calcular e fazer contas como se tivesse um ábaco no cérebro. Descobrir aqueles talentos insuspeitos era uma satisfação que amolecia o coração do pai.
Vendo o progresso da obra, empenhava-se em ensinar aos piás tudo o que havia aprendido nos tempos de rapazote, quando ganhou seus primeiros trocados como faz-tudo e ajudante de carpinteiro nas estâncias dos pampas. Aos meninos explicava, nesta etapa em que faziam o telhado, que aprender o ofício de carpinteiro lhes garantiria uma profissão por toda a vida. Aquela região atrairia muita gente e muitos viriam participar do progresso que o novo caminho do Goio-En iria trazer. As casas de madeira iriam povoar majoritariamente aquelas paragens. As casas de madeira serrada seriam predominantes porque ali havia madeira abundante, porque eram fáceis e rápidas de construir e gostosas para morar. A madeira era um material versátil, que facilitava edificar com baixo custo e permitia uma simplicidade construtiva incomparável.
As fundações, com base em pedras e troncos, não exigiam grande preparo do terreno, o que facilitava construir tanto no plano quanto em terrenos inclinados. A madeira de pinho das araucárias, ainda que menos nobre, era suficientemente resistente para fazer casas robustas e duráveis. Além do mais, os grandes pinheiros eram numerosos e, por seu tamanho, não era raro que a madeira de um simples tronco permitisse a construção de uma casa inteira, com um ou dois quartos, incluindo cozinha e despensa, com sobra para a casinha com latrina. Graças à madeira abundante, ter uma casa própria era uma aspiração ao alcance até dos mais pobres.
Como previa Thiago com base em seu extensivo conhecimento da província, a habitação farta e barata da região de Passo Fundo e do Algo Uruguai, bem como a facilidade de obter um terreno ou acesso a uma terra devoluta, quer dizer, uma terra ainda sem dono, seria um importante incentivo para promover a povoação da região. E para Thiago e Thereza, que viam diante de si a oportunidade de fazer ali o seu novo futuro, a casa que estavam construindo haveria de ser a casa dos sonhos para ambos. Seria uma casa romântica no estilo, prática no dia a dia, avarandada, para acolher os amigos nos domingos de sol, ajanelada, para deixar o sol entrar, quente no inverno e ventilada no verão. Feita com boa carpintaria para que nela pudessem habitar com conforto por muitos anos, educar os filhos, sonhar seus sonhos, viver suas vidas e prosperar na comunidade.
Naquele dia Thiago aproveitava o descanso da hora do almoço para educar os filhos e explicar a eles que o segredo de uma boa casa de madeira era seu telhado. Enquanto conversavam, comiam o repasto reforçado que Thereza trouxera para nutrir o que chamava de seus “homens”. Com um graveto o pai fazia desenhos na terra fofa e riscava os detalhes de caibros, ripas, terças, tesouras, a cumeeira, o espigão, a água-furtada. Explicava Thiago que um bom carpinteiro demonstrava seu talento de duas formas: pelas lascas que saíam de sua plaina e pela qualidade dos telhados que construía. Um telhado perfeito exigia bons materiais, bom planejamento, boas ferramentas, além de habilidade e maestria em seu manejo, respeitando as características e a função de cada uma delas.
Com ar compenetrado, disse aos garotos, que o olhavam mesmerizados:
— Quem vê uma casa pronta nem avalia o quanto de conhecimento adquirido pela civilização humana está ali contido. Um carpinteiro é um artífice que faz casas e ergue obras de madeira. E um bom carpinteiro sabe respeitar a madeira, que é o mais versátil dos materiais de construção oferecidos pela natureza. Por isto, está sempre aberto a aprender coisas novas, a valorizar bons conselhos e a cercar-se de bons auxiliares. Isto porque o trabalho de um carpinteiro raramente é solitário. Quase sempre, construir é uma tarefa que se faz em equipe.
Thiago, embora tenha se tornado mensageiro por força das circunstâncias decorrentes da Revolução Farroupilha, conhecia bem a carpintaria e julgava se tratar de uma das atividades mais gratificantes no mundo masculino. A camaradagem, a azáfama alegre de um grupo de carpinteiros trabalhando juntos, serrando, pregado e colocando de pé uma edificação geravam uma atmosfera de companheirismo que, acreditava, devia evocar as lembranças ancestrais da espécie humana. O mesmo espírito dos grupos de caçadores que dependeram uns dos outros para sobreviver nas savanas africanas. O mesmo dos irmãos de armas, enaltecidos por Shakespeare, quando lembrava o rei Henrique V conclamando seus soldados: “Nós poucos, nós do bando de irmãos, pois aquele que derramar seu sangue comigo será meu irmão”. Assim, Thiago estava vivendo a alegria de compartilhar este sentimento primacial com seus filhos e vendo subir a casa em que iriam morar, com a obra já no telhado. Como fizera questão de destacar naquela manhã, quando decidiam o trabalho do dia e ao que deveriam dedicar atenção:
— Filhos, o telhado é o ponto alto de uma construção, e não por ser a parte mais alta, mas por ser a mais complexa e a que mais destaca as qualidades do bom carpinteiro. No telhado, cada detalhe é importante. Ele serve, principalmente, para proteger uma casa da chuva e do frio, mas um telhado feito com capricho e bom gosto pode fazer uma casa mais bonita e mais acolhedora.
Para enfatizar a importância do que Thiago ensinava aos seus filhos, iniciantes nas artes de lidar com a madeira e seus caprichos, lembrou a eles o que dizia São Francisco de Assis: “Quem trabalha com as mãos é trabalhador. Quem trabalha com as mãos e a cabeça é artesão. Quem trabalha com as mãos, a cabeça e o coração, este é um artista”.
Thiago continuou explicando que o elemento mais importante do madeiramento do telhado era a “tesoura”. Esse nome era devido ao formato triangular que caracteriza a “tesoura”, termo emprestado do objeto de corte que é tido como o mais usado pelo homem, depois da faca. Como a tesoura que inspira seu nome, a tesoura do telhado é formada por duas peças em forma de “v”, unidas no Centro. Explicava, ainda, que a tesoura de um telhado é uma estrutura em “treliça”, ou seja, combina um conjunto de estruturas triangulares, usualmente construídas com pranchas, ou madeira de caibros, e cujas extremidades são ligadas em pontos conhecidos como “nós”. O peso é distribuído e permite que as peças da tesoura sustentem o telhado. Thiago, então, desenhou uma tesoura e no Centro colocou o “pendural”, a alma do conjunto.
— Vejam, filhos, esta peça vertical no Centro da tesoura é o “pendural central”. Trata-se de uma das mais maravilhosas criações dos carpinteiros desde os tempos imemoriais. É feita com uma peça mais robusta e tem a função de segurar as peças diagonais, as chamadas “pernas” ou “empenas”. Estas são peças que se encaixam no pendural por meio de recortes de encaixe. O mais surpreendente, para quem não conhece os segredos da carpintaria, é que o pendural não deve encostar na peça de sustentação horizontal, a peça chamada de “linha” ou “tirante”. Na sequência, para aguentar o peso das telhas, colocam-se as “diagonais”, que são instaladas para transferir o peso das empenas para o “pendural central”, onde também se encaixam, porém em direção oposta, sendo instaladas em encaixes mais embaixo. Depois colocamos os caibros, que são peças mais robustas, de madeira mais grossa, que descem verticalmente, da cumeeira para o beiral. Neles são fixadas as terças, que são vigas de madeira paralelas à cumeeira e ao frechal. Para finalizar, são colocadas as telhas, geralmente feitas de barro, ou as taubilhas, que são telhas feitas de troncos de madeira e fatiadas no machado. São estas que vamos usar na nossa casa. São mais rápidas de fazer e temos bastante material à mão. As taubilhas são fixadas nas ripas horizontais, que, por sua vez, são fixadas nos caibros. Simples uma barbaridade, não é, meninos?
Thiago não conteve o riso ante o olhar sem graça dos rapazes.
— Parece complicado? Tenham calma, filhos, porque vão aprender logo o que significa cada um destes nomes e o que eles representam para um telhado bem-feito.
Com a construção progredindo a olhos vistos, Thiago e os meninos já anteviam a morada que edificavam e na qual viveriam. O trabalho vinha sendo feito com denodo e empenho. O dínamo da empreitada era Thereza. O desafio da vida de fronteira parecia feito para ela. Movida pelo amor à família, pela fé e por uma coragem heroica, ela não via obstáculo, nem dificuldade, que não pudesse ser enfrentado e vencido. Sua energia parecia inesgotável. Uma usina de força vital que irradiava como se derivasse diretamente das forças da natureza. Thiago não cansava de pasmar-se ante o vigor e empenho com que sua mulher atacava o labor do dia a dia. Era de uma pujança portentosa, que o deixava impressionado e orgulhoso.
Ele reconhecia, claro, que a grande maioria das mulheres que imigravam para a região tinha a coragem e o espírito de pioneiras. Mas Thereza tinha tudo em dose dupla. Uma determinação de vencer dificuldades e enfrentar obstáculos que eletrizava a todos. Ela repetia que tinham vindo para Passo Fundo para fazer ali seu novo lar. E um novo lar não seria só a casa que construíam. Seria o lugar onde viveriam suas vidas, cultivariam o amor, criariam suas memórias, confidenciariam com os amigos e onde o riso estaria presente para tornar a vida mais leve e agradável de ser vivida. Ali, naquela casa, além de seu lar, teriam seu castelo e sua fortaleza.
Thiago amava sua companheira por sua beleza, por sua inteligência, por sua generosidade e pelos novos atributos que descobria nela a cada dia. Mas a amava, sobretudo, porque ela, constantemente, o desafiava a ser melhor. Às vezes até se perguntava com quais fados benfazejos tinha haurido tanta sorte. Pelos predicados de Thereza, ele às vezes pensava, ela poderia ter escolhido um partido melhor. Poderia ter casado com um pretende mais rico ou mais bem aquinhoado, que os teve às dúzias. Mas escolheu a ele, um mero mensageiro de ofício, de emprego precário, de destino incerto e de escassas posses. E agora, quando a garota de todos os seus sonhos e devaneios apostava nele e mostrava confiar na sua coragem, engenho, arte e competência para conseguirem um lugar ao sol na nova fronteira que despontava, estava determinado a não decepcionar. Custasse o que custasse, faria sua parte. Ela não iria lamentar a escolha. Ele iria corresponder in totum ao que quer que ela via nele. E neste afã não se deixaria abater pelas dificuldades dos tempos pós-farrapos, pela mediocridade ou indolência. Faria o que precisasse fazer para superar-se. Empolgado pelas possibilidades que via, Thiago se sentia cheio de brios em Passo Fundo.
Enquanto Thiago mergulhava na faina daquele dia, o comissário mandou um emissário chamá-lo. O novo capataz, surpreso, pediu aos filhos que encilhassem seu cavalo durante o tempo em que tomava um banho rápido para tirar o suor e trocava as roupas surradas de carpinteiro pelas suas vestes de mensageiro. Tão logo se tinha aprontado, montou o cavalo e foi ao encontro do comissário. Ao chegar à casa de Fagundes dos Reis já o encontrou a esperá-lo, na companhia de algumas pessoas.
— Buenas, caro Thiago, pode ir adentrando que é gente amiga. E se aprochegue mais que tenho um favor a pedir a vosmecê. – Assim, sem delongas nem rodeios, foi como Fagundes dos Reis o recebeu em sua casa.
Thiago tirou o chapéu preto, o mesmo que usava em suas andanças, e entrou na sala que funcionava como escritório do comissário. A sala ainda era grande, mesmo após ter sido dividida por uma parede provisória para criar o cômodo reservado a Alarico, onde ele estava se recuperando do infeliz acidente na corrida.
O comissário fez a apresentação de Thiago ao visitante:
— Thiago, temos um visitante ilustre por demais e que nos honra com sua visita. É o capitão Antônio Caetano de Oliveira.
Thiago cumprimentou o capitão com o costume campeiro de formar uma cruz com os dois antebraços e depois estender a mão para confirmar o cumprimento. O gesto de cruzar os antebraços vinha do lado castelhano e era uma antiga saudação que significava um agradecimento ao céu por enviar uma pessoa tão especial ao nosso convívio. O capitão respondeu da mesma forma, e quando estendeu a mão Thiago a apertou com o vigor dos homens dos pagos gaúchos.
— Muito prazer, caro capitão Caetano. O nome de vosmecê é afamado pelos caminhos tropeiros e é com a mais subida honra que, agora, tenho a alegria de conhecê-lo em pessoa.
O capitão sorriu ante o que lhe disse Thiago e respondeu com elegância:
— Caro Thiago, nosso amigo aqui, o comissário Fagundes dos Reis, fez grandes recomendações a respeito de vosmecê e me garante que sua companhia me seria de grande serventia numa ida exploratória ao Passo do Goio-En. Estou vindo da fronteira com uma pequena tropa de muares que tem como destino as fazendas de minha família nos Campos de Palmas e Guarapuava. Ao que me afirma, indo pelo Goio-En eu evitaria uma volta enorme, com desperdício de tempo e dinheiro. O que o senhor me diz?
— Mas o que lhe hei de dizer? Se o comissário tal coisa afirma, então é verdade. Quanto a mim, estou ao seu dispor. Devo confessar, porém, que ainda não fiz o percurso nesta estrada nova. Ao que sei, a estrada já está em condições de ser trafegada do lado de cá do Uruguai. E na margem, do outro lado do rio, depois do Passo do Goio-En, existe uma estrada mais antiga e já mais preparada. O perigo dos bugres, hoje, é bem menor do que já foi, mormente agora que o acordo de aldeamento dos índios do cacique Nonoai parece bem encaminhado. Mas em que eu posso ajudar?
O comissário interveio para explicar:
— Caro Thiago, seus préstimos, como guia, viriam a calhar porque tens familiaridade com os Kaingang e conhece a língua deles, além de conhecer os irmãos Rocha Loures e o cacique Condá. Vosmecê também conhece as equipes da construção que já se foram para o passo. Gostaria que acompanhasse o capitão e o ajudasse no reconhecimento do terreno pela via do Vale Dourado. Igualmente, eu gostaria que apresentasse o capitão ao tenente Rocha Loures e ao nosso pessoal lá.
— Bueno, senhor comissário, cumprirei suas ordens. De pronto, lhe agradeço pela deferência, e afianço ao senhor que terei muita honra em aceitar sua incumbência. Mas acho ser de bom alvitre voltar a enfatizar que eu ainda não estou familiarizado com essa estrada e nem desci por ela até o Goio-En.
— Disto sei muito bem, meu caro Thiago, mas ensinar música nova a gaiteiro velho é mais fácil do que ensinar sanfona para um gaudério que nunca viu uma gaita. A tua experiência de anos como mensageiro vale mais que ter feito uma descida às tontas. Vosmecê tem algum receio?
Thiago respondeu de talagada, mas abichornado:
— Excelência, medo eu só tenho do saci e do belzebu. Como pode um mensageiro que sobreviveu nas peleias dos farrapos ter receio de andar numa trilha já arrumada? O senhor sabe que medo não é do meu feitio. Já andei no meio de tiroteio e refrega que tinha até tiro de canhão. E há de saber que já tive que enfrentar onça com acha de lenha tirada de braseiro e tocar lobisomem com açoite de couro cru. Em estouro de boiada, sou de agarrar boi pelas guampas. Mas, bah, seguir por uma estrada pronta não vai meter medo em um mensageiro real. Nem vai me fazer sujar o cueiro, que, aliás, não uso por não ser de precisão.
O comissário abriu uma gargalhada, o que não era o comum em seu modo de agir, mas esta, agora, tinha mais de carinho do que de desfeita:
— Mas que barbaridade meu amigo! Acho que nem recém-nascido e moleque de colo tu usaste cueiros. Te assossegue, que foi só um chiste. Achei mesmo que irias responder cheio de brabeza. Mas quero que saibas que homem com coragem igual à tua ainda estou para ver.
— Desculpe, excelência, mas confesso que levei um susto. Tenho meus brios e garanto que minha bravura e meu caráter são o capital mais importante que tenho na vida.
— Sei, meu amigo. – Com a mão aberta bateu, amigavelmente, na perna de Thiago. – E nunca duvidei disto. Desculpe se abusei um tantito, mas repito que foi só um chiste, uma piadita no más!
— Bueno, excelência, assim está melhor. E saiba que estou pronto para atender no que precisar.
O comissário soltou um suspiro de alívio. Por um instante achou que Thiago tinha se aborrecido com se humor meio fora de propósito e fosse brigar com ele.
— Então está combinado. O senhor vai ser o meu agregado na expedição. Eu confio muito em ti. E, ainda mais, confio na sua experiência como mensageiro que já atravessou muitas matas e conhece bem os índios Kaingang e os perigos do caminho. Nem preciso dizer que o capitão e seu pessoal são tropeiros tarimbados. Portanto é mais uma questão de acompanhar o capitão para dar nosso apoio no que for preciso. Peço que fiques atento os perigos e aos sinais de emboscada dos bugres, uma coisa pouco provável, ainda mais que o cacique Condá e seus índios seguiram na frente. Porém, sempre é bom prevenir. Oficialmente, sua missão será apresentar os tropeiros ao tenente Rocha Loures e ao alferes Moreira. Acho mais acertado enviar um homem de minha confiança do que apenas dar ao capitão Caetano uma mera carta de apresentação. Tenho certeza que esta estrada e este passo vão fazer nosso futuro se abrir. Muita riqueza desta região vai passar por este novo caminho. O capitão, nosso amigo aqui, é tropeiro do mais vasto prestígio e se ele gostar do novo caminho vai ser um colosso. Ademais, quando voltares, teu relatório vai ser enviado ao presidente da província. Tu és muito ajeitado com as palavras e acho que o Conde de Caxias também vai gostar de saber de boas novidades. Ah!, antes que eu esqueça, vou ser generoso em gratificá-lo por este seu trabalho.
Thiago agradeceu, mas explicou que não esperava gratificação:
— Agradeço muito, mas eu já tenho um acerto de ganhos com o senhor João Cypriano. Esta viagem até pode ser considerada o meu primeiro trabalho. Especialmente se, por fim, o capitão Caetano decidir levar a tropa pelo novo caminho. Pelo que sei, esta tropa é pequena, tem apenas umas 150 mulas xucras. Por isso mesmo, me parece ser do tamanho ideal para uma primeira experiência.
De si para si, Thiago ponderou que, embora lamentasse ter de ficar alguns dias fora, seguir com os tropeiros não iria causar nenhum grande embaraço ou atraso na obra da casa em construção. Os meninos já eram mais ajuizados que muitos gaudérios que rodavam por aí. Além disto, a madeira aplainada para o teto e as paredes, que estava empilhada ao lado da obra secando, ainda poderia se beneficiar de uns dias extras de secagem. E de outra coisa tinha certeza: conseguir as boas graças do comissário era de suma importância para seu sucesso na corretagem das tropas e, ainda mais, para ter logo funcionando a tão ansiada escola de Thereza.
Portanto completou:
— Trato feito, excelência. Conte comigo. Só preciso de uma hora de tempo para avisar Thereza e os meninos.
— Bueno, é assim que se fala. – Voltou-se para o capitão Caetano. – Caro Capitão, tenho certeza de que o mensageiro Thiago será uma companhia proveitosa em sua descida para o Goio-En. E faço votos que seja a mais proveitosa possível.
O capitão Caetano de Oliveira agradeceu, despediu-se e saiu em companhia de Thiago, que tratou de ir avisar sua mulher e os filhos da missão a que fora incumbido pelo comissário. O pequeno grupo precursor do tropeiro capitão Caetano, formado por ele mesmo, seu capataz, Gonzáles, e dois de seus peões mais experientes, esperara pela volta de Thiago e, mal este chegou, montaram e seguiram no rumo do Vale Dourado.
A cavalgada foi rápida. Estavam todos descansados e bem-dispostos. Acamparam apenas uma noite. Ao chegarem na margem do Rio Uruguai encontraram o grupo do tenente Rocha Loures instalado em um acampamento bem arrumado e acolhedor. Thiago foi recebido com grande espalhafato. Todos gostavam dele. O mensageiro era desses de fazer amizade fácil e de prosa boa, com causos abundantes, sempre bem contados. Cumprimentou o tenente Rocha Loures e seu novo chefe, João Cypriano. Thiago aparecer ali era uma surpresa, mas que era bem recebida provavam os barulhentos abraços que recebeu. Ainda mais quando apresentou o capitão e explicou aos irmãos Rocha Loures a intenção dele de verificar as condições para conduzir sua tropa pelo Passo de Goio-En.
O capitão Caetano, desde logo, confirmou sua disposição de examinar as condições da travessia pelo vau do Rio Uruguai e, se esse fosse tudo o que lhe contavam, iria, sim, testar a nova travessia com sua mulada. Os irmãos ficaram entusiasmados. Tratava-se de uma baita de uma boa notícia. Era um futuro que chegava. O tenente contou que estavam esperando a volta do cacique Condá e de sua missão exploratória da subida da encosta. Então, enquanto aguardavam, poderiam aproveitar e seguir todos para o Goio-En. Era coisa de umas duas horas ir, atravessar e voltar. O rio estava manso e parecia em um nível baixo. E assim fizeram.
Para o capitão Caetano tomar o primeiro contato com o vau do Rio Uruguai foi um total surpresa. Acostumado a seguir pelos Campos de Cima da Serra e cruzar o Rio Pelotas pelo Passo de Santa Vitória – um cruzamento traiçoeiro que alguns chamavam de “passo da morte”, com mais de 10 metros de largura e trechos com profundidade de 8 metros, que apresentava, tanto na entrada quanto na saída da água, verdadeiras pirambeiras –, constatar que o Passo do Goio-En permitia uma passagem gradativa e bem mais fácil foi uma alegria.
O passo de Santa Vitória exigia uma grande perícia dos tropeiros e peões, que eram obrigados a fazer a travessia das mulas e das montarias a nado, em profundidade que não dava pé. Esse tipo de vau fundo era chamado de “vau de orelhas”, porque os animais cruzavam nadando e deles só ficavam visíveis as orelhas, as narinas e os olhos, enquanto os pertences, as cargas, arreios e apetrechos tinham que passar a bordo nas “pelotas”, canoas redondas, feitas de couro de boi, que viajavam desmontadas e eram levadas com a tropa. Ao chegarem no vau, as “pelotas” eram precariamente armadas com galhos recolhidos no ponto de cruzamento. Nada disto era preciso no Passo do Goio-En, onde o nível de travessia se dava no chamado “vau de rabo”, ou seja, com o rio em condições normais, a mulada podia passar o rio com água na altura do rabo e pisando no leito do rio em toda a extensão da travessia.
O tenente Rocha Loures e João Cypriano estavam dando a melhor das atenções ao grupo de tropeiros. Eles representavam a razão de ser de todo o esforço de abertura da estrada. Depois de testarem a passagem e a aprovarem sem restrições, foram todos descansar. E foi assim, alegres, bem-humorados e descontraídos, que o cacique Condá os encontrou no retornou de sua jornada exploratória. Ao verem Condá surgir na clareira formada no acesso ao passo, o tenente e João Cypriano foram ao seu encontro. O cacique respondeu aos cumprimentos de modo sombrio. O tenente logo desconfiou que algo havia de errado. Perguntou ao índio:
— A la pucha, cacique, vosmecê me parece meio amolado. Meio atribulado. Teve algum baque na viagem?
— Pois de fato tivemos um caso triste ainda na subida. O nosso guia Chopim entrou num bolsão vazio de mato e topou com uma onça com filhotes. Ele estava desprevenido e nem conseguiu se defender. A onça saltou na cabeça do coitado e foi um estalo só. Nem viu o que aconteceu. Só lambeou e caiu morto. – Contou Condá.
O tenente e João Cypriano ficaram atônitos.
— Mas que barbaridade! Assim, do nada, sem mais nem menos?
Condá confirmou:
— Aconteceu tudo de vereda. Nunca tinha visto nada igual. A força da mordida da onça foi tanta que estourou a cabeça de Chopim e até o miolo foi espalhado pelo chão. Muito triste.
O tenente procurou consolar Condá:
— Mas o caso é, mesmo, de atarantar qualquer vivente. Sinto muito, meu amigo. Sinto tua mágoa e também fico muito triste e desolado. Foi um infortúnio infeliz por demais, que é mesmo de lastimar. Mas um cacique Kaingang como vosmecê sabe melhor que ninguém que uma Mig não deixa nada, nem ninguém, chegar perto de seus filhotes. Lamentavelmente, contudo, este infortúnio serve para advertir que, em mato onde tem onça, o perigo espreita atrás de cada moita. E quem se desleixa, o faz por seu próprio risco.
Condá comentou, com a voz triste:
— Sim, tudo isto é verdade. Neste caso do índio Chopim o que aconteceu foi de uma cruel infelicidade. E não podemos culpar a Mig. Uma mãe onça é o animal mais perigoso de nossas matas. Uma Mig defendendo seus filhotes não pensa. Ao defender suas crias é veloz como um trovão que relampeia no céu. Ela reage com 10 arrobas de garras e presas. Uma potência de vendaval que salta com o coração nas garras e a alma nas presas.
Condá, então, passou a mão nos olhos para limpar as lágrimas que haviam aflorado. A vida era a vida e viver era lidar com o inesperado. Mudou de assunto. Relatou a alegria de seu encontro com Kamurerê. Contou sobre o ritual do índio em sua iniciação como kuiã e a coincidência de ter sido adotado por uma onça, uma Mig. Esta adoção, destacou, era um fato que Kamurerê via como muito auspicioso e o deixava muito feliz. O que era mais desconcertante é que, ao que parecia, a onça que bebeu a água cerimonial teria sido a mesma que havia atacado Chopim.
Condá pediu para seu kuiã contar aos que ali haviam formado uma roda para recepcioná-lo como tinha reconhecido o índio Kamurerê. Finda a narrativa em que seu kuiã descreveu o encontro inesperado com seu discípulo, Condá falou da disposição do novel kuiã de vir com o grupo e atuar como guia em substituição ao infausto Chopim.
Por fim, ainda desolado, desabafou Condá:
— Pois é, caros amigos, a vida é uma caminhada cheia de arapucas. Não sei qual o peso do destino no rumo da vida. O que sei é que a mesma trilha que, para uns, leva aos troncos ocos cheios de favos de mel, para outros esconde uma armadilha da Mig. A única forma de descobrir o mel que está nos tronos e escapar dos botes da onça é nunca confiar nas aparências. Posso asseverar, contudo, pelo quanto de sustos já passei, que quem vai na frente está sempre no lugar mais perigoso. Dou meu testemunho, tanto para o índio que vai se aventurar na vida como para o que vai entrar no mato, que ir na frente pode ser o lugar mais honroso, mas não é o mais seguro. O lugar mais seguro vem no meio.
O tenente Rocha Loures achou o comentário intrigante. Respondeu, então:
— Bem curiosa sua reflexão. Mas tenho que dizer, meu amigo, que muito me agradei desta sua desabrida visão das coisas da vida. Contudo, a bem da verdade, se tem um vivente que nunca se camufla no meio é justamente vosmecê. Faz muitos anos que nos conhecemos e, desde Guarapuava, nunca o vi em qualquer outro lugar que não fosse na frente. Sempre saindo na frente, sempre correndo na frente, sempre peleando na frente.
Foi a vez de Condá responder, que o fez com um sorriso amargo, que transparecia nas feições e na voz:
— Não posso negar que assim é, caro amigo tenente. Reconheço que tens razão. Mesmo quando não quero ir na frente, sem querer acabo lá. Acho que minha sina junto ao meu povo é esta mesma, a de seguir na frente e abrir caminhos. Fosse eu mula, acho que seria mula madrinha e iria andar com cincerro balançando no pescoço. Sei que ir na frente é ir no lugar mais perigoso, mas acho que já me acostumei e não me amofino mais. A vida, a escola onde vou vivendo e aprendendo, me ensinou como sobreviver em tempo bom e em tempo ruim. Aprendi a dormir sempre com um olho aberto, a ficar alerta dia e noite e a ler os maus presságios. Eu observo atentamente o que se passa ao meu redor. Procuro ver os perigos escondidos nas sombras, os perigos que se disfarçam feito as cobras peçonhentas, os sinais de perigo que, como os avisos da mata, alertam. E como aprendi com os anciãos da tribo a viver sempre desconfiado, procuro escapar ligeirito das arapucas do dia a dia. Mas a vida de índio no mundo dos brancos é muito ingrata. Digo com desgosto que é uma vida sofrida uma barbaridade. Mas vou levando um dia de cada vez, enquanto assim Deus quiser.
O tenente Rocha Loures entendia os sentimentos do companheiro de tantos anos. Sabia que Condá era forte o suficiente para aguentar os embates da vida, mas, ainda assim, teria seus momentos de amargura, angústia e aflição como todo e qualquer mortal. Para não prolongar um diálogo que deixava ambos abespinhados, tratou de conduzir Condá na direção do grupo formado pelo tropeiro visitante, o capitão Caetano, e seu pessoal.
O grupo, naturalmente, tinha visto a chegada de Condá e, de longe, acompanhou o diálogo entre o cacique e o tenente, ainda que não conseguisse ouvir com clareza o que diziam.
Trazendo Condá, o tenente apresentou o cacique ao capitão:
— Capitão Caetano, fico muito honrado de apresentar-lhe o cacique Condá… – Fez uma pausa para ampliar o efeito e completou: – … que por sinal é também capitão dos índios, nomeado pelo governo de São Paulo.
Condá tinha no rosto uma marca rikutu, o triângulo de três pontos que o identificava como pertencente da metade Kayru, mas com o torso nu, como usava em meio aos de sua tribo, obviamente não ostentava a divisa militar de capitão a que fazia jus. Era de notar, além disso, que o cacique mostrava a pele queimada pelo sol, o que deixava claro que não tinha por hábito vestir seu uniforme. Alguns caciques ou rekakê, ao receberem cargos e insígnias oficiais, faziam questão de vestir sempre o símbolo de sua autoridade. Não era o caso de Condá. Achava ele que ostentar sua condição de capitão nomeado pelos brancos não era uma boa política junto ao seu povo. Na tribo todos sabiam de sua condição de oficial, mas, no território dos índios, ele apenas se apresentava com o cocar de cacique. O que, por certo, não impediu o capitão Caetano de reconhecer a patente do cacique, que conhecia de sua fama pelo caminho das tropas, com uma caprichosa continência militar.
— Sou o capitão Antônio Caetano de Oliveira a serviço de vosmecê, capitão Condá. – Disse com firmeza.
Sem embargo, ao saudar militarmente Condá, deixava claro que respeitava o posto de oficial atribuído ao cacique pelo governo paulista. Sua saudação foi seguida pelos demais membros de seu grupo. Conhecer Condá pessoalmente era uma honra que iria ser contada nas rodas de chimarrão e nas rodas de prosa dos galpões de pernoite. Condá já era, àquela altura, um nome familiar a todos os tropeiros, capatazes, peões e camaradas que formavam as comitivas que passavam por Passo Fundo. Era impossível não saber quem era aquele cacique premiado em São Paulo, dado que suas histórias e causos o faziam legendário até nas fronteiras do Sul. O que surpreendeu o capitão Caetano de Oliveira, contudo, ao encontrá-lo pessoalmente pela primeira vez, foi constatar a elegância e o porte da figura atlética e viril que tinha à sua frente.
Condá respondeu também com uma continência. Era de bom tom fazê-lo. Sabia que os protocolos militares eram valorizados naquelas paragens distantes. Mas logo emendou com o cumprimento formal do Sul, cruzando os antebraços no peito e, depois, aceitou a mão que o capitão Caetano lhe estendia. Gostou dos cumprimentos e sorriu discretamente, com o canto da boca. Nem sempre os homens de posses o tratavam de igual para igual. Ainda mais raro era lhe fazerem continência. Condá não se importava. Relevava os eventuais sinais de desapreço que recebia. Se fosse importar-se, teria uma briga por dia. Afinal, nem Cristo tinha agradado a todos. Além do mais, sabia que o que quer que fizesse seria discretamente observado e não queria passar a imagem de pretensa preeminência. Já enfrentava demasiada animosidade simplesmente por ser índio e não tinha razões para acrescentar motivos para eventuais aleivosias que sabia serem inescapáveis por parte dos que menosprezavam sua raça.
— Prazer em conhecê-lo, capitão. Eu me chamo Victorino Condá e sou um cacique Kaingang, ou um Pai-bang, como dizemos na tribo. E, sim, o que o tenente Rocha Loures diz é verdade. Tive o privilégio de ter sido nomeado capitão-mor pelo governo da Província de São Paulo. Meus companheiros e meu aldeamento estão do outro lado do Rio Uruguai, nos campos do Covó, que é como chamamos os Campos de Palmas. Estou aqui, no território do cacique Nonoai, a convite do tenente Rocha Loures para ajudar a abrir a estrada do Goio-En. Igualmente estou ajudando a criar um aldeamento indígena nesta região como forma de pacificar os índios Kaingang que habitam deste lado do Rio Uruguai.
O capitão Antônio Caetano de Oliveira estava bem impressionado. Aquele cacique sabia o que queria. De imediato, gostou de Condá. Sua postura assertiva lembrava mais a de um político do governo, de um exitoso homem de negócios, ou de um tropeiro de sucesso, do que a de um chefe indígena dos cafundós.
— É meu prazer, cacique. Estou encantado em conhecê-lo. E saiba que se fala muito a seu respeito. E a maioria fala bem. E sabendo de seu empenho pessoal na abertura desta passagem pelo Goio-En, daqui para a frente, quem quer que se atreva a falar mal de vosmecê na minha frente vai ter que se haver comigo.
Condá sorriu discreto, mas ficou agradado com o comentário. Era bom que os tropeiros gostassem dos Kaingang. Era bom que soubessem que a passagem do Goio-En estava sendo fruto de um acordo de paz. E que os índios estavam abrindo mão de ir à guerra para defender aquela terra em que viveram por incontáveis gerações pela promessa de que teriam um acordo digno. Os Kaingang estavam aceitando demarcar uma área que passaria a ser oficialmente reconhecida como sendo deles. Um aldeamento delimitado, porém, protegido pelo governo. De modo que nele pudessem estar em paz, a salvo da ganância dos colonizadores e da sanha dos predadores. Um lugar onde pudessem ajustar-se a um novo modo de viver. Um aldeamento onde pudessem ter suas matas para caçar, um rio para pescar e guardar o pinhão, e onde as flores silvestres fossem abundantes para que as abelhas tivessem néctar farto e produzissem mel em boa quantidade. Enfim, um chão onde pudessem enterrar os umbigos dos recém-nascidos e, nele, enterrar os corpos de seus pais quando mortos.
O cacique Condá continuou:
— O fato, capitão Caetano, é que fixar-se para morar em um só lugar exige um grande esforço para meu povo, que sempre viveu perambulando pelas matas de pinheiros. Nós sempre fomos um povo que os brancos chamam de “nômade”. Quer dizer, a morada dos Kaingang sempre foi a mata de pinheiros inteira. Fazíamos divisão de território e, quando estávamos em paz, respeitamos o território uns dos outros. Mas, no geral, estamos acostumados a vagar de uma clareira para outra. No nosso costume, cada Pai-bang tem um toldo central, onde ele mora e onde temos os ranchos grandes. Nesse toldo ficam os mais velhos e os kuiã, e é onde temos nossas festas e cerimônias. Ao redor do toldo plantamos nossas roças de milho, abóbora, feijão e batata-doce. Mas a maioria do nosso povo, porém, não vivia permanentemente no rancho grande. Os índios saíam para as matas com os rekakê e ficavam percorrendo as trilhas e conseguindo comida através da pesca, da caça, recolhendo frutas, insetos e mel. Nós nos acostumamos a viver assim porque sempre havia comida em abundância. Nossos ranchos de moradia, onde ficamos morando juntos quando vem todo mundo para as festas e cerimônias, não duram muito. Costumam se infestar de bichos-de-pé e pulgas, que crescem no meio das esteiras das camas e da palha esparramada no chão. Esses ranchos são feitos diretamente no chão e são difíceis de limpar, por isso, quando ficam muito empestados, simplesmente queimamos o rancho velho e mudamos para uma outra clareira, onde fazemos um rancho novo. Esta foi o tipo de vida que sempre tivemos. Os anciãos falam que muito antigamente chegamos a fazer umas palhoças enterradas, para proteção no frio. Mas eram trabalhosas e empestavam de pragas ainda mais fácil. Por isso, foram abandonadas. Atualmente, quando queremos fazer uma nova palhoça grande, um novo rancho, procuramos um lugar plano, aproveitamos os galhos caídos dos pinheiros para fazer a armação do rancho e as folhas de palmeiras para cobrir. Com a prática que temos e todos ajudando, fazemos um novo rancho, com 15, 20 ou, às vezes, até 30 metros de comprimento e uns 5 metros de largura, em dois ou três dias, dependendo do material que acharmos. Agora, com a proposta de mudar para um aldeamento, temos que aprender a fazer casas com assoalho, como os brancos fazem, para poder limpar e evirar os bichos. E isso é uma coisa boa. É o argumento que eu uso para falar com os Kaingang que acham que viver como sempre vivemos é melhor. Eu digo para eles que prefiro viver livre dos piolhos, das pulgas e bichos-de-pé. É um sofrimento à toa e sem necessidade. Só essa melhora nos incômodos da cabeça e dos pés já justifica aprender a viver em casas do jeito dos brancos. Agora, para fazer casas com assoalhos nós precisamos aprender a usar as ferramentas que o governo mandou. Portanto temos que deixar de lado as queixas e muitos dos costumes antigos. Vamos ter que trocar o livre desfrute da natureza, que tínhamos antes da chegada dos europeus, para uma vida com coisas e regras que nosso povo não tinha. Mas é uma troca que pode ser boa para o índio. Mesmo porque sabemos que não tem outro jeito. Portanto, vosmecê pode confiar que podemos ser parceiros. E, para assegurar a paz, precisamos nos aceitar mutuamente. Nossa defesa é que conhecemos bem as matas, assim como sabemos que a maioria dos brancos prefere ser amiga dos índios. Afinal, tem lugar para todo mundo. Alguns brancos querem nos expulsar de nossas terras e nos deixar morrer de fome. Muitos têm ambição demais e querem que o governo mate os índios. Eles acham que tem armas mais poderosas que as nossas. E são mais numerosos. Mas não são a maioria do povo branco. Em uma guerra de tocaias nenhum lado poderia viver sossegado. Por isso, os dois lados ganham com a paz. O índio deseja que as espingardas dos brancos fiquem guardadas no armário e as flechas dos índios só sejam usadas para a caça dos bichos do mato.
O capitão Caetano de Oliveira ouviu em silêncio e, de quando em quando, concordava com a cabeça. Depois de Condá concluir, exclamou:
— Bravo! Muito bem, cacique. Assim é também meu desejo. E creio que o comissário Fagundes dos Reis pense do mesmo modo. Foi o que entendi do que me disse em Passo Fundo. Aliás, devo esclarecer que eu só estou aqui por sugestão dele. Foi dele que ouvimos sobre o Passo do Goio-En e sobre um futuro aldeamento dos Kaingang nestas plagas por aqui. Estivemos no Goio-En e gostamos do vau do passo uma barbaridade. Muito mais fácil de vadear o rio do que no Passo do Rio Pelotas. Meu plano, agora, é voltar a Passo Fundo e trazer nossa tropa para atravessar para a Província de São Paulo por aqui. Quando voltarmos para cruzar o passo, vou lhe trazer uma magnífica espingarda de caça vinda da Europa. Eu pensava em usá-la nas minhas caçadas, mas tenho caçado muito pouco e acho que estará muito melhor em suas mãos. Essa espingarda tem um tiro de muito boa pontaria e vai ser muito útil para suas caçadas. Será meu presente a vosmecê pelo tempo que vou ganhar e pelos lucros que vou auferir ao usar o novo caminho.
Condá abriu um sorriso que iluminou seu rosto quase sempre sisudo:
— Não mereço tanto, capitão, mas obrigado. Eu vou aceitar, com muita alegria, porém, com sua licença, não para mim. Se me permite, um presente dessa qualidade deveria ser oferecido ao nosso grande cacique Nonoai, que é o Pai-bang deste lugar. Ele tem sido de grande valia para a realização do acordo para o aldeamento e faz por merecer o reconhecimento dos índios e tropeiros. Ademais, é ele que vai garantir a segurança e proteger a passagem das tropas por este novo caminho.
No dia seguinte, cedo, trocaram cumprimentos e despediram-se. O grupo do tropeiro capitão Caetano voltou a Passo Fundo, acompanhado de Thiago e João Cypriano. A expedição não podia ter sido mais bem-sucedida. Estavam todos exultantes. Uma primeira tropa iria passar pelo Goio-En. Era um evento que coroava muitos anos de esperanças. Era uma semente de futuro que estava sendo plantada ali, às margens do Rio Uruguai.
O grupo que ficou, o tenente Rocha Loures, o cacique Condá e seus índios, o padre Penteado, a comitiva de mulas cargueiras, os peões e escravos que cuidavam da mulada, o alferes Moreira e escolta do padre Penteado, todos seguiriam morro acima, agora guiados pelo índio Kamurerê.
A subida de comitiva tão numerosa, embora com as mulas carregadas apenas a meia carga, foi mais árdua do que antecipado. As trilhas eram pouco apropriadas para acomodar todos os animais de uma só vez. Assim, tiveram que subir em pequenos grupos. Felizmente, Kamurerê conhecia alguns pontos que permitiram aos animais um descanso durante a subida e lugares onde puderam se acomodar para passar a noite.
No dia seguinte, finalmente alcançaram o planalto. Estavam extenuados, mas contentes. A paisagem que tinham diante dos olhos era feita de coxilhas e capões espalhados no rumo Sul. Alguns Kaingang que caçavam por ali apareceram, atraídos pela movimentação dos animais, e se incorporaram no cortejo, ajudando a criar um clima de jubilosa expectativa.
Ao cair da tarde chegaram à aldeia de Nonoai. Condá seguia na frente, ao lado do tenente Rocha Loures e do padre Penteado. Os kuiã seguiam logo depois. O alferes Moreira e a escolta do padre Penteado, todos uniformizados, vinham um pouco mais atrás, seguidos pelo capataz, que guiava a mula madrinha, com o estrepitoso cincerro badalando sem parar. Depois, vinha a mulada toda, com as cargueiras chegando com suas bruacas balançando, carregadas de ferramentas, utensílios, roupas e tralhas diversas. Era um espetáculo barulhento, colorido e divertido, do tipo que os índios não costumavam ver.
No toldo do grande cacique
A chegada da comitiva mudou a vida da aldeia por inteiro. O tenente Rocha Loures e o cacique Condá deram ciência ao cacique Nonoai que a carga que traziam era o presente enviado pelo presidente da província, o Conde de Caxias.
Assim que as bruacas foram descidas dos cargueiros, todos queriam ver o que traziam e logo se estabeleceu um alvoroço. O cacique Nonoai as inspecionou e permitiu que as abrissem. A pedido de Condá, orientou as mulheres a trazerem esteiras de taquara trançada para forrarem o chão e evitar que as ferramentas e utensílios se sujassem. Vendo a curiosidade da tribo, Nonoai permitiu que os índios ajudassem a retirar o conteúdo das bruacas, mas determinou que ninguém se apossasse de nada até que ele, Condá e os cacique auxiliares, os rekakê, definissem como o conteúdo seria distribuído.
— Podem baixar as bruacas e arrumar as coisas em cima de esteiras no chão. – Comandou o Pai-bang, e completou: – Os panos e objetos vão ser distribuídos, mas as ferramentas vão ser de todos. Vão pertencer ao toldo. Todos vão poder usá-las.
Nonoai e Condá olhavam a cena divertidos. Não demorou e machados, foices, picaretas, cavadeiras, enxadas, serras, martelos e que tais foram sendo ajeitados nas esteiras de taquara que as mulheres estenderam no chão, como havia pedido Nonoai. O cacique Condá já esperava que os índios da aldeia se interessassem pelas ferramentas e as olhassem como se fossem talismãs dos brancos. A seu ver, era bom que assim as considerassem. Logo iriam aprender a usá-las e veriam que não eram objetos mágicos, submissos ao iangre sobrenatural, mas prosaicos instrumentos do homem para domar a natureza e cultivar a terra.
A abertura dos fardos com roupas e tecidos foi outro grande evento. Como determinado por Nonoai, Condá reuniu os rekakê e organizou a distribuição, favorecendo as índias com crianças pequenas e os kujás, os anciãos da tribo. Esses eram os membros mais respeitados do toldo e, politicamente, os que mais influiriam na adesão ao aldeamento. No caso, não era pecado unir o útil ao agradável.
O tenente Rocha Loures tinha asseverado ao Conde de Caxias que se encarregaria pessoalmente de ensinar os índios a usar as ferramentas que o governo da província enviasse. Para atender a este compromisso, tinha levado no seu grupo quatro dos seus melhores obreiros. Então, para organizar o treinamento, pediu para Condá conversar com Nonoai e estabelecer os procedimentos que deveriam seguir. Os dois caciques combinaram que o treinamento inicial seria feito com os rekakê e kuiã. Era uma forma de envolver os caciques subalternos e os influentes kuiã no uso das ferramentas vindas da capital e obter sua boa vontade nos arranjos para viabilizar o aldeamento. Para comunicar esta decisão, Nonoai promoveu a Jivãn, uma assembleia de aconselhamento. Para a Jivãn, convocou os rekakê e kuiã de seu toldo, bem como os visitantes que ali se encontravam fazendo suas visitas periódicas. Era por meio dessas visitas regulares que os diversos toldos mantinham relações entre si, trocavam informações, recebiam instruções e formalizavam seu respeito ao grande Pai-bang.
Os convocados para a preleção da Jivãn se reuniram na praça do toldo e se sentaram nas pri, esteiras trançadas com folhas de coqueiro, que foram arrumadas em semicírculo. Os rekakê e kuiã pertencentes a outros toldos foram acomodados na primeira fila. Era uma cortesia aos visitantes. Nonoai colocou seu melhor cocar e pintou o corpo com as cores cerimoniais. Chamou Condá para ficar a seu lado e falou à assembleia, sem esconder a emoção do momento:
— Saúdo cada um. Saúdo os rekakê e kuiã Kaingang que estão aqui. Os que são deste toldo maior e os que vieram de outros toldos no visitar. Hoje eu vou falar, então me escutem e guardem bem minhas palavras em suas mentes. Vosmecês são os rekakê e os kuiã dos Kaingang que moram nas matas do lado de cá do Rio Uruguai. Eu olho todos e me alegra ver que conheço cada um. Eu sou o mais velho, tenho idade avançada, e por isto vi muitos que estão aqui nascerem. E sei onde estão enterrados os seus umbigos. Por isso não vou mentir. Sempre falo o que é certo. Não tenho motivos para falar mentiras. Portanto, desejo que guardem em suas mentes o que lhes vou dizer.
Eu sou o Pai-bang deste toldo e de muitos toldos em muitos campos, além deste campo onde moro, que muitos de vosmecês vêm visitar. Hoje tem visitantes do Campo Erechim, do Campo do Meio, do Campo de Vacaria, do Campo Novo e até um rekakê do Campo dos Bugres, que fica a três dias de viagem. Aqui, do meu lado, está o cacique Condá, que é respeitado Pai-bang de muitos toldos do outro lado do Rio Uruguai. Ele veio ajudar a conversar com o governo fóg, que está querendo que nosso povo escolha um pedaço desta terra para fazer um aldeamento para onde devemos mudar para evitar sofrimento e guerra.
Desde que nasci, vivi nestas matas daqui. Meu umbigo está enterrado cá, nesta terra. Os Kaingang eram os donos destas matas. Depois que os Guaranis se foram, ficaram só os Kaingang. Nesta terra não tinha repartição. Só os grandes rios é que separavam nossa tribo. Quando um clã Kaingang, que reunia parentes e tinha um Pai, que era chefe do clã e juntava irmãos e cunhados, filhos, filhas, genros e noras e queria fazer uma roça, pegava um pedaço de terra que estava livre, marcava nos cantos para avisar que ali tinha uma plantação e ali plantava a comida que precisava. Todos do clã plantavam, colhiam e comiam do que nascia naquela roça. Não tinha dono. Não era para negociar. Só que, agora, essa liberdade de pegar a melhor terra para morar e para plantar vai acabar. É muito triste, mas vamos ter que ficar morando num lugar só.
Reparem, nós somos todos do mesmo povo. Nós somos todos Kaingang. Nós somos filhos, irmãos, cunhados. Devemos lembrar de nossos ancestrais, Kamé e Kayru, que criaram nosso povo. E devemos lembrar que nosso povo é unido porque os Kaingang cuidam uns dos outros, como deve ser. E agora, que vamos ter que mudar muitas coisas na nossa vida, vosmecês vão precisar cuidar uns dos outros mais ainda.
Digo que nossos kuiã previram muitas coisas. Eu mesmo previ muitos acontecimentos. Mas nenhum de nós previu o que está acontecendo com os Kaingang. A chegado dos fóg têm trazido tristezas, mas não compensa lamentar o que não podemos mudar. Felizmente, hoje, aconteceu uma coisa boa. O chefe do povo fógquer que as tropas de mulas passem por nossas matas e atravessem o Rio Uruguai no Passo do Goio-En. E quer que os Kaingang deixem as tropas atravessar em paz. Por este motivo ele quer que nosso toldo mude de lugar e se instale num aldeamento. E, para que os Kaingang aceitem ir morar no aldeamento sem reclamar, ele mandou muitos presentes. Mandou roupas e panos para as mulheres fazerem roupas. Este é um presente bom. Vai servir para proteger o corpo dos Kaingang quando faz frio. E também mandou ferramentas para plantar na terra. Este igualmente é um presente bom. O chefe branco quer que os Kaingang tenham roças grandes. Ele quer que os Kaingang tenham bastante comida para não precisar tirar das roças dos brancos. Outro presente bom são as ferramentas para cortar as árvores e trabalhar com a madeira. Ele quer que os Kaingang morem em casas que tenham assoalho e teto bom. Deste modo os Kaingang vão viver em casas boas e não vão querer confusão e perder as casas. Outra coisa boa é que o chefe fóg sabe que ainda não sabemos usar estas ferramentas que ele mandou de presente. Por isto, ele mandou gente para ensinar os Kaingang como usar as ferramentas”
Nonoai deu uma pausa e fez um gesto com o braço, indicando os membros da comitiva do tenente Rocha Loures e o padre Penteado, que assistiam à cerimônia em silêncio. Na verdade, exceto o tenente e os índios de Condá, os demais integrantes da comitiva não conheciam a língua Jê, dos Kaingang.
Nonoai continuou a preleção de seu Jivãn:
— Todos precisam aprender o uso das ferramentas para melhorar a vida de nosso povo. Os que são rekakê e kuiã da tribo precisam aprender a usar estas ferramentas para, depois, ensinar aos outros. Escutem bem o que estou falando, porque é para o bem de todos os Kaingang. Prestem grande atenção nos ensinamentos dos fóg para aprenderem direito. Aprendam a usar as ferramentas dos brancos como aprenderam a usar a pedra de raspar e as cinzas do fogo para fazer seus próprios arcos uy, e suas próprias flechas dou. Pela minha experiência de ancião, escutem meu aviso: se os Kaingang não fizerem o cultivo das roças no aldeamento, os fóg vão dizer que não precisamos desta terra e vão querer tirar até esta terra que estamos recebendo.
Muito me alegra dizer que o cacique Condá aceitou meu pedido para nos ajudar. Condá conhece os fóg desde criança e sabe como eles usam estas ferramentas. Pedi para ele cuidar das aulas que vão ser dadas a vosmecês. Se tiverem perguntas, façam para ele.
Meu aconselhamento é que estudem bem e aprendam tudo o que puderem. Eu já estou velho e não vou nunca ter este conhecimento. Só sei ser Kaingang em nossas matas, só sei sobreviver em paz um com outro, cuidando dos pais, dos filhos, dos irmãos, dos cunhados, das sogras. Só entendo sobre isto. Mas, de agora em diante, isto não é mais suficiente. Então se esforcem para estudar e aprender. Também procurem aprender a língua dos brancos, aprender a ler e escrever na língua dos fóg, como o cacique Condá aprendeu.
Sejam persistentes e tenham orgulho de ser Kaingang. Estou velho e sei que não vou ficar muito mais tempo com vosmecês, mas hoje estou muito feliz porque vejo que meu povo tem um caminho para resistir e viver, apesar dos perigos e dos problemas. Fiquem unidos, trabalhem juntos e respeitem o que o cacique Condá resolver. Ele é um Kaingang como nós e só quer o nosso bem e de todos os Kaingang.
Terminada a cerimônia, os índios levantaram-se em silêncio. Alguns se afastaram e outros cercaram Condá. Esperavam sua orientação. Agora Condá tinha a autoridade do Pai-bang para coordenar o treinamento dos índios. Ele, porém, apenas recebeu os abraços de cumprimentos e adiantou que o ensino sobre o uso das ferramentas começaria no dia seguinte. Entretanto, já antevia dificuldades. Conhecia bem os Kaingang. O apreço pela liberdade e a aversão a atividades continuadas e monótonas eram características marcantes dos homens da tribo. Durante centenas de anos os índios viveram imersos em uma cultura baseada em caça, pesca, coleta e desfrute. Mudar os hábitos e costumes seria complicado. Enquanto os índios vissem as ferramentas como objetos lúdicos e as experimentassem por divertimento, tudo iria bem. Mas quando entendessem que eram instrumentos de duro trabalho cotidiano, que o trabalho a fazer com seu uso exigiria esforço, disciplina e constância, que seria contínuo e extenuante, dia após dia, no frio invernal e no calor tórrido do verão, temia que o interesse fosse esvanecer.
Na cultura indígena, as pessoas não estavam habituadas ao trabalho sistemático e metódico. Afinal, a natureza se encarregava de prover os meios de subsistência. Além do que o clima favorecia para que a disponibilidade de alimentos se desse o ano inteiro. Portanto, diferentemente dos colonos europeus, que em sua terra de origem precisavam ser diligentes nos meses propícios para o cultivo da terra visando guardar alimentos para o inverno, os Kaingang não tinham a preocupação de produzir para acumular e guardar. Possivelmente uma exceção fosse o caso do õkór, a técnica da conservação do pinhão em cestos de trança larga, mergulhados em rios, e que se destinavam ao consumo depois de finda a safra, que ia de abril a julho. Condá sabia, claro, que, entre os Kaingang, os homens eram predominantemente caçadores e pescadores, enquanto as mulheres se encarregavam dos cuidados com as crianças, do artesanato, das atividades de preparo de alimentos e ajudavam nos cultivos seminômades.
A faina de cultivar a terra metodicamente, como faziam os brancos e como era o desejo das autoridades do governo, era um conceito novo. Os índios não eram indolentes nem tinham ojeriza ao trabalho, como alguns colonos brancos, e até autoridades, diziam. Na verdade, os Kaingang estavam sempre ativos nas atividades que lhes pareciam próprias. Fabricavam seus arcos e flechas, faziam suas armadilhas de pesca e, especialmente, gostavam de vagar pelas sendas das matas, em excursões de caça e pesca, coleta de frutas silvestres e busca de mel. Também faziam pequenos roçados para plantar feijão, mandioca, milho e abóbora. Seus métodos de cultivo, entretanto, eram rudimentares e suas ferramentas se resumiam a cavadores e machados de pedra.
Ao mesmo tempo, sabendo que as mulheres é que se encarregavam de manter as roças, um trabalho que as sacrificava enormemente, Condá resolveu facilitar a elas o acesso às enxadas, machados, facões e foices. Fez isso discretamente, porque alguns dos rekakê e kuiã, ciosos de seus privilégios masculinos, poderiam obstar. Diplomaticamente, perguntou à mulher de Nonoai se podia ir experimentar as ferramentas na roça que ela cultivava. Usou como pretexto que tinha intenção de saber se eram de boa qualidade, se os cabos estavam bem presos, se estavam bem afiadas. Ela concordou e, com o incentivo de Condá, convidou outras índias para verem. Na manhã do dia seguinte, após os rekakê e kuiã se reunirem com o tenente Rocha Loures e os carpinteiros vindos na comitiva para aprenderem o uso das ferramentas de carpintaria, Condá foi guiado para as roças, que ficavam em uma área plana fora da visão dos homens, e mostrou como capinar a erva daninha que estrangulava as culturas.
Depois de mostrar como manejar as ferramentas, a melhor maneira de segurar o cabo da enxada, como usar a foice e que cuidados tomar para evitar acidentes, como usar o machado para cortar lenha e como descascar a mandioca com os facões, deixou que as mulheres as experimentassem. Elas ficaram maravilhadas com a facilidade com que limpavam as capoeiras e o capim e como podiam fazer o trabalho render. Condá acreditava que dando ferramentas a elas, que na prática cuidavam das roças no dia a dia, os resultados poderiam ser até mais positivos do que aquele a ser obtido pelos homens.
Condá também considerou que uma forma de fazer os homens pensarem em roças maiores seria a introdução de novos alimentos na dieta da tribo. Nos aldeamentos Kaingang do outro lado do rio, na parte oriental, os indígenas estavam começando a plantar batatas. O tubérculo, originário da América do Sul, começou a ser cultivado há 10.000 anos na região andina, mas os indígenas brasileiros, como os Kaingang, não o conheciam e foram os fóg que introduziram seu cultivo entre os nativos. Também pensou na introdução de aves, especialmente galinhas, que poderiam substituir parte da caça de aves, que certamente ficariam mais escassas em um aldeamento. Se os homens aceitassem a criação de galinhas como tarefa masculina, na medida em que as aves se constituiriam num tipo de “caça”, talvez fosse possível estimular lavouras de milho mais bem organizadas, como estava acontecendo em Guarapuava e Palmas. Um estímulo é que o milho poderia ser usado para aumentar a produção da chicha, uma bebida alcoólica com base na fermentação do milho e do pinhão. Enfim, Condá, pela experiência dos toldos de Guarapuava e Palmas, sabia que não seria fácil convencer os índios de Nonoai a se converter em agricultores e trabalhar como os colonos brancos. Ainda assim, os presentes enviados pelo governo seriam úteis e ajudariam a aplainar o caminho para a aceitação do aldeamento e para a pacificação dos Kaingang de Nonoai.
Condá observou que os índios faziam progressos no aprendizado das ferramentas. As de carpintaria, especialmente, vinham tendo grande aceitação. Serrotes, plainas, limas, facas e facões. Os Kaingang estavam experimentando esses instrumentos e se divertindo muito, mas os usavam na feitura dos arcos e flechas. Condá, ao notar, coçou a cabeça. Não era bem o que o governo tinha em mente. Por outro lado, as ferramentas agrícolas não obtinham o mesmo nível de interesse por parte dos homens. O cacique raciocinava: elas seriam bem aproveitadas quando a tribo mudasse para o aldeamento e os indígenas iniciassem o plantio das novas roças. E depois as ferramentas agrícolas tinham vindo em maior quantidade, uma vez que a ideia do governo da província era estimular a criação de roças grandes e bem cuidadas.
A primeira missa campal que o padre Penteado oficiou para os Kaingang aconteceu naquele domingo, pela manhã. No pátio do Centro do toldo, o padre armou o pequeno, mas caprichado, altar portátil que recebeu do presidente da província. O altar foi coberto com os paramentos feitos sob medida e, igualmente, presenteados pelo Conde de Caxias. O pátio ficou pequeno para acomodar todos os que acorreram para assistir à missa. Ali compareceram os índios do toldo, com suas mulheres e filhos; do mesmo modo estavam presentes índios de aldeias próximas. Grupos de Kaingang que, informados da celebração, acorreram curiosos para participar da cerimônia. Diversos índios vieram de Passo Fundo, alguns batizados e outros ainda sendo catequizados, a maioria dos quais frequentava as celebrações do padre Penteado na Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Desses índios, alguns vestiam roupas, assim como os fóg brancos e os ka pur, os negros escravos da comitiva. Outros, como Condá e os índios de seu grupo, porém, preferiram vir com as pinturas clânicas de suas metades tribais Kamé e Kayru. Os Kamé, pintados com as listas de dois traços rayoiyo, e os Kayru com os três pontinhos rikutu.
Os índios pareciam felizes em participar da missa. Para muitos, era a primeira vez que viam uma celebração dos fóg. Observavam fascinados os movimentos do sacerdote e se mostravam encantados com o altar enfeitado com flores, as velas acesas nos castiçais, a vestimenta bordada do celebrante, os cálices de prata polida, a cruz de ouro, a campainha de quatro sinos usada por Condá, que atuou como acólito da celebração, o aroma do incenso, que o padre Penteado fez questão de usar para incensar o altar, a cruz, as oferendas, o pão e o vinho eucarísticos e a assembleia presente. Durante a celebração, os Kaingang acompanhavam absortos os movimentos do padre celebrante envergando seus paramentos cerimoniais. Intrigados, ouviam o padre se expressar em latim, recitando rezas que não entendiam. Viam o celebrante folheando o livro dos Evangelhos, cujas bordas douradas capturavam e refletiam uma luminosidade, evocando a beleza admirável dos raios do sol rebrilhando nas águas do Goio-En em dias de calmaria.
De olhos arregalados, seguiam os movimentos do celebrante manuseando o cálice de prata, colocado e retirando a patena, o pequeno disco de prata reluzente que repousava sobre ele. Viram o cacique Condá apanhar numa mesa auxiliar as galhetas, as pequenas jarras, contendo água e vinho, e levá-las para o padre colocar no cálice para a comunhão. Ainda mais intrigados ficaram ao ver o celebrante arrumar sobre a mesa do altar um pano branco, alvíssimo, de uma brancura como nunca tinham visto. Era o corporal, um pano quadrado de tecido de linho que, no significado da paramentação do altar, tem por objetivo relembrar o Santo Sudário, o lençol em que uma alma caridosa envolveu o corpo de Jesus ao ser sepultado.
Terminada a celebração da missa, o clima foi de festa. Um músico da aldeia veio com o seu arco de boca, um instrumento feito de madeira e similar a um arco de flechas, mas menos arqueado, que tem uma corda esticada nas pontas. Para tocá-lo, o músico percute a corda com o polegar em frente à boca, que funciona como caixa de ressonância. Esta, conforme sua abertura, modifica a altura dos sons e cria melodias por meio dos harmônicos, gerados por duas notas fundamentais. Os índios tinham gosto pela música deste instrumento e começaram a dançar seguindo seu ritmo.
Para o almoço festivo da tribo o pessoal do tenente Rocha Loures tinha providenciado um churrasco no típico fogo de chão dos Kaingang e assou no espeto alguns animais silvestres, inclusive um cateto e um veado campeiro, que tinham caçado na véspera. Do lado dos Kaingang as mulheres do toldo prepararam pratos com as corós, as apreciadas larvas de insetos retiradas de palmeiras, taquara, pinheiro, da paineira e do jaracatiá. Foram servidas as ngródngródn, as larvas da ponta, e as féniú fritas. Estas últimas estavam entre as iguarias preferidas dos Kaingang, sendo retiradas do cerne de palmeiras especialmente derrubadas para serem convertidas em criadouros dessas larvas.
Após o lauto almoço, um rega-bofe para os padrões Kaingang, Condá se sentou com o cacique Nonoai sob uma sombra mais afastada. Queria combinar com o grande Pai-bang a forma como responderiam à proposta vinda do governo da província para o aldeamento Kaingang no Alto Uruguai. O Conde de Caxias desejava um acordo justo e rápido, capaz de apaziguar os Kaingang. Para tanto oferecia reservar uma área com extensão de 7 léguas, ali mesmo, na região do Alto Uruguai. A orientação do Conde de Caxias era que área do aldeamento reservada aos Kaingang deveria ser a melhor possível. Devia reunir boas terras, próximas a um rio, conter numerosas coxilhas e capões com mata diversa e, especialmente, trechos ricos em matas de araucária para a coleta do pinhão. A área do aldeamento devia proporcionar caça e pesca abundantes e oferecer campos apropriados para as culturas tradicionais dos Kaingang, como milho, abóbora e outros alimentos.
Condá argumentou com o cacique Nonoai:
— Cacique Nonoai, em minha opinião, esta é uma oferta razoável. Uma oferta que devemos considerar. O tamanho e as matas que o governo oferece aqui são melhores do que as dos aldeamentos que temos nos Campos de Palmas ou em Guarapuava.
O rosto do Cacique Nonoai mostrava os vincos da preocupação que o inquietava.
— Cacique Condá, meu irmão, repito o que já disse outras vezes, vosmecê foi criado entre os fóg, e sabe negociar com eles melhor do que eu. Conhece as artimanhas deles melhor do que eu. Se seu conselho é aceitarmos o aldeamento que o governo oferece, então é isso que nós devemos fazer.
— Sim, meu estimado cacique Nonoai. – Respondeu Condá. – Acho até que estamos sendo abençoados porque, pelo que vejo, existe imensa boa vontade do Conde de Caxias para com os Kaingang. O conde é conhecido como amigo dos índios. O receio que tenho é que, se não decidirmos logo, pode chegar um outro presidente que pensa de modo diferente do conde e voltarmos a ser hostilizados. Eu não gostaria de ver os Kaingang serem forçados a fugir para o interior do mato e voltar para a guerra.
Nonoai pôs os olhos no horizonte. Não era fácil para ele, depois de velho e alquebrado, assumir a responsabilidade de dizer a seu povo que os Kaingang teriam que curvar-se ante o governo fóg e mudar o modo de vida que conheciam por gerações. Dirigindo-se a Condá, perguntou conformado:
— Se vamos aceitar o que nos oferece o governo, o que devemos fazer agora?
Condá se condoeu pela visível amargura que demonstrava o grande cacique Nonoai, o chefe dos orgulhosos Kaingang de todo o Alto Uruguai. Mas o melhor era seguir em frente com determinação e definir as coisas de modo claro. Assim, Condá explicou o que via como os próximos desdobramentos no rumo do aldeamento:
— Conforme o que vosmecê decidiu, precisamos registar esta disposição dos Kaingang o quanto antes. Vamos levar nossa decisão ao comissário de Passo Fundo, o capitão Joaquim Fagundes dos Reis, e pedir a ele para fazer os papéis e documentar o aldeamento. Os brancos gostam de fazer tudo com registros de escrita. Gostam de fazer documentos de tudo. E lhe digo, um documento escrito será bom para os Kaingang também. Depois do acordo ser escrito no papel, o governo não vai poder mudar o que estiver combinado. E se valer a minha experiência na Província de São Paulo, para montar o aldeamento o governo vai nomear um encarregado. Talvez seja o padre Penteado. O governo gosta de nomear religiosos para lidar com os índios. O que acho curioso é que o governo costuma nomear pessoas adequadas no começo. O indicado implanta e organiza tudo com boa aptidão e, depois que as coisas começam a funcionar, o governo troca o encarregado e, em seu lugar, aparece um parente ou apaniguado do governante que toma posse do cargo. Daí para frente é que as coisas costumam desandar. Por isso, meu amigo, o começo é muito importante. Vosmecê deve pedir tudo o que for preciso e mais um pouco. O administrador vai registrar seu pedido e abrir um procedimento. E vai mandar o pedido para o governo da província. Na capital, o seu pedido vai ser entregue para uma repartição, que vai perguntar ao presidente da província o que eles devem mandar. Eu aprendi, pela experiência, que eles quase nunca mandam tudo o que pedimos, mas mandam, pelo menos, uma parte. E, por isso, deves pedir sempre. O importante é ter em mente que alguma coisa o governo vai sempre mandar. Depois do aldeamento ser assinado, seu toldo vai receber ajuda do governo para construir casas e organizar os roçados. Convém aproveitar. Outra coisa importante: tudo o que o padre Penteado pedir ao governo vai ficar na cabeça da pilha. Se vosmecê ficar amigo do padre Penteado, será mais fácil conseguir roupas, remédios e comida, por exemplo. Não falei com o padre sobre isso, mas acho que ele vai continuar morando em Passo Fundo e vai ficar viajando entre o seu toldo e outras aldeias. É bom. Viajando assim ele pode trazer suas mensagens e, mais importante, seus pedidos para o comissário.
O cacique Nonoai cruzou os braços e baixou a cabeça.
— Está bem. – Consolou-se Nonoai. – O aldeamento vai nos colocar numa gaiola e vamos ter que nos acostumar a viver acampados num só lugar. Não sei se todos vão se acostumar. Vosmecê, mais do que eu, sabe que os jovens são impetuosos e gostam de viver andando pelas matas e indo de um lado para o outro. Eu sei, já fui moço e sei que a juventude não teme perigos. Eu já viajei por grandes distâncias caminhando dias e noites sem cansar. Queria ver tudo e saber tudo. Hoje, arqueado pela idade, perdi a pressa de ver coisas novas. Digo a ti, Condá, a idade me deu o pensamento dos mais velhos. Os anciãos, depois de terem vivido uma vida longa, depois de terem ido e vindo por terras conhecidas e desconhecidas, depois de terem visto que o mundo se renova a cada verão, mas no final acaba sendo sempre o mesmo, depois de descobrirem que em todo lugar existem amigos e inimigos, cansam de olhar em volta e preferem o sossego. A sabedoria dos anciãos está em reconhecer que a alma do mundo não muda. Que em todo outono as folhas caem; que em todo inverno a natureza traz o frio; que em toda a primavera voltam as flores. Enfim, que o que muda de um lugar para outro é a ilusão. Por isso os mais velhos, depois de cansarem de correr atrás do arco-íris, preferem desfrutar o momento. Os mais velhos preferem andar menos pelas matas e mais pelos caminhos da mente. E como nossa tribo tem muitos velhos como eu e muitos desses anciãos têm mais sabedoria do que eu, sei que, mais do que por quaisquer outros motivos, vamos aceitar o aldeamento. Se o governo dos fóg nos dá condições para termos alimento que nos sustente, moradias que abriguem nossas famílias e roupas para o frio, que os velhos, como eu, preferem enfrentar vestidos e não sem roupas como antigamente, então digo ao amigo Condá que o acampamento será bem aceito pela maioria. É o que penso.
Quanto às promessas do governo, Condá foi sincero:
— Sim, cacique Nonoai, tudo isto o governo promete. Mas não devemos pensar que o governo vai fazer por nós o que nem Kamé e Kayru fizeram. O governo vai separar uma terra para os índios. Vai mandar porcos e galinhas para os Kaingang criarem de modo a substituírem a caça, que deve escassear. Por enquanto, na terra do futuro aldeamento ainda tem muita caça. Tem muito quati e tatu para caçar, tem muita perdiz e marreco. Mas, ficando presos só num lugar, vamos caçar tanto que os bichos vão diminuir e vamos ter que criar animais para comer. E, assim como nos aldeamentos de Guarapuava e Palmas, para dar comida aos frangos e porcos, vamos precisar ter bastante milho. Isto quer dizer que vamos ter que plantar mais milho. Para a tribo ter bastante comida, vai ser preciso trabalhar bastante. E isto aí é que não sei se nosso povo daqui vai gostar. Nos Campos de Guarapuava e Palmas, os homens ainda preferem ir para o matão pescar e caçar. E as mulheres que ficam nos toldos não vencem o trabalho da plantação. E tem outra coisa: precisamos dizer para as mulheres que as galinhas não são enfeite dos toldos. As galinhas são para botar no espeto, assar e comer. Parece que muitas mulheres têm pena de matar as galinhas e preferem que elas sirvam para enfeitar a aldeia. Elas ficam com pena de matá-las para fazer comida…
Nonoai achou graça.
— Sim, é verdade. Aqui na aldeia é isto mesmo. Hoje já temos galinhas criadas soltas. Galinhas que nossos guerreiros trouxeram de suas andanças. Estas galinhas ficam gordas de tanto comer milho e as mulheres e crianças não se cansam de ver as galinhas e os pintinhos passeando pela aldeia. As mulheres preparam a caça sem pensar duas vezes, mas se afeiçoam às galinhas e só as abatem em último caso, quando a fome aperta muito. Acho, porém, que com o aldeamento, as galinhas vão se multiplicar e vão mesmo é acabar no espeto.
Os dias seguintes foram muito trabalhosas para Condá, para o tenente Rocha Loures e para todos os membros da comitiva. Para ensinar os índios a usar as ferramentas era preciso, antes, prepará-las. Era fato que os índios precisariam também aprender a colocar cabos e a afiar as ferramentas, algo que teriam de fazer com frequência se, efetivamente, as usassem para trabalhar, mas no caso, o tenente Rocha Loures reclamava de que quase todas as ferramentas vieram brutas, sem cabo e sem fio. E o trabalho de preparo, feitura dos cabos e amolação dos fios de corte tomou um tempo que teria sido mais bem empregado no ensino das tarefas de carpintaria ou lavoura.
O tenente Rocha Loures falou indignado:
— Por que será que tudo o que o governo compra é de qualidade inferior? E tudo o que envia para os índios vem com deficiência? Quando eu vou a um ferreiro comprar uma enxada ela já vem afiada. Mas as enxadas que o governo envia não têm fio e precisam ser afiadas com pedras de amolar. E o fio vem tão cru que precisamos gastar um tempão para amolar cada enxada ou machado. Uma maçada!
Ainda assim, os índios ficavam maravilhados com aquelas ferramentas de ferro que faziam em um ou dois golpes um trabalho que, do modo antigo, tomaria muitas horas.
Depois de mais de uma semana ensinando os Kaingang a usar as ferramentas era tempo de a comitiva voltar a Passo Fundo. As mulas de carga precisavam retornar. Os animais cargueiros eram propriedade dos transportadores contratados e não podiam ficar indefinidamente no toldo. Decidiram, então, que Condá, o padre Penteado e os soldados de sua escolta aproveitariam para retornar juntos. De Passo Fundo, o alferes Teodorico Moreira e a escolta sob seu comando voltariam para Cruz Alta, já que o padre não via mais motivo para uma proteção ostensiva.
Condá acertou com o cacique Nonoai que, com tudo definido, ele, na qualidade de chefe dos Kaingang, iria ser convidado a firmar os documentos da formação do aldeamento no escritório do comissário, em Passo Fundo. Era o procedimento mais conveniente. Condá acompanharia a elaboração do texto final e faria a assinatura a rogo, enquanto Nonoai confirmaria os entendimentos por meio de sua impressão digital. Condá justificava este processo porque entendia que documentos formalizados nas dependências oficiais do governo dos brancos teriam mais legitimidade. Tanto entre os Kaingang quanto entre os fóg. No caso dos brancos, documentos formais tornariam mais difícil seu questionamento por parte de aventureiros e de interessados em tomar terras do aldeamento. Nonoai não entendia muito bem toda esta movimentação de papéis, uma prática dos fóg, mas confiava em Condá. Se Condá, que era bem avisado das manhas dos brancos, achava que era melhor fazer desta forma, então estava bem para ele.
O retorno se deu como planejado. Chegando a Passo Fundo, os membros da comitiva receberam a boa notícia de que o presidente da província havia mandado mais um carregamento de ferramentas e tecidos destinados aos Kaingang. O Conde de Caxias, de forma explícita, mostrava seu apoio ao aldeamento, preferindo pecar por excesso do que por falta. E junto veio a nomeação do padre Penteado para assumir a organização do aldeamento. A parte mais significativa da notícia, no entanto, é que ela confirmava não só o empenho do Conde de Caxias em consolidar o aldeamento, como também em tornar viável o Caminho das Missões passando pelo Goio-En.
De todo modo, havia um sentimento de urgência no ar. O comissário Joaquim Fagundes dos Reis, escaldado por reviravoltas inesperadas na questão indígena, queria consolidar os avanços na pacificação dos Kaingang. Havia que apressar a formalização burocrática, tão cara aos legalistas do império. Queria ter o aldeamento instalado e documentado o mais rapidamente possível. Ele, melhor do que ninguém, sabia que, enquanto o Conde de Caxias estivesse na presidência da província, estaria tudo bem. Assim como sabia, e era o que o preocupava, que o conde estava envolvido com a grande política do império. Como maçom, ele recebia relatos confidenciais antecipando que logo Caxias seria chamado por Dom Pedro II. Os rumores diziam que seria nomeado senador e seria chamado de volta à corte do Rio de Janeiro.
O Conde era líder político de primeira grandeza, amigo e homem de confiança do jovem imperador, que via nele um aliado incondicional e um ombro amigo para ouvir suas queixas e dar-lhe conselhos no enfrentamento das intrigas palacianas. Caxias havia sido ligado ao Partido Regressista, mas agora era membro do Partido Conservador, no qual comungava com as ideias de lei e ordem propugnadas por Bernardo Pereira de Vasconcelos, fundador do partido, que assim justificava a adoção de posições conservadoras:
“Fui liberal, então a liberdade era nova no país, estava nas aspirações de todos mas não nas leis, não nas ideias práticas; o poder era tudo; fui liberal. Hoje, porém, é diverso o aspecto da sociedade: os princípios democráticos tudo ganharam e muito comprometeram; a sociedade que até então corria risco pelo poder, corre agora risco pela desorganização e pela anarquia. Como então quis, quero hoje servi-la, quero salvá-la e por isso sou regressista. Não sou trânsfuga, não abandono a causa que defendi no dia do seu perigo, de sua fraqueza: deixo-a no dia que tão seguro é o seu triunfo que até o excesso a compromete”.
Era fácil deduzir, portanto, que sua presença na presidência da província de São Pedro do Rio Grande do Sul era coisa provisória. A missão que o levara ao Rio Grande do Sul, acabar com a Revolução dos Farrapos, estava concluída e nela obteve tal sucesso que sua estatura nacional crescera ainda mais. De modo que, a um observador experiente como o comissário, ficava meridianamente claro que o conde voltaria, célere, a ter uma posição no plano nacional. O problema, segundo as preocupações de Fagundes dos Reis, é que o retorno de Caxias ao Rio abriria um vácuo político perigoso na província. Um novo presidente que sucedesse ao conde não teria a mesma estatura política, até porque não havia no império quem se ombreasse a Caxias em prestígio como pacificador. E esta condição distinguida era, por si só, um fator de estabilização.
Ademais, o comissário percebia que ainda restavam brasas sob as cinzas da Revolta Farroupilha. Nada garantia que não surgissem labaredas teimosas em bolsões de farroupilhas inconformados. E seria esperar muito que o novo presidente da província tivesse o mesmo descortino, a visão de estadista e o compromisso franco com uma política civilizatória de pacificação dos índios. Afinal, os inimigos dos índios, numerosos e ardilosos, falavam, à socapa, que índio bom era índio morto. Chegavam a sugerir ser absurdo cogitar-se dar um aldeamento para os índios coroados, aquele bando de “bugres” selvagens que haviam hostilizado e derrotado as forças imperiais do general Labatut.
Também havia a urgente necessidade da consolidação da nova estrada. Nem todos, na província, viam o novo caminho com o mesmo fervor. Alguns argumentavam que, a rigor, a passagem pelo Goio-En interessava mais aos paulistas do que aos rio-grandenses. Diziam que eram os paulistas que desejavam escapar do pagamento do quinto, o imposto cobrado no Passo de Santa Vitória dos tropeiros que levavam suas tropas da Província do Rio Grande do Sul para Santa Catarina.
O aldeamento
Para correr contra o tempo, o comissário Fagundes dos Reis reuniu ainda naquela noite, em sua casa, o grupo que voltava do encontro com Nonoai. Ouviu as histórias que contaram, que, invariavelmente, se referiam à mútua descoberta dos sentimentos, dos sonhos e das formas de vida entre os brancos e os índios. Para o comissário, que esperava por isto, era evidente que ambos, brancos e índios, embora estivessem tão próximos geograficamente, viviam em mundos diferentes. E precisavam ir tateando na descoberta do que compartilhavam em aspirações de uns e outros. Mas a questão de fundo é que uns e outros estavam ali, nas mesmas matas e nas mesmas coxilhas, e teriam que compartilhar a terra, a natureza e, de maneira especial, o futuro.
Poderia não ser simples, e de fato não o era, mas haveria de ser possível que se entendessem e se aceitassem mutuamente. Estavam juntos no mesmo canto do planeta por força dos fados. Se não se tolerassem uns aos outros, a alternativa seria uma guerra que sacrificaria os brancos e os índios igualmente. Seria muito sofrimento tolo e inútil. Sem dúvida, no fim, os brancos se imporiam, mas repudiando a civilização e arcando com anos de angústia desnecessária, vidas desperdiçadas e evolução em atraso. Por esta razão, naquela noite, o comissário não queria que houvesse discussões inconsequentes ou soluções superficiais. Por isso, na conversa com o grupo, ele colocou suas preocupações em relação ao contexto político que viviam e enfatizou a necessidade de aproveitarem as condições favoráveis do momento.
Como forma de dar partida aos trâmites legais, sugeriu uma estratégia: firmariam uma Carta de Intenções. Uma Carta de Intenções ainda não seria um documento definitivo, mas criava um fato relevante que não poderia ser desconhecido. Uma Carta de Intenções, formalmente assinada por ele, representante do governo provincial, e pelo cacique Nonoai, em nome dos índios, ainda que se constituísse em um documento preliminar sem a unção do poder maior do presidente da província, teria foros de um compromisso legal. Sua simples existência dava início a um processo burocrático sem volta. Depois de protocolado, o processo seria enviado para o presidente da província despachar.
Portanto, a melhor estratégia era criar um fato consumado por meio de um documento rápido, mas substantivo. Fagundes dos Reis estava investido da autoridade para encaminhar as negociações. Uma vez iniciado, o processo iria se enredar pelos trâmites, com a legitimidade do aldeamento resguardada. Quanto ao processo, depois que recebesse um número e um carimbo, nunca mais iria desaparecer. Na burocracia do império, abrir um processo era como criar a imortalidade. Uma vez juntado como uma pasta de documentos, ou bem provocaria uma decisão definitiva ou, dado se tratar de um tema sensível, ficaria no limbo burocrático. Iria peregrinar de mesa em mesa, de despacho em despacho até acumular poeira e ser esquecido num escaninho qualquer, mas ainda assim capaz de reverberar no futuro, dando testemunho de fatos e acontecimentos como uma memória indelével. Enquanto isto, a estrada iria criar sua própria dinâmica de sobrevivência.
O padre Penteado, igualmente versado nos meandros burocráticos do império e ainda mais receoso de contrariar as regras da Santa Madre Igreja, concordou inteiramente com a proposta. Explicou aos presentes que, em seu pensar, era obrigação de todos se empenharem para o bom êxito da iniciativa do comissário, sob pena de cometerem pecado. O padre Penteado, tomado de eloquência, disse que o pecado da omissão era não fazer o que devia ser feito quando devia ser feito. O padre argumentou que a omissão é um pecado do mesmo gênero da preguiça, e se assemelha à soberba, à avareza, à luxúria, à ira, à gula e à inveja, que a Igreja chama de “pecados capitais”, por serem capazes de mandar uma alma para danação eterna se ela não se emendar. Citou, mais uma vez, seu pregador favorito, o padre Vieira: “Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos”.
Olhando em volta, fitou gravemente os membros do grupo presentes e asseverou que Deus tinha feito o mundo em sete dias porque não ficou hesitando sobre se devia ou não fazer o que devia fazer. Disse-lhes que “o diabo, em sua perversidade, teria tentado a Deus para que Ele não se apressasse tanto ou postergasse a criação do mundo. E tivesse Deus hesitado ou ouvido a tentação do demônio e postergado sua tarefa criadora, o mundo de hoje não existiria. Se, ainda que por um átimo, Deus tivesse deixado passar o momento azado em que o cosmo ficou maduro para emergir, a aterradora verdade é que, quiçá, mesmo Deus teria sido frustrado em seu desidério e o universo não teria existido jamais”. Ao terminar sua contundente intervenção, sob o silêncio que suas palavras provocaram, viu que todos se puseram de acordo. Agiriam com a maior celeridade possível para viabilizar a proposta do comissário.
Condá ficou encarregado de convidar Nonoai e os índios de seu toldo para a cerimônia festiva de assinatura da Carta de Intenções. Condá seguiu para encontrar Nonoai com alguns dos Kaingang de seu grupo e uma escolta de seis pedestres do grupo do tenente Rocha Loures. A escolta, que oficialmente tinha o fito de dar um caráter cerimonioso à visita, também tinha o propósito, não assumido, de proteger o cacique Nonoai de eventuais renegados que ousassem atentar contra sua vida. A cautela era necessária porque alguns índios se mostravam inconformados com o aldeamento. Especialmente uma súcia de índios mais jovens e belicosos. Os jovens não sabem o suficiente para serem prudentes e, portanto, facilmente são tomados pela rebeldia inconsequente.
Para alguns, o aldeamento parecia tão odioso como a escravidão a que, em épocas anteriores, eram submetidos pelos bandeirantes. E muitos se dispunham a lutar para não perder a liberdade que seus antepassados gozaram e que, acreditavam, seria também deles por direito natural. De modo que não havia, entre os Kaingang de Nonoai, unanimidade a propósito do aldeamento. Também não ajudava em nada o zum-zum de que alguns rekakê-pai, atiçados pelo vislumbre de tomarem o poder das mãos de Nonoai, estariam cogitando lançar-se numa alucinada aventura com o propósito de o eliminarem. Segundo o que Condá soube por seu kuiã, a peripécia estava sendo articulada junto com alguns kuiã que, desgostosos da boa acolhida dada por Nonoai ao padre Penteado, queriam impedir que o missionário cristão tivesse permissão para pregar aos membros da tribo.
No sábado da semana seguinte, já em fins de outubro de 1845, a comitiva do cacique Nonoai chegou até a povoação de Passo Fundo na companhia do cacique Condá. O grupo dirigiu-se, inicialmente, à Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Lá, o padre Penteado fez uma prece de agradecimento pelo sucesso da viagem. O sino badalou em demonstração de regozijo e logo muita gente acorreu para ver do que se tratava. Um emissário foi avisar Fagundes dos Reis da chegada da comitiva do cacique Nonoai. O comissário, encantado com a notícia, também se dirigiu para lá. Não demorou para a capela ficar lotada. A recepção a Nonoai se revelou amável e calorosa. Condá foi apresentando o cacique para as pessoas que desejavam conhecê-lo.
Depois da visita à capela e da prece de ação de graças, foram todos para a Fazenda Nossa Senhora da Conceição. Ali o cacique Nonoai e sua comitiva de índios iriam ficar acomodados em um dos galpões para visitantes. Ao chegarem, o comissário convidou Nonoai, Condá e o padre Penteado para, no dia seguinte, domingo, assinarem solenemente a Carta de Intenções. A assinatura se daria depois da missa e a cerimônia seria realizada no escritório do comissário, em sua casa. Fagundes dos Reis pediu a Condá que explicasse que seria um documento bem simples e genérico, apenas descrevendo as características da área escolhida para o aldeamento e a disposição dos dois lados em discutir os termos e as regras do acordo em um documento a ser assinado pelo presidente da província.
O cacique Nonoai ouviu, com expressão impassível, a explicação que Condá lhe deu, no idioma Jê-Meridional, a língua dos Kaingang. Condá explicou sobre o evento do dia seguinte e sobre as características do documento a ser assinado. Nonoai reafirmou a Condá que seguiria as recomendações dele. E lhe disse: “Se eu não puder confiar no meu irmão Condá, o mais sábio dos Kaingang na questão dos fóg, então pouco restaria de esperança para o nosso povo”. Foi a esta altura que o padre Penteado teve uma ideia que apresentou ao comissário e a Condá:
— Excelência, senhores, acabo de ter uma ideia que só me poderia ter sido inspirada pelo Espírito Santo: gostaria de sugerir que o documento entre o governo e o cacique Nonoai fosse firmado amanhã, na Capela Nossa Senhora da Conceição Aparecida, durante a Santa Missa. Que mais bela oferta ao nosso Pai Eterno poderia haver que um acordo de pacificação firmado entre nossos povos?
O comissário se mostrou surpreso:
— Mas o reverendo acha que seria uma boa ideia misturar este assunto tão, digamos, terreno, com a celebração da missa?
— E por que não? – Retorquiu o padre Penteado. – A paz é sempre a melhor oferenda que podemos oferecer a Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus, segundo está escrito em Isaías, é o Príncipe da Paz. Acredito, como todos aqui presentes, que este acordo pode pacificar toda a nossa região. E a paz é o que o Conde de Caxias nos quer legar ao pacificar a província após a sangrenta confrontação da Guerra dos Farrapos. E foi do pacificador, do presidente da província, que recebi a incumbência de trazer os índios para a fé cristã. E o que é mais cristão do que promover a paz? O que é mais cristão do que conciliar inimigos e fazer todos se sentirem irmãos? O que é mais cristão do que mostrar a todos que obedecemos ao mandamento de nos amarmos uns aos outros? Eu, de minha parte, não sou jesuíta, mas concordo que devemos sempre buscar o bem maior e a “comunhão dos ânimos” de que falam. Porque é disto que se trata.
O comissário, um tanto contrafeito, se curvou aos argumentos do padre Penteado:
— Meu dileto padre Penteado, se vossa reverendíssima assim pensa, e assim se sente inspirado a proceder, jamais seria eu a me opor. Se o cacique Nonoai também estiver de acordo, podemos firmar o documento na frente da congregação.
Condá gostou muito da sugestão e aprovou a ideia de imediato. Para os índios, especialmente para os Kaingang, os símbolos eram a parte mais sagrada de qualquer acordo. Os brancos tinham a escrita. Os índios tinham a simbologia das marcas e os traços e círculos que distinguiam suas metades. Ele sabia que, tanto para os colonizadores quanto para os índios, o simbolismo seria muito forte. O compromisso feito na capela e na hora da missa, com as bênçãos da Igreja, iria se impor com o respeito. Condá traduziu a sugestão para Nonoai, explicando o fato de que o documento seria firmado por ele e pelo comissário diante do povo e na casa de Deus.
Nonoai novamente concordou com Condá, mas o fez após uma certa hesitação. Cogitou que seus kuiã não ficariam nada contentes com a assinatura do importante documento para a tribo se dar durante a cerimônia religiosa do padre Penteado. Todavia, pesando os prós e contras, o grande Pai-bang considerou que aquele era um momento histórico e aquela cerimônia marcaria a histórica de seu toldo. Nela estariam presentes, além dos fiéis brancos da povoação, muitos índios de seu toldo e das subtribos espalhadas por toda a região. E a celebração teria a ele, Nonoai, no Centro de um ritual fóg. Só esta circunstância já dava ao cacique uma auréola de respeitabilidade e o ajudava nos esforços de convencer os Kaingang a aceitar o aldeamento. O relevo dado a ele em uma celebração pública dos colonizadores seria, por extensão, dado a todos os Kaingang. Seria mais um fator a aplacar o sentimento de frustração vivido por muitos dos índios rebeldes. E assim ficou combinado como seria formalizado o acordo na manhã seguinte.
O padre Penteado ficou feliz em saber que a sugestão tinha sido aceita. Mas seu espírito não sossegou. Ao deitar-se, não conseguia conciliar o sono. Uma dúvida o assaltava. Mesmo a um sacerdote, os fantasmas da noite sempre fazem os problemas crescer. Em primeiro lugar, não existia um rito estabelecido para acomodar a assinatura de um documento entre brancos e índios durante o Ofertório. Chamar o comissário e o cacique Nonoai durante o momento solene do Ofertório lhe parecera uma boa ideia, mas agora sobravam dúvidas. Que tipo de missa deveria celebrar? Formação de aldeamento com missa era algo que nunca vira ser feito. Por certo, havia um rito para casamentos com missa. Ou batizados com missa. Mas casamentos e batizados são sacramentos. A assinatura de uma Carta de Intenções para formar um aldeamento pode até ser coisa sagrada, mas sacramento não é. E o direito canônico, ao que sabia, não contemplava este tipo de celebração.
Ele lembrou, então, que existe um tipo de missa que envolve um evento particular que não é um sacramento. É a missa de exéquias. Uma missa de corpo presente. Mas não era o caso. Aliás, nem de longe ele queria a ideia de morte na missa do acordo. Cogitou por um instante seguir o rito de um casamento com missa. Nesse tipo de cerimônia, o casamento se dá após iniciada a celebração. O celebrante chama os noivos, cada um declara sua fidelidade, o casal recebe a bênção e, pronto, estão casados. A missa passa a ser uma espécie de celebração de ação de graças. A solução parecia boa, mas podiam sobrevir críticas. Temeu que, se chamasse para altar o comissário e os caciques Nonoai e Condá durante os ritos iniciais, ficando os representantes do governo de um lado e, do outro, o cacique Nonoai e as autoridades indígenas, os rekakê-pai e kuiã, haveria quem o censurasse por acolher no altar da eucaristia os “bugres selvagens”, os “pagãos”, em uma cerimônia de celebração da comunhão.
Dado o estado ainda conturbado das relações da Igreja da província com a autoridades eclesiásticas da capital do império, não lhe parecia prudente fazer algo que as pudesse desagradar. As autoridades da Igreja, em geral, não aprovavam nada que não fosse estritamente ortodoxo. Embora raramente escancarada, a verdade é que nem todos os dignitários da hierarquia da Igreja eram favoráveis aos acordos de aldeamento que vinham sendo promovidos pelas autoridades civis. Era bem pouco cristão, mas haviam prelados que olhavam atravessado para a convivência pacífica com os índios.
Então, uma maneira de tornar palatável aos críticos a assinatura do acordo no altar seria fazê-la antes iniciar a celebração… Sim! Heureca! Eis aí a solução. A grande maioria do povo ficaria agradada da mesma maneira ou não iria nem saber a diferença. O que ficaria claro para todos é que um acordo havia sido consumado sob as bênçãos da Igreja. Seria o primeiro passo para um entendimento auspicioso e que, mercê de Deus, seria duradouro e benfazejo. Definida a opção, o padre sossegou. Fez uma prece emocionada agradecendo ao Espírito Santo. Só poderia ter sido dele a inspiração para a solução tão bem-vinda. Então, com o coração leve, puxou o cobertor e adormeceu.
A missa foi um sucesso além do que imaginara. A capela cheia e muita gente do lado de fora, se acotovelando e querendo entrar. O tempo foi um presente dos céus. O sol iluminando as coxilhas, e a temperatura agradável e uma brisa que fazia tremular a bandeira do império hasteada no mastro improvisado faziam a celebração ter um colorido alegre. A grande e inesperada surpresa da abertura da primeira parte da cerimônia foi a presença de Thiago, Thereza e seus filhos. Thiago veio com seu acordeom e Thereza veio trazendo seu violino. Ambos, com o acompanhamento dos filhos, iniciaram o evento cantando Jesus, a Alegria dos Homens. A melodia foi interpretada no original em alemão: Jesus bleibet meine Freude. A obra prima de Bach, com a melodia entoada pelos meninos e com a música executada com impecável virtuosismo pelo acordeom do pai e pelo violino da mãe, fez a celebração na singela capela perdida no planalto da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul adquirir a solenidade de uma catedral vienense.
A música, uma-obra prima de sensibilidade e esplendor, encantou a todos. Diante da beleza transcendente daquele hino de louvor ao criador, não podiam ficar indiferentes nem brancos, nem negros, nem índios, nem quaisquer criaturas humanas que tivessem alma. O padre Penteado havia convidado o casal para tocar na cerimônia, mas não contava que viria um coral e instrumentistas que dariam brilho especial àquela celebração. A custo conteve a emoção e, em meio a lágrimas envergonhadas, que enxugou discretamente, elevou uma prece de gratidão. Sim, Deus era misericordioso com ele. Nunca, como naquele momento, sentiu que havia feito a escolha certa. De que importavam as comodidades da Província de São Paulo quando sua alma ganhava o conforto de levar os ensinamentos da civilização para aquela gente que descobria a beleza e as promessas do cristianismo?
E, assim, foi sob os auspícios da bela música tocada pela família Miranda que o comissário Joaquim Fagundes dos Reis subscreveu a Carta de Intenções. Para assinar seu nome usou a caneta de aparo de cabo de prata e o tinteiro pertencentes ao padre Penteado. Eram peças requintadas que formavam um precioso conjunto de escrita que o padre havia recebido como presente dos pais por ocasião de sua ordenação sacerdotal. Ele só as usava em momentos solenes. Com o mesmo aparo, o cacique Condá assinou os documentos a rogo do cacique Nonoai, que não sabia assinar ao modo dos fóg, mas convalidou a assinatura colocando sua impressão digital. Para entintar o polegar usou uma almofada de feltro de algodão acondicionada em um estojo de vidro. Era a peça que o padre Penteado usava para obter a chancela digital estampada nos registros de casamento. No momento de apor a impressão digital, o cacique Nonoai foi ajudado por Condá, que molhou o polegar do grande Pai-bang na almofada tinteiro e o colocou no rodapé do documento.
Finda a formalidade da assinatura, todos voltaram a seus lugares e o padre Penteado deu início à Santa Missa, entoando a invocação trinitária: In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. A missa solene que celebrou a seguir foi inesquecível aos que estavam presentes. Para a maioria foi a primeira vez em uma celebração em que os colonizadores e os índios dela compartilharam juntos. E em que ambos tiveram um papel de igual peso, em um congraçamento que unia suas aspirações e seus destinos. E, para a alegria de todos, a missa se converteu em concerto, uma audição musical inesperada que teve o brilho da interpretação de músicas litúrgicas interpretadas por Thiago, Thereza e os três filhos. Formando um coral, cantaram hinos sacros para a Abertura, o Kyrie Eleison, o Glória, os Salmos, a Aclamação ao Evangelho, o Ofertório, o Sanctus, e, finda a missa, após o Ite, Missa est, ainda presentearam os fiéis com o Aleluia, do oratório Messias, de Händel.
Terminada a cerimônia, os presentes saíram para o pátio fronteiro à capela. Ali, o clima era de total confraternização. Brancos, índios e negros, inclusive os escravos vindos de Porto Alegre como condutores das mulas cargueiras, todos formavam um público que havia se deixado emocionar pela música da família Miranda. Todos comentavam o inspirado sermão do padre Penteado, que, uma vez mais, havia utilizado palavras do padre Vieira, seu pregador favorito. A prédica teve como tema a igualdade dos homens como precondição para a obtenção da paz: “Sem a igualdade, e a igualdade com todos, não há paz”.
Iniciou sua homilia, como gostava de fazer, preparando a assembleia para ouvir os ensinamentos do padre Vieira:
— Queremos paz. E porque queremos paz estamos hoje aqui reunidos com o propósito de plantar uma semente desta planta sempre frágil e preciosa. Hoje, aqui, nossa autoridade pública assinou com o cacique Nonoai um documento que deve se constituir em um marco no convívio pacífico de nossos dois povos. Faço votos de que seja um marco de paz duradouro. Mas precisamos estar atentos e ser vigilantes.
E continuou seu sermão, agora destacando palavras do padre Vieira:
— O padre Vieira nos admoesta para não nos enganarmos sobre a paz: Não há Paz no Mundo. Enchem a boca de paz, e não há tal paz no mundo. E senão, quem há tão cego, que não veja o mesmo hoje em toda a parte? Dizem que há paz nos reinos, e os vassalos não obedecem aos reis; dizem que há paz nas cidades, e os súbditos não obedecem aos magistrados; dizem que há paz nas famílias, e os filhos não obedecem aos pais; dizem que há paz nas pessoas particulares, e cada um tem dentro de si mesmo a maior e a pior guerra. Havia de mandar a razão, e o racional não lhe obedece; porque nele, e sobre ela domina o apetite. A paz do mundo é guerra que se esconde debaixo da paz. Chama-se paz e é lisonja: chama-se paz, e é dissimulação: chama-se paz, e é dependência: chama-se paz, e é mentira, quando não seja traição”.
Fez uma pausa para enfatizar o ponto que queria destacar:
— E, ainda mais, o padre Vieira chamou os homens de bem à responsabilidade e advertiu aos poderosos deste mundo:
“Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos”.
Ao encaminhar o fim de sua prédica, o padre Penteado usou as palavras do padre Vieira para concluir:
— Assim, caríssimos irmãos, hoje estamos aqui para assumir nossa parte, ainda que pequena, ainda que minúscula, mas jamais insignificante, na construção da civilização cristã nesta província abençoada que tem como patrono São Pedro, o primeiro dos apóstolos. Ainda que não sejamos nem príncipes, nem reis, nem imperadores, nem monarcas do mundo, somos corresponsáveis pela obra na vinha do Senhor. Hoje, nesta celebração, convido a todos, na qualidade de filhos do Altíssimo e irmãos em Cristo, a assumirmos a tarefa bendita de promover a harmonia e a paz. Convido a tomarmos nos ombros a parte que nos cabe na obra de construir a paz zelando pelo sucesso do entendimento recém-assinado e do qual somos testemunhas.
Se juntarmos nossas forças, nossas vontades e nossa fé, haverá paz entre brancos e índios. Haverá boa vontade e respeito do governo da província ao povo Kaingang. Eu, como ministro do Senhor, recebo com humildade a parte de responsabilidade que me cabe. Quando o grande padre Vieira admoesta a nós, sacerdotes, e nos manda ver as calamidades universais e particulares da Igreja, os destroços da Fé, o descaimento da Religião, o desprezo das Leis Divinas, o abuso dos costumes, os pecados públicos, os escândalos, as simonias, os sacrilégios, a falta da doutrina sã, ele não perdoa nossa eventual incúria, nossa passividade e nossa pusilanimidade que resulta na condenação e na perda de tantas almas. E falo com o coração aberto a todos vós, a todos que se fazem presentes nesta cerimônia alvissareira, que abraço como amigos fraternos, e digo que me disponho a tomar a meu encargo o que me incumbe fazer; digo que assumo a obrigação de tomar posição desabrida em favor da igualdade entre os filhos de Deus, sejam eles brancos, negros ou índios. E digo que não me furtarei em defender a igualdade entre todos, brancos, índios, negros e quaisquer raças. Aceito, sem medo, o repto que me lança, como sacerdote, o maior orador da cristandade. Com desassombro, abro meus olhos para ver o que deve ser visto e me lanço na tarefa de fazer o que deve ser feito. O sucesso deste acordo abrirá aqui, no Alto Uruguai, uma senda de paz por gerações. E seu sucesso vai depender de nosso protagonismo no grande enredo da civilização do Brasil. Contudo, advirto sem peias, precisamos estar atentos. Precisamos ser diligentes. Precisamos ser vigilantes para que possamos, com a bênçãos do senhor, evitar a ignomínia de que nos adverte o padre Vieira. Não podemos nos furtar de ver o que devemos ver e nos quedarmos cegos para as intrigas, as mesquinharias e os males que vicejam neste mundo. Se, tal como diz o Evangelho, o pior cego é o que não quer ver; se, por incúria, não quisermos ver os males que nos circundam e nós nos fizermos de cegos diante da discriminação e da injustiça, advirto-vos que não serão cegos os augustos olhos do Senhor. Seus olhos não esmaecem. Seus olhos tudo veem. Seus olhos não se enganam. Seus olhos estão sempre abertos e tudo observam para julgar o modo como age cada um de nós e como agem, neste mundo, os homens que criou para sua glória.
O sermão tinha mexido com as consciências. Na praça em frente à capela, todos queriam demonstrar que não seriam eles os cegos de quem falava o padre Vieira. Muitos dos presentes se enfileiravam diante do cacique Nonoai para dizer a ele que apoiavam o acordo, que se alegravam com a Carta de Intenções assinada e que acreditavam numa nova era de amizade e cooperação entre brancos e índios.
O padre Penteado, de sua parte, continuava sentindo-se em estado de graça. Para ele, ser bom padre era fazer o bem. E promover a paz era o encargo mais nobre. Mesmo que fosse tão somente um fragmento de paz entre os filhos de Deus brancos e os filhos de Deus índios. Regozijava-se o padre por poder enaltecer os índios, tão filhos de Deus quanto os brancos, só que mais fragilizados pelas circunstâncias que viviam. Por consequência, se aquele era um momento de promover a paz, a confraternização era justa, como justificada era a buliçosa alegria de todos.
Com este alegre estado de espírito, ao sair para a praça, o padre Penteado deu de encontro com o comissário. Este o aguardava na sua confortável charrete pensando de molas para levá-lo à Fazenda Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Convidado, o religioso subiu no estribo, o que balançou a charrete evidenciando a qualidade do molejo que a equipava. Comentou:
— Linda charrete, excelência. O molejo é macio como almofada de penas de ganso. O assento tem mais conforto que cama de crina e a vantagem é que o garupa se senta ao lado.
O comissário achou graça no comentário e retrucou:
— Obrigado, reverendo. Mas o que o senhor diz é cruelmente verdadeiro. Tenho observado que os jovens amam a velocidade, enquanto os velhos preferem a maciez. Quando a gente empilha os anos e vai envelhecendo quer é ter mais conforto. Os jovens se comprazem em dormir na relva e montar cavalos fogosos. Já os mais velhos, os alquebrados encanecidos como eu, que têm dores nas juntas, espasmos nas costas e sofrimentos por todo o corpo, preferem dormir em colchões macios e andar em charretes com molas. Mas, enfim, reverendo padre, eu estava esperando aqui para levá-lo à fazenda Nossa Senhora da Conceição. Mandei carnear um boi e uma ovelha e estamos lá, no fogo de chão, assando um churrasco em homenagem aos caciques Nonoai e Condá e para os índios Kaingang. Convidei todo mundo. O tenente Rocha Loures, o irmão dele, João Cypriano, a peãozada da construção da nova estrada. E vou abrir os portões. Todos os habitantes da vila serão bem-vindos e podem ir churrasquear lá à vontade. Especialmente convidei aquele casal de músicos, o ex-mensageiro Thiago, o novo capataz contratado de João Cypriano, e a esposa dele, a alemoa dona Thereza, com os filhos. Espero que nos brindem com sua música maravilhosa. A propósito, reverendo, devo dizer ao senhor que em tantos anos de jornadas mundo afora nunca tinha ouvido música mais sublime. Já estou um tanto velho e curtido para chorar à toa, mas chorei assim mesmo. E não me envergonho de confessar que encharquei o lenço.
O padre colocou o braço nos ombros do comissário, em um gesto de solidariedade fraterna:
— Excelência, saiba que são as almas boas as que sabem sentir e, portanto, conseguem chorar. Nas almas puras, a música faz aflorar emoções. São estas que respingam sentimentos nos olhos e fazem, neles, brotar lágrimas. Lágrimas revelam a poesia da alma. Penso que Deus fez as lágrimas para que elas irriguem as esperanças. Reparei que muitos dos mais ilustres cidadãos da povoação usaram os lenços hoje mais que em domingos frígidos de inverno. Portanto, devo deduzir que quase todos foram tocados pela música que, deveras foi, me cumpre reconhecer, emocionante. A música com que esta família nos brindou nesta manhã foi coisa muito especial, foi coisa muito inspirada. Acho mais, a música foi um bom presságio divino.
O Comissário sorriu ao responder:
— Faço votos que assim seja. Ademais, me dá alívio saber que minhas emoções tiveram companhia. Cheguei a temer que havia amolecido além da conta e estava ficando ranheta.
— Qual o que, excelência. – Retorquiu o padre Penteado. – Vosmecê está apenas mais sábio e atinado. A música é um maravilhoso dom de Deus. A música tem uma dimensão divina que ultrapassa a compreensão humana. No livro de Jó, o mais antigo das Escrituras, está escrito que, quando Deus fundava a Terra, as estrelas da alva cantavam e todos os filhos de Deus rejubilavam. Portanto, a música existe no reino de Deus desde a criação do mundo. Admito que a boa música faz massagens em minha alma. Até suspeito, como dizia o padre Vieira, que a música seja um estratagema de Deus para comover os corações humanos, atraí-los e fazê-los se irmanarem sob os mesmos sentimentos. A música tem o condão de fazer os muros que separam os homens caírem, tal como caíram os muros sob as trombetas de Jericó.
O comissário achou de fazer graça com seu amigo:
— Pois quero que saiba que eu também acho que a música existe antes da criação do mundo. Eu, cá, não sou tão erudito e nem tão versado em citações dos sábios de antigamente como o senhor, mas acho bem oportuno citar Platão, que afirmava que “A música dá alma ao universo, asas à mente, voo à imaginação e vida a tudo”. Quer dizer, Platão concordaria com sua opinião de que a música tem uma dimensão divina que ultrapassa a compreensão humana.
O padre Penteado pensou para responder. E, quando o fez, abriu um amplo sorriso:
— Meu caro comissário, perdoe-me se me fiz parecer um tanto pretencioso. Agradeço que me qualifique como erudito, mas sou apenas um padre biriva curioso das coisas de Deus e do mundo e que, pelos insondáveis desígnios do Senhor, veio dar com os costados por estes pinheirais.
O comissário bateu com as rédeas para seu cavalo partir, enquanto respondia:
— Não vejo mal nenhum na erudição, padre. Muito pelo contrário. Mas que mal lhe pergunte, ante a sua eloquência, tenho a impressão que o senhor de tal modo se encantou com a música da família de Thiago e Thereza que ela o derreteu feito manteiga no sol.
— Bem observado. Reconheço que me deixei cativar. Acontece que meu coração ainda se encanta com as maravilhas deste mundo de Deus. Aliás, uma coisa de que sinto falta por estas plagas é de boa música. Talvez por isto a beleza das interpretações da família de Thiago me tocou fundo e, por instantes, me senti em êxtase, arrebatado como Santo Elias. Esqueci até que estava rezando a missa. Quando me dei conta, estava segurando no alto a hóstia consagrada por tanto tempo que meus braços doeram.
O comissário voltou a retrucar com jovialidade:
— Certamente, arrebatado como Santo Elias é que não foi, reverendo. Santo Elias foi arrebatado para não voltar mais, enquanto o senhor ainda está aqui em carne e osso. – E continuou, no mesmo tom galhofeiro: – Mas enfim, já que estamos por aqui, com os pés no chão da nossa velha terra, podemos aproveitar o churrasco que mandei preparar antes que ele, sim, seja “arrebatado” por toda essa gente que vem chegando.
Ao adentrarem na fazenda puderam constatar, ao olhar em volta, que, de fato, muita gente ia chegando. Alguns vinham a cavalo, outros a pé, mas já havia grupos de pessoas que ali se ajeitavam. Havia muitos bancos improvisados sob as árvores e as pessoas pareciam desfrutar os bons fluídos daquela manhã benfazeja, cumprimentando-se umas às outras e conversando animadamente. O comissário queria aproveitar a magia do momento.
— Veja, padre, como a paz pode ser bonita. Passando os olhos em volta dá para ver que todo este povo está alegre e tem muita gente chalreando por aqui. Dá vontade de ficar proseando fiado com todo mundo. Infelizmente, ainda que eu seja tentado a ficar para desfrutar de todo este contentamento, a obrigação me manda ir conferir como está o churrasco e como os churrasqueiros estão se saindo. Como sabes, os detalhes são obrigações do anfitrião.
— Eu o sei bem. E tenho como justo que assim seja. – E o padre comentou, com humor, juntando as mãos palma com palma, como se fosse fazer uma oração: – De minha parte, eu sou o feliz anfitrião das almas e a vosmecê cabe ser o telúrico anfitrião das carnes. Cada um com seu mister.
O comissário sorriu um tanto sem graça. Não chegava a ser uma frustração, mas invejava a habilidade retórica do padre Penteado. O Cura parecia encontrar sempre um jeito de se sair bem na esgrima verbal que vez por outra entretinham. Por ora, era melhor bater em retirada e ir ver como andavam as coisas do churrasco. O padre, por seu lado, achou que seria uma boa ideia circular por entre os visitantes. Mal começou a andar reconheceu o capitão Antônio Caetano de Oliveira, que conhecera no Goio-En. Este, ao vê-lo, veio direto ao sem encontro.
— A bênção, reverendo padre. – Saudou o capitão ao estilo tropeiro.
— Deus o abençoe, capitão. – Respondeu o padre Penteado.
— Meu caríssimo padre, queria pedir sua bênção para minha tropa que vou levar pelo caminho novo do Goio-En. Seremos os primeiros a seguir por esta rota e, diante das incertezas do caminho, vamos precisar muito das bênçãos do Altíssimo. Estou levando uma mulada diretamente para nossas fazendas em Palmas e Guarapuava, de maneira que o novo caminho veio mesmo a calhar. De vereda, sem que eu esperasse, surgiu esta graça de São Cristóvão, o padroeiro dos viajantes.
O pedido do capitão Caetano de Oliveira agradou muito ao padre Penteado.
— Capitão, um sacerdote jamais nega uma bênção a quem deseja colocar-se sob a proteção do Senhor Deus. Portanto, terei a máxima satisfação em dar-lhes a minha bênção. Basta dizer-me quando pensam partir que estarei lá.
— Obrigado, reverendo. Pensamos em seguir amanhã pela manhã, bem cedito, à primeira luz da aurora. Mas não quero ser um incômodo. Assim, caso seja muito cedo e o senhor preferir, poderíamos nos reunir para receber a bênção ainda hoje, à tardinha, antes de nos recolhermos.
O padre Penteado, porém, não titubeou:
— De jeito nenhum, capitão. Vou estar contigo na hora da partida. Em minha família temos muitos tropeiros e eu ouço falar das partidas de tropas desde que me conheço por gente. Não vou perder esta de jeito nenhum.
O capitão sorriu apreciativo. Sem dúvida, preferia que a bênção fosse mesmo na hora da partida. Acreditava que os efeitos seriam mais poderosos se pusessem os pés na estrada ainda molhados da água benta.
— Que bom que o senhor pense assim. O pessoal da tropa, a peãozada, vai preferir a bênção na hora da partida, disso tenho certeza.
O padre concordou e explicou o motivo:
— Capitão, penso que eles estão certos. A meu ver, a bênção na hora da partida é mais forte não pela bênção em si, que Deus não tem hora para abençoar, mas porque a bênção é um caminho de duas vias. O desejo da bênção no coração dos abençoados é que faz a diferença. A bênção divina é o melhor presente que nosso Pai do Céu nos pode conceder. Mas, como todo presente, valorizamos alguns mais do que outros. Quando a bênção é fervorosamente desejada, ela entra em nosso espírito com a energia da fé multiplicada por nossos anseios e ali produz efeitos muito mais vigorosos. De maneira que a bênção, sendo dada quando os espíritos a aspiram com mais intensidade, chegará a eles com muito mais força. E é fácil de entender que quando os integrantes da comitiva já se encontram prontos para a viagem, seus espíritos estarão mais bem alinhados com as intenções da bênção de viagem e mais bem preparados para acolher sua manifestação.
O capitão gostou da explicação e até achou de fazer um gracejo:
— Se bem entendi o que o senhor disse, uma bênção com vento a favor seria sempre a mais desejável para nós, pobres mortais, que precisamos das bênçãos do Senhor.
O padre Penteado sorriu e respondeu:
— Se considerarmos a fé como o vento da alma, receber a bênção com a fé a favor ajuda sem dúvida nenhuma. Tanto isto é verdade que São Tomás de Aquino dizia que “Tudo o que é recebido da Providência Divina é recebido de acordo com a natureza de quem recebe”. Uma bênção é uma manifestação divina que alcança o homem como o vento da fé. Deus nos dá o vento da bênção, porém cabe a nós abrir as velas para aproveitarmos sua força.
O capitão respondeu, cofiando o bigode:
— Padre, com vossa vênia, penso que entendi bem o que falou e fico feliz em dizer que, amanhã, estaremos prontos e com a fé de velas abertas para receber vossa bênção, ao romper da aurora. E, com vossa permissão, vou trabalhar nos preparativos da partida. Sua bênção, padre e até amanhã.
— Até amanhã e que Deus o abençoe, meu filho.
O capitão fez uma mesura para significar respeito e tacitamente pediu licença, tocando com os dedos no chapéu de feltro, e se afastou. O padre, a seguir, caminhou em direção a um grupo em que estava João Cypriano e deu a ele as boas novas que acabara de ouvir sobre a partida das tropas do capitão Caetano de Oliveira.
— Eu já tinha sido informado, mas o senhor me alegra com a confirmação. É uma esplêndida notícia. – Afirmou João Cypriano. – Eu estou muito otimista sobre o futuro do novo caminho. Vou investir e criar invernadas em toda a região aqui de Passo Fundo, nos Campos do Erechim, no Vale Dourado e onde for possível no caminho para o Goio-En. Esta região é muito bem localizada e tem trechos ideais para instalar invernadas. São áreas que permitem confinamento do tamanho certo, nem pequenas nem grandes demais. E nestas áreas para invernadas já existe relva abundante e butiazeiros aos milhares. E não é segredo para ninguém que se tem coisa de que mula gosta é butiá maduro. Outra coisa boa é que esta região fica a uma distância ideal de Uruguaiana e São Borja. O caminho até aqui é plano e tranquilo. Para o tropeiro que traz seus muares xucros e quer vir domando suas mulas, aqui é um bom lugar para completar a domas e para o descanso da mulada. Como disse, até aqui o terreno era favorável, plano e de poucas matas. Daqui para a frente o caminho fica mais acidentado e a mulada precisa estar mais calma e sob controle.
O padre Penteado, ainda que oriundo de família de donos de tropas, ia entendendo cada dia mais sobre a realidade vivida pelos tropeiros em sua marcha de 1.600 quilômetros de Uruguaiana, situada no extremo ocidental da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, junto à fronteira fluvial com a Argentina e Uruguai, e o mercado de Sorocaba, em São Paulo.
— Faço votos de que os seus planos sejam bem-sucedidos. E estou ao seus dispor para ajudar no que puder. E, se me permite, estou pesando em pegar um naco das costelas do churrasco do comissário, que estão cheirando divinamente. O caro amigo me acompanha?
— Obrigado, reverendo, mas estou esperando meu irmão. Faça bom proveito. – Respondeu João Cypriano.
Enquanto se encaminhava para o galpão onde era servido o churrasco, o padre viu chegarem Thiago, Thereza e os três meninos. Vinham puxando uma mula em cujas bruacas estavam os instrumentos musicais que haviam utilizado para tocar durante a missa, na capela.
O Cura apertou o passo para alcançá-los.
— Amigos, amigos… Thiago, Thereza… – chamou.
Thiago, Thereza e os meninos pararam e se voltaram para esperar o padre acercar-se. O padre, ao se aproximar, foi logo agradecendo a apresentação musical que haviam dado durante a missa e que não teve ainda a oportunidade de agradecer:
— Amigos, foi magnífico! Foi sublime! Que Deus lhes pague. De minha parte, só posso agradecer. Mil vezes, obrigado. Foi maravilhoso! Hoje, sua música divina fez de nossa humilde capela uma suntuosa catedral. Nem em São Paulo ou no Rio de Janeiro assisti a uma missa com melodias assim encantadoras. Só mesmo ao passar por Roma ouvi missas com música comparável. E esses seus meninos cantam como os rouxinóis da Europa que ouvi lá. Que Deus lhes pague.
Thereza respondeu pela família:
— Senhor padre, foi uma alegria para nós. Especialmente para os guris, que tiveram oportunidade de ver aproveitados seus esforços de muitos ensaios. Portanto, sempre que o senhor desejar e pudermos comparecer, conte conosco.
O padre renovou seus agradecimentos, mas estava curioso:
— Obrigado e, se me permite, vou usar a abusar desta sua promessa. Todavia, dona Thereza, seria muita ousadia de minha parte perguntar onde a senhora aprendeu as melodias das missas cantadas? Ao que me falaram, a senhora segue a confissão Luterana.
Thiago riu e tomou a palavra para responder:
— Padre Penteado, esse é o milagre da música. Lá, em São Leopoldo, vivem tanto imigrantes alemães que professam fé luterana quanto imigrantes que seguem a fé católica. Sei, pelo que contam, que na Europa, protestantes e católicos vivem separados e não se falam, mas quando chegam aqui a realidade que encontram fala mais alto. Aqui descobrem que foram enganadoras as promessas dos agentes do governo que os trouxeram de tão longe. Aqui, é cada um por si e Deus por todos. De modo que, tanto uns como outros, se deparam com as mesmas dificuldades. E aprendem que, para sobreviver, devem se ajudar mutuamente. Felizmente, logo descobrem que têm, entre si, muito mais coisas em comum do que diferenças. Portanto, no Novo Mundo, precisam esquecer as querelas religiosas e aprender a viver em harmonia. Os pais de Thereza eram músicos e tinham amigos nas duas igrejas, na igreja deles e na católica. Como eram bons músicos, eram sempre convidados a tocar tanto numa como na outra. Thereza os acompanhava desde cedo e aprendeu a tocar as músicas com os pais, inclusive as peças das missas cantadas. Foi Thereza que ensinou música a mim e aos meninos. Outra coisa foi que, até alguns meses passados, enquanto durou a revolução, tivemos poucas oportunidades de ir à São Leopoldo, assistir a cultos na capela Luterana. Como eu estava a serviço do governo imperial e estávamos morando na capital, era mais fácil irmos em igrejas católicas. Thereza era conhecida e era convidada para tocar e cantar. Durante as minhas viagens como mensageiro, mesmo quando não podia ir à igreja, Thereza reunia os vizinhos em casa para cantar e formou um pequeno coral. Nele haviam protestantes e católicos e as peças musicais eram executadas sem distinção de fé. Os meninos, assim, aprenderam a cantar os hinos religiosos e as músicas preferidas das duas comunidades.
O padre Penteado ouviu a explicação e concluiu:
— Pois veja como são insondáveis os caminhos do Senhor! O importante é que possamos celebrar sua glória e levar nossas orações ao alto. Eu vos agradeço por isto.
Foi a vez e Thereza intervir:
— Padre Penteado, pode contar sempre conosco. E não é preciso agradecer o que fazemos com alegria. A música nos aproxima de Deus. Meu pai dizia que a música é o milagre que Deus deixou ao alcance dos homens. E louvar ao Senhor com nossa música é a melhor forma de agradecermos ao nosso Criador pelo milagre da vida. Portanto, nós é que devemos dizer muito obrigada pela oportunidade de cantar em sua celebração.
O padre respondeu:
— Seu pai deve ter sido um bom homem. E penso que ele tinha razão. A música é mesmo um milagre que Deus deixou para os homens. Só criaturas de coração insensível podem desgostar do milagroso encanto da música. Hoje, na missa, ao soarem os primeiros acordes, senti como se o Espírito Santo baixasse na congregação. Eu estava apreensivo, pois percebia o cacique Nonoai um tanto desassossegado. Mas, assim que sua música começou, suas melodias o envolveram e logo ele serenou. Eu até já tinha reparado que os Kaingang gostam muito de música. As celebrações Kaingang sempre têm cantos e dança. De maneira que sua música deve ter falado ao coração de Nonoai como falou ao nosso. A música é uma linguagem universal que todos entendem.
A família toda estava agradada pelos elogios que o padre lhe fazia. Ainda foi Thereza que falou por ela:
— Padre, em nossa casa a música é que alimenta nosso espírito e nos faz uma família. Compartilhar nossa música é uma forma de ampliar nossa família. Cantamos e fazemos música porque gostamos e porque acreditamos que, de fato, “quem canta os males espanta”. Quando enchemos nossa vida de música não sobra espaço para maus pensamentos. E, repetindo meu saudoso pai, a música não mente. Quando meus pais visitavam seus doentes levavam os instrumentos e ofereciam tocar para eles. Minha mãe acreditava que a maior caridade da música é fazer as pessoas esquecerem das dores e das misérias humanas. Eu penso que a música leva as pessoas a saírem de suas limitações humanas, sempre egoístas e mesquinhas, e as conduz para o plano do infinito. Envolvidas pela música, as pessoas sublimam seu egoísmo e relevam e esquecem suas diferenças. Em ocasiões como hoje, a música ajuda as pessoas a se darem as mãos, a se irmanarem e a transcenderem. Eu sempre fico maravilhada em ver como a música é poderosa em promover a paz nos corações. Dizem que as palavras convencem e os exemplos arrastam, e é verdade, mas a música é que transforma. A meu ver, nada neste mundo tem o poder da música para fazer desaparecer as diferenças entre os homens. O doutor Walter Sepp, um estudioso das Missões Jesuíticas, contava que os índios Guaranis das reservas dos jesuítas adoravam música. Eles formavam orquestras e corais magníficos, que louvavam ao Senhor em celebrações e festas e tocavam com instrumentos musicais que eles mesmos fabricavam. E faziam música com os sinos nos carrilhões de suas igrejas na hora do Ângelus. Às vezes eu olho para as coxilhas que ondulam pelo horizonte adentro e fico imaginando como deveria ser a música daquelas cidades, cheias de vida, de sonhos e de prosperidade. Nunca deixo de lamentar a destruição das missões. Esta foi uma maldade imperdoável com os índios, com os jesuítas e com a civilização que estava nascendo.
O padre Penteado ouviu em silêncio e admirou-se da lucidez da resposta de Thereza:
— Dona Thereza, ao ouvi-la falar das reduções, ou seja, nas cidades dos índios que floresciam nestas paragens, eu posso sentir a mesma melancolia que sinto em sua voz. E, igualmente, lamento o tolo desperdício de civilização a que a senhora se refere. A propósito, desculpe minha ousadia, mas sendo luterana como pode saber tanto sobre as Missões dos jesuítas?
Thereza respondeu sem pressa:
— Antes de ser luterana eu sou cristã. Sou de família luterana, sim, mas em nossa família sempre valeu mais o que nos une, sejamos católicos ou luteranos, que é o nosso amor ao Deus de Abrahão e de Moisés. O Deus de todos nós. Sou casada com um católico que respeita a religião de minha família, assim como eu respeito a dele. E preferimos manter assim. Acredito que Deus olha o mundo como seu criador, e não como o Deus dos católicos ou protestantes. Os homens podem entender Deus de muitas maneiras, o que é fruto de sua limitação humana. Mas creio que há um Deus só. O modo como vemos Deus depende de onde e como o percebemos e sentimos. É um pouco como vemos o sol. Dependendo do tempo e do lugar, ele pode aparecer brilhante, ocupar o Centro do céu e a tudo iluminar e aquecer. Mas tem dias em que pode estar obscurecido pelas nuvens. Durante a noite, ele se esconde do outro lado do mundo. Mas mesmo quando não o vemos, sabemos que existe e, no tempo devido, voltará a brilhar, iluminar e aquecer. De uma coisa podemos ter certeza: assim como o sol, Deus não irá desaparecer nem nos decepcionar.
O padre concordou:
— Sim, acho que seu exemplo do sol é interessante e faz sentido. Mas voltando às Missões, seu conhecimento a respeito delas não é usual. Eu mesmo tenho apenas conhecimentos superficiais.
Enquanto falavam foram em direção ao galpão do churrasco e se sentaram em uma mesa rústica que havia sido reservada para o padre Penteado e que ostentava, escrito em giz sobre o tampo de pranchas de madeira, um aviso de “reservada para o Senhor Vigário”. Enquanto Thiago e os meninos foram na churrasqueira buscar os espetos, salada de batatas e pão, Thereza continuou a contar ao padre sobre as Missões dos jesuítas:
— Eu nunca tinha ouvido falar sobre a história das Missões até que, em uma ocasião, nos veio visitar um amigo de meus pais, o doutor Walter Sepp, que era professor de uma universidade na Europa e veio até a província para estudar in loco as realizações de um seu antepassado do ramo austríaco da família. Este seu parente tinha sido missionário jesuíta aqui no Sul, na região das Missões, e teve um papel importante no desenvolvimento de uma das cidades dos índios. Ele contou a história deste seu parente e eu fiquei de tal modo atraída por sua narrativa que, depois, procurei saber mais sobre aquele período. O que eu li e fiquei sabendo foi que o Marquês de Pombal, o primeiro-ministro de Portugal na época, que era inimigo dos jesuítas por questões políticas e econômicas, expulsou mais de 600 padres daquela ordem que trabalhavam no Brasil. Foi ele que mandou fechar as missões dos padres jesuítas daqui. A razão, como o padre haverá de bem saber, é que os jesuítas tinham se tornado uma força muito poderosa aqui no Novo Mundo. As reduções estavam se consolidando como cidades com alguns milhares de habitantes e se convertendo em uma força política independente dos governos de Portugal ou Espanha. Bem-organizados, disciplinados e empreendedores, eles tinham transformado suas missões em verdadeiras empresas. No Norte do Brasil, consta que possuíam diversas fazendas e tinham mais de 100.000 cabeças de gado. Na Argentina, na região das Missiones, eles fundaram as fazendas de criação de muares que, no início, atenderam às necessidades de transporte das minas de prata do Peru e, depois, quando aquelas minas foram se extinguindo, passaram a ser vendidos no Brasil e são, até hoje, a principal origem das mulas cargueiras levadas pelos tropeiros para serem vendidas em Sorocaba. Esses animais cargueiros são fundamentais para a economia do país, e são indispensáveis em São Paulo, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e em muitos outros lugares do império. O país é ainda pouco habitado, de natureza muito acidentada e tem poucas estradas carroçáveis, mas as mulas trafegam em simples caminhos, atravessam rios e sobem e descem ravinas de forma rotineira. O resumo da história é que, aqui na Província de São Pedro do Rio Grande, na peleja entre o governo português e os jesuítas, quem mais sofreu foram os índios Guaranis, que ficaram entre a cruz e a espada. Ao que sei, o Marquês de Pombal não era inimigo dos índios. Tanto que proibiu que fossem escravizados e permitiu o casamento religioso entre portugueses e índios. A questão era mais política e a birra do marquês era com o poder dos jesuítas.
— Interessante. – O padre Penteado passou a mão nos cabelos desgrenhados pelo vento e comentou: – Eu não estou informado de muitos destes detalhes. Hoje, na Igreja, não se fala mais nisto e o Marquês de Pombal, depois que caiu em desgraça em Portugal, se tornou um nome execrado.
Thereza acrescentou:
— Deve ser mesmo e acho que é possível entender os motivos. O que aconteceu aqui foi que o conflito com os jesuítas condenou as reduções dos índios a um fim inglório e redundou no fim das Missões da margem oriental do Rio Uruguai. Depois da expulsão do Brasil, os padres jesuítas voltaram para Portugal e lá continuaram inconformados. Por causa do conflito, o padre Gabriel Malagrida, que tinha sido o superior dos jesuítas no Brasil, acabou sendo queimado na fogueira em praça pública. O padre Malagrida deve ter se sentido encurralado e reagiu com críticas ferozes. A maior delas foi quando o jesuíta escreveu um panfleto dizendo que o terremoto que havia destruído Lisboa em 1755 não se devia nem aos “cometas, nem às estrelas, nem aos vapores ou exalações”. Segundo escreveu, “a culpa não era dos fenômenos, nem das contingências ou causas naturais”; a culpa, decretou, era dos “pecados intoleráveis de Portugal”. Ou seja, culpou o rei. Malagrida escreveu que não sabia como uma pessoa podia se dizer católica e se “atrever” a dizer que a calamidade do terremoto era devido a causas naturais. E incluiu uma afirmação que a mim, protestante, me assombrou: ele disse, referindo-se à Deus como o “dono do mundo”, que “esses católicos não entendem que este mundo não é uma casa sem dono”. Ora, isto o marquês não podia engolir. Como assim? Claro que o mundo tinha dono! E não seria Deus, que este não cuida das mesquinharias dos homens. Em Portugal, o dono seria o Rei Dom José I, estabeleceu o primeiro-ministro e, após tal dito, o marquês tomou o poder do rei, dizendo “aqui quem manda sou eu, que cuido das coisas do rei”.
O padre Penteado achou curioso o modo como Thereza concluiu o relato. Coçou a cabeça enquanto retorquia:
— Mas que barbaridade, dona Thereza. Por coisas assim é que eu digo que todos os conflitos do mundo começam pelo desrespeito às coisas de Deus. Mas, com sua vênia, em certo sentido eu me ponho de acordo com o infausto padre Malagrida. Ele devia ter respondido: “Pois eu cuido das coisas de Deus”. Acredito, pela minha fé, que, sim, foi Deus que criou o mundo e, sim, Ele continua sendo o dono. E, neste sentido, seria blasfemo dizer que o dono do mundo, ou mesmo de um pedaço mundo, seria o rei de Portugal.
Thereza assentiu com a cabeça. No fundo, esta discussão não fazia sentido para ela. Os protestantes eram seguidores do princípio da Sola Scriptura (“Só a Escritura”, em latim). Isso significava que, para os luteranos, o que vale é o que está escrito na Bíblia. Para os alemães, a Bíblia de Lutero, traduzida para o alemão e publicada por Martinho Lutero, impressa pela primeira vez em 1534, e responsável em grande parte pela consolidação da própria língua alemã, era a fonte de revelação unanimemente aceita pelos luteranos, e não era concebível fazer doutrinas fora dela. Na Alemanha, acreditava, uma figura com as grotescas ideias do Marquês de Pombal nunca teria existido.
A questão, contudo, estava posta. Por isto, respondeu cautelosa:
— Sim, o Marquês de Pombal por pouco não teve o fim do padre Malagrida e só safou-se da fogueira por um triz. Ele escapou por muito pouco, é o que nos contam os livros de história. Mas isto é entre ele e o Criador. No que me diz respeito, o que temos mais a lamentar é que na região das Missões milhares de índios foram traídos e vitimados como peões do xadrez político jogado entre Portugal e Espanha. E, ao fim e ao cabo, todo o penoso trabalho de civilização feito aqui foi destruído para sempre. Ainda assim sobreviveram efeitos de sua obra nos legados que ainda hoje desfrutamos. Basta lembrar os milhares de cabeças de gado que se criaram abandonados nas vacarias e que ainda vêm sendo encontradas para abastecer as charqueadas, alimentar nossa gente ou sendo levadas para o mercado de Sorocaba. E também temos os muares que vêm das estâncias fundadas pelos jesuítas na Província de Corrientes, na Argentina. São estes os muares que os tropeiros vêm buscar em São Borja e levam para vender em São Paulo. Como disse, são as mulas e burros das fazendas jesuítas que transportam a riqueza do Brasil.
A conversa estava naquele ponto quando Thiago e os garotos chegaram carregando os espetos com mais de 1 metro de comprimento e com os enormes nacos de 2 palmos de carne assada ainda pingando. O Padre Penteado saudou a chegada do churrasco com um aplauso de brincadeira:
— Meu caro Thiago, que beleza de escolhas. Um espeto de alcatra ao ponto e um espeto de costelas crocantes. Churrasco assim não tem em São Paulo.
— Nosso churrasco de fogo de chão, feito na valeta e assado com capricho e sem pressa, é o melhor do mundo. É o que dizem os alemães que vieram da Europa e os navegadores portugueses que viajaram em outros continentes. – Thiago respondeu com um sorriso, enquanto colocava os espetos deitados na mesa sobre folhas de bananeira. Era para evitar que se sujassem.
Os guris trouxeram a salada em bandejas de taquara trançada do artesanato Kaingang e forradas com folhas de bananeira. Thiago, com a faca afiada e a prática de peão, foi cortando os nacos de carne e servido as postas em pratos também improvisados com folhas de bananeira. Terminado o churrasco, Thereza aproveitou para falar ao padre Penteado de um pedido que trazia do seu paciente, Alarico de Góis Saldanha:
— Reverendo Padre, com sua permissão, eu sou portadora de um pedido para Vossa Reverendíssima.
O padre voltou-se para Thereza, que se sentava no banco do ouro lado da mesa.
— Sim, dona Thereza. De que se trata?
Thereza, incialmente, perguntou se o padre lembrava do engenheiro da obra da estrada que havia quebrado a perna:
— O senhor deve saber daquele cavaleiro que quebrou a perna naquele acidente na carreirada de uns tempos atrás, o Alarico Saldanha. Aquele engenheiro capataz da nova estrada para o Goio-En, que está sendo tratado na casa do comissário, pois não?
— Sim, sem dúvida, lembro dele, claro. Como não iria lembrar? Aquele acidente foi mesmo uma barbaridade sem tamanho. – Foi a resposta do padre, que perguntou em seguida: – E como está ele?
Thereza o pôs a par da evolução do tratamento de Alarico:
— Está bem melhor agora, mas houve um momento em que ficamos preocupados. A ferida dele inflamou e pensei que teríamos que amputar sua perna, mas, mercê de Deus, uma das mucamas do comissário conhecia uma índia, filha de um kuiã, que aplica a medicina dos Kaingang. A garota índia veio e começou a tratar a ferida na perna dele com aplicações de mel e plantas medicinais e o resultado foi quase milagroso. A inflamação cedeu e depois de duas semanas de tratamento o inchaço desapareceu por completo. Eu mesma fiquei surpreendida com a medicina dos Kaingang. Aos poucos a ferida cicatrizou. Ele ainda precisa ficar em repouso por mais um tempo para soldar bem os ossos, mas tudo indica que a perna vai ficar boa e ele vai voltar a andar e a ter uma vida normal.
O padre deu um suspiro de alívio:
— Que bom ouvir isso. – E continuou: – Mas a senhora disse que tinha um recado. Seria desse senhor Alarico?
— Sim, reverendo, o recado é da parte dele. Como o senhor sabe, estou encarregada dos cuidados ao senhor Alarico e, ontem, quando o doente soube que eu iria hoje à capela, pediu-me para interceder com o senhor para que fosse vê-lo na casa do comissário. Ele pede para vosmecê ir lá, já que ele ainda não pode ir até sua casa.
— Ele deseja falar comigo? – Reagiu surpreso.
— Sim, reverendo, é precisamente isto. O nosso doente deseja receber sua visita lá, se possível.
– Claro que é possível. Imagine. Se ele me pede para visitá-lo, certamente que vou. Apenas fiquei surpreso porque ele nunca se mostrou muito devoto e não lembro de ele ter se aproximado da capela. Contudo, minha missão, como pastor, é a de cuidar dos que precisam de mim. E, sendo que já terminamos de comer e ficar por aqui é me expor à tentação de pecar pela gula, acho que o melhor é ir lá agora. – Respondeu, com um sorriso, o padre Penteado.
Thereza se dispôs a acompanhá-lo. Afinal, Alarico era seu paciente. Pediu a Thiago, que ficara bom amigo do capataz acamado, para ir com ela. Os meninos foram liberados para permanecer na festa, que estava animada com músicas e cantorias das quais eles participavam com grande entusiasmo. Antes de sair, o padre Penteado foi ao encontro do comissário para agradecer o churrasco e explicar que iria para a casa dele em visita ao acamado Alarico. O comissário propôs que fossem em sua charrete. Ele mandaria um de seus escravos levar a ele, Thereza e Thiago.
O padre agradeceu, mas perguntou:
— Excelência, obrigado pela oferta, mas não sei se devo aceitar. A charrete só tem um banco e quatro, com o charreteiro, não fica um tanto pesado e um tanto apertado?
O comissário riu e respondeu:
— Por isto não, reverendo, que o banco é largo, a charrete é forte e o cavalo aguenta, mas pensando bem, concordo que seria uma desatenção com uma dama como dona Thereza fazê-la ir em meio ao aperto e ao desconforto. Assim é melhor vosmecê conduzir a charrete e meu serviçal os acompanha a cavalo. Na volta, ele vem na charrete e traz o cavalo a reboque. Assim fica mais adequado.
O padre concordou, mas ainda insistiu proforma:
— Obrigado, excelência, mas eu bem posso ir a pé…
O comissário fez uma expressão impaciente:
— O que é isto, padre Penteado, faço questão. É óbvio que não vou deixar o senhor ir a pé. E vou aproveitar sua ida lá em casa para enviar um espeto de churrasco e uns pertences servidos com as carnes para o Alarico e para as moças que o atendem. Penso especialmente em Dona Mimosa, aquela mocinha índia que vem se mostrando uma santa donzela nos cuidados que presta com especial desvelo às feridas do acidentado.
— Então está bem, excelência. Vosmecê é quem manda. E lhe fico grato por sua generosidade.
No trajeto, o padre Penteado indagou Thereza sobre o comentário do comissário a respeito da índia de nome Mimosa, que estava ajudando no tratamento de Alarico.
— Dona Thereza, o senhor comissário me falou desta indígena que vem ajudando no tratamento das feridas do senhor Alarico.
Thereza respondeu, aproveitando para mostrar sua admiração pela jovem índia:
— Acho que ele se referia à Mimosa, a jovem nativa que é filha de um kuiã e tem um enorme conhecimento da medicina dos Kaingang. Ela, por ser mulher, não pode ser kuiã, mas acredito que saiba mais sobre a medicina da tribo do que muitos dos kuiã homens. E seus conhecimentos sobre as propriedades do mel e das ervas medicinais são quase milagrosos. E, com sua licença, padre, só não vou dizer que a vinda da moça foi um milagre divino para não invocar o nome de Deus para essas coisas do mundo que são, sim, fruto da misericórdia divina, mas que a nós, criaturas de Deus, incumbe cuidar.
O padre Penteado ficou muito interessado no que Thereza dizia:
— Que maravilha, dona Thereza. Não me diga! Eu, cá, não sabia que os nativos tinham uma medicina tão avançada. Agora mesmo é que fiquei curioso em saber que tratamento tão miraculoso seria este. E, se me permite, caso esta moça tenha vindo por intercessão da providência divina e seu conhecimento da medicina nativa seja de natureza miraculosa mesmo, não há por que nos escusarmos de agradecer ao Altíssimo. Aliás, para permanecer no contexto do vosso exemplo, o Espírito Santo de Deus, mesmo escondido nas nuvens, distribui as pequenas graças cotidianas a mancheias. O fluxo dos pequenos milagres que vêm de bondade divina, o fluxo das bênçãos que nos são dadas a todo o momento, deve, penso eu, ser aceito com humildade e contrição. Penso, claro, que, de todos os milagres, o maior é a dádiva da vida. Mas viver é uma arte exigente. Requer sabedoria. Requer que saibamos viver de modo a realizar o projeto que Deus tem para nós. Viver nossa missão terrena é a condição necessária para alcançar paz de espírito, que é a base em que se assentam a saúde, a felicidade e a alegria. O poeta romano Juvenal recomendava que devíamos orar pedindo “mens sana in corpore sano”. Quer dizer, uma mente sã em um corpo são. E ele estava muito certo. Em síntese, devemos dar graças a Deus por nos permitir viver o grande milagre da vida. E agradecer ao Espírito Santo pelas incontáveis graças que recebemos todos os dias, ainda que muitas delas nos venham disfarçadas como problemas, outras como desafios e oportunidades e outras, ainda, nos chegam como sementes, as quais devemos plantar e cultivar em nossos corações e mentes. Por minha experiência como sacerdote, reconheço que os grandes milagres pessoais são raros neste mundo, mas, em compensação, as graças cotidianas e os mil pequenos milagres que vemos todos os dias à nossa volta devem ser reconhecidos e por eles devemos ser agradecidos. Aliás, agradecer pelas graças recebidas é a melhor forma de continuar a recebê-las. Portanto, expressar a Deus nossa gratidão pela esplendida generosidade de nosso pai que está no céu é mais do que ser grato. É ser inteligente.
Chegaram. O padre olhou em volta antes de descer da charrete. Um sol tímido iluminava as coxilhas ondulantes em que predominavam os campos abertos com matas nativas e onde se destacavam as majestosas araucárias. Era um panorama diferente daquele de suas origens paulistas, que lembrava com carinho, mas que provava o quão diverso e encantador era o mundo que saíra da prancheta do Criador.
O padre Penteado desceu da charrete com cuidado. Tomou a precaução de segurar a batina para poder saltar com segurança. Era para evitar que a rasgasse. Esta era, delas, a sua melhor e a última que estava íntegra. As outras três ou quatro tinham remendos e marcas do ambiente rude daquela região ainda por desbravar. Uma das mucamas veio até a porta para saber quem chegava e recebeu o padre com um largo sorriso no rosto.
— Salve, reverendo padre, que bênção receber sua visita. Não o esperávamos hoje, em pleno domingo e no dia da festa do senhor comissário.
O padre ajudou o escravo, aquele que os acompanhou a cavalo, a descarregar a carga que estava no pequeno bagageiro da charrete e entregou os cestos de salada e os espetos de carne para a mucama. Uma segunda mucama surgiu na porta que dava para a sala.
— A bênção, padre. Que bom que o reverendo veio. O senhor Alarico vai ficar exultante com sua visita. Vou avisá-lo de sua chegada.
O padre respondeu ao cumprimento da mucama:
— Deus a abençoe, minha filha. E nem precisa dar-se ao trabalho de avisar o senhor Alarico que eu já vou entrando sem cerimônia. Os irmãos em Cristo formam uma só família e nós, cristãos, não precisamos de formalismos.
A surpresa do engenheiro
O padre foi adentrando na casa, sem hesitar, sendo seguido pela mucama. Em sua opinião, aquela não era uma visita formal ou protocolar do Cura da Capela de Nossa Senhora da Conceição, mas uma visita de pastor. E, nesta condição, preferia comportar-se com informalidade. Este era o modo de criar uma atmosfera de fraterna confiança, algo precioso para estabelecer o clima de sinceridade e transparência indispensável para seu mister de conselheiro e confessor. Com seu vozeirão de barítono, o padre foi anunciando sua chegada à casa e pedindo licença para entrar no reservado de Alarico.
— Ó de casa, com su permisso, buenas tardes e salve Maria. Meu prezado senhor Alarico, anuncio que aqui estou por sua demanda! – Desta forma o padre Penteado foi saudando ao cruzar o umbral da porta de acesso ao quarto improvisado onde estava acamado Alarico.
O convalescente estava sentado na cama, amparado por almofadas e tomando um chá medicinal. Ao ver o padre Penteado quase se engasgou. Foi total surpresa. Ele esperava a visita do padre, sim, mas não já no domingo e ainda menos naquele domingo de festas e celebrações tão importantes para o comissário.
Respondeu à saudação com entusiasmo. Elevando a voz, foi cumprimentando:
— Salve, salve, reverendo padre. Sua vinda é uma alegria. E peço sua bênção para este filho desnaturado que à casa torna e quer voltar a ter juízo. – Foi o que Alarico conseguiu articular no primeiro momento, enquanto procurava ajustar as cobertas com a ajuda da jovem índia que se sentava ao seu lado.
O padre respondeu com contentamento na voz:
— Seja abençoado meu filho. Que a Trindade Divina e a Virgem Maria estejam convosco. Recebi sua mensagem por meio de dona Thereza, que está aqui com o marido dela, o senhor Thiago, e me apressei a vir ter com vosmecê. E, acredite, me anima imensamente ver que estás com tão bom aspecto e de espírito tão jovial. Como está sua convalescença?
Alarico se arranjou melhor entre as almofadas antes de responder:
— Melhor agora com sua visita, padre.
— Me alegra muito saber. E noto que sua aparência é a de um homem saudável. Sei, por dona Thereza, que sua perna ainda não está inteiramente curada e inspira cuidados, mas espero que fique boa logo e permita que vosmecê volte a cavalgar.
Alarico ficou silencioso por alguns instantes. Cavalgar era algo que apreciaria muito voltar a fazer, mas Thereza lhe havia dito que isto não seria possível ainda por um bom tempo. Finalmente, falou:
— Deus o ouça, padre. Deus o ouça. Entretanto, reverendo, dizem que, quando o destino nos fecha uma porta, Deus abre uma janela. E acho que Deus me vem escancarando uma baita janela de batente a batente. Veja o senhor que agora estou quase curado e devo minha cura tanto à providência divina quanto a dona Thereza, que me socorreu na cancha da carreira e me trouxe aqui, mas também devo muito a esta jovem índia que gostaria de apresentar a vosmecê. – Fez uma pausa e sinalizou para que uma índia que estava escondida pela sombra do quarto se aproximasse. – Esta é Mimosa, a nativa de que lhe falei. Esta moça é filha de um kuiã do cacique Nonoai.
O padre pousou os olhos em uma índia muito jovem, que se aproximava. A moça não era mais que uma adolescente, de estatura alta e corpo delgado, que vestia um vestido de chita de algodão florido. O vestido lhe caia bem e valorizava o rosto redondo, moreno e sorridente, onde os olhos negros se encaixavam em uma moldura de cabelos negros como azeviche.
O padre a saudou com um sorriso:
— Então, minha jovem, vosmecê vem a ser a dona Mimosa. Tenho muito gosto em conhecê-la. Dona Thereza me falou de seus dotes como cuidadora. E me fez saber que os remédios abençoados da sua medicina foram providenciais para curar a ferida da perna do senhor Alarico. Devo confessar que estou admirado por pessoa tão jovem como vosmecê ter tão bons conhecimentos medicinais.
A índia Mimosa, depois de se aproximar, ficou com as mãos ao lado do corpo. Haviam dito a ela que, entre os brancos, um cavalheiro espera que a mulher lhe estenda a mão primeiro. Mas ela, que se via apenas como uma indígena, não se sentia à vontade para tomar a iniciativa. O padre percebeu a timidez da moça e tomou-lhe mão, segurando-a entre as suas. Teria cumprimentado a jovem independentemente de outro motivo senão o de ver nela um ser humano, mas aquela jovem não lembrava uma indígena como as que conhecia, pois tinha postura afirmativa, sem ser imodesta. A jovem evidenciava autoconfiança e irradiava uma dignidade que o impressionava. Ademais, a nativa tinha sido providencial para curar a perna ferida de um dos membros de sua congregação. Proceder com decência era o mínimo que podia fazer para demonstrar seu respeito e gratidão.
Mimosa, após a hesitação inicial causada pela dúvida sobre como proceder, aceitou de bom grado o cumprimento:
—É meu inteiro prazer, reverendo padre. E me permita dizer-lhe que fico feliz com sua vinda. O senhor Alarico ansiava muito por sua visita.
Alarico tomou a mão de Mimosa e confirmou com voz grave:
— Sim, padre, o que esta jovem diz é verdade. Eu aguardava ansiosamente sua visita. E tenho motivos muito especiais para falar com o senhor. Primeiramente tenciono confessar meus pecados, e tenho muitos. Depois, se puder contar com seu beneplácito, gostaria de ter consigo uma conversa reservada.
— Como for de seu desejo meu filho. – Retorquiu o padre. – Foi com o intuito de ouvir o que tens a dizer que vim até aqui. Vim para colocar meus ouvidos à sua disposição. Mas, antes de mais nada, o comissário mandou um churrasco para o almoço de todos. E está um primor. Por isto, minha sugestão é que almocem primeiro. Sei por experiência própria que a fome é má conselheira. Além do mais, com o estômago forrado, bebido e comido, qualquer conversa se torna mais agradável, não é mesmo?
Todos sorriram e aprovaram barulhentamente a sugestão do padre Penteado. Rapidamente as mucamas organizaram a mesa do almoço, fazendo surgir pratos e talheres. Para Alarico, que tinha que almoçar ali mesmo, na cama de convalescente, trouxeram uma mesa de sobrepor no leito. Esta cama era feita de galhos desbastados e taquara trançada e era de tal forma montada que seus lados permaneciam no chão enquanto o tampo ficava sobre a cama, à altura da cintura do acamado. O arranjo permitia a Alarico ter acesso ao prato e usar o copo de cuia e os talheres, enquanto se mantinha recostado nas almofadas. Mimosa e as mucamas logo abriram os espetos de carne que vieram embrulhados em folhas de palmeira para se conservarem quentes. Antes que iniciassem a comer o churrasco, porém, o padre interrompeu os olhares gulosos lembrando que seria de muito bom tom se fizessem uma oração de agradecimento. Todos levantaram-se para orar, exceto, naturalmente, Alarico, que ficou recostado no leito.
O Padre abriu a oração com a invocação de praxe e achou que seria adequado mencionar o churrasco que as pessoas da casa iriam ter oportunidade de degustar, assim como ele o havia feito:
– Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Dignai-vos, Senhor, abençoar o esplendido churrasco e os saborosos acompanhamentos que o comissário Joaquim Fagundes dos Reis gentilmente enviou para nossos amigos, o senhor Alarico e suas cuidadoras. Permita que este alimento seja do agrado dos que dele se servirem, dê a eles força e saúde e lhes inspire a dar graças com amor e fé.
O sacerdote, Thereza e Tiago se sentaram próximos aos comensais e, como já se tinham saciado na fazenda, apenas aguardaram que Alarico e as cuidadoras acabassem a refeição. Terminada esta, como Alarico confirmara que deseja confessar-se, o padre colocou a estola já gasta e desbotada, que sempre levava consigo, e foi sentar-se em uma cadeira ao seu lado. Era a melhor forma de ouvir sua confissão. Olhou em volta e percebeu que não era preciso pedir para que as mucamas e a índia Mimosa deixassem o aposento. Elas sabiam que a confissão requeria privacidade e devia envolver apenas o confessor e o penitente. O padre Penteado também levava sempre, junto com a estola, um cartão com os dizeres do penitente, e o deu para Alarico. Muito católicos daquelas paragens não se lembravam mais como deviam proceder, tanto era o tempo que não se confessavam.
O padre começou o rito da confissão:
— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Alarico respondeu conforme o cartão que o padre lhe deu para ler:
— Meu Deus, porque sois infinitamente bom e Vos amo de todo o coração, pesa-me de Vos ter ofendido e, com o auxílio da Vossa divina graça, proponho firmemente emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Peço e espero o perdão dos meus pecados pela Vossa infinita misericórdia.
Alarico, então, entre outros pecados e pecadilhos, confessou que tinha sido o culpado pelo acidente que ainda agora o mantinha preso ao leito. Este era um peso que tinha na consciência e o atormentava.
Após a confissão, o padre lhe concedeu a absolvição dos pecados:
— Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. E eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Alarico respondeu contrito:
— Amém.
Terminada a confissão, o padre deu-lhe como penitência rezar um rosário completo. Além de aliviar os pecados confessados, a penitência serviria também como boa terapia para ocupar o tempo ocioso do penitente.
O padre retirou a estola e a dobrou cuidadosamente. Com zelo e cuidado, esperava, ela ainda iria lhe servir por um bom tempo.
Em seguida, olhou nos olhos de Alarico e disse:
— E agora, amigo, que vosmecê está em paz com sua consciência, podemos continuar com a conversa que deseja ter comigo?
Alarico ajeitou -se na cama. Sim, ele tinha um assunto que queria tratar com o padre.
—Padre, eu mudei muito desde o infausto e tolo acidente que me prostrou na cama. Descobri que cansei de aventuras fúteis. Cansei de bobagens e de viver à toa. Cansei de viver sem destino e sem ter um coração amigo para me acolher. Descobri que aprecio quando Mimosa está comigo e sinto saudade a cada minuto que ela não está comigo. Por isto desejo casar-me com ela e ter Mimosa ao meu lado cada dia de minha vida daqui para frente. Por isto queria pedir para o senhor realizar o nosso casamento diante de Deus e da Igreja.
O padre sorriu, mas engoliu a seco. De tudo o que pudesse imaginar, nunca cogitaria que o assunto de Alarico fosse seu desejo de se casar com sua enfermeira nativa. Inicialmente, ficou atônito, mas logo se refez e abriu um largo sorriso. Porém, antes que pudesse comentar qualquer coisa, Alarico, que esperava mesmo surpreender o padre, o atalhou e foi e frente:
— O senhor me parece um tanto surpreso, reverendo. – Alarico observava, divertido, que o padre parecia estar procurando palavras para responder-lhe.
– Sim, sim, meu filho. Confesso que, de fato, fiquei surpreso, mas acho que não deveria. Sabe, caro amigo, meus anos de batina me ensinaram que não existe surpresa mais mágica do que o amor. O amor é a mais divina das bênçãos de nosso criador. Uma bênção que Ele dá com mão avara e só a quem a merece. Então, só posso me congratular com vosmecê.
— Pois reconheço ter sido aquinhoado com esta bênção tão preciosa. E devo dar graças ao bom Deus por ter sido distinguido com ela. Mas penso que sua surpresa não terá sido nem uma fração daquela que eu mesmo tive quanto descobri que estava apaixonado por Mimosa. E foi de estalo. Aconteceu que, com o acidente, meus sentimentos viraram do avesso. Eu pensei muito. Eu mudei muito. Depois do acidente, nos primeiros dias, fiquei revoltado contra Deus. Eu me sentia injustiçado. Para piorar, minha perna começou a infeccionar e inflamou. Parecia que iria ter que amputar. Eu comecei a pensar que minha vida estava em risco. Ficar preso numa cama é uma experiência dolorosa. A gente vive hoje sem saber o que nos reserva o dia de amanhã. E se vai haver o dia de amanhã. Mas aí, quando a raiva me consumia e já me desesperava, aconteceu o milagre. Uma das mucamas trouxe a jovem índia Mimosa. Disse que ela conhecia a medicina dos Kaingang e perguntou se eu aceitava que ela me tratasse com a medicina de seu povo. Dona Thereza, que cuida dos ossos quebrados do meu esqueleto, me recomendou aceitar o tratamento com a medicina indígena. Aqui, em Passo Fundo, ela não dispunha de remédios que teria na capital. Tudo o que ela tinha a oferecer era chá de camomila, muito usado pelos alemães e que tinha trazido com ela e, inclusive, plantou aqui. Segundo dona Thereza, a camomila tem efeitos anti-inflamatórios, mas o meu caso demandava medicina mais forte. Então ela falou que os índios tinham muitos recursos medicinais. E que tratavam ferimentos com bastante sucesso. Especialmente feridas infeccionadas. Ela disse que os pais dela, que lidavam com muitos feridos de guerra e feridos por acidentes, relatavam terem visto muitas feridas curadas pelos kuiã dos Kaingang com emplastros de mel e ervas medicinais. Mas ela disse que aceitar o tratamento nativo era uma decisão minha. Só que eu não tinha escolha. A perna estava ficando feia e purulenta. A ferida cheirava mal. Dona Tereza disse que cuidava de manter os ossos alinhados, que mantinha a ferida limpa tanto quanto possível, mas não tinha remédio para a infecção. Portanto, aceitei a oferta. Precisava tentar. Afinal, embora eu estivesse cético, talvez a medicina dos índios pudesse mesmo me ajudar. Ela achava, ademais, que o tratamento poderia me distrair e acalmar meus nervos, pois eu estava agitado demais e isto não facilitava as coisas e impedia que os ossos colassem.
— Bem, amigo, ao que vejo foi uma decisão que resultou acertada. – O padre opinou. E continuou com voz grave: – Agora o que me preocupa é o que vosmecê me disse, contando que no início sentia uma revolta contra Deus. Este é um dos sentimentos mais perigosos que pode acometer o coração do homem. Sem Deus, o desespero destrói as entranhas do descrente. E o desespero é a antessala das blasfêmias e do desvario. Uma catástrofe que compromete a salvação do corpo e da alma.
Alarico elevou as mãos, como em uma prece, para demonstrar que lamentava seus equívocos e que, agora, concordava com o que dizia o padre Penteado:
— Pois é verdade, padre. Vivi um momento de grande desatino. Eu reconheço que estava imerso em um barril de fel. Estava totalmente impregnado de sentimento de revolta. Lembrei que na escola de engenharia um professor sem religião arguia em volta daquele Paradoxo de Epicuro que indagava: “Se Deus é bom, por que o mal existe?”. O reverendo conhece este paradoxo?
O padre Penteado ficou assombrado. Ele mesmo já tinha debatido com colegas de seminário sobre aquele antigo paradoxo. Epicuro vivera 200 anos antes de Cristo e seu paradoxo, formulado para questionar o Deus dos judeus, vinha provocando controvérsias há mais de 1.000 anos. Sua surpresa é que imaginava ser aquele um tema circunscrito aos iniciados.
— Sim, meu caro Alarico, eu conheço o Paradoxo de Epicuro.
Alarico continuou:
— Pois então, padre, Epicuro, dizia que o Deus bondoso das escrituras não podia existir. Ele justificava sua descrença argumentando que um Deus bondoso, onipotente e onisciente não deixaria existir o mal. Ora, eu estava ali, prostrado em dores e vivendo o mal 24 horas por dia. Eu estava preso ao leito e padecendo por causa do mal. Um mal causado pelos meus deslizes, reconheço, mas, ainda assim, sofrendo os efeitos do mal.
— Bem, já é um progresso que não culpe Deus por seus erros. – Retorquiu o padre Penteado.
Alarico fez um sinal de conformado, mas rebateu:
— Sim, hoje eu aceito melhor o que me aconteceu, mas eu culpava Deus pela tentação que me levou ao erro. Pensava que se Deus permitiu que eu agisse errado é porque estava contra mim.
— Deus não estava e não está contra vosmecê. Deus quer o nosso bem e está sempre de nosso lado. Mas Deus nos dá o livre-arbítrio e cada um tem a liberdade de errar. Agora, quando erramos, nos cabe pagar o preço de nossos erros. De todo modo, gostaria de saber como foi que vosmecê superou sua revolta contra Deus e o desespero que o atormentava.
Alarico deu um suspiro antes de prosseguir.
— Como disse, eu estava me afogando num mar de rancor e foi nessa minha pior hora que o comissário Joaquim Fagundes dos Reis me jogou a boia de salvação em que me agarrei. Ele vinha me visitar diariamente e ouvia meus queixumes com paciência e compreensão. O comissário é homem sensato e de grande coração. Tinha enorme paciência para comigo e minhas agruras. Mas, no caso, eu me atormentava com o Paradoxo de Epicuro e me colocava contra Deus. Ele era paciente e ouvia meus desabafos sem interromper e deixava que o cansaço me silenciasse. Só então, com sincera preocupação por mim, fazia ponderações e me apaziguava. O comissário é homem de grande sabedoria, letrado e vivido. Ele via que eu estava tomado de insanidade e não raciocinava direito. Por isto agiu sempre com tato. Aos poucos, com sua sensibilidade, foi me fazendo ver que o meu mundo não estava desabando. Acontece que senhor comissário, além de entreter sempre com uma conversa inteligente e agradável, é dono de uma invejável biblioteca. Ele recebe muitos livros dos seus confrades maçons e encomenda títulos que o interessam. E sempre me empresta livros para que eu ocupe com leitura a minha ociosidade forçada. Então, um dia, ele me trouxe um livro com a história dos mais importantes dos santos da Igreja e sugeriu que eu lesse a história de Santo Agostinho. O comissário me disse que esse santo tinha respondido ao dilema de Epicuro e aclarado a questão. Na verdade, o Paradoxo de Epicuro seria um “trilema”, posto que coloca três afirmações, sendo que, se duas delas foram verdadeiras, a terceira fica excluída. Epicuro argumentava que, se Deus é onisciente e, portanto, tudo sabe, e é onipotente e, portanto, tudo pode, então não é bondoso e deve ser cruel com os homens ao permitir que exista o mal. Afinal, se Deus é onipotente, tem conhecimento do mal e tem poder para acabar com ele, por que não o faz?
Por outro lado, se Deus é um Deus de bondade e deseja acabar com o mal na Terra e, ao mesmo tempo, é onipotente, o que significa que tem poder para extinguir o mal, e, no entanto, não o faz, deve ser porque não tem conhecimento do mal, ou sobre onde está o mal. Deduz-se daí que, se Ele não sabe onde está o mal, então não sabe tudo e, portanto, não é onisciente.
Finalmente, se Deus é onisciente e, portanto, tudo sabe, e é um Deus de bondade, e portanto, omnibenevolente, então sabe que o mal existe e quer acabar com o mal. Porém, se mesmo assim não o faz, é porque não consegue fazê-lo. Portanto, se Ele quer, mas ainda assim não é capaz de acabar com o mal, é porque, simplesmente, não pode tudo. E neste caso, Deus não é onipotente.
Em meio aos meus delírios, em noites assombradas, eu ficava remoendo estas dúvidas sobre Deus. E praguejando para descarregar minha raiva contra um Deus de mistificações e engodos. Um Deus enredado por questões suscitadas por um filósofo grego que viveu 200 anos antes de seu filho, Jesus Cristo, vir ao mundo. E foi neste estado de espírito que o comissário me trouxe o livro com a história dos santos e me indicou a de Santo Agostinho. E, conquanto o comissário me tivesse dado uma visão dos argumentos do santo, o texto escrito estava organizado, tinha mais autoridade e me permitiu ler, reler e ponderar. Foi assim que, aos poucos, fui entendendo a lógica da refutação feita por Santo Agostinho. E, daí em diante, quanto mais eu pensava, mais me maravilhava a simplicidade e a elegância da explicação. E mais eu passei a perceber a natureza do bem, o desvio em que se constitui o mal e porque ele existe.
O padre estava curioso em saber mais detalhes. Por isto o estimulou a continuar:
— A mim me alegra saber que vosmecê encontrou uma explicação que sossegou seu espírito. Fale mais sobre ela.
Alarico acomodou-se melhor antes de prosseguir.
— Com muito gosto, padre. Santo Agostinho centrou sua explicação no que constituía o “bem” e na concepção do “mal” como negação do “bem”. Para ele, o “mal” não é um ente separado do “bem”. Ou seja, o “mal”, em si, seria sempre uma anomalia; seria a medida da falta do “bem” e, portanto, não existiria de maneira dissociada deste. O “mal”, para o santo, não é um “ser”, mas a ausência do “ser”. Ele faz uma interessante comparação dizendo que a “escuridão é a ausência da luz”. Da mesma forma, depreendi da acepção de Santo Agostinho que o “bem” configura os valores positivos do bem e o “mal”, os valores negativos do “bem”. Uma forma de ver o bem e o mal, por este ângulo, seria comparar sua oscilação com as medidas do termômetro para medir a presença do calor na temperatura ambiente. O frio e o calor são apenas nomes diferentes para uma única causa: a variação da temperatura. E é o efeito do calor que afasta o frio. Por fim, a ideia do “mal” como ausência do “bem” é o mesmo que dizer que um buraco na terra é a ausência de terra no oco do buraco. E aí está um conceito que um engenheiro como eu entende.
O padre, que a esta altura já se animava em abrir uma discussão como aquelas que o empolgaram nos tempos do seminário, contra-argumentou:
— Pois muito bem, senhor engenheiro. Entendo a ideia. Mas, então, por que não podemos fazer um buraco na água?
Alarico coçou a cabeça e pensou antes de responder:
— Aí está uma questão que não tinha considerado. Acho que esta pergunta deveria ser feita a um construtor de navios. Talvez ele possa dizer que o casco de navio faz um oco na água ao evitar que a água entre dentro do casco.
O padre sorriu. Era como se voltasse aos tempos de antanho, nas tardes de sábado no seminário.
— Na verdade, meu caro Alarico, sua lógica está no caminho certo. Mas acho que nos cabe ainda indagar por que o bem não prevalece sempre. Por qual razão o bem não se impõe de forma absoluta de modo a eliminar todos os vestígios do mal. Em outras palavras, por qual razão o bem não se comporta como a água, que não forma nem permite buracos.
— Sim, reverendo, acho que seria bom ter uma resposta para esta pergunta.
O padre, então, não se fez de rogado e explicou:
— Então podemos começar lembrando que, para Santo Agostinho, Deus é o fundamento do ser e da bondade. Ele é o supremo bem. Ele é a perfeição absoluta, o Ser eterno, incorruptível e imutável. Ele criou tudo o que existe no universo além Dele mesmo. E fez um mundo esplendidamente variado e finamente ordenado. Este ordenamento compreende inumeráveis tipos diferentes de criaturas, algumas superiores e outras inferiores na escala dos seres. A algumas criaturas Ele atribuiu uma existência mais ampla, a outras, uma mais limitada. Desse modo, arranjou a natureza dos seres em hierarquias.
Entre os seres criados, aqueles que têm vida são colocados acima daqueles que não a têm. Aqueles que têm o poder de gerar, ou mesmo de querer, acima daqueles que carecem dessa faculdade. E, entre as coisas que têm vida, as que têm consciência são superiores àquelas que não a têm, como os animais são ranqueados acima das árvores. E, entre os seres sencientes, os seres que têm capacidade de sentir sensações e sentimentos de forma consciente, os inteligentes estão acima daqueles que não têm inteligência – os homens, por exemplo, sobre os cães e gatos. E entre os inteligentes, os imortais, como é o caso dos anjos, sobre os mortais, como são os homens.
A questão do mal, para Santo Agostinho, é colocada em três categorias: o mal natural, o mal moral e o mal físico.
O mal natural é um mal que se origina independentemente das ações humanas. Ele acontece com consequência dos movimentos do mundo natural. Uma pedra que rola da montanha e esmaga um viajante representa um “mal” para a vítima. Este tipo de “mal” se explica pelo efeito do movimento dos planetas e do ordenamento de todas as coisas que existem desde a criação do mundo. As precedências, as prioridades e a hierarquia que garantem a harmonia do universo e seus diferentes níveis de finitude. Esta harmonia essencial se constitui no eixo em volta do qual gira o bem no universo. E embora seja inevitável que cause efeitos que podem atingir os homens e os seres vivos, nela encontramos a mão de Deus. Portanto, na medida em que nesta esfera se relacionem os movimentos necessários para o equilíbrio da ordem no universo, e nela se incluam terremotos, tempestades, avalanches, enchentes, tornados etc. nela não existe nenhum ser intrinsecamente mau ou que possa ser classificado como parte do “mal”. O que existe é nossa percepção humana iludida pelas nossas limitações.
Em segundo lugar, Santo Agostinho coloca a questão do mal de origem moral. Como sabemos, Deus deu aos homens o livre-arbítrio, que vem a ser a liberdade de fazer suas próprias escolhas. E, claro, de responder por elas. Para Santo Agostinho, o mal moral se inicia com a escolha de coisas inferiores sobre as coisas mais elevadas. O então Bispo de Hipona, como disse, explicava o universo como uma hierarquia, onde algumas coisas eram superiores às outras. Entretanto, para Santo Agostinho, ser inferior não significa ser pior, nem mesmo ser mau. Afinal, cada ente e cada ser têm seu lugar no mundo criado por Deus. Acontece que, no plano moral, o homem afronta a ordem da harmonia da criação pelo orgulho e pela vã pretensão de não depender de Deus. De modo que o mal resulta das escolhas erradas e do mau uso do livre-arbítrio. O que é certo, porém, é que as escolhas têm consequências. O homem recebe a liberdade para escolher o seu próprio caminho no rumo do bem, mas se, por arrogância, por orgulho ou por soberba, escolher o caminho do mal, vai defrontar-se com o mal por ele mesmo causado.
Em terceiro lugar, o mal físico é a consequência do pecado original e, portanto, a culpa é de direta responsabilidade do próprio homem. Santo Agostinho entende que a “privação do bem”, que nasceu com o pecado original, ainda no Jardim do Éden, é um mal que se originou do uso rebelde do livre-arbítrio, sendo que as doenças e os males que afligem o corpo experimentados pelo homem são consequências naturais ou punitivas da queda de Adão. Agora, a nós mortais só cabe entender que Deus tem razões que só ele conhece para nos colocar neste vale de lágrimas. Possivelmente ele nos quer pôr à prova. E deseja nos fazer entender que o mal vem como consequência de nossas escolhas erradas. E que o mal físico muitas vezes começa na esfera do mal moral. Isto significa dizer que, antes de se manifestar no mundo físico, o mal é engendrado no plano moral. Trata-se da lei de causa e efeito. Quem faz o bem colhe o bem, enquanto quem planta o mal colhe o mal. Ou, como se diz popularmente, quem planta ventos colhe tempestades. E aqui, meu amigo Alarico, vou fazer uso do seu próprio exemplo. Vosmecê pensou em fazer o mal para obter uma vantagem ilícita na carreirada. Ao furtar-se de agir nos limites do bem e optar por fazer o mal para ganhar ilicitamente, criou as condições que resultaram no acidente. E, infelizmente, deu no que deu.
Terminada a explanação, o padre Penteado ficou esperando uma manifestação de Alarico, mas este quedou-se um tempo em silêncio. Estava absorvendo os argumentos alinhados pelo padre Penteado. Finalmente, disse:
— A esta altura, meu caro reverendo, devo reconhecer que são mesmo insondáveis os desígnios do Senhor. Por vezes, as lições que recebemos da vida são dolorosas, mas penso que agora compreendi com mais clareza a lógica desenvolvida por Santo Agostinho. E me permita agradecer-lhe por me ajudar a enxergar o mal que meus próprios erros a mim me causaram.
O padre falou em voz mansa, que ele mesmo aproveitava das lições daquela conversa:
— Não agradeça a mim, meu caro amigo. Agradeça a Santo Agostinho, que foi ele que nos socorreu para explicar esta importante questão do mal, que é, como ele dizia, a corrupção do bem. E, a propósito, quase ia esquecendo a questão do buraco na água, que eu, de propósito, deixei para o fim. Quando Deus decide promover o bem e o ordena, até na água se pode abrir um espaço vazio. Basta lembrar da travessia do Mar Vermelho, naquele episódio da fuga do povo hebreu sob a liderança de Moisés e narrado na Bíblia Sagrada. De modo que a bondade divina não conhece limites a não ser os que Ele mesmo estabelece para assegurar a esplendida harmonia de sua criação. Portanto, amigo Alarico, Deus é mesmo um Deus de bondade, onisciente e onipotente.
— Sim, padre. Hoje estou inteiramente reconciliado com Deus. E tenho a prova que Deus não desampara. Precisamente no dia seguinte àquele que eu aceitei minha culpa, orei e pedi perdão ao Pai, recebi o milagre que transformou a minha vida e que foi a chegada da Mimosa.
— Que maravilha! Pois, então, devemos dar graças. Mas me conte como foi que isto aconteceu.
— É uma história bastante curiosa. A minha linda chinoca, como dizem por aqui, que é pouco mais que uma menina, foi trazida por uma das mucamas que cuidam de mim. Ela e filha de um kuiã que vive num toldo perto da Fazenda Nossa Senhora da Conceição. Dona Thereza conversou com Mimosa para saber se ela conhecia mesmo a medicina Kaingang e gostou do jeito dela. Dona Thereza me explicou que os índios conhecem a medicina de curar feridas com mel de abelhas e ervas curativas e sabia que era um bom tratamento porque os farrapos o usavam nos seus feridos. Ela me disse que, quando seus pais faziam próteses para os farrapos, estes tinham feridas com melhor aspecto do que as dos soldados legalistas. Intrigados, procuraram saber a causa e descobriram que os farrapos usavam o tratamento nativo. Eu aceitei de pronto. Primeiro, porque eu confiava em dona Thereza, depois porque achava que já não tinha mais nada a perder.
— Ao que parece o resultado foi bom. – Comentou o padre.
— Sim. Para falar a verdade, ainda está sendo. Quer dizer, já não preciso dos emplastros, mas dona Thereza ainda não me deixa colocar o meu peso na perna. Eu posso movimentar a perna e não sinto dor, mas preciso ter paciência.
— Bem, mas agora é questão de dias, suponho.
Alarico suspirou antes de comentar.
— É o que me dizem, só que são dias que demoram uma eternidade para passar. Mas sobre o tratamento, após ter sido apresentada por dona Thereza, Mimosa olhou a ferida e ferveu a água para lavar com água morna. Depois ela saiu para o mato para pegar mel e algumas ervas, como barbatimão, aroeira e outras. Quando voltou e preparou o emplastro, ela aplicou com folhas de bananeira, enquanto fazia cânticos indígenas. Seu toque era tão suave que eu quase nem sentia sua mão ao fazer os curativos. Um dia depois ela veio acompanhada pelo pai dela, o kuiã. Ele também examinou a ferida e conversaram na língua deles. Depois o kuiã falou comigo, sendo traduzido pela mucama. Disse apenas que a filha estava certa e que o mel iria fechar a ferida. Também prometeu enviar favos com mel, dizendo que os favos eram mais fortes para tratar feridas como a minha. Mimosa foi com o pai e, no dia seguinte, voltou com favos de mel em um cestinho trançado e calafetado com cera de abelha. As aplicações eram feitas com os favos enfiados em pauzinhos de taquara. Apesar do cuidado com que Mimosa aplicava o curativo, doía horrivelmente. Todo o dia, pela manhã e à tarde, ela vinha trocar o curativo. Também me dava chás de ervas adoçados com mel. Uma semana depois notei que a ferida começava a doer menos e a diminuir. O pus e o mau cheiro começaram a desaparecer. E passadas duas semanas, praticamente não doía mais. Depois de um mês ela disse que não precisava mais vir e que eu deveria continuar passando mel apenas como precaução. Foi já no primeiro dia que ela não veio que eu senti sua falta. Foi quando descobri o quanto eu gostava de suas visitas e o quanto ela se tornara importante para mim. Sua ausência naquele dia me causou imensa tristeza. A todo o momento olhava para ver se Mimosa estava ali, mas a cadeira continuava vazia. E meu coração a queria ao meu lado. E, de repente, percebi que não era mais para tratar da ferida. Era para tratar do meu sofrimento de saudade. Ela era meiga, doce e carinhosa. Suas mãos me acalmavam. Seus olhos me iluminavam. Sua proximidade me fazia desejar apertá-la em meus braços. Nunca tinha me sentido assim. Meio envergonhado, pedi que a chamassem dizendo que eu desejava falar com ela. Ela veio e me disse que já tinha feito tudo o que podia fazer para tratar minha ferida e sua família precisava dela no toldo. Foi então que concluí que sem ela a vida perderia a graça. Fui tomado de pânico. E se ela não voltasse mais? Ela está em idade de se casar, e linda e graciosa como é e, ainda mais, sendo filha de um kuiã, desconfiei que já deveria haver índios fazendo a dança fagmayé, que é a dança que eles fazem para conquistar uma mulher. E se ela já estivesse sendo prometida para algum jovem pretendente Kaingang? Então, na angústia deste pensar, não hesitei nem mais um segundo. Peguei suas mãos, olhei nos seus olhos e pedi que ela ficasse o resto da vida ao meu lado. Pedi que se casasse comigo.
— E o que foi que ela respondeu? – Quis saber o padre.
— Ela me olhou longamente. Eu vi ternura nos seus olhos. Vi que lacrimejavam. Aliás, como os meus. E, de repente, sem falar nada, nos abraçamos. E ficamos assim por tanto tempo que as mucamas vieram ver se tinha acontecido alguma coisa. Ficaram pasmadas. Eu contei a elas a minha intenção de casar com Mimosa e elas ficaram superfelizes. Isto tudo aconteceu faz duas semanas e eu gostaria de casar-me com as bênçãos da Igreja o quanto antes. Agora estou vendo a vida com outros olhos. Acho que é uma nova oportunidade que recebo por intercessão de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, e estou ansioso para virar a página e recomeçar minha vida de outra maneira.
O padre sorriu novamente. Ah!, como o amor podia ser lindo e luminoso. Como podia ser leve e esvoaçante como uma pluma que dança ao sopro do vento. Mas o casamento era um sacramento. Não era algo para ser resolvido levianamente. Casar era compromisso por toda a vida e não seria aceitável aos olhos do Senhor celebrar um casamento só por haver corações apaixonados ou romance perfumando o ar. Haviam que ser considerados os outros ângulos de uma decisão que era irreversível e mexia com valores, tradições e costumes da religião, do Estado e do casal.
O padre explicou que havia regras. O primeiro passo seria a conversão da noiva e seu batismo. Ele não poderia fazer o casamento dele com a índia Mimosa sem que ela, antes, recebesse o batismo. Sem o batismo ela era considerada pagã para todos os efeitos e o casamento de um católico com um pagão seria como um casamento com disparidade de culto, uma exceção só permitida pelas autoridades da Igreja em casos raríssimos.
Alarico respondeu aos questionamentos do padre Penteado:
— Padre, eu já imaginava que Mimosa precisaria ser batizada para podermos nos casar na Igreja. Isto me preocupou e já me antecipei e fui ensinando o catecismo para ela. Mimosa e eu conversamos sobre a necessidade do batismo e ela entendeu e aceitou esta exigência. Eu tinha uma preocupação com o pai dela. Afinal, ele é o líder religioso da tribo e poderia ser contrário, mas ele não fez oposição. Segundo ela me contou, seu pai disse apenas que o coração dela a guiaria no caminho que a faria feliz. E disse que o Deus dos brancos não era inimigo de Kamé ou Kayru, assim como não era inimigo nem do sol nem da lua, nem dos ventos nem da chuva. E nem da Mig, a onça, nem do kajer, o macaco, nem do fójin, o ouriço, apesar dos espinhos que machucam. Ele disse que todos, os fóg brancos e os índios Kaingang, já viviam sob o mesmo céu sem se conhecerem, e agora que se conheciam poderiam continuar a viver juntos e em paz. Por isto ele não se oporia se ela escolhesse se batizar e se casar com um branco.
O padre aprovou o que ouviu e respondeu:
— É sábio o conselho desse pai. Muito bem, então, meu filho. Agora vamos preparar esta moça para receber o batismo. E depois para o casamento cristão, que terei uma grande alegria de celebrar em nossa capela. Eu fico muito feliz pela sua união com esta moça sob as bênçãos da Igreja. Será um casamento importante nas duas comunidades e deve ser um exemplo que vai frutificar.
— Obrigado, padre. Eu fico muito mais sossegado agora. Eu receava que a Igreja Católica fosse ser contra.
— A Igreja nunca faz objeções aos casamentos de casais cristãos que não tenham impedimentos. E tem uma tradição de aceitar os casamentos entre brancos católicos e índios convertidos. Como sabe vosmecê, eu vim de São Paulo e lá temos a história de um português importante, praticamente o fundador da cidade de São Paulo, João Ramalho, que 300 anos atrás, ainda em meados de 1500, casou-se e constituiu família com a índia Bartira. A índia, ao ser batizada na Santa Madre Igreja, recebeu o nome cristão de Isabel Dias. Eles tiveram muitos filhos e formaram uma família imensa cujos descendentes, ainda hoje, são numerosos em São Paulo. A índia Bartira era filha de Tibiriçá, o importante cacique dos índios Tupiniquins que habitavam a região onde hoje está localizada a cidade. Aliás, no exato lugar onde ficava a taba da tribo foi edificada uma igreja dedicada a São Bento. Eu já a visitei e até celebrei missa como convidado. Mas, apesar disso, devo reconhecer que ainda existe muito preconceito contra o casamento de brancos com índios. E para ser muito honesto com vosmecê, nem todos os padres pensam como eu. Há padres que ainda são contra o casamento inter-racial, como eles dizem. Quanto a mim, eu, pessoalmente, acho que um casamento diante de Deus é sempre uma bênção. Duas almas que se unam pelo matrimônio da Igreja fazem uma opção muito melhor e mais cristã do que os que formam uma união apenas carnal. Eu não sei o que o bispo pode pensar, mas me preocupa mais o que Deus pensa. E acho que os conselhos do Espírito Santo são mais adequados no nosso caso.
Alarico interveio para concordar:
— Penso como o senhor, padre Penteado. Eu tenho o sincero desejo de receber as bênçãos do Altíssimo para nosso casamento. Pelo que aprendi no catecismo, cada alma será julgada pelas suas próprias virtudes e pelos seus próprios pecados. Deus vai nos julgar no Juízo Final pelo bem ou pelo mal que fizermos neste mundo. Eu pensei muito e quero abandonar minhas misérias e me tornar um cristão que faça jus a um julgamento bondoso quando seus dias terminarem.
O padre Penteado aproveitou o momento em que Alarico tomava folego para propor:
— Sim, Alarico. Suas boas intenções são anotadas no céu e serão recompensadas no devido tempo. Mas, agora que sabemos de seu desejo de contrair núpcias no altar da Igreja, não seria o caso de falarmos com a noiva?
Alarico estava eufórico. Sentia como uma bênção o fato de o padre Penteado estar ao seu lado. Seu propósito, agora, era plantar raízes naquela terra benfazeja de Passo Fundo, onde a gloriosa natureza o encantava mais e mais a cada dia.
— Certamente que sim, padre. – Moveu-se para pegar uma campainha que tinha ao alcance da mão na mesa de cabeceira, explicando: – Eu vou tocar esta sineta e logo Mimosa e as mucamas virão aqui para atender ao chamado.
O padre foi ágil e pulou na frente:
— Calma, Alarico, calma. Melhor não tocar a sineta ainda. Não queremos todas as mucamas aqui ouvindo nossa conversa sobre o casamento, queremos?
Alarico suspendeu o movimento em direção à campainha.
— Não, com certeza, não. – Concordou, mas ainda sem entender o que o padre desejava ao fazê-lo refrear o movimento em direção à sineta. Em instantes, porém, Alarico se deu conta de que o padre tinha razão. Se conversassem sobre o casamento na frente das mucamas, nem bem terminassem de confabular com Mimosa, elas sairiam a espalhar junto à criadagem do comissário e da Fazenda Nossa Senhora da Conceição o que foi falado e, ato contínuo, toda Passo Fundo saberia dos detalhes na velocidade do vento.
O padre sugeriu:
— Se me permite, o melhor é eu ir falar com dona Mimosa lá fora e convidá-la para entrar discretamente. Para despistar, vou dizer que vamos falar sobre o batismo, o que tem muito de verdade. As mucamas poderão desconfiar que vamos acertar a programação do casório, mas sem saber não terão como espalhar os detalhes.
— Acho que é melhor assim. – Concordou Alarico.
O padre levantou-se, atravessou a cortina e foi até o alpendre onde estavam as mucamas e a índia Mimosa. Dirigiu-se a ela e a convidou para entrar.
A jovem aprumou-se e entrou no reservado de Alarico com seu jeito simples, um tanto tímida, e com um leve sorriso no rosto, que se ampliou ao ver os braços de Alarico se abrirem para recebê-la.
O padre Penteado ficou observando, comovido, o abraço dos apaixonados. À sua frente, ele não via um homem branco e uma mulher indígena. Ele via duas criaturas que se completavam pelo amor e o faziam para seguir a determinação bíblica, segundo a qual Deus criou o homem e a mulher e, ao abençoá-los, lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na Terra”. Para ele, padre, o amor era um dos mistérios das forças da natureza que só se explicava pela infinita determinação de sobrevivência que move os seres criados por Deus. Para ele, Deus não apenas dava a vida às suas criaturas, dava também a vontade de viver a vida em plenitude. E a ele, humilde ministro de Deus, só cabia aceitar a vontade do Criador. Ele era pastor. Ele se sentia chamado a apascentar as ovelhas do rebanho do Senhor na Terra. E estava feliz pela oportunidade de trazer ao aprisco da Igreja aquele novel casal que iria ser abençoado pelo sacramento do matrimônio e que ele, por obrigação pastoral, iria proteger das maledicências e aleivosias com a determinação e o vigor de seu sacerdócio.
Após esperar com santa resignação por algum tempo, o padre interrompeu os arrulhos do casal:
— Meus filhos, eu sou paciente, mas terão o restante do dia para conversar enquanto eu, de minha parte, ainda tenho as obrigações de padre a cumprir. Ainda devo fazer as orações do breviário e cuidar de afazeres na capela. Assim, se me permitem, podemos conversar para nossos acertos finais?
O casal recompôs-se rapidamente.
— Sim, reverendo, estamos prontos para ouvi-lo. – Foi o que respondeu Alarico um tanto desconcertado.
— Ótimo, então. – E dirigindo-se para a jovem falou: – Minha filha, só para confirmar, vosmecê aceitou o convite de Alarico para formarem uma família?
— Sim, padre. Eu fiquei surpresa e encantada com o convite, que nunca esperava fosse acontecer. Eu gosto muito do senhor Alarico e fiquei muito feliz com seu pedido de casamento, que aceitei de todo o coração. Eu ainda não falo muito bem a língua dos fóg, mas estou aprendendo. Espero ser uma boa esposa cristã.
— A vontade sadia é sempre o primeiro passo da virtude. – Respondeu o padre. – Me alegra muito saber. E penso que vosmecê sabe que precisa ser batizada na Santa Madre Igreja para poder casar-se religiosamente com Alarico, não é mesmo?
A jovem Mimosa respondeu:
— Sim, reverendo. Estou procurando aprender com as mucamas que cuidam de Alarico. Elas são escravas católicas e sabem ler o catecismo, e o senhor Alarico também tem me ensinado muitas coisas.
Alarico interveio para dizer à Mimosa que ela não precisava tratá-lo com cerimônia, agora que se preparavam para viverem a vida juntos, mas ela disse que preferia assim.
O padre continuou, para estabelecer um calendário para o batizado e para o casamento na Igreja:
— Então vamos preparar nossa jovem para o batismo. – E dirigindo-se para Mimosa: – Quando vosmecê pode ir à capela para receber as aulas de catecismo?
— Estou na Fazenda Nossa Senhora da Conceição. Fui recebida lá por causa do tratamento do senhor Alarico. E, mesmo agora que a ferida de sua perna já está boa e não é preciso vir aqui fazer curativos todos os dias, eles desejam que eu fique lá até resolver os proclamas do casamento. Acho que eu posso ficar mais uma ou duas semanas para aprender o catecismo e receber o batismo.
— Perfeito. Então vamos combinar assim. Esta semana vou reservar um tempo, todas as tardes, para lhe dar aulas de catecismo. Acho que, caso queiram, estaremos prontos para fazer o batizado e o casamento no mesmo dia. O que acham?
Mimosa não escondeu sua alegria e felicidade.
— Sim, padre. Eu gostaria muito. – Aí lembrou de Alarico, ao seu lado, e olhou ansiosa em sua direção. Ela queria muito que Alarico também o quisesse, mas preferiu ser cautelosa e certificar-se: – Isto é, se o Alarico, quero dizer, se o senhor Alarico também quiser… – Concluiu.
Alarico sorria divertido pelo entusiasmo de Mimosa.
— Claro que quero, minha querida Mimosa. Eu te tenho amor de verdade e quero ter vosmecê comigo por toda a vida. Se Deus quiser, acho que logo vou poder caminhar sem a bengala e, assim, vamos poder nos casar na capela. E voltou-se para o padre: – Sabe, padre, essa guria é um encanto. Ela me fez mudar de vida. Ela me deu juízo. Com ela, ao meu lado, vou ser outro homem. Eu quero me fixar aqui, nestas plagas, ter uma casa, ter uma família, ter filhos e ser um bom cristão. Chega de estripulias.
O padre Penteado tirou de sua pasta um pequeno catecismo e o deu para Mimosa:
— Minha filha, acho que vosmecê merece ter seu próprio catecismo. Este livrinho contém os ensinamentos da Igreja que precisará conhecer para receber o batismo. Vosmecê já sabe ler?
Mimosa respondeu encabulada:
— Estou aprendendo, padre. O senhor Alarico está me ensinando. Já sei o alfabeto e consigo ler devagarinho.
O padre Penteado sorriu sinalizou com a cabeça sua aprovação:
— Muito bem, minha filha. Saber ler vai ser muito útil para aprender o catecismo e terá grande utilidade em toda a sua vida futura. – Voltando-se para Alarico, continuou: – Meu caro Alarico, ensinar sua futura esposa a ler é o melhor presente que pode dar a ela e, digo-lhe com convicção, esta é uma boa ação que reverterá em bênçãos e alegrias para os dois. Ler é como abrir uma janela para o mundo e ver com os olhos da mente um sem-fim de maravilhas com que Deus enriqueceu a Terra para desfrute de seus filhos. Só posso lhe dar parabéns.
Alarico pegou na mão de Mimosa para responder ao padre Penteado:
— Obrigado, reverendo. Penso como o senhor. E fico muito feliz em poder abrir para Mimosa esta janela para o mundo, como diz vosmecê. Desde que comecei a convalescer fui ensinando Mimosa a ler e escrever. Ela ficava muito tempo comigo e o comissário me cedeu uma lousa de ardósia com um lápis e eu a fui ensinando um pouco a cada dia. Ela já sabe ler o que escrevo, mas as letras da escrita à mão são diferentes das letras impressas nos livros, por isto, agora, eu a estou ensinando a ler como é a escrita dos livros. Reverendo, seu oportuno presente vai me permitir aproveitar para que ela e eu possamos treinar a leitura juntos. Ademais, a verdade é que eu mesmo nunca estudei um catecismo.
O padre, na sequência, falou aos dois:
— Meus diletos filhos Mimosa e Alarico, a gente do povo costuma dizer que Deus escreve direito por linhas tortas. É verdade. Já na Santa Bíblia os Salmos cantam:
“Ó Deus, como são insondáveis para mim vossos desígnios! E quão imenso é o número deles!”.
Assim é que, pela graça de Deus, vosmecês se encontraram por caminhos inesperados e por acontecimentos fortuitos, mas que têm a lavra do Senhor. Aos dois Deus oferece a graça da vida e do amor. De agora em diante, cabe a vosmecês retribuírem com fidelidade um ao outro e aos ensinamentos da Igreja. Saibam que se agirem com diligência para transformarem seus sonhos de uma vida em comum e de um matrimônio cristão em realidade, Deus não lhes deixará faltar suas pródigas bênçãos. Também devo dizer aos amigos que o melhor agradecimento às bênçãos do Senhor é fazer multiplicar os frutos da terra com dedicação ao trabalho profícuo. Sem esquecer que, nestes momentos ainda incertos como os que vivemos com o fim da Guerra dos Farrapos na província, devemos esquecer nossas antigas diferenças e promover a paz entre os homens e mulheres de boa vontade, sejam eles antigos legalistas ou farrapos, sejam eles brancos, índios, negros ou de qualquer raça. – Fez uma pausa para preparar os espíritos para propor o seguinte: – Filhos diletos, por estas graças presentes e pelas graças que antecipamos em nossos corações, devemos agradecer ao Senhor. Vamos elevar nossos espíritos e rezar juntos uma Ave-Maria, um Padre-Nosso e um Glória ao Pai, como testemunho da sinceridade de nossas intenções e de que celebramos uma aliança de fidelidade com nosso Pai que está no céu.
O padre rezou com o casal e depois deu-lhe uma bênção:
— Meus filhos, vou dar-lhes minha bênção invocando a Santíssima Trindade, que é a fonte maior de toda a bênção e de toda a graça. Alarico, vou pedir que tome a mão de sua eleita, a sua futura consorte, dona Mimosa, durante a bênção e fale pelos dois na resposta do rito da bênção, está bem?
— Sim, padre. Farei conforme o senhor disser. – Com delicadeza, novamente tomou a mão de Mimosa e acomodou-se na cama para postar-se de forma respeitosa.
O padre, então, retirou da pasta a velha estola que o acompanhava, a colocou em volta do pescoço e empostou a voz para proceder à bênção:
— Dominus vobiscum.
Alarico respondeu pelos dois:
— Et cum spiritu tuo.
O padre Penteado, então, deu a bênção fazendo o sinal da cruz com a mão aberta:
— Benedicat vos omnipotens Deus, Pater, et Filius, et Spiritus Sanctus.
Alarico respondeu, contrito:
— Amém.
Terminada a bênção, o padre explicou a Mimosa o seu significado:
— Minha filha, esta bênção é a mais forte invocação da Igreja. Ela nos roga a bênção do Deus trino, que compreende as três pessoas da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mesmo ainda não sendo batizada, és filha do Deus compassivo que criou todos os homens e mulheres do mundo. Assim, a graça da bênção divina também a alcança. Compreendes?
— Sim, padre. – Respondeu Mimosa, por entre as lágrimas de alegria que se derramavam sobre seu rosto juvenil.
O padre, então, tomou-lhe as mãos e as apertou entre as suas.
— Minha filha dileta, a maior bênção que Deus nos dá é a salvação e a vida eterna por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo. E como está escrito em Provérbios, 18:22, quem encontra uma esposa acha uma coisa sublime e alcança o favor do Senhor. Que esta ventura permaneça convosco por toda a vida. Que assim seja.
Terminada a bênção, guardou a estola na velha pasta, despediu-se e saiu. O padre tinha o coração leve. Vivia um momento de júbilo. Como missionário, acreditava que o Espírito Santo o havia feito instrumento da obra de propagação do amor de Cristo naquelas plagas pioneiras. E nenhuma alegria poderia ser maior do que aquela que sentia aflorar em seu coração.
Um casamento para unir dois povos
Aquela primavera de 1845 foi muito movimentada em toda a região de Passo Fundo e do Alto Uruguai, bem como em toda a rota de tropas que passou a ser chamada de Novo Caminho das Missões. A passagem das comitivas pelo vau do Goio-En teve efeito mágico e desde logo deu um significativo impulso ao desenvolvimento do Alto Uruguai, das regiões do futuro Oeste de Santa Catarina e, mais adiante, dos Campos de Palmas e Campos de Guarapuava. Tanto no lado da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul quanto no de São Paulo, passado o abalo sofrido durante a Revolução Farroupilha, os negócios voltavam a florescer.
Tendo reencontrado a paz, consolidada sob a liderança do Conde de Caxias, a Província de São Pedro do Rio Grande viu a criação e o comércio de muares prosperarem de forma vigorosa. O muar era fundamental para o Brasil, que dele dependia para desbravar os sertões e trafegar por regiões inóspitas, carregando as cargas dos pioneiros. Seu lombo levava as colheitas; sua força tracionava o arado que preparava a terra bruta; sua disposição para longas jornadas de trabalho fazia rodar o amassador para produzir o tijolo e era a força que girava as moendas de cana para produzir o açúcar, a rapadura e a aguardente de cana, a popular cachaça. Os muares levavam e traziam as mercadorias e permitiram ao Brasil ligar suas várias regiões.
Passo Fundo, por ser um entroncamento importante, voltava a ser um movimentado ponto de passagem. Pela localidade trafegavam as comitivas de tropas que subiam pelo Caminho das Missões vindas de São Borja, Uruguaiana, Santo Ângelo, Cruz Alta, Carazinho e de outras origens mais ao Sul. As tropas vinham em número crescente e logo cruzariam por ali mais de 30.000, 40.000 muares por ano. Todas no rumo do mercado de Sorocaba, em São Paulo, que era o Centro nacional da comercialização de animais de carga. A partir de Passo Fundo, a maioria das comitivas continuava indo pela rota tradicional do Caminho das Missões. Depois de passar por Passo Fundo, cruzavam pelo Mato Castelhano, uma densa mata que recebeu este nome porque tinha sido o limite das Missões dos jesuítas espanhóis.
Atravessar o Mato Castelhano era arriscado, já que grupos de índios coroados renegados circulavam por ali e frequentemente roubavam as comitivas descuidadas. Depois, precisavam atravessar o Campo do Meio. Este, como o nome indica, ficava no meio entre o Mato Castelhano e o Mato Português. Os Kaingang denominavam o Campo do Meio de Cariroi e os jesuítas o chamavam de Potreiro Grande, porque ali, em campos cercados de matas fechadas, escondiam um grande rebanho de gado. O Campo do Meio media pouco mais de 6 léguas e era formado por belas campinas, plácidos cursos de água e rotundos capões, que dançavam com o vento e sombreavam a paisagem.
Depois do Campo do Meio era preciso atravessar o Mato Português, que os Kaingang chamavam de Caamone. O Mato Português era maior que o Mato Castelhano por ser um prolongamento da serra do Rio das Antas que se juntava às matas do Alto Uruguai. Nesta autêntica floresta, onde abundavam as araucárias, os bugres Kaingang circulavam com desenvoltura, o que o fazia ainda mais perigoso que o Mato Castelhano. Vencida essa etapa, vinham os Campos de Vacaria, onde o Caminho das Missões desembocava em um trecho do antigo Caminho de Cristóvão Pereira de Abreu. Por essa rota seguiam até Lages, onde, finalmente, entravam no Caminho Geral.
O que aconteceu, porém, de 1845 em diante foi que a abertura do Novo Caminho das Missões fez com que numerosas tropas que chegavam a Passo Fundo desviassem no rumo Norte e alternassem seu curso para o Novo Caminho das Missões, indo pelos Campos do Erechim, margeando o Vale Dourado, descendo a ribanceira do Vale do Uruguai e cruzando o rio pelo Passo do Goio-En. Já na Província de São Paulo, seguiam para os Campos de Palmas, depois Campos de Guarapuava, para ir encontrar em Castro o Caminho Geral, que levava a Sorocaba.
As grandes novidades daquela primavera para a região de Passo Fundo e do Alto Uruguai seriam a criação do aldeamento de Nonoai, instalado em uma extensão de 7 léguas de área escolhida pelos Kaingang, a nomeação de João Cypriano da Rocha Loures como inspetor do aldeamento, a criação da Companhia de Pedestres em Passo Fundo, sob o comando do capitão Marcelino José do Carmo, e a contratação do cacique Victorino Condá pela Província de São Pedro do Rio Grande como capitão dos índios, o mesmo posto que tivera na Província de São Paulo. Neste cargo ficava encarregado de atrair índios para o aldeamento de Nonoai, recebendo um soldo que era complementado com uma gratificação de 50.000 reis a cada grupo de 50 índios que alistasse para o aldeamento. Sua função incluía, também, colaborar com a segurança para a consolidação do novo caminho pelo Goio-En.
Apesar de a nova estrada ser, a rigor, uma trilha de piso bruto, desentocado, aplainado e retificado, ela permitia um tráfego confortável de muares e cavalares. Sem tocaias e ataques de bugres, a nova vereda se mostrou segura e conveniente, fato que, além da significativa economia por evitar a taxa do “pedágio” de Santa Catarina, cobrado no Passo de Santa Vitória, em Lages, no Caminho Geral, conquistou muitos tropeiros. Como seria de esperar, com as tropas circulando por aquele caminho, muita gente foi atraída pelas oportunidades que apareceram e muitos começaram a se instalar por ali. Os tropeiros frequentemente paravam nas invernadas dos Rocha Loures e em outras que surgiram.
O que desejavam eram invernadas cercadas com taipas de pedra, capazes de receber os animais com segurança e possibilitassem a sua recuperação antes de enfrentarem uma nova etapa da longa marcha a Sorocaba. As paradas também permitiam a doma dos muares ainda xucros. Muares xucros, ainda não domados, valiam menos e, por isto, os tropeiros aproveitavam as paradas forçadas no caminho para completar a doma dos animais de suas tropas. Para atender às demandas dos tropeiros, logo as invernadas no Novo Caminho das Missões ofereciam, além das áreas de abrigo com as proteções de taipas, galpões de pousada para os peões, cozinhas para os tropeiros, selarias, artesãos e ferreiros.
Com a abertura do caminho pelo Goio-En, a região do Alto Uruguai e dos Campos de Palmas se integravam em definitivo a um Brasil que crescia e se consolidava. A nação brasileira firmava sua dimensão continental. Em 1845 o Brasil tinha uma população estimada superior a 5 milhões de habitantes distribuídos numa área territorial estimada em 250.000 léguas quadradas, equivalente a 7.910.000 quilômetros quadrados e que se dividia em 18 províncias. No mundo daquela época, o Brasil ocupava o 14º lugar em população e o terceiro em território.
Entre as províncias do império, Minas Gerais era a de maior população e estimativas da época davam conta de que teria cerca de 930.000 habitantes. A segunda mais povoada era a de São Paulo. A extensa província paulista, que tinha, estimava-se, 650.000 habitantes, englobava, naquele tempo, todo o território que viria a ser o estado do Paraná e a região do Oeste de Santa Catarina, com a divisa, no lado Sul, chegando às margens do Rio Uruguai. Daí o interesse paulista pela abertura do Goio-En para consolidar a posse do território e criar uma via para a circulação de mercadoria e para a passagem de tropas de gado e muares no rumo do mercado de Sorocaba.
Ao Sul do Rio Uruguai e do Passo de Goio-En, a Província de São Pedro do Rio Grande tinha, à época, ao redor de 170.000 habitantes e ocupava o 12º lugar entre as províncias. Porto Alegre, a capital, reunia cerca de 12.000 habitantes e a cidade figurava em 9º lugar no Brasil. A Leste, a Província de Santa Catarina, que ocupava apenas parte de seu atual território, tinha uma população de 40.000 habitantes, mas a imigração alemã já estava em curso e seu crescimento se dava a olhos vistos. Os primeiros colonos alemães chegaram à província em 1828. Somavam 523 imigrantes católicos, originários da região do Hunsrück, na Renânia, localizada no sudoeste alemão, aos quais se somaram mais algumas famílias vindas de Luxemburgo. Estas famílias fundaram a primeira colônia de imigrantes de Santa Catarina em São Pedro de Alcântara. Todavia, um evento ainda mais importante para estimular o crescimento da colonização da província foi o noivado da princesa D. Francisca de Bragança, filha do imperador D. Pedro I e irmã de D. Pedro II, com o Príncipe de Joinville, filho de Luís Filipe I, rei dos franceses.
O governo imperial brasileiro, chefiado por D. Pedro II, sancionou uma lei, em setembro de 1840, dando como dote à princesa 25 léguas quadradas localizadas na Província de Santa Catarina, entre os rios Pirabeiraba e Itapocu, nas proximidades da Baía de São Francisco. Havia no ar a expectativa de que o Príncipe de Joinville e D. Francisca desenvolvessem sua colônia atraindo um grande fluxo migratório de europeus para fixarem-se na área. A verdade é que, em 1845, toda a região meridional, incluindo o Sul da então Província de São Paulo e o Alto Uruguai da Província de São Pedro do Rio Grande, viviam um momento de grande efervescência e todos tinham a sensação de que a região se converteria, no futuro, em uma vasta e fecunda terra de oportunidades.
Conquanto Passo Fundo e o Alto Uruguai gaúcho tenham conhecido um crescimento constante daí em diante, ao Norte do Rio Uruguai, o Oeste catarinense viu esse vaticínio finalmente se cumprir, mas não sem antes sofrer os efeitos da disputa de fronteiras entre o Brasil e a Argentina, na Questão de Palmas, resolvida em favor do Brasil em 5 de fevereiro de 1895, pela intervenção do presidente Cleveland, dos Estados Unidos, e da dolorosa e desnecessária Guerra do Contestado, uma disputa de limites entre o Paraná e Santa Catarina, que começou em 1912 e durou quatro anos, deixando quase 20.000 mortos, a grande maioria civis.
Em 1845, porém, Passo Fundo vivia um clima de prosperidade e entusiasmo, e foi sob os melhores augúrios que se realizaram as bodas do casal Alarico de Góis Saldanha, o engenheiro capataz da equipe de construção da estada do Goio-Em, e a jovem índia Kaingang Mimosa Vamari. O casamento, realizado na Capela Nossa Senhora da Conceição Aparecida, na Vila de Passo Fundo, acabou tendo grande repercussão, tanto local quanto nacional.
O noivo, mais magro após a convalescença, com a barba negra bem escanhoada, elegante e bem aprumado, vestia um fraque risca de giz que combinava com a camisa branca de colarinho alto, engomado, e gravata de tiras. O traje foi presente do comissário, que o encomendou em Porto Alegre. A noiva, relatavam as testemunhas, estava deslumbrante. Vestia um vestido branco de cauda plissada, com corpete bordado de flores silvestres, criado e confeccionado por Thereza. O cacique Condá e sua mulher foram os padrinhos da noiva. O comissário e sua mulher, Emília Francisca de Borba, foram os padrinhos pelo lado do noivo. Também coube a Thiago, Thereza e seu pequeno coral com os três meninos inspirarem aos nubentes e à assembleia de fiéis com seus cânticos de louvor a Deus. E, no momento mais emocionante da cerimônia, interpretarem a Ave Maria de Schubert.
Todos se sentiram arrebatados por aquela diáfana melodia que parecia ter sido escrita para ser cantada pelos anjos. A música, composta apenas 20 anos antes pelo austríaco Franz Peter Schubert, era executada pela primeira vez naquelas remotas paragens, mas todos os que a ouviram testemunhariam que ela os arrebatou, e daquela emoção lembrariam enquanto vivessem. A composição, de inigualável beleza, tinha já conquistado a Europa. Tratava-se de formosa e expressiva oração à Virgem Maria na forma de música, e Thereza havia pessoalmente copiado de uma partitura original, ainda em Porto Alegre, que conseguira por empréstimo de um músico alemão recém-chegado.
Enquanto isso, no pátio da igreja, no chão puro de terra batida, os índios homenagearam a noiva com suas danças e cânticos. O chefe Nonoai estava presente. Veio especialmente para prestigiar a cerimônia, assim como vieram mais de uma centena de índios de todos os seus toldos. Parentes da noiva e índios Kaingang também tinham vindo dos toldos do lado Norte do Rio Uruguai. Era um evento histórico e não queriam perder aquele casamento inédito entre os índios e que se tornava um acontecimento empolgante para toda a tribo.
A festa aconteceu na Fazenda Nossa Senhora da Conceição. Os comes e bebes, um presente dos Rocha Loures aos noivos, convidados e pessoas presentes no casamento, logicamente, significava boi carneado churrasqueado no fogo de chão e ovelha respingando gordura na brasa e crepitando no espeto, acompanhados de pão de milho, pinhão assado e cozido, espigas de milho verde assadas, arroz e feijão tropeiro, radiche e outras verduras temperadas com sumo de limão, tudo regado com cerveja feita na fazenda e complementada pela célebre cachaça do comissário.
O bolo de casamento, confeitado e com vários andares, foi presente das mucamas e homenagem à noiva, de quem eram amigas. Como era costume entre as mucamas, no bolo foram escondidos os amuletos da sorte. Corações de caramelo, trevos de quatro folhas, ferraduras de confeitaria e outros brindes foram colocados dentro do bolo como sinal de boa sorte e amor eterno. Apregoava-se que o convidado, ou convidada, que encontrasse os amuletos em sua fatia e fosse solteiro seria o próximo a casar.
A união entre homens brancos e índias estava longe de ser inédita no Brasil da colônia e do império. Mas esses relacionamentos, ainda que muitos fossem duradouros e com muitos filhos, frequentemente ficavam na sombra de uma sociedade preconceituosa. A colonização europeia era feita predominantemente por homens jovens, quase sempre solteiros. Era comum que formassem família com as nativas que encontravam no país. Os filhos de brancos com índios, denominados “mamelucos”, já que estava proibido pelo Alvará Régio que fossem chamados “caboclos”, eram pessoas presentes na vida econômica e social da nação, e muito numerosos mesmo nas antigas bandeiras paulistas.
De fato, desde 1755 o casamento “misto” entre brancos e índios era oficialmente aceito, conforme estabelecia o decreto do rei Dom José I, Rei de Portugal, que, assessorado pelo Marquês de Pombal, promulgou o Alvará Régio de 4 de abril de 1755, que dizia:
– Eu, El Rey. Faço saber aos que este meu Alvará de ley virem, que considerando o quanto convém que os meus reaes domínios da America se povoem, e que para este fim póde concorrer muito a communicaçaõ com os Indios, por meio de casamentos: sou servido declarar que os meus vassallos deste reino e da America, que casarem com as Indias della, naõ ficaõ com infamia alguma, antes se faráõ dignos da minha real atençaõ; e que nas terras, em que se estabelecerem, seráõ preferidos para aquelles lugares e occupaçoens que couberem na graduaçaõ das suas pessoas, e que seus filhos e descendentes seráõ habeis e capazes de qualquer emprego, honra, ou dignidade, sem que necessitem de dispensa alguma, em razão destas alianças, em que seráõ tambem comprehendidas as que já se acharem feitas antes desta minha declaração: E outrosim proibo que os ditos meus vassallos casados com Indias, ou seus descendentes, sejaõ tratados com o nome de Caboucolos, ou outro similhante, que possa ser injurioso; e as pessoas de qualquer condiçaõ ou qualidade que praticarem o contrario, sendo-lhes assim legitimamente provado perante os ouvidores das comarcas em que assistirem, seráõ por sentença destes, sem apellaçaõ, nem aggravo, mandados sahir da dita comarca dentro de um mez, e até mercê minha; o que se executará sem falta alguma, tendo porém os ouvidores cuidado em examinar a qualidade das provas e das pessoas que jurarem nesta materia, para que se naõ faça violencia ou injustiça com este pretexto, tendo entendido que só haõ de admittir queixa do injuruado, e naõ de outra pessoa. O mesmo se praticara a respeito das Portuguezas que casarem com Indios: e a seus filhos e descendentes, e a todos concedo a mesma preferencia para os officios, que houver nas terras em que viverem; e quando succeda que os filhos ou descendentes destes matrimonios tenhaõ algum requerimento perante mim, me faráõ saber esta qualidade, para em razaõ della mais particularmente os attender. E ordeno que esta minha real resoluçaõ se observe geralmente em todos os meus dominios da America. Pelo que mando ao vice-rey e capitaõ general de mar e terra do estado do Maranhaõ e Pará, e mais conquistas do Brasil, capitaens móres dellas, chancelleres, e desembargadores das Relaçoens da Bahia e Rio de Janeiro, ouvidores geraes das Comarcas, juizes de fóra e ordinarios, e mais justiças dos referidos estados, cumpraõ e guardem o presente alvará de ley, e o façaõ cumprir e guardar na fórma que nelle se contém; o qual valerá como carta, posto que seu effeito haja de durar mais de um anno, e se publicará nas ditas comarcas, e em minha chancellaria mór da corte, e reino, onde se registrará, como tambem nas mais partes, em que similhantes alvarás se costumaõ registrar; e o proprio se lançará na Torre do Tombo. Lisboa, quatro de abril de mil setecentos e cincoenta e cinco.
Rey.
A questão é que, embora autorizado e até estimulado pelas autoridades desejosas de ver casamentos “mistos” ou “desiguais” se tornarem formalmente instituídos, a união formal de casais desse tipo era vista com restrições pela alta sociedade da época. Muitas autoridades, e até mesmo parte do clero, achavam que esses casamentos maculavam a pureza da raça europeia. Essas circunstâncias explicam por que o casamento de Alarico de Góis Saldanha com Mimosa, festivamente celebrado e realizado com pompa e circunstância, unindo um europeu branco de boa posição social com uma indígena dos rincões perdidos das matas de araucária, se tornou um evento de repercussão nacional. No caso, o noivo, um engenheiro capataz de estrada, trabalhando para o governo da Província de São Paulo e lotado na equipe da estrada do Goio-Em, casando-se em Passo Fundo com uma nativa Kaingang que conhecera durante uma convalescença, na qual ela o ajudou a tratar-se aplicando medicina indígena, fazia o romance ter a emotividade e o colorido de um folhetim.
O relato do casamento, rico em detalhes, enviado pelo comissário local ao presidente da província, acabou nas mãos de um jornalista de O Imparcial, prestigioso jornal de Porto Alegre. A notícia, publicada na primeira página, causou enorme estardalhaço. Na capital, o casamente foi assunto das damas da alta sociedade por dias. E não só delas, porque o enlace logo virou tema das lavadeiras do Guaíba. O auge dos fuxicos se deu nas tertúlias do domingo. Folhetos apócrifos foram publicados enxovalhando o noivo e, para espanto de uns e assombro de outros, o casamento inter-racial foi repercutindo no país inteiro. Primeiro pelos demais jornais de Porto Alegre, como o Porto-Alegrense, depois, com a notícia correndo pelo país e sendo divulgada por periódicos como o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, e o prestigioso Diário de Pernambuco, publicado no Recife.
Ocorreu, então, que o presidente da província, Luís Alves de Lima e Silva, o Conde de Caxias, ao ler o jornal no desjejum daquele domingo, 9 de novembro de 1845, foi tomado de surpresa. O casamento do engenheiro Alarico de Góis Saldanha, capataz da equipe de construção da estrada do Goio-Em, com a jovem índia Kaingang Mimosa Vamari era contado em detalhes. De imediato, o conde se deixou tomar de grande orgulho patriótico. Era a província que presidia, sua pátria e sua gente engrandecendo a civilização, algo que ele estimulava com seu maior empenho. A notícia falava da cerimônia, destacava o inusitado matrimônio cristão entre um branco e uma índia, dava detalhes da esplêndida festa das bodas organizada com todo o fasto e, para dar o contexto do inusitado enlace matrimonial, narrava as circunstâncias do acidente do noivo e o exitoso tratamento com medicamentos indígenas.
A reportagem também relatava a saga da nova estrada que seguia para a Província de São Paulo, explicando ser o noivo engenheiro capataz da ambiciosa obra. Em seguida, ainda descrevia os ritos celebrados pelo padre Penteado, o Cura paulista da Capela de Nossa Senhora da Conceição, e conferia realce à presença dos “músicos porto-alegrenses” Thiago, Thereza e os meninos. Ao citar o celebrante, informava que o padre Penteado tinha sido encarregado pelo presidente da província de catequisar os “bugres selvagens” da região de Passo Fundo. E a prova de que o Cura vinha se desincumbindo do mister com grande sucesso era aquele casamento noticiado.
O articulista discorreu elogiosamente sobre o significado do acontecimento para enaltecer a pacificação obtida na província. Ainda, segundo a notícia, o comissário do governo da província em Passo Fundo era homem conciliador e de grande prestígio. A seguir, comentava sobra a contribuição de Joaquim Fagundes dos Reis para o sentimento da harmonia vigente entre índios e bancos. Destacava que a liderança do comissário estava promovendo a prosperidade que se espalhava por toda a região da Vila de Passo Fundo e se alargava ao ainda despovoado Alto Uruguai.
Ao ler a notícia, o presidente da província ficou encantado. Não podia haver maior prova do acerto de suas políticas de promoção da paz. A seu ver, um governante que promovia a paz e se empenhava na melhora da vida de seu povo cumpria sua missão. Ele tinha sido o comandante vitorioso das tropas do império contra os revoltosos farrapos, mas não os humilhara nem os perseguira. Havia, antes, que pensar na integridade do país. A secessão da Província Cisplatina já fora demais. De tal sorte que o casamento de Alarico e Mimosa era uma singela, mas eloquente evidência de que poderiam, gaúchos e brasileiros, índios e brancos, construir juntos a civilização a que tanto aspirava o imperador. A guerra tinha sido sangrenta em muitos momentos, mas, cessadas as hostilidades, a prioridade passava a ser, como acertadamente dizia o jornal, a prosperidade do país.
O conde, vibrando com o jornal nas mãos, mostrou a notícia à esposa, que estava sentada à sua frente:
— Olhe, minha querida Ana Luísa, que supino agrado me fazem hoje esses rio-grandenses. Veja aqui quão alentadora é esta notícia que está no jornal.
Ana Luísa do Loreto Carneiro Viana tomou o jornal nas mãos, leu a notícia e olhou com ternura para o marido. Ela, melhor do que ninguém mais, sabia o quanto o Conde de Caxias se deixava emocionar pelos sinais de avanço da civilização no país que amava. Ana Luísa, a mulher do Conde de Caxias, estava agora com 28 anos e o casal tinha duas filhas, Luísa de Loreto Viana de Lima, nascida em 1833, e Ana de Loreto Viana de Lima, nascida em 1836. Quando se casaram, em 2 de fevereiro de 1833, Luís Alves tinha 29 anos e Ana Luísa 16. Ana Luísa pertencia a uma família aristocrática carioca e era neta da Baronesa de São Salvador de Campos. A noiva se casou contra a vontade da mãe, que via Luís Alves de Lima e Silva, e sua família, como novos-ricos. Não obstante o desagrado inicial da mãe, o casamento de ambos era feliz e o Conde de Caxias, aos 41 anos, já tinha invejável prestígio junto ao imperador.
Ana Luísa, igualmente, encantou-se com a notícia do jornal. O enlace do engenheiro de estradas Alarico de Góis Saldanha com sua noiva, Mimosa Vamori, uma índia da tribo Kaingang, realizado nos confins da província, na Vila de Passo Fundo, merecia ser enaltecido para frutificar como exemplo. Ela, como o marido, era apaixonada pelo Brasil. Tinha viajado com o conde pelos quatro cantos do país e, como ele, acreditava que o tecido social que faria o Brasil próspero era muito precisado daquelas gentes que realizavam seus sonhos nas comunidades escondidas e nos rincões distantes das capitais. Ela tinha nascido em família nobre e aristocrática, que se vangloriava de sua relevância e suas tradições, porém aprendera a valorizar a vastidão dos espaços, a natureza luxuriante e as belezas ímpares com que Deus brindara aquela terra de promessas.
— Meu querido, que notícia maravilhosa para iluminar nosso domingo. Tu sabes que meu coração se enternece sempre que vejo o amor florescer. A mim encanta ainda mais ver o amor vencer as dificuldades que os desbravadores enfrentam na dura conquista do interior pioneiro. E, depois, como sabes, meu querido conde, eu me emociono às lagrimas com as cerimônias de casamento. Meu Deus, como eu gostaria de ter podido abraçar esta moça no dia que ela, como diz a notícia, adornou seus cabelos macios com a grinalda de flores silvestres e o véu de renda caindo sobre seus ombros para ir ao encontro de seu noivo naquela Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Posso imaginar os noivos prometendo-se um ao outro envoltos pelo aroma dos campos e das matas que este céu luminoso e gentil tão carinhosamente abençoa. Eu gostaria de estar lá para sentir o perfume das flores-do– campo e me deixar encantar pela música deste coral que, como diz a notícia, fez a capela se tornar uma catedral sob o dossel dos pinheiros que tocam o céu.
O conde, que sabia quão romântica e sensível era sua esposa e quanto a ela agradavam as cerimônias de casamento, riu divertido daquele esfuziante irromper de emoções. Contou para Ana Luísa sobre a missiva do padre Penteado, falou da visita que recebeu do alferes Rocha Loures, encarregado da construção do novo caminho pelo Goio-Em, a quem deu ciência de sua promoção a tenente, exaltou o singelo coral de seu ex-mensageiro Thiago Miranda – um homem pitoresco que sempre lhe agradara –, com os filhos e a esposa, a prendada imigrante alemã dona Thereza, de cujos infortunados pais ouvira falar. E confessou, um pouco encabulado, que ele também gostaria de ter estado presente naquelas núpcias de tanto simbolismo. Afinal, entre outros motivos, foi para contribuir na construção de uma sociedade de inspiração cristã na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul que o imperador Dom Pedro II o fez dela presidente.
Ana Luísa, ainda imaginando as cenas das bodas de Passo Fundo, decidiu que deviam associar-se ao evento. Sugeriu ao conde que seria de bom alvitre enviar um presente de casamento aos noivos. Era o que podiam fazer para compartilhar do júbilo daquele acontecimento. O conde concordou de imediato. Era uma excelente ideia. Pediu para que Ana Luísa sugerisse o que deviam presentear. Ela disse que uma nova dona de casa em meio aos matos iria valorizar presentes que tivessem utilidade prática no seu dia a dia. A pedido do conde, fez uma lista de presentes: uma peça com 50 metros de morim de boa qualidade; uma boa tesoura alemã, de Solingen, agulhas e linhas de coser, um faqueiro de alpaca, panelas e utensílios de cozinha. Com o morim, a tesoura, linhas e agulhas a noiva estaria equipada para fazer lençóis, fronhas, cortinas e até algumas peças de vestuário. E, lembrou por fim, que uma pequena estátua de Nossa Senhora da Conceição não poderia faltar. O conde aprovou. Sim, uma noiva daquelas paragens ficaria encantada com presentes tão úteis. Prometeu para sua mulher que na segunda-feira faria a compra dos presentes e providenciaria o seu envio o mais rapidamente possível.
Caxias recortou o jornal e guardou a notícia daquele casamento. Era prova de que a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul estava criando as raízes de brasilidade que ele tanto estimulava. O enlace, que muitos da elite olhariam com desprazer, para ele representava um auspicioso sinal de que, finalmente, a província que ora presidia ia abandonando a desavisada ânsia separatista e se integrava ao Brasil de forma definitiva. E o pensamento o alegrava imensamente. Num ponto concordava com Ana Luísa: a unidade nacional seria necessariamente tecida no seio do povo. O Brasil seria feito pela gente brasileira. O Conde de Caxias tinha a obsessão pela união nacional. Estava convencido de que, de fato, a grandeza do Brasil seria proporcional à sua capacidade de criar harmonia no seio de seu povo e da capacidade de sua gente de criar raízes. Cada nova família era uma nova árvore que florescia no pomar social. Assim, estimular a formação de novas famílias significava gerar frutos e espalhar brasilidade.
Esta certeza ele havia adquirido depois de testemunhar pessoalmente a infausta decisão da vizinha Província Cisplatina de, em 1828, se separar do Brasil. Ele atribuía a separação à falta de um sentimento de brasilidade entre a sua população. Ele assistira, triste e impotente, aos erros e aos equívocos que terminaram com a separação do Uruguai. Como capitão, lutara naquela que foi chamada de Guerra Infausta. Na Guerra Cisplatina sua bravura, arrojo e competência no desempenho das missões que recebeu não foram capazes de reverter o curso da pugna fraticida, ainda que lhe tivessem garantido a promoção a major, em 2 de dezembro de 1828. Mas a lição foi aprendida e foi com o mesmo animus patriótico que, anos depois, em 2 de dezembro de 1839, aceitou a incumbência de suprimir a Balaiada, uma revolta que eclodiu na Província do Maranhão.
Já promovido a coronel e com plenos poderes, na qualidade de presidente da província e seu comandante de armas, chegou a São Luís no dia 4 de fevereiro de 1840. Com denodo, habilidade e bravura inconteste, depois de vários confrontos, derrotou os rebeldes. Em reconhecimento, foi promovido a brigadeiro em 18 de julho de 1841 e, para sua surpresa, D. Pedro II outorgou-lhe um título de nobreza. E, ainda, em um raro gesto de deferência ao leal e valoroso amigo, concedeu-lhe a honra de escolher o título que mais lhe agradasse. O brigadeiro Luís Alves de Lima e Silva escolheu o título de Barão de Caxias. Foi uma homenagem que desejou prestar à cidade de Caxias, do Maranhão. A cidade, a segunda mais rica do estado, foi precisamente aquela que ele havia reconquistado das mãos dos rebeldes.
Ao terminar o jantar na segunda-feira, o conde de Caxias releu a notícia do casamento de Alarico e Mimosa, enquanto saboreava a sobremesa de cucas alemãs que não encontrava no Rio de Janeiro. E decidiu que aquele era um bom momento de compartilhar sua alegria relativa ao sucesso da pacificação da província enviando uma carta a seu tio e cunhado, Manoel da Fonseca Lima e Silva, também presidente da vizinha Província de São Paulo.
Foi sentar-se em sua escrivaninha, pegou papel de carta, molhou a pena no tinteiro à sua frente e escreveu:
“Exmo. Tio, cunhado e amigo,
Inicialmente, estimo que esta missiva encontre o dileto amigo e sua esposa – a minha querida irmã Carlota Guilhermina, cuja distância tanto lamento – bem como toda a sua família, em gozo de plena saúde.
Desde logo, apraz-me comunicar que Suas Majestades Imperiais devem chegar a esta província na próxima terça-feira, dia 11, deste mês de novembro. Bem pode imaginar vosmecê minha expectativa e minha ansiedade. Será uma imensa honra e uma enorme alegria receber nossos soberanos nesta província. Ainda mais nesta sempre leal cidade de Porto Alegre, uma urbe cosmopolita singularmente devotada ao imperador e que nunca fraquejou no seu apoio aos nossos monarcas. Tenho feito empenho pessoal para assegurar o sucesso das grandes festividades que estão programadas para começar na cidade de Rio Grande, onde o imperador e sua excelsa esposa desembarcam, e devem ter seu apogeu nesta capital. Suas Majestades têm visitas programadas para a Vila de São José do Norte, para as Freguesias de Belém e Viamão, para a Colônia de São Leopoldo, a Vila do Triunfo, a Freguesia de Santo Amaro, as Vilas de Rio Pardo e Cachoeira, a Capela de São Gabriel e a cidade de Pelotas, esta já em seu trajeto de volta ao porto de Rio Grande.
O que me estimula a escrever estas linhas ao dileto amigo, todavia, é a prosaica notícia que vejo estampada no jornal de hoje dando conta do recente casamento de um engenheiro da obra da Nova Estrada das Missões, o português Alarico de Góis Saldanha, com uma noiva nativa, uma índia da tribo dos Coroados de nome cristão Mimosa Vamori.
As bodas foram oficiadas pelo reverendo padre Antônio Penteado, paulista que aqui se fez investir como cura da Capela de Nossa Senhora de Conceição Aparecida de Passo Fundo. O sacerdote é filho de destacada família paulista que conta entre seus membros com abastados donos de tropas, muitos deles com negócios e ligações aqui na província. Sua vinda me faz agradecer à Providência Divina por nos trazer este esplêndido jovem clérigo de tão acendrado cristianismo e que, além de seus inestimáveis préstimos como cura daquela freguesia, vem a ser missionário junto aos índios do novo aldeamento dos Coroados recém-assentados naquela região do Alto Uruguai.
O que mais me alegra neste evento, sob todos os modos auspicioso, é que este casamento, além de superar barreiras e preconceitos, nos apresenta um inequívoco sinal de que esta província volta ao curso de uma vida normal. O que seria mais emblemático do que constatar que as pessoas casam e constituem família sob as luzes da fé e por aqui deitam raízes sob as bênçãos do cristianismo e da civilização? Sobretudo, de minha parte, enalteço o casamento de um homem branco com uma índia nativa que, devidamente realizado sob as bênçãos da Igreja, atende aos reclamos de nossas autoridades que aspiram ver mais matrimônios regulares entre as raças que fazem nossa nacionalidade.
Aproveito o ensejo para dar ciência ao amigo, o governador da grande província vizinha, que tenho alvissareiras notícias sobre o novo caminho que liga Guarapuava e os Campos de Palmas, em sua província, ao Caminho das Missões, aqui na Província de São Pedro do Rio Grande. O Novo Caminho, que passa pelo vau do Goio-Em e pela Vila de Passo Fundo, como me foi dito, já está em condições de ser viajado e, de fato, vem sendo utilizado por tropeiros e comitivas de muares e, mesmo, de bovinos. Para isto ter-se tornado possível foi preciso apaziguar os bugres que dominavam os campos e matas da região do Alto Uruguai, índios estes chefiados por Nonoai, um cacique poderoso e, devo reconhecer, muito astuto e atilado, conquanto de índole pacífica e leal. Para tanto, autorizei a formação de um aldeamento com sete léguas de extensão e dotado de rios, matas, campos e tudo o mais necessário para a sobrevivência dos índios de sua tribo.
Devo, por respeito à verdade, reconhecer que o êxito do aldeamento se deveu muito aos esforços do cacique Victorino Condá. Este vem a ser o renomado chefe indígena que foi premiado por sua província no célebre episódio da recuperação dos meninos brancos que estavam reféns do Coroados. Para dar autoridade ao cacique Condá, eu o nomeei como capitão dos índios.
Por oportuno, também faço registro da estimada visita que recebi do tenente Rocha Loures, da guarnição de Guarapuava. O tenente foi o oficial encarregado por seu governo para fazer a abertura do caminho pelo Goio-Em. Ele esteve aqui em visita junto com seu irmão, João Cypriano da Rocha Loures. Ao tenente devemos a vinda do cacique Condá, que o acompanhou com a tarefa de dialogar com os membros de sua tribo e facilitar a pacificação, providência sem a qual não seria possível a abertura da estrada. Por meio dos irmãos recebi gratas recomendações sobre o já referido padre Antônio de Almeida Leite Penteado, o desembaraçado e ativo padre paulista, que aqui chamam de biriva, mas sem conotação pejorativa. Eles chegaram ao mesmo tempo que a missiva em que o padre se oferecera para levar as primeiras luzes do cristianismo aos índios que habitam pelas imediações do Passo Fundo. Com grande regozijo, aceitei seus préstimos. Sem demora, mandei que lhe dessem um altar portátil, roupas e ferramentas para distribuir aos índios. A ele dei também uma escolta da guarnição de Cruz Alta, determinando que o acompanhassem até o toldo do cacique Nonoai. Ainda que não fosse preciso, serviria como demonstração do respaldo que ele tem do governo. De sua parte, o tenente Rocha Loures garantiu-me que se encarregaria pessoalmente de ensinar o uso das ferramentas aos índios.
E se faz mister dizer que sua meritória iniciativa de patrocinar a abertura do Novo Caminho das Missões apresenta números que me surpreenderam de sobejo. Na viagem longa, de São Borja até Sorocaba, a economia final é de pouco mais de 20 léguas, todavia, encurta o caminho entre os Campos de Palmas e as Missões em mais de 60 léguas. Este espantoso prodígio se explica por evitar a grande volta do caminho tradicional que passa por Lages. Ademais, tem o mérito de contribuir com os elementos materiais da prosperidade, animando o comércio, a pecuária e estreitando os laços de confraternidade das cidades e vilas de nossas duas províncias. Outrossim, como adrede sabe o dileto amigo, tenho tido sempre o empenho de zelar pela unidade nacional e julgo que esta estrada, juntamente com a estrada que sua província paulista pensa construir para ligar o Campo de Palmas com a Província de Corrientes, pode melhorar a posição do Brasil no uti possidetis como solução das imanentes questões de limites, ainda não definidos nesta parte do império.
Antes de concluir, permita-me acrescentar algumas linhas plenas de admiração por nossos soberanos. Verifico que é imenso o júbilo popular na expectativa da visita de Suas Majestades a esta meridional província de nosso grande país. Já antecipo que será festejada por grandes concentrações de nosso povo grato e acolhedor. Pressinto que a visita marcará um novo tempo para o patriotismo e a brasilidade na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, província que tenho a acendrada honra de ora presidir. Como bem sabe o dileto amigo, admiro o imperador por sua grandeza em constituir-se num baluarte da unidade nacional. Por felicidade, e consentimento do bom Deus, o povo brasileiro tem imenso apego ao nosso monarca e o Brasil está se consolidando como uma Monarquia Constitucional. Por desígnio benfazejo dos fados, tenho a impressão de que estamos caminhando para nos ombrearmos às nações de governos sólidos como a Inglaterra, a Holanda e as monarquias do Norte da Europa. De minha parte, temo a sorte das nações de nossa América Latina que escolhem o modelo do governo presidencialista. Este tipo de governo, cujos governantes só raramente têm raízes aprofundadas com suas nações, é fácil presa de aventureiros e oportunistas que são pródigos em palavras e escassos em realizações e buscam apenas amealhar poder e riqueza sem considerar as necessidades maiores da nação. Por fim, ao lado de compartilhar com o amigo a grande alegria de receber na província a tão grata visita de Suas Majestades Imperiais, fico feliz em confidenciar, ainda que de forma não oficial, que me foi dado saber, por ditosa indiscrição de um dos precursores da próxima visita real, que Suas Majestades Imperiais tencionam também visitar a Província de São Paulo depois de concluída a grata visita aqui no Sul. Sei que a notícia muito alegrará o povo paulista, cujo patriotismo tanto admirei no episódio da Revolta Liberal, assim como alegrará ao dileto amigo, na improvável hipótese de que tal notícia não tenha ainda chegado a seu conhecimento.
Ana Luísa envia suas recomendações à Carlota Guilhermina e a Vossa Mercê.
Receba um abraço de seu amigo, sobrinho, cunhado e camarada de armas que muito o estima e respeita.
Cordialmente,
Luís Alves de Lima e Silva
Conde de Caxias.”.
…
Terminada a missiva, o Conde a dobrou cuidadosamente, a colocou em uma sobrecarta, escreveu o nome do destinatário e o endereço com letras caprichadas e, no verso, pingou o lacre. Nele, imprimiu seu brasão com o sinete metálico. Levantou-se, levou a sobrecarta até a cômoda ao lado e a depositou ali. Levantou os olhos e viu que a luz do candelabro iluminava o recente mapa do Brasil que havia encomendado e que estava apenso à parede. Fixou seu olhar no traçado do Caminho do Goio-En, que mandara incluir. No desenho, as fronteiras do Oeste do país ainda se mostravam incertas, mas o novo caminho ali era uma manifestação inequívoca de domínio e posse. Olhando o mapa, o presidente da província imaginava se teria tido outra iniciativa mais importante que ajudar a ligar os caminhos do Oeste da mais meridional das províncias com os campos do Oeste da Província de São Paulo. O caminho passava por campos esplêndidos, que prometiam ser férteis e prósperos. E o Conde de Caxias acreditava que, sim, um dia eles o seriam
Epílogo
Com o passo de Goio-En consolidado, muitas tropas optaram por seguir pelo caminho que cruzava o Rio Uruguai naquele vau. Em pouco tempo, muitos tropeiros resolveram aproveitar a menor distância do trajeto no rumo a Sorocaba. O Novo Caminho das Missões se provou seguro e, entre as vantagens, os donos de tropas economizavam o pagamento da taxa de 2.500 réis cobrada a cada muar que atravessava para Santa Catarina no posto de registro de Santa Vitória, no Rio Pelotas. Ademais, evitavam cruzar pelos Mato Castelhano e Mato Português, que ainda continuavam sob o risco de ataques de bugres rebeldes. O mais empedernido desses desgarrados, o cacique Nicué, alcunhado de “João Grande”, continuava atacando colonos e emboscando tropeiros nos Matos Castelhano e Português e, quando acossado, buscava refúgio nas áreas escarpadas do Rio da Antas. Sua ação de corsário das matas de pinheiros continuou até ser morto, em 1851, por outro chefe Kaingang, o cacique Doble, que o perseguiu, a pedido do governo da província, após Nicué ter matado o colono alemão Pedro Watenpuhl e sequestrado sua família.
Como resultado do crescente número de comitivas vindas da região de fronteira pelo Caminho das Missões, algumas com até 1.000 muares, Passo Fundo consolidou-se como grande entroncamento tropeiro e desenvolveu-se rapidamente. Logo sua população cresceu e surgiram novas invernadas e novos empreendimentos. Agora um dos maiores negociantes da região, João Cypriano da Rocha Loures via seus negócios prosperarem de modo notável. Contando com peões experientes que recrutou entre ex-farroupilhas e tendo no antigo mensageiro Thiago Miranda um capataz atilado e competente, e um grande agente de captação de negócios, suas invernadas prosperavam, viviam lotadas e seus Centros de acolhimento atraíam cada vez mais tropeiros e produziam lucros polpudos.
O tenente Francisco Ferreira da Rocha Loures voltou para Guarapuava e alcançou a patente de brigadeiro, onde faleceu em janeiro de 1871.
Entre os Kaingang, o cacique Nonoai via sua influência avultar. O aldeamento de Nonoai não era perfeito, ainda havia coroados insatisfeitos e conflitos com colonos e invasores das terras indígenas, mas o risco de uma guerra entre os Kaingang e os brancos estava afastado. Pelo lado do governo, além do papel conciliador do comissário Joaquim Fagundes dos Reis, o padre Antônio de Almeida Leite Penteado tornou-se diretor do aldeamento de Nonoai e empenhou-se em promover a civilização naquelas paragens.
O cacique Victorino Condá, sentindo que havia completado sua missão, voltou para o Norte do Rio Uruguai, onde continuo a liderar os Kaingang e a lutar por seus direitos e suas terras.
Thereza começou a dar aulas às crianças da vila na Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, mas logo Thiago, os guris e mais um mutirão de pais puseram de pé uma pequena escola ao lado do Caminho das Missões. Na escolinha estudavam os filhos dos pioneiros e dos índios que habitavam a vila, inclusive o buliçoso casal de gêmeos filhos do casamento do engenheiro Alarico com a professora Mimosa, a mestra que ensinava português às crianças Kaingang. Na construção da escolinha foi de muita ajuda o engenheiro Alarico, que projetou no pátio de entrada um grande caramanchão de onde as crianças podiam assistir à passagem das comitivas sempre que ouviam a campainha das mulas madrinhas que vinham na frente de mais uma tropa. Dali, podiam libertar a imaginação, sonhando com o dia em que, também elas, viajariam pelos campos e matas no rumo das vilas e cidades de que ouviam falar nos causos e histórias que os entretinham nas tardes de domingo.
A estes desbravadores, a aos outros milhares que os sucederam, o Brasil deve inestimável contribuição para a vitória sobre os argentinos na Questão de Palmas, a contenda em que o Barão do Rio Branco extraiu do presidente Stephen Grover Cleveland, dos Estados Unidos, a decisão que manteve com o Brasil a região Oeste dos atuais estados do Paraná e de Santa Catarina, um do território de 30.000 quilômetros quadrados e que era alvo da cobiça dos argentinos.
Aos homens e mulheres intimoratos que escreveram a saga do Caminho do Goio-Em, em 1845, o Brasil deve o impulso inicial que apaziguou os temíveis índios coroados dos matos do Alto Uruguai, transformou as regiões do Alto Uruguai gaúcho e Oeste catarinense em oásis de progresso e plantou as sementes do Oeste Fértil, a rica fronteira do agronegócio e do progresso do Brasil e que hoje forma um vasto corredor de produtores de grãos, criadores de aves, suínos e gado que vai da fronteira do sudoeste gaúcho, passa pela região missioneira, pelo Alto Uruguai, sobe para o Oeste catarinense e paranaense e continua por Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, chegando até Rondônia.
A todos o nosso reconhecimento e imorredoura gratidão.
Este livro é um romance histórico. Apresenta histórias reais entremeadas com figuras e histórias imaginárias. Contudo, no afã de apresentar com fidelidade à época de sua trama, o romance se apoiou na consulta a uma infinidade de obras, vídeos, artigos, estudos e teses, bem como em conteúdos digitais da Wikipédia e de outras fontes da internet.
Livros e Publicações:
AMOROSO, Marta Rosa. / Guerra e Mercadorias: os Kaingang nas cenas da Conquista de Guarapuava / A Conquista de Guarapuava no século XVIII. São Paulo: Expomus, 2003.
BANDEIRA, José Joaquim Pinto./ Notícias da descoberta dos Campos de Palmas / Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, t. 14, p. 425-438, 1851. / http://www.ihgb.org.br/rihgb
BARBOSA, Fidélis Dalcin / Nova História de Lagoa Vermelha / E-book – Projeto Passo Fundo, 2014 / ISBN 978-85-8326-062-2.
BERGAMASCHI, Maria Aparecida e Venzon, ALLEGRETTI, Rodrigo / Pensando a Educação Kaingang / Pelotas: Editora Universitária/UFPEL – 2010.
BRINGMANN, Sandor Fernando, NÖTZOLD, Ana Lúcia Vulfe / Alianças, Conflitos e Resistência: a Relação Kaingang com os Aldeamentos Provinciais no Rio Grande do Sul (século XIX) / Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, 2011
BRINGMANN, Sandor Fernando. / Índios, Colonos e Fazendeiros: Conflitos Interculturais e Resistência Kaingang nas Terras Altas do Rio Grande do Sul (1829– 1860). / Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.
CAMÕES, Luís Vaz de, / Os Lusíadas / Edição de Bolso / Lisboa, 1863.
COMISSÃO Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha – Subcomissão Publicações e Concursos – Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul / A Revolução Farroupilha – História Documental para a Juventude / Pôrto Alegre, 1985 / CDU 981.65.
COSTA, Ivoneide de França / Profissionalização dos Engenheiros no Século XIX: Atividades e Regulamentação / Anais Eletrônicos do 14º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia – 14º SNHCT – / Belo Horizonte, Campus Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG 08 a 11 de outubro de 2014 | ISBN: 978-85-62707-62-9.
CURTA, Jussara Costa / Continuidade e Mudança do Território Kaingang do Rio Grande o Sul: um estudo de caso do aldeamento de Nonoai / Universidade Federal Do Rio Grande Do Sul – Instituto De Filosofia E Ciências Humanas Departamento De História / 2012.
D’ANGELIS, Wilmar da Rocha / Para Uma História dos Índios do Oeste Catarinense / Cadernos do C.E.O.M – 1989.
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SANT’ANA, Elma / Memórias de Zé Terra, o Tropeiro do Litoral / Porto Alegre, 1998.
SEPP, Padre Antônio S.J. / Viagem às Missões Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos / Itatiaia Edusp – São Paulo,1980.
Série “Os Tropeiros” / 3 CDs / GLOBO Rural / Editora Globo / DVD 5855-5 / 5855-6 / 5855-7 – 2006 / TV Globo – Rio de Janeiro, 2006.
Silva, Sergio Baptista / Dualismo E Cosmologia Kaingang: O Xamã e o Domínio da Floresta / Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil – Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, dezembro de 2002.
SOARES, Padre Diogo Soares / Novo Atlas da América Portuguesa / Relatos recolhidos entre sertanistas e monçoeiros / Coleção Notícias do Descobrimento de Novos Caminhos / Biblioteca Pública de Évora (BPE), Portugal, 1730 / (Obs. O códice CXVI 1-15, dividido em quatro grupos documentais distintos apresenta: Notícias Práticas das Minas de Cuiabá e Goiás na capitania de São Paulo (contendo nove notícias); Notícias Práticas das Minas Gerais do Ouro e Diamantes (contendo cinco notícias); Notícias Práticas do Novo caminho que se descobriu das campanhas do Rio Grande e notícias da Nova Colônia do Sacramento para a vila de Curitiba. Estas últimas registram o relato do Sargento Mor da Cavalaria, Francisco de Souza e Farias sobre eventos ocorridos em 1727.)
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TEDESCO, João Carlos, BATISTELLA, Alessandro, NEUMANN, Rosana. / A Formação Étnica de Passo Fundo: história, memória e patrimônio – Erechim / AllPrint Varella, 2017.
TINHORÃO, José Ramos / As Festas no Brasil Colonial / São Paulo, Editora 34 – 2000.
VANALI, Ana Christina Vanali / PIERUCCINI, Maria Cristina. / Os Rocha Loures: Uma Família Paranaense Em 300 Anos De História. / REVISTA NEP (Núcleo de Estudos Paranaenses) Curitiba, v.2, n21, p.712-715, maio 2016.
VIEIRA, Antônio, 1608-1697 / Sermões do Padre Antônio Vieira / Compilado por Eugênio Gomes -14 ed. / Editora Agir – Rio de Janeiro – 1997
VOJNIAK, Fernando / Índio Condá: Novas Narrativas / Artigo / Diário Catarinense / Edição de 17 e 18 de dezembro de 2016 / Pg.7.
Watkins, Ronald J. / Por Mares Nunca Dantes Navegados. / Tradução Eduardo Francisco Alves – Rio de Janeiro: José Olympio, 2011
O autor
Celso Skrabe nasceu em 1946 na cidade do Rio de Janeiro, filho de um joalheiro vindo da Letônia e de uma musicista e cantora lírica, filha de Alemães, nascida em Erechim (RS). Foi nesta cidade que o autor passou a infância e a adolescência.
Em parte, por sua localização estratégica no Alto Uruguai gaúcho e pelo dinamismo e diversidade de suas atividades, Erechim foi uma cidade muito importante no desenvolvimento do agronegócio brasileiro, nela tendo se originado o sistema de integração dos produtores com a agroindústria.
O autor é administrador de empresas, foi executivo de diversas organizações, empresário, editor e promotor de eventos.
Seu conhecimento da região que define como “Oeste Fértil”, que compreende o Oeste das regiões Sul e Centro-Oeste, foi adquirido no tempo em que o autor, como piloto privado, voou extensivamente pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Goio-En é um romance histórico situado em 1845, logo após o fim da Guerra dos Farrapos. A narrativa ficcional se relaciona com a abertura do caminho de tropas entre os campos de Guarapuava, na época território paulista, e o Caminho das Missões, na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O caminho, feito às expensas do governo de São Paulo, cruzou o rio Uruguai pelo Passo do Goio-En, no Alto Uruguai, em meio ao território dos índios Kaingang, os temíveis “coroados”. A composição das personagens e dos cenários segue documentos e dados históricos.
Este livro celebra a Saga do Oeste Fértil, o corredor que começa na região missioneira do Rio Grande do Sul, passa pelo planalto médio gaúcho, pelo Alto Uruguai, e sobe para o oeste catarinense e paranaense. A saga conta a história de como tropeiros, índios, imigrantes alemães, italianos, poloneses, judeus, japonese e de outras variadas origens ocuparam, defenderam e desenvolveram o Oeste Fértil, a rica fronteira do agronegócio que introduziu a cultura da soja no Brasil, as modernas práticas de integração do produtor rural com a agroindústria, a agricultura de precisão e outras tecnologias inovadoras.
Celso Skrabe nasceu em 1946 na cidade do Rio de Janeiro, filho de um joalheiro vindo da Letônia e de uma musicista e cantora lírica, filha de Alemães, nascida em Erechim (RS). Foi nesta cidade gaúcha que o autor passou a infância e a adolescência.
O autor fez o primário e o secundário em Erechim, no Colégio Medianeira, dos Irmãos Maristas, onde também estudou contabilidade por dois anos. Aos 21 anos mudou-se para São Paulo e, dois anos depois, mudou-se para Recife, onde ocupou a Gerência Comercial da extinta TV Rádio Clube de Pernambuco. Durante sua passagem por Recife atuou como apresentador de rádio e televisão. De retorno a São Paulo, fez o curso de Administração de Empresas na Faculdade Santana. Como executivo foi executivo de diversas organizações, entre elas a Unidas Rent-a-Car, Tweeny e outras. Como consultor, especializou-se em Marketing em Saúde, sendo o criador de premiações setoriais como o Top Hospitalar. Top-Smile e Hospital Best. Foi o fundador e primeiro presidente da ABMS – Associação Brasileira de Marketing em Saúde.
Após sua aposentadoria resolveu dedicar seu tempo ao sempre acalentado sonho de escrever. Além de dezenas de artigos sobre administração, marketing e política, tem três livros publicados, dois de ficção e outro sobre Vendas (Como tornar-se um campeão de vendas).
[A1]Autor, notei que no sumário o nome de alguns capítulos não são o mesmo do corpo do texto. Peço, por gentileza, que verifique as marcações e faça as modificações necessárias.
Copi
[A2]Autor, notei que nas referências os títulos das obras não estão em negrito. Peço, por gentileza, que faça as modificações necessárias.
Copi
[A3]Autor, não há necessidade de colocar o nome de todos os personagens na sinopse, visto que o gênero é um breve resumo do que se vai encontrar na obra. Desse modo, os retirei.
Copi
[A4]Autor, retirei a explicação da localização da cidade e sua importância, pois não fazem parte do gênero textual: Biografia.
Garibaldi: o herói farroupilha que fabricou velas em Nova York
Neste mês de setembro o Rio Grande do Sul celebra a epopeia Farroupilha, uma página da história que ajudou a formar a identidade do Estado Gaúcho. É um período em que os gaúchos revivem símbolos, costumes, música, dança, culinária e feitos históricos ligados à tradição rio-grandense.
É também uma oportunidade para lembrar as figuras históricas que transformaram a Revolução Farroupilha em um dos grandes acontecimentos políticos e militares do século XIX.
Entre essas figuras, além de Bento Gonçalves, primeiro presidente da República Rio-Grandense, uma das mais emblemáticas foi Giuseppe Garibaldi, o marinheiro italiano que se incorporou às forças farroupilhas e participou da conquista de Laguna.
Como relato em meu romance histórico “Goio-En, o Caminho e o Tempo”, Garibaldi foi, durante a Guerra dos Farrapos, o aventureiro, o soldado audaz e o estrategista que, entre 1836 e 1841, ampliou sua experiência militar ao lado dos farroupilhas, enfrentando forças imperiais muito superiores em homens e recursos.
Depois, Garibaldi foi combater no Uruguai, onde sua imagem ficou associada às célebres camisas vermelhas que se tornariam sua marca. Mais tarde, retornou à Itália e tornou-se um dos principais artífices da unificação italiana.
Esses fatos fazem parte da história e são conhecidos e celebrados por todos quantos admiram aquela figura extraordinária, que ficou conhecida como o “Herói de Dois Mundos”.
Mas Garibaldi, como qualquer herói que se preze, não viveu apenas de glórias. Também conheceu dissabores, infortúnios, derrotas e momentos de profunda incerteza.
Um dos episódios menos conhecidos de sua extraordinária trajetória foi sua passagem pelos Estados Unidos, entre 1850 e 1851.
Garibaldi em Nova York
Depois da morte de Anita, aos 27 anos e grávida de seu quinto filho, durante a dramática retirada da República Romana, em agosto de 1849, Garibaldi viu desmoronar boa parte de suas esperanças políticas na Itália.
Seguiu-se um período de exílio e incerteza. Depois de uma longa peregrinação, Garibaldi chegou aos Estados Unidos em 1850.
Em Nova York, foi acolhido por Antonio Meucci, imigrante italiano e também exilado político, que compartilhava as ideias republicanas que haviam aproximado os dois homens.
Meucci vivia em Staten Island e mantinha uma pequena fábrica de velas. Foi ali que Garibaldi encontrou uma ocupação muito diferente de tudo aquilo que havia marcado sua vida até então.
Durante aproximadamente nove meses, o antigo marinheiro, combatente e revolucionário trabalhou na fábrica de Meucci.
E as velas que fabricava não eram as vistosas velas de navio, como talvez fosse de se esperar de um marinheiro de veleiros.
Eram as prosaicas velas utilizadas para iluminar casas e altares.
A fábrica produzia velas à base de ácido esteárico, uma tecnologia relativamente avançada para a época. Essas velas tinham uma vantagem importante sobre as tradicionais: queimavam de maneira mais limpa, sem produzir a fumaça escura que impregnava paredes e tetos.
Certamente, nada havia de glamoroso naquela ocupação.
O homem que havia enfrentado batalhas na América do Sul, atravessado mares e participado de movimentos revolucionários encontrava-se agora em uma pequena fábrica de Staten Island, fabricando velas para sobreviver.
É uma imagem um tanto desconcertante.
Garibaldi, acostumado ao convés dos navios, às armas e aos campos de batalha, precisava agora adaptar-se à rotina de uma pequena fábrica nos arredores de Nova York.
Esse episódio, pouco conhecido, ajuda a conhecer melhor a dimensão humana do personagem glorificado pela história. O fato é que, antes de voltar às lutas que o transformariam em um dos grandes personagens do século XIX, Garibaldi viveu também o cotidiano anônimo de um imigrante sem fortuna, sem poder e longe de sua pátria.
Em 1851, contudo, com esperanças renovadas, voltou novamente ao mar e retomou suas atividades como marinheiro. A vida de aventuras recomeçava.
No comando de um veleiro mercante retornaria à América do Sul e viajaria por outras regiões do mundo.
Mas seu destino estava novamente ligado à Itália.
O Reencontro do Destino
Uma década mais tarde Garibaldi reapareceria liderando de um dos acontecimentos militares e políticos mais extraordinários do século XIX.
Em 1860, reuniu cerca de mil voluntários, conhecidos como “I Mille”, – Os Mil – na região de Quarto, nas proximidades de Gênova.
Na noite de 5 para 6 de maio, os voluntários partiram em dois navios, o “Piemonte” e o “Lombardo, rumo à Sicília.
Era uma aventura militar cujo êxito parecia improvável.
Garibaldi comandava aproximadamente mil homens diante de forças muito superiores.
Os voluntários desembarcaram na Sicília e enfrentaram as forças do governo dos Bourbon. A campanha avançou rapidamente e Garibaldi conseguiu conquistar posições estratégicas, ampliar suas forças e derrubar o governo na ilha. O que aconteceu foi que o sonho de uma Itália unida mobilizou os sicilianos e, em poucos meses, aquela expedição quixotesca transformou-se em uma das operações militares mais extraordinárias do Risorgimento italiano
Esse período histórico é também o pano de fundo da série “O Leopardo”, a conhecida obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, posteriormente levada ao cinema e à televisão. (A série está atualmente disponível na Netflix).
Mas Garibaldi não parou na Sicília.
Depois de conquistá-la, tomou uma decisão ainda mais audaciosa: atravessar o Estreito de Messina, marchar sobre Nápoles e unificar a Itália continental.
A aventura que começara com mil homens transformava-se em uma campanha capaz de alterar o destino político da península italiana.
É fascinante pensar que aquele homem que, em 1860, atravessava o Estreito de Messina à frente de suas camisas vermelhas havia, pouco mais de duas décadas antes, lutado ao lado dos farroupilhas no extremo sul do Brasil. E saber que foi com Anita que Garibaldi aprendeu a cavalgar e foi no Rio Grande do Sul que teve uma parte importante de sua formação como combatente.
Foi no Rio Grande do Sul que enfrentou as forças do Império, participou de combates terrestres e navais e liderou uma das aventuras mais extraordinárias da Revolução Farroupilha: o transporte dos veleiros “Seival” e “Rio Pardo” por terra, nos maiores carros de bois da história, desde as proximidades da Lagoa dos Patos até o litoral catarinense. Foi essa operação que permitiu aos farroupilhas surpreender as forças imperiais em Santa Catarina e tomar Laguna, em 1839.
Foi também em Laguna que Garibaldi conheceu Anita, a mulher que se tornaria sua companheira de vida e uma das figuras mais lendárias da história sul-americana e italiana.
Outro aspecto fascinante é descobrir que, entre as conquistas de um mundo e de outro houve um singelo intervalo preenchido por uma pequena fábrica de velas em Nova York.
O aventureiro, o marinheiro, o combatente, o revolucionário, o exilado, o trabalhador de uma fábrica de velas e, finalmente, o artífice da unificação italiana foram todos o mesmo homem.
E foi no Rio Grande do Sul, lutando ao lado dos farroupilhas e cruzando os caminhos do Sul, que uma parte importante dessa extraordinária trajetória começou a ser forjada.
Ao lembrar Garibaldi neste mês de setembro, portanto, não estamos apenas recordando um personagem mítico que passou pela Revolução Farroupilha.
Estamos lembrando um homem que encontrou nos gaúchos os mesmos sentimentos fraternos, os mesmos ideais e os mesmos anseios de Liberdade, Igualdade e Humanidade, como constavam em seu brasão. Estamos lembrando de um herói de dois mundos que ajudou a colocar o Rio Grande do Sul no mapa dos grandes acontecimentos políticos e militares do século XIX.
Quem não sonha não Faz. Por essa razão o Padre Niversindo Antonio Cherubin sonhava com hospitais perfeitos e com instituições modelares que acolhessem os enfermos com o mesmo desvelo e carinho com que Cristo e São Camilo de Lellis, o fundador de sua Ordem Religiosa, o fariam. E foi cultivando esse sonho com visão cristã e diligência infatigável que se tornou um dos maiores realizadores da história da saúde do país.
Ao longo de seis décadas incansáveis colocou os hospitais camilianos brasileiros entre os maiores do país, plantou a semente da Universidade São Camilo, ocupou a Coordenação da Assistência Médica e Hospitalar do Ministério da Saúde, criou o primeiro Curso de graduação em Administração Hospitalar no Brasil, organizou a FBH – Federação Brasileira de Hospitais, a FBAH – Federação Brasileira de Administradores Hospitalares, reorganizou administrativamente dezenas de hospitais e casas de caridade no Brasil e no mundo, inclusive as Obras da Irmão Dulce na Bahia e a Província Camiliana dos Estados Unidos, cumpriu missões para os Papas Paulo VI e João Paulo II e foi Presidente da Confederação Internacional das Santas Casas de Misericórdia sob a ética da Civilização da Paz e do Amor.
Pe. Cherubin via sua vocação pelas palavras do apóstolo Tiago no evangelho: “A fé sem as obras é (fé) morta”. (Tg. 2,17). Então, para ser homem de fé ele precisava ser homem de obras. E obras de vulto, capazes de fazer diferença, acolher e cuidar de comunidades inteiras. Ora, obras desta magnitude não se fazem sozinhas. São obras complexas que só são viáveis quando realizadas coletivamente. O fato é que uma andorinha só não faz verão.
Uma frase de que o Pe. Cherubin gostava, tanto que a publicou em seu livro “A Arte de ser um Administrador Hospitalar Eficaz,” era de Sir Walter Scott: “A raça humana seria destruída se as pessoas parassem de se ajudar. Não somos capazes de sobreviver sem ajuda mútua”.
Por esta constatação o Pe. Cherubin entendeu que ser homem de obras era, antes de mais nada, buscar ajuda. E ajuda mútua era uma via de duas mãos: eu te ajudo e tu me ajudas. Por outro lado, a ajuda precisa ser útil. A ajuda que importa é aquela que funciona, ou, em um dizer mais elaborado, a ajuda eficaz. Que, trocando em miúdos, quer significar saber fazer, querer fazer e fazer! E esse tipo de ajuda não existe pronta. Por isso o Pe. Cherubin tornara-se um apóstolo da arregimentação, formação e motivação de profissionais de saúde, especialmente, administradores hospitalares, sem os quais não teria as obras hospitalares com que sonhava.
O Hospital, como dizia Peter Drucker, é a mais complexa organização já criada pelo homem. O seu corolário é que se trata de uma das organizações mais difíceis de administrar. De modo que o gestor hospitalar precisa ter um alto nível de competência para dar certo. E um dos requisitos da competência é estar atualizado com a evolução do setor. Aqui entendido do setor médico-hospitalar. Não por acaso, um dos setores da atividade humana que mais evoluíram nas últimas décadas.
Focado em resultados, o Pe. Cherubin era homem de objetivos e metas. Acreditava em estatísticas e evidências. E, por isso, acreditava na superioridade da medicina por evidência e no aprimoramento constante das boas práticas médico-hospitalares. E entendia que a medicina contemporânea é, a cada dia, mais multidisciplinar. Cada dia mais organizada por Protocolos Clínicos. Nem todos concordavam e muitos médicos diziam que o médico precisa ter liberdade para escolher a conduta de tratamento que desejar, mas a melhor conduta, aquela que comprovadamente obtém melhores resultados e reduz os custos hospitalares é a adoção dos Protocolos. (Essa visão, mais recentemente, foi também adotada pelo SUS, que estabeleceu os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas – PCDTOs.) Os Protocolos Clínicos são algoritmos que guiam os profissionais de saúde no diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças, com base em evidências científicas e melhores práticas. Eles padronizam o atendimento, a prescrição dos exames, a medicação, garantindo maior segurança ao paciente, otimização de recursos e uniformização do cuidado em diversas situações, como nos tratamentos e na segurança do paciente. Sem dúvida, o médico ainda é o dono do diagnóstico, mas o tratamento é complementado por enfermeiras, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, assim como por técnicos em exames de imagem, exames laboratoriais, biologia molecular, e agora com suporte da IA, além de outros. São equipes trabalhando de forma colaborativa e integrada para oferecer um cuidado mais completo e personalizado ao paciente. Essa união de conhecimentos permite uma visão mais holística do indivíduo, desde o diagnóstico até o tratamento e a recuperação, visando a saúde e o bem-estar integral. É como uma orquestra com naipes de cordas, madeiras, metais, percussão e coro. Eventualmente, o maestro da orquestra é o médico, o Diretor Clínico, mas, sem o administrador hospitalar, não existe a orquestra.
Como primeiro passo para encontrar colaboradores qualificados o Pe. pensou em organizar os profissionais da administração hospitalar em uma associação. O propósito seria a troca de experiências e o aprendizado mútuo. Ele havia frequentado o Curso de Pós-Graduação em Administração Hospitalar da Universidade de S. Paulo em 1967 e era ativo participante dos eventos e congressos de administração hospitalar da época, tanto no país como no exterior. E via que os cursos de pós-graduação da área vinham crescendo em todo o país. A esta altura, no início de 1971, ele continuava dirigindo o Hospital São Camilo, mas também era Presidente da Associação dos Hospitais do Estado de São Paulo, secretário do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Pesquisas Hospitalares, o IPH de seu amigo Jarbas Karman, e Diretor Executivo da Federação Brasileira de Hospitais. E estava intrigado pelo fato de que, apesar do aumento da presença de administradores hospitalares em congressos, reuniões e cursos, surgiam poucas propostas e parecia faltar uma visão comum que fosse compartilhada por esses profissionais.
Ele tinha visitado a Associação Americana de Hospitais, em Chicago e lá conheceu o the American College of Healthcare Executives (ACHE). Esta instituição era a entidade associativa profissional dos executivos da área de saúde dos Estados Unidos. E, inspirado nela, o Pe. Cherubin, fundou o Colégio Brasileiro de Administradores Hospitalares. O Estatuto Social foi aprovado dia 26 de fevereiro de 1971.
O Pe. Cherubin diz, em sua autobiografia, que o Colégio brasileiro teve uma ascensão meteórica. A entidade iniciou os Congressos de Administração Hospitalar e foi muito atuante, mas enfrentou turbulências criadas por desafetos do Pe. Cherubin, que acabaram superadas em 1994. Naquele ano o Colégio Brasileiro de Administradores Hospitalares mudou o nome para FBAH – Federação Brasileira de Administradores Hospitalares. A entidade é outro legado do Pe.Cherubin que perdura e, no presente ano de 2025, a FBAH realizou seu 44º Congresso de Administração Hospitalar e Gestão em Saúde em evento simultâneo à Feira Hospitalar 2025, que ocorreu de 20 a 23 de maio, em São Paulo.
ASSOCIAÇÃO DOS HOSPITAIS DO ESTADO DE SÃO PAULO
Como já vimos, o Pe. Cherubin assumiu a direção do Hospital São Camilo em 1961. Seu empenho em viabilizar e fazer crescer o hospital deram grande visibilidade ao seu trabalho e em 1965 o São Camilo foi convidado para ingressar numa entidade associativa chamada “Associação dos Hospitais que Atendem à Previdência Social”. Os hospitais que faziam parte da entidade eram hospitais privados que tinham convênio de atendimento com a Previdência, convênio esse que o São Camilo também acabara de fazer.
Em 1967, no período que o Pe. Cherubin fazia sua pós-graduação, foi eleito presidente da entidade. Sua primeira providência foi propor a mudança do nome para Associação dos Hospitais do Estado de São Paulo e convidar mais hospitais para se associarem. Em um ano o número de hospitais associados passou de 150, o que permitiu pensar em adquirir uma sede própria. Para viabilizar o pagamento da sede o Hospital São Camilo antecipou o pagamento de dois anos de mensalidades. Logo o número de associados chegou a 415 hospitais de todos o estado e foram criadas Diretorias Regionais em Campinas, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Santos e no ABC paulista.
Durante sua gestão o Pe. Cherubin mostrou sua combatividade. Foram diversas lutas contra disposições dos governos da época, como foi na mudança das regras de pagamento aos hospitais, cujas glosas sistemáticas eram superiores a 30% e outras. Mas aquela que que mais repercutiu foi a sua liderança na luta contra a obrigatoriedade de envio, pelos hospitais, do prontuário dos pacientes junto com as contas. O absurdo da medida, um édito de índole medieval que violava a ética e o sigilo médico, acabou sendo uma discussão nacional. No fim, depois de grande debate, o governo foi forçado a voltar atrás.
FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE HOSPITAIS
Em 1967, ao assumir a presidência da Associação dos Hospitais do Estado de São Paulo, o Pe. Cherubin partiu para a ofensiva para garantir uma remuneração justa para os hospitais conveniados com a Previdência Social. O órgão que fixava os valores e os reajustes era o DNPS-Departamento Nacional de Previdência Social e ficava no Rio de Janeiro. A inflação do ano foi de 25% e o Pe. Cherubin passou a ir ao Rio todos os meses para reivindicar um reajuste condigno aos hospitais da Associação. Em uma destas visitas ao diretor do DNPS ouviu dele que não podia atender cada estado do país em separado. Ele que procurasse organizar as associações estaduais para facilitar a discussão em âmbito nacional.
Sem demora o Pe. Cherubin convocou as entidades estaduais então existentes para uma reunião no Rio de Janeiro. Vieram, além da do Rio Janeiro, as de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia e uma que aglutinava estados do Nordeste. Reunidas, fundaram a FBH – Federação Brasileira de Hospitais.
O Pe. Cherubin assumiu o cargo de secretário da nova Federação, entendendo que era mais prático deixar a presidência nas mãos de um carioca que morasse no Rio, próximo ao DNPS. De sua parte, saiu viajando país afora para criar associações estaduais e, em poucos meses, quase todos os estados tinham suas entidades próprias.
Criar a FBH foi uma medida providencial. Então, com a entidade devidamente robustecida, partiu para a luta. A inflação galopante exigia que ele, todo o início do ano, ficasse uma semana no Rio de Janeiro para calcular o aumento nos custos de internação hospitalar do ano anterior e dar ao governo o valor do reajuste que o Ministério da Previdência deveria aplicar.
Só que o governo usava mil subterfúgios para escapar dos necessários reajustes aos hospitais. E o Pe. Cherubin precisava gastar um tempo enorme nestas escaramuças com o governo. Uma arma que descobriu ser de grande efeito, e que passou a usar, foi a ameaça de promover uma greve e paralisar o atendimento. Quando não conseguia o que queria ameaçava com a suspensão do atendimento conveniado. O governo era muito sensível a esta ameaça pois, ao menos em São Paulo, a previdência estava na mão dos hospitais. Somente na grande São Paulo eram mantidos 149 postos de emergência operados por hospitais conveniados. E, naqueles idos, praticamente não existiam planos de saúde e as empresas não ofereciam assistência médica aos seus empregados.
E as refregas eram para valer. Certa feita, em reunião com o Ministro da Previdência, ao defender a causa dos hospitais, foi tão veemente em sua argumentação que o ministro perdeu a compostura, lhe jogou no rosto um maçudo caderno de classificação hospitalar e saiu furibundo da sala. O lado bom foi que, com medo da imprensa, atenderam o Pe. Cherubin em todo o que ele pedia…
Outra medida que lhe tomou muito tempo e precisou de movimentação nacional foi que o Ministério da fazenda passou a exigir dos hospitais acesso à sua contabilidade de custos para autorizar qualquer tipo de ajuste na remuneração. Foi uma correria sem tamanho. Naquele tempo o único hospital do país que mantinha contabilidade de custos organizada era precisamente o hospital São Camilo de São Paulo.
Inúmeros escritórios de contabilidade saíram oferecendo seus serviços para os hospitais, mas o Pe.Cerubin convenceu o Ministério a estabelecer uma padronização do plano contábil de custos e ofereceu o sistema do hospital São Camilo como modelo. O sistema estava sendo empregado há vários anos e com grande eficiência. A proposta foi aceita pelas autoridades e o sistema de custos do Hospital São Camilo foi distribuído para todo o país.
Atualmente, a FBH – Federação Brasileira de Hospitais ainda é atuante e representa 16 Associações Estaduais Federadas e que compõe uma rede de 4.500 estabelecimentos privados, entre instituições com fins lucrativos e instituições filantrópicas.
O Pe. Niversindo Cherubin tinha 29 anos, em 1961, quando assumiu a direção geral do Hospital São Camilo de São Paulo. O jovem padre ficou um tanto assustado com a responsabilidade. Ainda mais quando descobriu que, dos 78 leitos, só havia três com doentes internados. Ficou mais sossegado ao saber que a escassez de doentes tinha solução. Ainda no mesmo dia da posse chamou os médicos para conversar. Ouviu suas queixas e garantiu que a coisa mudaria. E, de fato, mudaram. Daquele dia em diante, e pelos 30 anos que se seguiram, não teve mais problemas dessa natureza.
Uma coisa, porém, o Pe. Cherubin compreendeu logo: Hospital não é lugar para amadorismo e improviso. Então, reconhecendo que de gestão de hospital não entendia nada, mas que tinha a seu cargo um hospital que agora, mercê de Deus e dos médicos que traziam pacientes, vivia lotado, foi preparar-se. Frequentou todo tipo de curso sobre hospital. Fez curso de lavanderia, de assepsia e limpeza, de esterilização, de arquivo médico, de estatística, de contabilidade hospitalar, ente outros. Alguns desses cursos foram ministrados pelo Instituto que adotaria, no futuro, o nome de IPH. De todos os que frequentou, o curso do IPH que mais o impressionou foi o de lavanderia hospitalar. Ficou espantado. Ele nunca imaginara o tamanho da montanha de lençóis, fronhas, toalhas, jalecos, aventais, camisolas, campos cirúrgicos, panos e coisas que tais que era preciso lavar todos os dias. Aí, quando comparou as técnicas ensinadas no curso com aquelas que seu hospital praticava, se sentiu pré-histórico. Foi quando se aproximou do criador do IPH, o arquiteto Jarbas Karman, e pediu ajuda para modernizar sua lavanderia. E depois outras áreas do hospital.
Em 1967 o Pe.Cherubin foi fazer uma pós-graduação de Administração Hospitalar na Faculdade de Saúde Pública, em São Paulo. Esse curso permitiu a ele ampliar sua visão do papel do hospital na saúde da sociedade e, por outro lado, compreender que os cursos de pós-graduação não eram o caminho para a formação da quantidade, e do tipo de profissionais, que os hospitais precisavam. Em seu entendimento, a saída seria criar cursos em nível de graduação.
Para viabilizar a criação de uma Faculdade de Administração Hospitalar foi conversar com seu amigo, o arquiteto e engenheiro Jarbas Karman, o fundador do Instituto Nacional de Pesquisas e de Desenvolvimento Hospitalares (INPDH) que, no futuro, mudaria para a sigla IPH.
O Instituto continuava dando diversos cursos hospitalares. Alguns, por convite do Pe. Cherubin, ministrados no próprio São Camilo. O Pe. Cherubin, vez ou outra, os assistia. Descobriu que eram uma fonte de recrutamento imbatível.
Ambos, o padre e o arquiteto, visionários, empreendedores e idealistas, em um Brasil que se abria para o mundo, decidiram somar forças. Formaram uma parceria que, embora improvável, teve profundo e duradouro impacto no setor hospitalar brasileiro.
O Arquiteto e Engenheiro Jarbas Bela Karman nasceu em Campanha, MG, em 13 de abril de 1917 e faleceu, aos 91 anos, em São Paulo, em 2 de junho de 2008. Foi engenheiro civil pela Poli (USP), em 1941, e arquiteto pela Poli (USP), em 1947. Titulou-se mestre em arquitetura hospitalar pela Universidade de Yale, nos EUA, em 1952, e participou do curso sobre infecção hospitalar do Prof. Carl Walter, em Kitchener, em Ontário, Canadá, em 1952.
Para dar a dimensão do papel de Jarbas Karman no setor hospitalar paulista basta dizer que ele foi o arquiteto técnico do Hospital Albert Einstein. Em 1953, como contou a esse articulista, Karman foi procurado pelo Dr. Manoel Tabacow Hidal, médico que liderou a criação do Hospital Albert Einstein e cujo consultório ficava no mesmo edifício de seu escritório, na Rua Xavier de Toledo, 210, no centro de São Paulo. O Dr Hidal perguntou ao Karman, já atuante no setor hospitalar paulista, se achava viável um novo hospital na cidade, a ser criado pela comunidade israelita de São Paulo. Karman teria respondido que sim, especialmente se fosse um hospital de padrão internacional. Deste primeiro contato nasceram diversos estudos, inclusive a avaliação de um terreno que estava sendo oferecido por uma pessoa da comunidade judaica. O arquiteto Jarbas Karman foi avaliar o terreno, próximo ao aeroporto de Congonhas, grande e magnificamente localizado. Mas que ele, após examinar as características do solo, opinou pela recusa. O terreno tinha grande quantidade de madeira soterrada e estava profundamente contaminado com cupins, cuja erradicação seria cara e problemática, podendo vir a infectar o hospital.
Foi em 1955 que o arquiteto e engenheiro Jarbas Karman criou o Instituto Nacional de Pesquisas e de Desenvolvimento Hospitalares (INPDH/IPH), tornando-se pioneiro na formação de profissionais ligados à área da saúde. Seu 1º Curso de Técnica Asséptica e de Esterilização foi ministrado no Instituto de Engenharia de São Paulo em 1955. Ainda naquele ano iniciou a publicação da revista “Hospital de Hoje”, publicada até 1969. Em 1973, então, no período que o Pe. Cherubin ocupava a Coordenação da Assistência Médico Hospitalar do Ministério da Saúde, associou-se a ele para implantar a primeira faculdade de Administração Hospitalar da América Latina, em nível de graduação. Esta sociedade durou 12 anos, com grande sucesso. Como vimos anteriormente, o Pe. Cherubin retirou-se da sociedade do IPH em 1986, com imensa tristeza, quando os camilianos, à sua revelia, decidiram ter uma Faculdade própria de Administração Hospitalar. Aconteceu que dois colegas camilianos, que ele colocara como professores no curso de administração hospitalar do IPH, mas que tinham visão política diferente da linha conservadora esposada por ele, se valeram do prestígio adquirido pelo curso do IPH e pelas instituições camilianas e, ainda mais, do terreno da Clínica Infantil do Ipiranga e dos recursos financeiros obtidos pela Sociedade Beneficente São Camilo, frutos do trabalho do Pe. Cherubin, e fundaram o Centro Universitário São Camilo. Este novo cenário tornava inviável criar no Brasil um Centro de Administração da Saúde, nos moldes do Krankenhaus, de Düseldorf, na Alemanha e que era o sonho do Pe. Cherubin.
De sua parte, o Pe. Cherubin, como religioso obsequioso, curvou-se às decisões da Província e viabilizou as condições institucionais para criar o Centro Universitário São Camilo. Também coube a ele, como ecônomo da Província, fornecer os recursos para o investimento inicial e, como superintendente da Sociedade Beneficente São Camilo, dar acesso ao valioso terreno de 40.000 m2 da Clínica Infantil do Ipiranga que, pela escritura de agregação, estava em sua alçada.
Por justiça, é preciso lembrar, 35 anos depois seu gesto de grandeza foi reconhecido. No dia 23 de setembro de 2010, o Pe. Cherubin recebeu o título de Doutor Honoris Causa do Centro Universitário São Camilo, das mãos do Pe. Leoncir Pessini, Provincial e Presidente das Entidades Camilianas do Brasil e do Pe. Christian de Paul de Barchifontaine, Reitor do Centro Universitário São Camilo.
O importante, para o Pe. Cherubin, foi constatar em vida que o seu legado permanece. Em suas memórias fez questão de registrar que em 2010 já existiam 37 faculdades de Administração Hospitalar espalhadas por todo o país, sendo 14 só em São Paulo. Mas ele lamentava que a maioria só oferecesse a Administração Hospitalar como opção nos últimos dois anos. A seu ver, era uma formação insuficiente. E ele tinha base para afirmar isso.
A CONSULTORIA DE GERÊNCIA HOSPITALAR
Em meados da década de 1980, vinha crescendo o número de instituições filantrópicas que entravam em contato com a Sociedade Beneficente São Camilo buscando orientação sobre gestão e contabilidade. Depois de considerar todos os lados da questão, na Assembleia Geral de julho de 1985 a Sociedade Beneficente São Camilo criou um novo Departamento denominado Gerência Hospitalar. Era um serviço de consultoria e terceirização. Seu escopo de atividades incluía efetuar diagnóstico da situação do hospital e de suas unidades administrativas, revisar e corrigir procedimentos administrativos, implantação de um plano contábil, criar um sistema de prestação de contas, organizar a tesouraria, estruturar o setor de pessoal e de materiais, e outros. Podia, ou não, incluir a gestão operacional da instituição ou estabelecimento.
Focando sua atividade inicial na região Sul, em 1988, quando foi criada a primeira filial em Novo Hamburgo, a Consultoria já tinha quatorze hospitais clientes na região, sendo oito no Rio Grande do Sul, quatro em Santa Catarina e dois no Paraná. Coube a essa unidade, em junho em 1990, assessorar a Universidade do Rio dos Sinos, Unisinos, em São Leopoldo, na grande Porto Alegre, na instalação da primeira Faculdade de Administração Hospitalar do Rio Grande do Sul.
ASSOCIAÇÃO DA OBRAS SOCIAIS DA IRMÃ DULCE
Em janeiro de 1990 foi inaugurada a filial da Gerência Hospitalar em Salvador, na Bahia. Em primeiro de maio de 1990 a unidade de Salvador assumiu a administração da Associação da Obras Sociais da irmã Dulce, canonizada em 13 de outubro de 2019, pelo Papa Francisco, tornando-se a primeira mulher brasileira a ser reconhecida como santa pela Igreja Católica, com o título de Santa Dulce dos Pobres.
Suas obras sociais formavam um verdadeiro conglomerado. Envolviam o Hospital Santo Antônio, o Centro Geriátrico, o Centro para Excepcionais e a Colônia Simões Filho, para 350 crianças abandonadas. No início a irmã Dulce mostrou-se pouco à vontade com a contratação de uma consultoria de terceiros para a obra que ela sempre levara à frente sozinha, mas os empresários que a apoiavam financeiramente perceberam que a irmã, com o avanço da idade, já não conseguia controlar um complexo daquele porte com métodos precários e impuseram essa condição. No período em que a Gerência Hospitalar prestou seus serviços de consultoria o Pe. Cherubin ia à cidade todos os meses para fazer a prestação de contas. E sempre reservava um tempo adicional para passar informações e esclarecer quaisquer dúvidas que a irmã Dulce suscitasse. Após alguns meses ela via, maravilhada, como as boas práticas de gestão estavam transformando sua obra. Passou a aguardar a visita mensal do Pe. Cherubin com grande alegria e fazia questão de manifestar a ele, e aos patronos de sua obra, que estava muito feliz com o trabalho de consultoria que estava sendo realizado e, que, agora, graça a ele podia dormir tranquila.
O GOVERNO É A PEDRA NO MEIO DE CAMINHO
Como tudo o que o Pe. Cherubin se propunha a fazer, e em que se empenhava com paixão e competência, a consultoria de Gerência Hospitalar cresceu rapidamente. Mas, também é verdade que ele percebeu que, em meados da década de 1980, a maioria dos hospitais brasileiros começava a enfrentar sua crise de meia idade.
O conceito que temos hoje do estabelecimento hospitalar moderno, designação que compreende uma estruturação sistematizada, desde a formação do especialista, o planejamento das edificações e instalações, a seleção do equipamento, as normas da organização e de funcionamento, o regime econômico-financeiro, tudo isto se consolidou no Brasil a partir de meados do anos 40 do século passado. E surgiram novos hospitais por todo o país. Ordens religiosas, irmandades, governos municipais, médicos empreendedores criavam novos estabelecimentos, a maioria sem condições mínimas de sustentabilidade.
Nos anos 80, um grande número destes hospitais estava à beira da falência. Administrativamente eram uma tragédia. Os hospitais não tinham controle financeiro, não tinham controle de estoque e não sabiam faturar. Para os consultores era relativamente fácil resolver seus problemas. A implantação de controles mínimos permitia arrumar as contas do hospital em 90 ou 120 dias. O efeito foi explosivo. Os gestores comentavam: “a consultoria do São Camilo chegou lá e resolveu em 90 dias”. Então os hospitais começaram a formar fila na porta do Pe. Cherubin.
O problema, na outra ponta, era formar e qualificar administradores hospitalares para atender a estes hospitais.
A consultoria de Gerência Hospitalar passou a selecionar candidatos nos estabelecimentos que administrava pelo país e os selecionados recebiam bolsas de estudo integrais, em São Paulo. As bolsas incluíam a faculdade, alimentação, residência (os alunos no Hospital São Camilo da Pompéia, e as alunas, no Hospital São Camilo de Santana), e uma ajuda de custo para transporte e aquisição de material didático durante os quatro anos do curso. Logicamente, no fim do curso, havia a promessa implícita de um emprego em nível gerencial. Nos dez anos que durou o programa foram formados cerca de 250 administradores hospitalares bolsistas.
Em 1996 a consultoria de Gerência Hospitalar já estava administrando 80 hospitais, com um total de 7.981 leitos. 30 desses hospitais pertenciam aos camilianos e os demais eram geridos sob contrato. Esses números faziam da unidade de Gerência Hospitalar São Camilo uma das maiores administradoras de hospitais do mundo.
O problema é que apareceu o governo no meio do caminho. A extinção do INAMPS, o Instituto Nacional de Assistência Médica e sua substituição pelo SUS, Sistema Único de Saúde, mudou para pior a sistemática da remuneração dos hospitais. O governo, vendo que instituições como a São Camilo e as Santas Casas assumiam grande parte do atendimento do SUS, achou que elas, talvez por sua origem religiosa, recebessem dinheiro do Espírito Santo, tirassem dinheiro do poço ou escondessem dinheiro no colchão. Mudou as regras e simplesmente estrangulou o pagamento dos serviços prestados ao SUS. Com as receitas engessadas e os custos da medicina aumentando acima da inflação, a qualidade da assistência começou a sofrer e o sistema ficou comprometido. Diante dos riscos de insolvência e com o governo indiferente à realidade dos hospitais, os camilianos decidiram encerrar o departamento de Gerência Hospitalar e conservar apenas os hospitais próprios, que seriam administrados diretamente pela Sociedade Beneficente São Camilo, dirigida pelo Pe. Cherubin, retirando-se dos que administrava sob contrato.
Hoje, consolidados, os hospitais camilianos fazem parte do legado do Pe. Cherubin e continuam a seguir o carisma da Ordem de São Camilo de Lellis cuidando dos enfermos. Seus hospitais estão presentes em todo o país, sendo 14 estabelecimentos na região sul.
Os hospitais do Paraná são o Centro Hospitalar São Camilo e o Centro Hospitalar São Camilo Uvaranas – Ponta Grossa; Clínica Médica São Camilo e Hospital Regional de Caridade Nossa Senhora Aparecida – União da Vitória; Hospital e Maternidade Ribeirão do Pinhal – Ribeirão do Pinhal;
Os hospitais de Santa Catarina são o Hospital São Braz – Porto União; o Hospital São Camilo Imbituba – Imbituba; Hospital São Francisco – Concórdia; o Hospital Regional Helmuth Nass – Biguaçu; Hospital São Bernardo, – Quilombo; Hospital São Camilo Ipumirim – Ipumirim; Hospital São Pedro – Itá e o Hospital São Roque, em Seara.
Por fim, no Rio Grande do Sul, o Hospital Beneficente Santa Terezinha, em Encantado.
Mas a saga do Doutor Padre Niversindo Antonio Cherubin ainda vai continuar por mais capítulos, porque é preciso contar suas iniciativas na promoção das boas práticas na gestão hospitalar, sua missão para organizar a Província Camiliana Norte-americana, relatar sua consultoria técnica para as entidades camilianas da África e da Ásia, suas missões para os Papas Paulo VI e João Paulo II e outras histórias de longe e de perto, como a homenagem que recebeu da Assembleia Legislativa de Santa Catarina pelo seu trabalho na promoção de saúde na região coirmã do Alto Uruguai Catarinense.
NASCE A PRIMEIRA FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO HOSPITALAR DO BRASIL
O Pe. Niversindo Cherubin estava no auditório do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro. Sentava-se na última fileira de poltronas. Preferia viver sua angústia e fazer suas preces da forma mais discreta possível, ainda que sua batina, eblazonada pela marcante cruz vermelha camiliana na altura do peito, o fizesse o personagem mais destacado do auditório.
Era a primeira vez que o Pe. Niversindo Cherubin, desde sua ordenação sacerdotal, 17 anos antes, em junho 1956, se deixava tomar por tão forte emoção. Ali, naquele dia 12 de junho de 1973, reunia-se o Conselho Federal de Educação e seus conselheiros, todos circunspectos cavalheiros, elegantemente vestidos, com exceção do padre salesiano José Vieira, que usava sua batina regular, iriam julgar o processo que poderia tornar realidade seu acalentado sonho de criar a primeira Faculdade de Administração Hospitalar no Brasil
No dia da reunião que julgaria seu processo o Pe. Cherubin chegara cedo. Era homem prático e de ação, sempre com agenda cheia. Mas desmarcara tudo. Aquele não seria um dia como os outros. Tinha o coração nas mãos. Desejava acompanhar o trabalho dos conselheiros de perto. Temia que seu projeto, como tinha visto acontecer com tantos outros, fosse bombardeado pelos conselheiros. O que o sossegava, mas só um pouco, foi que o presidente do Conselho, o dr. Roberto Santos, médico famoso e que, no futuro, seria eleito governador da Bahia e que se tornara seu amigo, o tranquilizara. Se despendesse dele, o novo curso de graduação para Administradores Hospitalares do Brasil seria aprovado. Reafirmou ao Pe. Cherubin que, de fato, no início tinha sido contra, seguindo a opinião da maioria de seus colegas que achava que a administração hospitalar deveria ficar restrita aos médicos, mas depois, após haver estudado o assunto em profundidade e após as diversas reuniões de esclarecimento que tivera com ele, se convertera em fervoroso defensor do projeto.
A agenda da reunião do Conselho tinha variados outros assuntos e, enquanto aguardava, o Pe. Cherubin procurava espairecer lembrando da extensa jornada de sonhos e lutas que o trouxera até ali.
No seu dia a dia como diretor do Hospital São Camilo o Pe. Cherubin sofria horrores com a falta de profissionais qualificados para gerir o hospital. O dia a dia hospitalar é feito de centenas, milhares de micro-eventos e das mais diferentes atividades. E, ainda mais, as atividades hospitalares precisam se encaixar como as engrenagens de um relógio. A falta de um simples dente em uma engrenagem pode emperrar o mecanismo inteiro. Mas onde encontrar esses profissionais qualificados? Médicos e enfermeiras não eram o problema imediato. Existiam e bem-preparados. O gargalo era mesmo a falta de administradores. De pessoal para o meio de campo.
Ele, pessoalmente, já havia obtido sua pós-graduação em Administração Hospitalar na USP. E existiam outros cursos de pós-graduação no meio acadêmico. Mas, como observara em primeira mão, a pós-graduação formava administradores doutos, que mal comparando, atuavam no estilo de “médicos”, ou seja, administradores orientados para o diagnóstico e prescrição de receitas. Entretanto, a carência dos hospitais era de administradores do perfil de enfermagem, ou seja, profissionais tipo “enfermeiras e enfermeiros” que atuassem no dia a dia hospitalar botando a mão na massa. Cuidando de suprimentos, documentos, planilhas, ordens de serviço, logística. Enfim, fazendo a estrutura burocrática e organizacional funcionar.
Pode-se argumentar que toda empresa precisa de bons administradores, mas um hospital lida com vidas humanas. Erros aceitáveis numa fábrica convencional podem ter consequências graves num estabelecimento de saúde. E, para o Pe. Cherubin, os administradores faziam toda a diferença. Uma analogia recorrente é que, se um hospital pode ser comparado com uma orquestra formada por naipes de médicos, enfermeiras e profissionais de saúde conduzidos pelo Diretor Clínico, no papel de maestro, sem os administradores hospitalares não haveria orquestra. Simples assim. De modo que foi, precisamente, por constatar a importância essencial desse profissional que o Pe. Cherubin assumiu para si a missão de formar e organizar os administradores hospitalares que seu hospital precisava. E de que o Brasil carecia.
Neste sentido, seguindo o modelo norte-americano de organização profissional que conhecera em Chicago, já havia criado em 1971 o Colégio Brasileiro de Administradores Hospitalares. (Em 1994 a entidade ampliaria seu escopo de atuação e mudaria o nome para FBAH-Federação Brasileira de Administradores Hospitalares).
E na reunião daquele dia 12 de junho 1973 estava sendo decidido se o Brasil teria faculdades com cursos da graduação em Administração Hospitalar ou se o país iria continuar, como havia feito até então, improvisando e aceitando padrões de gestão hospitalar sofríveis e abaixo da crítica.
Quando chegou a vez do Conselho analisar o projeto do Pe. Cherubin o Presidente do Conselho Federal de Educação, o Dr. Roberto Santos, pelo sim e pelo não, tratou de usar de um artifício matreiro para prevenir eventual derrota: quando chegou a vez de votar o projeto do Pe. Cherubin, levantou-se e, justificando que precisava sair do recinto, convidou o Pe. José Vieira, um conselheiro que suspeitava votar contra o projeto do Pe. Cherubin, para assumir a presidência dos trabalhos. Aparentemente o Pe. Vieira não tinha nada contra seu colega religioso, o Pe. Cherubin, nem nada em particular contra a Faculdade de Administração Hospitalar. É que ele se opunha sistematicamente a todas as novas faculdades propostas, sem exceção. Mas neste caso, indicado para presidir a votação, aceitou a incumbência e deu sequência à pauta da reunião. Foi só então que percebeu qual o projeto lhe cabia colocar em discussão. Ora, na presidência dos trabalhos não podia nem participar da discussão e nem votar. Exceto para um eventual voto de minerva. Mesmo assim foi em frente e chamou a votação. Ninguém se manifestou contra e, desse modo, por unanimidade dos conselheiros presentes, estava aprovada a primeira Faculdade de Administração Hospitalar do Brasil.
Foi então que o Pe. Cerubin, como candidamente confessa em suas memórias, não conseguiu conter as lágrimas teimosas que sulcaram seu rosto. E nem tentou conte-las. Seu coração exultava de júbilo e chorar de alegria era celebrar aquele momento de triunfo e a superação.
A decisão do Conselho, encaminhada para o presidente da República Emílio Garrastazu Médici, foi devidamente assinada em 6 de dezembro de 1973.
Para sair da teoria para a prática o Pe. Cherubin decidiu começar as aulas de sua Faculdade de Administração tão logo possível. Como o prédio que ele estava construindo no Morumbi não estivesse pronto, iria utilizar salas do Seminário Camiliano da Pompéia. Era uma solução provisória, mas possível, para acomodar no primeiro ano os 120 alunos por turma que haviam sido autorizados.
Na verdade, sempre pensando na frente, o Pe. Cerubin já cogitara em como, e onde, abrigar a Faculdade de Administração Hospitalar. Ele antevia replicar no Brasil o que vira funcionando na Alemanha. Um Centro de Administração da Saúde como o “Krankenhaus Institut” de Dusseldorf. Neste centro funcionariam, além da Faculdade de Administração Hospitalar as entidades representativas dos administradores hospitalares, seus órgãos de classe e outras instituições hospitalares. Para tanto já havia se associado ao IPH de Jarbas Karman, para dividirem o investimento: os recursos viriam da Associação de Hospitais do Estado de São Paulo, da qual ele era presidente, e do IPH – Instituto de Desenvolvimento e Pesquisas Hospitalares.
A Primeira aula da Nova Faculdade de Administradores Hospitalares foi marcada para o dia 1º de fevereiro de 1974. Seria um evento solene e memorável para marcar o início de uma nova era para o mundo hospitalar brasileiro.
E de certo modo o foi. Mas por motivo completamente diferente. Naquele dia uma das maiores tragédias da história da cidade interrompeu essa aula inaugural: o incêndio do Edifício Joelma, na região central de São Paulo. Neste incêndio morreram 187 pessoas e mais de 300 ficaram feridas.
Ao saber do ocorrido o Pe. Cherubin correu para o Hospital São Camilo para assumir pessoalmente o comando do atendimento às vítimas da tragédia. O hospital tinha uma localização que facilitava o encaminhamento dos feridos e foi inteiramente mobilizado para socorrer as vítimas.
Os 14 helicópteros mobilizados no socorro às vítimas apanhavam os pacientes em um heliporto improvisado nas proximidades do incêndio e os levavam até o Estádio do Palmeiras. Pousavam no gramado e, dali, as ambulâncias enviadas pelo exército, amplas e práticas, os levavam pelos dois quilômetros restantes até o hospital.
No hospital o Pe. Cherubin comandou a criação de um espaço para primeiro atendimento ainda na entrada e promoveu a liberação de um andar inteiro para a internação. Os pacientes que estavam internados foram transferindo para o prédio vizinho ou para outros andares e alguns, para quartos do seminário ao lado. Ele virou a noite trabalhando para garantir que tudo estava funcionando.
No dia seguinte, mesmo com toda a tribulação da véspera, as aulas começaram. O Pe. Cherubin tinha pressa.
Como esperado, assim que a Faculdade passou a funcionar regularmente começou a preparar uma elite de administradores hospitalares. Muitos desses administradores foram, desde logo, convidados a estagiar no São Camilo e, os que se destacaram, foram contratados.
O mais importante foi que, sabendo que podia contar com uma fonte contínua de administradores hospitalares qualificados, o Pe. Cherubin se sentiu encorajado a incorporar novos hospitais na rede camiliana.
Dez anos depois, em meados dos anos oitenta, muitos hospitais de entidades filantrópicas começaram a enfrentar dificuldades administrativas e financeiras e procuraram o São Camilo solicitando orientação técnica. A essa altura o IPH, a Faculdade do Pe. Cherubin, já tinha formado diversas turmas de administradores hospitalares, a maioria dos quais se associaram ao Colégio Brasilero de Administradores Hospitalares, a futura FBAH – Federação Brasileira de Administradores Hospitalares. Vendo nestes pedidos uma oportunidade para ajudar os hospitais filantrópicos e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de trabalho para os seus alunos, o Pe. Cherubin reuniu-se com a equipe que administrava os hospitais já incorporados na rede camiliana. Queria ouvir a opinião de seu grupo de administradores sobre a possibilidade da rede camiliana assumir a gestão destes hospitais. Seu pessoal achou que era viável. O Pe. Cherubin, então, criou na rede São Camilo, um nova unidade que recebeu o nome de “Departamento de Gerência Hospitalar”.
A Diretoria de Gerência Hospitalar atuou durante 13 anos. Terceirizou a gestão e prestou consultoria a hospitais de todo o país. Em 1º de maio de 1990 assumiu a administração da Associação das Obras Sociais da Irmã Dulce, na Bahia. Ainda em 1990, a Gerência Hospitalar assessorou a Universidade do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, na instalação da primeira faculdade de Administração Hospitalar do Rio Grande do Sul. Promoveu a reabilitação financeira da Santa Casa de Belo Horizonte, um feito excepcional para um nosocômio de 1.300 leitos, que, graças a melhorias na gestão, reduziu de 16 para 8 os dias de internação média.
Apesar de seu sucesso, ou até em razão dele, o Conselho Provincial dos Camilianos decidiu encerrar as atividades do Departamento de Gerência Hospitalar em 1998. A principal justificativa foi que a supressão do INAMPS (Instituto Nacional de Assitência Médica da Previdência Social) e a criação, em seu lugar do SUS – Sistema Único de Saúde, ampliava a complexidade da administração financeira dos hospitais que atendiam o governo e recomendou que a Sociedade Beneficente São Camilo concentrasse seus esforços na gestão dos seus hospitais próprios. O Pe. Cherubin, então, organizou uma transição dos hospitais terceirizados que desejassem para a Pró- Saúde, uma entidade que foi criada pelos administradores hospitalares que administravam o Departamento de Gerência Hospitalar.
Ao encerrar seus 13 anos de atividades os números do último ano da Gerência Hospitalar falam por si:
As dezenas de faculdades de Administração Hospitalar hoje espalhadas por todo o país e a FBAH – Federação Brasileira de Administradores Hospitalares e sua intensa atividade em Simpósios e Congressos voltados para o aperfeiçoamento profissional dos administradores associados estão no centro do legado que o Pe. Niversindo Cherubin deixou para os hospitais e para a saúde brasileira.
PATINHO FEIO DE CONCRETO – COMO UM PRÉDIO ABANDONADO NO MEIO DO MATO SE TRANSFORMA EM UM MEGA HOSPITAL DE REFERÊNCIA EM SÃO PAULO
Esta história conta como dois personagens marcantes da cidade de São Paulo, um prefeito realizador e carismático, filho do poeta e escritor Paulo Setúbal, neto do deputado federal e vice-presidente da província de São Paulo, Olavo Egídio de Sousa Aranha, trineto da viscondessa de Campinas, do visconde de Indaiatuba e do barão de Sousa Queirós, sobrinho-neto de Osvaldo Aranha, sobrinho-bisneto do marquês de Três Rios, da baronesa de Itapura e da baronesa de Anhumas, sobrinho-trineto do visconde de Vergueiro, do barão de Limeira e da marquesa de Valença, e, ainda, tetraneto do senador Vergueiro, um dos mais influentes políticos do Império do Brasil, Olavo Setúbal, e seu comparte, um padre camiliano de origem veneta, nascido na Villa de Balisa, em Erechim, juntam forças para entregar a São Paulo um dos maiores e mais icônicos hospitais da cidade, o Hospital São Camilo Santana.
Foi em um sábado de manhã, em novembro do ano de 1975, que lendo o jornal Folha de S. Paulo, o Pe. Cherubin se deparou com uma matéria cujo título era “Hospital Abandonado na Zona Norte”.
A matéria versava sobre a situação de um prédio enorme de um hospital abandonado no populoso bairro de Santana. Uma foto aérea mostrava o monstrengo no meio de um matagal.
Aquela notícia não poderia ter vindo em momento melhor.
O Hospital São Camilo da Pompéia era a joia da coroa dos camilianos no Brasil. O hospital, que havia passado por turbulências administrativas no período de afastamento do Pe. Cherubin, durante os três anos em que atuou no governo federal como Coordenador do Atendimento Médico Hospitalar do Ministério da Saúde, voltara a operar com lotação completa depois que o Pe. Cherubin retomou a direção do hospital, instado a voltar pelo Pe. Calisto Vendrame, o Provincial dos Camilianos.
Era evidente, para o Pe. Cherubin, que estava mais do que na hora de partir para uma expansão. E ele até já estava se preparando para isso.
Com o jornal na mão, ainda no sábado, o Pe. Cherubin procurou seu amigo, o prof. João Sampaio Góes Júnior, que sabia ter relações próximas com o prefeito Olavo Setúbal. Explicou seu interesse, deu a ele o artigo e pediu para que dissesse ao alcaide que ele poderia assumir aquele prédio imediatamente para transformá-lo num grande e modelar hospital.
Como Deus escreve direito por linhas tortas, seu amigo, o Prof. Sampaio Góes, coincidentemente, integrava um grupo que iria almoçar com o prefeito no dia seguinte, domingo. Concordou em mostrar o jornal, levar a proposta do Pe. Cherubin e defender a causa. Na segunda-feira, logo cedo, trouxe a resposta para o Pe. Cerubin: o prefeito mandou dizer que “o prédio é seu”!
O Pe. Cherubin foi ver de perto o prédio abandonado. Era uma estrutura enorme, um monumental esqueleto de concreto armado que havia sido planejado para ser o hospital da Aeronáutica em São Paulo, mas que nunca havia sido acabado. A construção havia começado em 1956 e a FAB queria inaugurá-lo no dia 21 de abril de 1960, na mesma data da inauguração de Brasília. Como, porém, Juscelino Kubistchek só tinha olhos para a nova capital e a FAB não conseguia dinheiro nem para comprar os aviões que precisava, um novo ministro da Aeronáutica parou aquela obra megalomaníaca e negociou o prédio inacabado com a prefeitura de São Paulo.
A prefeitura, por seu lado, também não tinha recursos para fazer o hospital e apenas vinha utilizando uma pequena parte como oficina para o conserto de ambulâncias.
O Pe. Cherubin foi conversar com os vereadores para negociar com a Câmara Municipal de São Paulo. O bom nome do Hospital São Camilo da Pompéia ajudou e a câmara aprovou uma lei concedendo para os camilianos o prédio e o terreno nas seguintes condições: duração do comodato 50 anos, renovável; 24 meses de prazo para a instalação de ambulatório e um andar para salas para cursos profissionalizantes; mais 24 meses para a instalação do pronto-socorro e de 100 leitos para internação e 12 anos para o término das obras com 400 leitos.
Tudo pronto para começar as obras veio outra notícia: as plantas originais tinham sumido. Nem a Aeronáutica e nem a Prefeitura sabiam o paradeiro delas. Mesmo assim o Pe. Cherubin foi em frente e tralhando dia e noite e colocando na obra 250 operários, apenas 90 dias após a assinatura do comodato, na data de 27 de outubro de 1977, o hospital abandonado da zona norte programou a inauguração de um belo e bem equipado ambulatório.
O Pe. Cherubin mandou um portador levar um convite da inauguração do ambulatório ao prefeito Olavo Setúbal. O prefeito Setúbal leu e ficou assombrado. Apenas outro dia ele tinha recebido em seu gabinete o elegante Pe. Cherubin e assinado o comodato com os camilianos e, em três meses, já vinha um convite para inauguração? Seu banco, o Itaú, fazia obras neste prazo, mas instalar uma agência é uma coisa, pegar um prédio abandonado no meio do mato e instalar um ambulatório médico era outra. Isso ele precisava ver. Quando chegou para a inauguração o prefeito ficou maravilhado. O mato tinha desaparecido. Na entrada do ambulatório havia uma ampla praça com jardim, feericamente iluminada, área de estacionamento sinalizada, cobertura para ambulância e garagem. Pe. Cherubin já construía pensando em um hospital de 400 leitos e não em um ambulatório. Foi receber o prefeito de braços abertos e o convidou para conhecer as dependências do ambulatório. Como tudo tinha sido feito para servir a um grande hospital, a área de recepção, salas de espera, os consultórios médicos, as salas de procedimentos, salas para exames de laboratório e imagem, salas de preparo de medicação, salas de serviço e esterilização, copa, sanitários e depósitos eram grandes, bem mobiliadas e bem-acabadas. O prefeito estava um entusiasmo só. Fez questão de dar ao padre um grande e sólido abraço para mostrar sua admiração e cumprimentá-lo pela façanha.
Mais 90 dias e o Chefe do Gabinete, Erwin Friedrich Fuhrmann entrou no gabinete fazendo um ar de cerimônia. Aí entrega ao prefeito Olavo Setúbal um belo envelope de opaline. Dentro outro convite. Era para outra inauguração. E, de novo, daquele padre alto, refinado e elegante como um nobre veneziano. Setúbal não resistiu e abriu um vasto e sonoro sorriso de incredulidade. O que o Pe. Cherubin ia inaugurar agora? Desta feita era todo o segundo andar, aquele que, conforme o acordo com os vereadores, deveria ser dedicado à salas de ensino profissionalizante e que deveria ficar pronto em 48 meses. O Pe. Cherubin o entregava em 180 dias. O prefeito seguiu o Pe. Cherubin pelo segundo andar inteiro e viu que tudo estava estalando de novo. As salas de aula prontas para os cursos técnico. Os quadros verdes com giz nos porta apagadores. O prefeito, ao se despedir o Pe. Cherubin, desabafou: “quem dera eu tivesse mais alguns padres de seu feitio para tocar obras!”
Acontece que a pressa do Pe. Cherubin vinha do simples fato de que ele precisava urgente daquele hospital. O São Camilo Pompéia estava saturado e tendo que recusar internações, desagradando sua clientela médica. Na continuidade, mantendo o ritmo das obras 24 horas sem descanso, em mais 2 anos, no dia 3 de março de 1979, ao custo de 10 milhões de dólares, inteiramente custeados pelo Hospital São Camilo Pompéia, o portentoso e reluzente Hospital e Maternidade de Santana estava pronto. O padre Cherubin batizou o hospital com o nome de “Centro Hospitalar Dom Silvério Gomes Pimenta”. O nome era uma homenagem ao arcebispo de Mariana que convidou os camilianos para virem ao Brasil. A intenção era louvável, mas o nome não pegou. Desde o primeiro dia de funcionamento ficou conhecido como o São Camilo de Santana.
Agora a inauguração seria com toda a pompa e circunstância. Novamente estava presente o Prefeito Olavo Setúbal. o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, o Provincial dos camilianos e muitos outros.
O prefeito Olavo Setúbal estava maravilhado. A seguir, a transcrição de trechos de seu discurso na inauguração:
“Meu caro Padre Cherubin, a inauguração deste hospital é uma prova dramática de que a solução para os problemas da saúde do nosso país não depende exclusivamente do poder público. Ela demonstra, com clareza, que o poder público é, muitas vezes, incapaz de resolver problemas fundamentais da nossa comunidade. A solução tradicional do Brasil, de uma entidade sem fins lucrativos, de caráter religioso, unida ao poder público, demonstrou aqui a sua capacidade ao erigir esse Centro Hospitalar Dom Silvério Gomes Pimenta.
Logo no início de minha administração, quando procurei enfrentar todos os problemas que estavam parados, por falta de alguma coisa, encontrei esse caso aqui na Zona Norte. E este era um desafio gigantesco: o Governo Federal tinha abandonado a construção, o Governo do Estado tinha se proposto a resolver a situação e também se sentia incapaz de o fazer… este prédio estava abandonado… e recuperá-lo era um desafio gigantesco. O governo municipal, ao avaliar o custo desta solução sentiu que não tinha condições de fazê-lo, pelo menos no curto prazo…
Por isto, vejo com imensa satisfação que a decisão tomada há quatro anos, de entregar este hospital à Sociedade Beneficente São Camilo, foi a solução correta para a solução deste problema. Apenas quatro anos após a assinatura do convênio já temos a grande satisfação de assistir a inauguração do próprio hospital, após termos estado aqui diversas vezes para inaugurar o ambulatório, a escola e outras dependências deste centro hospitalar.
Por isso meu caro padre Cherubim, é a prefeitura de São Paulo que está devedora da Sociedade Beneficente São Camilo desta solução para a Zona Norte de São Paulo, solução que o poder público não soube fazer mas que o senhor, com sua dedicação e especialmente com a sua fé soube mobilizar os homens e os recursos para atender as necessidades desta população.
Congratulo-me com o senhor e com seus auxiliares por esta obra extraordinária e agradeço, realmente sensibilizado, a delicadeza de terem marcado esta inauguração ainda no período de minha administração, quando realmente pouco fiz, porque apenas tive confiança na Sociedade São Camilo, no senhor e nos seus auxiliares.
Entreguei uma obra que a Prefeitura não soube, que o Governo do Estado não pôde e o Governo Federal não quis resolver e o senhor, em quatro anos, conseguiu fazer aquilo que os governos não tinham a condição de fazer.
Agradeço, portanto, e o cumprimento muito sinceramente, por esse extraordinário feito que vai marcar a sua ação entre nós de uma forma definitiva. De uma forma que jamais a população de São Paulo e a sua prefeitura esquecerão.
Muito Obrigado.
O atual Hospital São Camilo Santana – antigo Centro Hospitalar Dom Silvério Gomes Pimenta, foi inaugurado com 400 leitos, sendo a maioria em enfermarias coletivas. Atualmente foi reconfigurado e possui 264 leitos instalados em apartamentos. O Hospital atende a uma população estimada em dois milhões de habitantes, na Zona Norte da cidade de São Paulo, onde é o único a realizar cirurgias de alta complexidade, além de atender outras especialidades, como clínica médica, obstétrica e pediátrica. O hospital mantém convênios com sete faculdades da área da saúde, abrigando 35 estagiários em residência médica e 52 em enfermagem.
As quatro unidades da Rede Camiliana da cidade de São Paulo oferecem, em conjunto, 750 leitos, possuem cerca de 6 mil colaboradores e aproximadamente 7.900 médicos cadastrados. O atendimento é exclusivamente privado e os recursos provenientes dos hospitais de São Paulo permitem subsidiar vários hospitais administrados pelos camilianos distribuídos pelo país e que oferecem atendimento pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
A SAGA DO PADRE CHERUBIN MISSÃO NO GOVERNO FEDERAL Em abril de 1973 o Pe. Cherubin foi nomeado para atuar como Coordenador da Coordenação da Assistência Médico-Hospitalar do Ministério da Saúde. Nunca um padre havia sido chamado para atuar em função tão importante no Ministério da Saúde. Mas também nunca um padre tinha sido presidente da Associação dos Hospitais de São Paulo, cargo que o Pe. Cherubin ocupava na ocasião. Sua indicação se deveu a uma combinação de fatores. A entrevista com o Ministro Delfin Netto para liberar recursos para o Programa Nacional de Controle do Câncer ensejou a oportunidade para uma conversação mais ampla sobre o estado de coisas do setor hospitalar brasileiro. O Ministro da Saúde era o médico Mário Machado de Lemos, que tinha sido Secretário de Saúde de São Paulo, e que era amigo do prof. João Sampaio Góes Junior, o médico que levou o Pe. Cherubin ao ministro Delfin Netto. O ministro conhecia o trabalho de seu amigo e, por meio dele, conhecia o trabalho do Pe. Cherubin. Assim, quando o Presidente Médici se interessou pelo assunto da coordenação dos hospitais e o nome do Pe. Cherubin foi aventado, o endosso das referências elogiosas o levaram ao cargo. A nomeação do Padre Cherubin foi muito festejada pelo setor. Em primeiro de maio de 1973 a Associação dos Hospitais do Estado de São Paulo publicou, no Jornal O Estado de S. Paulo, um comunicado que incluía um convite para um jantar para celebrar a nomeação a ser realizado no dia 25 daquele mês. Após um preâmbulo com detalhes da publicação no Diário Oficial enumera as qualificações do homenageado: “O padre Niversindo Antônio Cherubin é formado em Administração Hospitalar, foi um dos fundadores e secretário geral durante 5 anos da Federação Brasileira de Hospitais, ocupa há 5 anos o cargo de presidente da Associação dos Hospitais do Estado de São Paulo, foi um dos fundadores e é atualmente diretor do Colégio Brasileiro de Administradores Hospitalares, fundou e é diretor responsável e redator da revista Vida Hospitalar e dirigia, como superintendente, a Sociedade Beneficente São Camilo e o Hospital São Camilo desta capital e é o Diretor Geral do Curso de Administração hospitalar do INPDH – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e de Pesquisas hospitalares, do qual é vice-presidente.” Assina o Dr. Cícero Aurélio Sinisgalli, Presidente em exercício. O Pe. Cherubin, em seu discurso de posse, disse que faria o possível para melhorar a situação dos hospitais e reconheceu que os hospitais brasileiros navegavam sem rumo, afirmando que careciam de normas técnicas e administrativas para a sua construção, operação e administração. Após o discurso, muito elogiado pelo ministro, foi conduzido ao seu gabinete, que ainda não conhecia. Ali foi informado que seu antecessor não faria a transferência de cargo porque não gostou de ser substituído. Tanto que havia abandonado o cargo uma semana antes de sua chegada. O Pe. Cherubin teve que descobrir sozinho o que aquela coordenadoria fazia conversando com cada um dos seus 80 funcionários. Como o Ministério da Saúde ainda ficasse no Rio ele precisou deixar a administração do hospital São Camilo de São Paulo, mas não foi morar no Rio de Janeiro. Mesmo com direito a hospedagem cinco estrelas no Copacabana Palace, hospedava-se de segunda à sexta-feira na casa dos camilianos, no bairro da Tijuca, e nos fins de semana, voltava a São Paulo, para dar suas aulas no INPDH, o que fazia na sexta-feira a noite e nos sábados. O Pe. Cherubin, como todo mundo, já havia ouvido falar da pouca “voglia” dos funcionários públicos brasileiros, mas, ainda assim, habituado a ética de trabalho do Sul, da Itália e em empresas e hospitais privados, ficou abismado com a desfaçatez dos funcionários públicos de sua coordenadoria. Ele nunca havia trabalhado em órgão público e não estava familiarizado com a burocracia e a tramitação de processos, mas ficou espantado com a lentidão e a morosidade com que eram feitos os encaminhamentos e pareceres. Esse descaso era, de todas as barbaridades com que foi se deparando no serviço público, aquele que mais o incomodava. Constatava que os funcionários eram regiamente pagos, com o dobro ou triplo do que recebiam os do setor privado, gozavam de privilégios escandalosos e, mesmo assim, tinham uma atitude de absoluta displicência com suas tarefas e obrigações. Reclamando com um advogado de São Paulo ficou sabendo que essa atitude é conhecida como “desídia” e abrange desde a falta de comprometimento e atrasos constantes até a realização de tarefas de forma descuidada ou a eventual falta de educação com os cidadãos. Como nunca tinha ouvido falar nisso o advogado explicou que era tão raro alguém ser acusado de “desídia” que muitos juízes nem sabiam do que se tratava. Mesmo sabendo que fazia uma declaração de guerra, informou aos responsáveis de seu setor que nenhum processo passaria a noite na mesa de seu gabinete e nenhum atravessaria uma semana na sua coordenadoria. Teve outro espanto quando descobriu que nenhum dos seus funcionários havia sido selecionado e contratado pela sua coordenação. Todos, sem exceção, eram provenientes de outros órgãos federais, enquanto os que foram contratados por sua coordenação estavam trabalhando em outras divisões, inclusive em outros ministérios. Soube que, para requisitar ou transferir um funcionário, bastava o próprio servidor e seu chefe fazerem um simples memorando e obter o “de acordo” da outra parte. Outra coisa que o fez cair sentado foi quando disseram a ele que a orientação era para que nenhum órgão do Ministério deixasse de gastar a totalidade da verba prevista no orçamento do ano. Todo mundo tinha que gastar tudo, até o último tostão, mesmo que em bugigangas, porque caso não o fizesse, sofreria redução proporcional no orçamento do ano seguinte. Depois de recuperar-se do assombro, o Pe. Cherubin fez um levantamento do que sua área precisava em equipamentos e suprimentos e saiu peregrinando pelos gabinetes do ministério. Apresentava-se e perguntava se havia verba sobrando. Habilidoso, explicava sua missão, mostrava sua lista de necessidades e pedia que comprassem algo do que precisava com sua gordura de verbas. Então, assim que os equipamentos ou suprimentos chegavam, ele ia pessoalmente agradecer e fazer um memorando solicitando que as mercadorias ou os equipamentos recebidos fossem cedidos para a sua coordenadoria. Acabou fazendo amigos e equipando sua área com tudo do bom e do melhor. No Ministério da Saúde inteiro a tolerância em relação à frequência dos funcionários era total. O secretário da saúde do Ministério apresentou a ele uma senhora informando ser sua secretária e dizendo que qualquer assunto da coordenadoria poderia ser encaminhado diretamente para ela. A secretária, muito solícita e sorridente, se colocou à disposição, mas foi logo informando que não vinha trabalhar às quartas-feiras porque precisava fazer a feira… Os médicos, então, esses eram de uma pontualidade nunca vista. No sentido de que nunca ninguém jamais a tinha visto. Pontualidade? Não sabiam o que era e nem queriam saber. Vinham trabalhar se, quando e como queriam. Para tentar por ordem no barraco o Pe.Cherubin determinou que, daí em diante, os médicos assinassem o ponto na frente de sua secretária. Seria da responsabilidade dela colocar o horário de entrada e de saída e, em caso de não comparecimento, fazer o traço em vermelho para cortar o ponto e descontar do pagamento. Foi uma conflagração. Um médico, proprietário de um hospital no interior do Rio de Janeiro e que era o presidente da associação médica do estado, figurão empoado que mais tarde seria eleito prefeito da cidade de Niterói, comparecia ao serviço apenas uma vez por semana e, mesmo assim, por poucas horas. O Pe. Cherubin solicitou a ele que pedisse demissão para colocar em seu lugar alguém disposto a trabalhar todos os dias. O médico fez cara feia, mas temendo que sua “desídia” se tornasse pública, redigiu o pedido. Todavia, conhecedor dos meandros e maroteiras que regem as sinecuras do serviço público, ato contínuo, fez a notícia de sua demissão espalhar-se pelo Ministério como rastilho de pólvora. O telefone do Pe. Cherubin não deu mais sossego: todos os diretores e vice-diretores, todos os chefes e subchefes do Ministério ligaram pedindo para que ele voltasse atrás. Argumentavam que ter aquele médico na folha de pagamento, por si só, já engrandecia o Ministério da Saúde, mesmo que ele não aparecesse para trabalhar. Apesar do alarido, o Pe. Cherubin, educado na linha de que quem não trabalha não come, foi ao ministro da saúde com o pedido de demissão do médico. O ministro o recebeu sabendo do assunto. Mostrou-se muito educado e compreensivo, mas fez o Pe. Cherubin se sentir o próprio Dom Quixote investindo contra os moinhos de vento. Demitir aquele médico era comprar problemas e ele não tinha virado ministro fazendo inimigos. O Pe. Cherubin, porém, nunca esmoreceu ante as dificuldades. O que ele tinha dito no discurso de posse era no que acreditava: os hospitais brasileiros careciam de normas técnicas e administrativas para a sua construção, operação e administração. Administrador proficente que era, o Pe. Cherubin conhecia a máxima de Edward Deming, “Você não pode administrar aquilo que não pode medir”. O Pe. Cerubin, assim como Deming, acreditava que, para tomar decisões corretas você precisa saber onde está pisando. E ninguém, no Ministério da Saúde, tinha a menor ideia do tamanho e da localização dos hospitais brasileiros. Mais grave, o governo brasileiro não tinha conhecimento de quais eram, como eram e onde estavam os seus hospitais públicos. Tentando encontrar essa informação o Pe. Cherubin descobriu, com surpresa, que o Ministério da Saúde, sim, até tinha uma Seção de Estatística. Estava enfiada no fim de um corredor. Ele foi lá e soube que a seção tinha alguns milhares de fichas de hospitais cadastrados, colocadas em gavetas de fichários. Também descobriu que, todos os anos, o departamento enviava aos hospitais cadastrados um formulário solicitando informações para atualizar o censo hospitalar. Salvo exceções, os hospitais dedicavam uma dezena de horas para responder as questões constantes do formulário. Depois, postavam no correio, escrupulosamente, para cumprir o prazo estipulado. E o Ministério recebia os formulários e os empilhava, formando uma montanha de papel que ficava tomando pó em um canto da repartição. E nada mais fazia com eles. Não tabulava as informações. Não produzia relatórios. Não analisava. E, como os formulários não produziam dados úteis, deles não vinham informações para a tomada de decisões e, é óbvio, nem para definir políticas. Era tudo de mentirinha. Para um incrédulo Pe. Cherubin, que falava francês com fluência porque, durante as férias do seminário, tinha ido trabalhar na França para ganhar algum dinheiro, aquela encenação de censo hospitalar soava como coisa feia só para “épater les Bourgeois”, ou seja, para embasbacar a “burguesia”. O Pe. Cherubin ficou uns dias dando tratos à bola sobre o que fazer com os formulários relativos a 1971 que aguardavam empoeirados. Tentar fazer a tabulação com aquele pessoal que o olhava com hostilidade brilhando nos olhos era pura perda de tempo. Então, deu-se a “Eureka”. Pegou os formulários e os levou para São Paulo, onde encarregou seus alunos, os estudantes de Administração Hospitalar do INPDH, para fazerem, em mutirão, a tabulação e a transcrição dos dados. Finda a tabulação as planilhas mostravam que o Brasil dispunha, em 1971, de 4.067 hospitais, sendo 3.407 particulares e 660 oficiais. Tinha 367.522 leitos, sendo 242.921 em hospitais particulares e 124.601 em hospitais públicos. Os dados compilados pelos seus estudantes foram reunidos em uma publicação sofisticada, feita com papel couchê e capa dura, no chamado “tamanho de mesa”. O miolo tinha 300 páginas e era ilustrado com abundantes imagens e gráficos. A publicação foi denominada “Cadastro Hospitalar Brasileiro” e teve uma tiragem de 1.000 exemplares que se esgotaram em dias porque era a primeira vez que o setor tinha acesso a um panorama tão completo sobre a situação hospitalar Brasileira. Quando o Pe. Cherubin levou um exemplar encadernado ao Ministro da Saúde ele o folhou maravilhado. Mandou chamar todos os coordenadores do Ministério para mostrar a obra. Em seguida pediu mais um exemplar para entregar ao presidente da República. O segundo trabalho que o Pe. Cherubin se propôs a fazer era mais complicado. Tratava-se de elaborar as normas técnicas para a construção de hospitais no Brasil. Essa era uma tarefa urgente porque, na falta de normas, cada dono de hospital, cada arquiteto e cada construtor hospitalar tentava reinventar a roda. Algumas das rodas eram até redondas, mas as havia de todas as formas. Até as quadradas, que, como na antiga piada, eram substituídas por outras quadradas quando gastavam-se os cantos… A equipe encarregada de produzir aquele trabalho histórico foi formada por 4 engenheiros, 4 arquitetos hospitalares, 20 consultores técnicos e 4 desenhistas. Após mais de um ano de trabalho exaustivo foi publicado o Manual de Normas de Construção e Instalação do Hospital Geral. Como exemplo do nível do detalhamento, o capítulo dedicado aos componentes das instalações elétricas, hidráulicas, mecânicas e especiais, que incluíam as instalações de oxigênio e gases hospitalares, traziam um memorial descritivo e os parâmetros a serem minimamente observados para o funcionamento do Hospital. Era o primeiro Manual de Normas hospitalares do Brasil e foi copiado em toda a América Latina. Sua consistência técnica, adotada como padrão no país, ajudou a projetar a arquitetura hospitalar brasileira. O arquiteto e engenheiro Jarbas Karmann e o arquiteto e médico Domingos Fiorentini, colegas do Pe. Cherubin na Faculdade de Administração Hospitalar, atuaram como consultores para a definição das normas. Como resultado, tornaram-se referências internacionais em arquitetura hospitalar e projetaram, em conjunto ou separadamente, mais de 1.000 obras hospitalares no Brasil e em várias partes do mundo. Graças ao prestígio internacional, em 2008 o arquiteto e engenheiro Jarbas Karman trouxe para o Brasil o IX Congresso Internacional de Engenharia e Arquitetura Hospitalar. Tive oportunidade de presenciar pessoalmente a abertura do Congresso, realizado no auditório do Hospital Albert Einstein. Na oportunidade o Pe. Cherubin foi convidado para a mesa e foi reconhecido pela publicação do Manual de Normas, sendo aplaudido de pé pela plateia formada por centenas de arquitetos e engenheiros hospitalares vindos dos quatro cantos do globo. Durante a permanência no Ministério da Saúde o Pe. Cherubin querubim foi também nomeado diretor do Instituto de Previdência do Clero, que tinha sede no Rio de Janeiro. Nessa função, o Pe. Cherubin foi esmiuçar as finanças da entidade. Ficou horrorizado. Ele mesmo contribuía para o instituto e viu que, a depender do que tinha verificado, nunca conseguiria se aposentar. Na primeira reunião da diretoria, sob a liderança de Dom Aloísio Lorscheider, foi incisivo: “senhores, com todo o respeito, eu posso afirmar que o balanço que acaba de ser lido não é verdadeiro e contém informações inverídicas”. Todos ficaram atônitos e o monsenhor Tapajós, que cuidava das finanças, reconheceu que, de fato, a instituição não tinha como se sustentar com as próprias pernas. Diante da dura realidade mostrada pelo Pe. Cnerubin o instituto recorreu ao governo federal e o Ministério da Previdência e Assistência social baixou o ato criando legislação específica para a aposentadoria dos religiosos e religiosas. Em junho de 1974, enquanto ainda no governo, recebeu convite do Ministério da Saúde britânico para conhecer os serviços de saúde da Inglaterra. Lá permaneceu 15 dias e voltou bem impressionado com o padrão de assistência médica dispensado gratuitamente a toda a população do país. Especialmente a forma como atuam os médicos de família. Encaminhou relatório recomendando medidas para fortalecer esta forma de atenção à saúde. No dia 26 de junho de 1975 o Pe. Cherubin recebeu um ofício do Pe. Calisto Vendrame, o Provincial dos camilianos, solicitando que ele pedisse demissão do Ministério da Saúde e voltasse com urgência para administrar o hospital São Camilo de São Paulo, que estava enfrentando sérios problemas de gestão. Sendo religioso, devia atender ao chamado. O Ministro da Saúde lamentou a decisão, agradeceu pela obra realizada pelo Pe. Cherubin e nomeou seu assistente, Dr. Augusto de Abreu Amorim, para o substituir.
Resumo biográfico de Niversindo Antonio Cherubin, padre camiliano nascido na Vila de Balisa em 30 de setembro de 1931 e que morreu aos 92 anos, em 15 de setembro de 2023, em São Paulo. Esta é a fascinante história de uma vida dedicada ao aprimoramento do setor de saúde ao redor do mundo por meio da melhoria das boas práticas em administração e finanças. É a história do legado de um filho de Erechim que viajou pelos quatro cantos do mundo para divulgar conhecimentos, realizar missões junto a hospitais e entidades camilianas nas américas, na Europa, e no Oriente e como enviado dos Papas Paulo VI e João Paulo II.
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Existem homens cuja visão, talento e capacidade realizadora lhes dão fama e fortuna. Muitos deles apreciam o proscênio e buscam brilhar nas altas esferas midiáticas e sociais. Existem outros, contudo, dotados de igual visão, talento e capacidade realizadora, que preferem a consciência do dever cumprido.
Niversindo Antônio Cherubin figura neste segundo grupo. Homem de visão e de ação, era dono de cultura excepcional e focado em resultados. Trabalhador incansável, realizador, mas disciplinado, não descuidou de sua formação pessoal. Além de teólogo de formação fez pós-graduação em Administração Hospitalar na Faculdade de Saúde Pública, em São Paulo e, no afã de seguir a regra de ouro da administração, “aprendas a fazer para poderes mandar”, fez contabilidade e todos os cursos ligados à operação hospitalar que encontrou, desde lavanderia hospitalar a técnicas de esterilização e logística. Graças a esta diversidade de interesses e conhecimentos nas áreas de gestão e finanças, somadas à seu talento como poliglota, músico, editor de livros e revistas, autor de mais de 12 livros e centenas de artigos, especialmente em administração hospitalar, tornou-se um autêntico “polímata”, o termo que define o chamado “Homem da Renascença”, ou “homem universal”, aquele dotado de múltiplas habilidades e vasto conhecimento em múltiplas áreas.
Niversindo Antonio Cherubin tinha 12 anos quando embarcou na estação da Vila de Balisa no trem que o levaria para para o seminário Camiliano em Iomerê, Santa Catarina. Nunca, nem por um minuto, arrependeu-se de seguir sua vocação religiosa. Começou estudando no seminário em Santa Catarina, depois em São Paulo e, por fim, foi cursar teologia na Itália, onde, aos 24 anos, tornou-se sacerdote católico. A cerimônia de ordenação foi realizada na diocese de Pádua, no dia 17 de junho de 1956, dia de Corpus Christi. Alguns dias depois, já padre recém ordenado, começou os preparativos para voltar ao Brasil. Foram dias de regozijo pelo objetivo alcançado, mas, como revela em sua autobiografia, entremeados pela tristeza de imaginar que estava deixando para trás a terra de seus ancestrais. A bela e luminosa Itália que cativara sua alma sensível e que aprendera a amar profundamente. Temia que, talvez, para lá só pudesse retornar em seus sonhos e memórias, como aconteceu a tantos dos emigrantes vindos para o Basil.
Em seu caso, por felicidade, esse foi um temor totalmente infundado. Ao longo de seus profícuos 68 anos de atividades, como camiliano e arauto da administração, tantos foram os encargos e missões recebidas ao redor do mundo que viajou pelos quatro cantos do planeta e, na azáfama de suas incumbências, raros foram os anos em que não precisou voltar uma ou mais vezes à Itália de seus ancestrais.
O que aconteceu foi que, tão logo retornou ao Basil, foi chamado a colocar seu imenso talento e notável capacidade realizadora a serviço do carisma religioso da Ordem Camiliana, a organização religiosa a que pertencia e que é conhecida como a “Ordem dos Ministros dos Enfermos”.
PRIMEIRAS INCUMBÊNCIAS.
Para surpresa do recém ordenado Pe. Cherubin, ao invés de ser enviado para o interior acabou designado para atuar na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, na Vila Pompéia, na cidade de São Paulo. A Paróquia ficava, e ainda fica, ao lado do Hospital São Camilo. Na época esse era tão somente um acanhado hospital de bairro e não o portentoso nosocômio que a competência como administrador e o toque de midas do Padre Cherubin deu origem a um dos maiores e mais bem avaliados hospitais paulistanos. A instituição líder da rede camiliana brasileira, que, atualmente, possui quatro hospitais na capital paulista, somando mais de 750 leitos de alto padrão, além de dezenas de hospitais espalhados por todo o país, inclusive com unidades próximas a Erechim, nas cidades de Concórdia e Seara, em Santa Catarina.
Inicialmente, entre suas funções na paróquia estava a de celebrar as missas diárias, sendo duas aos domingos e, aos sábados, tocar órgão nos numerosos casamentos festivos realizados na paróquia. O órgão era um Hammond elétrico, igual ao da antiga Matriz S. José, de Erechim. No instrumento de sonoridade equivalente ao dos órgãos de tubos, equipado com dois teclados e pedaleira, o Pe. Cherubin tocava a Marcha Nupcial, durante a entrada da noiva, e a Ave Maria, de Gounod ou Schubert, segundo a preferência dos noivos, durante a bênção das alianças. Essas eram as músicas tradicionais. A Ave Maria, inclusive, usualmente era cantada pelo Pe. Contardi, um tenor lírico de bela voz, que invariavelmente era aplaudido pelos presentes. Outras músicas do repertório religioso ou clássico e, mesmo, popular, que combinassem com a cerimônia, podiam ser solicitadas. O fato dos casamentos da paróquia serem musicados pelos padres passou a atrair muitos casais interessados naquele diferencial e era preciso agendar a data com meses de antecedência. Os noivos também costumavam ser generosos na gratificação aos músicos. Para a igreja da Pompéia, que vinha lutando por recursos, aquela era uma ajuda muito bem-vinda.
Outra incumbência que Pe. Cherubin recebeu, tão logo chegou, foi a de dirigir a revista “A Cruz Misteriosa”. O título era uma alusão a enorme e chamativa cruz vermelha que os camilianos ostentam no peito de suas batinas. Eu me lembro da primeira vez que a vi. Eu deveria teria uns dez, onze anos. Um padre vestindo batina com a grande cruz vermelha bordada na altura do peito entrou na loja de meus pais. Soube, tempos depois, por minha mãe, que aquele padre que vestia a batina com a cruz tinha ido lá para apanhar a chave do órgão da Matriz S. José. A chave ficava com minha mãe por ela ser a organista oficial da igreja e tocava nas missas e cerimonias solenes e nos casamentos. Ligando os pontos, imagino que esse padre tenha sido o Padre Cherubin. Pena que nunca tenha lembrado de confirmar com ele.
O fato é que, quando recebeu missão de cuidar da publicação oficial dos camilianos no Brasil a revista era de tamanho pequeno e tinha 24 páginas. Sua impressão era feita em uma pequena gráfica instalada no porão da igreja. Apesar do nome pomposo de “Artes Gráficas S. Camilo”, só imprimia a revista e alguns impressos usados pela comunidade. O Pe. Cherubin achava que a publicação não estava à altura da imagem que os camilianos precisavam projetar no Brasil para crescerem no país. Por isso iniciou um grande esforço para angariar assinaturas e melhorar o conteúdo editorial. Um ano depois, graças a seu empenho, a revista passou a ter o tamanho de 20 x 30cm, padrão da época, e 64 páginas. O número dos assinantes subiu para mais de 30 mil. As assinaturas eram vendidas por estudantes católicos em campanhas pelos bairros e pelo interior do estado. Nestas campanhas, organizadas pelo Pe. Cherubin, ele ia junto com os jovens para vender assinaturas. Excelente vendedor, ele se encarregava de vender de 30 a 40 assinaturas por dia. Nessas ocasiões ele aproveitava para conversar com o público leitor para saber a opinião que tinham sobre a revista e sobre suas pautas.
Vendo o progresso notável da revista, o Provincial dos Camilianos entregou a direção de toda a gráfica para o Pe. Cherubin. A partir daí o progresso foi vertiginoso. Usando sua proverbial criatividade, a primeira providência foi aproveitar os numerosos noivos que vinham marcar casamento na igreja, a mesma que estava na moda graças aos seus padres músicos. Como era sabido que as reservas de data tinham que ser feitas com muita antecedência, raros eram os noivos que já tinham mandado fazer os convites. Então o Pe. Cherubin montou um amplo mostruário dos elegantes convites de casamento que a gráfica camiliana oferecia e o colocou estrategicamente na sala da secretaria onde eram marcados os casamentos. O resultado foi que a venda de convites deu um salto, exigindo mais máquinas e mais pessoal.
Logo, por um golpe de sorte, o Pe. Cherubin soube de uma impressora automática que tinha dado defeito e estava encalhada no porto do Rio de Janeiro. Foi ao Rio e conseguiu arrematá-la por bom preço. Um mecânico, em São Paulo, rapidamente, consertou o defeito. Com a nova impressora a gráfica passou a imprimir livros, tanto de autores da comunidade camiliana, como para terceiros. Aproveitando esta disponibilidade o Pe. Cherubin abriu, ao lado da Igreja, a “Livraria e Papelaria São Camilo”. Por ser a primeira e única do bairro, foi um sucesso total. Ele sabia, que, em princípio, nenhum comércio era permitido no bairro. Arranjou um pretexto e convidou o Prefeito Adhemar de Barros para um almoço, e, na hora da sobremesa, pediu para o prefeito interceder pela livraria. Adhemar de Barros achou graça no pedido do jovem padre e respondeu: “Você sabe que na Avenida Pompéia é proibido qualquer tipo de comércio. Em todo caso, vou autorizar. Se aparecer algum fiscal demorará anos para conseguir decifrar a minha letra”. E a livraria e papelaria continuou funcionando por muitos anos, sem nunca aparecer fiscal nenhum.
Quanto à gráfica, agora muito mais bem equipada, também começou a atender grandes clientes externos. Um destes clientes que o padre arranjou era a revista “Sete Dias na TV”. A publicação era semanal e tinha uma tiragem de 350 mil exemplares. Pelo contrato, o conteúdo precisava ser entregue na quarta feira e a revista precisava estar pronta na sexta-feira de madrugada. Com esse e outros bons contratos os lucros cresceram. Então, com os recursos obtidos na gráfica, o Pe. Cherubin pagou a conclusão do Seminário que a ordem mantinha em São Paulo e ainda fez uma grande reforma no seminário de Iomerê, aquele onde ele havia iniciado seus estudos, em Santa Catarina.
O ECÔNOMO DA PROVÍNCIA
Em outubro de 1957, apesar de ter apenas 25 anos e pouco mais de um ano como padre, a excepcional habilidade demonstrada pelo Pe. Cherubin em lidar com os negócios e as finanças da gráfica levou o Provincial da Ordem a nomeá-lo como Ecônomo Provincial. Na terminologia eclesiástica, o Ecônomo equivale ao diretor administrativo-financeiro da instituição. A ele cabe coordenar toda a movimentação financeira da Província e das casas religiosas.
É verdade que a Província Camiliana da época era diminuta e não tinha muitos quadros, ainda assim, era uma enorme responsabilidade para o jovem padre.
Segundo Sêneca, “sorte é estar preparado para quando surge a oportunidade”. O Pe. Cherubin, dotado do senso prático adquirido no seio da família de colonos e com a maturidade de ser órfão de pai desde os dois anos de idade, aceitou a incumbência com o entusiasmo com que já vinha cuidando de suas outras responsabilidades. Logo que assumiu viu que o dinheiro era curto para atender todas as necessidades. Tratou, assim, de reduzir custos e obter mais receitas. Para otimizar os recursos disponíveis comprou um caminhão Chevrolet usado. Foi uma decisão abençoada. O motor de seis cilindros bebia gasolina como camelo bebe água, mas, naquele tempo, o preço da gasolina era mais barato que água engarrafada. O Caminhão, desde o primeiro dia, começou a ser usado para ir buscar alimentos e produtos agrícolas mais baratos no sul do país. Abastecer as despensas das casas religiosas paulistas custava um bom dinheiro. Indo buscar no Sul, a economia era substancial. Além disso, aproveitando o caminhão, o Pe. Cherubin passou também a trazer vinho do Sul para São Paulo. Vinha vinho de missa, claro, mas também chegavam garrafões e mais garrafões do excelente vinho colonial produzido na terra dos vinhedos. Vinho esse que era vendido ao público pela cantina da paróquia da Vila Pompéia. O povo até brincava dizendo que o vinho tinha que ser bom porque, afinal, os padres garantiam que não era batizado!
Usando criatividade, espírito de iniciativa e bom senso, o Pe. Cerubin conseguia atender todas as necessidades da província e ainda fazia sobrar dinheiro para enviar para a casa central, em Roma. Era dessas remessas que saía o custeio da Congregação, a manutenção dos seminários, as passagens para as viagens dos padres. O desempenho do Pe. Cherubin foi de tal ordem que acabou ficando na função de ecônomo da Província Camiliana por 45 anos, de 1957 até 2002.
O RESGATE DO HOSPITAL SÃO CAMILO
Segundo relata em suas memórias, foi num fim de semana em 1961 que o Provincial Camiliano, Pe. Calisto Vendrame, seu superior, o chamou para informá-lo que o Conselho Provincial da Ordem havia decidido nomeá-lo Diretor Administrativo do Hospital São Camillo.
O Pe. Cherubin foi tomado de surpresa e argumentou que não tinha preparação específica para a função. Acrescentou que, até aquele dia, só tinha entrado em um hospital para ser submetido a uma cirurgia de extração das amidalas. O Provincial retrucou: “quando você assumiu a administração das Artes Gráficas São Camilo também não tinha preparação específica e deu certo”.
O Hospital São Camilo, com 70 leitos, era a instituição mais importante que a Congregação tinha no Brasil. Afinal, os camilianos existiam exatamente para cuidar dos enfermos. Sua inauguração havia se dado apenas um ano antes, em 1960, e coroava os esforços de 37 anos da instituição no país. Esforços que iniciaram em 1923 quando o Pe. Inocente Radrizzani chegou ao Brasil, assumiu a Paróquia da Pompéia e criou a Policlínica São Camilo. Conquanto só oferecesse atendimento ambulatorial, consultas e pequenos procedimentos sem internação, a policlínica foi, por muitos anos, o único estabelecimento de saúde do bairro.
A construção do hospital, propriamente dito, começou em 1946, quando o Pe. Radrizzani criou uma comissão para esse fim. A campanha de arrecadação recebeu o nome de “SOS” (Socorro às Obras Sociais) e foi presidida, desde o início, por Laudo Natel, o banqueiro diretor do Bradesco que veio a ser governador do Estado de São Paulo por duas vezes. Laudo Natel também foi presidente do São Paulo Futebol Clube e foi quem construiu o Estádio do Morumbi. O interessante é que ele terá feito seu bem-sucedido aprendizado em arrecadação de fundos quando presidiu a comissão de construção do Hospital São Camilo. Diferentemente do Ypiranga, de Erechim, que construiu seu estádio com sorteios e uma abordagem que empolgou a cidade e a região, o Hospital São Camilo foi construído penosamente, tijolo a tijolo, com doações, bingos e quermesses. Mas, de uma forma ou de outra, estava de pé e pronto para funcionar.
Só que uma coisa é construir e outra é administrar.
No dia em que o Pe. Cherubin assumiu a direção do São Camilo tomou um susto. Descobriu que o hospital tinha tão somente três clientes internados. E o caixa estava perigosamente perto o zero. Disputas internas, conflitos de interesse, egos inflados e inabilidade do Diretor Clínico estavam afundando o hospital.
Por sugestão do Pe. Novarino Brusco, capelão camiliano do Hospital Matarazzo, na época um hospital com 500 leitos na região da Avenida Paulista e um dos maiores e mais prestigiados da cidade, foi convidado o Professor Dr. Mário Degni, que ali dirigia o Departamento Vascular, para assumir como Diretor Clínico. O médico e professor de renome internacional, com grande equipe e vasta clientela, após acertar os ponteiros com o Pe. Cherubin, assim como ele perfeccionista e obcecado por resultados, aceitou a função e mudou-se com armas e bagagens para o Hospital São Camilo. Trabalhando lado a lado, ele e o Pe. Cherubin, formaram uma parceria de esplendidos resultados por 30 anos, que só terminou quando, ambos no mesmo dia, deixaram em definitivo suas funções. Por esta época o São Camilo Pompéia já tinha sido ampliado para 311 leitos, apresentava excelente ocupação e pensava em novas expansões. O afastamento de ambos coincidiu no mesmo dia, mas por razões diferentes. O Dr. Mário Degni, que estava com oitenta anos, preferia aposentar-se. Era o que pensava fazer já há algum tempo e ia protelando porque amava a medicina, mas aproveitou a ocasião por desejar evitar o stress inescapável de um novo relacionamento com o futuro diretor. O Pe. Cherubin, por sua vez, havia sido chamado a assumir encargos incompatíveis com sua permanência na função.
CONTROLE DO CÂNCER
Em 1967 o Pe. Cherubin inaugurou no Hospital São Camilo da Pompéia o Instituto São Camilo de Prevenção e Tratamento do Câncer Ginecológico. Prestigiando a inauguração do novo serviço, em evento com banda de música, pompa e circunstância, estiveram o governador Laudo Natel, amigo do tempo da construção do Hospital, o prefeito, Brigadeiro Faria Lima, no auge de seu prestígio, além de vereadores, deputados e outras autoridades.
Em 1968 o Instituto realizou o 1º Simpósio de Prevenção e Tratamento de Câncer Ginecológico. O sucesso foi tal que o governo do Estado introduziu em todos os seus postos de saúde os exames de prevenção do Câncer ginecológico conhecidos como exames de Papanicolau. Ainda com apoio do Governo do Estado o Instituto montou o primeiro laboratório de Citologia e Anatomia Patológica do Estado.
O Instituto também foi pioneiro no combate ao câncer de mama e trouxe o primeiro mamógrafo para o Brasil em 1971.
Em 1973 o prof. João Sampaio Góes Jr, diretor do Instituto, assumiu o posto de diretor da Divisão Nacional de Câncer do Ministério da Saúde. Com base em sua formação médica e pela experiência no São Camilo, o Prof. Góes criou o Programa Nacional de Controle do Câncer. A iniciativa previa a importação de grande quantidade de equipamentos a serem distribuídos para todas as entidades de câncer no país, bom como a ampliação e abertura de novos hospitais especializados. Para conseguir a aprovação dos expressivos recursos para o programa, o Dr. Góes levou o Pe. Cherubin na audiência com o Ministro da Fazenda Delfin Netto. Ele achava que, embora fosse ele o Diretor da Divisão de Câncer do Ministério da Saúde, ele era o médico e ele conhecesse os detalhes do programa, era o Pe. Cherubin que sabia como obter dinheiro com o pessoal do governo. Na audiência o Pe. Cherubin começou por perguntar se o Ministro tinha na família, ou entre seus amigos, alguém com câncer. Não, o Ministro não tinha. Mas sabia quem tinha. Era o Presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, que tinha uma irmã tratando a doença. Não deu outra. Os recursos foram liberados tão rápido que mal voltaram para São Paulo, alguns dias depois, e o dinheiro já estava disponível. Mas os efeitos da iniciativa não pararam por aí. Depois de conhecer os detalhes do projeto e saber mais sobre o Pe. Cherubin, que na época, no meio de uma dezena de outros cargos e funções, era também presidente da Associação dos Hospitais do Estado de São Paulo, o Presidente Médici decidiu que o melhor mesmo era colocar o Pe. Cherubin para fazer o projeto do câncer andar. E, pensando melhor, aliás, ele parecia ser o homem certo fazer toda a Assistência Médica e Hospitalar do País para andar. Então chamou o Pe. Cherubin e o nomeou como Coordenador da Assistência Médica e Hospitalar do Ministério da Saúde. (Mais adiante apresento um resumo da chacoalhada que o Pe. Cherubin deu no ministério…)
Em São Paulo o Instituto continuou a evoluir no atendimento ao público e, em 1977, o prof. João Sampaio Góes Jr., já de volta ao comando do Instituto, propôs mudar seu nome para IBCC – Instituto Brasileiro de Controle do Câncer. Ele achava que colocar no nome a ideia de controle representaria melhor o propósito do instituto, cuja ênfase deveria ser, cada vez mais, antecipar, prevenir e fazer diagnósticos precoces. Afinal, como entendia o Pe. Cherubin com sua visão prática: “dizem que saúde não tem preço, mas tem custo. Por isso é melhor fazer prevenção. Ela, além de salvar vidas, tem custo mais barato!”
Em 1979 a Prefeitura de São Paulo concedeu em comodato uma área de 18.500 m2 na Zona Leste da Capital e o IBCC transferiu-se para o novo endereço. Também houve uma mudança estatutária para facilitar a gestão e os investimentos. O Pe. Cherubin assumiu o cargo de presidente, cargo que manteve até meados da década de 2010.
Mais recentemente, para facilitar a fixação da marca, o Instituto passou a adotar o nome estendido de IBCC – Oncologia. Acontece que, mesmo sendo uma das mais conhecidas instituições dedicadas ao controle do câncer no país, sua campanha de conscientização sobre o câncer de mama é mais conhecido que ela. Todo ano são realizados campanhas e eventos que utilizam o símbolo do “Alvo Azul”, representado por três círculos azuis com o tema “O Câncer de Mama no Alvo da Moda”.
A campanha, que é realizada mundialmente, foi criada em 1994 pelo designer de moda Ralph Lauren, nos EUA, e trazida ao Brasil em 1995 pelo IBCC do Pe. Cherubin.
A Hering, de Santa Catarina, a empresa licenciada para produzir as conhecidas camisetas e abrigos com o Alvo Azul, fornece seus produtos para o mercado e realiza uma campanha no Dia das Mães. Em 30 anos de campanha a Hering já vendeu mais de 8 milhões de camisetas e contou com a participação de mais de 400 artistas e celebridades e mais de 100 empresas parceiras, tendo arrecadado mais de R$85 milhões.
Outro evento importante é a Corrida e a Caminhada da Campanha “O Câncer de Mama no Alvo da Moda”. Neste ano de 2025 será realizada a 62ª edição, estando marcada para ocorrer em São Paulo, no domingo, dia 12 de outubro, coincidindo com o feriado de N. Sra. Aparecida e com o dia da Criança.
Artigo que o Jornal AVS, de Erechim (RS) publicou em 19 de agosto de 2025
No umbral do abismo O abismo nos espreita. Estamos no seu umbral. Mas se engana quem acha que seremos empurrados para a escuridão. Já superamos desditas maiores. E nossa resiliência vai mostrar seu valor. Estamos todos ansiosos por soluções. Sabemos, todavia, como escreveu o “Barão de Itararé”, o jornalista e humorista gaúcho cujo nome verdadeiro era Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, mas que se assinava “Apporelly” e que se adornara de nobreza por meio do título “fake” de “Barão de Itararé”: “de onde menos se espera, de lá é que não vem nada mesmo!”. O fato é que, parafraseando o Apporelly, cuja pena cáustica dava pesadelos ao seu contemporâneo, o conterrâneo Getúlio Vargas: “o beco é sem saída porque só tem entrada”. Ou seja, não adianta enveredar pelo beco e seus labirintos tortuosos. Sem derrubar murros para abrir saídas vamos ficar encurralados no beco. Vamos ficar patinando, girando em falso e tão encalacrados como vaca atolada. Então, caros e mui valerosos (se está assim no brasão de Porto Alegre pode estar assim no meu artigo) amigos, como sair desta? Resposta: Precisamos resetar o Brasil. Fazer um “upgrade”. Não adianta mudar nomes. Precisamos sair do mundo medieval em que estamos enfiados e dar um salto para o mundo do futuro. Nosso sistema nacional é uma diligência. Carcomida. Velha. Obsoleta. Não adianta botar mais cavalos prá puxar. E trocar o cocheiro não resolve. Pense um minuto: Por que nosso agro é o mais produtivo do mundo? Por que nossos bancos são os mais digitalizados do mundo? Por que o nosso PIX é o sistema de pagamentos mais avançado do mundo? A resposta é que nosso agro, nossos bancos e nosso PIX já estão formatados para o mundo digital 4.0. Agora falta formatar o resto. Os exemplos citados mostram que dar um salto para o futuro não é difícil. Tanto que já estamos fazendo. E mostram que, para mudar tudo o mais a ser mudado, basta querer. O problema é que, na linguagem do poeta, tem uma pedra no meio do caminho. Aliás, modéstia do poeta à parte, uma pedra é pouco. Tem é uma pedreira no meio do caminho. Existem privilégios demais, iniquidades demais, malvadezas demais. E tem egoísmo, pouco caso, indiferença. Daí a macambuzia constatação de que existe um sistema que não quer mudanças. Um sistema de índole perversa que, para salvar suas regalias, pouco se importaria em nos empurrar para o abismo. Só que tem um porém: falta combinar com os russos. E a brava gente brasileira cansou. Está com pressa para ver a pátria livre. Por isso quer a mudança. Quer a metamorfose. Quer resetar o sistema caduco que está aí. Penso que logo o Brasil vai poder trazer para o presente os versos imorredouros com que Camões saudou as descobertas lusitanas: “Cesse tudo o que a antiga musa canta que outro valor mais alto se alevanta”. As evidências são claras. As soluções que todos ansiamos hão de vir no bojo de um novo projeto de futuro. Um projeto que as novas gerações estão idealizando e formatando pelos vastos rincões desta terra imensa e generosa. Um projeto que, vislumbro e acredito, vai resetar e fazer o “upgrade” desta nação. Portanto, tenham fé. Logo a mudança vai ser fogo morro acima e água morro abaixo…
Artigo publicado no Jornal AVS em 13 de agosto de 2025
A dinâmica endógena da crise
O Brasil está em meio a mais uma crise desnecessária. Certo, as crises fazem parte da vida, mas essa crise aí, feita de enfrentamento quixotesco aos Estados Unidos, é daquelas caras, tolas e estapafúrdias. Até parece masoquismo, mas o Brasil gosta tanto de uma crise que não perde oportunidade de conseguir uma depois da outra.
Na Grécia clássica os filósofos, sempre interessados em explicar os acontecimentos do mundo a partir da racionalidade, procuraram decifrar a natureza das crises. Dividiam, então, as crises em dois grupos: as crises benignas, que eles chamaram de “sinkrisis” e as malignas, que denominaram como “dekrisis”. As denominadas “síncrises” seriam aquelas que surgem esporadicamente e logo são administradas, tem suas causas são resolvidas e tendem a terminar bem. Já as “décrises”, as malignas, essa eram temidas porque podiam levar ao caos e ao rompimento da normalidade. Ao fugirem do controle podiam escalar e levar a consequências catastróficas.
Toda crise pressupõe um desarranjo funcional. Quando ocorre uma ruptura no equilíbrio das forças que atuam no interior de um organismo ou uma instituição e se rompe o equilíbrio de pesos e contrapesos que mantém o status quo, o resultado é uma “crise”. Quando os atores do organismo afetado querem evitar o caos, eventualidade que a todos prejudica, buscam entender-se e coordenar esforços para articular um rearranjo aceitável para todos. Quase sempre o resultado é que a crise venha a se dissipar e logo a normalidade recoloca a vida nos trilhos.
Entretanto, se a ruptura da normalidade se dá por provocação intencional e recíproca, a crise se complica. Quando as hostilidades são irreconciliáveis e os contendores apostam na escalada das desavenças, a crise tende a entrar numa perigosa espiral desagregadora. Se atinge um ponto de não retorno a reconciliação se tona impossível e, não raro, descamba para a guerra aberta. E, como a corda sempre rebenta no lado mais fraco, dá para saber desde logo quem vai arcar com as consequências. Nesta crise do Brasil com os Estados Unidos, óbvio, será o povo brasileiro.
Infelizmente não dá para esperar comedimento do presidente Lula. Esse morubixaba de plantão é criatura tosca, cujos parcos saberes não parecem incluir os filósofos clássicos. Daí se pode concluir que desconhece suas lições da história e, assim, não vê o ridículo da sua aposta no Brics e, ainda mais, na sua ilusão megalomaníaca de que vai espantar o Trump fazendo cara feia para o presidente americano.
Até a Janja há de saber que o Brics não tem “massa crítica” para enfrentar os Estados Unidos. Algo que a China e a Índia, por seu lado, sabem e muito bem, tanto que já trataram de buscar entendimentos com o presidente Trump. Enquanto isso, Lula, o ignaro, vai ficar sozinho pendurado no pincel. E nós? E o Brasil varonil? Ora, amigos, está mais que evidente que ao país vai caber pagar o pato.
Aliás, sob a ótica do Brasil, o Brics não é mais que uma fornalha incandescente jorrando crises quentes e prejuízos indecentes. Até acredito, cá entre nós, que os filósofos gregos nos olhariam comiserados. Como pode o Brasil, um país com tanto potencial e tanta gente boa, se meter numa crise tão sem pé nem cabeça?
Aos brasileiros resta esperar que Deus se lembre que também é brasileiro e ajude o país a se livrar de líderes tão medíocres e apalermados como esses que temos, chefiados por esse presidente espantalho que agora deu de usar chapéu de espantar passarinho.
Carta publicada pelo Jornal O Estado de S. Paulo em 12 de agosto de 2025
O editorial de 09 de agosto último traz o título “O Brics é uma miragem”. Os filósofos da Grécia clássica talvez preferissem dizer que o “Brics é uma décrisis”. Na antiga Grécia os filósofos dividiam as crises em dois grupos: existiam as benignas, crises que surgem vez ou outra, mas tendem a terminar bem e eram chamadas de “sincrisis”, e as “malignas”, aquelas do tipo desagregador e que tendem a desembocar no caos e no rompimento da normalidade, e que eram as “decrisis”. Certo, as crises fazem parte da vida e o Brasil gosta tanto de uma boa crise que não perde oportunidade de conseguir uma depois da outra. Toda crise pressupõe um desarranjo funcional. Quando ocorre uma ruptura no equilíbrio das forças que atuam no interior de um organismo ou uma instituição e, então, se rompe o equilíbrio de pesos e contrapesos que mantém o status quo, o resultado é uma “crise”. Se os atores do organismo afetado desejam evitar o caos, situação que a todos prejudica, e coordenam esforços para articular um rearranjo aceitável para todos, a crise se converte em uma “síncrise”. Seus efeitos tendem a se dissipar e logo a normalidade recoloca a vida nos trilhos.
Entretanto, se a ruptura da normalidade é provocada intencionalmente e o desarranjo funcional entra numa espiral desagregadora e, pior, os atores da crise apostam na escalada da desavença, estabelece-se uma “décrise”, o tipo da crise que tende a caminhar para o caos. Neste tipo de crise as coisas podem fugir do controle e seus efeitos podem ser catastróficos. Especialmente para o lado mais fraco. O presidente Lula, criatura tosca que não parece conhecer os filósofos clássicos e que, portanto, ignora as lições da história, não vê o ridículo de sua aposta no Brics e na sua ilusão quixotesca de que vai espantar o Trump vestindo aquele chapéu de espantalho assustar passarinho.
O Brics não tem “massa crítica” para enfrentar os Estados Unidos. China e Índia sabem disse e já trataram, cada um, de buscar entendimentos com o Trump. Enquanto isso, o Lula, tolo e ignaro, vai ficar sozinho pendurado no pincel. E o Brasil? O país vai pagar o pato. Sob a ótica do Brasil, o Brics é uma fornalha incandescente jorrando crises e gerando prejuízos incalculáveis. Os filósofos gregos nos olhariam com pena: estamos todos enfiados numa situação típica de “decrisis”, um desarranjo sem pé nem cabeça e que tem tudo para não acabar bem.
Postado no Facebook em julho de 2025 – Publicado pelo Jornal AVS – Erechim – RS em 01/08_2025
Ninguém merece ser governado por um espantalho sem cérebro. Na história de “O Mágico de Oz”, o espantalho é famoso por não ter cérebro. Ele, porém, sabe disso e sonha em um dia conseguir seu próprio cérebro para poder pensar e ter um mínimo de noção. Já o nosso espantalho não só carece de massa encefálica como não tá nem aí. Imaginem que ele, o morubixaba do Planalto, que faz e desfaz nestes trópicos cômicos, cismou que vai fazer cara feia para assustar o BIGTRUMP, o Mega Bruxo das Taxas e Tarifas que sapecou 50% de tarifa em nossas exportações. Enquanto o mundo todo pensou, repensou e resolveu que brigar com o tal Mega Bruxo cheio de Taxas e Tarifas era coisa de quem não tem cérebro nem juízo, o nosso resolveu peitar o BIGTRUMP. Botou o chapéu de assustar passarinho na cabeça e está fazendo caretas, xingando a mãe e dando bananas. É de escachar, mas das duas uma: ou falta mesmo tutano neste espantalho sem miolo, ou ele pirou e decidiu comer o milharal de que devia tomar conta!
PIB do Brasil pode perder até R$ 175 bilhões com tarifa de 50% de Trump
O Lula achava que seu governo era igual ao Titanic: poderoso e inafundável. Só que deu de bater no iceberg do Trump. E agora seu governo está afundando feito tijolo, com o casco todo arregaçado e mais furado que peneira de fubá. Enquanto o povo, coitado, jogado na água, vai ter que se virar e se agarrar onde puder para sair vivo desta.
Mas eis que o bravateiro da caatinga, espalhafatoso como sempre, agora fantasiado de espantalho com aquele chapéu de assustar passarinho, quer sair no braço com o Trump. E, na maior cara dura, quer que o Brasil vá para a briga junto com ele. E se parece pouco, o morubixaba petista quer que o Brasil afunde em seu lugar. Tem cabimento uma coisa destas?
Mas, minha gente, só quem perdeu o juízo pode imaginar que uma confrontação do Brasil com os Estados Unidos tem como terminar bem. E o povo brasileiro não é bobo para cair numa arapuca suicida destas. Convenhamos, comprar a briga do Lula com o Trump significa retroceder 20 anos, jogar no lixo milhões de empregos, perder o segundo mercado das exportações brasileiras e, suprema estultícia, perder a EMBRAER e a citricultura, posto que nenhuma das duas sobreviverá com a taxa de 50%.
O Lula tem o direito de ser beócio, mas não tem o direito de afundar o Brasil. Os brasileiros que se prezam, amam seu país e se recusam a afundar com o Titanic petista certamente vão protestar de todos os modos possíveis contra as trapalhadas do Lula que nos colocaram nesta posição humilhante.
O primeiro passo é nos manifestarmos contra o que está pegando com o Trump: os BRICS e a aloprada criação de uma moeda para concorrer com o dólar. Vamos deixar claro que de bom prá trouxa tem diferença. Vamos dizer ao Trump que temos juízo e não vamos brigar com quem tem dez vezes nosso tamanho. Ainda mais quando não temos nada a ganhar e temos muito a perder. Mãos à obra! Xô Lula!
Existia uma cigarra barbuda que passava a vida passeando e saracoteando, se achando muito esperta por ter conseguido engambelar o povo formiga de um país que trabalhava dia e noite para conseguir comida e, quando sobrava, pagar as contas, que vinham cada vez mais altas. Um belo dia, o elefante astuto que chefiava um país poderoso, país que a cigarra ofendia dia sim, e outro também, se cansou das futricas mal-educadas da cigarra e seus amigos gafanhotos do BRICS. O elefante, então, sapecou uma alíquota de 50% nos produtos que o país da cigarra exportava para o país poderoso. Aí a cigarra barbuda, vendo que sua malandragem ia pegar mal com as formigas que já trabalhavam cinco meses por ano só para sustentar seu governo perdulário, e que sua conversa mole não colava mais, nem usando seu chapéu de espantalho, resolveu ameaçar o elefante dizendo que ia retaliar com a tal “reciprocidade”. O elefante se enroscou na tromba de tanto rir. Certo, ele respeitava as formigas trabalhadeiras, que eram amigas de seu país, mas aquela cigarra barbuda passava da conta. Seu desplante em subir nas tamancas de sua insignificância e sair vociferando ameaças cheias de bazófia era uma coisa ridícula. O elefante, por seu lado, estava se divertindo muito, mas, pelo sim, pelo não, encheu a tromba d’água e preparou o esguicho. Se aquela cigarra barbuda passasse dos limites ia levar uma esguichada de tromba histórica. Tão potente que ela iria parar do outro lado do mundo, direto nos braços do seu querido Rasputin. E ouviria o elefante dizer: olha aqui, sua cigarra barbuda sem noção, você foi arroz de festa mundo afora, gastou milhões posando de presidente meia boca e rebolando feito porta bandeira da escola de samba do BRICS, pois se descabele agora!
As aulas magistrais de pesquisa de audiência de Himéro Icaza Sánhes – “El Brujo” – o gênio da Globo.
Caras amigas e caros amigos, neste vídeo vamos falar sobre as práticas magistrais de marketing e pesquisa de audiência criadas por Homéro Icaza Sánchez – “El Brujo” – o mago que transformou o marketing da Globo, mostrou o caminho para a emissora alcançar a liderança televisiva brasileira por seis décadas e, mais do que isso, estabeleceu os fundamentos para o invejável desempenho do Marketing Ao Alvo da Globo.
A Globo relata que foi em 1971 que Homéro Icaza Sánchez foi convidado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para assumir o cargo de diretor do Departamento de Análise e Pesquisas da emissora, departamento a ser especialmente criado para ele.
Suas técnicas revolucionarias de pesquisa de opinião, assim como a aplicação de seus conceitos de sociologia, psicologia, propaganda e marketing produziram resultados simplesmente notáveis. Resultados que mudaram não só a história da rede Globo e da televisão brasileira, mas que impactaram as práticas da televisão mundial. E que deixaram ensinamentos ainda atualíssimos para todos os profissionais de comunicação e marketing que buscam inspiração no grande mestre e na excelência de suas práticas.
Então, para respaldar os ensinamentos magistrais que vamos apresentar neste vídeo, vamos começar apresentando o histórico de Homero Icasa Sánchez
Sánchez era panamenho e, em 1944, veio para o Brasil para estudar. Acabou Cônsul de seu país no Rio de Janeiro e além de diretor do Departamento de Análise e Pesquisas da Globo, foi professor da Escola de Comunicação da UFRJ e da Pontifícia Universidade Católica (PUC), foi presidente da ABM Associação Brasileira de Marketing (ABM), e membro do seu Conselho Consultivo.
Em 1981 foi escolhido Homem do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e Destaque de Marketing na área de pesquisa pela Associação Brasileira de Marketing (ABM).
Em 2003 a Associação Brasileira de Institutos de Pesquisa de Mercado (Abipeme) o homenageou com o título de Pesquisador Emérito, em razão de seu pioneirismo na pesquisa de mercado no Brasil.
Mas antes de apresentarmos as aulas magistrais de “El Brujo” vamos relembrar as circunstâncias que cercaram sua ida para a TV Globo do Rio de Janeiro.
Roberto Marinho, o fundador da emissora, estava com sessenta anos de idade e tinha quarenta anos como empresário de mídia, sendo dono do Jornal O Globo e da rádio Globo no Rio de Janeiro quando se lançou na empreitada de criar sua emissora de TV.
A emissora foi inaugurada em 26 de abril de 1965 e, ao chegar, já encontrou o mercado do Rio congestionado. Suas concorrentes eram a TV Tupi, a TV Excelsior, a TV Continental e a TV Rio.
Como bom empresário, Roberto Marinho tomou todos os cuidados para fazer tudo bem pensado e bem planejado com o propósito de acertar.
Afinal, como diria o notório Conselheiro Acácio, acertar é tão importante que se você não acerta, você erra!
Só que, não obstante todas as cautelas, os primeiros oito meses da TV Globo foram um completo desastre.
Apesar das grandes expectativas de seu fundador que, segundo o Boni, empenhou suas casas e até suas calças para tocar a Globo, a emissora começou batendo cabeça.
A TV Globo, | além de recém-chegada e dando traço de audiência, desde logo começou a sofrer forte pancadaria dos concorrentes. A maré anti-globo estava tão forte que até o Governador carioca da época, Carlos Lacerda, fez um enorme escândalo acusando a emissora de ligações financeiras problemáticas com os norte-americanos do grupo TIME-LIFE.
A melhor evidência do entrevero em que a TV Globo estava metida é que apenas 10 meses depois de inaugurada a emissora se viu compelida a publicar nos jornais O Globo, no Rio de Janeiro, e no jornal O Estado de S. Paulo, em São Paulo, um extenso “Esclarecimento à Opinião Pública”.
No Esclarecimento a Globo explicava sua relação contratual com o Grupo norte-americano TIME-LIFE | a principal razão para os ataques que sofria e a causa da rumorosa CPI convocada pelo congresso.
Nos jornais a GLOBO assegurava que a empresa era 100% brasileira e Roberto Marinho dizia que seu grande patrimônio eram os quarenta anos à frente da rádio e do Jornal O Globo.
No texto dos jornais a Globo mostrava o real motivo da campanha contra ela:
“A razão principal dessa nova campanha pode ser encontrada por quem se dirigir ao IBOPE: é que a TV GLOBO, sendo a mais nova televisão da Guanabara, JÁ CONQUISTOU O PIMEIRO LUGAR EM AUDIÊNCIA. Pelo mesmo IBOPE se verifica que a estação de televisão do denunciante se encontra em PENÚLTIMO LUGAR.”
No caso, o denunciante era o deputado federal João Calmon, figura caricata que era o dirigente máximo dos Diários Associados e a tal TV em penúltimo lugar era a já falecida TV Tupi.
Mas o importante é saber como se deu a virada de mesa. Como a Globo pulou do último lugar para a liderança na audiência em poucos meses?
Bem, Roberto Marinho, vendo que a TV Globo fazia água por todos os lados concluiu que as coisas descambavam porque seus diretores não entendiam patavina de televisão posto que vinham do jornal e da rádio. Daí que resolveu que precisava de uma cabeça que entendesse o mundo televisivo. Um mundo novo, feito de imagens, movimento e emoções e bem diferente do mundo modorrento do jornal e do rádio.
Por isso chamou Walter Clark, então um jovem na faixa dos 30 anos e que vinha fazendo um belo trabalho como diretor da concorrente TV-Rio, e entregou a ele a direção geral da TV Globo.
A mudança foi instantânea.
O jovem diretor chegou sabendo que, para a TV Globo sobreviver, precisava de público. Muito público!
Para o jornal e o rádio veículos que viviam isolados em torres de marfim, o público era quase uma abstração, mas para a TV daquele tempo, numa época e em que os melhores programas eram apresentados ao vivo, o público fazia parte do espetáculo.
A TV ainda não tinha os recursos de hoje | e o auditório era necessário para criar um bom produto televisivo, já que o televisor funcionava como um prolongamento do auditório na sala das famílias.
Na década de 1960 poucas casas possuíam televisores e quem possuía um destes preciosos aparelhos de TV costumava reunir a família para assistir televisão. Vinham todos, pais, filhos, avós, tios, primos, genros, cunhados, colegas, quando não vizinhos e amigos para assistirem em conjunto. Assim multiplicavam-se os auditórios domiciliares pela cidade e todos se somavam para formar mega-auditório que abrangia o grande público.
Os efeitos desse fenômeno foram decifrados pela nova direção da Globo
– Efeito um – A multiplicação de milhares destes auditórios domésticos cidade afora criava uma onda de confluência para o canal que tivesse o programa dominante no horário.
É fácil de entender o motivo. Dado que só havia um televisor na casa | todas as pessoas ali presentes teriam que assistir ao mesmo programa. E como a maioria costumava decidir pelo programa líder de audiência, o segundo colocado não tinha a menor chance.
– Efeito dois – As condições para um programa obter a preferência dos auditórios domésticos eram, basicamente, duas
1)- Oferecer programas de auditório com entretenimento interativo e variado, com atrações capazes de agradar aos diversos tipos de publico para obter a sua preferência e
2)- evitar temas desagradáveis, polêmicos ou controversos que causassem rejeição e afastassem audiência.
Para atender a estes requisitos a melhor fórmula disponível eram os programas de auditório do tipo show de variedades.
O ideal, obviamente, era ter programas que lotassem o auditório, já que auditório vazio ou mesmo só pela metade acabava ficando com cara de Quarta-Feira de Cinzas. E isto era ruim para a audiência e para o faturamento.
De modo que a prioridade na TV Globo de Walter Clark passou a ser atrair público de multidão. Público de formar filas e, se possível, de entupir ruas.
E isso queria dizer conquistar o público feminino, posto que os auditórios eram massivamente formados pelas célebres “colegas de trabalho” | segundo a charmosa definição do Silvio Santos.
Os auditórios das TVs da época eram povoados por garotas, jovens e mulheres predominantemente das classes C e D, uma vez que madames da classe A e B não só não iam a auditório algum como até preferiam mudar seu trajeto para passar longe de auditórios.
Seguindo o script, logo no início de 1966 | estreia na Globo o Dercy Espetacular. O programa era apresentado ao vivo pela ex-vedete de chanchadas e do teatro de revista Dercy Gonçalves e ia ao ar na tardinha dos domingos, às 19 horas.
A apresentadora, um furacão de atividade que chegou a fumar quatro maços de cigarro por dia e, ainda assim, conseguiu viver até os 101 anos, era carismática, popularesca e desbocada. Dercy era tão respeitada por sua garra de guerreira como famosa por seus escândalos despudorados e, de tudo o que o programa Dercy Espetacular tinha de mais espetacular o destaque era seu colossal besteirol. O programa era um festival de boca suja embrulhado em baixaria da fazer marinheiro ficar corado, mas o auditório era uma algazarra só, a periferia adorava, não perdia programa e a audiência explodia. O esquema deu tão certo que, logo, na mesma linha do besteirol Global, chegou o Chacrinha com sua buzina irreverente para apresentar dois programas semanais.
Nesta época também começou a aparecer na Globo o sorriso mais famoso do Brasil, a marca registrada do campeão de audiência Silvio Santos.
Então, não mais que de repente, a nova programação começa a dar certo, a audiência sobe no telhado e a TV Globo assume a liderança no Rio de Janeiro.
Vem 1967 e a TV Globo continua liderando e a audiência continua crescendo, mas Walter Clark, mesmo sendo jovem, é experiente e bem avisado. Ele sabe o perigo de um sucesso com pés de barro. O mesmo programa que encanta um dia pode derreter feito manteiga um dia depois. O público pode cansar do estilo, desgostar do apresentador, cansar das repetições, mudar de gosto ou de preferência. É a fadiga do público.
O fato é que a programação da Globo estava dependente demais do humor apelativo da Dercy, dos arremessos de bacalhau do Chacrinha, que perguntava ao distinto público “Quem quer bacalhau?” antes jogar nacos do peixe sobre a plateia, e dos arremessos de dinheiro do Silvio Santos, que perguntava “Quem quer dinheiro?” E jogava aviãozinhos de dinheiro para alvoraço de suas ditas “colegas de trabalho”, além de outros programas popularescos que destoavam da nobre sobriedade do jornal e da rádio Globo.
Certo, a televisão precisava sobreviver, era um veículo novo, caro e complexo, que vinha com força disruptiva e, por isso, as pessoas aceitavam que tomasse certas liberdades até por conta da novidade que a televisão representava.
Nesse tempo, o especialista em comunicação, Marshall McLuhan, observando um fenômeno mundial que aflorava, tinha acabado de publicar seu livro “Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem”. O ponto alto do Livro foi a expressão “O Meio é a Mensagem”.
A frase “O Meio é a Mensagem” queria dizer exatamente isto: cada tipo de veículo ou meio de comunicação tem sua linguagem própria, peculiar e diferente. Livros, revistas, jornais, rádios, teatro e cinema, mal ou bem, já tinham encontrado sua linguagem, mas a televisão ainda não. Tratava-se de uma criatura recém-chegada, mais complexa e abrangente, que misturava elementos de todos os outros meios de comunicação, mas era substancialmente diferente e, por estar em seus primórdios, ainda tateava no escuro.
Walter Clark concordava com a expressão e, assim, não tinha ilusões. Intuitivamente sabia que a Globo era um meio que precisava encontrar sua linguagem. E rápido. Sabia que seus programas apelativos estavam tracionando a audiência, mas não eram solução de longo prazo. A Globo precisava de um banho de loja.
Ele trouxe, então | o José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que estava na TV TUPI e ambos começaram a trabalhar para estabelecer um padrão Globo de qualidade.
A dupla, que logo ficou conhecida como Boni e Clark, estava alinhada com as agências de ponta da publicidade brasileira, reconhecidamente uma das mais criativas do mundo, e acreditava que a melhor qualidade de conteúdo atrairia audiência mais bem qualificada, geraria mais receita publicitária e permitiria investir ainda mais e criar um círculo virtuoso de qualidade que se manteria saudável e autossustentável por muito tempo.
Começam a chegar profissionais diferenciados e a constelação da Globo logo passou a incluir Ulisses Arce, Daniel Filho, Armando Nogueira, João Carlos Magaldi, Augusto Vanucci, Walter Avancini, Janete Clair, Dias Gomes e outros mais.
Em 1969 chega Regina Duarte, a namoradinha do Brasil, para atuar na novela Véu de Noiva. Ela topou vir para a Globo porque seu salário na TV-Excelsior estava atrasado e ela, recém-casada, estava devendo até as prestações dos móveis, da geladeira e do fogão.
Boni, paulista de Osasco, sabia que para penetrar no mercado de São Paulo era preciso ter paulistas no elenco. Assim, além da Regina Duarte, vieram Francisco Cuoco, Lima Duarte e Sérgio Cardoso.
Em outro lance de mestre Boni contratou Tarcísio e Glória Menezes, o que aconteceu num jantar em uma cantina paulista ao lado do TBC – Teatro Brasileiro de Comédia.
Enquanto a Globo requalificava a produção de conteúdo, em outro front a dupla Boni e Clark tratava de dar dimensão nacional para sua programação. A primeira emissora conquistada para a formação de uma rede foi a TV Integração, do Triângulo Mineiro. Depois veio TV Gaúcha, hoje RBS.
Começa 1971 com a Globo evoluindo bem em todas as frentes, mas a dupla Boni e Clark reconhecia que grande parte dos resultados vinham da intuição de ambos, eram fruto de tentativa e erro e pareciam fluídos demais para se sustentarem no longo prazo. E era preciso mudar isso logo. Era preciso um método para navegar na opinião pública, já que eles se deparavam com aquela verdade inarredável desde a Grécia de Sêneca: “Quem não sabe para onde ir não chegará lá com certeza!”.
Então, em uma noite de 1971, o Boni convidou Homero Icaza Sánches para jantar no badalado restaurante Antônio’s, no Rio de Janeiro e o convidou para dirigir as pesquisas da Globo. O poeta, ex-Consul do Panamá e mago das pesquisas aceitou.
A Globo tinha encontrado sua bússola.
Daí para a frente a Globo nunca mais foi a mesma e o que se viu foi uma transformação que assombrou o Brasil e mesmerizou o mercado.
Neste vídeo vamos apresentar cinco lições magistrais legadas por Homero Icaza Sánches:
A descoberta da diversidade do público e o mapeamento das 36 classes sociais do Brasil;
A inercia da audiência cativa como âncora para manter a liderança televisiva;
Os grupos de discussão como instrumentos de avaliação qualitativa das novelas e de seus personagens;
A confirmação de que a televisão, assim como os rádios, jornais e revistas, não muda o voto do eleitor quando já cristalizado, como afirma a teoria de Lazarsfeld;
O perigo dos “Luas Pretas” e sua crença de que a teoria é mais importante do que a realidade;
A principal fonte destas lições foi a entrevista antológica que El Brujo concedeu para a Revista Playboy em maio de 1983. |
Na ocasião Homero Icasa Sánches, já consagrado urbi et orbi, estava temporariamente desligado da emissora, em meio a uma controvérsia política, e na entrevista concedida ao jornalista Vitu do Carmo falou sobre os 12 anos que havia liderado as pesquisas da Globo e revelou seus preciosos segredos, mostrando os caminhos que levaram a Globo para a hegemonia da audiência nacional. A entrevista tomou 17 horas de depoimentos e foi publicada ao longo de 11 páginas.
Vamos começar com a primeira de suas lições magistrais. Nela El Brujo fala para a Plauboy sobre a descoberta da diversidade do público e como fazer o mapeamento das 36 classes sociais do Brasil.
Pergunta da Playboy:
Sua capacidade de planejar e analisar pesquisas é comentada com grande admiração, quase reverência. Segundo consta, você chegou a um refinamento desconhecido até dos norte-americanos. Como foi que evoluíram os seus métodos de análise de pesquisa?
Resposta de El Brujo:
A princípio acompanhávamos a audiência da televisão por classes socioeconômicas. | Um dia comecei a me questionar. Eu estava trabalhando com o comportamento determinado pelo dinheiro que a pessoa tinha e não por sua formação cultural.
O levantamento dizia até onde ela podia gastar mas não me dizia os motivos pessoais, culturais, que a levavam a agir assim.
Uma pessoa, mesmo ganhando pouco, pode comprar manteiga porque não gosta de margarina. Compra pouco, mas faz questão de comprar manteiga porque seu refinamento exige isso. Outra prefere economizar um pouco em cada coisa para comprar um livro, um disco, uma gravura.
Então juntamos o levantamento socioeconômico com o levantamento sociocultural para descobrir o gosto das classes sociais.
Revista Playboy:
Como é feita essa consolidação?
El Brujo pega uma folha de papel para responder:
Na linha horizontal do gráfico, do ponto de vista socioeconômico, temos 6 classes A, | B1, | B2, | B3, | C e | D.
O mesmo universo também pode ser dividido em 6 classes do ponto de vista cultural A, | B1, | B2, | B3, | C e | D.
Então há um sujeito que ao mesmo tempo é milionário e tem uma cultura maravilhosa, de modo que ele é A | A , certo?
Mas posso ter também um indivíduo que é milionário, só que é bicheiro e come com as mãos. Não tem cultura nenhuma. Este é um A | D.
Começando com A | A e terminando com D | D vou ter 36 tipos cultural e economicamente definidos e esse é o segredo da audiência para a TV Globo.
Revista PlayBoy:
Só no Brasil se faz isso?
Resposta de El Brujo:
Isso é exclusivamente nosso. Os Americanos tentaram algo, mas não é a mesma coisa.
Playboy:
Qual a diferença?
El Brujo:
Eles não fazem o levantamento socioeconômico, por isso a base socioeconômica de suas pesquisas pode ser muito elástica.
Nós não. Se sabemos que temos 3% de classe econômica | A | na população, | na nossa pesquisa vamos entrevistar somente 3% da classe | A | para saber como a população se comporta culturalmente.
Playboy: |
Suas pesquisas na Globo, portanto, iam muito além de medir audiência. O que elas revelavam?
El Brujo:
Veja, mesmo o primeiro grande levantamento socioeconômico que fizemos em 1972 ou 73, foi uma maravilha. Foi feito nas cinco praças onde a Globo tinha estações na época: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Recife. Eu queria saber o que o morador desses lugares comia, como se vestia, como gastava seu dinheiro, quanto sobrava. Foi a coisa mais bonita que já planejei e ajudei a fazer.
Um desses levantamentos apresentou uma surpresa: o secador de cabelo aparecia num dos primeiros lugares na intenção de compra de eletrodomésticos. E aí se descobriu a causa: é que os rapazes estavam usando o secador da mãe ou da irmã porque já usavam o cabelo mais arrumado.
Pergunta da Playboy:
De que modo a Globo aproveitava isso?
Resposta de El Brujo:
Essas pesquisas nos traziam subsídios valiosíssimos para avaliarmos melhor a programação. Porque passávamos a conhecer melhor o brasileiro.
O telespectador não é uma projeção do aparelho de TV. A televisão precisa conhecê-lo como ser humano. Dispondo desses dados, a partir de determinado momento, passamos a estudar a programação antes dela ir para o ar.
Eu recebia às sinopses das novelas e analisava a adequação de seu conteúdo ao telespectador. Elas deviam atender as expectativas de cada uma das classes sociais que compunham a audiência.
Pelas sinopses você pode apontar falhas no comportamento das personagens. Eu podia dizer: esta personagem é classe B2 ou B3, porque tem apartamento alugado e tem carro, mas não está agindo de acordo com sua classe. A personagem está errada!
Ou então, este indivíduo é classe C E, mas não quer estudar, não quer subir na vida. Isto não é possível.
Pergunta da Playboy:
Como os autores reagiam quando as sinopses eram devolvidas com essas ressalvas?
El Brujo:
A essa altura os capítulos ainda não estavam escritos, mas nós não dizíamos como ele deveria escrever. Só mostrávamos a coerência ou não das personagens. Além disso, os autores não tinham nenhum contato direto com a divisão. Agora, eles adoravam a divisão, que era uma bússola e que dava o mapa da mina.
Podiam dizer que discordavam, mas o resultado eram os pontinhos na audiência.
Concluindo a primeira aula das práticas de El Brujo vimos que o conhecimento da diversidade do público e o mapeamento por classes sociais da audiência televisiva do Brasil permitiram à Globo um ajuste fino de sua programação e ir ao encontro do que seu público desejava. Esse o grande segredo da sua liderança por seis décadas
…
Vamos para a segunda lição
A segunda aula magistral mostra a importância da inércia na aquisição e manutenção da audiência como âncora para manter a liderança televisiva. Esse fenômeno pode ser observado em outras áreas do mercado onde o prestígio de uma marca cria fidelidade e preferência inercial.
Vamos voltar à entrevista:
Playboy:
As novelas da Globo continuarão imbatíveis por muito tempo?
El Brujo:
No dia em que outra televisão der uma opção ao telespectador essa concorrente ainda terá que esperar 3 anos para empatar com a Globo e começar a arranhar suas estruturas de novela.
Se você tirar o Boni da Globo e botar numa concorrente a Globo continuará líder de audiência no horário nobre das novelas por mais 3 anos.
Playboy:
Se uma concorrente quiser inverter esta situação mais rapidamente, quantos homens precisará tirar da Globo?
El Brujo:
Vinte homens. Vinte homens da área do Boni, que é responsável pelo “produto”, aquilo que vai para o ar.
Playboy:
Mesmo com os vinte 20 homens?
El Brujo:
Meu filho, para conquistar audiência demora muito, é preciso formar um hábito. A dificuldade para o telespectador perder o hábito é na mesma proporção.
O sujeito está acostumado com o aparelho dele ligado na Globo. Quando o aparelho pifa vem o técnico, abre, tira uma pastilha boa que faz pegar outro canal e bota para pegar a Globo. Ele diz “olha, para não ter que comprar uma peça nova eu fiz isso só que não vai pegar bem o outro canal” e o dono do aparelho: Ah!, tudo bem, eu não vejo outro canal!
Playboy:
Quando um artista sai da Globo e vai para outra emissora, deve sentir muita diferença.
El Brujo:
O Chacrinha quando se mudou para a Bandeirantes foi um desastre. Chegou a dar 4% de audiência.
Plaboy:
na Globo dava quanto?
El Brujo: Uma vez fez um especial que deu 70%!
O que aprendemos nesta aula é que agir de forma estudada e, depois de tomar a ação, devemos dar tempo para o mercado agir, sem tomar medidas açodadas. Sobre o imediatismo Homéro acrescentou: A Tv Tupi criava um programa novo, com bom conteúdo, original, eu via e dizia: “Vai pegar” Só que ele entrava no lugar de outro que estava dando, digamos, 8%. De audiência. Esses 8% eram o resíduo final e o pessoal que via esse programa no começo, ficava “contra” o novo. Esse dava, então, 6% na primeira semana. Na segunda dava 5, depois 4 e podia chegar a 3, mas depois começaria a subir. As pessoas começariam a dizer : “tem um novo programa, sabe?” O outro Não sabia e não vi, mas vou ver na próxima semana. Acontece que, quando chegava na quinta semana a Tupi cortava o programa.
E a Tupi fazia o que o Dr. Roberto Marinho teria gostado que ela fizesse: cortava um programa que poderia crescer.
…
A Lição magistral número três revela a importância dos grupos de discussão como instrumentos de avaliação qualitativa das novelas e de outros programas da Globo.
Para direcionar as novelas, El Brujo adotou a sistemática dos grupos de discussão. Essa dinâmica de discussão em grupo já era usada em Marketing, mas Homero inovou ao usá-los para avaliar os roteiros e as linhas gerais das novelas, e ainda criou um tipo de “comitê” de personagens, grupos focados que obtinham contribuições do público para ajudar os autores a construir personagens carismáticos e polêmicos, tipos que obtinham identificação e alavancavam o sucesso das novelas.
Mas os grupos de discussão também eram usados para pesquisar outros aspectos da programação.
Washington Novaes, que foi editor da Globo Repórter, contou no jornal o Estado de São Paulo que, quando o governo Geisel afrouxou a censura, o programa Globo Repórter passou a tratar de questões sociais brasileiras como bóias-frias, mortalidade infantil e outras, e, para surpresa geral, a audiência começou a diminuir e caiu abaixo dos 50 pontos do IBOPE, enquanto subia a audiência do programa do Chacrinha, que era o concorrente direto do horário. Ele pediu uma pesquisa ao Homero e esse, depois de pesquisas e sessões de grupos de discussão, foi claro: o público das classes A e B, de maior renda e instrução, considerava desagradável que a TV lhe levasse temas tão incômodos bem na hora do jantar. Já o público das classes C e D dizia que, se o programa era para mostrar pobreza, não precisava porque ele via pobreza todo dia. E se o programa não trouxesse propostas concretas de mudança. preferia mesmo ver o Chacrinha.
Na entrevista da Playboy o repórter Vitú do Carmo pergunta:
Como é que funciona o famoso “grupo de discussão”? Segundo consta tem uma influência enorme nas novelas.
Homero, então, passa a palavra para a Mirian, sua esposa e seu braço direito na Globo.
Resposta da Mirian:
Esse trabalho foi feito pela primeira vez pelo Homero. Ele sentiu a necessidade de um trabalho que fizesse uma avaliação qualitativa da novela durante sua apresentação. Do grupo de discussão das novelas participam 12 mulheres selecionadas de acordo com a composição da audiência. São, portanto das mais diferentes classes socioeconômicas e idades. Elas são reunidas numa sala branca fechada, livre de qualquer interferência. A reunião é gravada em áudio, em VT e taquigrafada.
Playboy: Você dirige a reunião?
Mirian: Eu modero, porque se não acaba virando fofoca, divagação, conversas paralelas. Elas levam, em média, meia hora para se descontrair e depois começam a falar e a se pegar.
A mulher de um almirante, por exemplo, diz que a novela é imoral porque mostra certas coisas. A outra diz que não, porque eu estou cansada de ver isso e tem mais é que botar na TV para ensinar.
Playboy: Essa mulher mais liberal é de que classe?
É da classe “C”
Playboy: Como é encaminhada a discussão?
Mirian – Primeiro as mulheres dizem como estão vendo a novela e qual a opinião delas: positiva, negativa ou neutra. Essa parte é o julgamento da novela. Depois você entra na discussão das personagens de que gostam ou não. Depois entra nos núcleos, nas histórias paralelas. Uma história paralela, às vezes, pode crescer muito como foi o caso do Mário Fofoca.
Esse não é um caso típico de mérito do autor, é uma questão também de empatia, do texto, do autor e do horário. O horário das 7 é o das novelas divertidas e Mário Fofoca era muito divertido. Então, no momento em que o autor percebe que Mário Fofoca tem uma força ascendente ele faz o personagem crescer.
Playboy: na novela Baila Comigo o personagem interpretado por Fernando Torres devia morrer num acidente, mas houve uma identificação tão grande do público com ele que o autor o fez sobreviver. Isso é comum?
Nesse caso havia uma relação muito apreciada entre ele e o filho adotivo. Uma relação interessante, bonita, forte. Se você mata uma personagem assim você decepciona 80% da audiência.
Playboy: Na novela Brilhante a personagem Leonor não teria as características para uma grande identificação com o publico das novelas? Ela era atípica moça pobre querendo subir…
Mirian: Mas ela não era honesta! E isto o público não perdoa.
Playboy: O que mais é analisado pelo grupo?
Mirian: Até elementos como abertura, trilha musical, roupa, cabelo, adequação do cenário. Em Sol de Verão as pessoas achavam pouco verossímil que houvesse um casarão holandês, uma oficina, um terreno que pudesse virar pracinha em pleno bairro de Ipanema do Rio de Janeiro.
Playboy: Situações inverossímeis levam a perda de audiência?
Mrian: Sim, levam.
Playboy: O público não aceita?
Homero: O público sabe mais de novela que o autor, o diretor e os atores juntos. Na novela Plumas e Pates duas moças vem de Minas num carro, sofrem um acidente uma morre a outra pega seus documentos e assume sua identidade. Tudo bem, mas ela chega no Rio passou um mês, a família não lhe telefona nem lhe manda uma carta. As mulheres dizem “Então esta moça não é de Minas”. Imediatamente o autor faz a personagem receber uma carta da família.
Playboy: todas essas informações certamente são muito valiosas para um homem de pesquisas. Nesse sentido, Homero, qual seria o seu saldo depois de 12 anos na Globo?
Homero: Eu saio com o maior banco de informações de pesquisa do mundo. O IBGE não sabe mais do Brasil do que eu.
Playboy – Verdade?
…
Ao responder a essa pergunta Homero nos dá sua quarta aula magistral: suas pesquisas o levaram a conclusão de que a televisão, assim como os rádios, jornais e revistas, não muda o voto do eleitor quando já cristalizado, como afirma a teoria de Lazarsfeld.
Vejamos a explicação de Homero na Playboy:
A última pesquisa política que eu fiz vale 20 milhões de dólares. Eu devia pagar à TV Globo 20 milhões de dólares de indenização por ter me deixado fazer. Hoje vou a qualquer Congresso mundial sobre pesquisa política e digo assim: “estamos todos errados. Lazarsfeld estava certo. Propaganda da televisão não muda comportamento político. E vou provar que não muda. Isso vale 20 milhões de dólares agora, vai valer 30 40, 50, 100 quando você quiser. Isso vale mais do que qualquer ordenado.
A teoria de que os meios de comunicação não modificam o voto já havia sido provada pelo sociólogo austríaco Lazarsfeld, | que foi tão importante para a pesquisa de opinião como Einstein para a física.
Ele sabia que os meios de comunicação costumavam tomar partido nas eleições e quis descobrir que influência isso tinha. Então fez uma pesquisa durante um ano no Condado de Eire (Era), nos Estados Unidos, e constatou que não havia influência. Isso foi em 1944.
Playboy – O que há de novo então em sua tese?
Homero: – O trabalho de Lazarsfeld referia-se apenas ao rádio, jornais e revistas. Com o advento da televisão surgiu a teoria de que ela modificava o comportamento do eleitor.
Isso passou a ser aceito pacificamente nos últimos anos, mas uma dúvida sempre me torturou: se tivesse estudado a televisão Lazarsfeld teria modificado seu Livro?
No ano passado houve no Rio o Congresso da International Association of Political Consultants, que reúne os pesquisadores mais importantes do mundo. Estavam lá o americano que fez a campanha do Kennedy, o francês que fez a do Moterrand, o alemão que fez a do Helmuth Schmidt. Cada um apresentou um trabalho sobre uma campanha política que tinha feito e eu, que era o moderador, perguntei se achavam que a televisão mudava o comportamento do eleitor. Disseram “muda”. Perguntei se achavam que Lazarsfeld escreveria hoje um livro diferente. “Achamos”, foi a resposta. Mas eu achava que não. E trabalhei neste apartamento durante 30 dias, à noite, com essa menina aí, para descobrir onde estava o furo.
Playboy: Você e a Mirian?
Homero – É. O ibope propôs a Globo um projeto de pesquisa em oito estados, que representavam 80% do eleitorado do Brasil.
A pesquisa teria quatro rodadas: a sessenta, a trinta e a quinze dias da eleição e uma última no próprio dia da eleição, que seria o prognóstico eleitoral.
Nos anos anteriores eu sempre comprava o prognóstico, mas desta vez compraria o projeto inteiro para descobrir o comportamento do eleitor.
Playboy – E havia mesmo um furo?
Homero: sim e consistia no fato de que esse tipo de pesquisa sempre fazia a seguinte pergunta: se a eleição fosse hoje em quem você votaria? O sujeito respondia e o resultado era divulgado.
Mas isso não significava que ele votaria no candidato que indicou. Podia ser apenas um “voto de simpatia momentânea”. Era o voto daqueles que escolheriam hoje a Sandra Cavalcanti, amanhã o Miro Teixeira, depois o Brizola, depois o Moreira Franco. Tinha que haver, por isso, uma outra pergunta antes daquela: Você já tem candidato? Quem é? Inclui, então essa pergunta que Lazarsfeld também fazia em sua pesquisa de 1944.
Os que respondiam afirmativamente, isto é, os que já tinham candidato, não iriam mais mudar, de acordo com a teoria de Lazarsfeld. Era o voto “cristalizado”.
Então eu tinha dois resultados distintos para analisar.
Playboy – Em outros países não são feitas as duas perguntas e as posições dos dois grupos, o dos votos cristalizados e o dos indecisos, aparecem misturadas?
Homero – É o que tem acontecido, levando inclusive a erros de previsão. Aconteceu com o Miterrand, na França. As pesquisas diziam que ele não ganhava e ele ganhou.
Payboy – Ou seja, o que favorecia Giscard nas previsões não era o “voto cristalizado”, mas o da “simpatia momentânea”, que depois mudaria a favor de Miterrand.
Homero – mudaria. O número de votos cristalizados, logicamente, vai aumentando a medida que as eleições se aproximam, mas o importante que se constatou agora foi que, uma vez que o eleitor tenha seu candidato escolhido, a influência da televisão – assim como do rádio, do jornal e da revista, – é mínima. Ao contrário, ela o leva a se afirmar em sua escolha. A modificação do comportamento eleitoral só acontece àqueles que ainda não tem candidato.
Playboy – Mas não haveria uma influência da televisão nessa mudança?
Homero: – Há uma teoria de comunicação que diz que a melhor forma de convencimento é apresentar o pró e o contra ao mesmo tempo.
Se você coloca só o seu ponto de vista – e esse é o erro dos políticos em geral – o sujeito se sente agredido, enganado e não aceita. Se você mostra as duas ideias, ele tem dois polos para optar. Eu, descobri, então, que o debate era o segredo da televisão. Que o debate na televisão – não pela televisão, mas pelo debate em si, – poderia modificar o voto, mas apenas o voto não cristalizado. E a essa altura, 90 dias antes da eleição 52% do eleitorado estavam nessa situação, sem candidato definido.
Playboy – a Globo promoveria depois um debate com os 5 candidatos a governador. Qual foi o resultado?
Homero – Na pesquisa que eu pedi apareciam coisas assim: Quem ganhou o debate foi o Brizola mas eu vou votar no Miro”. Esse era o voto cristalizado. Mas os outros, os que não tinham voto cristalizado, é que iam dar a tendência dos 52% ainda sem candidato e (nesta pesquisa) dava Brizola. Na pesquisa de votos cristalizados, realizada em setembro, Miro tinha 17% dos eleitores, Sandra tinha 13%, Moreira Franco 11% e Brizola 10%, mas comparando essa pesquisa com a do mês anterior Brizola tinha um crescimento fantástico e, projetando-se isso em função dos eleitores não definidos, ele ganharia.
O Brizola veio à minha casa e eu disse a ele, que estava sentado aí: Você é o governador do estado.
Playboy – Como você podia ter certeza?
Homero – Porque eu tinha feito um levantamento por profissões e o Brizola crescia na indústria, na prestação dos serviços, nos inativos, nos estudantes, no comércio, no transporte. A Sandra só ganhava na agricultura que representava apenas 2,3% do eleitorado.
Playboy – Qual é a importância disso?
Homero – É uma descoberta de um senhor muito sério chamado Max Weber, o maior sociólogo do século. A profissão tem grande influência no comportamento político do indivíduo. Você vota com sua classe. É difícil o empregado votar com o patrão.
Playboy – Exemplificando…
Homero – Exemplificando, você verifica que, numa eleição | os médicos estão votando majoritariamente em determinado candidato. Há poucos médicos com votos já cristalizados. Mas você sabe que a grande quantidade dos médicos com votos (ainda) por cristalizar escolherá o mesmo candidato.
É simples assim…
…
– E agora, finalmente vamos à quinta aula magistral de Homero Icaza Sánches: O perigo dos “luas pretas” e sua crença de que a teoria é mais importante do que a realidade;
O extraordinário sucesso de El Brujo se deve tanto à sua capacidade técnica aplicada ao processo de coleta das informações como a sua capacidade para interpretar os dados, de olhar para a pesquisa, entender seu lado humano e de penetrar nos números com olhar de Raio X para decifrar seus significados mais obscuros. Ele explicava, “quando você faz análise de pesquisa, tenta conhecer a alma do homem e não o número”.
Um dos traços mais importantes do talento de Homero era sua empatia com o povo brasileiro. Essa empatia transparecia em suas análises e na sua visão generosa da alma brasileira. Talvez sua sensibilidade estivesse sempre tão em sintonia com a audiência brasileira porque ele, embora panamenho de origem, era tão “miscigenado” como nosso povo. Seu sobrenome, Sánchez, foi herdado do seu avô chinês, que, para se casar, teve de se batizar e adotar o sobrenome de seu padrinho. Seu bisavô era alemão, sua avó materna era peruana e seu pai era espanhol.
E, depois, Homero, antes de ser pesquisador e sociólogo, era poeta e se inspirava em Manuel Bandeira, o poeta que versejava sobre ir-se embora pra Pasárgada.
Por tudo isso, Homero acreditava que o fenômeno humano era a base do marketing. Acreditava que a pesquisa devia penetrar no amago das pessoas e no espírito da sociedade, iluminar os sentimentos e aspirações, tanto individuais como coletivas, para capturar os vetores que se condensavam como tendências. Seu foco era garimpar informações verdadeiras e não se limitar aos resultados aparentes. E para ir fundo e obter resultados precisava, frequentemente, quebrar paradigmas, ser disruptivo e contradizer conceitos e crenças enraizadas na estrutura de poder. O que, é claro, nem sempre agradava alguns poderosos da Globo, um grupo que não gostava de seus métodos e que ele, na entrevista, chamava de “Luas Pretas”.
Pergunta da Playboy:
O que é um “Lua Preta”?
Homero – É um sujeito que considera a teoria mais importante que a realidade, a doutrina mais importante que o fenômeno e que pensa que pode modificar o fenômeno em função da doutrina ou da teoria. O Lua Preta é um indivíduo acatado pelos títulos que tem. Ele pode fazer seu bacharelado aqui, mas sempre tem um mestrado, um doutorado fora, que é para assustar os índios.
Ora, o Marketing é uma disciplina que combina ciência e arte, que respira inovação e empatia, que vive do fenômeno humano. Neste sentido o Marketing é a coisa mais anti-teoria que existe, porque ele muda a teoria o tempo todo.
A conclusão é que, para a mágica de El Brujo ter dado certo na Globo foi preciso unir o conhecimento do público que vinha das pesquisas e análises de Homero com sua aplicação na arquitetura de programação da emissora.
Foi preciso que o Boni acreditasse em seu talento, lhe abrisse as portas e o apoiasse nos momentos decisivos, especialmente nas incontáveis refregas que El Brujo teve com os Luas Pretas. El Brujo foi a bússola da Globo. Ele dava o norte, apontava o caminho, mas reconhecia que não tinha a autoridade para fazer. O Boni, que dirigia a produção, tinha a autoridade e foi o timoneiro que lhe deu respaldo.
Boni foi o executivo visionário que apoiou El Brujo até que seus acertos se convertessem em resultados e a evidência se impusesse por si mesma.
E aí está a Rede Globo, merecidamente festejando 60 anos de liderança inconteste, uma evidência de que a emissora se mantém no rumo do sucesso e continua, como nos tempos pioneiros de El Brujo e do Boni, buscando a excelência e acertando em seu Marketing ao Alvo.
Artigo publicado pelo Jornal AVS el 20 de junho de 2025
A era do talento para sobreviver
Vivemos em tempos tumultuosos e incertos. Mas tenho cá minhas dúvidas se já houve tempo em que a humanidade viveu em pacífico sossego. No Jardim do Eden, segundo conta a Bíblia, andava tudo sossegado até aparecer uma serpente malévola e botar o sossego a perder.
A história do “homo sapiens” é uma história de disputas e conflitos sem fim. Alguns tempos foram mais pacíficos que outros, concordo, mas, como diz, melancólico, o índio do poeta: “a vida é luta renhida e viver é lutar”.
Com a chegada da Inteligência Artificial muita gente pensou com seus botões (eventualmente, alguns pensariam com seus zípers) que a evolução da humanidade era uma conspiração em favor da indolência. Desde o advento das máquinas o trabalho físico repetitivo vem desaparecendo. Até na agricultura foi uma metamorfose. Hoje o trabalho de arar e plantar é feito com ajuda da IA, em máquinas parrudas, em cabines com ar-condicionado e ouvindo música ao gosto do freguês. Pode ser sertaneja, ou os Monarcas, ou, até, no caso de alguns raros refinados, madrigais renascentistas. De modo que agora, que inventaram a máquina de pensar, seria chegada a ora de dispensar o árduo trabalho de esquentar a cabeça. A Inteligência Artificial, os computadores e os robots se encarregariam de pensar e prover o cotidiano e aos humanos caberia viver o sonho dos gaudérios, um pessoal que não tem ocupação séria e vive à custa dos outros.
Aliás, a geração “nem-nem”, essa turma vagal que nem trabalha nem estuda (mas come, namora e dorme) tem como projeto de vida exatamente viver de bolsa família e à sombra desta nova era tecnológica, dedilhando o celular e recebendo dinheiro grátis dos governos perdulários. Tudo isso enquanto defendem o que poderíamos chamar de “democracia de direitos”. Uma democracia meio carnavalesca, que dá aos espertos todos os direitos, enquanto reserva para os tontos que trabalham, como você e eu, os deveres e obrigações, sob o ácido argumento de que afinal, ninguém está acima da lei. Uma “democracia”, caro amigo, em que eles fazem a lei que lhes convém, estipulam para eles e sua turma salários e penduricalhos escandalosos e estabelecem que você e eu, que somos de segunda classe, posto que nosso voto vale menos, estamos abaixo da lei deles.
O fato é que os entreveros mundo afora acontecem porque o mundo anda lotado de gente. Tem povo demais, para planeta de menos, e todo mundo quer garantir seu naco de privilégios. Nesta nossa sofrida terra de Santa Cruz, os políticos, notadamente aqueles que se elegem oferecendo picanha para todos, não dizem ao povo que cada boi só tem duas picanhas. Saborosas e tenras peças de carne, encapadas de gordura, que ficam localizados entre o lombo e a coxa traseira, onde o animal faz pouco esforço. E dado que o animal só tem duas coxas traseiras, então, cada animal vai produzir apenas duas picanhas de 1.250 gramas cada uma. No dia que todos os brasileiros forem comer a tal prometida picanha, ainda que modestos 250 gramas por pessoa, será preciso abater 20 milhões de bovinos só para abastecer os esfomeados por um dia. É só fazer a conta: em 10 dias acaba o rebanho nacional. Pode isso?
A conclusão é que, nesta quadra da vida do Brasil e, sem dúvida, do planeta que habitamos, a sobrevivência requer talento. E mais talento é preciso por quem deseja da vida algo mais. Por exemplo, encontrar um lugar ao sol, empreender, ascender socialmente, viver com qualidade de vida, essas coisas prosaicas que gente como a gente sonha alcançar.
Então, como saber se temos o talento de sobrevivência necessário para sobrevivermos? E, se já não o temos, como fazer para o conseguirmos na medida necessária?
Antes de atrever-me a dar algumas dicas de autoajuda vou começar dizendo que pode doer. Afinal, se fosse fácil todo mundo faria.
Autoajuda 1 – Faça uma lista das besteiras que você já fez. Se pergunte qual a causa. Veja que lições você pode tirar de cada uma delas. Prometa que você não vai fazer nenhuma delas de novo. Atenção: seja honesto com você mesmo, que ninguém vai ficar sabendo. E se tiver algum erro recorrente, que você descobre que repete sempre, prometa a você mesmo que vai tomar todas as cautelas para evita-lo e que vai jejuar um fim de semana inteiro se se flagrar que o está repetindo. E não esqueça de checar o tempo que você gasta no Instagram ou no Tik-Tok. O ideal é que não passe de 15 minutos por dia, em sessões de cinco minutos cada vez.
Atoajuda 2 – Faça uma lista de suas prioridades. Se tiver coisa boba, como ir a todos os shows de rock ou gastar um dia por semana polindo o carro, estabeleça um critério: um show por ano. Um polimento por trimestre. (Exceção, se você for sair com a namorada, vale dar uma polida no carro.). Reestude as prioridades e, se tiver coisa faltando, como ler um livro ou praticar um instrumento musical para treinar o cérebro, inclua.
Autoajuda 3 – Cuidado com as decisões intempestivas. O diabo está nos impulsos. Antes de comprar um elefante branco, pense duas vezes. Minhas besteiras mais memoráveis e meus arrependimentos mais sofridos resultaram de decisões impensadas. Recomendações de um errador contumaz: faça uma lista dos pontos positivos: o que você tem a ganhar e o que você espera de benefícios e, com sinceridade, liste os custos e considere o que você perde se der errado. Pense em alternativas. Você tem um plano “B”? Postergue o negócio. Olhe sua consciência. De repente é um bom negócio, mas pense sempre nas consequências e tome cautelas.
Se eu segui esses meus conselhos? Estás brincando? Nem sempre. Mas hoje sou gato escaldado! Consulto a Inteligência Artificial e bato três vezes na madeira. Talvez ainda não tenha o talento que preciso, mas se errar, vai ser com convicção. Boa sorte e sobrevivam!
Mikhail Gorbachev, o último presidente da União Soviética antes do colapso do sistema comunista, dizia que o Mercado não era uma invenção do Capitalismo. Ele já existia por séculos. Ele era uma invenção da civilização.
Mr. Gorbachev tinha razão. O Mercado foi, de fato, uma invenção da civilização. O que a democracia inventou foi o Marketing.
E foi o Marketing que já nasceu incorporando o DNA da democracia, ou seja, a diversidade e a liberdade de escolha.
O Marketing é o mecanismo utilizado no mundo livre para fazer a interface entre o sistema produtivo e o consumidor de modo que possamos desfrutar o privilégio da escolha que é nosso apanágio no Livre Mercado.
Para nós, que vivemos na civilização ocidental, a liberdade de escolha é tão natural como o ar que respiramos.
Nem concebemos as restrições de uma ditadura comunista, posto que, para nós, viver é escolher.
É por isto que o Mercado e a Democracia andam de mãos dadas.
Tanto a democracia como o Marketing prezam a variedade e a abundância de escolhas e entendem que o mundo será tão melhor quanto mais escolhas tivermos ao nosso alcance e quanto mais variadas forem as escolhas que pudermos fazer.
E sendo o Marketing uma generosa plataforma de escolhas, a nós cabe celebrar o Marketing e, igualmente, prezar a Democracia, porque sem Democracia as escolhas cessam e o Marketing fenece.
O fato é que, sem democracia o Marketing não existe.
O Marketing é o Sistema Operacional do Mercado
Mas o que faz o Marketing ser uma instituição tão especial?
Para explicar fazendo uma comparação simples, o Marketing se constitui no Sistema Operacional do Mercado.
Nos países democráticos e de livre mercado, a exemplo dos Estados Unidos, dos países da Europa e do Primeiro Mundo, e mesmo de países como o Brasil, que aspiram chegar ao primeiro mundo, o Marketing faz a mediação entre o Mercado e o Sistema Produtivo.
Nas democracias o Marketing coloca o consumidor no centro do Mercado. E ali o consumidor e sua variante econômica, o “homo emptor”, o homem que compra, participa da permanente metamorfose que enseja ao nosso esplêndido planeta azul viver em seu continuado círculo virtuoso.
Em outras palavras, nossa civilização é uma obra inacabada, sempre em mutação, e que evolui e se transforma a cada nova geração que chega e assume a história.
Para nossa geração, para nós, que vivemos nesse século XXI e herdamos ensinamentos milenares de culturas que nos antecederam no caminho civilizatório, a democracia nos dá asas, o mercado nos dá as opções e o marketing nos dá os olhos e ouvidos para fazermos nossas melhores escolhas.
…
Um Extraterrestre conhecendo o Mercado do Planeta Terra
Um ET que chegasse hoje ao nosso planeta e pousasse seu disco voador em Nova York, Tóquio, Paris, Singapura ou São Paulo iria ser tomado de assombro e iria se perguntar como teria sido possível criar cidades tão extraordinárias, populosas, movimentadas, exuberantes e coloridas e como a espécie humana se organizou para atender às necessidades e desejos de toda aquela massa de gente que habita o orbe terrestre. Uma população de oito bilhões de pessoas composta por seres tão singulares e tão diversificados da espécie humana.
O que nosso visitante Extraterrestre iria descobrir é que a humanidade desenvolveu um engenhoso sistema de produção e distribuição de produtos e serviços que nós, terráqueos, chamamos de MERCADO.
E, além disso, ficaria sabendo que existem dois tipos básicos de MERCADO no planeta: o chamado LIVRE MERCADO, um sistema descentralizado de organizar a oferta e a procura, mediado pelo Marketing, e o MERCADO DIRIGIDO, uma versão com comando centralizado sob chefia de burocratas do governo.
Veria, além disso, que os países mais ricos e prósperos do planeta são exatamente aqueles que adotam o LIVRE MERCADO e permitem ao Marketing agregar valor em todo o seu conjunto de especialidades. Desde na pesquisa de preferencia dos consumidores, na inovação de produtos, na precificação dinâmica de produtos e serviços identificando os melhores pontos de venda físicos e online, para divulgar e produtos e serviços, para pesquisar a satisfação dos consumidores e de outras mil e uma maneiras que promovam o bom funcionamento de todo o organismo do Mercado.
E então, em mais uma surpresa, nosso ET iria perceber que, nos países democráticos, o LIVRE MERCADO se constitui em uma fonte de paz e harmonia social.
Ao ensejar a competição entre produtores e consumidores com regras claras e igualdade, cria emulação e fomenta o progresso.
Nos países de Livre Mercado zilhões de unidades fabris produzem infinita variedade de mercadorias que viajam por terra, mar e ar e abarrotam de ofertas uma cornucópia dos mais maravilhosos produtos e serviços jamais sonhados pelas gerações humanas do passado.
E se o nosso ET, movido pela curiosidade, aprofundasse ainda mais sua observação veria que a negociação entre as partes se dá com a lógica da concorrência. Os preços oscilam em função das quantidades de oferta e da procura e, para seu espanto, descobriria que, no LIVRE MERCADO, existe mesmo uma “mão invisível”, aquela tal “mão invisível” a que se referiu o criador do capitalismo, Adam Smith, quando escreveu que a riqueza das nações resultava da atuação de indivíduos que, movidos pelo seu próprio interesse, promoviam o crescimento econômico e a inovação tecnológica. Afinal, como ele escreveu, “não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em obter ganhos e promover seu “auto interesse”.
Já, do lado socialista, iria se deparar com o MERCADO em seu formato mais rudimentar, sem o Marketing e sem seus acessórios democráticos.
Veria um aglomerado atabalhoado de fábricas e armazéns disfuncionais, fabricando mercadorias de duvidosa qualidade e as distribuindo precariamente em lojas do governo, escuras e malcuidadas, mediante quotas e cartões de racionamento. Tudo mal gerido por burocratas do governo, sem a liberdade da democracia e sem a inspiração do Marketing.
E constataria a abissal diferença entre os dois sistemas: do lado da democracia a exuberância de uma autêntica orquestra de progresso emanando a música da prosperidade, enquanto, do lado socialista, tudo o que ouviria seria o som penoso de um apito monocórdio, desolador e lôbrego, marcando o passo da pobreza sem esperança.
Então nosso ET, ao voltar ao seu Planeta distante, levaria a conclusão de que a humanidade da Terra conhecia dois tipos diferentes de Mercado, cada um com seus respectivos sistemas políticos, sociais e econômicos: de um lado, no concerto das nações avançadas, uma civilização com a rica exuberância de uma orquestra, de outro, entre as nações comunistas e de socialismo marxista, precárias coletividades humanas cujo ritmo é ditado pela inglória penúria de um apito.
Em suma, de um lado uma orquestra, de outro um apito!
O Grande paradoxo do Marketing Inteligente que encanta todos e conhece cada um
Mas o Marketing anda de mãos dadas com a democracia porque o marketing é um sistema de livre escolha semelhante ao sistema democrático.
Veja, no sistema democrático o eleitor faz a escolha do candidato de sua preferência por meio do voto na urna.
Da mesma forma, no espaço do Marketing, o consumidor faz a escolha do produto de sua preferência indo a um supermercado, a uma loja ou acessando um marketplace online e ali realiza a sua compra.
Agora, o grande paradoxo do Livre Mercado e, certamente, uma das suas mais surpreendentes qualidades, é que este leviatã moderno, cujos tentáculos alcançam o planeta inteiro e que cumpre a função de atender uma população mundial estimada em mais de 8 bilhões de pessoas, se revela capaz de dar atenção a cada um de seus bilhões de clientes e consumidores e se mostra capaz de atender as necessidades e desejos individuais de todos, sendo que cada um deles é diferente dos outros e cada um tem suas crenças, seus valores, seus hábitos e suas preferências.
À giza de analogia, certa feita Henry Ford, o grande industrial fundador da empresa que leva seu nome e inventor da linha de montagem, frustrado pela dificuldade em conseguir que seus operários pensassem todos da mesma maneira, acabou por desabafar: o problema é que, cada vez que eu preciso de um par de braços, vem uma cabeça junto.
A mesma coisa poderiam dizer os políticos, afirmado que cada vez que precisam de um eleitor, vem uma cabeça junto.
E não seria diferente para os profissionais de marketing que, também, poderiam resmungar reclamando que, cada vez que precisam de um consumidor, vem uma cabeça junto.
Sucede que o triunfo da civilização que conhecemos e a razão de seu extraordinário sucesso advém, em grande medida, desta colossal orquestração de cabeças que compõem a cultura do planeta.
E, o que acredito seja o mais importante do ponto de vista do Marketing, é que junto de cada cabeça vem um coração e uma mente. Então a missão do Marketing é precisamente se haver com estes bilhões de diferentes cabeças, corações e mentes que formam o Mercado.
Daí que o primeiro pressuposto do Marketing é entender que, como diz o ditado popular, “cada cabeça uma sentença”.
E vejam que esse entendimento de que “cada cabeça é uma sentença” é da maior e mais crucial importância. E tem implicações que extrapolam o Mercado e vão impactar a organização política dos países e nações.
É que esta expressão de que “cada cabeça uma sentença” pode ser tomada como o divisor que separa os países democráticos liberais dos países socialistas.
O que caracteriza a diferença é que, enquanto os países socialistas dispensam o Marketing e colocam o planejamento centralizado no seu lugar, os países democráticos e liberais, países que adotam o Livre Mercado, usam o Marketing para fazer o meio de campo entre a sociedade e o sistema produtivo. Em outras palavras, nos países democráticos o Marketing e suas ferramentas fazem a interface entre o consumidor e o Mercado.
Nos países socialistas a simples ideia de que uma cabeça seja diferente da outra é um anátema.
O Mercado socialista aquele que adota o planejamento centralizado exige que, em nome da pretensa igualdade, todos se nivelem por baixo e se comportem do modo padronizado.
No Mercado Socialista Dirigido o governo define aquilo que as lojas estatais vão ter nas prateleiras. Assim, as fábricas do governo se limitam a fazer os produtos que os burocratas aprovam. Nada de grifes ou etiquetas, ou artigos do luxo capitalistas. De modo que todos precisam vestir-se com a túnica de Mao-Tse-Tung, morar em edificações coletivas padrão soviético, contentar-se com um Trabant alemão oriental e, acreditem ou não, usar o cabelo à moda do Kim Jong Um.
Esta questão da uniformização das preferências foi magistralmente colocada, anos passados, quando uma marca de tintas fez uma bem-sucedida campanha publicitária perguntando o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?
A pergunta era do tipo que fazia pensar: de fato, já imaginaram que tragédia seria se o mundo todo fosse pintado de uma só cor?
Já na parte do mundo com LIVRE MERCADO, como sabemos, o Marketing promove a variedade, a diversidade, a inovação e a ideia de que quanto maior for a variedade de produtos que existirem no Mercado, melhor!
A analogia entre a evolução do Mercado e a evolução da vida.
Olhando em retrospecto a história do Mercado podemos imaginar sua evolução fazendo uma analogia com a evolução da vida. Esta comparação pode nos ajudar a entender como o Mercado nasceu sem Marketing, mas evoluiu e hoje tem no Marketing o seu sistema nervoso e o seu cérebro, que, como sabemos, é o principal órgão do sistema nervoso.
Na evolução da vida, os primeiros seres eram simples criaturas unicelulares que viviam na chamada sopa primordial.
Os primeiros animais unicelulares apenas reagiam a estímulos. Não tinham nem sistema nervoso e nem cérebro, obviamente.
De forma análoga, no início do Mercado, os primeiros mercadores iam pessoalmente vender seus produtos na praça dos vilarejos. Eles simplesmente mostravam suas mercadorias ali, faziam as vendas e as trocas que lhes convinham e voltavam para casa.
Mas, voltando para as eras primevas, os primeiros seres foram se multiplicando e começaram a disputar alimentos. Para sobreviver tiveram que juntar forças e formar comunidades de células e, para coordenar seus organismos, aqueles seres desenvolveram um sistema nervoso e, depois, um cérebro que o coordenasse.
Assim, aquelas criaturas foram se tornando mais e mais complexas. A evolução foi adicionando camadas, surgiram novas espécies e o processo de seleção natural progrediu até chegar ao Homo sapiens.
Hoje, estamos no topo da cadeia evolutiva e nosso cérebro, que corresponde a apenas 2% do peso do nosso corpo gasta 20% de toda a energia que consumimos.
Mas, olhando em volta, é fácil perceber que nem todas as criaturas existentes na natureza evoluíram. Amebas e fungos e muitos outros animais unicelulares continuam a existir em seus nichos ecológicos.
Da mesma forma, no concerto das nações, o socialismo marxista permaneceu no atraso e ainda vive no nicho ideológico de um Mercado pré-Marketing. Ou seja, continua a ser uma ameba que inchou, ficou grande, mas não evoluiu. Por isso, o seu Mercado não tem marketing e, portanto, não tem cérebro.
Concluindo, cara amiga, cara amigo, se você deseja viver em uma civilização que lhe ofereça liberdade, progresso e abundância com qualidade de vida, aproveite bem a liberdade que você ainda tem. Seu apoio e seu voto democrático podem fazer a diferença entre viver em uma democracia com LIVRE MERCADO ou em um país totalitário que oprime tudo e todos para nivelar tudo por baixo.
Promova e defenda a democracia liberal, a única que tem MERCADO COM MARKETING. E não esqueça que a outra alternativa é viver atras de uma cortina de ferro, confinado ao mundo limitado das AMEBAS!
O Marketing Profundo é o Marketing de Precisão que visa criar produtos que “se vendam sòzinhos”.
O Marketing Profundo é aquele que busca se valer da Cabala para atender ao que recomendava o pai da Administração Moderna, Peter Drucker, quando dizia que a finalidade do Marketing é conhecer tão profundamente e entender tão bem o consumidor que o produto se venda sozinho.
Assim, por definição, o Marketing Profundo vem a ser o Marketing que vai ao Mercado com o fim de entender profundamente a alma do consumidor pensando em criar produtos que se vendam sozinhos.
Logicamente, a afirmativa “se vendam sozinhos” é força de expressão.
Ainda não nasceu o produto que se vende sozinho.
Nem a Coca-Cola e nem as sandálias havaianas.
Mas existem produtos tão competitivos que alcançam a supremacia, dominam sua classe e se impõe ao mercado.
Acontece que, para alcançar este nível de excelência, o Marketing deve, efetivamente, examinar o consumidor com olhar de Raio X.
Só quando souber tudo sobre ele: como ele pensa, quais suas necessidades e desejos, quais suas preferências, suas prioridades etc. será possível fazer um produto que o agrade a ponto de se vender sozinho.
O consumidor, todavia, é um ser complexo e que vive em simbiose com o Mercado.
A invenção da agricultura, 10.000 anos atrás, no Crescente Fértil, permitiu ao homem se livrar da fome, mas foi a invenção do Mercado que permitiu o desabrochar da civilização e levou o Homo sapiens ao Cosmo.
O consumidor, sem o Mercado, viveria a vida tosca, primitiva e limitada dos nossos ancestrais remotos.
Viveria dependente da família e do clã, moraria em cavernas e se alimentaria da caça, da pesca, da coleta de grãos e frutas e de alguns roçados esparsos.
É o Mercado que provê meios para o planeta abrigar megacidades como Tokio, Nova York, Paris e São Paulo.
É o Mercado que organiza a distribuição de bens e serviços para a população contemporânea do planeta de 8,2 bilhões de habitantes.
E no entanto, apesar de seu assombroso tamanho, é o Mercado que empodera e dá asas a cada singelo consumidor, permitindo que por meio dele, atenda suas necessidades e desejos, e mais do que isso, expresse na plenitude sua individualidade e sua vocação de consumo.
O Mercado, entretanto, tornou-se um ente poderoso, um Leviatã moderno.
E é exatamente para conhecer e entender o consumidor que vive no interior deste Leviatã duro e impiedoso que as técnicas da Cabala podem ajudar.
Comecemos olhando as empresas que existem no mercado para atender aos consumidores.
Toda empresa, desde uma pequena loja de bairro à uma gigante como a Embraer, nasce com uma visão de seu potencial e assume uma missão a realizar no mercado.
Toda empresa quer criar bons produtos e ser competitiva no mercado, mas uma empresa pode criar o melhor produto do mundo e, ainda assim, acabar fechando as portas porque o consumidor não sabe que ela existe.
Por outro lado, o consumidor pode ansiar profundamente por um produto que o encantaria e o faria feliz e não saber que ele está disponível na loja ao seu lado.
Então o produto que se venderia sozinho precisa do marketing não só em sua gênese, que o faria perfeito, mas em todas as demais tarefas do Marketing Mix, como Preço, Praça e Promoção.
Assim a missão do Marketing Profundo é ir ao Mercado para conhecer profundamente não só o consumidor e suas preferências, mas também todo o contexto que forma o Mercado e a relação simbiótica existente entre os dois.
A essa missão de reconhecimento do Mercado podemos chamar de “Strategic-Assessment”, (stratigic assessment) já que se trata mesmo de uma Avaliação Estratégica.
E é para fazer esse reconhecimento do Mercado, com a acuidade necessária, que as técnicas da Cabala vêm ajudar.
A finalidade, como vimos, é reunir elementos e informações sobre o consumidor e sua relação simbiótica com o Mercado e com toda a cadeia de eventos mercadológicos que o levam a adquirir e consumir o produto.
A exatidão do levantamento é da maior importância porque negligências, equívocos e enganos nesta fase podem custar caro e até comprometer toda a empreitada.
O cemitério do Marketing está cheio de produtos equivocados e são poucas as empresas no mundo que tem o cacife da Meta, uma empresa que gastou bilhões de dólares no desenvolvimento frustrado de seu produto de realidade virtual, o Metaverso.
Afinal, se tem coisa que todos sabemos por experiência própria é que as aparências enganam.
E nem sempre aquilo que parece, é.
O filósofo grego Anaxágoras dizia que as aparências são vislumbres do invisível.
Outro grego, Esopo, o mais famoso fabulista da história, autor de contos com ensinamentos milenares, como a “Raposa e as Uvas”, a “Cigarra e a Formiga”, o Coelho e a Tartaruga” já advertia, 600 anos antes da era cristã, que “as aparências são mistificadoras”.
Mas como fazer para penetrar com olhar de raio “x” as camadas do mercado?
Como tornar visível o que está por trás das aparências e a imensidão oculta que se esconde abaixo da superfície?
Aqui é que entra a Cabala e suas técnicas de investigar a realidade.
Método de Investigação da Realidade pela Cabala (Gráfico por Celso Skrabe)
Mas antes de falarmos nas técnicas da cabala acho importante esclarecer que, embora a cabala seja frequentemente associada ao misticismo e ao esoterismo, o que vamos ver aqui nada tem com o místico ou o sobrenatural.
Ao contrário, trata-se de uma abordagem analítica eminentemente prática e objetiva.
A Cabala tem origem milenar, mas foi sua atuação como organização secreta, voltada para a sobrevivência das comunidades judaicas nas penumbras da idade média que impulsionaram o desenvolvimento das técnicas que vamos apresentar aqui.
O Método da Cabala de analisar e entender a realidade profunda adota um de seus “Princípios Herméticos” clássicos, e que hoje é universalmente conhecido e aceito, o chamado “Princípio da Causa e Efeito”.
O enunciado deste princípio é que “Nada acontece por acaso. No Mundo existem leis de causa e efeito e elas atuam sobre toda a realidade, tanto no espectro visível como no espectro oculto”.
A abordagem da investigação da realidade pela cabala divide a realidade em duas partes, cada uma delas com duas camadas. Temos assim as seguintes quatro camadas:
Camada um: O Aparente do Aparente;
Camada dois: O Oculto do Aparente;
Camada três: O Aparente do Oculto;
Camada quatro: O Oculto do Oculto.
* A primeira camada: O Aparente do Aparente
Esta camada é formada pelas coisas visíveis e engloba tudo aquilo que percebemos com os nossos cinco sentidos.
Esta é a camada que por ter sua condição aparente, nos permite perceber tudo o que está em nosso ambiente imediato, ou seja, tudo o que podemos ver, observar, descrever, fotografar, ouvir, cheirar, degustar e sentir pelo tato.
Esta é a camada em que as coisas fazem sentido.
Nela tudo é lógico e, em princípio, pode ser compreendido sem esforço.
O mestre cabalista Nilton Bonder explica que os cabalistas chamam a esta primeira camada de camada da “literalidade”, o que significa que ela reúne o que é literal, ou seja, aquilo que pode ser descrito literalmente.
Para efeito da Avaliação de Marketing, o que esta camada nos revela é o conjunto de informações básicas sobre a dinâmica do Mercado, sua dimensão, sua composição e configuração.
Também nela podemos obter dados sobre as empresas, os consumidores, as leis e instituições reguladoras do governo, a imprensa, as mídias sociais, assim como reunir estatísticas e fazer estimativas.
* A Segunda Camada é a do Oculto do Aparente.
Nesta camada tudo ainda é aparente, porém nossa percepção pode estar sendo enganada pelo que está oculto aos nossos sentidos.
Um primeiro olhar pode ser iludido e deixar de perceber o oculto em meio ao aparente. Em muitas situações falta contraste. Em outras, falta foco. Em outras, ainda, é preciso separar o joio do trigo.
A condição oculta do aparente significa que podemos deixar de perceber o aparente pela aptidão que este possui de tornar-se imperceptível em meio ao conjunto do panorama abarcado pelos sentidos.
Como mostra o esquema do Método da Cabala, para percebermos o oculto do aparente precisamos colocar o foco de nossa atenção nos detalhes e usar técnicas de contraste para torná-lo visível.
Como diria o célebre Conselheiro Acácio, salvo exceções, o oculto se oculta precisamente para ficar oculto.
Os soldados usam camuflagem para passarem desapercebidos aos olhos inimigos.
O camaleão é famoso por sua habilidade em mudar suas cores para se esconder no meio ambiente em que vive.
O urso polar tem pelo branco para não assustar as presas no ártico; as maritacas são verdes para se refugiarem nas árvores; o baiacu, um peixe muito comum na costa brasileira, é conhecido por inchar e tomar o formato de uma bola para assustar predadores.
De modo que aproveitar o aparente do oculto para vender gato por lebre, ludibriar incautos e enganar os desavisados é truque antigo e manjado.
Que o digam os troianos enganados pelo Cavalo de Tróia, aquele cheio de soldados com que os antigos gregos marotamente os presentearam.
Mas além da camuflagem e do mimetismo o Oculto de Aparente pode se esconder de muitas outras maneiras.
A brincadeira gráfica dos jogos dos sete erros e o jogo “Onde está Wally” são formas populares de brincar com o Oculto do Aparente.
Mas, manjado ou não, o oculto do aparente pode ser muito enganador e causar grandes prejuízos ao descuidado ou imprudente.
E isto para não falar de ardil ou artimanha, que aí já pode caracterizar crime de estelionato.
Para o Marketing, em meio às mais de 500 mil marcas registradas no mundo, sendo 160 mil marcas registradas no Brasil, a parte oculta do aparente tem facilidade em travestir-se, fantasiar-se, mesclar-se na multidão e em passar desapercebida.
No Mercado, as imitações proliferam e os Fakes abundam.
Exatamente por isto a Avaliação estratégica é tão importante. Ela cria a oportunidade para colocar foco e separar o verdadeiro do falso e o autêntico da imitação.
Dá a chance de identificar inconsistências, checar informações e detectar possíveis equívocos.
É preciso enfatizar que a avaliação de Marketing vale tanto quanto a qualidade das informações que vier a reunir.
Do lado positivo, a avaliação preliminar facilita entender as tendências subjacentes do mercado – como restrições aos alimentos ultraprocessados ou a escolha dos carros elétricos – assim como permite avaliar o rol de prioridades dos consumidores e a lógica de seu comportamento.
No sentido mais amplo, permite detectar oportunidades e possibilidades estratégicas.
Por exemplo, um estudo de uma universidade americana detectou que o consumidor brasileiro, por seu espírito associativo, é aquele que melhor aceita cartões de fidelização, sendo o mais propenso do mundo a associar-se a fã clubes e a comunidades de marca.
Esta avaliação também ajuda a encontrar pérolas mercadológicas escondidas que podem criar diferenciais táticos muito interessantes.
Só para ilustrar trago dois cases de insights deste tipo obtidos em avaliações mercadológicas:
Em um estudo para a rede de joalherias Casa das Alianças ficou evidenciado que, para muitos jovens casais de classes B e C, a compra das alianças representava a formalização de seu compromisso mútuo e tomava o lugar de celebrações mais sofisticadas e dispendiosas.
Esta confirmação do que já era observado informalmente levou a Casa das Alianças a desenvolver uma estratégia especial em seu atendimento e os vendedores foram treinados para reconhecer e valorizar o significado emocional da compra das alianças pelos jovens casais.
Em outro caso, anos passados a Loja de eletrodomésticos Suxxar enfrentou um pico de vendas que resultou no atraso na instalação de coifas domésticas.
A equipe de vendas conseguiu renegociar os prazos, mas para evitar desgaste com as clientes a loja adotou a estratégia de entregar com a coifa um mimo acompanhando de um pedido de desculpas pelo atraso.
Na pesquisa para escolher o mimo ideal entrava uma cafeteira italiana, um jogo americano de mesa, um porta condimentos e outros mais.
Para completar a lista, um tanto para fazer charme, inclui a opção de um ramalhete de rosas.
Pois, para minha surpresa, o ramalhete de rosas obteve 80% das preferências.
Uma das clientes que recebeu as rosas, importante figura da sociedade paulistana da época, ligou emocionada para agradecer dizendo que não recebia rosas há mais de 50 anos.
Já no outro extremo, sob o ponto de vista dos riscos, o exemplo do desastre da cerveja Bud Light nos Estados Unidos mostra que descuidar dos valores dos consumidores pode custar caro.
Não se trata aqui de julgar o mérito, mas o fato é que a postagem com o influenciador transgênero Dylan Mulvaney realizada em abril de 2023 causou danos irreversíveis às vendas da cerveja que caiu da posição de tradicional líder do mercado americano e para um desabonador terceiro lugar, onde ainda permanece.
Também a Harley-Davidson sofreu boicote. Para salvar a icônica marca da falência emitiu recente pedido de desculpas aos seus aficionados que se diziam apunhalados pelas costas. Na nota a empresa prometeu que iria acabar de vez com suas iniciativas politicamente corretas.
Estas são apenas duas das dezenas de empresas que descobriram pela via do prejuízo o “Go Woke, Go broke”, expressão americana que significa algo como “vire politicamente correto e quebre”.
O recado do mercado para as marcas é simples e brutal: questões políticas, raciais e de gênero devem ficar fora do Marketing sob risco de rejeição e boicote.
Outro exemplo de Oculto do Aparente no Brasil foi o tenebroso caso de fraude das Lojas Americanas que apresentou inconsistências contábeis de 20 bilhões de reais em seu balanço. Moral da história: nem tudo o que reluz é ouro.
A recomendação da Cabala é que nada seja aceito pelo valor de face. O aparente pode estar sendo encoberto e as boas práticas recomendam fazer sempre dupla checagem. Os antigos aconselhavam sempre olhar onde se põe os pés.
Não é desconfiança pela desconfiança. Trata-se de confiar desconfiando, afinal, como lembra outro ditado tão antigo como verdadeiro: eu confio muito nos meus dentes, mas as vezes até eles me mordem a língua.
* A terceira camada é a do Aparente do Oculto.
Não é porque o oculto está oculto que ele não existe. Ou que não venha a interferir e influenciar tudo à sua volta.
O quadro do Método da Cabala mostra que o aparente do oculto se faz perceptível por meio de sinais, indicadores e sinais.
E aqui se pode separar o Aparente do Oculto em dois grupos:
Grupo 1) – Aqueles cujos sinais aparentes já são devidamente conhecidos e
Grupo 2) – Aqueles cujos sinais ainda não conhecidos ou para os quais não temos explicação.
Os sinais do primeiro grupo, por já serem conhecidos, capacitam o observador a identificar de imediato o significado dos sinais aparentes. A relação de causa e efeito ligada aos sinais é conhecida e podemos entender a natureza e a expressão do oculto.
Por exemplo, ao observarmos um copo de água gelada podemos deduzir que a água está gelada observando a camada de condensação que se forma do lado externo do copo.
Como conhecemos o fenômeno da condensação reconhecemos com facilidade a condição de baixa temperatura da água, todavia, um indígena dos trópicos, que nunca teria tido contato anterior com um copo de água gelada, jamais seria capaz de ligar o efeito – a condensação – com a causa – a baixa temperatura da água – apenas observando a condensação formada na superfície do lado de fora do copo.
Portanto o conhecimento prévio do que é que pode estar oculto e de quais sinais, indicadores e sintomas aparentes revelariam o que está oculto é uma pré-condição essencial para saber o que, efetivamente, se encontra oculto.
Já os sinais, indicadores e sintomas do segundo grupo, aqueles que não conseguimos reconhecer, devem ser investigados para encontrarmos sua causa.
O mestre Nilton Bonder explica que, no mundo mítico, há uma clássica distinção entre as metadimensões do aparente e do oculto.3m
O aparente é representado pela Terra. Em sua superfície podemos ver o relevo e a paisagem, bem como distinguir as formas e o movimento.
Já o oculto é representado pelos mares e oceanos.
Os oceanos também têm vida, formas e movimento, mas o que existe sob as águas, salvo exceções, não se mostra aparente ao olhar humano, ao menos enquanto limitado à sua superfície.
Voltando ao quadro ilustrativo do Método da Cabala, vemos que a percepção do aparente do oculto se dá por sinais, por indicadores, por sintomas. E estes devem ser investigados, analisados e, eventualmente, diagnosticados, para conhecermos o oculto ou termos evidência de sua existência.
Nos tempos antigos encontrar o aparente do oculto era algo raro e difícil.
Hoje, contudo, graças aos avanços do conhecimento e à tecnologia, a possibilidade de termos evidências e cognição do oculto por meio de instrumentos, medidores, sensores, testes ou mesmo através de técnicas indutivas ou dedutivas, fazem com que o conhecimento do que se econtra oculto se torne mais fácil e até cotidiano.
É natural, portanto, que a técnica de verificação do oculto por meio de indicadores e sensores também encontre sua aplicação no Marketing e na Propaganda.
Para desvendar a dimensão oculta do Mercado dispomos hoje de dados e informações abundantes, a exemplo do Big Data e mesmo da Inteligência Artificial. Também estão aí o censo demográfico e as estatísticas, as pesquisas de mercado, os levantamentos de opinião, e ferramentas como a da dinâmica de grupos, e as de rastreamento de consumo.
O oculto não deixou de estar oculto, mas o Homo-sapiens aprendeu a usar artifícios criados por sua inteligência para penetrar seus segredos e para fazê-lo aparente e conhecido.
Sob outro ângulo, as fábulas de Esopo mostram como a lógica aparente pode esconder motivos ocultos.
Na fábula da Cigarra e da formiga, a cigarra passou o verão cantando despreocupada, enquanto a formiga trabalhava juntando seus grãos. Quando chegou o inverno, a cigarra foi à casa da formiga para pedir que lhe desse o que comer. A formiga então perguntou a ela:
— E o que é que você fez durante todo o verão?
— Durante o verão, eu cantei — disse a cigarra.
E a formiga respondeu:— Pois muito bem, então agora dance!
A resposta da formiga mostra as consequências ocultas da imprevidência.
Na fábula da Lebre e da tartaruga, uma lebre e uma tartaruga discutiam sobre qual seria a mais rápida entre as duas. Para resolver a disputa marcaram uma corrida. A lebre, convencida de sua velocidade, se deitou no caminho e dormiu. A tartaruga, porém, consciente de sua lentidão, correu o quanto pode e, assim, ultrapassou a lebre e chegou antes ao fim da corrida, obtendo a vitória.
A vitória da lebre parecia algo certo, mas sua arrogância, que era um sentimento oculto, fez com que subestimasse a tartaruga. No fim, sua arrogância a fez perder para a tartaruga.
A fábula da Raposa e as Uvas conta que uma Raposa encontrou uma videira carregada de uvas maduras e apetitosas. Com água na boca, a raposa queria comer as uvas, mas elas estavam muito alto. Tentou pular e alcançá-las, mas, como não conseguiu, falou com desdém aparente:
– Estas uvas parecem estar ainda muito verdes e devem estar azedas. E como só gosto de uvas bem maduras, vou embora.
A desculpa dada pela raposa no plano do aparente certamente não era verdadeira e escondia a frustração oculta de não conseguir alcançar as uvas.
Então, em síntese, tanto na vida real como no Marketing, desvendar as causas ocultas é ganhar conhecimento e conhecimento é poder.
* A Quarta camada da Realidade é a do “Oculto do Oculto”
O Oculto do Oculto não é aparente, mas existe. Ocupa um lugar no espaço e influencia a realidade no cotidiano, no planeta e no universo. Uma forma de detectá-lo é olhar para as bordas do espaço que ele ocupa. Algo assim como se busca uma peça que falta em um quebra cabeças.
Shakespeare, um observador arguto da realidade, escreveu que “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.
E nossos irmãos castelhanos tem um ditado que veio da Galícia: “No creo en brujas pero que las hay, las hay”…
A dimensão do Oculto do Oculto é a grande dimensão do Cosmo.
Cerca de 95% de toda a matéria que forma o Universo é constituída por algo que não conhecemos e que está oculto e não conseguimos observar de forma direta.
Além disso, um terço de toda essa matéria desconhecida, denominada “matéria escura”, não interage eletromagneticamente, ou seja, não é capaz de emitir ou absorver qualquer tipo de radiação conhecida.
Ainda assim, as observações astronômicas indicam que a “matéria escura” sofre os efeitos da gravidade e interage com a matéria aparente, a matéria que conhecemos e que é formada por prótons, nêutrons, elétrons e todas as demais partículas presentes na matéria perceptível.
Mas a esta altura a questão que se coloca é a seguinte:
Tudo bem, o Oculto do Oculto é a grande dimensão do Universo, mas até que ponto esta camada oculta tem significado para nossa Avaliação Mercadológica?
A resposta é que tem significado, sim. Se desejarmos avançar para além do verniz dos conceitos místicos e esotéricos da Cabala não podemos deixar de analisar a influência do Oculto do Oculto, nem no mundo em que vivemos e nem no mercado em que atuamos.
O fato é que muitas manifestações do Oculto do Oculto são tão pervasivas que passam desapercebidas.
A começar pela lei da gravidade.
Basta perguntar ao Elon Musk qual a força que mantém seus mais de 5 mil satélites Starlink orbitando o planeta.
A Lei da Gravitação Universal foi aquela que Newton descobriu quando caiu uma maçã no seu jardim.
Parece complicado, mas não é, posto que é pela força oculta da gravidade que medimos nosso peso toda vez que subimos em uma balança. Também é vencendo a força da gravidade que os aviões voam. E os navios flutuam. E é por causa dela que as marés mexem com os mares.
Também estão no campo do Oculto do Oculto as leis da dinâmica dos corpos.
Ou as leis da Química que garantem que “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
Ou ainda as Leis da Termodinâmica, as leis de Maxwell, e aquelas da matemática, coroadas pelo célebre enunciado: a “ordem dos fatores não altera o produto.” E outras tantas mais.
Então, para concluir, embora o intuito aqui não seja dissertar sobre fenômenos e ciências, é importante reconhecer que o Marketing não atua no vácuo. Como ciência e arte que é, sua formulação estratégica e tática tem muito a ganhar sabendo que as camadas da realidade escondem maravilhas e segredos. Nelas existem riscos que podemos evitar e oportunidades que podemos aproveitar.
O Marketing Profundo é o Marketing empoderado pelo conhecimento abrangente da realidade em todas as suas camadas e dimensões, posto que tudo isso faz parte do universo que nos cerca e do mundo em que vivem os consumidores, estas preciosas criaturas humanas que o Marketing precisa entender tão bem e conhecer tão profundamente que nosso produto se venda sozinho.
Em Marketing pequenos truques podem produzir grandes resultados. E bons resultados é o que podemos conseguir com o uso desta interessante ferramenta conhecida como fórmula AÍDA
A AÍDA foi sugerida por Frank Bettger e se tornou clássica para organizar a abordagem da fase da promoção.
Como sabemos, no centro de toda a jornada do marketing está o marketing mix, o composto que reúne os 4 eixos do Marketing representados pelos quatro “P”s, que são Produto, Preço, Praça e Promoção.
Segundo a fórmula da AÍDA a fase da Promoção precisa atender a quatro objetivos que formam acrônimo
ATENÇÃO / INTERESSE / DESEJO / AÇÃO
Isto significa que, para alcançar seus objetivos a fase da Promoção deve ser capaz de 1)- atrair a atenção do cliente, 2)- despertar nele o interesse pelo produto, 3)- fazê-lo desejar o produto e, 4)- leva-lo à ação de comprar produto.
Passemos, então, a examinar cada uma destas etapas da AÍDA no processo de Promoção e Venda de um produto:
Primeira etapa:
A “ATENÇÃO”
O primeiro desafio da Promoção é chamar a atenção.
No mais famoso solilóquio da literatura, o “to be or not to be”, Shakespeare põe em foco a questão central da existência, o ser ou não ser. O fato é que, inclusive no Marketing, a questão de existir ou não existir precede todas as outras.
Então, em Marketing a tarefa inicial da Promoção é exatamente fazer o produto existir no ambiente do mercado. E, claro, diante do cliente.
Portanto, tudo começa em chamar a Atenção. Antes de qualquer venda ou de qualquer transação acontecer é preciso que o produto exista para o cliente.
E ainda mais, é preciso que seja colocado no centro da sua atenção. Um produto que não receba a atenção do cliente é um produto que, para todos os efeitos práticos, não existe.
Mas conquistar a atenção do cliente não é tarefa fácil.
Anos atrás o Cantor Roberto Carlos compôs uma música cujo título era: “Preciso Chamar sua Atenção”.
Na letra, o Cantor se mostra interessado em uma garota e diz que precisa dar um jeito de chamar sua atenção. Ela, por mais que ele faça, nem nota sua existência. Ela não o vê e não o ouve. Na letra, o cantor diz que fica pensando em milhões de coisas para chamar a atenção da garota.
Ele deu seu melhor sorriso e ela não viu. Ele gritou seu nome e nem assim ela o ouviu. Por fim, desalentado, vendo que os dias passam correndo e que a ela pode acabar perdendo, desabafa: “Só me falta ficar nu pra chamar sua atenção”.
O que a canção deixa claro é que chamar a Atenção de alguém é coisa complicada. E isso é verdade tanto no amor como no mercado.
Sua marca e seu produto também precisam chamar a atenção. E, salvo exceções, precisam disputar esta atenção em meio a uma multidão de competidores.
Chamar a Atenção, portanto, é uma condição necessária e indispensável para iniciar qualquer processo promocional efetivo.
É importante frisar, ademais, que esta etapa só se completa quando a atenção obtida para o produto é percebida e compreendida de forma ampla e adequada. Não basta ser algo fugaz e transitório. Também é importante que a percepção se dê sob luz favorável. Afinal, como diz o consagrado adágio popular: “Você nunca tem uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão”.
A Segunda fase da AÍDA é a fase do “INTERESSE”.
Nesta fase o objetivo é prender a Atenção fugaz do cliente e transformá-la em curiosidade. E alimentar esta curiosidade com informações que cativem o cliente.
Se a fase de chamar a atenção for bem-sucedida, é bem provável que o cliente ficará interessado em saber mais sobre o produto. O que significa que estará aberto para receber mais informações.
Mas atenção para um detalhe: Já Albert Einstein alertava para o fato de que informação não é conhecimento.
Assim, o desafio desta etapa vai além de meramente informar o cliente. Também deve levá-lo para a intimidade do produto. Deve propiciar a ele meios para que conheça seus atributos e virtudes.
E é exatamente para dar aos clientes a oportunidade de experimentar o produto que os fabricantes de carros promovem o test drive.
Do mesmo modo, os fabricantes de vinho colocam demonstradoras para oferecer degustação de seu produto nos supermercados.
Fazer os clientes potenciais experimentarem o produto é a mais efetiva e provada forma de levá-los ao desejo de comprar o produto.
Terceira fase: O DESEJO
Quando as fases anteriores são bem sucedidas e desenvolvem no cliente o Desejo de compra é que tem início esta fase.
Se tem alguma coisa que todos sabemos de sobejo é que não basta alguém desejar alguma coisa para sair e comprá-la.
O mais frequente na realidade do dia-a-dia do mercado é que a conversão do desejo em uma venda se mostre um processo que necessita avançar passo a passo.
O cliente necessita de um tempo para se enamorar do produto. E depois ele ainda precisa tomar duas importantes decisões antes de avançar para a compra: 1) – decidir que quer comprar o produto agora, colocando-o no topo de suas prioridades e 2) – escolher exatamente o seu produto em meio aos demais produtos concorrentes.
Sobre este tópico, uma questão que frequentemente intriga os profissionais de marketing é por qual razão, mesmo com todo o trabalho promocional bem-feito, o mercado e os clientes não respondem.
A resposta é que frequentemente o mercado não está preparado para o produto ou ele não se encaixa na hierarquia das prioridades dos clientes.
A hierarquia das prioridades do mercado e dos clientes tende a acompanhar a hierarquia de necessidades humanas da Pirâmide de Maslow.
Abraham Maslow, em estudo de 1943, descreveu a hierarquia das necessidades humanas e estabeleceu cinco categorias de necessidades: as fisiológicas, as de segurança, as de afeto, as de estima e as de autorrealização. Mais tarde, em 1960, Charles Mc Dermind, organizou a hierarquia no formato de uma pirâmide.
Na base desta pirâmide encontram-se as necessidades mais básicas do homem: a respiração, o alimento, a água, o sono, o sexo.
Logo acima, no segundo nível da base para cima, está a segurança.
A segurança reúne os fatores diretamente ligados à sobrevivência como a habitação, a segurança individual e familiar, o emprego ou renda, a propriedade, o acesso à saúde.
No terceiro nível se encontra o Relacionamento e o amor. As amizades, a família, a intimidade sexual.
No quarto nível de baixo para cima está a Consideração e a Estima. A autoestima, o respeito dos outros, a consideração e a confiança recíprocas.
Finalmente, no quinto nível, o mais alto da pirâmide, afloram as necessidades de realização e sustentabilidade pessoal. Depois de atendidas as necessidades fisiológicas e as de sobrevivência, depois de atendidas aquelas do afeto, do amor, da família e das amizades e, ainda as da autoestima e respeitabilidade, o homem se volta para os valores maiores de sua humanidade.
Quer a transcendência, as conquistas do espírito e do intelecto, as realizações criativas e artísticas, a fruição da liberdade. Busca a libertação dos sentimentos menores, das mesquinharias, dos preconceitos. Aceita os fatos como são e as limitações da vida como ela é. Aceita a si mesmo e aos outros com serenidade e desprendimento. No ápice desta fase as pessoas que alcançam a sabedoria buscam a chamada sustentabilidade pessoal, ou seja, buscam atender as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de atender as necessidades do futuro.
Assim, como vemos, à medida que o Homo-sapiens evolui também evoluem suas necessidades e desejos.
E o Marketing dos produtos e serviços que aspiram atender cada uma destas camadas deve adotar uma linguagem correspondente. Deve descobrir quem são os seus clientes, onde estão e como chegar a eles. Deve entender quais seus valores e prioridades. E, por fim, deve mantê-los no foco de seu marketing.
Portanto toda a estratégia de mercado precisa ser desenhada para falar com o cliente certo. Como é óbvio, para o público de renda alta que busca um carro de luxo ou uma viagem de férias em Paris a mensagem deve ser bem diferente daquela para o público de baixa renda, que tem preocupações com sua cesta básica.
E quanto ao segundo obstáculo, aquele que alude ao risco de trazer o cliente até à beirada da compra e vê-lo optar por um produto concorrente, esta é uma possibilidade que nunca deve ser negligenciada. E que, para ser evitada, deve ser prevenida antecipando os riscos e, se for o caso, garantindo ao cliente a melhor oferta.
E aqui vai um parêntesis: como todo negociante sabe, nada pode ser mais frustrante do que convencer um cliente potencial a comprar um produto agora e, então vê-lo comprar o produto de um concorrente.
Isto acontece porque o cliente, na hora da decisão de compra, pode ter um momento de dúvida a pesquisar suas opções. E a Internet está forrada de opções e de gente tentando roubar a venda do outro. Mas o fato é que o cliente tem todo o direito de fazer sua escolha pela opção que lhe parece a melhor.
Assim, para evitar surpresas desagradáveis é melhor prevenir. E a adoção de um índice comparando seu produto com o dos concorrentes pode ajudar a medir a posição de seu produto frente aos demais.
Para obter o índice o primeiro passo é identificar os atributos e características que o mercado valoriza. Em seguida atribuir uma nota para cada um destes atributos e dividir sua média pelo preço. E, então, repetir o exercício de cálculo com os demais produtos do mercado. A comparação dos índices vai ajudar a estabelecer a estratégia de marketing para o produto. E poderá sugerir as melhores armas para conquistar a preferência do cliente na batalha da propaganda.
Em situações excepcionalmente favoráveis, quando o produto ofertado atende aos melhores desejos ou necessidades do cliente, e o faz de modo a corresponder ou superar suas expectativas, pode ocorrer a situação de match perfeito, aquela situação ideal descrita por Peter Drucker e na qual o produto se vende sozinho. Mas esta é uma circunstância rara. Ainda mais em um mercado cheio de competidores disputando cada um de seus nichos e escaninhos.
E agora chegamos a “AÇÃO”
Esta é a fase de fechar o negócio. O cliente já passou pelas fases anteriores e está decidido a comprar. E, salvo imprevistos, vai efetivamente comprar. Mas aí é que mora o perigo.
Nesta hora é importante que o cliente tenha diante de si um caminho claro e desimpedido para chegar à efetiva aquisição, para efetuar o pagamento e para usar o produto.
Em itens de baixo valor e do dia a dia, como alimentos e produtos de supermercado, este não costuma ser um problema. Mas à medida que o valor sobe ou a compra se torna mais complexa, não é raro todo o esforço do marketing esbarrar no último passo. As vezes é um detalhe do processo de compra, uma exigência não antecipada, problemas com a entrega, dificuldades com o crédito ou o cartão. Por isto é fundamental que o Marketing antecipe os possíveis problemas e proponha uma solução.
Certa feita conduzi um estudo para um fabricante de tintas e descobrimos que a falta de uma escada na casa a ser pintada era um frequente motivo da não venda.
Resolvemos fazer um teste criando um sistema de aluguel de escadas para pintura em uma grande loja de tintas. O resultado superou todas as expectativas. Esta simples iniciativa aumentou a venda de tintas e ainda criou um novo produto para a loja.
E, finalmente, ainda existe um complemento a considerar: o Pós-Venda.
Houve um tempo em que o ciclo da venda se encerrava com o ato de compra. Hoje não é mais assim
Por exemplo, o SAC, Serviço de Atendimento ao Cliente, o serviço destinado a solucionar problemas e reclamações e dar apoio aos clientes e usuários converteu-se em uma imposição do mercado. E este serviço pode ser utilizado para garantir a satisfação do cliente e como instrumento para novas vendas. De fato, muitas vezes o simples agradecimento pela compra já abre espaço para futuras vendas e novos negócios.
Outra tarefa para o Pós-Venda é prevenir eventos do que os americanos chamam de “buyer’s remorse“ – o remorso do comprador.
Em muitos casos o arrependimento da compra significa devolução do produto, o que a lei faculta em diversas situações. Outras vezes o arrependimento da compra cria má vontade e o cliente passa a falar mal do produto. Com as mídias sociais e outros canais de comunicação ao alcance dos clientes insatisfeitos o mais prudente é monitorar estas possíveis manifestações de desagrado e, sempre que possível, agir para minimizar os estragos na imagem da marca ou do produto.
Talvez a melhor mensagem para o Pós venda seja uma recomendação de Frank Bettger: Nunca esqueça um cliente. Nunca deixe um cliente esquecer de você.
Só os clusters salvam a indústria brasileira – Embracluster – uma Embrapa para a indústria brasileira.
…
Sou Celso Skrabe, Consultor de Empresas, e neste vídeo vou abordar a crise da indústria brasileira, analisar suas causas e explicar por que só os clusters industriais podem salvar a indústria do país.
Os números mostram que a indústria brasileira está em crise.
Os números não só estão ruins como vem piorando de modo alarmante.
Quarenta anos atrás, em meados dos anos 80, quase a metade do PIB brasileiro vinha da indústria.
A partir de então a manufatura brasileira perdeu vitalidade, engatou a marcha a ré e passou a andar para trás.
A indústria de transformação, o ramo mais diversificado da indústria e que transforma matéria-prima em produtos finais ou intermediários, desabou.
Caiu de 36% do PIB em 1985 para vexaminosos 10,8% de participação na produção nacional em 2021.
E em relação à 2023 a CNI – Confederação Nacional da Indústria, informa mais uma queda de 0,5% na indústria de transformação.
Pior foi a queda da participação da indústria brasileira na produção mundial. Em 1995, nossa indústria representava 2,77% da produção industrial do mundo. Hoje o percentual é de apenas 1,28% – ou seja, caiu para praticamente a metade.
E como desgraça pouca é bobagem, a esta altura do estrago, dá para afirmar que, se continuar nesta toada, em diversos setores da indústria corremos o risco de voltarmos no tempo e jogarmos no lixo os últimos 100 anos de desenvolvimento industrial.
Neste vídeo vou explicar por que só os clusters industriais podem salvar a indústria brasileira e reverter o processo de desindustrialização. E vou sugerir a criação da EMBRACLUSTER, uma empresa publica a ser criada nos moldes da EMBRAPA com a missão de reinventar a indústria brasileira e fazê-la recuperar o protagonismo que já teve – e que é preciso que volte a ter – na economia brasileira.
A natureza da EMBRACLUSTER, no entanto, seria diferente daquela da EMBRAPA porque a principal diferença na obtenção de resultados entre o agro e a indústria é que o campo crítico da competitividade do agro está na produção, enquanto o campo crítico da competitividade da indústria se situa no mercado.
A denominação de “Clusters industriais” é atribuída a aglomerados de indústrias, fornecedores de insumos, prestadores de serviço, empresas de apoio e logística, formadores de recursos humanos e outras atividades de suporte que atuam colaborativamente para suprir e atender a uma determinada cadeia produtiva industrial da qual fazem parte.
Dada esta diferença, o principal foco de atuação da EMBRACLUSTER deverá ser a melhoria da competitividade mercadológica das empresas clusterizadas.
A métrica de seu desempenho deve ser o nível de participação e a rentabilidade dos produtos brasileiros nos mercados do Brasil e do exterior, bem como a conquista e a preservação destes mercados.
A EMBRACLUSTER operaria no formato de uma provedora de soluções em todo o espectro das necessidades e demandas dos “clusters”, atuando tanto como consultoria multidisciplinar como na qualidade de parceira no desenvolvimento de inovações, tecnologias, boas práticas e produtos.
O seu escopo de atuação incluiria mediar as demandas dos mercados e o mix de produtos a ser produzido pelos clusters e suas indústrias. Outra estratégia de sua operação seria apoiar acordos de cooperação entre os membros dos clusters, desenvolver mecanismos para facilitar o consórcio, a coordenação e a soma de esforços no âmbito do complexo dos clusters.
Assim como incluiria promover a sinergia e a cooperação via compartilhamentos e padronização, estimular a engenharia de valor, o design, a inovação tecnológica, coordenar esforços para ganhar escala, evitar sobreposições e desperdícios, promover ações para reduzir custos e melhorar a produtividade e, enfim zelar pelo bom funcionamento de toda a estrutura.
Para mostrar a conveniência da criação da EMBRACLUSTER vou dividir a questão em cinco tópicos:
1.A real situação da indústria brasileira atual;
2.O modelo da EMBRAPA e suas lições para a indústria brasileira;
3.Como transferir o modelo EMBRAPA para a indústria;
4.Como criar e empoderar a EMBRACLUSTER;
5.Os riscos de nada fazer e ficar para trás.
…
1.Vamos examinar, então, como está a real situação da indústria brasileira atual.
Como vimos, o setor manufatureiro, que tinha de 36% do PIB em 1985 caiu para 16,5% em 2008 e para vexaminosos 10,8% de participação no PIB em 2021. Foi uma queda de 25 pontos percentuais no conjunto do produto interno bruto do país em 40 anos. Ou seja, a indústria perdeu um quarto do PIB nacional no período. Se não fosse o milagre do agro estaríamos chorando as pitangas junto com a Venezuela e outros perdedores por aí.
A indústria, antes protegida e beneficiada por incentivos fiscais e juros subsidiados, estava despreparada e mal-acostumada e sofreu com o choque da abertura econômica dos anos 1990, com restrições ambientais mal concebidas, com oscilações cambiais devastadoras, com o custo Brasil na estratosfera e outros infortúnios de nossa insanidade tropical. O efeito foi que perdeu produtividade, ficou tecnologicamente defasada, não conseguiu acompanhar a velocidade das transformações do mundo e nem se adaptar ao ambiente global de alta competitividade.
A perda se deu em diversas frentes, mas um indicador chave dá a medida do que vem acontecendo: trata-se da chamada produtividade total dos fatores de produção, a PTF, que vem caindo continuadamente. Este indicador mostra o grau de desenvolvimento econômico de um país. Países ricos são ricos porque são altamente produtivos e agregam um alto valor por trabalhador. Um trabalhador norte americano é cinco vezes mais produtivo que um trabalhador brasileiro e, infelizmente, a baixa produtividade do trabalho resulta em baixos salários e em países mais pobres.
E o que faz o governo? Está inerte?
Não, aparentemente até que não está. O que acontece é que o governo está desorientado, atira para todo lado e vem adotando medidas que são ineficazes por não colocarem o foco onde a ação acontece, ou seja, no mercado. E também por desconhecerem a complexidade da indústria 4.0 em um mundo conectado, robotizado, automatizado, globalizado e, agora, “inteligentizado” pelo uso intensivo da Inteligência Artificial.
Ainda no governo Dilma foi criada a EMBRAPII – Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, uma Organização Social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).
Já no governo atual, em 22 de janeiro deste ano de 2024 o governo federal lançou o estrepitoso Programa Nova Indústria Brasil (NIB), um programa festivamente apresentado, com muita retórica e cintilantes boas intenções. Mas aí é que a coisa pega.
As medidas preconizadas pelo Programa da Nova Indústria são do tipo que prometem muito, mas entregam pouco.
O Brigadeiro Vicente Faria Lima, o grande Prefeito de São Paulo, um realizador incomparável e que, entre outras obras, iniciou o Metrô de São Paulo, dizia que o Brasil não tem falta de PLANEJAMENTO. Tem falta é de FAZEJAMENTO.
A questão é: diante deste quadro um tanto quanto sombrio, estará a indústria brasileira condenada ao caos de uma décrisis, o tipo da crise fatal que os gregos temiam?
Não necessariamente.
O que temos que fazer é transplantar para a indústria o que está dando certo no agronegócio brasileiro.
Então vamos ao segundo tópico para examinar mais de perto o modelo EMBRAPA e suas lições para a indústria brasileira.
O sucesso da EMBRAPA mostra que podemos encontrar caminhos brasileiros para sermos competitivos em escala global. Estamos fazendo isto no agro e certamente podemos fazer isto na indústria.
Neste ponto é que o agronegócio mostra o caminho e a Embrapa ensina o método.
A Embrapa hoje é a grande formuladora das estratégias da agricultura brasileira. Detentora de reputação e prestígio inquestionáveis, suas propostas pairam acima das controvérsias e das paixões políticas. Sua inequívoca competência, objetividade e seriedade garantem a ela a independência para atuar na promoção do que é o melhor para a agricultura brasileira.
Graças ao respeito que impõe e ao reconhecimento de sua competência, a Embrapa conseguiu posicionar-se como uma superestrutura sobre todo o conjunto do agro brasileiro.
Esta condição de supremacia é que lhe permite agir como o principal player e como o principal coordenador estratégico das políticas e iniciativas do mundo agro.
É esta abordagem, que leva em conta a totalidade dos fatores envolvidos no ecossistema produtivo, que permite que encare de frente tanto os problemas como as oportunidades existentes.
Além disso, a EMBRAPA se empenha na busca sistemática da SUSTENTABILIDADE de suas ações. O conceito aparece tanto em sua Declaração de Missão como em sua Declaração de Visão e revela a preocupação da empresa com a continuidade das iniciativas e a perenidade dos resultados.
Mas, enfim, como transferir o modelo EMBRAPA para a indústria?
Como vimos no tópico anterior, três dos vetores fundamentais do modelo da Embrapa são 1) sua independência, 2) sua supremacia na formulação das estratégias para o agronegócio e 3) a busca da sustentabilidade em suas iniciativas.
Estes três vetores são os condicionantes para criar uma transferência bem-sucedida do método da Embrapa para a EMBRACLUSTER.
Se o propósito é criar uma empresa que traga para a indústria o sucesso da Embrapa é indispensável ter em mente que é preciso fazer uma transferência efetiva dos fatores que fazem o sucesso da EMBRAPA.
Só contando com independência para fazer o certo do jeito certo, sem concessões, só contando com autoridade para estabelecer políticas e definir prioridades, assim como buscando sustentabilidade com visão de longo prazo é que a EMBRACLUSTER poderá alcançar resultados de envergadura equivalente àqueles da Embrapa.
Assim, não dá para fazer meia transferência.
A cautela se justifica porque já vimos este filme antes. A Embrapii e outras Iniciativas pontuais e isoladas do tipo das que propõe o Programa Nova Indústria Brasil (NIB) até podem obter alguns resultados, só que igualmente pontuais e isolados.
Ocorre que, na atual conjuntura, o que realmente a indústria precisa é de algo verdadeiramente disruptivo, de algo radical, maior e mais ambicioso.
O Brasil precisa priorizar a indústria, pensar diferente, pensar grande e agir grande. Sem reunir massa crítica não vamos chegar a lugar nenhum. É preciso focar em soluções transformadoras que sejam capazes mudar o ecossistema industrial brasileiro e de tal modo que possamos proclamar a mudança repetindo os versos de Camões nos Lusíadas: “Cesse tudo o que a antiga Musa Canta que um valor mais alto se alevanta”.
Exemplos de políticas de “cluster” bem-sucedidas no mudo são os da indústria de microchips de Taiwan, de carros elétricos na China, de pisos cerâmicos na Itália, e da indústria de software do Vale do Silício nos Estados Unidos
Em síntese, o que nossa indústria precisa é de condições e competência para inovar e avançar nos hipercompetitivos mercados mundiais levando a eles a marca do Brasil.
Mas, então, como organizar uma instituição que atenda a todos estes requisitos?
Neste quarto tópico vamos ver uma forma para criar a EMBRACLUSTER;
A instituição proposta para impulsionar a indústria haverá de ter semelhanças, mas terá requisitos diferentes daqueles que tem a EMBRAPA em sua missão no agro.
Ainda que tanto o desempenho da agricultura como da indústria dependa da produtividade, o ecossistema de cada setor é diferente em muitos aspectos e, assim o tipo de apoio necessário também.
São diferentes o ciclo de produção, a cadeia de suprimentos, a dinâmica do mercado, a geração de valor etc.
Por isto a instituição a ser criada para apoiar a indústria precisa de um escopo de atuação específico, desenhado para alcançar toda a complexidade da sua cadeia de negócios.
É preciso lembrar que uma das principais diferenças entre o agro e a indústria é que o agro produz commodities, o que faz com que seu campo crítico de competitividade se situe na produção, enquanto a indústria produz mercadorias e, portanto, seu campo crítico de competitividade reside no mercado.
Isto significa que, embora tanto o agro como a indústria precisam ser competitivos em toda sua cadeia competitiva, para se manterem sustentáveis, o jogo de cada um dos setores se ganha ou se perde no seu campo crítico.
Ainda para entender a diferença entre o agro e a indústria vale destacar que o agro brasileiro vem sabendo capitalizar as vantagens competitivas que o favorecem no mercado internacional. Além do Brasil possuir vastas extensões de áreas agricultáveis, clima favorável e água abundante, graças à Embrapa e a outras instituições correlatas, o agro conta com tecnologia de ponta e uma geração de empresários e recursos humanos bem-preparados e atuantes.
A reunião deste conjunto de condições excepcionais não aconteceu da noite para o dia e se deve, em parte, ao fato de que a EMBRAPA nasceu abaixo da linha de radar da política, o que permitiu a ela, mesmo sendo uma empresa pública, se profissionalizar e criar uma cultura interna ética saudável e resiliente sem sofrer interferências.
Já nossa indústria nasceu e sempre se manteve com grandes limitações. A antiga estratégia de substituição das importações sempre foi de horizontes limitados e hoje se encontra esgotada. O custo Brasil é um ônus intolerável. Os produtos evoluíram, os mercados mudaram e a indústria do Brasil se apequenou. Ainda assim temos algumas indústrias que brilham no mercado mundial, como a EMBRAER, a WEG, a TRAMONTINA, a GERDAU, a ALPARGATAS, a JBS e algumas outras. O que estas empresas têm em comum é que estão alinhadas com os novos paradigmas do mercado mundial, são empresas sólidas, bem administradas e com profundo conhecimento de seus mercados. Também contam, na retaguarda, com o apoio de sólidos “clusters” em suas regiões de origem, para os quais contribuem e dos quais se beneficiam.
Outros exemplos de “clusters” no Brasil são os da indústria calçadista de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul e o de Franca, em São Paulo, o cluster metalúrgico de Joinville, em Santa Catarina, o cluster da indústria cerâmica na região de Criciúma, em Santa Catarina, o cluster de produção de proteínas na macrorregião do Alto Uruguai gaúcho e Oeste catarinense e diversos outros.
No Brasil nossos “clusters” são basicamente informais ou associativos, surgiram espontaneamente e funcionam gerenciando a cadeia estratégica de forma mais ou menos cooperada ou consensual.
Isto é bom, mas insuficiente para a maioria das empresas nacionais competirem no atual hipercompetitivo mercado mundial, onde vem preponderando os mega-clusters nacionais, com países inteiros operando políticas nacionais centrados em “clusters” como é o caso da indústria de microchips de Taiwan, de carros elétricos na China, de pisos cerâmicos na Itália.
A conclusão, assim, é que o conjunto da indústria brasileira precisa contar com um suporte estratégico e mercadológico maior, mais bem organizado e institucionalizado.
E como comprova a EMBRAPA, só uma empresa pública independente, capacitada a encarar os ecossistemas produtivos em sua totalidade, e com visão de longo prazo, reuniria as condições para encarar o imenso desafio de organizar os clusters competitivos que podem salvar a indústria do Brasil.
Finalmente, e se o Brasil não fizer nada?
Uma coisa é certa: o mundo não vai parar para esperar pelo Brasil.
Basta lembrar que por muito pouco não perdemos a EMBRAER para a Boeing. Felizmente, para o Brasil, a Boeing cometeu alguns erros de consequências trágicas e precisou recuar da compra, que já estava fechada. Mas nada impede que logo logo os chineses voltem seu olho gordo para a EMBRAER e tentem levar nossa melhor empresa.
Os nossos amigos portugueses, sempre práticos e telúricos, tem um ditado irrecorrível: “quem não tem competência não se estabelece”.
O que quase aconteceu com a Embraer vem acontecendo de maneira desalentadora na indústria brasileira. Sem horizontes e sem sólidas perspectivas nossas melhores indústrias, as mais inovadoras e competitivas, vem sendo assediadas pelos conglomerados internacionais e sendo vendidas às dúzias.
Quando uma empresa é vendida nós perdemos o controle sobre sua tecnologia, sobre seu desenvolvimento e sobre seu futuro.
De modo que, para reverter a debacle da indústria é preciso mais que uma política de apoio perfunctório. É preciso o amparo estratégico de uma organização multifacetada e que se constitua em uma superestrutura proativa, atenta ao mundo e aos mercados mundiais e que não se deixe surpreender pelos fatos. Uma instituição qualificada a fazer a interface entre as empresas brasileiras e seus mercados no Brasil e no exterior. Mais do que isto, uma empresa capacitada a construir futuro, posto que, como dizia o grande Peter Drucker, é certo que não podemos prever o futuro, porém podemos construí-lo.
Para atender a este escopo é que faço a sugestão de criarmos a EMBRACLUSTER. Uma empresa abrangente como a EMBRAPA e que apoie o conjunto, a totalidade das cadeias produtivas agrupadas em clusters, ainda que sem perder de vista as empresas que os compõe. Em outras palavras, que olhe para a floresta e não para árvores isoladas.
Esta visão de conjunto é essencial para que os “clusters” sejam bem balanceados e concatenados, uma vez que, como se sabe, todo comboio viaja pela velocidade do barco mais lento.
Para concluir, um recente estudo da Universidade de Harvard revela um paradoxo: no mundo altamente globalizado que vivemos as vantagens competitivas duradouras numa economia global residem cada vez mais em coisas locais – conhecimento, relacionamentos, motivação – que os rivais distantes não conseguem igualar. E é isto, conhecimento, relacionamentos e motivação que sabemos como e onde buscar.
Felizmente ainda dá para salvar nossa indústria antes que a derrocada industrial nos faça voltar no tempo e nos condene a viver do agro e dos minérios, como nos idos tempos do Império.
Por fim, gostaria de dirijr à todos os brasileiros que querem ver no país uma indústria pujante e próspera a convocação do grande fazejador Brigadeiro Faria Lima: arregacemos as mangas que temos muito o que fazejar!
E se você gostou da proposta deste vídeo peço que o encaminhe para seus amigos e participe dos debates sobre os temas da indústria nas mídias sociais.
O Marketing Sapiens vem a ser o Marketing dotado de processos inteligentes e que agora passa a contar com os novos recursos trazidos pela Inteligência Artificial, uma tecnologia que busca simular a inteligência do Homo sapiens por meio de algoritmos capazes de aprendizado e do desempeno de atividades como o processamento da linguagem humana, a visão computacional, a Robótica inteligente e outras mais.
O título de meu Canal no YouTube Marketing Nuts and Bolts vem da expressão norte americana Nuts and Bolts, que significa Porcas e Parafusos e é usada para se referir aos segredos e aos aspectos práticos de uma atividade ou um processo.
Mas então, o que vem a ser MARKETING?
A definição oficial mais recente da American Marketing Association, aprovada em 2017, diz que
“MARKETING é a atividade e o conjunto das instituições e processos para criar, comunicar, entregar e permutar produtos que tenham valor para consumidores, clientes, parceiros e sociedade em geral.”
Philip Kotler, um dos mais conhecidos teóricos do Marketing diz que
“Marketing é a ciência e a arte de explorar, criar e entregar valor para satisfazer as necessidades de um mercado-alvo com lucro.”
The Chartered Institute of Marketing define o Marketing como:
“Identificar, antecipar e satisfazer às necessidades do cliente de forma lucrativa”.
Eu, se me permitem, acrescentaria uma definição segundo a qual:
“Marketing é a combinação de conhecimentos, ciência e arte que permite identificar e satisfazer as necessidades e desejos humanos por meio do mercado, suas empresas, entidades e organizações.”
O fato é que, independentemente de como possamos defini-lo, O Marketing, assim como a esfinge de Tebas na mitologia grega, nos lança o repto milenar: decifra-me ou te devoro!
Desvendar os segredos do Marketing, conhecer sua natureza e mergulhar em suas entranhas é um imperativo de sobrevivência para quem quer que se proponha a atuar no mercado contemporâneo em meio a um cenário altamente sofisticado, tecnologicamente complexo e impiedosamente competitivo.
Esmiuçar os recônditos do Marketing é o caminho a seguir para quem deseja compreender sua essência e dominar suas potencialidades.
O Marketing é o Sistema Nervoso da Empresa. E tal como no Sistema Nervoso do Homo Sapiens, O cérebro deve ser o centro da própria existência, o órgão que, por definição, deve pautar a vida, ter consciência do mundo ao seu redor e tudo deve saber para poder decidir e comandar com acerto e competência.
Uma empresa é um ente social com objetivos econômicos, que atua no mercado e deve viver em constante diálogo com ele, mantendo uma conversação produtiva e proveitosa que aos dois beneficie.
Seu modus operandi constitui-se em um misto de ciência e arte e combina humanidades e técnicas Mercadológicas com refinamentos de artes marciais.
O recente advento da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL empoderou o Marketing ainda mais, adicionando a esta especialidade novas competências e projetando seus horizontes para vastos espaços ainda inexplorados.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL correlacional já vem contribuindo na busca de informações, na aferição de tendências, na mensuração de vetores, em estudos comparativos, em análises de Bigdata, no mapeamento de meta-mercados, na avaliação de campanhas publicitárias, além de facilitar a análise e a interpretação de pesquisas de mercado.
Um potencial ainda maior de aplicação da Inteligência Artificial no Marketing está surgindo com a nova INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PROFUNDA, a denominada IA CAUSAL, que trabalha não apenas fazendo a correlação de dados, que é o método da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL hoje prevalente, mas o próprio algoritmo da formação dos dados, e portanto, a cadeia de eventos da relação de causa e efeito.
Esta nova modalidade de INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL promete revolucionar o campo da formulação de Estratégias, especialmente a arquitetura de Cenários futuros, permitindo prever resultados que vão transformar não só o Marketing, mas a própria Instituição do MERCADO.
Afinal, o Marketing existe porque existe o MERCADO e o MERCADO existe porque existe o Homo emptor – o homem que compra.
Neste texto do MarketingSapiens coloco ao lado do título MARKETING a expressão Sapiens, termo que vem do latim e que significa sábio, astuto, inteligente.
O uso mais conhecido da expressão sapiens, obviamente, é aquele associado à designação de nossa espécie, que no sistema lineano, é denominada Homo sapiens, que vem a ser a nomenclatura de nossa espécie humana e designa o homem moderno e quer dizer: “homem sábio, homem que sabe”.
O título MarketingSapiens reúne estes dois conceitos para definir o MARKETING INTELIGENTE, o Marketing estruturado para desempenhar o papel de cérebro da empresa e configurado para utilizar a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL visando obter uma performance superior e alcançar vantagens competitivas sustentáveis.
A civilização inventou o MERCADO porque os indivíduos de nossa espécie Homo sapiens possuem necessidades, aspirações e desejos que ultrapassam vastamente sua capacidade de proverem para si mesmos.
Aristóteles, um dos maiores filósofos gregos, 350 anos antes da era cristã, observou que o homem é um ser que necessita de coisas e dos outros, sendo, por isso, um ser carente e imperfeito, buscando a comunidade para alcançar a completude.
Aristóteles acrescentava que o homem é um ser social que, por natureza, precisa pertencer a uma coletividade. Somos, portanto, comunitários, gregários, sociais e solidários.
O que é fato incontroverso é que a sobrevivência de nossa espécie sempre dependeu da cooperação entre seus membros.
Nas savanas da África nossos ancestrais dos grupos de caçadores aprenderam a agir em conjunto e desenvolveram a linguagem humana para combinarem estratégias de caça porque caçar elefantes não era tarefa para caçadores solitários.
E foi assim que tudo começou.
Em torno de 11 mil anos atrás, após o fim da última Era do Gelo, grandes mudanças ocorreram na região do chamado Crescente Fértil, uma área em forma de lua crescente localizada no Oriente Médio e que incorporava o Egito Antigo, o Levante e a Mesopotâmia.
O Crescente Fértil é irrigado por quatro grandes rios, o Jordão, o Eufrates, o Tigre e o Nilo e abrange uma superfície de cerca de 500 000 km2, equivalente à França, na Europa, ou ao Estado de Minas Gerais, no Brasil, e hoje é dividida pelos atuais estados do Iraque, Síria, Líbano, Israel, Palestina, Jordânia e imediações.
A região do Crescente Fértil ficou conhecida como o Berço da Civilização do Homo sapiens, pois foi ali, graças as condições favoráveis para a agricultura, que surgiram os primeiros assentamentos humanos permanentes.
A atividade agrícola, diferentemente das atividades de caça, pesca ou coleta, exige dedicação integral e continuada.
Cuidar da safra é tarefa que não permite esmorecimento.
O cultivo do solo exige os cuidados do agricultor ao longo de todo o ciclo da produção, da semeadura até a colheita e, assim, estes assentamentos agrícolas iniciados no Crescente Fértil levaram o Homo sapiens a mudar seu estilo de vida, seus hábitos e sua organização social.
Na atividade agrícola o ano é dividido em etapas.
Tem o momento de preparar o solo, o momento de plantar a semente, o momento de limpar as ervas daninhas e o momento da colheita.
E esta foi a origem da evolução do Homo sapiens no rumo do Homo economicus, o homem racional que toma decisões no campo econômico com base na razão e com foco no seu bem-estar.
Ademais, a agricultura favorecia elevar a produção de alimentos e gerar excedentes, o que ensejava o crescimento da população e abria espaços para custear experimentos e inovação.
Em paralelo também sofisticava os hábitos de consumo e propiciava tempo livre para o lazer, expressão de origem latina que vem de “licere”, ou seja, algo lícito ou permitido para descanso, distração ou entretenimento. E tudo isto era novidade para o gênero humano e tornava a experiência de vida mais enriquecedora e estimulante.
O fato, entretanto, é que as pessoas dedicadas ao trabalho do campo viviam atarefadas, e só ocasionalmente tinham tempo para irem fazer suas próprias trocas.
Aí entram as qualidades únicas do Homo sapiens: sua versatilidade, sociabilidade, solidariedade e capacidade de aprender e inovar.
Graças à bem-sucedida experiência dos grupos de caçadores no trabalho em equipe, fator decisivo para a sua sobrevivência, o clã aproveita o aprendizado da colaboração e o aplica nas novas lides agrícolas.
E em meio as atividades do campo e da vida que segue, os membros das novas comunidades agrícolas se interessam por trocar coisas que tem por coisas que desejam.
Para facilitar as trocas surgem pontos de encontro onde os interessados em permutar coisas vão para se encontrar.
Mas dado que a maioria dos novos agricultores trabalhavam de sol a sol e só esporadicamente podiam ir aos pontos de troca, a solução prática foi confiar a um dos membros do clã a tarefa de ir fazer as permutas que interessavam aos demais.
Esse membro designado agora se converte em um negociador.
De tanto trocar e permutar vai acumulando experiências e melhorando suas habilidades negociais. Logo passa a avaliar com perícia quantas medidas de cevada ou de trigo vale um carneiro, quantos carneiros podem ser oferecidos por um jumento e quantos jumentos seria justo pagar por um camelo.
Acontece que o bom negociador é a quintessência do Homo economicus.
Se ele percebe que seus produtos não são valorizados naquele dado ponto de troca, ele monta em seu camelo, ou seu jumento, e vai em busca de outra PRAÇA.
Possivelmente, ao chegar lá, ele irá se dar conta que naquele novo ponto de trocas ele é desconhecido.
Para conseguir fazer negócios busca entendimentos com os outros comerciantes locais. Talvez consiga negociar um espaço ao lado da fonte onde todos vão buscar água e possa ali expor seus produtos. Faz arranjos bem vistosos e oferece amostras para permitir que os frequentadores locais experimentem suas mercadorias.
Assim, vivendo experiências, testando alternativas e observando com olhar atento o que funciona e o que não funciona na prática do dia a dia, os mercadores pioneiros foram galgando a curva do aprendizado de seu ofício e reunindo os conhecimentos da ciência e arte de conquistar clientes e fazer negócios.
São estes conhecimentos, e mais um grande segredo, que estes mercadores pioneiros nos legaram e que hoje formam os fundamentos do Composto mercadológico como conhecemos.
Vamos então ver os 4 eixos do Composto mercadológico, ou Marketing Mix, sob a ótica do Marketing Sapiens. O Grande Segredo, contudo, ficará como um teaser a ser revelado no final.
O Marketing Mix, ou Composto Mercadológico, divide a ação do MARKETING em 4 eixos de atuação distintos.
Estes eixos de atuação são conhecidos como os 4 Ps do MARKETING – PRODUTO, PREÇO, PRAÇA E PROMOÇÃO.
Esta divisão foi proposta em 1960 pelo professor Jerome McCarthy e foi amplamente adotada não só por facilitar a compreensão dos fundamentos do MARKETING como por ser de grande utilidade como ferramenta de planejamento e análise das atividades mercadológicas.
Vejamos, então, a natureza destes quatro eixos do Marketing Mix:
O PRODUTO é o primeiro e o mais importante elemento do Composto mercadológico. Sua primazia se dá pela óbvia razão de que sem PRODUTO não existe MERCADO.
E se o PRODUTO é a razão de ser do MERCADO, conseguir compradores para o PRODUTO no MERCADO é a razão de ser do MARKETING.
Sinteticamente, pode-se dizer que, para o MARKETING, a expressão PRODUTO define todos os bens e serviços comercializados no MERCADO.
O termo “PRODUTO” é formado pela combinação de duas palavras latinas: “pro”, que significa “à frente”, como é o caso em prover, promover ou progredir, e a palavra “dúcere” que significa carregar, levar, conduzir.
Assim a expressão “PRODUTO” traz em si a noção de algo que tomou forma, agregou substância, adquiriu identidade e se tornou uma coisa nova, um novo serviço ou uma nova solução, devidamente formatada, e que passa a ter valor no Mercado, que passa a ser valiosa e desejável para o Homo emptor, o homem que compra.
Desta forma, para facilitar o entendimento do conceito no âmbito do Composto mercadológico, convencionou-se que PRODUTO, na acepção do MARKETING, abarca toda e qualquer coisa que tenha valor e seja colocada no Mercado para ser vendida ou comprada.
A própria ideia do MARKETING MIX pressupõe que o PRODUTO oferecido no MERCADO irá competir pela preferência dos possíveis consumidores ou usuários.
Esta competição tende a se dar em volta dos três níveis que formam o PRODUTO:
O Primeiro nível é o “NÚCLEO”, o “Core” do PRODUTO.
No núcleo temos sua essência, sua substância, sua materialidade.
É o que define o PRODUTO em si, seu propósito, sua funcionalidade, sua “raison d’être”, ou seja, sua razão de ser. Por exemplo: uma bicicleta.
Sua função básica é permitir que as pessoas se desloquem de um lugar para outro sobre duas rodas. Por definição deverá ter duas rodas, selim, pedais, correia, freios etc.
O segundo nível é o ”PERCEPTIVO”.
Neste nível figuram os atributos, as características diferenciais e os elementos competitivos do PRODUTO. No exemplo da bicicleta seriam relevantes fatores como o design, as cores, o material de fabricação, a robustez, o acabamento, os acessórios e assim por diante.
O terceiro nível do PRODUTO é o “SUBJETIVO” e refere-se aos aspectos emocionais ligados ao PRODUTO, podendo envolver sentimentos, crenças, desejos, aspirações, valores pessoais e perspectivas individuais.
Uma evidência da importância emocional da bicicleta para seus donos é que muitos a chamam afetuosamente de magrela.
Entre os fatores deste grupo SUBJETIVO estão a reputação, a imagem da marca e o status. Também figuram nele as expectativas projetadas sobre o PRODUTO como seu desempenho, confiabilidade, funcionalidade, durabilidade etc.
É oportuno destacar que várias pesquisas mostram que os dois sentimentos mais relevantes para o sucesso de um produto são a lealdade e a confiança.
Uma commodity sem marca é só mercadoria, mas um produto com marca carrega compromissos de imagem e porta valores simbólicos e deve conhecer seu papel para manter sua boa reputação não e trair a lealdade de seus consumidores. Uma vez perdida a confiança de seus consumidores dificilmente conseguirá reavê-los.
O PREÇO é segundo eixo do Composto Mercadológico.
Uma definição simples seria que o PREÇO é o valor monetário de um PRODUTO colocado para vender no MERCADO.
Contudo, se formos olhar para o comportamento dos preços no MERCADO veremos que existem muitos fatores que influenciam sua flutuação.
Para a economia clássica de Adam Smith, o preço natural corresponde ao somatório dos custos dos insumos, mão de obra e demais fatores de produção necessários para fabricar um produto.
Já o preço praticado pelo MERCADO, conforme a Lei da Oferta e da Procura de Adam Smith, é regulado pela proporção entre a quantidade que é colocada no MERCADO (a oferta) e a demanda daqueles que estão dispostos a pagar o preço natural da mercadoria levada ao MERCADO.
Muita oferta e o preço cai. Muita procura e o preço sobe.
Para entender a questão do preço natural é preciso ter em conta que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma, mas a um custo.
Sob um enfoque Cosmológico, o PREÇO dá a medida da entropia econômica.
Grosso modo, a Segunda Lei da Termodinâmica explica que a transformação da natureza para fazer um produto ou prestar um serviço requer uma dada quantidade de trabalho e um dado gasto de energia.
Nada é grátis no Cosmo. Tudo tem custo e, portanto, tudo tem preço.
Os anglo-saxões simplificam o entendimento deste axioma dizendo que “não existe almoço grátis”.
Outro aspecto relevante para entender o fator PREÇO é o Princípio da Escassez.
Escassez em economia, significa que nunca há quantidade suficiente de um dado PRODUTO para atender a todas as pessoas que o desejariam possuir caso ele fosse gratuito.
O lado positivo do papel do MERCADO em relação ao Princípio da Escassez é que o mercado aponta o que se mostra escasso e dimensiona o tamanho desta escassez pela oscilação do preço.
O preço alto, então, funciona como um indicador e estimula os produtores a produzirem mais e a aumentarem a oferta.
Outro ponto a destacar é que o PREÇO, em MARKETING, deve ser entendido como o total do valor do desembolso necessário para a aquisição do bem ou serviço.
Frequentemente o valor monetário nominal não expressa o real custo do item, já que existem outros custos associados, tais como taxas e impostos, armazenagem, transporte e outros.
Assim, para concluir este tópico, o preço é uma referência que permite ao comprador saber o valor do desembolso necessário para adquirir a posse do produto ou receber a prestação do serviço, assim como permite ao vendedor estimar o valor que receberá pela venda do bem ou pela prestação do serviço.
A PRAÇA é o terceiro componente do MARKETING Mix.
PRAÇA, em MARKETING, vem a ser o local no ambiente do MERCADO em que se dá o encontro entre o vendedor e o comprador. É o local em que se situa o Ponto de Venda de um produto ou serviço.
O termo PRAÇA foi adotado para designar de forma genérica os pontos de venda, tanto físicos como virtuais, dado que durante milênios era na praça da aldeia que nossos ancestrais se encontravam para fazer trocas ou permutar coisas que tinham por coisas que desejavam.
Hoje o conceito de PRAÇA se alargou de tal modo que abarca o mundo todo e a PRAÇA tornou-se global.
O MERCADO ficou tão pervasivo, tão onipresente, que transformou o Planeta numa colossal Business-sfera.
Tanto que é difícil encontrar um só recanto de nosso planeta onde não se façam negócios ou não se compre ou se venda alguma coisa.
A diversidade dos Pontos de Venda é imensa, variada e fascinante.
Os Pontos físicos vão desde a mala sofrida do mascate, a cesta perfumada da vendedora de flores, o carro buliçoso de sorvetes, o sonoro vendedor de pamonhas, os acolhedores quiosques de praia, as brilhantes “vending machines”, os singelos mercadinhos do interior, aos movimentados mercados dos grandes centros, os coloridos bazares do Oriente, a Galeries Lafayette Champs-Élysées em Paris, os sortidos supermercados, os opulentos shopping centers e, enfim, uma infindável miríade de locais onde os consumidores podem se deixar encantar por produtos maravilhosos e serem tocados pela magia da compra que move a economia e faz prosperar a sociedade.
Mas como a humanidade não para e o mundo evoluiu espetacularmente nos tempos mais recentes, o Homo sapiens colocou uma nova camada de tecnologia sobre o orbe terrestre, fazendo surgir a era digital e o ciberespaço.
Assim nasceu a PRAÇA na sua dimensão digital.
Neste mundo conectado, cada celular, cada tablet, cada computador e até mesmo cada sistema automatizado de compras que opera por meio da Internet das coisas, como a geladeira que encomenda no supermercado o leite e os ovos que precisam ser repostos, virou uma extensão da PRAÇA.
Nesta PRAÇA online existem milhões de Pontos de Venda abertos e pulsando 24 horas por dia, sete dias por semana
São portais, sites e Lojas Online, Marketplaces, Plataformas de e-commerce, Aplicativos dedicados e uma infinidade de outros canais de compra.
Apesar do número estelar de pontos de venda que a Instituição do MERCADO coloca hoje ao dispor do Homo Sapiens, o que a ciência nos diz é que o homem moderno, ainda que detentor de cultura, saber e possibilidades jamais antes alcançadas, no seu âmago, continua, biologicamente falando, o mesmo Homo sapiens de 5, 10, 100 mil anos atrás.
Seus conhecimentos se ampliaram de modo inimaginável, sua qualidade de vida lhe oferece conforto e bem-estar jamais sonhados, sua expectativa de vida já promete futuras gerações centenárias, e seus horizontes se projetam para o cosmo, mas no seu âmago o homem ainda é movido pelos mesmos instintos, sonhos, alegrias e tristezas de seus ancestrais.
E o Homo Economicus, em sua versão de negociador de nosso tempo continua interessado em comprar, vender e negociar no MERCADO e, igualmente, anseia valer-se dos benefícios e das benesses que este lhe proporciona.
O quarto componente do Composto de MARKETING é a PROMOÇÃO.
O propósito da PROMOÇÃO é divulgar, dar visibilidade e tornar o PRODUTO conhecido, enaltecendo suas qualidades e atributos para fazê-lo desejado pelos clientes de seu MERCADO alvo.
A publicidade é uma das formas mais conhecidas de anunciar e promover um produto. Mas não é a única. Ao componente da PROMOÇÃO incumbe colocar o produto sob luz favorável e existe uma imensa variedade de meios e maneiras de chamar a atenção, gerar interesse, estimular o desejo e conduzir à conclusão da venda.
Existem aquelas técnicas de promover voltadas ao grande mercado, a exemplo da publicidade e da propaganda nos meios de comunicação de massa como jornais, revistas, rádio e televisão, outdoor ou a exemplo dos patrocínios.
Outra forma de promover é aquela realizada pelo pessoal da empresa em contato direto com o público ou com clientes. Nesta modalidade de promoção o contato é feito com os clientes em estandes de promoção, quiosques ou estandes de vendas em eventos, feiras e exposições.
O Merchandising é uma ação de Marketing realizada no Ponto de Venda com a finalidade de promover a venda de um produto ou serviço.
Pode se limitar a cuidar da reposição e arrumação das gôndolas em supermercados, da exibição de cartazes e displays ou pode ser a demonstração ou degustação de produtos. O Merchandising tem a missão de colocar o produto diante do cliente e dar o empurrão final no ciclo da venda, posto que, como diz a sabedoria popular, o que não é visto não é lembrado e aquilo que os olhos não veem, o coração não sente.
A Promoção pelos canais digitais também é de grande importância. Notadamente os ligados à Internet. A começar pelos sites corporativos e Lojas virtuais seguidos pelos sites de busca, como o Google e o Bing, as Redes Sociais, sites e aplicativos de conexão entre os usuários como Facebook, Youtube, Instagram, WhatsApp e outros.
Ferramentas como o Telemarketing e o chamado Inbound Marketing, ou marketing de atração, usam intensivamente os canais on-line para atrair, persuadir, converter e encantar clientes.
Existem também as atividades de apoio, que não são menos importantes, como a Pesquisa de Mercado, as relações públicas, a assessoria de imprensa, o Serviço de Atendimento ao Consumidor e outros.
No grupo das atividades complementares a Pesquisa de Mercado tem a incumbência de obter informações sobre a realidade do mercado e contribuir para o Planejamento Estratégico, para o posicionamento do produto, para a definição do Público-Alvo e para orientar o conjunto das demais atividades Mercadológicas.
A Assessoria de Imprensa faz a intermediação entre a empresa e os veículos de Imprensa e de comunicação.
A Gestão das Mídias Sociais coordena as atividades de Marketing e de relacionamento na internet e associadas às redes sociais.
As Relações Públicas organizam o relacionamento com os formadores de opinião do Mercado e fazem a ponte com os – stakeholders – ou seja, com os públicos de interesse da empresa e que englobam desde o público interno, formado por colaboradores e funcionários, passa pelos os clientes e consumidores e vai alcançar o grande universo de investidores, acionistas, parceiros, legisladores, agências reguladoras das três esferas de governo, Organizações Não Governamentais e similares.
Enfim, para resumir, a PROMOÇÃO tem como missão principal conquistar os corações e mentes do público-alvo a levá-lo a preferir o PRODUTO que promove. Contudo a PROMOÇÃO não pode descuidar de outra frente vital para o sucesso continuado do produto no Mercado: o Pós Venda.
No Pós Venda duas atividades devem merecer atenção e cuidados:
Primeiro: O Serviço de Atendimento ao Consumidor e o Suporte ao Usuário. Hoje este serviço conta com forte presença dos Chatbots que facilitam dar apoio a clientes e usuários e podem atuar como canais de complementares pesquisa de satisfação dos consumidores. Outra tarefa que podem desempenhar é a de servirem como canais complementares de informações aos clientes potenciais.
Segundo: o atendimento à Garantia e a Assistência Técnica.
A Importância do Pós Venda não pode ser minimizada. O Cliente compra um produto para atender uma necessidade ou um desejo.
E para que ele fique satisfeito com o produto, este deve cumprir o que promete, funcionar bem e sem defeitos. Hoje, com as mídias sociais, eventuais problemas com o produto correm o mundo e significam baixa avaliação e problemas com o Mercado.
Uma última observação sobre este tópico relativo à PROMOÇÃO: do ponto de vista ético a PROMOÇÃO de bons produtos é um propósito eticamente legítimo, do mesmo modo como é ético alertar o consumidor sobre os eventuais riscos oferecidos pelo seu uso ou consumo.
O escritor Bernard Shaw dizia que quem confia em seu produto não deve envergonhar-se de tocar bumbo na porta da loja.
Assim PRODUTO, PREÇO, PRAÇA e PROMOÇÃO formam os quatro eixos em que se assenta o Marketing e em que se apoia o relacionamento da empresa com os consumidores que compram, usam e consomem seus produtos e serviços colocados na grande business-esfera do Mercado.
E agora, para concluir, vou revelar qual o GRANDE SEGREDO que nos foi legado pelos maiores mercadores de todos os tempos e capaz de alavancar o sucesso do marketing tanto das pequenas empresas como dos maiores conglomerados, e que pode garantir o seu sucesso e o de sua empresa.
Esse grande segredo guardado a sete chaves foi, certa feita, revelado aos filhos por um mercador que por muito tempo viajara com suas caravanas pelo deserto:
Filhos, a coisa mais importante para o sucesso de um mercador é simples como o ar, que está sempre à nossa volta e pode impulsionar os navios que cruzam os mares, mas também pode causar grandes tormentas que provocam destruição e morte: filhos saibam que a força mais poderosa que um mercador pode usar é a PALAVRA!
Usem bem a palavra e vosso sucesso será certo.
É pela palavra que vendemos, é pela palavra que argumentamos, é pela palavra que agradecemos ao criador e é pela palavra de nossos fregueses que o boca a boca vai na nossa frente para fazer nossa reputação e falar bem de nossa honestidade e promover nossa mercadoria. A palavra pode ser a benção ou a maldição do mercador. E o boca-a-boca do mercado é o nosso aroma que o vento leva e que chega antes de nós. Mas cuidado, as palavras más voam como os falcões, enquanto as palavras benignas são como sementes de tâmaras plantadas ao longo do caminho. As tamareiras demoram para produzir frutos, mas nenhuma fruta é mais doce ou mais apreciada.
Assim, caras amigas e caros amigos, sabemos que o maior segredo do marketing é mesmo o nosso velho conhecido boca-a-boca, agora ampliado pela internet, pelo celular, pelos aplicativos de mensagens e pelas mídias sociais
Sucesso e que os bons ventos do mercado enfunem suas velas!
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O MARKETING Inteligente agora com os recursos da Inteligência Artificial.
“Cesse tudo o que a antiga musa canta que um valor mais alto se alvanta” – Camões.
O Agro está mudando o Brasil. A Onda do Agro 4.0 vem como um tsunami avassalador que vai romper os muros do atraso, mudar história do campo e colocar o Agro no centro do futuro do Brasil.
O Agro brasileiro tem DNA de primeiro mundo.
O Agro 4.0 é o agro das inovações, da automação, da tecnologia, da Internet das coisas, da Inteligência Artificial, mas é também o agro de brasileiras e brasileiros bem-preparados, de empreendedores com visão de futuro e que tem aspirações de progresso e prosperidade que não cabem mais nos moldes mesquinhos dos arranjos políticos que manietam o agronegócio.
O Brasil é um país complicado!
É verdade! O Brasil é um país complicado. Tem tudo para ser o paraíso da abundância. Tem riquezas naturais incomparáveis, território imenso e generoso, uma natureza invejada pelo mundo. Tem tudo para ser rico, próspero e sem miséria, mas teima em brigar com os fatos, ignorar o bom senso e mandar a lógica às favas.
Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos! (Nelson Rodrigues)
Nelson Rodrigues, frustrado pelo atraso endêmico que assola o Brasil desde o descobrimento, afirmou que “Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”. O que Nelson Rodrigues queria dizer é que o povo brasileiro vinha sendo espoliado e esbulhado pelos coronéis, pelos governantes e pelos açambarcadores do poder desde que as caravelas de Cabral aportaram por aqui. Mas a sabedoria popular diz que não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe. E nossa gente sempre manteve a esperança. E sempre acreditou que um dia um novo futuro iria raiar no horizonte do Brasil. E esse futuro está agora batendo em nossa porta. O fato novo que agora surge no horizonte é Agronegócio que se agiganta, se torna uma força irresistível e forma um novo país dentro das fronteiras do Brasil.
O Agro brasileiro é disruptivo!
E esse novo país do Agro tem natureza disruptiva e vem com ímpeto para romper com as velhas crenças e com os velhos paradigmas do nosso triste passado patrimonialista e corrupto. E a transformação a ser produzida pelo Agro 4.0 é uma certeza porque as mudanças seguem a inexorável Lei de Camões, “Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta” Mas a mudança não se limitava aos versos do poeta. As novas descobertas daquele tempo alargaram os horizontes da civilização. Mostraram o caminho para as Índias; encontraram as Américas, descobriram o Brasil, fizeram surgir novos países. E, por fim, mudaram o eixo de poder no mundo. Pois bem, é exatamente este efeito da “Lei de Camões” que o Agro vai produzir no Brasil. A Onda Agro 4.0, na verdade, já começou. No plano econômico, o Agro é que vem pagando as contas e trazendo os dólares para custear a bagunça que reina em Brasília.
Os números não mentem jamais (Malba Tahan)
Os números do Agro são eloquentes. E como os números não mentem jamais, como dizia o matemático Malba Tahan, estes número provam que não é o carnaval, é o Agro que está salvando o Brasil. … Os ventos continuam soprando ao favor do Agro Brasileiro. Hoje ninguém mais põem em dúvida de que o Agro é a vocação natural do Brasil. Mas ainda nos falta uma verdadeira Mentalidade Agro. Ainda carecemos daquilo que os americanos chamam de “mindset”, uma disposição para escolher um rumo, para agir e superar obstáculos na conquista de um objetivo e a determinação de fazer acontecer, / de buscar avanços e resultados de forma consistente e sistemática. Possuímos a terra, a água, o clima, os empreendedores, os recursos humanos e a tecnologia. Ainda precisamos melhorar a infraestrutura e a logística, mas depois de cinco séculos de altos e baixos, de dúvidas e desconfianças, está claro para nós e para o mundo que, finalmente, encontramos o caminho.
Os indicadores do Agro brasileiro são convincentes.
Os indicadores impressionam. Segundo o IPEA, a Produtividade total dos fatores – ou seja o aproveitamento dos insumos que se convertem em produto – cresceu 400% na agricultura brasileira. Hoje nossa produção é suficiente para alimentar 1/6 da humanidade e, no mais bem vindo dos índices para o povo brasileiro, desde os anos 70, o preço da cesta básica no Brasil caiu para a metade. Outra coisa: A produtividade cresceu quatro vezes mais que a área plantada. A expansão do agronegócio é o fato mais importante da história econômica recente do Brasil mas a continuidade do sucesso do Agro pressupõe uma estrutura decisória descentralizada. As decisões precisam ser tomadas perto da ação, nos clusters e polos produtivos espalhados pelas vastas extensões do país. As necessidades do Sul são diferentes daquelas das do Centro Oeste ou do Norte ou Nordeste.
O modelo descentralizado é vacina contra a ditadura, porque só funciona em ambiente de liberdade e democracia.
Acontece que este modelo descentralizado só consegue funcionar em um ambiente de liberdade e democracia. O mundo em que o Estado centralizava tudo e se via como patrão e padrinho morreu. Hoje é tão anacrônico como os antigos lampiões de gás que precisavam de um acendedor público para alumiarem as ruas e becos.
O Brasil está pronto para a metamorfose 4.0
Em síntese, o Brasil está pronto a se transformar em uma nação capaz de voar alto, ir longe e brilhar entre as nações para proporcionar aos brasileiros tanto a prosperidade que merecem como o autêntico protagonismo no mundo contemporâneo a que legitimamente aspiram. …
GOIO-EN, O CAMINHO E TEMPO. (Link com a Editora Viseu)
O Brasil apunhalado com uma Pena de Ouro.
O presidente Lula, ao que parece, está um tanto deslumbrado com os rapapés que recebe em seus entendimentos com a Argentina, mas deve tomar muito cuidado para não se tornar um novo Quintino Bocaiuva.
Os presidentes Lula, do Brasil, e Alberto Fernandez, da Argentina, anunciaram estudos para uma nova moeda sul-americana compartilhada. Segundo disseram à imprensa, “esta moeda binacional teria a finalidade de reduzir a vulnerabilidade externa dos dois países em transações comerciais e financeiras.”
Quem conhece a história das tormentosas relações entre o Brasil e a Argentina ficou com a pulga atrás da orelha.
Começa que o Brasil não tem vulnerabilidade externa com que se preocupar.
Assim fica claro que este arranjo tem o único propósito de levar o Brasil a assumir o risco do crédito com a Argentina, já que é este o país que convive com uma escassez crônica de dólares.
O indigitado Quintino Bocaiuva era senador e virou Ministro do Exterior da recém proclamada república brasileira em 1889. República essa cuja primeira providência, após abater a monarquia brasileira, foi embarcar o embasbacado ministro no encouraçado Riachuelo, o maior navio da marinha brasileira de então, para levá-lo com toda a pompa e circunstância até o Prata para apunhalar o Brasil pelas costas!.
E o fez em grande estilo. Vaidoso, sedento de glórias, como o descreveu o Barão de Ladário, foi recebido com mesuras, adulado, bajulado, paparicado com festas e banquetes e, por fim, não de se pejou de assinar, faceiro e pampeiro, o tratado que dava de mão beijada aos Argentinos um pedaço dos atuais estados do Paraná e de Santa Catarina.
E não só apôs sua rebuscada assinatura de Calabar no tratado, como o fez com uma esplendorosa pena de ouro. Peça única, ornada de pedras preciosas e trabalhada pela mais refinada ourivesaria, num gesto fútil de reverência que o Plenipotenciário Quintino Bocaiuva concedeu ao presidente da República Argentina Miguel Juarez Celman.
O Jornal o Estado de S. Paulo de 26 de janeiro de 1890 revelava na primeira página aquela perversidade:
Trocaram-se ante-ontem as últimas notas entre os srs. Bocayuva e Zeballos sobre a questão de Missões.
Zeballos oferecerá em nome do governo argentino a Bocayuva, para assinar o tratado, uma artística pena de ouro, assinando aquele tratado com a pena que o presenteou Juarez Celman.
Certa vez o Papa Argentino observou que Deus é brasileiro. Ele haverá de saber melhor do que ninguém, pois foi só graças aos céus que esta despudorada manobra não prosperou e acabou anulada pelo congresso brasileiro.
É certo que a rivalidade do Brasil com a Argentina foi herdada da rivalidade entre Portugal e Espanha e, portanto, vem desde os tempos coloniais, mas no episódio da Questão de Palmas ou, Questão das Missões, como queriam os argentinos, os eventuais entendimentos coloniais serviram só como pretexto para maquinações e pleitos muito além dos acordos estabelecidos entre as matrizes Europeias.
A verdade é que Argentina sempre viu o Brasil com olhos gulosos.
O Brasil é um oponente grande e simplório. Um colosso amórfo, dominado por um desmesurado complexo de inferioridade, o famoso “complexo de vIra-latas”, de que falava Nelson Rodrigues.
O efeito desse complexo é que tem governantes brasileiros, ávidos do glamour fugaz e de uma pitada de aplauso, bem no espírito da canção Folhetim do Sérgio Buarque de Holanda, que estão sempre prontos à fazer concessões e entregar o ouro por uma coisa atoa.
A Argentina, por seu lado, trata de defender seus interesses, o que seria mesmo de esperar.
A questão, porém, é que o país vizinho frequentemente se conduz de forma sobranceira e egoísta, sendo useira e vezeira em menoscabar nosso país.
Esta relação tóxica é parte de nossa tragédia latino-americana. Tragédia, aliás, que alcança todo o continente. Vale lembrar que o ex-presidente Mexicano Porfírio Diaz, reclamando dos americanos, exclamou:
“Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.
De nossa parte aqui, seria o caso de exclamarmos “Pobre Brasil, tão longe dos Estados Unidos e tão perto da Argentina”.
Mas voltando à tentativa Argentina de se apossar de parte dos territórios do Paraná e Santa Catarina, que originaram a momentosa Questão das Missões, pode-se afirmar que este foi um embate emblemático.
O território dos Campos de Palmas estava pacificamente nas mãos do Brasil.
Os bandeirantes paulistas tinham circulado por ali desde o século XVI. Em 1839, com a substantiva participação do Cacique Victorino Condá ajudando a pacificar os Kaingang, estabeleceram-se no Campo de Palmas 37 fazendas, as quais, em 1850, já tinham cerca de 36.000 cabeças de gado.
Vale lembrar que os Kaingang, também chamados de coroados e bugres, que habitavam a área, sempre se afirmaram brasileiros. Eles haviam se relacionado bem com os portugueses até porque eram inimigos dos Guarani, índios aliados dos espanhóis.
Em 16 de março de 1837 a Assembleia Legislativa de S. Paulo criou um destacamento de Policiais Permanentes para o fim específico da ocupação daqueles campos.
Em 1845, Manuel da Fonseca de Lima e Silva, o Presidente da Província de São Paulo, com visão e descortino de estadista, tomou a iniciativa da construção do Caminho de Goio-En, o caminho de tropas entre os Campos de Guarapuava e as Missões de São Pedro do Rio Grande do Sul, como informa em seu Relatório para a Assembleia Legislativa de São Paulo no dia 7 de janeiro de 1845:
“Compartindo o interesse que vos inspirou a ideia de abertura de uma nova comunicação entre esta Província e a de S. Pedro do Sul pelo território situado a sudoeste do Campo de Palmas, encarreguei esta comissão ao Cidadão Francisco Ferreira da Rocha Loures, homem empreendedor e ativo e que, pela circunstância de residir naquelas imediações me parece para isto precisamente habilitado.”
Manuel da Fonseca de Lima e Silva, que seria o futuro Barão de Suruí, se encarregou ainda de arregimentar o apoio do Presidente da Província vizinha de São Pedro do Rio Grande do Sul, Luiz Alves de Lima e Silva, o então Conde de Caxias, que vinha a ser seu cunhado e sobrinho.
A esse respeito o Conde de Caxias, informa em seu relatório a Assembleia Provincial gaúcha de 1846 que:
Por este meio tempo veio ter a esta Província o Tenente Francisco Ferreira da Rocha Loures, encarregado pelo Governo Provincial de S. Paulo de explorar o terreno e abrir uma nova estrada por conta daquela província…
Mas voltando ao relatório de 1845 do Presidente de São Paulo, este informa que vai fazer mais uma estrada naquela região, agora ligando os Campos de Palmas com a Argentina.
Na justificativa ele esclarece:
“Aberta essa estrada, ela pode sobretudo melhorar a posição do Brasil acerca da solução das antigas questões de limites naquela parte do Império.”
Observem que ele, ao falar das questões de limites naquela parte do império se antecipa em décadas as futuras reinvindicações dos argentinos sobre os Campos de Palmas.
Tanto é fato que cinquenta anos depois, o Barão do Rio Branco, ao defender os direitos do Brasil aos Campos de Palmas, reconhece a importância da iniciativa do Presidente da Província paulista:
Em 1845, por ordem do presidente de São Paulo, general Manuel da Fonseca Lima, depois barão de Suruí, se deu começo à abertura da comunicação com o Rio Grande do Sul, pelo passo do Goio-En e por Nonoai.
O general Caxias, então presidente do Rio Grande do Sul (outra província brasileira), animou e auxiliou esses trabalhos.
Foi na segunda metade do século XIX que cresceram os olhos dos argentinos. Especialmente ao se darem conta que a ausência de uma fronteira bem demarcada na região lhes dava oportunidade para turvar as águas e criar confusão.
Conjeturaram que uma artimanha bem bem-sucedida lhes daria um naco de 30.621 km2 de uma das regiões mais férteis e promissoras de todo o continente.
Ou seja, valia o esforço!
Os limites territoriais das possessões de Portugal e Espanha na América Meridional haviam sido definidos pelos tratados de Madri de 13 de janeiro de 1750 e pelo de Santo Ildefonso, de 1º de outubro de 1777
Nos tratados consta que a divisa entre o Brasil e Argentina / no trecho entre os rios Uruguai e o Iguaçu seria feita pelos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio.
Na condição de herdeiros destes tratados, tanto o Brasil como a Argentina tinham que aceitar estes rios como limite entre os dois países.
Acontece que os mapas daquela época eram pouco precisos e a Argentina se aproveitou deste pretexto para, com base em mapas de encomenda e argumentos especiosos, questionar a localização dos rios que fariam a divisa e passou a alegar que o rio brasileiro de nome Chapecó é que seria o verdadeiro rio Peperi-Guaçú e o de nome Chopim é que seria o verdadeiro rio Santo Antônio daquele tratado de fronteiras.
Em 1882 a Argentina tentou dar uma de joão sem braço. Fez uma lei dividindo o Território das Missões argentino em cinco departamentos administrativos e incluiu na divisão o território brasileiro dos Campos de Palmas. Na lei são designados como limites os rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio, porém acontece que a Argentina atribuiu estes nomes aos rios Chapecó e Chopim, que ficam no meio dos Campos de Palmas.
Ora, a falsificação era flagrante e o governo imperial se recusou a aceitar os mapas falseados que a Argentina apresentava.
A Argentina, por seu turno, usava sua representação diplomática na capital do império para obter apoio e tentar convencer o governo imperial a abrir mão daquele território.
Apesar de seus esforços, contudo, estava cada vez mais evidente que sua narrativa não convencia e seus argumentos não seriam aceitos pelo império do Brasil.
Uma evidência é a notícia dada pelo Jornal O Estado de São Paulo publicando em 6 de setembro de 1882 um despacho de seu correspondente em Buenos Aires:
Diz La Pátria Argentina, que o dr. Avellaneda comunicou ao seu governo que o gabinete imperial não estava disposto a submeter a arbitramento a questão das Missões por considerar que não admitem dúvidas os direitos que têm o Brasil sobre aquele território.
Mas a Argentina não dava trégusas. Em 7 de setembro de 1889, o governo imperial, buscando apaziguar os ânimos e confiante em seus direitos, aceitou um acordo baseado em dois pontos:
1. Seria feita uma nova expedição para verificar se os rios Chapecó e Chopim corresponderiam, de fato, aos rios da divisa descritos nos tratados originários, e
2. Caso o Brasil não aceitasse estes rios como divisa a questão seria levada para a arbitragem do presidente norte-americano.
O prazo para a expedição trazer provas seria de 90 dias, contados a partir da ratificação do tratado, o que ocorreu em 5 de novembro de 1889.
Para o Brasil a questão parecia resolvida. Seus geógrafos, astrônomos, demarcadores e especialistas sabiam que a missão de reconhecimento seria feita nos rios errados a Questão das Missões iria para a arbitragem.
Já os argentinos tinham pressa. O tempo estava correndo contra eles, e eles também sabiam que a missão de reconhecimento era um embuste, assim como sabiam que, salvo a improvável hipótese de convencer o presidente Cleveland a decidir em favor de um embuste, estavam perdidos.
Desse modo, a última esperança que lhes restava residia na mudança do regime de governo no Brasil.
E eis que então acontece o mais chocante.
É difícil avaliar influência dos agentes argentinos na derrubada da monarquia brasileira,
O que é sabido, no entanto, é que o golpe republicano que derrubou a monarquia se deu em 15 de novembro de 1889.
E havia mais coisas sórdidas entre o céu e a terra:
A começar pela suspeitíssima certeza dos Argentinos de que, no final, ganhariam uma “província à nossa custa”, como havia dito Bocaiuva quando que ainda era tido como o “príncipe dos jornalistas”, com como relata o Barão de Ladário nos artigos publicados no jornal A Tribuna e encaminhados aos senadores no final de 1890.
Por exemplo, no grupo da comissão demarcadora que explorava os rios Chapecó e Chopim, um oficial argentino disse em um jantar “que seus patrícios muito desejavam que o Brasil se constituísse em república, porque então seria fácil anexar o Rio Grande do Sul à Confederação Argentina.”
Vejam, os argentinos não somente queriam tomar 30.621 km2 dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina, como pensavam criar uma cunha separando o Rio Grande do Sul do restante do país e, assim, facilitar a anexação do Rio Grande do Sul ao seu país.
Um outro oficial superior argentino afirmou, referindo-se aos Campos de Palmas:
“Isto será nosso, ou por bem ou pelas armas”.
Ademais, é preciso reconhecer que, naquela conjuntura, os argentinos avaliavam melhor do que os cosmopolitas republicanos do Rio de Janeiro a importância do território em jogo e qual o potencial futuro dos Campos de Palmas.
De toda forma, o governo republicano fez o que a Argentina esperava. Em sua primeiríssima iniciativa internacional, atropela o tratado de arbitramento assinado pelo império, aceita sem pejo as demandas argentinas e manda o Ministro Quintino Bocaiuva dividir com os argentinos o território dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina.
E foi o que ele fez!
Vejam a linha de tempo da ignomínia republicana:
Em 7 de setembro de 1889 o governo imperial assina o Tratado de Arbitramento que leva a Questão das Missões para decisão do Presidente dos Estados Unidos;
Em 05 de novembro de 1889, 58 dias depois, o congresso brasileiro ratifica o tratado de arbitramento;
Mais 10 dias e chegamos ao fatídico 15 de novembro de 1889. Nesta data os ativistas e militares dão o golpe, derrubam a monarquia e proclamam a república. O Marechal Deodoro da Fonseca assume a presidência e Quintino Bocaiuva se torna Ministro do Exterior.
Vem dezembro, Festas, Natal e Ano novo. Já em 14 de janeiro de 1890 o Encouraçado Riachuelo leva Bocaiuva ao encontro de seus parceiros argentinos para assinar o tratado de cessão do território.
Outros 10 dias e em 25 de janeiro, o plenipotenciário é recebido com banquete em Montevidéu, onde assina com a tal aparatosa pena de ouro o infame tratado em que o Brasil cede para a Argentina metade dos territórios dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina.
Em seguida viaja ao encontro do presidente argentino.
O jornal O Estado de S. Paulo, na edição de 6 de fevereiro de 1890 publica um despacho vindo de Buenos Aires informando que Quintino Bocaíuva tinha sido homenageado com um banquete pelo presidente Juarez Célman, na noite de 3 de fevereiro.
Segundo o despacho, “houve durante o banquete a máxima alegria e expansão fraternal, levantando-se muitos brindes ao Brasil e a República Argentina, firmando-se assim um acordo tácito para a manutenção da paz e a prosperidade das duas poderosas nações sul-americanas.”
Não surpreende que tenha havia máxima alegria e muitos brindes fraternais. A argentina estava conseguindo barato uma nova província formada com metade do território dos estados do Paraná e de Santa Catarina arrancados do Brasil por intermédio do homenageado, Quintino Bocaiuva, que é de se supor, não estava lá de graça.
O inacreditável é que esse recém-empossado Ministro de Relações Exteriores nada mais útil tivesse a fazer além de ir sabujar os vizinhos do Prata por mais de um mês, circulando entre Montevidéu, Buenos Aires, Córdova Tucumán e outras paragens do Prata em que foi homenageado por banquetes, eventos, convescotes e festas variadas. É ridículo registrar que o plenipotenciário viajou em 14 de janeiro, assinou o tratado no dia 25, em Montevidéu, viajou 700 quilômetros para ir visitar o presidente Argentino em sua residência em Córdova, voltou a Montevidéu em 16 de fevereiro para ali passar o carnaval e só então, feliz e pampeiro, regressar ao Rio de Janeiro em 25 de fevereiro, onde, para, estupefação geral, resolve deixar o posto de Ministério do Exterior, conforme noticiou o Jornal Estado de S. Paulo do dia 26 de fevereiro.
O país estava atordoado. A notícia da desfaçatez fazia ferver o sangue dos brasileiros.
O Barão de Ladário, em seus artigos no Jornal a Tribuna condenando o tratado, conta que o dito plenipotenciário teria asseverado:
“que não se podia atender, ao liquidar-se o litígio, à questão pura e simples dos direitos a certas linhas de fronteiras, mas e preferentemente à que se prendia aos interesses momentosos da nova situação do país.”
Trocando em miúdos: Quintino Bocaiuva, com espantosa cara de pau, revela que a república ia dar metade dos estados do Paraná e Santa Catarina aos Argentinos porque era do interesse momentoso do novo governo republicano.
O Barão do Rio Branco, o defensor da causa brasileira em Washington informa que:
“Na República Argentina esta solução foi festejada com grande entusiasmo. No Brasil, porém, ela produziu o mais profundo sentimento de dor e levantou unânimes e veementes protestos.”
Mas é claro que haveria alegria e festejos na argentina com um presente deste tamanho, mas graças a mobilização do povo e aos protestos da imprensa, o Congresso Brasileiro rejeitou o tratado Bocaiuva por 142 votos contra 5 em sessão de 10 de agosto de 1891.
O passo seguinte foi o envio da Questão das Missões para o arbitramento do presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland.
Lá, em Washington, mercê do Deus que é brasileiro, como reconhece o citado Papa argentino, a defesa da causa brasileira coube ao nosso mais insigne diplomata, o Barão do Rio Branco.
E enquanto o Rio Branco buscava fundamentar as razões brasileiras reunindo documentos e provas, os Argentinos, sob a liderança de Estanislao Zeballos, faziam intensa campanha de relações públicas tentando ganhar a questão na base do tapetão.
As vésperas da decisão do presidente Cleveland, a Argentina ofereceu um banquete de gala para a alta sociedade norte-americana e, num gesto de insólita soberba, mimoseou cada uma das damas presentes com uma joia de ouro e diamantes posicionada em frente ao seu lugar na mesa do banquete.
Mesmo assim não adiantou.
Em 6 de fevereiro de 1895 o presidente dos Estados Unidos Grover Cleveland emitiu sua sentença, dando ao Brasil a posse definitiva dos atuais territórios do Paraná e Santa Catarina. Foi a primeira grande vitória de nosso maior diplomata, o Barão do Rio Branco.
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Um pequeno documentário mostrando a documentação reunida por Rio Branco é mostrado no vídeo Oeste Fértil, o Legado do Barão do Rio Branco, no canal Goio-En do Youtube.
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E se você quiser conhecer mais histórias sobre a conquista do Oeste Fértil brasileiro e sobre o desenvolvimento do Alto Uruguai Gaúcho e dos oestes de Santa Catarina Paraná, conheça o meu livro Goio-En o Caminho e o Tempo da editora Viseu. É uma boa pedida.
Um livro sobre o tempo em que o arrojo e a coragem escreveram a história do Oeste Fértil, do Alto Uruguai gaúcho e dos Oestes de Santa Catarina e Paraná.
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O agronegócio é a bola de neve da nova onda de prosperidade brasileira.
Uma prosperidade que já está beneficiando o Brasil e que logo vai chegar a todos nós.
O agronegócio representou mais de 25 % do Produto Interno Bruto em 2022 e, nas exportações, logo vai representar metade de tudo o que o Brasil vende para o mundo. O Brasil é o campeão das exportações de soja, milho, café, açúcar, carne bovina e carne de frango.
Mas nada desta cornucópia de proveitos caiu do céu. Foi preciso que muita gente, muitos pioneiros e muitos visionários acreditassem no potencial das terras brasileiras, lutassem pelo Brasil e plantassem aqui as sementes que hoje começam a florescer.
Nossa história começa no ano de 1845. Este foi o ano da sorte grande para a futura prosperidade do agronegócio brasileiro.
Foi naquele ano que terminou a Guerra dos Farrapos. Sob a liderança do Conde de Caxias, o país celebrou um final auspicioso que garantiu que o Rio Grande do Sul e todo o Oeste do Brasil Meridional, a região das Missões, o Planalto Médio e o Alto Uruguai gaúcho continuassem fazendo parte do território brasileiro.
Foi também naquele ano que o governo da Província de São Paulo mandou abrir o Caminho do Goio-En, o Caminho de tropas que devia ligar os Campos de Guarapuava – no atual Paraná, com a vila de Passo Fundo – na Província de São Pedro do Rio Grande, atravessando a área de litígio com os Argentinos nos Campos de Palmas e a região que os mapas daquele tempo definiam como “Bosques inexplorados do Alto Uruguai”
E foi ainda naquele ano que nasceu José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco, o gigante da diplomacia brasileira que conseguiu obter do Presidente dos EUA – Grover Cleveland – a decisão que deu ao Brasil a posse definitiva do Oeste de Santa Catarina e do Paraná, uma área ambicionada pela Argentina e cuja disputa territorial se deu na Questão de Palmas ou Questão das Missões, como preferem alguns.
Mas o que teriam em comum tão díspares acontecimentos do longínquo ano de 1845?
No que se refere ao caminho de Tropas do Goio-En, a ligação dos Campos de Guarapuava a Passo Fundo, este caminho foi fundamental para criar as condições para que, quarenta anos mais tarde, o Brasil pudesse se valer do argumento do UTI POSSIDETIS na disputa da citada questão de Palmas. Foi a abertura desta estrada que ensejou pacificar os índios Coroados, os Kaingang, e ajudou a ocupação do Oeste da então Província de São Paulo, hoje território dividido entre o Paraná e Santa Catarina. Foi esta ocupação que permitiu ao Barão do Rio Branco usar o UTI POSSIDETIS, argumentando que a maioria dos habitantes do território em disputa era formada por brasileiros. Particularmente pelos índios Kaingang, que se diziam brasileiros, enquanto os Guarani se afirmavam súditos da Espanha. Aliás, o Barão argumentava que os castelhanos não tinham conseguido provar que sequer um único e escasso argentino vivia naquela área.
Já o nascimento de José Maria da Silva Paranhos foi providencial pelo papel que desempenhou na Questão de Palmas e porque seu nascimento se deu em circunstâncias muito auspiciosas.
Paranhos Junior nasceu no Rio de Janeiro, na então Travessa do Senado, número 8, hoje Rua 20 de abril, número 14, onde funciona a Escola de Teatro Martins Pena.
Seu pai foi o Visconde do Rio Branco, um diplomata que atuou na região do Prata onde esteve em 1851 e 1852, como Secretário da Missão Especial do Marques do Paraná, tornando-se, em seguida, Ministro-residente em Montevidéu. Voltaria ao Uruguai em 1864 e novamente, de outubro de 1870 a março de 1871. Nesta viagem seu filho, o Juca Paranhos, foi junto, na qualidade de secretário da missão, e pode testemunhar pessoalmente os entendimentos do Brasil com a Argentina e o Paraguai no desfecho da Guerra do Paraguai. Esta experiência, em primeira mão, das lides diplomáticas com a Argentina, assim como o conhecimento pessoal da região em disputa na Questão de Palmas, foram determinantes, anos depois, para o êxito da defesa da posição brasileira e para que o Brasil obtivesse a posse definitiva do Oeste de Santa Catarina e do Paraná.
A sorte brasileira se comprova quando aquela causa de vital importância para o agronegócio brasileiro, e, claro, para a nação brasileira, foi parar nas mãos do então obscuro Consul brasileiro em Liverpool. O caso estava com o Barão Aguiar de Andrada, que já estava em Washington, quando faleceu. Foi aí que o Presidente Floriano Peixoto se lembrou de Rio Branco.
Na verdade, a disputa territorial com a Argentina já vinha do império, que não aceitava as pretensões Argentinas e já tinha optado pela solução arbitral, mas Quintino Bocaiuva, o primeiro chanceler da república, no entusiasmo de uma possível fraternidade republicana com os vizinhos hermanos, havia assinado em Montevidéu um tratado de partilha do território. Foi um escândalo. A imprensa, o exército e até o monarca exilado protestaram e o Congresso brasileiro acabou por rejeitar o acordo, de modo que foi assim que a disputa foi entregue para decisão do Presidente dos Estados Unidos.
Na disputa a Argentina argumentava que tratados do século 18 apontavam para uma fronteira entre os territórios de Portugal e Espanha que seria definida pelos rios Jangada e Chapecó, e não pelo Pepiri-Guaçu e Santo Antônio – que ficavam mais a oeste, como defendia o Brasil.
O Barão cofiou o bigode e arregaçou as mangas. Liderando um grupo de diplomatas e especialistas, moveu céus e terras, mandou vasculhar cartórios e arquivos em todas as capitais europeias envolvidas com as Américas e recuperou documentos e mapas em locais como o Arquivo Geral de Simancas, na Espanha, e o Depósito Geográfico do Ministério dos Negócios Estrangeiros da França. Com cálculos, medições e interpretações historiográficas – como a de que a cartografia portuguesa era mais avançada que a espanhola no século 18 -, Juca Paranhos conseguiu reunir sobejas evidências para embasar a versão brasileira.
Em meu vídeo sobre o tema, apresentado em meu canal no Youtube, inclui uma verdadeira preciosidade audiovisual. Trata-se de documentário de 1945 realizado pelo Ministério de Relações Exteriores para celebrar o centenário do nascimento do Barão do Rio Branco. Nele podemos ver a documentação apresentada pelo Barão na defesa brasileira da Questão de Palmas. O trecho do documentário “Barão do Rio Branco” de 1945 e é reproduzido por cortesia do Centro Técnico Audiovisual da Secretaria de Cultura.
Assim, como se pode ver no vídeo (link no final), foi graças a uma dedicação infatigável que o Barão do Rio Branco foi vitorioso na disputa da Questão de Palmas e nos legou o Oeste Fértil, dando ao Brasil posse definitiva dos Oestes de Santa Catarina e do Paraná e, assim, inscreveu seu nome como um dos grandes heróis do Agronegócio brasileiro.
Se você deseja conhecer mais histórias do tempo da Conquista do Oeste Fértil e do desbravamento do Alto Uruguai Gaúcho e dos Oestes de Santa Catarina e do Paraná, periodicamente publico aqui vídeos sobre o tema em meu canal “GoioEn” no Youtube .
E se você tem fôlego para ler uma maratona de histórias sobre um tempo que merece ser lembrado, meu livro Goio-En, o Caminho e o Tempo, da Editora Viseu, é uma boa pedida.
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Foi no ano de 1837 que o jovem italiano Giuseppe Maria Garibaldi chegou à Província de São Pedro do Rio Grande e foi visitar na cadeia o líder farroupilha Bento Gonçalves que estava preso pelos imperiais por ter sido escolhido presidente da República Rio-Grandense que queria se separar do Brasil.
Giuseppe Garibaldi tinha 30 anos e havia sido condenado à morte na Itália por ter participado de uma insurreição em Gênova que queria a unificação do país. Como a revolta deu errado ele adotou um nome falso e foi ser marinheiro no Mediterrâneo até decidir vir para o Brasil.
Quando visitou Bento Gonçalves Garibaldi se disse “cansado de arrastar uma existência inútil”, de dispôs a lutar pelos farroupilhas e pediu uma “Carta de Corso”, que era uma autorização para atacar e pilhar navios do governo imperial, que era o governo inimigo.
Foi dessa forma que o futuro general italiano e herói da guerra da unificação da Itália entrou na história farroupilha e acabou envolvido na história do Sul do Brasil.
Antes de continuar e para dar uma ideia da importância que o chamado herói dos dois mundos adquiriu na Europa de seu tempo, vale citar a visita que o agora General Italiano Giuseppe Garibaldi foi convidado a fazer à Londres em 1864.
Já famoso e respeitado, especialmente depois de ter reunificado a Itália em 1861, Garibaldi foi recebido por uma multidão como nunca tinha sido vista na capital londrina. Basta dizer que carruagem que transportava o general precisou de cinco horas para percorrer a distância de quatro quilômetros entre a estação ferroviária de Nine Elms e a Residência Lancaster, onde era o convidado de honra do duque e da duquesa de Sutherland. (Saderland)
Em 1837, ao chegar no Brasil, Garibaldi se encantou com a natureza e, especialmente, com as esplêndidas araucárias das nossas matas. Relatou em suas memórias que
“Só quem já viu as imensas florestas que cobrem os cimos do Espinhaço, com seus pinheiros seculares, que parecem destinados a sustentar o céu, e são as colunas deste esplêndido templo da natureza…podem delas fazer uma ideia”.
Na visita ao presidente farroupilha Garibaldi recebeu também a incumbência de circunscrever o bloqueio ao porto de Rio Grande. Depois de aprisionar um navio imperial e sua carga, Garibaldi percebeu que ações isoladas não iram compensar a falta de um porto. O que os farrapos precisavam era de uma saída para o mar.
A essa altura, no delta do Rio Camaquã, existiam alguns galpões de uma velha charqueada. Ali Garibaldi fez construir embarcações de fundo chato para controlar a Lagoa dos Patos – um imenso corpo de água com 260 quilômetros de comprimento e 60 de largura em seu ponto mais largo. Sua principal característica, porém, é que suas águas têm em média, 3 metros de profundidade. E além de rasa, a lagoa tem muitos bancos de areia, de modo que os navios do império não podiam navegar ali sem o risco de encalharem.
A organização do estaleiro foi entregue a John Griggs, o João Grandão, um marinheiro irlandês que juntou-se aos revoltosos. Era homem de grande estatura, corpulento e imensamente forte, estava sempre bem-humorado e era um incorrigível otimista. Ainda assim, sem conhecer a carpintaria naval e com os poucos meios de que dispunha, não podia fazer grande coisa.
João Grandão soube de Luigi Carniglia, um mestre carpinteiro naval italiano estabelecido no Uruguai. Garibaldi conseguiu a ajuda do seu compatriota, que veio com suas ferramentas e uma equipe de profissionais tarimbados.
Trabalhando dia e noite, em dois meses, conseguiram construir dois veleiros lanchões. O maior, com 18 toneladas, era o Rio Pardo. O segundo lanchão, de 12 toneladas, era o Seival. No começo de maio de 1839 os barcos circularam pela Lagoa dos Patos à procura de presas. Na altura de Cristóvão Pereira deram com a sumaca Mineira que se rendeu após um único tiro.
Em resposta os imperiais mandaram quatro navios de guerra caçar os dois lanchões farroupilhas. Os rebeldes se sentiram acossados, logo descobriram um meio de se safar. Seus lanchões eram mais leves, rápidos e manobráveis. Além disso, os marinheiros rebeldes conheciam bem a lagoa e reconheciam os bancos de areia. Quando eram perseguidos pelos navios imperiais, se dirigiam a um banco de areia próximo e avançavam até o lanchão encalhar.
Assim que ficavam presos na areia, o comandante gritava com toda a força:
“À água, patos!”.
Dada a ordem, todos a bordo pulavam na água, inclusive Garibaldi. Enquanto alguns puxavam com cordas, os demais empurravam o barco de fundo chato sobre a areia, de modo a cruzarem para o outro lado. De volta na água, todos reembarcavam e impulsionavam o barco usando varas que se apoiavam no leito do lago.
Daí que rapidamente se safavam e os pesados navios da Marinha imperial ficavam, literalmente, observando impotentes a artimanha dos rebeldes.
Acontece que essas escaramuças náuticas podiam ser bastante divertidas, mas traziam poucos resultados práticos.
Garibaldi então sugeriu ao Governo Farroupilha que tomasse a cidade de Laguna, em Santa Catarina, e por lá conseguissem o tão necessário acesso ao mar.
Mas como atacar Laguna se toda a Marinha dos farrapos se resumia aos dois lanchões que estavam na Lagoa dos Patos?
Garibaldi explicou sua ideia: os dois barcos deveriam seguir por terra os 80 km até Tramandaí, lá entrar no Rio Tubarão, descer por ele e atacar Laguna pela retaguarda.
Para fazer a ideia funcionar era preciso colocá-los sobre rodas. Então fizeram duas enormes carretas. Cada uma tinha quatro rodas imensas, que mediam 3,20 metros de diâmetro. Para puxar todo aquele peso os revolucionários conseguiram pela região cerca de 200 bois de canga.
Finalmente, foi com enorme alegria e grande estardalhaço que começou a incrível jornada de levar por terra os barcos farroupilhas.
Imagine o espanto daquela gente ao ver aqueles dois veleiros completos, com seus mastros projetando-se para o céu, navegando em plena campina verde dos campos gaúchos.
Era um espetáculo de dimensões épicas, que incluía o alarido de cavaleiros, a algazarra dos condutores incitando os bois e a constante necessidade de improvisar pranchas para evitar que as rodas afundassem no terreno alagado. Foram seis seis dias para chegar, abaixo de chuvas torrenciais e vencendo metro a metro.
Ao chegar foi preciso mais três dias de trabalho para preparar os barcos e, por cruel ironia do destino, mal os barcos entraram na água soprou um fortíssimo vento pampeiro que pegou todos sem aviso e afundou o Rio Pardo. Agora só sobrava o Seival.
Por sorte, navegando rio abaixo, encontraram e apresaram o lanchão Lagunense, que vinha subindo o rio. O novo lanchão não se comparava ao barco perdido, mas era um reforço muito bem-vindo.
Ao chegarem em Laguna viram que a Marinha imperial estava bem instalada e equipada. Contava com diversas embarcações armadas e tinha sentinelas no alto do Morro da Glória, todos atentos à entrada da barra pelo lado do mar. Por sorte não havia sentinelas voltadas para o Rio Tubarão, afinal, ninguém poderia imaginar um ataque pela retaguarda.
No entanto, de repente, no dia 22 de outubro, coisas inesperadas começaram a acontecer. O Catarinense, que estava posicionado para defender a entrada do mar sofreu, um ataque de surpresa, pela popa. O comandante José de Jesus, vendo que perderiam o navio mandou que os marinheiros pusessem fogo na embarcação e fugissem para a terra.
O comandante imperial ordenou aos demais barcos que saíssem para o mar aberto, porém a escuna Itaparica e o lanchão Santana não conseguiram escapar e acabaram encalhados. O problema, para Garibaldi, é que a escuna Cometa conseguiu sair para o mar. Ela levaria a notícia da queda de Laguna aos imperiais e era certo que logo eles viriam com todas as forças.
Então, os farrapos buscaram se preparar dentro das suas limitações.
Foi neste interregno que Garibaldi, que estava à bordo da escuna Itaparica e seguia com uma luneta as casas da barra de Laguna, observou em terra um grupo de moças e viu, em meio delas, uma donzela que se distinguia pelo porte e beleza e que, num átimo, atraiu sua atenção.
De imediato, fez descer um escaler e remou, alucinado, até a margem. Uma vez em terra, correu até o local onde tinha visto a moça, porém não mais a encontrou.
Suspirou desolado e perdeu a esperança de encontrá-la.
Mas o cupido tem lá suas artimanhas. Mais tarde um morador local o convidou a ir até sua casa para um café e Garibaldi aceitou. E ao entrar nessa se deparou com a jovem que tanto o encantara ao vê-la pela luneta.
Em suas memórias, Garibaldi conta seu encontro com Anita:
…
“Entramos, e a primeira pessoa que se aproximou era aquela cujo aspecto me tinha feito desembarcar. Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna. A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-nos reciprocamente, como duas pessoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência. A saudei finalmente e lhe disse:
‘Tu deves ser minha!’.
Eu falava pouco o português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor”.
…
A jovem Ana Maria de Jesus Ribeiro, que viria a ser mais conhecida como Anita Garibaldi e se converteria na “Heroína dos Dois Mundos”, por ter lutado ao lado dos farroupilhas e, depois, pela unificação da Itália, estava com 18 anos quando foi vista por Giuseppe Garibaldi, que tinha 32 anos.
A jovem aceitou unir-se a Garibaldi e recebeu seu batismo de fogo já na batalha naval de Laguna. A armada imperial chegou com força avassaladora e a Marinha dos farroupilhas foi simplesmente trucidada. Anita entrou nessa batalha sem temer pela própria vida e, num frágil bote a remo, cruzou diversas vezes a área de combate levando munições a Garibaldi.
Vendo a situação perdida, Canabarro, o comandante farroupilha, ordenou a retirada e, dias depois, enviou Garibaldi no rumo oeste, com a difícil missão de subir a Serra Geral e tentar recuperar Lages, que havia voltado para as mãos dos imperiais.
Na retomada de Lages Garibaldi viveu sua primeira experiência de combate como cavaleiro. Foi ainda em Laguna que aprendeu a cavalgar e a combater montado. Sua professora foi Anita, aquela moça encantadora que agora era sua companheira inseparável.
Anita, que era uma amazona de grande traquejo, teve em Garibaldi um aluno talentoso e aplicado. Sobre seu aluno de equitação escreveu ela para sua irmã e confidente:
“Querida irmã: (….) pela primeira vez eu o via em ação a cavalo. (…) Felizmente, ele aproveitou bem as minhas aulas de equitação. Eu não conseguia tirar os olhos de cima dele, cheia de admiração pelo modo como conseguia prever os movimentos dos adversários. Era tão bom nisso que conseguia mandar os seus homens para os lugares certos, surpreendendo a todos com a rapidez de suas ações e indo de um lugar para outro com muita velocidade, deslocando-se sem parar, como um perfeito guerrilheiro(…)”.
Regista a história que, naquele memorável dia 14 de dezembro de 1839, 500 soldados republicanos, entre os quais lutou a destemida Anita Garibaldi, enfrentaram e derrotaram os 2.000 soldados imperiais comandados pelo brigadeiro Xavier da Cunha.
Quatro dias depois, em 18 de dezembro, Garibaldi, Anita, Rosetti e Teixeira Nunes, com seus farroupilhas, entraram triunfalmente em Lages e ali reinstalaram os comandos militares e o governo da recém proclamada República Catarinense.
Anita e Garibaldi, desfrutaram, então, de alguns dias de paz e tranquilidade e cultivaram o amor que sentiam um pelo outro. Em meio às paixões políticas e à emoção das conquistas, viverem, com enlevo, momentos de mútuo abandono como só o amor conhece. Aqueles dias de romance e ternura ambos iriam lembrar para sempre.
Por coincidência, Anita era originária de uma família de Lages e ali ainda vivia seu Tio Antônio, que os acolheu afetuosamente. Em sua casa hospedaram-se e puderam compartilhar o mesmo teto pela primeira vez. Anita escreveu para sua irmã:
“(…) Nos dias que se seguiram àquela luta, chegamos a Lajes sem maiores dificuldades e fomos acolhidos alegremente pela família e pelos amigos. Já encontramos uma casinha bonita, toda de madeira. Não consigo acreditar que estou vivendo sozinha com José. Estamos muito felizes, rimos e brincamos de donos de casa, quando os nossos amigos vêm nos visitar. Tio Antônio e José logo simpatizaram um com o outro. Quando eles se encontram, passam horas discutindo sobre a liberdade dos povos. Mas devo confessar que, às vezes, começo a duvidar de que um dia o mundo será realmente diferente. Talvez ele melhore para os nossos filhos, pelo menos é o que espero. Mas o tempo passa e tudo fica como antes. Evito dizer isso aos nossos fervorosos sonhadores, que, por mais que discutam, não sabem dizer por quanto tempo resistiremos em Lajes. Ninguém se arrisca a fazer previsões. As patrulhas falam de tropas inimigas, organizam-se várias expedições. Com certeza José vai ter que patrulhar nos próximos dias, e eu vou com ele. Ficou decidido que ficarei encarregada de reabastecer as tropas de munições, o que me parece uma tarefa útil. Levarei comigo um grupo de companheiros fortes, que estou aprendendo a conhecer, para garantir os transportes. Quero organizá-los da melhor maneira possível (…).
Anita deixara um casamento de conveniência e uma vida de mediocridades para fazer parte das grandes lutas do mundo de seu tempo. E o destino lhe dera o companheiro a que fora destinado pelas estrelas. Sem pensar por quanto tempo a felicidade lhe seria pródiga, vivia momentos de arrebatamento indizíveis.
O Natal chegou e Anita e Giuseppe comemoraram juntos pela primeira vez a grande festa da cristandade. A Missa do Galo, em 24 de dezembro de 1839, foi um momento de profundas emoções para ambos e, ainda mais, para Anita, que aos 18 anos, via desabrochar a grande paixão à qual entregava sua vida sem medos e sem reservas.
A igreja, na Vila de Lages, estava enfeitada com um presépio que tinha uma manjedoura como a contada no Evangelho. À noite, a cena era iluminada por lamparinas que bruxuleavam, inquietas, como os corações do casal que as observava. No centro, o bambino Jesus, esculpido em madeira, tinha os braços abertos, um sorriso angelical e as faces rosadas. Envolto com musgos e ramos de pinheiro, pouco parecia se importar com a modéstia de seu berço. Embevecido, o casal esqueceu o tempo e ali ficou, de mãos dadas, se deixando encantar por aquela atmosfera de fé e esperança que os unia ainda mais. Um sentimento de carinho sem limites os amalgamava em um amor maior do que a vida, enquanto fortalecia seus sonhos para um futuro que desvendariam juntos.
Subitamente, fazendo ecoar sua voz de tenor, limpa e cristalina, naquela pequena igreja de Lages, Garibaldi principiou a cantar a mais linda e a mais italiana das músicas de Natal, Tu scendi dalle stelle, uma canção natalina de simbolismo incomparável que unificava seu país pelo inexcedível amor a Gesù bambino, ainda antes que a Itália tivesse se unido politicamente:
Tu scendi dalle stelle, o Re del Cielo,
e vieni in una grotta, al freddo al gelo.
O bambino, mio divino, io ti vedo qui a tremar.
O Dio beato!
Ahi, quanto ti costò l’avermi amato!
A te, che sei del mondo il Creatore,
mancaron panni e fuoco, o mio Signore!
Caro eletto pargoletto, quanto questa povertà più m’innamora!
Giacché ti fece amor, povero ancora!
(Tu desces das estrelas, ó Rei do Céu,
e vens para uma gruta, ao frio, ao léu.
Ó menininho, meu divino, eu te vejo aqui a tremer.
Ó Deus abençoado!
Que preço tu pagaste por ter-nos amado!
A ti, que és do mundo o Criador,
faltaram roupa e calor, ó meu Senhor!
Querido pequenino eleito, como esta pobreza me faz amá-lo ainda mais!
Porque, por amor, agora te fizeste pobre.)
Como presente de Natal, Teixeira Nunes, o comandante farroupilha, deu a Anita um vestido de musselina, um xale de seda, sapatos de marroquim e um chapéu da moda. Garibaldi ganhou um poncho claro, ricamente trabalhado.
Dias depois a luta recomeçava tão dura e angustiante como antes. Garibaldi e Anita continuaram vencendo mil entreveros pelas plagas do sul nos três anos seguintes, de 1839 a 1841, ano em que Garibaldi despediu-se dos farroupilhas e, ao lado de Anita e de seu pequeno Menotti, seguiu para viver o extenso caminho de conquistas que ainda lhe reservava o destino.
Para saber mais sobre o conteúdo do livro Goio-En, o Caminho e o Tempo, vou apresentar neste canal um punhado de casos e histórias ligados à conquista do Alto-Uruguai gaúcho e das regiões dos Oestes de Santa Catarina e do Paraná, a região que forma o rico Oeste Fértil Brasileiro.
E se você tiver folego para uma maratona de 900 páginas de leitura sobre fatos e histórias de um tempo que merece ser lembrado, Goio-En, o Caminho e o Tempo, da editora Viseu, é uma boa pedida.
O Mundo Global precisa da Logística como o corpo precisa do ar que respira.
E a língua da logística é o Código de Barras, que é lida pelos olhos do Coletor de Dados.
O mundo atual é um organismo complexo, que tem amplitude global e que, para funcionar de forma satisfatória, depende de suprimentos que circulam entre nações e continentes e capazes de atender desde os grandes conglomerados até aos menores consumidores privados espalhados pelos cinco continentes. Este sistema planetário de abastecimento, suprimentos e movimentação de cargas recebe o nome de “Sistema Logístico”.
Para entendermos como funciona o Sistema Logístico Mundial precisamos compreender a natureza dos universos digitais. Estes universos têm, basicamente, dois planos: um plano real – o mundo físico, onde as coisas acontecem – e um plano virtual, que reproduz o que acontece no plano real e permite sua gestão por meio de informaç˜oes e controles. Esta dimensão virtual tem existência no ciberespaço e é conectada em escala planetária no espaço formado pela interconexão mundial dos computadores e das suas memórias. O universo virtual da logística reproduz a realidade por meio de “avatares” dos navios, portos, aviões, armazéns, containers, paletes, mercadorias e de itens codificados. Simplificando, o universo logístico virtual é uma reprodução digital do mundo real e que permite entender e gerencial em tempo real o que acontece na dimensão real.
Para exemplificar, imagine uma grande metrópole com milhares de edifícios, apartamentos, casas, lojas, hospitais, escolas e órgãos públicos espalhados por quadras, avenidas e ruas em bairros e regiões diferentes. E nesta metrópole as pessoas moram, trabalham, estudam, se movimentam e vivem suas vidas. Como fazem para se deslocarem e se orientarem com sucesso no emaranhado da cidade? Elas se valem da organização da cidade em endereços. Um endereço identifica a região, o bairro, a rua e o número do lugar que a pessoa deseja encontrar. Tudo funciona porque uma cidade organizada facilita a mobilidade em seu espaço urbano mantendo os endereços inalterados e mapeando sua localização. Este é o método analógico de organizar os espaços geográficos
Agora imagine se esta cidade mudasse os endereços todos os dias, e as vezes, mais de uma vez por dia?
O velho e confiável sistema analógico de organização entraria em colapso e seria impossível fazer qualquer coisa nesta cidade imaginária.
Do mesmo modo que em uma metrópole, um grande galpão, armazém ou depósito destinado a receber, movimentar, armazenar, separar e expedir mercadorias se serve de endereços com áreas, corredores, porta paletes e milhares de posições de paletes. E, no entanto, essa grande e complexa estrutura muda seus endereços o tempo todo, frequentemente mudando os endereços diversas vezes por dia. E, o que é mais notável, essa movimentação toda se dá sem sobressaltos e com as atividades sendo executadas rapidamente, sem dificuldades e sem erros. Como isso é possível?
O segredo do funcionamento desta estrutura tem no centro o conceito da “Cadeia de Suprimentos”. Cada elo da cadeia liga dois pontos do processo de acompanhamento do item rastreado: um ponto de partida e um de chegada, de maneira que se possa saber onde o item está e o que acontece com ele em tempo real.
O primeiro passo no processo de acompanhamento logístico é a atribuição de um número. Esse numero passa a ser o “nome” do item e, daí em diante, será através dele que se saberá seus passos e sua trajetória ao longo da cadeia de suprimentos.
Para que este número possa ser reconhecido em cada ponto de parada e partida no processo logístico existem diversos tipos de identificadores, sendo a etiqueta com o código de barras o método mais comumente usado.
No processo logístico em andamento, o reconhecimento do item é feito pela leitura da sua etiqueta de Código de Barras por meio de um “leitor de código de barras” acoplado a um computador e a um software de gestão do processo. No caso de grande número de volumes ou itens é preciso um equipamento de uso profissional: os “Coletores de Dados” móveis, que são, na realidade, computadores móveis que funcionam ligados a uma rede WiFi através radio-antenas especializadas, os “Access Points”, que, por sua vez, “conversam” com o servidor por intermédio de “Controladoras”, equipamentos que ampliam o alcance e a funcionalidade dos “Coletores de Dados.”
Um mau sistema destrói uma boa pessoa todas as vezes. Todas as vezes.(Edwards Deming)
O que explica que o Brasil, um país de proporções continentais, dotado de imensas riquezas minerais, uma natureza exuberante e a maior área agricultável ainda não explorada do planeta viva imerso em crises intermináveis, corrupção endêmica e pobreza acachapante? A praga endêmica que desgraça o Brasil tem um nome: presidencialismo.
O presidencialismo é a nossa condenação de Sísifo. Sísifo, como sabem, vem a ser aquele personagem da mitologia grega que foi amaldiçoado pela eternidade a repetir a penosa tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, sendo que, toda vez que estava prestes a alcançando o topo, os deuses a empurravam de volta, montanha abaixo. E Sísifo tinha que começar tudo de novo. Segundo a mitologia, este destino maldito o perseguiria pela eternidade.
Nosso presidencialismo, como a pedra na lenda de Sísifo, é o nosso castigo pelo desapreço que temos com a seriedade e nosso pendor pela demagogia. Nosso presidencialismo chinfrim nunca deu certo e nem vai dar. Trata-se de um sistema de governo que é defeituoso por concepção. É ruim por design. Foi adotado por pura imitação do sistema americano, que, como salta aos olhos, também lá não funciona direito. E, para piorar as coisas, o copiamos mal.
. O teste da boa árvore.
De tantas causas possíveis, como saber que o nosso problema maior é, de fato, o presidencialismo? Não seria o excesso de partidos? Não seria o voto proporcional? Não seria nossa cultura?
O presidencialismo é um arranjo de governo que concentra poder demais em uma só pessoa. O Presidente é, ao mesmo tempo, chefe de Estado e Chefe do Executivo, funções que o Parlamentarismo divide exatamente para evitar a tentação de arroubos do tipo “quem manda sou eu”. É frequente, no presidencialismo, a ascensão de políticos “personalistas” que tentam desmontar os arranjos democráticos de forma a acumular mais poderes e continuar no poder. A respeito deles advertia Lorde Acton: “O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.
A Bíblia, ainda que uns tantos questionem sua validade como livro religioso, é reconhecidamente um compêndio do conhecimento humano milenar. Em Mateus 12:33 se encontra uma destas pérolas do saber universal: pelo fruto se conhece a árvore. (Segundo o texto bíblico: “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto será bom; ou fazei a árvore má, e o seu fruto será mau; porque pelo fruto se conhece a árvore.”) Ora, basta olharmos para a tristemente conturbada história do presidencialismo brasileiro para concluir que estamos diante do pior tipo de árvore existente no rol das democracias.
A verdade é que o presidencialismo à brasileira é um queijo…Suíço!. Tem buracos e brechas de todos os tamanhos e tipos. O dito “presidencialismo de coalisão” outra coisa não é que um “presidencialismo de corrupção”, um “presidencialismo de rapina”. Um bando de bucaneiros da política que se mancomunam para negociar seu apoio e assumir cargos onde possam “meter a mão”. Nada explica melhor este propósito de fazer tudo como arremedo que a célebre afirmação do Delúbio Soares, o ex-presidiário que chefiou as finanças petistas de 2000 a 2005. O finório, respondendo aos que queriam que publicasse na internet a demonstração financeira do partido, disse: “transparência assim é burrice”. Pois é na mesma linha que os corruptos fogem de um sistema democrático transparente, imunizado contra a corrupção: “DEMOCRACIA ASSIM É BURRICE”!
E, claro, um sistema tão vulnerável aos assaltos dos “pais da pátria” tende a viver em um clima de divisão de botim permanente. Tanto que, no Brasil do século passado, este rocambole institucional nos trouxe 22 grandes crises e rupturas, entre golpes, revoltas, revoluções, movimentos militares, impeachment e congêneres. E foram sete constituições diferentes. Neste século XXI, que até começou auspicioso, com o primeiro governo Lula seguindo as pegadas do governo de FHC, a obtusa ambição petista de perpetuar-se no poder logo descambou para a corrupção mais desenfreada. Produziu Dilma e seu impeachment, desencadeou a Lava Jato, levou a uma crise permanente durante o Governo de Michel Temer, promoveu a inédita “eleição por facada” de Bolsonaro e agora nos condena a viver uma cruel multipandemia que mistura coronoavirus, economia e segurança. Tudo em frangalhos.
E como desgraça pouca é bobagem, o atual presidente Bolsonaro tem o perfil do tipo político mais nefasto para assumir a presidência no presidencialismo.
O General Douglas MacArthur, o comandante americano que venceu o Japão na II Grande Guerra e depois supervisionou a ocupação do país de 1945 a 1951, promovendo sua reconstrução e o conduzindo para uma espetacular expansão econômica, política e social, revelou, de certa feita, que o segredo de seu sucesso é que adotava o método de Sun Tsu para avaliar seus oficiais. Segundo explicou, cada novo oficial que vinha servir em suas tropas era pessoalmente entrevistado por ele. Na entrevista, ele classificava o oficial em uma de quatro categorias: Categoria 1 – Inteligente e ativo; Categoria 2 – Inteligente e preguiçoso; Categoria 3 – Burro e preguiçoso; Categoria 4 – Burro e ativo.
Segundo MacArthur, a primeira categoria é a dos que ganham a guerra. Devem ser colocados nas posições chave e onde se dá a ação. Infelizmente, são poucos. A segunda categoria não serve para o front. São lentos e elucubrados demais para comandar tropas. Mas podem ser utilizados na inteligência ou no estado maior. A terceira categoria, a dos burros preguiçosos, é a mais numerosa. Agem burocraticamente, evitam riscos e preferem o conforto à ação. O melhor é colocá-los em posições de retaguarda ou em posições de baixo risco. Vão criar problemas, mas, sendo preguiçosos, farão poucos estragos. Todavia, segundo MacArthur, o perigo está no quarto grupo, o dos burros ativos. Destes ele tratava de se livrar na primeira oportunidade. O grande general, como seu mestre Sun Tsu, tinha pavor dos burros ativos. Estes, além de néscios, são incontroláveis, atropelam tudo e todos, sempre se acham com razão e se acreditam mais espertos que os outros. E sendo descombulados e hiperativos, produzem burradas em série, espalham o caos e destroem, por dentro, qualquer exército.
Pois, pode haver melhor descrição de atual ocupante do Planalto?
Pode-se argumentar que a Lava-Jato mostrou que existem caminhos para o combate à corrupção no Presidencialismo. Mas os fatos mostram que episódios heróicos não sobrevivem por muito tempo. Deve ter sido por compreender que, sem transformar o combate à corrupção numa ação sistemática, os políticos corruptos logo encontrariam meios de o impedir, foi que o Juiz Sérgio Moro, patrioticamente, decidiu abrir mão de 22 anos de magistratura e aceitar o Ministério da Justiça. Ele sabia, melhor que ninguém, que o milagre da Lava-Jato só vingou pelo destemor dele e de uma plêiade de heróis, como o do Procurador da República, Deltan Dallagnol, e de um núcleo de outros heróis – quase todos de uma nova geração e sem compromissos com as oligarquias. Moro haverá de ter percebido que ele e a Lava-Jato foram favorecidos por atuaram em um ecossistema jurídico, social e político que corre por fora dos tradicionais centros da corrupção. O Sul teve suas instituições menos contaminadas pelo patrimonialismo e pela predação de Estado do que as do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e das capitais nordestinas, centros mais antigos e onde a corrupção é endêmica. Uma nova Lava Jato, contudo, dificilmente voltará a ser possível no atual presidencialismo. O pântano político e o “Centrão” já trataram de interpor os bloqueios e barreiras para impedir outra “ousadia” do tipo no futuro. A título de exemplo, pode-se suspeitar que o tal “juiz de garantia” foi criado precisamente para “garantir” que nunca mais apareça um Moro para atrapalhar os “negócios” dos vendilhões da pátria.
. O Brasil tem solução?
Pode parecer um exercício de futilidades discutir se o Brasil quer, de fato, encontrar uma solução realista para seus problemas. Mas as mudanças virão, por bem ou por mal. A crise monumental que se avizinha, possivelmente a maior da história do país, vai produzir mudanças disruptivas. Vai ser um período conturbado, mas, no final, a saída será mais democracia. Os vetores que se observam na sociedade indicam que existe uma massa crítica da opinião pública que não vai aceitar retrocessos. Acredito, portanto, que a sociedade brasileira vai exigir um novo modelo de democracia e não este faz-de-conta meia-boca que está aí.
Acredito até que, depois de tanto sofrer, a nação irá se lembra de Rui Barbosa e decida emendar-se:
“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
Ora, o chacoalhão que vamos enfrentar vai fazer todo mundo botar a mão na consciência. E, depois, nada levanta mais rápido um traseiro do que fogo embaixo do banquinho.
Dado que a crise que estamos vivendo é uma “decrisis”, que é como os gregos definiam o tipo de crise que tende a ir piorando, com caos e desorganização crescente, até se dar o colapso do sistema, não vai demorar para o Brasil buscar em profundidade as causas que criam e alimentam a disfuncionalidade do governo da república e se decida a mudar. Tudo indica que o país está mais maduro e preparado para adotar um solução comprovada e baseada em evidências para consertar de uma vez por todas o sistema que o infelicita e empobrece.
O presidencialismo à brasileira tem sido a casamata dos privilégios. O espaço do “me engana que eu gosto”. Demagogos e malandros se passam por democratas para tomarem o poder e se apoderarem do estado. O atual sistema presidencialista e o voto proporcional foram inventados pelo diabo para facilitar a tarefa de enganar eleitor tonto. Trata-se de uma combinação embusteira concebida para fraudar os objetivos da democracia.
Os velhacos da política aprendem logo a primeira lição da canalhice: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte”. Com coronavirus, ou sem coronavirus, o negócio desta ralé moral é meter a mão. Se é dinheiro para comprar respiradores ou ajudar os pobres, não faz diferença. O que interessa é enricar. Desviar a grana. É a lei do pirão: “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Foi esta lei que inspirou os “direitos adquiridos” contra o povo! Os tais “imexíveis” “direitos adquiridos” são sempre contra o povo. Em sua maioria são, na verdade, “abusos adquiridos”. E, de tanto esfolar o povo, precisam acabar.
Agora, tirar os tais “direitos adquiridos” da privilegiatura não será um processo indolor.
Fernão de Lara Mesquita escreve que “Não ha inocentes na tragédia brasileira. O Sistema não muda porque ninguém está pleiteando que mude. Ninguém admite perder nada. A divergência que essa polarização burra traduz circunscreve-se à disputa pelo comando da coisa. Não é o Brasil que está em discussão. O Brasil é só o prêmio dessa disputa.”
Em outro trecho Fernão de Lara Mesquita diz que “Não haverá arrumação fiscal sem o fim desse regime de escravização de 99,5% do país aos “direitos adquiridos” dos 0,5% da privilegiatura. (Aliás, em minha opinião, devíamos fazer uma emenda à Constituição que dissesse simplesmente: “Não existem direitos adquiridos contra o povo” e “Revogam-se as disposições em contrário”.)
. Democracia Baseada em Evidência – O método para buscar uma Democracia de Qualidade.
Segundo Einstein, “Insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.” Portanto, o primeiro pressuposto para obtermos melhores resultados é mudarmos nosso modo de fazer política e eleger nossos governantes.
Somos o país da jabuticaba, do besteirol, do carnaval e do presidencialismo de corrupção. Aos poucos o país vai entendo que Sérgio Porto tinha razão quando dizia: “Ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade”. E, como há de parecer óbvio até ao mais obtuso dos viventes, não dá para toda a nação se locupletar. Para implantar a moralidade, por outro lado, é preciso criar um sistema que mude a lógica do atual sistema e crie mecanismos que empoderem a sociedade. E é motivo de alento observar que nossa sociedade tem mostrado que quer acabar com a corrupção e quer mudanças. Mas para sair da retórica e ir para o fazejamento, a dificuldade está em definir quais mudanças devem ser feitas e como gerar um consenso sobre elas.
Infelizmente nossos políticos, salvo exceções, são carreiristas profissionais. Entram na política não para servir o país, mas para se servir dele. Destes não se pode esperar nada. Falam em “mudança”, mas são adeptos da filosofia de Alphonse Karr: “plus ça change plus c’est la même chose”. Quer dizer, “mais se muda, mais fica a mesma coisa”…
Se, por um lado, é difícil obter um consenso sobre como formatar um novo modelo de governo, talvez seja menos difícil obter consenso sobre a metodologia para buscar este modelo ideal. E existe uma metodologia consagrada de fazer o certo do jeito certo e prevalente no meio médico: a Medicina Baseada em Evidência. A MBE reúne as melhores evidências científicas e indicadores de bons resultados para orientar o tratamento dos pacientes. A metodologia revolucionou a medicina, empoderou os protocolos e passou a fazer valer as melhores práticas. E esta técnica de reunir as melhores evidencias também pode ser aplicada na área política. Para começar, poderíamos abrir a discussão elencando o que não funciona a contento no Brasil e comparar com os métodos e resultados obtidos nos diferentes países e nos diversos sistemas de governo dos países avançados. O método permitiria considerar os prós e os contras de cada alternativa, o que melhor se ajusta à nossa cultura e aí definir a mudança e gerar um consenso. Obviamente, no final do processo, será preciso escrever uma nova Constituição. Chamar uma nova Constituinte capaz de usar os meios modernos de participação da sociedade para elaborar uma nova Carta Magna. Uma constituição pensada para o Brasil do Mundo 4.0 e que seja, de fato, debatida por toda a sociedade e não apenas por um grupo de políticos da velha política, interessados, sobretudo, em promover os interesses da privilegiatura e seus inconfessados interesses político-eleitorais.
Acredito que a maioria dos brasileiros está cansada de tanta bandalheira e tanto atraso. E, diante de um chamamento para repensar a desorganização crônica do país, concordaria em debater a mudanças de seu governo segundo as regras da Democracia Baseada em Evidência. E em desenvolver consensualmente um projeto para o país do século XXI.
De minha parte, tenho a opinião de que o debate nos iria encaminhar para um governo parlamentarista com voto distrital e não obrigatório.
O sistema parlamentarista é o adotado por todos ao países desenvolvidos, com a notória exceção dos Estados Unidos, que compensa o poder do presidente com uma eleição indireta e com uma câmara de deputados eleita a cada dois anos por voto distrital. Vale ressaltar que, mesmo assim, o presidencialismo de lá é sempre fonte de problemas e questionamentos. Quanto ao presidencialismo, este é sistema majoritário no mundo do atraso. Prevalece na América Latina e tem forte presença na África, o que já deve levar à reflexão.
O segredo do sucesso dos governos parlamentaristas está na virtude intrínseca do sistema que é equilibrado por um mecanismo de pesos e contrapesos bem mais sofisticado do que o nosso, que funciona sempre no limite, na base da confrontação permanente . Em um parlamentarismo bem ajustado, este mecanismo funciona promovendo a “síntesis”, ou a “crise boa” dos gregos, agindo preventivamente e acomodando situações antes que se tornem contenciosos. Por esta via de “parlamentarisar” as disputas, que são decididas no voto, o sistema de freios e contrapesos abrange todas as instâncias. A começar pelo centro de comando do país, que divide o poder em duas funções: a Chefia do Estado e a Chefia de Governo.
No parlamentarismo, o Chefe de Estado não se envolve diretamente no dia a dia da administração do país, tarefa que cabe ao Chefe de Governo, o Chanceler ou Primeiro Ministro.
Um aspecto interessante é que, por ser um sistema versátil, os poderes do Chefe de Estado variam de país para país. Em monarquias, como nos países nórdicos, na Holanda, na Bélgica, no Reino Unido, ou no Japão, onde o monarca é Chefe de Estado, este tende a ter funções mais simbólicas, mas, na maioria dos regimes parlamentaristas, o Chefe de Estado concentra algumas funções legislativas, como assinar, ratificar e até vetar leis e projetos vindos do congresso, dissolver o legislativo e demitir Chefes de Governo. Além disso, ele é o comandante máximo das forças armadas, dispensando um Ministro da Defesa, como no Brasil.
A administração do dia-a-dia do país, porém, é da alçada do Chefe de Governo, a quem cabe tomar as decisões e prestar contas aos representantes do povo, eleitos pelos distritos.
Todavia, para o sistema parlamentarista funcionar à contento é preciso que os parlamentares tenham condições de contribuir para a administração do país e não apenas fazerem pronunciamentos perfunctórios e votarem iniciativas do executivo. Portanto, o parlamentarismo requer um perfil diferente de representantes do povo.
O voto distrital cria um elo de confiança e um comprometimento claro entre cada representante e seus representados. Os candidatos disputam o voto majoritário em seu distrito. Cada distrito elege um só deputado. E os eleitores daquele distrito podem vigiar e cobrar o seu representante o tempo todo. Esta proximidade do eleitor com seu representante promove a depuração do parlamento. Maus deputados não são eleitos ou são afastados. Veja-se o exemplo do voto distrital nos Estados Unidos. Mesmo em um regime presidencialista, o voto distrital faz uma enorme diferença. Os eleitores de cada distrito tem encontros periódicos, com seus respectivos deputados. Nos encontros, realizados em espaços como prefeituras, salões ou escolas, os eleitores ouvem o que seu representante tem a dizer, discutem suas posições, suas posturas e votos no parlamento. Caso ele insista em se comportar de forma inadequada, os eleitores podem fazer o chamado “recall”. Por meio de um abaixo-assinado que atenda determinados requisitos, os eleitores do distrito podem convocar uma nova eleição distrital. A qualquer tempo. Os eleitores locais poderão, então, decidir por maioria, se mantem ou elegem um novo representante.
Para assegurar que o voto de cada cidadão tenha igual peso eleitoral na formação do parlamento, os distritos eleitorais são divididos por áreas com um número semelhante de habitantes. Isto acaba com o arremedo de democracia que hoje faz um cidadão paulista valer apenas 1/11 avos de um eleitor de Rondônia. (Pelo atual arranjo eleitoral, um eleitor de Rondônia vale por 11,3 vezes mais do que um eleitor paulista, o que é um absurdo.)
Mas, enfim, a resposta é que sim, o Brasil tem solução. Contudo, resta saber quando o Brasil vai abandonar sua histórica mediocridade política e passar a se comportar como um país adulto e responsável.
O que é certo é que logo o Brasil vai ter que fazer mudanças em escala nunca vista. Querendo ou não. Com a monumental crise econômica que se avizinha e sob um presidente despreparado, destrambelhado e boquirroto, um autêntico “burro-ativo” na definição de MacArthur, as mudanças virão por bem ou por mal. O colapso das atividades econômicas, os 20 milhões de desempregados, a pior recessão dos últimos cem anos, são desafios que requerem uma nova postura diante da realidade. O Brasil sairá desta, mas em novas bases. O Brasil velho morreu. E o futuro do Brasil será decidido por uma nova geração, mais bem informada e preparada e pela atitude de seu povo frente aos desafios que logo engolfarão a nação.
. A Democracia por Evidência para fazer um Brasil decente.
Finalmente, para encerrar, penso que chegou o momento de o Brasil abandonar essa mania de querer reinventar a roda. O melhor que podemos fazer é adotarmos as melhores práticas políticas do mundo. Com critério e bom senso. Doa a quem doer. Reconstruirmos nossas instituições com equilíbrio e equidade. Criarmos anticorpos institucionais para acabar com a malandragem rampante que tira dos pobres para dar aos ricos. Um país que valorize a meritocracia, em que os méritos valham mais que o nepotismo e os compromissos partidários. E acreditar que vale a pena. Afinal, temos boas razões para fazermos do Brasil uma nação mais decente e melhor. Afinal, vivemos aqui.
Um símbolo para o Alckmin, inspirado no encantamento da “pá e a rosa” do Brig. Faria Lima.
Para o bem ou para o mal, daqui a poucos meses vamos definir o Brasil que queremos. Aliás, o Brasil que teremos. E são duas as alternativas: um Brasil com juízo ou sem juízo. Um Brasil com sustos ou sem sustos.
De minha parte, depois de sofrer em meio ao maior festival de corrupção da história humana, depois do vendaval de aberrações reveladas pelaLava-Jato, depois da escabrosa desfaçatez da JBS, da obscena transformação do BNDES no banco financiador da corrupção internacional e de outras tantas perversões, depravações e decepções, prefiro um Brasil sem aventuras. Um país com o juízo no lugar. Sem sustos. E isto significa escolher o mais sensato, provado e preparado entre os candidatos.
E, no meu entendimento, os nomes são os que estão na mesa. Dado que as regras impedem que surja um candidato vindo do nada, vamos ter mesmo que escolher entre os candidatos que estão postos. E entre eles, Alckmin pode não ser o mais celebrado ou o mais carismático, mas é a escolha do bom senso.
Agora, aqui entre nós, o eventual candidato Alckmin precisa fazer sua parte. Tenho acompanhado sua presença no Twitter. Eu e mais um escasso punhado de seguidores. O conteúdo é substancial. Alckmin é um realizador. Seu trabalho é, de longe, o mais produtivo e articulado entre os governadores. Mas a abordagem de sua mensagem é ineficaz e insossa. Seu mote “Preparado para o Brasil” é ruim de doer. Vindo de um paulista, soa arrogante e gera ressentimentos em muitos estados. Falo como profissional de marketing que conhece o assunto. Alguém precisa dizer ao governador que ele precisa inverter a polaridade de sua mensagem. Não adiante ele estar “preparado para o Brasil”. A questão é: o Brasil está preparado para ele?
E para não ficar na divagação estéril, acho que duas coisas precisam melhorar no atual posicionamento “utilitário” de sua mensagem: (1) faz falta em sua mensagem uma visão que encante – um “projeto” para o Brasil – que transcenda o valioso trabalho de “zeladoria”, que é de qualidade inquestionável, mas não empolga, e (2) falta em sua mensagem um toque humano. O governador Alckmin precisa de uma “marca” que gere empatia e simbolize seu lado humano, hoje muito apagado para ser notado. Afinal, não temos como fugir da semiótica: se não é “percebido”, não existe.
Neste sentido, lembro que o Brigadeiro Faria Lima, um realizador do calibre do governador Alckmin e, como ele, um “fazedor” que também precisava “humanizar” sua imagem pública, adotou como símbolos a “pá e a rosa” e fez com eles uma marca que o ajudou a se tornar imensamente popular e querido da população paulistana.
A “pá de pedreiro” representava a obra de transformação urbana que o prefeito realizava na cidade; a “rosa” representava o eixo de humanidade que lhe servia como fonte de inspiração permanente, um “leitmotif” que marcava toda a sua obra.
Trazendo estes símbolos para a atualidade, sugiro uma marca que mostre o Brasil na tecnologia digital e resgate a rosa do brigadeiro Faria Lima como símbolo de humanidade. A obra que o Brasil precisa é sua modernização tecnológica. A inclusão do Brasil na era da Inteligência Artificial e a preparação dos brasileiros para a quarta revolução industrial. Todo brasileiro que tem um celular sabe que o futuro está na tecnologia. E sabe que precisa ganhar oportunidades de melhorar de vida no novo mundo da Inteligência Digital (ID) que vem aí. Então, a rosa seria o símbolo deste futuro que todos sonhariam juntos. Sonho de uma revolução tecnológica que mudaria o Brasil, liderada por um presidente competente, um médico com visão humana e preparado para melhorar a vida e o destino do Brasil e de sua gente.
Eureka! Eureka! O Brasil tem solução: é só implantar a moralidade. (Só que vai ter que ser na marra!)
Eureka!, Eureka!, gritava um desvairado Arquimedes correndo nu pelas ruas de Siracusa, na antiga Grécia. O grande matemático tinha acabado de descobrir porque os barcos flutuam sobre a água. E, ao se dar conta do fenômeno que depois se transformou no “Princípio de Arquimedes”, instantaneamente entendeu que aquela revelação transformaria o mundo. Por isto, tomado por uma alegria delirante, não se conteve: pulou da banheira e saiu proclamando a notícia do jeito que estava.
Três milênios depois, cá no Brasil, vemos nosso país navegando às tontas e correndo o risco de ir a pique. Este nosso país, tão lindo e cheio de potencialidades, infelizmente continua cheio de cretinices e boçalidades e se recusa à racionalidade com a teimosia de um jumento empacado.
A luta do país para sair do enrosco é a velha luta do bem contra o mal. Do Brasil velho e curvado de vícios, que ainda se comporta como colônia, contra o país vibrante e moderno da tecnologia e do agronegócio, o Brasil 4.0, que vem aflorando e vai acabar por se impor.
Por felicidade, em 2018 teremos eleições gerais. O país vai poder se repensar. E, quem sabe, reavaliar seus erros e acertos e adotar um novo modelo de política. Oxalá, por meio do voto, possamos nos valer de nosso momento de “Eureka”, um lampejo de clarividência que nos foi legado por Sérgio Porto, o imortal Stanislaw Ponte Preta, quando formulou seu enunciado de como evitar que o Brasil afunde. Seu enunciado é tão óbvio que ulula: “ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade”. Traduzindo: ou afundamos no mar de lama ou adotamos regras de comportamento civilizado em nossa sociedade.
O que Sérgio Porto diz é que não dá para todos os milhões de brasileiros se locupletarem ao mesmo tempo. Simplesmente, não dá. É uma impossibilidade matemática. Então, o único jeito da manter o país flutuando é adotarmos a moralidade. Algo que só conseguiremos fazer se adotarmos uma nova política.
Em um primeiro momento parece difícil. Mas tudo é uma questão de timing. O muro de Berlim não foi “derrubado”. Caiu de maduro quando os alemães orientais decidiram, coletivamente, que não o aceitavam mais. E agora, parece que cansamos do muro de atraso que nos impede de avançar para a modernidade. Estamos fartos da roubalheira desenfreada; estamos fartos desta politica de compadrio, da mistura do público com o privado e da “economia da corrupção”. Cansamos de assistir o rodízio de ladrões que nos assaltam dia e noite. Então a alternativa é botarmos abaixo o anacronismo e adotarmos a civilização. Passarmos a crer na moralidade e abrirmos as portas para a decenciocracia. Para e equidade e para um sistema de pesos e contrapesos para controlar os políticos e o governo.
O sentimento de probidade e retidão deve passar a prevalecer. Não por virtude pela virtude, mas porque um país assentado na malandragem nunca será próspero, nem viável. A cada um segundo sua contribuição, a cada um segundo seu merecimento. A nova ordem dever ser: ninguém mais mete a mão. Ninguém mais fura a fila. É proibido roubar e deixar roubar. E, para cada político corrupto a eleição deve mostrar a porta de saída como serventia da casa, acompanhada da exortação: “Vai trabalhar, vagabundo”.
A democracia disruptiva
A democracia à brasileira tem sido a casamata dos privilégios. O espaço do “me engana que eu gosto”. Demagogos e malandros se passam por democratas para se apossarem do estado e tomarem o poder. O sistema presidencialista e o voto proporcional foi inventado pelo diabo para facilitar a tarefa de enganar eleitor tonto. Trata-se de uma combinação embusteira concebida para fraudar os objetivos da democracia.
E, obviamente, como diz a sabedoria popular, “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte”. Os donos do poder fazem as leis para favorecerem a eles mesmos. É o caso da lei do pirão: “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Foi esta lei que inspirou os “direitos adquiridos” contra o povo! Os “Direitos adquiridos” são contra o povo. Em sua maioria são, na verdade, “abusos adquiridos”. E precisam que acabar.
E enquanto não se resolve a revogação destes famigerados “direitos adquiridos” em causa própria, e não se expurga a respectiva “cláusula pétrea” (a pedra?) do meio do caminho, que ao menos se decida que os privilégios devem ser pagos por último. O direito a hospitais, escolas e segurança, deve ter prioridade. O sibilino “direito” à privilégios e mordomias deve vir depois.
A esta altura seria bom perguntar: você quer mesmo sobreviver no Brasil? Sério? Então tá, e parabéns por sua coragem, mas saiba que o Brasil não é para amadores. E, para escapar incólume nesta aventura um tanto quanto insana, é bom ter em mente que o Brasil é desafiador e inóspito. Especialmente para os incautos e desavisados.
Ademais, sem subestimar o distinto público – e tirando uma suculenta nata de marajás e privilegiados que vivem as delícias das tetas do governo, – a verdade é que mesmo os iniciados se enroscam em grandes dificuldades para sobreviver no Brasil contemporâneo.
Contudo, os ventos estão mudando. E se você quer ampliar suas chances de dar a volta por cima aqui mesmo, vale a pena desvendar alguns segredos desta esfinge chamada Brasil. E, para este exercício, vamos visitar algumas práticas da Cabala.
A Cabala, vale esclarecer, não é panaceia. O uso de suas técnicas pode ajudar a entender o Brasil profundo e evitar muitas das ciladas que ficam à espreitam. A Cabala pode ajudar a navegar em meio as brumas e desafios do conturbado presente e incerto futuro. Mas o resultado vai depender da sua disposição para olhar os fatos com isenção, acuidade e equilíbrio.
As técnicas da Cabala que vamos utilizar se constituem em um filtro da realidade. O seu uso sistemático ajuda a entender a dinâmica das forças que se movem no ambiente de nosso entorno e a dar relevo aos vetores que se formam no seu interior. Forças que se entrechocam, se amplificam e se anulam em um embate permanente até se tornarem dominantes e aflorarem como tendências que influenciam ou até determinam o rumo dos acontecimentos. Identificando estas forças e monitorando sua evolução é possível identificar riscos e ameaças, assim como perceber oportunidades, no contexto social, político e econômico. Detectar oportunidades e ameaças precocemente pode contribuir para melhores decisões no presente e mais acerto na antecipação do futuro. Sempre ressalvando, porém, o que dizia Drucker, “Prever o futuro é impossível. Tudo o que podemos fazer é construí-lo”.
Antes de por a mão na massa, uma última admoestação, este agora de Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.” Resulta então que, posto que nossa circunstância se realiza no Brasil, ou o salvamos ou afundamos todos juntos.
De maneira que é nesta tarefa de desvendar os enigmas do Brasil profundo e penetrar nas entrelinhas de nosso futuro que as técnicas da Cabala vem a calhar. Reitero que a Cabala não substitui uma bola de cristal, nem eu sou o Mago Merlin, mas não custa a gente tentar dar uma espiada nos desvãos do presente e nos pendores do futuro, não é mesmo?.
A cabala, o que é?
Para começar pelo início, a Cabala é uma escola de pensamento esotérico criada na idade média por judeus e formada a partir de uma raiz mística, de conotação religiosa, e que compreende um lado, digamos, telúrico, eminentemente prático e objetivo, com a missão de prestar atenção no entorno social, político e econômico visando a sobrevivência da comunidade. De fato, alguns estudiosos até sugerem que a Cabala religiosa teria sido concebida mais para servir de cobertura ao trabalho dos iniciados que se reuniam para investigar e discutir os riscos a que a comunidade judaica estava exposta naqueles tempos perigosos do que como uma escola de pensamento esotérico alternativo.
De toda forma, o que vamos aplicar em nosso exercício de análise da realidade brasileira é a metodologia que busca desvendar os segredos da realidade.
No processo para entender a realidade circundante a cabala se vale da análise da realidade em quatro diferentes dimensões. Em geral vemos a realidade como um todo, mas assim como um organismo parece único, mas é formado por camadas, órgãos internos e sistemas ocultos, o conjunto da realidade aparente reúne um infinidade de componentes que interagem entre si. Cada uma delas possui características próprias e cabe ao interessado focar cada uma das dimensões de maneira a captar aspectos, detalhes e nuances que irão se revelando ao olhar atento e acabarão por formar um mosaico revelador do conteúdo de cada uma delas. Será a combinação dos diversos quadros que abrirá frestas na realidade aparente, deixando entrever movimentos, sinais e alertas relevantes. A leitura do cenário que resultar desta análise é que irá permitir desvendar o contexto, ensejando compreender o que se torna aparente com suas causas e motores. Em certo sentido, estas técnicas da Cabala permitem examinar a realidade com lentes de aumento.
As quatro dimensões
As quatro dimensões a serem examinadas, uma de cada vez, são as seguintes:
Primeira dimensão: o “Aparente do Aparente”,
Segunda dimensão: o “Oculto do Aparente”,
Terceira dimensão: o “Aparente do Oculto”
Quarta dimensão: o “Oculto do Oculto”.
O Aparente do Aparente.
A primeira dimensão, o Aparente do Aparente, vem a ser realidade visível, o mundo aparente, a coisas que estão à nossa volta e compõe a realidade de nossa vida cotidiana. Nesta etapa o escopo da análise é observar e analisar a composição da realidade em que estamos imersos, ou seja, a realidade material, visível, palpável. Aquela realidade material que percebemos por meio de nossos cinco sentidos. Portanto o somatório de tudo o que é visível e perceptível, incluindo os objetos, as pessoas e suas circunstâncias, os elementos e fenômenos naturais, os eventos e seu encadeamento, as instituições, a cultura, o ordenamento social, as causas e seus efeitos, enfim, tudo o que vemos, tocamos, ouvimos e sentimos diretamente.
O Oculto do Aparente.
Como se sabe, as “aparências enganam.” Como sugere a definição, existem muitoselementos que estão aparentes mas passam desapercebidos. Figuram no cenário, ambiente ou contexto, estão diante de nossos olhos, de nossos sentidos, mas estão dissimulados, estão mimetizados. O mimetismo é um tipo de “oculto do aparente”, sendo uma “estratégia” ou um “truque” da natureza para dissimular e enganar a percepção daquilo que não deseja que se destaque no cenário aparente. O mesmo artifício de esconder-se em meio a paisagem vale no contexto social, onde o engodo e a mentira são parte do processo de disfarçar intenções e encobrir a verdade. Em certas circunstâncias, o disfarce é uma defesa, em outras uma cilada, um golpe, um logro. Formam entre esses elementos interesses, situações, eventos, coisas fora do normal, que intencionalmente ou não,se escondem no panorama. O exame do Oculto do Aparente é mais eficaz seincluir os “ciclos” da natureza, a exemplo da idade, as estações, a maturação e demais fatores que são causa e efeito da vida. Especialmente os atrelados ao um grande processo vital que submete a todos, ou seja, o nascimento, vida e morte.
O jogos de sete erros em ilustrações e o popular “Onde está Wally” são exemplos do Oculto do Aparente, assim como o são as “entrelinhas” de muitos contratos e acordos. Assim como os efeitos perversos de muitas políticas ditas “sociais” e vendidas como “humanitárias”.
No Oculto do Aparente podem se esconder grandes perigos, sendo os mais perigosos precisamente aqueles que se passam por coisas desejáveis.
O Aparente do Oculto
A terceira dimensão– o Aparente do Oculto – engloba tudo o que se encontra oculto, mas pode ser encontrado por uma pista, indício ou sinal que fica aparente. Muitos atributos, qualidades e fenômenos que existem no plano real podem ficar ocultos e não ser percebidos a menos que se observe um sinal ou evidência perceptível. A parte visível de um iceberg é aparente, mas a parte oculta, a parte submersa, é muito maior e mais perigosa, fato que quem conhece, quem sabe a natureza de um iceberg, sabe que abaixo da linha d’água haverá uma massa muito maior de gelo. Para desvendar a parte oculta de um Aparente do Oculto é preciso dispor de conhecimentos sobre a sua natureza e saber decifrar seus sinais. Reconhecendo sinais ou evidências é possível desvendar muito do que se esconde longe dos olhos. Um outro exemplo simples, mas ilustrativo, seria a forma de decodificar o atributo “gelado” de uma dada garrafa de água. Vendo-a pela janela de um freezer não dá para saber se está gelada o não. Mas, caso estiver gelada, este atributo logo vai se revelar se for retirada da geladeira. Ao ser colocada na temperatura ambiente uma camada de condensação irá se formar em sua volta, denunciando sua condição gelada.
O Oculto do Oculto
A quarta dimensão, o universo do Oculto do Oculto, reúne o contexto do invisível e a imensa massa do que não se pode ver, do que não pode ser percebido de forma direta ou por meio de sinais aparentes, mas que, ainda assim, exerce influência sobre a realidade. Por exemplo, a força da gravidade não é fenômeno visível, mas o efeito de sua presença é universalmente notado. O fato do universo do Oculto do Oculto não estar aparente não quer dizer que seja pequeno ou insignificante. Ou, ainda, que tenha pouca influência. Muito pelo contrário.
Se tomarmos como referência o sempre fascinante fenômeno da simetria da Natureza, então podemos considerar que a extensão do Oculto do Oculto representa mais de 90% de todo o conjunto de qualquer realidade que estudarmos. No caso do Universo, a parte oculta representa 95% de toda a matéria existente no cosmo. A “energia escura” representa 74%, enquanto a “matéria escura”, representa 21%. De modo que o somatório de todo o universo visível, todas as galáxias e constelações existentes, perfazem não mais de 5%.
Bem, podemos agora fazer um giro pelas quatro dimensões da Cabala para desvendar o Brasil.
O ideal seria que pensássemos em conjunto, buscássemos eixos de análise e chegássemos a conclusões compartilhadas, mas como este artigo é obra pessoal, vou apresentar o meu ponto de vista, mas sinta-se convidado a concordar, discordar e a apontar sua visão pessoal.
Fase 1 – Análise do Aparente do Aparente
O cenário do Aparente do Aparente no Brasil é desolador.
O Brasil continua atordoado. Continua perdido. Tentando levar a crise com a barriga. Não tem um projeto nacional. Não tem uma visão de futuro. Não formou um consenso sobre o que é disfuncional ou está errado e, assim, não compartilha de um programa sobre o que precisa ser mudado, ou que reformas devem ter prioridade. O mundo político brasileiro é de uma mediocridade acachapante. Desalentadora. Poucos políticos se dispõe a enfrentar os problemas reais e a maioria, os cabeças de bagre, acham que os problemas se resolverão sozinhos. A reforma da previdência é um caso de chorar na sarjeta. Como pode o país aceitar que os trabalhadores rurais precisem esperar os 70 anos para s aposentar com um salário mínimo enquanto muitos marajás se aposentam aos 50 anos de idade, ganhando salários integrais de 30, 40 ou 50 mil reis mensais, vezes 13?!!! Aliás, outra “esperteza” bem tupiniquim é publicar o salário nominal mensal e esconder o seu verdadeiro montante, sem incluir os benefícios, 13º salário, etc. e etc. Nos Estados Unidos se divulga sempre o valor anual dos ganhos, devidamente totalizados.
Um país que aceita esta desigualdade não tem um eixo moral claro. Vivemos em uma situação bucaneira, um salve-se quem puder, onde cada um pega o que pode. A devassidão, que não nasceu no governo petista, mas foi aperfeiçoada por ele, nos levou para a maior crise de nossa história. Entramos em um atoleiro onde ainda permanecemos. Momentaneamente existe um certo alívio e uma sensação de que teríamos chegado ao fundo do poço. O país até dá alguns sinais de lenta recuperação. Mas é um sentimento ilusório. Sem consertar o problema fiscal, em especial a previdência, a rainha do buraco das contas públicas, não vai demorar para voltarmos à queda livre, posto que o problema fiscal continua a puxar o país para o despenhadeiro. O lado dos números são eloquentes. A meta para o déficit primário do governo para 2017, bem como para 2018, é de R$ 159 bilhões. O desemprego tem 12 milhões de desempregados, 5,1 milhões de empresas estão inadimplentes (das 7 milhões existentes), o país registrou em 2016 61.619 mortes violentas, o maior número de homicídios da história. A piora do Brasil foi dramática nos últimos três anos. Em 2016, 24,8 milhões de brasileiros viviam na miséria, espantosos 53% a mais que em 2014, segundo revela o IBGE. Após o início da crise econômica, 8,6 milhões de brasileiros adicionais passaram a viver com menos de um quarto do salário mínimo por mês. A população com renda de até meio salário mínimo chegou a 36,6 milhões de pessoas. É muito sofrimento e miséria para um país com o potencial do nosso. E tudo por burrice pura, por teimosia e desvios inescrupulosos criminosos. E por insistirmos em requentar falsas soluções que jazem no cemitério dos fracassos comprovados.
Contudo, para uma análise equilibrada, em meio ao desastre que nos assola, o país mostra que tem um lado positivo: a inflação caiu a 3% ao ano; a balança comercial tem tido superávits significativos; também nossas reservas são altas. E, o mais importante, temos áreas de excelência. Um agronegócio robusto e crescente. Muitas de nossas empresas industriais mostram que somos capazes de engenho e arte. Algumas se mostram altamente competitivas no mercado internacional, a exemplo da Embraer, Tramontina, Fanem, Weg e outras.
O Governo Temer?
A questão do Governo – Tudo indica que o Presidente Temer vai terminar seu mandato, ainda que com algumas turbulências. Existe disposição dos brasileiros de aguentar este governo porque ele acaba em um ano e não está piorando as coisas. Ao contrário, mostra coragem em promover algumas reformas indispensáveis. Seu índice de aprovação dificilmente vai passar do 10 ou 15%, mas para um país que sobreviveu a Lula e Dilma, o presidente Temer é um alívio.
O Congresso?
A Câmara dos Deputados – A câmara ainda não decidiu se vai tomar vergonha. O projeto da reforma de previdência ficou para 2018. Ano de eleição. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia está surpreendendo pelo bom senso e equilíbrio. Poderia ter se aproveitado das denuncias de Janot para tentar sentar na cadeira presidencial. Tinha chances e bons pretextos, mas sofreou seus instintos políticos. Agiu com espírito público, pensando no país. Vai sair da crise como uma nova liderança confiável e consolidada. Tem grande futuro.
O Senado – Sem o carbonário Renan Calheiros, que perdeu de vez a confiança do país naquela manobra medonha para salvar a elegibilidade de Dilma na sua cassação e não tem mais cacife para criar problemas, parece que vai dar guarida para as reformas necessárias. Nada espetacular, mas um mínimo de sobrevivência.
O Judiciário?
O Judiciário – O Juiz Moro é a grande figura do judiciário. Mas não esta só. A decisão de marcar o julgamento do recurso apresentado por Luiz Inácio Lula da Silva no processo do tríplex em Guarujá para 24 de janeiro de 2018, dá ao Tribunal Regional da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre um relevo especial e indica que a justiça compreendeu que o Brasil não pode mais ficar paralisado no aguardo de decisões que vão definir seu futuro. O STF, por seu turno, tirando um ou outro indigitado que eructa mofo no dia a dia, vem dando para o gasto. E no STF muito do mérito cabe à sólida presidência da Ministra Carmen Lúcia.
A Polícia Federal e o Ministério Público Federal tem, igualmente, contribuído para que o país ainda se mantenha confiante nas instituições. Vivem disputando poder, mas se o usarem para o bem do país, menos mal.
A sociedade empoderada: O fato novo de 2017 é que a sociedade percebeu que pode se mobilizar e ir para a rua para pressionar pelas mudanças necessárias. Se o governo “pisar no tomate” ou sair dos trilhos, a sociedade da internet não precisa mais do que 24 horas para bater panelas ou encher as ruas e encurralar o governo. É possível prever que vamos ter muitos panelaços e manifestações em 2018. A sociedade já deixou claro que não tem vocação para ser bom cabrito.
Por tudo isto, o sentimento dominante na sociedade é o de moderada expectativa para 2018. Um sentimento que pode não resistir se o congresso aprontar trapalhadas na questão da reforma da previdência em fevereiro de 2018. Um fracasso na reforma fará a economia desandar e uma nova onda de desanimo poderá ter consequências desastrosas.
Fase 2 – O Oculto do Aparente
O que está claro é que vamos ter um monte de candidatos a presidente em 2018. Passado o Carnaval vão surgir as candidaturas. Em janeiro se saberá se Lula estará concorrendo. Duvido. A data escolhida para o julgamento, dez dias antes do “tríduo de Momo”, já indica como foi bem arquitetada a operação “Saca Lula”. Nota 10, com louvor, para os Juízes da 4ª Região (TRF4).
Vetores do atraso:
Dado que, no Brasil, a diferença entre esquerda e direita tem sido sempre a maneira de roubar, com a esquerda ganhando disparado nos quesitos mistificação e volume roubado, o povo se vê indefeso. Prefere a democracia direta. Gosta de votar, mas hoje reconhece que o governo que menos roubou foi o militar. Aliás, o governo militar foi combatido pelos mal intencionados precisamente por não deixar roubar. Felizmente o país tem mostrado maturidade para perseguir opções democráticas e não precisa recorrer aos militares.
A velha política, travestida de esquerda e direita, ainda vai tentar voltar em 2018. Não sei se notaram, mas pela esquerda, o lado que promete que o estado vai ser o provedor de tudo grátis, Lula, o ogro dos cafundós, está em campanha. É irregular, mas e daí? O Ogro tem feito o circuito dos grotões vociferando com a mais esganiçada eloquência que sua voz espectral ainda consegue. Mas tudo o que vem mostrando é que virou gagá. Está velho demais para liderar no grito. O tempo em que ganhava no gogó se foi. Aliás, líderes que se apoiam no intelecto, como FHC são mais longevos. Lula, ao contrário, sempre foi um líder do tipo “vamo que vamo”. Hoje, parece um arremedo, um cartum do que era. Sua liderança agora é do tipo “vão indo que eu já vou”. Falta a ele o tônus vital. É patético vê-lo como caricatura de si mesmo, escalafobético, tentando empinar um carisma que não lhe pertence mais. Que não passa de um resquício da que teve um dia. É verdade, o candidato ainda rosna e tenta gesticular no estilo “Eliscóptero”, mas seu balanço desengonçado está um bagaço. Possivelmente terá ainda votos de seus eleitores vetustos sobreviventes. É triste, mas muitos deles estão morrendo aferrados a uma ilusão que lhes logrou por décadas. As novas gerações, contudo, não se deixarão empolgar por um líder encanecido, que se apresenta trôpego e demagógico, além de pendurado num histórico de corrupção. Isto se for candidato, o que é bem provável que não seja.
Vetores de Modernidade:
Quando Temer indicou Raquel Dodge para o cargo de Procuradora Geral da República ele fez o que estava ao seu alcance para responder ao ímpeto acusatório de Janot, uma figura maquiavélica que era leal ao regime petista e que tentara todos os truques e malvadezas para desestabilizar o governo que sucedera o de sua musa. Acontece que a nova Procuradora, a escolha possível nas circunstâncias, tinha sua própria agenda. E Temer vem descobrindo que está sendo forçado a dançar pela música da nova Procuradora Geral. Dado que o propósito da Procuradora está alinhado com a agenda da parte civilizada da sociedade, a PGR pode ser uma fonte de energia a somar no vetor modernizador da sociedade.
Fase 3 – O Aparente do Oculto
Vamos começar pela figura dos “laranjas”. O sítio de Lula em Atibaia, como todo mundo sabe, é do ex-presidente, mas está em nome de dois “laranjas”: Fernando Bittar – filho do amigo de Lula e ex-prefeito petista de Campinas Jacó Bittar – e Jonas Suassuna, ambos sócios de um filho de Lula,
De fato, todo o “laranja” pode ser definido como um “Aparente do Oculto”.
O Brasil tomou gosto pelo oculto nos tempos coloniais. Hoje apreciar o oculto, entender o oculto, se incorporou ao DNA brasileiro. Sobreviveu trezentos anos ocultando tudo o que podia da metrópole. No Brasil colonial nada se podia produzir às claras, nem sabão. Daí, para sobreviver, desenvolveu uma tecnologia insuperável para lidar no campo do oculto. E sabe ocultar melhor do que ninguém. O governo, claro, sabia disto e respondia com a “derrama”, que era um confisco aplicado em Minas Gerais para desovar o ouro oculto e assegurar o teto de cem arrobas anuais na arrecadação do quinto. (Aliás, o “quinto”, como se sabe, era chamado de “quinto dos infernos” pela população e correspondia a um imposto de 20% do ouro encontrado e que devia ser enviado diretamente para a Coroa Portuguesa).
A contrapartida é que nosso sistema jurídico aprendeu a desencavar o oculto. O instituto da “denúncia premiada”, por ironia aprovado no governo da Dilma, tem sido extremamente eficaz neste mister. Fato reconhecido pelo saudoso Ministro Teori Zavascki ao definir o “fenômeno das penosas”: “a gente puxa uma pena e vem uma galinha”.
Agora, o que tem de corrupção “oculta” no Brasil é uma grandeza. Onde quer que se jogue luz, ali se encontra um galinheiro.
Fase 4 – O Oculto do Oculto
O Oculto do Oculto é o contexto que não temos como tocar, mas que nos toca sem mesmo sentirmos. Ele é imenso e insidioso e nos cerca como uma atmosfera cujo ar respiramos sem nos darmos conta. No espaço do Oculto do Oculto opera a “flecha do tempo”, a inexorável marcha da vida que obedece à segunda lei da termodinâmica.
O Oculto do Oculto encobre o rio da existência que segue, impávido, sua corrente e, em suas águas, seguem nossos destinos. O Oculto do Oculto nos oferece as circunstâncias e o tempo para nele vivermos buscando superar nossos desafios e aproveitar nossas oportunidades, enquanto o tic-tac de nossos dias vão sendo contados e cada momento desperdiçado se perde na entropia para não voltar mais.
Imenso e insidioso, seu principal conteúdo é constituído de energia invisível e das forças em movimento. Assim como o mundo em que vivemos é constituído por uma natureza que pode ser, a um tempo generosa ou hostil, nos oferece um meio-ambiente feito de solo, água e ar, assim o mundo do Oculto do Oculto é constituído por elementos desta mesma natureza e aos quais se soma a humanidade e os elementos da cultura, valores, crenças e expectativas para formar grupos humanos que compartilham destinos comuns e se desdobram em um ambiente que nos abraça e determina muito das nossas circunstâncias a que aludia Ortega e Gasset.
No caso da atmosfera em que estamos imersos, ela nos permite sobreviver graças ao ar e, especialmente ao oxigênio, enquanto nos protege do vácuo e estabelece o clima em que vivemos, ditados pela umidade, o calor e o frio. Esta atmosfera, entretanto, também pode ser afetada pela poluição e pela pestilência de elementos químicos e biológicos indesejáveis. Similarmente, no espaço humano do Oculto do Oculto, a cultura é o oxigênio. O tempo e a temperatura nos são dados pela civilização, sua moral e ética, seus conhecimentos e tecnologia, enquanto seus poluentes são a bestialidade, a selvageria, o medo, o ódio e a inveja. Na luta sem fim entre o bem e o mal, que nos acompanha desde os primórdios dos tempos, o propósito do mal é, e sempre foi, se dar bem praticando o mal para sobreviver às custas do bem.
Embora o Oculto do Oculto pareça ser predominantemente esotérico, já vimos que muito de seu conteúdo é dado pelos aspectos da materialidade da vida.
Somos seres sociais e não temos como escapar de nossa condição humana. Para Hobbes a existência humana é balizada por dois impulsos fundamentais: o medo da morte violenta e da falta das coisas necessárias para uma vida decente. São estas duas as necessidades que levam ao contrato que cria o estado, posto que o homem entende que é do seu interesse dividir e compartilhar a vida social para chegar ao bem comum, o que implica aceitar regras sociais de convévio e exercer o autocontrole.
Mas uma coisa é aceitar a necessidade do estado para organizar a vida social e outra é aceitar a predisposição de muitos para “tirar vantagem” do estado em proveito de si próprios e dos seus comparsas, segundo o velho adágio bem brasileiro: “para os amigos, tudo; para os outros, a lei”.
Para botar ordem na casa, então, existe o tal “estado de direito”, que seria o império da lei, a que todos estariam submetidos, mas que, segundo o Ministro Gilmar Mendes, se explica por quem manda mais, se o rabo ou o cachorro.
Para interpretar as forças e tendências do Oculto do Oculto num dado momento da sociedade é preciso ter uma visão do inconsciente coletivo e do conjunto dos inconscientes pessoais, representado pelos sentimentos e ideias reprimidas, desenvolvidas durante a vida dos indivíduos. O inconsciente coletivo é um conjunto de arquétipos ou conceitosprimordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. Por exemplo, o medo de aranhas pode ser transmitido por meio do inconsciente coletivo. Mesmo no primeiro contato o medo de aranhas pode se manifestar de modo irracional, com falta de ar e até desmaio. Felizmente a “aracnofobia “(medo de aranhas), assim como a “catsaridafobia” (medo das baratas), podem ser vencidas com o aprofundamento dos conhecimentos sobre como lidar com elas. Na verdade, a pessoa não tem consciência de porque age de uma ou outra forma, mas herda uma predisposição para reagir ao mundo da maneira como que seus ancestrais reagiam. Este reservatório de ideias e sentimentos primitivos pode ficar adormecido por muito tempo, mas nas circunstâncias certas pode ser despertado e produzir estragos bem significativos, inclusive o preconceito, o fanatismo e o temido “efeito manada”.Um político sem escrúpulos pode soltar e instrumentalizar estes sentimentos. No Brasil, Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, e Lula, o molusco dos Cafundós, se mostraram os mais hábeis manipuladores destes sentimentos obscuros que solapam a viabilidade de uma boa ordem social.
Colocadas estas preliminares, no mundo atual civilizado, os seres humanos vivem em ambiente social, politico e econômico que passa por grande transformação. Hoje a prosperidade é uma escolha ao nosso alcance. Quem quer que caminhe pala lógica e pelo bom senso pode aspirar satisfazer as suas necessidades e alcançar a realização plena. Como o atendimento destas necessidades não vêm ao homem prontas e acabadas, o psicólogo Abraham Maslow organizou uma hierarquia, a “Pirâmide de Maslow”, para demarcar uma sequência, um ordem, na conquista dessas necessidades do ser humano.
A Pirâmide de Maslow é dividia em cinco níveis de necessidades. Na base estão as necessidades fisiológicas e de sobrevivência, como a respiração, a sede, a fome, o sexo. Um degrau acima está a segurança e a defesa, depois as necessidades sociais, amizades e família. No quarto degrau estão a estima, a autoestima, a confiança e as conquistas. No quinto e ultimo degrau estão a auto-atualização, a criatividade, a autenticidade, a espontaneidade, a expressão artística
Vivemos em uma época em que, graças ao progresso, aos avanços da tecnologia e do conhecimento humano, seria possível a toda a humanidade sobreviver e progredir e, mais do que isto, subir aos mais altos degraus de sua realização pessoal desfrutando de abundância, sem necessidade de praticar o mal, piratear, tirar dos outros ou escravizar alguém; sem matar, nem roubar, enfim – o que é uma situação inédita da história o homem. O que é frustrante é observar que, no Brasil, ainda teimamos em trilhar os caminhos da ignorância, em cultivar valores bárbaros de uma sociedade de predadores. Enquanto os chineses seguem o ensinamento de Deng Xiaping, que diz que “ser rico é glorioso”, nós abominamos os ricos e fazemos a opção pela pobreza. Ora, ser pobre é fácil: basta ser indigente contumaz, basta agir com desprezo pelos conhecimentos da civilização e fazer como se faz em Cuba ou na Venezuela. Ou seja, pensar com pobreza e agir com pobreza faz a gente acabar pobre. Mas nossos “líderes” políticos, com algumas exceções, pouco estão se lixando em mudar o destino dos pobres. Eles não pensam em abrir caminhos que criem riqueza. Muitos tem pavor de que os pobres fiquem ricos e descubram a mediocridade de seus “líderes”, uma cambada de ignorantes de meia tigela, e lhes deem um merecido pontapé nos fundilhos. Como patifes que são, corruptos, bandoleiros e salteadores por alma e vocação, muitos se acumpliciam com o fim de enriquecer por pilhagem. Este o pano de fundo da realidade oculta com que temos de lidar. E por isto, no Brasil, é preciso ficar com os olhos bem abertos. Nesta terra onde canta o sabiá, os tontos estão ferrados e os bobocas vão se “daná”. Aqui a credulidade aleija e a ingenuidade mata. Não temos escolha. Precisamos educar nosso povo e criarmos defesas para nos protegermos dos vendilhões do templo.
Mas, então, estamos condenados a correr atrás do rabo séculos afora? Estamos condenados a esta vida miserável de criminalidade incontrolável, de corrupção sem peias, de mortes por atacado que vemos crescer à nossa volta e a tomar conta das franjas de nossa sociedade?
Não. De modo algum. Se nos unirmos todos, se voltarmos a empunhar nossas panelas, se sairmos em defesa da civilização como saímos para combater o petismo que nos afundou e enchermos as ruas com nossa determinação, venceremos o atraso.
O desafio está em desvendar a esfinge e compreender a natureza e o peso do Oculto do Oculto em nossa sociedade.
Precisamos identificar o inimigo para saber contra o que e contra quem lutar.
Talvez seja o caso de dizer como Pago, o personagem dos quadrinhos:“Encontramos o inimigo e ele é nós”…
Na verdade, o maior dos inimigos que enfrentamos são os que Hobbes identificou: o medo da morte violenta e da falta das coisas necessárias para uma vida digna. Somos uma sociedade acuada pelo medo. E o medo é mau conselheiro. O medo leva ao desespero, leva ao pânico, leva ao salve-se-quem puder. O medo leva à debandada, ao estouro da boiada. E sem um mínimo de ordem, estamos perdidos.
Lula, o grande mistificador, o mestre das trevas e ignorâncias, enganou o país dizendo que a “esperança venceria o medo”. Mentira, não foi a esperança que venceu o medo, foi o embuste. Foi o logro. Foi a enrolação. E por culpa de sua má fé e da arrogância de sua pretensão o Brasil, o Brasil mergulhou na maior tragédia de sua história. A pobreza, que nunca foi debelada, apenas mitigada por esquemas artificiosos e sem sustentação, volta ainda mais cruel. A desesperança volta a apertar os corações de nossa gente. Contudo, os brasileiros não querem abandonar a esperança e nem querem abandonar seus sonhos legítimos. Então cabe a cada brasileiro que tenha percepção de nossa tragédia e de suas causas, ajudar a mostrar que existe um caminho para a prosperidade. O que não existe é um paraíso instantâneo, uma solução mágica. É chegado o momento de fazer escolhas difíceis. De plantar as sementes de futuro, de adubar o solo com trabalho, com denodo e com justiça.
Os milhões que perderam seus empregos, os milhões que se vem abandonados nas filas dos hospitais, que perderam sua dignidade e que caminham pelas sombras da desesperança merecem destino melhor.
E então, que podemos esperar do Oculto do Oculto para 2018?
Considerando os fatos que preparam o cenário político e econômico para 2018 é possível olhar para as energias acumuladas e as frustrações e especular algumas possibilidades.
O cenário político, em especial, pode ter uma previsão sem erro: dificilmente as multidões, especialmente os desempregados e os mais jovens, vão aceitar serem jogadas ao relento. Especialmente depois de terem sentido o sabor das ruas e terem feito valer o peso de sua opinião no impeachment da Dilma.
O novo papel da Internet
Na década de 70, no século passado, Marshal McLuhan cunhou uma expressão que adquiriu nova atualidade com a Internet: “O meio é a mensagem”.
Ele queria dizer que a forma de como uma mensagem era transmitida criava uma linguagem própria e gerava uma relação simbiótica que influenciava a maneira como a mensagem é concebida e percebida.
O modo instantâneo como as mídias sociais “aceitam” ou “recusam” uma ideia permitem que as coisas aconteçam de forma também instantânea.
E neste processo de endosso ou recusa de uma ideia, elas acabam funcionando como um filtro do que as pessoas querem. Neste sentido o Vice-Primeiro Ministro de Singapura, Tharman Shanmugaratnam, acredita que as mídias sociais e a Internet estão criando uma “Mão Invisível Social”, com impacto equivalente à “Mão Invisível da Economia” de Adam Smith.
– O alcance da mensagem, que tem uma amplitude incomparável;
– A velocidade com que impacta os acontecimentos;
– A dispersão dos comunicadores por todo o universo de usuários. Quem quer que queira comunicar algo tem como fazê-lo de forma direta
– O usuário desta mídia aprende a separar a notícia boa do “Fake News”;
– O custo irrisório desta mídia faz com que esteja ao alcance de milhões de pessoas, permitindo alcançar massa crítica de comunicação rapidamente.
Conclusão: a eleição de 2018 deverá ser uma montanha russa de emoções. Fatos novos deverão surgir e mudar o cenário em curtos intervalos. Mas o grande quadro do “Oculto do Oculto” continuará como um oceano de conteúdo que acabará por fazer prevalecer suas tendências mestras. A volta do pensamento conservador é um fato. Se vai, ou não, empolgar o voto jovem depende da forma como vai ser apresentado. Se vier a bordo de um projeto de país alinhado com a Revolução 4.0, que mostre um caminho de prosperidade com as novas tecnologias, vai ser como um tufão que empolgará a imaginação do país, como aconteceu com o governo de Juscelino, que se tornou invencível com a lançamento da indústria automobilística e de Brasília. E aqui não faço análise de seu valor ou conveniência.
E os temas?
Os temas para a eleição de 2018 ainda não foram colocados. Assim, as escolhas ficam na dependência de muitas incógnitas. Especularia com alguns cenários possíveis:
Primeiro: – Lula condenado
A escolha de 24 de janeiro para o julgamento de Porto Alegre prenuncia disposição para a condenação. Se Lula for condenado, vamos assistir ao maior espetáculo de esperneio da história. Mas janeiro é o mês de morte da política. O pessoal de férias, as praias cheias, o carnaval se avizinhando, tudo isto significa repercussão morna, qualquer que seja o resultado.
Para o país, Lula fora do páreo significa arejar o ar e mudar o disco. Fecham-se as cortinas do passado petista e encerra-se a agenda de conceitos medievais em que se baseava. Significa abrir uma nova senda, introduzindo o retorno par o futuro no debate. Caso não seja condenado ou, mesmo condenado, conseguir manobrar para continuar candidato, o debate seria dominado pelo mofo de um retorno a um passado que não deu certo, Pior, as forças contra o petismo iriam correr atrás dos galinheiros que existem ao montes por aí. E voaria pena para todo lado. Uma nova leva de revelações da Lava Jato se encarregaria de cortar as asas do candidato. Não tem erro. Ainda tem muita falcatrua a ser descoberta e muita corrupção a aflorar. O país sofreria um novo abalo.
Segundo: A reforma do previdência passa?
No atual quadro, dificilmente. Os deputados teriam que ser confrontados pelas forças vivas da sociedade. Empresariado, especialmente, que é o grupo com visão estratégica e que tem noção de onde vamos parar seguindo nesta loucura. Mas nosso empresariado não é do tipo confrontador. Do setor financeiro, que tem desfrutado de opulência e lucrado mesmo na crise, não deve vir nada.
Mas, e a economia aguenta? Os políticos parecem dispostos a pagar para ver. Se a reforma da previdência não passar, esta tímida recuperação da economia vai ser um voo de galinha adoentada. Lembrem-se: a economia não se defende. Ela se vinga. E sua vingança será maligna. Imaginem uma nova onda de crise, nova queda de avaliação das agências de rating, nova queda de investimentos, um aumento do desemprego, uma inflação em retomada em plena campanha. Existe, contudo uma compensação para alegria dos sádicos: uma demora maior vai significar um rombo maior e, quando a sociedade decidir cortar de vez os privilégios, mergulhada na bagunça e no descontrole, o corte será mais profundo e radical. Se os privilegiados tiverem bom senso vão preferir perder os anéis para salvar os dedos. Melhor mudanças sob controle do que com a faca no pescoço. Hoje, a mudança seria pacífica e ainda asseguraria alguns privilégios. Mais à frente, poderá não ser.
Terceiro: Ressurge o anseio por um governo “forte”, militar.
Bolsonaro é o nome dele. Mas Bolsonaro tem perfil de um sargentão. Dificilmente sua política de “prendo e arrebento” vai conquistar a maioria. E outra coisa, Bolsonaro é um rústico em economia. Sua visão de manter o estado presente na economia é igual a do PT, e é nas estatais que começa a corrupção.
Quarto: Surge um movimento pelo novo.
Existe um grande anseio pelo diferente, pelo novo. Mas poucos se dispõe a um salto no desconhecido. A melhor prova disto foi o que aconteceu com o Dória. Se ele, que tem o melhor perfil entre todos os possíveis candidatos “novos” não decolou (acho que ele não seria candidato para valer, dado seus compromissos de lealdade com o Alckmin e com a Opus Dei); e nem o Luciano Huck, que seria o “outsider”, é pouco provável que venha a ser a vertente dominante.
Quinto: A opção pela continuidade
Temer tem zero chance, mas Henrique Meirelles até poderia ser a continuidade, caso o governo Temer virasse a economia. Foi a economia e o Plano Real que elegeu FHC pela primeira vez. Infelizmente, as chances de uma reversão econômica para valer já estão comprometidas. O congresso liquidou com as reformas e uma reforma meia boca em março não irá produzir grande mudança. Meirelles parece acreditar em suas chances, no que faz muito bem, contudo ele precisaria de um “banho de loja” radical para ser visto como competitivo.
Sexto: A escolha segura
Depois de tantas reviravoltas o eleitorado cansou de girar feito pião. E o candidato que melhor veste o figurino da segurança é o Governador Geraldo Alckmin. Se for capaz de neutralizar a rejeição a uma “solução paulista” de parte do eleitorado “dor de cotovelo” que tem por todo o país, e se for capaz de articular um projeto de país que aponte para o futuro, ganha fácil.
O “timing” vai escrever o roteiro
A campanha, que já está iniciando, entra em banho-maria até março. O Brasil nunca se mobilizou antes do carnaval. Nenhuma revolução, ou grande evento político, teve impacto antes do “Triduo de Momo” no Brasil. O julgamento de Lula vai mexer apenas com seus seguidores mais fiéis. A maior parte do país nem vai tomar conhecimento.
Ele lidera as pesquisas? Sim. Neste momento, como seria de esperar, ele concentra o apoio da esquerda e do pessoal do pântano. Só que as pesquisas já mostram todo o seu potencial politico. E não é suficiente para ganhar um eleição em segundo turno. Ponto.
O evento mais importante do primeiro semestre será a votação da reforma da Previdência. Dela vai derivar todo o desdobramento a ser observado na economia, com reflexos na política. Se for aprovada, criará um clima de otimismo que vai dar uma lufada de ar fresco na economia e no humor do país. Se for recusada, ou adiada para o dia de “São Nunca”, o clima de desalento pode gerar turbulência e, aí, será bom por as barbas de molho.
Faço votos de que 2018 seja auspicioso para todos.
Ou viramos a página de uma vez ou sofreremos a maldição de Sísifo*
De onde menos se espera, de lá é que não sai nada mesmo.(Apparício Torelly, o “Barão de Itararé”)
O fato é que o Brasil é um país único. Um país sui generis, que dá um tiro no pé e depois reclama que está difícil de caminhar.
Em certo sentido, somos especiais. Temos uma natureza privilegiada e um potencial inigualável. Somos o quinto maior território e a quinta população do mundo; temos 200 milhões de hectares de terras agricultáveis e mecanizáveis; somos campeões no agro negócio; fabricamos aviões como gente grande; nossa economia é a nona do planeta (mas já foi a sétima). Em contrapartida, gostamos do atraso. Somos afeiçoados mesmo. Basta dizer que ocupamos um obsceno 80º lugar no Ranking Mundial de Produtividade. (E olha que melhoramos uma posição em relação ao ano passado!). É vergonhoso dizer, mas o crescimento da produtividade no Brasil foi, segundo a CNI, de 0,6% ao ano, entre 2002 e 2012. Na Coréia do Sul, no mesmo período, o crescimento foi de 6,6% ao ano. O que o Brasil levou 10 anos para crescer a Coréia do Sul cresceu a cada ano. Em compensação, nosso salário real continuou a subir muito acima da produtividade – cresceu 1,8% ao ano – e como desgraça pouca é bobagem, tivemos a maior apreciação da moeda doméstica – o Real valorizou-se a uma taxa de 7,2% ao ano, jogando água em nossa competitividade.
E bota anacronismo nisso!
Em resumo, somos um fenômeno de anacronismo. Grande porção do país ainda vive mergulhada no atraso. Temos regiões onde grassa o coronelismo colonial e onde ainda vicejam crenças da idade média. Quarenta anos depois ainda somos um “Belíndia”, como definiu Edmar Bacha em seu ensaio de 1974, referindo-se a um Brasil com áreas de desenvolvimento Belga convivendo com outras de pobreza indiana.
O que assombra é que aceitemos um sistema que favorece os trapaceiros da política. Nosso regime político foi desenhado como um queijo suíço, com buracos para facilitar a corrupção. Os privilégios e as mordomias são espantosos. A desfaçatez é escandalosa. É assombroso que aceitemos engolir este presidencialismo de “coalisão”, que cheira a quadrilha e que nos mantém em crise permanente.
Infelizmente, somos presa fácil dos demagogos e charlatães da política. O propósito de enricar com dinheiro público, desviando do erário, sempre foi a grande motivação de grande parte dos políticos brasileiros, notadamente os dos grandes grotões do norte e nordeste, regiões em que a política é a maior atividade econômica. E é nelas que reside a grande reserva nacional de atraso. É contando com elas que Lula e sua trupe de bucaneiros, aventureiros, corruptos, saltimbancos e malabaristas sonha em voltar ao poder. Ameaça vã, que o país rejeita, como os rejeitou com o impeachment da Dilma, mas que ainda move suas mentes peçonhentas.
Seremos, como Sísifo, condenados a combater a corrupção por toda a eternidade?
Nossa leniência nos faz vítimas recorrentes. A cada geração os brasileiros tem precisado mobilizar-se contra os piratas da política em nosso país. Jânio, em 1960 prometia varrer a corrupção. Seu símbolo era a vassoura. Os versos de seu jingle “Varre, varre, varre, varre vassourinha / Varre, varre a bandalheira / Que o povo já ‘tá cansado / De sofrer dessa maneira” empolgaram o país. Era o que o povo queria ouvir. Mas ele avaliou mal, preferiu dar um golpe no congresso acreditando que o povo ficaria do seu lado e se deu mal. Veio Jango e os comunistas se assanharam. O povo pediu e os militares botaram os comunas para correr. O governador Brizola, genro de Jango, o mesmo que, depois, institucionalizou a criminalidade nos morros do Rio de Janeiro, fugiu para o Uruguai vestido e mulher. Coisa de “coração valente” e vergonha pouca. Tivemos ainda o Collor, que prometia acabar com os “marajás”. Pilantra e sacana, até hoje, se refestela com dinheiro público. Pouco tempo atrás se descobriu que sua mansão em Brasília, a “Casa da Dinda” é mantida com verbas do senado. Se bem que é coerente: é preciso bem conservar a frota de carros de luxo, um Lamborghini Aventador (R$3,2 milhões); uma Ferrari 458 (R$ 1,4 milhão) Uma Bentley Flying (R$ 975 mil), e um Range Rover (R$ 570 mil), que a PF diz terem sido pagos com recursos de propina, e que, mesmo assim, estão sob a “guarda” do senador por Alagoas, o mesmo estado do notório senador Renan Calheiros.
Enfim, não fosse nossa leniência, de que outro modo explicar a resignação com que engolimos 13 milhões de desempregados e 5 milhões de empresas sufocadas e inadimplentes neste país fantástico onde jorra leite e mel? Tínhamos que estar indignados. Tínhamos que estar enfurecidos. Tínhamos que estar na ruas.
Acontece que nossa índole é de povo manso. De povo dócil. Acostumado a engolir desaforos sem piar. A ser açoitado no tronco sem gemer. Esta passividade é nosso mal. Os políticos corruptos e os habitantes do pântano do planalto contam com ela. Eles, os políticos corruptos que pululam em Brasília, estão agora mesmoplanejando um novo golpe na decência. Pensam em enfiar goela abaixo do país uma nova legislação para dificultar o combate à corrupção. Os paspalhos acham que vai dar. Que não estamos atentos. Acham que o impeachment de Dilma foi uma exceção causada pela inabilidade da dita cuja, cujos erros foram além da conta. Erros que eles, mais ladinos, mais malandros, mais “espertos”, não tencionam repetir.
Penso, entretanto, que laboram em erro crasso. Querem continuar mamando e corruptando. Desafiam a paciência da nação. Brincam com fogo e com o país e vão sofrer as consequências.
…
Exorcizando o erro
O que entristece é que temos tudo para dar certo. Ainda assim nossos políticos teimam em cometer desatinos, em perseverar em erros históricos, em flertar com os desacertos que são a razão de nosso atraso.
Mas, então, por que insistem em fazer errado?
A razão é simples: fazem errado porque fazer errado tem sido um bom negócio. Porque a ocasião faz o ladrão. Porque preferem se locupletar sem esforço.
E por que não mudamos o regime e passamos a fazer o que é certo?
Bom, aqui podemos voltar ao perspicaz Barão de Itararé, “Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”.
Para começar, o que está errado no Brasil é que as elites do atraso é que comandam o país. E estas não querem mudar. Fingem que mudam, mas só de mentirinha. Felizmente, para as gerações jovens, estão envelhecidas e no seu ocaso. Infelizmente, delas não se pode esperar mais nada.
Vejam o governo Temer. O presidente está mais para um caricatura do que para um estadista. Seus ministros são mais sinistros do que ministros. O congresso é mais um convescote de predadores do que uma instituição a serviço do país.
Mas ainda assim, não duvide, o Brasil vai mudar. Afinal, nada levanta um traseiro mais depressa que fogo em baixo do banquinho!
O tsunami que o governo do PT/PMDB produziu no Brasil apresenta números de estarrecer. Após três anos andando para trás, o brasileiro ficou 10% mais pobre. E o estrago ainda perdura: 7 mortes violentas por hora (por hora!), bilhões desviados por corrupção, criminalidade nas alturas, angústia e sofrimento generalizados. Até nossa proverbial fleuma tropical vem perdendo a paciência. E os brasileiros, chamuscados, cansaram das labaredas queimando sob seus banquinhos. Até porque, convenhamos, a pilantragem que nos esfola passou dos limites.
Bem, mas o que fazer?
Deixar como está para ver como é que fica não é opção. Precisamos reconhecer que nossa democracia não é funcional. E que temos que mudar nossa forma de fazer politica.
Três passos fundamentais para desatar o nó que prende o país ao atraso:
1. Mudar a eleição da Câmara de Deputados do sistema proporcional para o distrital. Parece pouco, mas o efeito é mágico. 80% destes deputados não se elegeriam no sistema distrital. Os partidos se reduziriam naturalmente a três ou quatro. O sistema distrital muda a forma e a lógica da escolha. A eleição em um distrito mobiliza as forças locais. Os candidatos saem da comunidade e são escolhidos e apoiados por gente que os conhece. Pode ser um professor, um empresário, um clérigo, um médico. Mas dificilmente será um rufião, um safado, um corrupto, um palhaço. A comunidade saberá distinguir entre um candidato sério e um pilantra.
2. Mudar para o sistema parlamentarista. Um parlamento eleito pelo voto distrital tende a agir pensando no melhor para suas comunidades e para o país e não no melhor par si mesmos. Este compromisso com seu país e seu povo pode ser observado na maioria dos países do primeiro mundo. Todos parlamentaristas, exceto os EUA, onde o presidencialismo também vive em crise permanente. Engraçado que esta gente que tanto detesta os americanos foi copiar exatamente o que os EUA tem de errado.
3. Reequilibrar a representação na Câmara dos Deputados. Não é democrático que o voto de um roraimense valha dez vezes o voto de um paulista. Esta desproporção afeta a representatividade do sul e desequilibra o parlamento, onde a maioria do norte e nordeste se especializou em tirar proveito dos estados do sul. Isto não é saudável e não se sustentará no longo prazo. Infelizmente este desequilíbrio foi produzido no governo militar por um general metido a gênio, mas nada democrata, o “bruxo” Golbery do Couto e Silva, que dizia: “São Paulo já tem o poder econômico, então não pode ter o poder político”. Esta tese é antipatriótica ao extremo. Ela pressupõe que os outros estados estão condenados a serem pobres eternamente. Ademais, esta aberração, além de antidemocrática é preconceituosa e precisa ser corrigida.
Estas correções sistêmicas vão ocorrer. Por bem ou por mal. A mudança de gerações no Brasil sempre foi traumática, dado que os mais jovens sonham com uma revolução, mas o que recebem é a conta deixada pelos mais velhos. Os déficits colossais do atual governo vão ser empurrados para os jovens. E eles serão sacrificados na crença de que “bom cabrito não berra” ao ser morto e esfolado. Será? Os jovens brasileiros vão se deixar esfolar sem berrar? Duvido.
E de distorção em distorção, nossa política insana construiu um sistema político perverso, aberrante, concebido e desenhado para não dar certo.
Somos uma obra prima do atraso
O resultado é que temos hoje uma obra prima do atraso, uma obra prima do compadrio. Um regime feito sob medida para favorecer a corrupção. Não temos uma democracia de verdade. Os brasileiros não se sentem representados. O que temos é um arremedo de fancaria, uma alegoria que acoberta um balcão para negociatas.
Só que os tempos mudam. O tempo das ilusões acabou. As novas gerações não vão aceitar pagar a conta das estripulias das gerações perdulárias que as antecederam. E vão querer mudar as regras do jogo, por bem ou por mal, como outras o fizeram antes. Cansaram dos piratas de cara de pau, dos políticos incompetente e corruptos, dos idiotas, patetas, palhaços e trapalhões que o voto proporcional elege.
A sociedade mobilizada e o povo nas ruas começaram por demolir a república petista. Mas não se mobilizou para entregar o poder a Temer e seu bando de espertalhões. Não foi para isto não!
Outra coisa: muito se engana quem pensa que o povo enfiou a viola no saco e sossegou. O povo agora tem a internet e está equipado com as mídias sociais. O burburinho online mostra que está mais atento e mais bem informado do que nunca. O povo pode ainda não saber bem o que quer, mas sabe com clareza o que não quer. O povo cansou de estripulias e vem rejeitando os demagogos e rufiões. E não quer mais do mesmo. Cansou de ser o bode que não berra e engole a corrupção, a indecência e a grossa burrice do regime que temos.
O debate está apenas começando. E a internet vai ser a nova ferramenta de mudança. A mão invisível da mídias sociais vai fazer a diferença.
Ano que vem tem eleições. Preparem-se porque vai ser um vendaval. E aposto que vamos debater e esconjurar a corrupção. Chegou a hora de virar a página. Chega de atraso, que ninguém merece.
Ceska – O digitaleiro
(*)PS. – Como se sabe, Sísifo, na mitologia grega, foi condenado, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que estivesse quase alcançando o topo, a pedra rolava montanha abaixo novamente até o ponto de partida, invalidando todo o esforço despendido.
A eleição de 2018 vai dizer se o crime vai deixar de compensar no Brasil
“Queremos ir ao Céu, mas não queremos ir por onde se vai para o Céu” – Padre Vieira
Uma metamorfose mudou a natureza da crise brasileira. Saímos da décrisis e agora estamos em uma sincrisis. Resta ver se esta metamorfose vai também mudar o Brasil.
Como se sabe, os gregos dividiam a crises em dois tipos: a décrisis e a sincrisis.
Por décrisis entendiam o tipo de crise em que as coisas vão piorando até colapsar ou explodir de vez. Até que se dê a ruptura do status quo. É a crise dominada por forças desagregadoras que se entrechocam, rompem a coesão interna e, por fim, dilaceram o organismo ou a sociedade onde se instalam. Foi o que aconteceu com o regime do PT e o “governo” da “Presidenta” Dilma. A queda da Dilma foi o ponto da inflexão. Foi o momento em que se deu a metamorfose e a décrisis se transmudou para sincrisis.
O PT havia se convertido na intersecção da corrupção, do acesso ao dinheiro sujo e ao poder político desvirtuado. Abandonou seus propósitos moralistas quando se deixou tomar pela ganância sôfrega, pela ambição sem peias, enfim, quando mandou os escrúpulos às favas. Ao decidir “comprar” tudo e todos entrou numa aventura doida demais. Apostou contra o Brasil e perdeu o jogo. Convém lembrar, entretanto, que os comunas e a esquerda profunda desprezam a moral burguesa e acham que o capitalismo é ilegítimo, o que justifica tirar dos que tem e do governo. Acreditam que não se trata de roubo, posto que, para eles, os fins justificam os meios. Quanto ao povo, nosso ingênuo e crédulo povo, este se tornou vítima da espoliação e foi escalado para cobaia da tal “nova matriz econômica”, um experimento grotesco de “moto perpetuo” na economia.
A economia não se defende. Ela se vinga!
Foram desmandos e mais desmandos, mas o fato é que o PT, ébrio de cobiça, inescrupuloso e sem noção, não aprendeu que a economia, assim como a natureza, não se defende. Ela se vinga. Não tem discurso que anule a melancólica realidade: não existe “almoço grátis”. O PT, contudo, deu de ombros. Continuou a gastar sem limites e a agir como o selvagem de Montesquieu, aquele que derruba a macieira para comer a maçã. Só o despreparo, a imaturidade basbaque e a cretinice rotunda da mal informada Dilma para achar que “fazer o diabo” para ganhar a eleição não teria consequências. Teria e teve.
A farra da gastança desregrada, a roubalheira desenfreada, a corrupção sistemática, o voluntarismo inconsequente, a arrogância e a prepotência foram ingredientes que entraram na décrisis petista e tornaram o Impeachment da Dilma um fato irreversível. A implosão final de seu governo era prenunciada pelo cheiro de enxofre no ar. Quem tinha um mínimo de pudor se afastava. E o crescimento do tumor da décrisis ia assustando todo mundo. No final os estertores do governo petista foram um espetáculo dantesco. Formou-se uma unanimidade anti-Dilma. Todos, menos um “resti di galera”, um grupelho de debilóides, perceberam que era questão de vida ou morte. Ou tiravam Dilma ou afundariam todos.
O mais notável é que a nação em si não correu o risco de colapso. A economia sofreu, e ainda sofre, claro. É sempre mais fácil destruir do que construir. Mas as instituições, bem ou mal, funcionaram, funcionam e vem dando conta do recado. Por seu lado, a sociedade civil se mobilizou, enchendo as ruas e cobrando providências. Os milhões na rua davam clara demonstração de que estavam atentos e tinham reservas cívicas para encaminhar o fim da crise. Outro ponto positivo é que as forças armadas não precisaram entrar no processo de colocar ordem na casa. Mas seu silêncio sinalizava que estavam alertas e prontas. Se as coisas fugissem ao controle, agiriam. Não tenham dúvida.
E agora, o que vai ser?
Estamos em uma encruzilhada e a eleição de 2018 vai dizer para onde vamos.
Pela definição dos gregos, a fase da crise em que estamos mergulhados agora tem os contornos de uma sincrisis.
E toda a sincrisis começa com uma catarse, a purgação ou purificação por que deve passar a sociedade para reencontrar seu eixo moral. Trata-se do processo de contrição e expiação que abarca políticos, servidores e empresários corruptos, mas não se resume a eles. Os brasileiros que votaram para eleger Lula e Dilma (e que, de contrabando, também elegeram Temer) igualmente precisam fazer o mea culpa. Este processo catártico é doloroso e requer grande dose de equilíbrio para que não se jogue fora o bebê com a água do banho. É preciso punir os culpados e rever procedimentos, mas deve ser depurado e aproveitado o que possa ser recuperado.
A grande incógnita: o comportamento dos eleitores em 2018.
Eleições tem a ver com escolhas. E com propostas.
E como sabem os que lidam com pesquisas de opinião, a escolhas em uma eleição tendem a ser guiadas pelos vetores dominantes no debate social.
O debate, a rigor, já começou. As mídias sociais são o fator novo no grande debate e terão pesodecisivo. Os vetores do debate tendem a cristalizar-se em volta das opiniões dominantes e vão balizar as alternativas disponíveis. Os grupos sociais, estimulados pelo debate, vão fazer sua escolhas e apoiar as propostas mais em consonância com seus interesses. As mídias sociais vão filtrar e sedimentar o sentimento nacional. E vão apoiar a economia de mercado e respaldar o sentimento anti-corrupção. Aliás, já vem fazendo isto…
Dois temas dominantes: a economia e a corrupção.
A questão da corrupção vai ser importante, sem dúvida, mas a economia deverá ser o mais importante dos temas da eleição.
O eleitorado, hoje mais amadurecido, parece ter aprendido uma lição com a degringolada do governo petista. A lição é que, no final, nós é que pagamos a conta. E que governar não é fazer mágica. Governar é agir pesando as consequências e pensando no bem geral.
Mas sabemos que ainda tem muita gente que vai apoiar os demagogos. Ainda tem gente que acredita em Papai Noel e que existe um jeitinho malandro de obter benefícios sem pagar a conta.
E, ao fim e ao cabo, todo o debate vai, mais uma vez, girar em volta do dilema proposto pelo saudoso Stanislaw Ponte Preta: “Ou nos locupletamos todos, ou implante-se a moralidade.”
Se der a lógica, se decidirmos ser um país sério, o melhor candidato para a presidência deverá ser um político experimentado, comprovado, bem intencionado, sério e bem avaliado. Hoje, em minha opinião, o melhor nome que o país tem é o do Governador Geraldo Alckmin. Afinal, é consenso de que o estado melhor governado do país é o de São Paulo. E seria lógico, portanto, imaginar que o país todo desejasse ser como São Paulo. Mas não tenhamos ilusões. Vai ter quem prefira a mediocridade. Vai ter quem prefira turvar as águas para continuar tirando vantagens e nadando na malandragem.
É doloroso reconhecer, mas nosso debate político ainda vem patinando em ideias dos anos cinquenta do século passado. Ainda assim, o movimento pendular de nossa história nos dá esperanças. Jânio prometeu varrer a sujeira e sua vassourinha. Empolgou a nação, conquistou o imaginário nacional e ganhou a eleição. (Sua renúncia foi uma traição ao seu eleitorado…). O movimento militar veio apoiado pela maioria da sociedade e prometeu um governo sério. (Em 20 anos acabou desgastado, mas hoje todos reconhecem que foi sério e fez muito pelo país.). Collor ganhou prometendo acabar com os Marajás. (Revelou-se um engodo. Ele virou o Rei dos Marajás. Teve sua décrisis, foi impichado, mas foi seu vice, o Itamar Franco, que assumiu e fez o Plano Real.). Fernando Henrique Cardoso se elegeu prometendo fortalecer o Plano Real. (Cumpriu o que prometeu e entregou um país arrumado ao Lula.). Lula, que parecia ser gente boa, foi nossa recaída no populismo. (Sua “carta aos brasileiros” foi apenas mais uma mendacidade de um mentiroso contumaz.). Quanto a Dilma, ela não passou de uma pedra no caminho, de um poste eleito por um marketing charlatão.
Resumo da ópera: sim, dá para ter esperanças. Mas, no fundo mesmo, o que vamos decidir na eleição de 2018 será se aqui, na Terra de Santa Cruz, o crime ainda vai compensar ou se, de uma vez por todas, vai deixar de compensar para sempre!
O Plano Real 1.0 – A Estabilidade – Promoveu a estabilidade da moeda e livrou o Brasil de uma inflação crônica que parecia invencível. O êxito inconteste deste plano deu novo alento ao país e assegurou mais de uma década de prosperidade, além de ter vacinado o país contra a inflação. Os efeitos do Plano Real 1.0 vem perdurando e abarcam toda a sociedade. Hoje o Brasil é unânime em dizer: “Inflação Nunca Mais”.
Agora precisamos de um Plano Real 2.0 – A Decência – para vencer a corrupção. Este mal chegou a um nível de infecção generalizada e compromete todas as instituições do país. O executivo está atolado em escândalos e o presidente só escapou de ser processado por negociar no congresso apoios despudorados e por exercer o presidencialismo de cooptação em sua plenitude mais viciosa. O congresso, para juntar o insulto à injúria, vêm com esta proposta que o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), considera um “desaforo”: a criação de um fundo público com R$ 3,6 bilhões para financiar campanhas. Os escandalosos salários e vantagens de altos dignitários do executivo, do legislativo e do judiciário são um escárnio diante das dificuldades e carências do país e mostram que os escrúpulos simplesmente desapareceram do três poderes. Desalentado, o país se vê vitima de absoluto desrespeito, sofre com seus 13 milhões de desempregados e vê milhões de cidadãos lutando para sobreviver em meio a maior crise da história, enquanto enfrenta carências de toda a ordem, na saúde, na segurança pública, nos transportes, na educação e em tudo o mais.
Em paralelo, o congresso, de composição medíocre, da qual se salvam alguns poucos, se mostra incapaz de oferecer qualquer perspectiva para o país. Mergulhado em profunda perplexidade, parece caminhar às tontas.
A Indignação em ponto de erupção
Existe um nível elevado de indignação na sociedade brasileira. E se a população não está nas ruas isto não significa que está aceitando o atual estado de coisas. Não está. E não se enganem, se a população não está nas ruas é porque não quer protestar só por protestar. Uma vez afastado o perigo mais imediato, que era o desvario da ex-Presidente Dilma, a população está se guardando para sair em apoio a uma causa que valha a pena. Poderá ser uma ideia. Poderá ser um líder. Mas é no vazio de alternativas que mora o perigo. Assim, antes que as multidões se deixem seduzir por algum maluco ou aprendiz de incendiário é preciso oferecer um projeto de moralização do Brasil. Um plano bem estruturado e bem orientado, que una e motive as pessoas. Um Plano Real 2.0, que continue a transformação virtuosa do Plano Real 1.0 e agora se oriente para a moralização do país. Um plano que tenha as virtudes do Plano Real 1.0, como bom planejamento e implementação equilibrada. Um plano, enfim, que tenha o sincero propósito de implantar uma nova cultura de decência no Brasil.
E assim como o Plano Real 1.0 trouxe para o Brasil as boas práticas da gestão monetária adotadas no primeiro mundo, o Plano Real 2.0 deveria se espelhar nas melhores práticas políticas dos países democráticos do primeiro mundo. Chega de jabuticabas. Está na hora de acabarmos de uma vez com esta mania de tentar reinventar a roda a golpes de parvoíce.
Plano Real 2.0 – FHC deve ser o líder.
Precisamos vencer o dilema que nos amarra à mediocridade: “Somos corruptos porque somos atrasados ou somos atrasados porque somos corruptos?”
Vencer e afastar a corrupção é a tarefa prioritária da nacionalidade. Chegou a hora de ouvirmos o que Sérgio Porto, o imortal “Stanislaw Ponte Preta”, dizia ser a nossa escolha: “Ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade.” E alertava para o fato de que, se fizéssemos a primeira opção, o planeta não teria dinheiro suficiente para saciar a voracidade de nossos corruptos.
Felizmente o Brasil tem o homem certo para liderar a formulação de um Plano de Moralização e produzir um consenso na sociedade brasileira. O Presidente Fernando Henrique Cardoso já provou que sabe conduzir com bom senso e equilíbrio um plano capaz de mudar fundamentos equivocados do país. FHC já prestou muitos serviços ao pais, mas o Brasil deve pedir mais este serviço ao Presidente do Real. Ao líder que resgatou nossa moeda, que acabou com nossa inflação alucinada, pediríamos que formulasse as diretrizes para o Plano Real 2.0, o plano que teria a finalidade de encaminhar as mudanças no rumo da moralização e da modernização de nossas instituições.
Evidentemente, uma vez feito o plano sob liderança de Fernando Henrique Cardoso, caberia a sociedade apoiar as mudanças constitucionais necessárias e ao eleitorado escolher o executor da grande transformação do país.
De minha parte, acredito que o político mais provado, experiente e capaz de liderar a implementação do plano seja o governador Geraldo Alckmin. Sua administração em São Paulo é evidência de sua capacidade como realizador. E sua liderança firme e de pés no chão é o tipo de liderança que um plano como este precisaria para ser bem sucedido. Um plano sólido, implantado com base no bom senso e em práticas comprovadas nos países de referência democrática, seria capaz, finalmente, de nos livrar da praga da corrupção e de levar o Brasil a cumprir, finalmente, seu destino de grande país. E que teria orgulho em proclamar: “Corrupção no Brasil, nunca mais”!
…
PS. Diversos comentários questionam como um Plano Real 2.0 poderia se contrapor às mudanças da tal “reforma política”, ora em gestação no congresso. A resposta está na “Lei de Camões” (Como escrita em “Os Lusíadas”):
“Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor maior alto se alevanta”
Se houver apoio popular suficiente, o mundo político encontrará os mecanismos legais para fazer valer o Plano. Uma nova musa que se levante sempre irá deslocar a antiga.
Cerimônia de Assinatura do Convênio entre a SUDELPA e a ECT. Na foto: 1- Governador Laudo Natel; 2- Cel. Adwaldo Botto; 3- Antônio Castilho; 4- O autor (Celso Skrabe); 5 – Secretário do Governo (Não tenho o nome)
Era uma vez um país que tinha um correio.
Era o melhor correio do mundo. O povo todo confiava. Tudo funcionava como um relógio. O presidente da instituição, um sergipano “porreta”, tinha uma máxima que virou um mantra: “correio é horário”.
Os outros países, acostumados com a malemolência brasileira, no começo ficaram pasmados com a transformação daquele correio vira-latas. – Seria o “super-homem”?– Depois, ainda incrédulos, se perguntavam como podia existir um correio daquele calibre no país das maracutaias, da selva amazônica, do sertão profundo, do pantanal intransponível, das estradas intransitáveis? Finalmente, se renderam. No Correio do Brasil, o homem que mandava sabia das coisas. Não demorou e a surpresa virou admiração. O respeito internacional cresceu tanto que logo chamaram aquele mago das cartas e encomendas para mostrar como se faz um correio funcionar.
Em 1984, no Congresso de Hamburgo/Alemanha, o Presidente da ECT, Coronel Eng. Adwaldo Cardoso Botto de Barros foi eleito Diretor Geral (Presidente) da UPU – União Postal Universal. A UPU é o órgão da ONU, com sede em Berna, na Suíça, que regula e organiza os correios de todo o planeta. Era o reconhecimento do mundo pela competente transformação nos Correios do Brasil. E tão operosa foi a gestão do Coronel Botto na UPU que a entidade lhe garantiu a reeleição por mais 5 anos, em 1989.
De minha parte, conheci bem o Coronel Botto. Tudo começou quando ele ainda dirigia o Correio de São Paulo, conduzido ao cargo por indicação pessoal do Presidente Castelo Branco.
Eu, em meus verdes vinte e sete anos, trabalhava na antiga AEG Telefunken, onde atuava na área comercial de equipamentos de rádio comunicação em SSB. Estes rádios funcionavam em ondas curtas e usavam apenas meia banda, o que os tornava mais leves (para a época…) e podiam ser instalados em estações fixas ou em veículos, como caminhonetes, ônibus e embarcações. Também podiam ser usados para fonia ou para telegrafia sem fio. Neste último uso, combinando diversas frequências para compensar variações de propagação, eram tão confiáveis quanto a telegrafia tradicional, com fio de cobre.
Um dia, acho que foi em agosto de 1971, logo cedo, ao chegar no escritório que ficava junto ao parque industrial da empresa, instalado em grandes prédios na Avenida Nossa Sra. do Sabará, em São Paulo, a secretária me passa um telefonema:
– Está no telefone uma pessoa que se diz diretor do Correio e quer falar com alguém da área comercial.
– Ok, pode passar a ligação.
Do outro lado da linha ouvi o Coronel Botto, embora naquele momento não soubesse de quem se tratava.
– Bom dia. Sou Celso Skrabe, consultor da área de rádios SSB.
– Bom dia. Meu nome é Adwaldo Botto, mas todos aqui me conhecem como Coronel Botto. Sou o diretor dos Correios aqui em São Paulo e gostaria de saber se vocês teriam condições de nos emprestar dois rádios SSB no período das férias de verão. Podem ser rádios usados ou de demonstração.
Eu fiquei intrigado. Sabia que o correio não usava rádios para seus serviços de telégrafo. Era uma coisa que já me havia chamado a atenção e que eu atribuía ao nosso atraso tecnológico. Na verdade, eu já tinha fornecido rádios para a Funai, para a FAB e outras instituições que os usavam para comunicação na selva e que, frequentemente, faziam o envio de mensagens da população local. Estas instituições, contudo, reclamavam, já que não tinham infraestrutura para entregar as mensagens aos destinatários. Para fazer o envio precisavam repassar os telegramas para o Correio, acarretando demora desnecessária em mensagens urgentes e ônus para as instituições.
Enfim, fui em frente:
– Bem Coronel, se eu entendi certo, o que o senhor quer é que emprestemos dois rádios SSB no final do ano, de novembro a março. Seria isto?
– Sim. Eu gostaria de instalar um dos rádios em Ubatuba, no litoral, e outro aqui em São Paulo para fazermos um teste para nossa área de telegrafia. Hoje não temos um único telégrafo instalado no litoral paulista. Em nenhuma cidade. E, durante as férias, a população cresce muito e reclama da falta de comunicação. E, para piorar, as cidades do litoral também não tem telefone. Ubatuba tem apenas uns poucos telefones públicos e a espera de uma linha para uma ligação, nos meses de verão, pode levar horas. Ir de ônibus é mais rápido do que telefonar. Na alta estação demora duas, três, as vezes quatro horas.
Era verdade. Quando iniciou o governo militar, em 1964, as comunicações no Brasil eram uma coisa medieval. Este estado de coisas ainda perdurava no início da década de 70. Me pareceu, desde logo, que meu interlocutor queria fazer algo para amenizar isto.
Respondi então:
– Posso verificar se temos equipamentos disponíveis e preciso consultar nossa diretoria para saber se podemos atender. – E lembrei de um detalhe – Se eu conseguir os rádios, o correio já tem as frequências? – No caso, os rádios precisavam de cristais para fazer a modulação. Estes cristais eram feitos sob medida para cada usuário e dependiam de licença do DENTEL.
O Coronel Botto, então, confidenciou:
– Olha, eu preciso que vocês me emprestem também as frequências. O correio não tem frequências autorizadas pelo DENTEL para uso em telegrafia e eu, como diretor regional, não tenho autoridade para solicitá-las. Minha ideia é que, se conseguirmos fazer uma conexão de telégrafo sem fio bem sucedida, talvez eu possa quebrar a resistência contra o uso de radiotelegrafia no correio e argumentar para a liberação de seu uso com nossa presidência. Se conseguir demonstrar que a radiotelegrafia funciona acredito que possamos comprar rádios para todas as localidades do litoral paulista hoje sem telégrafo. Talvez possamos comprar rádios até para outras praças não atendidas.
Esta questão das frequências me parecia mais complicada do que conseguir os dois rádios. Duvidava que o Dr. Cardoso, nosso presidente, fosse aceitar que instalássemos frequências de teste em rádios que seriam usados para telegrafia pelos correios. A empresa era alemã e seguia normas estritas do que se podia, ou não, fazer. E como o empréstimo de frequências não estava previsto nas nossas autorizações do DENTEL, dificilmente seriam autorizadas. Não era formalmente proibido, mas ficava no limbo legal e eu teria que consultar nossa assessoria jurídica. Traduzindo: era proibido tudo o que não estivesse formalmente permitido.
Aí resolvi pedir uns dias para verificar meios de atender ao que o coronel me solicitava. E, como estávamos em pleno regime militar, me atrevi a perguntar:
– Coronel, o senhor, com seus contatos no governo, não teria meios de liberar umas duas ou três frequências junto ao DENTEL, mesmo que em caráter provisório?
A resposta do coronel foi direta:
– Exatamente aí é que está o problema. Falar em telegrafia por ondas curtas aqui no Correio é tabu. Não é que eles desconheçam uma tecnologia que, desde antes da guerra, está em uso em todo o planeta. Mas tem muito dinheiro envolvido nas redes telegráficas de cobre. E tem muita gente lucrando com elas. Assim, jamais eu conseguiria formalizar um pedido de frequências ao DENTEL. Eu não consigo autorização nem mesmo para pedir frequências provisórias. Ao contrário, seu eu mexer errado, posso por tudo a perder e ser proibido expressamente de testar o uso dos rádios. Aí meu projeto vira fumaça e você perde a chance de vender rádios para o Correio. Venha me fazer uma visita eu explico o que está acontecendo.
Caramba, pensei com os meus botões, aí tem algum mistério da “mão invisível do mercado”. Não a mão invisível descrita por Adam Smith, claro, mas aquela outra, bem brasileira, inventada pelo capeta!
Foi a esta altura que tive um estalo e liguei as pontas. Ocorre que, por uma destas coincidências que mostram que Deus ainda não tinha desistido do Brasil, eu havia acabo de fechar a venda de uma rede de rádios SSB para a Sudelpa, a Superintendência de Desenvolvimento do Litoral Paulista. Precisamente a agencia estadual criada para fomentar o desenvolvimento do litoral de São Paulo, onde, claro, se situa a cidade de Ubatuba. Não era preciso ter o QI do Einstein para perceber que havia uma coincidência de interesses: o Correio queria instalar um telégrafo em Ubatuba e a Sudelpa ficaria muito feliz se contribuísse para a instalação do telégrafo em Ubatuba. Afinal, o que mais poderia contribuir para o desenvolvimento da região a curto prazo se não instalar o telégrafo dos correios na época das férias que se avizinhavam? E, ainda mais, a um custo praticamente zero?
Ademais, a Sudelpa tinha as frequências de SSB já concedidas e até já tinha recebido alguns dos rádio comprados. Todos, entretanto, da versão móvel, instalados nas caminhonetas, que foi a prioridade solicitada. A conclusão lógica saltava aos olhos: se o governo do estado cedesse os rádios e emprestasse uma ou duas das suas frequências teríamos resolvido o problema. Ubatuba teria telégrafo funcionando na alta estação e o Coronel Botto poderia mostrar que a solução funcionava.
Por um momento pensei em consultar informalmente o superintendente da Sudelpa, Antônio Castilho, sobre a ideia, mas achei que deveria antes saber como o Coronel Botto veria esta alternativa de solução. Liguei marcando uma visita e, no dia seguinte, na hora marcada, (sete da manhã!) fui vista-lo em seu escritório, no antigo prédio dos Correios, no início da Avenida São João.
Na manhã friorenta do dia seguinte o Coronel me recebeu em sua sala e, após uma conversa introdutória, foi direto ao assunto:
– A direção nacional dos Correios fica no Rio de Janeiro. E lá, na alta direção, existe uma máfia dos fios de cobre. O presidente é um militar da reserva, mas de patente maior que a minha, e só posso supor que ele também está envolvido no esquema. O pessoal lá do Rio sabe que se ficar provado que os rádios de ondas curtas em SSB podem atender nossa necessidade com telegrafia sem fio, na mesma hora acaba todo o negócio deles e, junto, terminam as propinas milionárias que eles recebem. O esquema é perverso porque o custo de implantar o serviço de telegrafo com fio tradicional é astronômico. Para qualquer localidade são quilômetros e quilômetros de fios e milhares de postes a serem instalados. Além do sistema depender de conexões e triangulações intermináveis, com o repasse de telegramas. Chega a ser ridículo o número de erros nas mensagens repassadas. Sem falar no roubo constante dos fios, fato que requer reposição constante e consome todos os recursos de expansão. E sem dinheiro expansão não há. Desde que estou aqui não implantamos nenhuma nova estação no estado. Por isto, pelo sistema tradicional, o litoral paulista vai levar ainda muito anos para receber o serviço de telégrafo. Infelizmente, para os dirigentes da estatal nada disto importa. Daí meu cuidado em tentar uma operação discreta. Precisamos mudar este estado de coisas, mas se o pessoal da máfia do cobre descobrir o que estou tramando, me impedem ou me demitem na hora.
Ainda retruquei:
– Mas coronel, sendo o senhor indicado para a Superintendência dos Correios em São Paulo pelo presidente não seria o caso de recorrer a ele?
– Eu fui indicado pelo Castelo Branco. Tenho bons amigos no governo, mas não tenho a mesma intimidade com o presidente atual. E depois, a situação não é tão simples. Esse pessoal da máfia tem controle sobre a empresa e seus projetos e existem muitos interesses envolvidos. O sistema de telegrafia sempre foi a vaca leiteira da corrupção aqui nos Correios e tem muita gente mamando. Eles não vão largar o osso assim fácil. Sei que tenho a confiança do governo, fui colocado aqui pelo Presidente Castelo Branco, mas prefiro agir de modo a criar fatos consumados e usar a evidencia para forçar as mudanças. Seria desperdiçar a janela de oportunidade que temos se abrir uma guerra interna, um conflito em que a causa maior dos correios e das comunicações pode ser sacrificada em meio a uma luta politica.
Agora dava para entender o dilema do Coronel Botto. Em resumo, se ele tentasse furar o bloqueio da máfia do cobre de peito aberto, possivelmente seria demitido. Mesmo com o ministro e o presidente da República desejando ficar ao seu lado, a realidade é que havia todo um jogo de interesses políticos e militares conspirando contra ele.
A solução imaginada pelo Coronel Botto, assim, era estrategicamente brilhante. Se fizesse funcionar satisfatoriamente uma estação de radio telégrafo no litoral paulista, uma só que fosse, abriria uma brecha na represa da corrupção e a pressão da demanda iria forçar a mudança na política e alterar o jogo. De fato, como alguém iria se colocar no caminho de uma solução que custava menos de 1% do método tradicional, era muito mais versátil, tinha implantação rápida (dias ao invés de anos) e era altamente lucrativa?
O Brasil do início dos anos 70 ainda estava em lua de mel com o governo militar. Os velhos cabides de antes da revolução, como os Correios, esperneavam e resistiam tanto quanto podiam, mas, no caso dos correios, o fim do empreguismo e da corrupção estava à vista e a era de ouro estava em marcha. O coronel Botto era um destes homens providenciais, o homem certo na hora certa. Engenheiro, bem preparado, íntegro, patriota, ansiava por melhores comunicações para o país e sabia que os correios precisavam dos recursos a serem gerados pela expansão dos serviços de telégrafo. O ponto chave de seu plano, contudo, era fazer as evidências falarem por si sós. E para conseguir isto era preciso, como repetia sempre, “navegar abaixo da linha do radar”.
O coronel, a esta altura da nossa conversa, me convidou para ir tomar um café em uma padaria ao lado. O café aos funcionários fora reduzido e só seria servido as dez horas. Enquanto sorvíamos o café cheiroso daquelas máquinas “Monarca”, típicas dos bares paulistas da época, expliquei a ideia de falarmos com a Sudelpa e o governo paulista para atendermos seu plano de conseguir o empréstimo de dois rádios SSB equipados com as frequências. O coronel ouvira falar da Sudelpa, a Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista, mas não tinha conhecimento exato de sua função. Quando terminei de explicar o que aquela instituição fazia e como poderia se associar ao seu plano para levar telegrafia sem fio ao litoral de São Paulo, ele virou um dínamo de entusiasmo. Seus olhos brilhavam:
– Se a Sudelpa ajudar os correios a operação está garantida. Ubatuba vai ter telégrafo e, depois, vamos conectar todo o litoral.
Em face da manifestação de entusiasmo nem precisei perguntar: a autorização para falar com a Sudelpa estava concedida.
A confiança do Coronel Botto era uma coisa contagiante. Em geral comedido nos gestos, no entusiasmo do momento ele tirava e colocava os óculos sem parar e gesticulava como um napolitano na Festa di San Gennaro.
Assim que nos despedimos peguei meu fusca azul, estacionado ali nas imediações, e subi a Avenida Angélica, onde ficava a Sudelpa.
Me dirigi direto à secretária e pedi para falar com o Dr. Castilho.
A moça me olhou com se eu tivesse chegado de Marte.
– O senhor tem hora marcada? O Dr. Castilho deve estar chegando e já tem um pessoal esperando por ele para uma reunião.
Eu nem precisei argumentar. O superintendente estava entrando e, ao me ver, veio me cumprimentar com aquele ar de pressa educada. Estava esbaforido e em cima da hora.
Antes que me descartasse fui logo falando:
– Dr. Castilho, sei de sua reunião e não quero atrapalhar, mas o assunto que tenho é uma oportunidade única e eu precisaria dois minutinhos de sua atenção reservada.
Achei que ele me mandaria voltar mais tarde, mas eu ainda devia estar sob a influência do entusiasmo do Coronel Botto, que era uma coisa contagiosa, e o Dr. Castilho resolveu me conceder os dois minutinhos.
Fomos a uma sala contígua e eu expliquei resumidamente o que tinha a dizer. Os olhos do Dr. Castilho quase saltaram das órbitas.
– Mas esta é uma oportunidade fantástica! Eu estava precisamente procurando maneiras de mostrar serviço lá na região. Vamos topar com certeza. Pode contar comigo.
Eu me apressei a marcar um próximo passo:
– O senhor estaria disposto a ter um encontro pessoal com o Coronel Botto para conversar?
– Sem dúvida nenhuma. E gostaria que fosse o quanto antes. Acontece que eu tenho uma reunião com o secretario nos próximos dias e gostaria de levar a ele esta ideia já mais elaborada.
– Se o senhor me autoriza, ligo agora de seu gabinete e falo com o Coronel e vejo quando podemos marcar.
Enquanto o Superintendente entrava em sua reunião liguei para o Coronel. Expliquei o resultado do contato e o desejo do Dr. Castilho de fazer a reunião o mais rápido possível.
O coronel respondeu sem titubear um segundo:
– O mais rápido possível é agora, mas vamos deixar para depois do almoço. Se ele puder me receber, podemos marcar aí as duas horas da tarde.
– Se o senhor puder esperar na linha, vou confirmar com o Dr. Castilho.
Fiz um bilhetinho e pedi para a secretária levar na reunião e confirmar o horário com o superintendente. A resposta veio escrita em maiúsculas no bilhete: “ESTÁ MARCADO”.
Voltei ao telefone:
– Coronel, a reunião está confirmada para hoje, as duas horas da tarde.
– Ótimo, ótimo. Vou cancelar umas coisas que tinha marcado por aqui e chego aí as duas horas.
Acabei ficando por ali. Precisava fazer hora. Comprei um jornal, fui almoçar em alguma espelunca da Angélica, que meu tíquete refeição era igual ao da peãozada da fábrica, e voltei cedo ao escritório do presidente da Sudelpa.
Dez para as duas chegou o Coronel Botto. Vinha acompanhado de um engenheiro a quem incumbiria cuidar dos aspectos técnicos.
Na reunião os dois homens de ação se entenderam de imediato. Sem delongas inúteis, debateram as alternativas. Castilho disse que, caso fossemos usar o rádio das caminhonetes, ele poderia ceder até umas quatro ou cinco para o período das férias daquele ano. Além de Ubatuba poderiam ser atendidas outras cidades. Inclusive Registro, cidade pela qual Castilho tinha grande consideração. Para a estação no correio central eu prometi antecipar a entrega de um rádio fixo e instalar a antena no telhado da agencia central. A reunião do Superintendente da Sudelpa com o Secretário se daria em uma semana e o Dr. Castilho queria um teste do funcionamento da solução para que o assunto pudesse ser levado ao Governador Laudo Natel.
Ao que eu lembro, a reunião se daria na quarta feira da semana seguinte. Então combinamos fazer um teste logo na segunda feira, com uma caminhonete com rádio posicionada próximo a agencia dos correios em Ubatuba e a estação fixa instalada em uma unidade de Assistência Técnica da Telefunken localizada na Avenida Pacaembu, a uma quadra da Avenida São João e a uns dois quilômetros em linha reta da agencia dos correios. Dada a precariedade do tempo, a antena seria fixada provisoriamente do lado de fora, estendida entre duas janelas.
Tudo pronto, uma caminhonete instalada em Ubatuba e o rádio na Barra Funda instalado, as nove horas começa o teste para valer. Os dois pontos já tinham feito contatos bem sucedidos, mas agora era oficial. Estavam na sala, em São Paulo, o coronel Botto, seu engenheiro, o Dr. Castilho, um engenheiro da Polícia Militar de São Paulo especialista em comunicações, eu e meu chefe na Telefunken, Wayland Coats além, obviamente, de um operador do rádio e do telegrafista do correio. Nove em ponto, o rádio ligado, entra a voz do operador de Ubatuba, falando da caminhonete.
– QRA Ubatuba – QAP (Estação na escuta).
O sinal vinha claro e límpido, tanto quanto era possível, considerando que o SSB aproveita só meia banda. Mas a emoção tomou conta da sala.
O operador de São Paulo responde:
– QRA estação São Paulo. Sinal com clareza cinco. Repito, clareza cinco.
Nem precisava repetir. Óbvio que, se era clareza cinco é porque era clareza cinco. A comunicação era limpa e perfeita.
Em seguida São Paulo inicia o teste para valer:
– Segue QTC em Morse.
E ambos os telegrafistas fizeram a troca de mensagens em condições tão boas quanto o fariam no telégrafo com fio. Bastou uma tentativa. E até houve espaço para o humor:
– Favor QRQ (transmita mais depressa…)
Terminada a troca de mensagens, todos na sala sentiram a mesma emoção que devem ter sentido os cariocas que testemunharem a iluminação do Corcovado, em 12 de outubro de 1931, quando, numa cerimônia organizada pelo jornalista Assis Chateaubriand e presidida pelo Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Paes Leme (filho de Espírito Santo do Pinhal) e pelo Presidente Getúlio Vargas, o cientista italiano Guglielmo Marconi, inventor do rádio, e o Papa, acionaram um dispositivo que enviou um sinal de rádio que iluminou o Cristo Redentor. A iluminação que brilhou no céu aconteceu no início da noite, as 19 horas e quinze minutos e assim foi relatada por Marconi, em sua biografia escrita por Filippo Garozzo:
“Então todos ficaram olhando para o morro, esperando o milagre a ser produzido pelo homem. E o milagre aconteceu pontualmente. O Papa e Marconi, em Roma, apertaram uma chave de transmissor e um sinal partiu rápido da Cidade Eterna, deslizou sobre o Atlântico mais velozmente que o relâmpago, e atingiu o Cristo Redentor, construído sobre o Morro do Corcovado, na Baía de São Sebastião do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa. E o Cristo, de repente, ficou tão resplandecente e brilhante de luz que mais se assemelhava a uma festa! Parecia até outro Cristo, risonho e mais bonito, agora que estava iluminado e inaugurado pela mão do Santo Padre e pelo gênio de Marconi.”
O espantoso desta história é que o corrupto Correio brasileiro da época, mesmo depois de atravessar quarenta anos e uma guerra mundial, ainda enfiava a cabeça na areia, ainda parecia não ter tomado conhecimento das ondas de rádio e se aferrava aos fios de cobre.
De toda forma, após o teste entre o litoral e a capital, estava resolvida a questão técnica. Faltava, agora, resolver a questão política.
O Dr. Castilho levou os laudos do teste para o Secretário, que, junto com o Superintendente da Sudelpa, os levou ao Governador Laudo Natel. Esta reunião não assisti. Mas soube dos resultados depois.
Segundo o relato do Dr. Castilho, o governador ouviu todo o relato e deu uma olhada nos laudos para então dizer:
– Os senhores devem estar brincando comigo. Como eu posso justificar para a opinião publica que vamos beneficiar apenas uma cidade em detrimento das outras?
O secretário e o Dr. Castilho tentaram justificar:
– Desculpe, governador, mas nossa proposta é emprestar os rádios para atender um pedido do Correio e começar fazendo um teste. Primeiro seria Ubatuba, mas depois o correio nos assegurou que vai poder estender o serviço para as demais localidades…
O governador teria ficado impaciente:
– Quanto custa cada estação? – Quis saber o governador.
– Metade do custo de um fusca, foi como o Dr. Castilho teria respondido.
– E quantos postos de correio existem no litoral?
– Cerca de vinte localidades. – Teria sido a resposta do Dr, Castilho.
Laudo Natel, então, teria resolvido a questão:
– Se este é o número vamos fazer nossa parte. Vamos formalizar logo um convênio doando os rádios ao Correio e oferecermos telégrafo no litoral paulista ainda neste verão. Vamos comprar os rádios e fazer uma festa nas vinte localidades logo que começar a alta temporada.
– Mas será que teremos tempo? – Quis saber o Secretário.
– Os senhores já devem conhecer minha frase preferida: “fazer o possível agora e o impossível depois.” Se precisar, o senhor empresta suas caminhonetes. Então vamos logo adquirir os tais vinte rádios e providenciar imediatamente o convênio para oficializar a doação da Sudelpa para os correios.
E assim foi feito. O governo de Laudo Natel celebrou o convênio entre a Sudelpa – Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista e a ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, formalizou a doação dos rádios – como ficou registrado no flagrante acima – e inaugurou os novos pontos de telégrafo naquela temporada de praia com uma grande festa. E todos foram felizes até quando uma nova geração de corruptos ressurgiu nos governos Lula e Dilma e passou a meter a mã0 e novamente avacalhar com os correios.
PS.
1) – Os rádios foram entregues a tempo mas as frequências estavam demorando perigosamente. O governador, por seu turno, queria que os rádios fossem instalados já com as frequências definitivas. Acontece que o Dentel estava criando problemas. Contaram-me que o governador, em raro momento de irritação, teria ligado diretamente para o Presidente da República, o General Médici. Como por encanto, as frequências vieram rapidinho e a tempo.
2) – Quando a máfia do cobre e a alta direção dos correios soube do “golpe baixo” do Coronel Botto ficou espumando de raiva e foi reclamar com o presidente. Pensaram que iam tosquiar o coronel Botto mas saíram tosquiados. A solução foi típica do governo militar: a diretoria corrupta foi demitida sem delongas e – surpresa! – sabem quem foi escolhido como o novo presidente da Empresa Brasileira de Correios? Ele mesmo, o Coronel Adwaldo Cardoso Botto de Barros, o sergipano porreta, o Coronel Engenheiro do Exército Brasileiro que mais entendia de comunicações e um personagem que nos enche de orgulho e que marcou seu nome na história como o responsável pela criação do serviço de SEDEX, pela criação do POSTALIS e pela era de ouro do correios do Brasil. De sobra, ainda dirigiu a renovação tecnológica dos correios de todo o planeta. O resto da história vocês já conhecem.
3) – Muitos anos depois reencontrei o Coronel Botto no Aeroporto de Guarulhos. Ele já era, então, presidente da UPU – União Postal Universal. Ao me ver, o coronel Botto veio ao meu encontro e fez questão de me convidar para um café. Nos quinze minutos que faltavam para seu horário de embarque, relembramos o episódio dos rádios e dos “telégrafos de férias”, episódio que ele lembrava com carinho e via como “a mudança da maré” de sua carreira nos Correios, que presidiu por 12 anos, e, por extensão, de seu papel como líder mundial dos correios por oito anos. Fez-me um convite para visitá-lo na Suíça, mas vai ter que ficar para uma outra vida. Nunca mais o vi, porém tampouco o esqueci. E foi com grande tristeza que li a notícia de sua morte em janeiro de 2015, quando nos deixou, aos 90 anos de idade.
Homens como ele temos poucos e nos fazem muita falta. Que seu legado de competência e integridade frutifique e que Deus o tenha.
Lula mesmo disse que é agora só um “Vaso Chinês”. Ele elegeu um poste e acha que agora elege um vaso? Tá tudo muito doido.
Lula e o Vaso Chinês
O Lula é finório de papo e, de prosa, muito bom,
tanto que garante, na conversa vaidosa, que o país não tem “alma mais pura”,
só que o maroto de sempre fez do Brasil sua troça e de nosso futuro sepultura;
—
Moleque, comia calango cozido no ensopado de jerimuns,
depois, já em “Sum Palo,” tomou gosto em usar o gogó e tapear o povo sofrido,
se fazendo de grande amigo nos discursos de paletó;
—
Competente prometedor de vício antigo, prometeu tudo de baciada.
Promessa fez de montão, mas era tudo fantasia
de uma falador que se fazia de Patativa do Garanhuns;
—
Demagogo caviloso e muito esperto, um jagunço redivivo,
sempre foi imbuído da mais pura desfaçatez.
Enganou gente com fome e deixou amargurado quem pensou que teria vez.
—
Rei da “istripolia”* tenebrosa, foi um presidente comodista.
Querendo, tudo podia, posto que tinha o poder da nação,
mas todo dia mentia e, por sua gente, não se atrevia nem um tiquinho não;
—
Homem tosco e de pouca cultura, à beber sabedoria ele preferia uma boa pinga,
o cabra tinha medo de livro e do saber corria feito o diabo da cruz,
porém lábia tinha muita sobrando e ludibriava o povo como ninguém;
—
Com seu talento maneiro e um traquejo verbal colosso,
tivesse sido homem digno, ou mesmo um poeta de tabuleta,
teria enricado e virado santo só fazendo rima e caçando “barbuleta”.
—
Mas sendo um insensato que pela ambição foi picado,
vendeu fiado sua alma ao capeta e logo trocou tudo e fez errado:
meteu os pés pela mão e, aloprado, “Cantou cá” o que devia “Cantar lá”.
—
Tivesse sido fiel a seu berço, ao seu povo e sua nação,
tivesse refreado, só um pouquinho, sua insana ambição,
teria sido, se fosse bom e honesto, o grande presidente da redenção.
—
Mas, qual nada, era fraco de caráter e gostou do encosto macio.
Se cercou de puxa-saco e zuniu de avião a jato, movido à corrupção.
Virou um “bon vivant”, liso como quiabo, esperto como o diabo e malandro como o tiziu.
—
Lula, cabra indomado, vaidoso e arrogante, se deixou cair em tentação.
Deu uma banana malvada, rasteira e desalmada, ao seu povo sofrido,
que só teve consolo num bolsa família de ralas migalhas de humilhação.
—
Mascate de ilusões tarimbado, Lula pegou na mão o que pode,
enricou ainda mais os ricos e mandou dinheirama até para outras nações,
mas o Brasil, pobre coitado, além de pagar a conta, ficou na pior condição.
—
E diferente do Patativa do bem, que cantou as mágoas de quem pouco tem,
esse embusteiro terrível só queria mesmo levar vantagem
e, para dizer a verdade, nunca foi leal a ninguém.
—
Agora, o país lastima o tanto de dinheiro roubado no governo dele e da Dilma,
enquanto falta hospital e falta tudo mais na sofrida “classe matuta”,
“que nem em sonho mais desfruta as riquezas do Brasil”;
—
Lula, se acaso fosse mesmo verdade que ele nada sabia,
como repete, com monotonia, o seu surrado refrão,
seria pior que um mau vigia que abre a porta da casa para deixar entrar o ladrão;
—
Todos sabem que um corno só é enganado se for frouxo ou bobalhão.
Se roubaram nas suas barbas fortunas de muito milhão,
além de ser condenado, merece uma surra de vara do sofrido povo do sertão.
—
E nosso triste nordeste, ainda mais empobrecido e calcinado,
outra vez foi logrado sem a menor contemplação,
e, decepcionado, ficou ainda mais “nordestinado” depois deste sonho de verão.
—
E se pensa, este traíra, viver de luxo no bem bão,
o velhaco se engana total e completamente. Que bote as barbas de molho
que desta vez não escapa das grades da prisão.
—
E agora, desmascarado, que sabe não ser mais nada,
que desceu do pedestal, que é réu na Lava Jato da Justiça Federal,
ainda vive se iludindo com o poder que já não tem mais;
—
Quer de novo, este tratante, voltar a ser presidente,
dizendo, na cara dura, que vai arrebentá e prendê. Mas ele está muito enganado,
pois seu prestígio é do passado, tal como foi do passado sua força e seu poder;
—
Ao povo brasileiro, este sujeito matreiro, nunca mais engana não.
E se ainda tivé povinho prá acreditá na sua enganação,
o santo padinho Ciço vai mandá todinho ele para a eterna danação.
—
Mas pretensão é pior que bicheira prá apodrecê coração.
Esta vontade traiçoeira de mandá no povo de novo e que faz coceira na sua língua,
só precisa um gole de pinga prá desandá em falação.
—
Mas a um povo inteligente só se engana uma só vez;
Lula, por isso, disse ao Moro, falando de sem pulo, sem saber bem o que fez:
“Eu já não sou mais presidente. Agora eu só sou um “Vaso Chinês”!.
Ceska – O digitaleiro
(*) As expressões e frases em itálico foram inspiradas em poesias de Antônio Gonçalves da Silva, poeta e trovador cearense conhecido como “Patativa do Assaré” (1909 – 2002).
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Vamos nos alinhar ao mundo que deu certo, para variar?
O mundo contemporâneo, este que emerge da Quarta Revolução Industrial, o chamado Mundo 4.0, gira em volta da Inteligência Artificial (IA). Este mundo em transformação, revolucionário e disrruptivo, vem quebrando todos paradigmas. Para começar, o mundo já não se divide mais entre esquerda e direita. Ele se divide em digital e analógico; em funcional e disfuncional; em veloz e capenga. Este novo mundo é conectado ao universo digital e vai se distanciando cada vez mais das partes velhas, desarvoradas, sem eira e nem beira, perdidas na poeira das nações de ponta.
A diferença entre as nações bem sucedidas e as fracassadas se acentuará de modo irreversível à medida que a Quarta Revolução Industrial for mudando a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. A Primeira Revolução Industrial utilizou água e vapor para mecanizar a produção. A Segunda se valeu da energia elétrica para criar a linha de montagem e a produção em massa. A terceira usou a eletrônica e a tecnologia da informação para automatizar a produção. Agora, a Quarta Revolução Industrial vem no bojo da Inteligência Artificial. Mais do que nunca, será o novo contra o velho; o múltiplo contra o monocórdio; o inteligente contra o obtuso.
O Brasil, felizmente, tem núcleos que já ingressaram no Mundo 4.0. Empresas como Embraer, Tramontina, Fanem, para ficar apenas em algumas que atuam no cenário mundial, já estão neste mundo novo. O agronegócio brasileiro figura entre os mais avançados do planeta. Nele a IA – Inteligência Artificial – vem sendo adotada intensivamente. Tratores e colheitadeiras dispensam operadores e trabalham com piloto automático, orientadas por GPS. Drones supervisionam do ar rebanhos e lavouras e fazem pulverização de fertilizantes e inseticidas. O gado é rastreado com chips de RFID. Isto tudo da porteira para dentro, claro, porque da porteira para fora caem no Brasil meia-boca de sempre. Armazenagem insuficiente, estradas imprestáveis, ferrovias por construir, portos limitados e subdimensionados. Um Brasil imensamente rico em potencial, mas contaminado pela corrupção, dirigido por incompetentes e pilhado dia e noite por bucaneiros da política, salvo as honrosas exceções, que existem e são fonte de esperança e alento.
Agora, porém, em meio a maior crise de nossa história, chegou a hora de repensarmos o Brasil. E de reformarmos este arremedo de democracia que tem se mostrado uma madrasta para o país.
Para fazermos nossa democracia alinhar-se aos requisitos da Quarta Revolução Industrial precisaremos que atenda três exigências:
– Deve ser digital, conectada, inteligente, online e funcionar em tempo real;
– Deve ser aberta ao cidadão, criar espaço para o debate permanente das questões mais importantes, e permitir que de todos os interessados na política do país tenham acesso a canais de transparência com todas as áreas do governo;
– Ser capaz de integrar os cidadãos no processo de tomada de decisão, oferecendo suporte decisório baseado em “evidências” sobre tudo o que diga respeito a vida da sociedade e as boas práticas.
Em princípio, não é difícil, havendo vontade. Mas temos que entender que a democracia Brasileira enfrenta um desafio de vida ou morte. Se não transformar-se radicalmente, continuará vulnerável ao assalto de demagogos e populistas. Se vierem demagogos populistas, com desclassificados padrão Lula, a crise não se resolverá nesta geração. Tomada por desalento, a democracia será dissolvida no ácido de seu fracasso e de sua inépcia. E termos uma ditadura no horizonte.
Mas sejamos otimistas. A oportunidade que o Mundo 4.0 nos abre, com as novas tecnologia e a Inteligência Artificial, permite que venhamos a ter uma democracia inovadora, vibrante e alinhada com a cibernética, para substituir a atual que é burocrática, caduca, lenta e fenecente.
A chave, contudo, para o êxito de uma democracia digital no Mundo 4.0 não se limita à velocidade nas decisões, por exemplo, mas em ser capaz de azeitar o funcionamento da sociedade para que esta possa cumprir seu papel e atender as expectativas de seu povo, operando com eficiência, eficácia, equidade, precisão e qualidade. Sua arquitetura deve articular as melhores decisões possíveis. Decisões bem informadas, provadas e comprovadas, baseadas nas melhores “evidências” disponíveis.
O mundo digital já está entre nós
No Brasil já está todo mundo na orbita digital. Nem que seja ao assistir televisão.
Os brasileiros, especialmente os das novas gerações, já vivem na era digital. Segundo o Jornal O Estado de SP, com dados da 28ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), de março de 2017, o Brasil terá um smartphone em uso por habitante até o final de 2017. Com crise ou sem crise, ainda de acordo com a pesquisa, até outubro a base de smartphones no País será de 208 milhões de aparelhos.
Hoje, o País tem 198 milhões de celulares inteligentes em uso, crescimento de 17% na comparação com o ano passado. Um número que continua crescendo. A expectativa é de que, nos próximos dois anos, o País tenha 236 milhões de aparelhos, um crescimento de 19% em relação ao momento atual. Sem esquecer que o Brasil tem também 162,8 milhões de computadores (entre desktops, notebooks, e tablets) em funcionamento, um crescimento de 5% na base instalada com relação ao levantamento de 2015. Até o final do ano serão 166 milhões de computadores em uso, sendo cerca de 33 milhões de tablets.
O mudo digital também já chegou aos bancos brasileiros e ao imposto de renda. Como seria de esperar, para cobrar juros e cobrar impostos já estamos na era digital. Falta chegar na democracia.
Agora, achar que vamos ficar encalhados numa democracia “carro de boi” é tolice. Os jovens já vivem em outra dimensão e vão simplesmente passar por cima dos que ficarem no caminho. Os políticos do antigamente, do tempo do onça (eita!), podem não gostar, mas a transformação digital vai jogá-los ao relento. O país está pronto para fazer as reformas transformadoras e abrir as portas do século XXI, um século que ainda não alcançamos.
A Democracia fascinante
Brava gente brasileira, já podemos antever os contornos desta nova democracia de perfil digital. Como em outros campos transformados pela Inteligência Artificial, a nova democracia digital tende a funcionar em volta de uma grande “nave mãe” virtual, aberta para a participação cidadã, tendo à sua volta os “c-pods”, os “civic-pods”, núcleos de opinião e grupos de interesses específicos, organizados por áreas e temas, aos quais os cidadãos poderão aderir usando seus títulos de eleitor eletrônicos para ter amplo acesso à transparência, as informações e as decisões dos três níveis de governo.
Estes aplicativos permitirão participar de debates e de decisões, votar e cobrar resultado de seus eleitos. Organizar e encaminhar projetos de lei de iniciativa popular e muitos outros. Essa democracia digital será infinitamente mais inclusiva, mais participativa, mais transparente e mais equitativa. Até muito mais alegre e divertida. Além disso, como o mundo digital está ainda em formação, a nova fronteira é território aberto, pronto para ser desbravado e conquistado.
De uma coisa, contudo, já podemos ter certeza: a era da Quarta Revolução Industrial, a era da IA – Inteligência Artificial – vai mudar profundamente as práticas democráticas e, com elas, as formas de governar e prestar contas aos eleitores.
Basta imaginar qual seria o impacto da adoção de “câmaras testemunhas” em obras públicas. O cidadão interessado em uma determinada obra poderia, ele mesmo “fiscalizar” sua evolução. Um fórum associado permitiria opiniões e críticas. E, acreditem, nada levanta um traseiro mais depressa que fogo em baixo do banquinho!.
Ademais, pode-se prever que nosso titulo de eleitor será a senha aplicativos pessoais, para acesso a informações sobre indicadores democráticos, bem como para o exercício de votos online em consultas públicas e assinaturas pré-validadas para abaixo-assinados e projetos de lei de iniciativa popular. A senha servirá, ainda, para contato autenticado com autoridades e representantes no legislativo. Nós, o povo, vamos ter muito mais força, muito mais direitos, mas também muito mais responsabilidades. A democracia que teremos será menos distante e mais inteligente; menos perfunctória e mais funcional. Além de menos vulnerável a fraudes e a manipulações.
Apenas para ilustrar, uma boa “evidência” sobre como os cidadãos querem acompanhar as coisas que lhe dizem respeito são os 222.086.385 de visitantes que foram ao site da SABESP conferir os níveis dos reservatórios da capital paulista entre maio de 2014 a 01 de março de 2017. Ou seja, deixa só este povo tomar gosto pela democracia digital. Vai ser a maior limpeza das teias de aranha de nossas instituições já registrada em nossa história.
Democracia Inteligente
A Democracia Inteligente do Mundo 4.0 vai colocar o cidadão no centro do processo político. Não será só na hora de votar que o cidadão terá voz e vez. O chamamento à participação será permanente e dinâmico, o que significa que o cidadão deverá também saber mais em relação aos assuntos do governo. Para tomar posição em temas como a reforma política, na economia, nas questões sociais, nas leis e decretos, o cidadão precisará de boas informações e bons comparativos sobre os efeitos das decisões que vai tomar. Saber qual o custo social a pagar e quais os resultados a esperar.
De maneira que, para melhor exercer sua cidadania, precisará dispor de “evidências” sobre o que funciona e o que não funciona.
O movimento mundial em favor de decisões baseadas em evidências começou com a Medicina Baseada em Evidência (MBE). Em pouco tempo revolucionou a prática médica e mostrou-se um instrumento de enorme valia para orientar boas decisões na medicina. O sucesso levou a enfermagem a logo adotar sua versão por meio das “Práticas Baseadas em Evidência”. Outras áreas a adotaram na sequência, como Nutrição e Fisioterapia. Hoje é difícil encontrar uma área da saúde que não tenha a sua versão da metodologia. Campos de atividades correlatas logo também abraçaram a experiência, a exemplo da Arquitetura e do Design Hospitalares. Em pouco tempo surgiu um movimento mundial para acabar com o “achismo” e que tornou as decisões com base em evidência em um conceito multidisciplinar. Hoje, este método de basear decisões numa sistemática de evidencias já foi adotado por áreas como Administração, Economia e dezenas de outras.
Dado o êxito destacado desta metodologia, tudo indica que seus princípios seriam aplicáveis a uma Democracia Baseada em Evidência no Brasil.
Seguir as “evidências” nos ajudaria a evitar equívocos e erros dolorosos, como o nosso presidencialismo imperial e as eleições proporcionais com desequilíbrio na representação na Câmara. Ocorre que há uma distorção no modelo atual. As regiões mais povoadas e avançadas, sul e sudeste, têm uma representação proporcionalmente menor que as menos povoadas.
Entre os benefícios, desde logo a DBE nos auxiliaria na tarefa de exorcizar essa nossa mania de adotar políticas jabuticabas, que só existem aqui. Esta insistência em inventar políticas “heterodoxas” tem uma explicação: fica mais fácil encobrir a corrupção e a incompetência quando se adota um modelo politico turvado e opaco. Tal é o caso da estapafúrdia “Nova Matriz” econômica”, um conceito destrambelhado adotado pelo duo Lula e Dilma. A explicação é rasa: com adoção de uma falsa democracia, o que temos é um mero arremedo democrático, os indicadores tradicionais passam a ser rejeitados sob o argumento de que “não são aplicáveis”.
Qualquer sociedade precisa de uma organização e uma disciplina interna para funcionar. Disto não há dúvida. Consequentemente, é preciso que exista uma autoridade que atue sistematicamente para manter o conjunto funcionando. Está implícito no significado de sociedade que seus membros compartilham interesses ou preocupações mútuas visando um objetivo comum.
O principal objetivo comum de um país, supõe-se, seria o bem estar de seus cidadãos. Mas, no Brasil, o deposto governo de Dilma já não tinha mais este objetivo. Seu propósito se tornou ter e manter o poder. O sonho petistas era chegar a um poder ditatorial, como em Cuba e na Venezuela. Ditadores, como Raul Castro, em Cuba, ou Maduro na Venezuela, ditam as ordens e o povo ou se submete ou é reprimido. No Brasil, porém, já existe uma sociedade suficientemente bem informada e articulada para torpedear este tipo de pretensão totalitária. Este tipo de ameaça já foi vencido mais de uma vez, mas sempre a custo de muita angústia e sofrimento.
Como sabemos, foi para evitar o trauma das revoltas populares e limitar o poder absoluto dos monarcas que a civilização criou a democracia. Este regime, mesmo que imperfeito, é, no dizer de Churchill, “o pior dos regimes, exceto todo os outros”. De modo que nada temos de melhor ou mais civilizado para organizar a sociedade e dar voz e vez aos cidadãos. Mas sempre será possível aperfeiçoar a democracia e seus mecanismos de empoderamento dos cidadãos.
O que precisamos aceitar, no entanto, é que uma democracia é, por natureza, um sistema de permanentes tensões e disputas. Precisamente por esta razão precisa de mecanismos rápidos de ajustes e de acomodação de interesses.
O homem sempre quer mais e nunca está satisfeito. Talvez esta ambição ilimitada explique porque o homem saiu das cavernas para conquistar o espaço. Decorre daí que as demandas nunca acabam. As sociedades se formam e existem em um contexto dinâmico, insertas que estão na natureza e competido umas com as outras. Portanto, vivem em um mundo de cotidiana tensão. O que equivale dizer que em nenhuma sociedade moderna os dias são sempre iguais. São estas disputas que produzem as mudanças e fazem a história. O pressuposto é que, se nada é permanente e tudo é fluído, a conclusão é que o bem estar geral irá refletir a qualidade das decisões. Estas vão moldar o momento e as circunstâncias. Tempos de vacas gordas e de vacas magras sempre acompanharam a história do homem. A escassez sempre foi um inimigo a ser combatido. Aliás, é bom lembrar que a disciplina da economia foi criada para lidar com o fenômeno da escassez.
Os povos bárbaros sofriam as crises de escassez e a elas se conformavam sob a crença de que sua penúria vinha dos deuses. Os povos subdesenvolvidos acreditam na lorota de que suas agruras venham dos inimigos externos. O esquerdistas de Cuba e na Venezuela culpam os Estados Unidos. Já os povos civilizados aprenderam que a pobreza não vem da maldição divina, mas das decisões equivocadas de seus governantes. Ao evoluírem, passaram a exigir bons governantes e querem ser consultados naquilo tudo que tenha a ver com seu destino. Os povos civilizados querem resultados e por isto querem votar e influir nas em suas sociedades.
Ocorre que o processo democrático, sendo obra dos homens, é passível de distorções, vícios e imperfeições. Sem falar, claro, da demagogia, da irresponsabilidade e da mais destilada hipocrisia.
No mundo civilizado acredita-se em valores como equidade, igualdade e justiça. Algo que os gregos, desde Clístentes, chamavam de “isonomia”. Modernamente, este conceito abarca a noção de cidadania, sendo o cidadão, por definição, membro ativo da sociedade e partícipe da construção de sua história. E foi para proteger o cidadão, seus direitos e deveres, que a civilização engendrou a divisão dos poderes entre executivo, legislativo e judiciário.
Norberto Bobbio, que era socialista, mas temperava seus pecados com um vigorosa defesa da democracia e acreditava na separação de poderes, indicou pelo menos três fatores que dificultam um projeto democrático efetivo nas sociedades contemporâneas: a especialidade, a burocracia e a lentidão do processo.
O primeiro obstáculo seria derivado da complexidade da vida contemporânea, que demanda competências técnicas de “especialistas” para dar solução a inúmeros problemas públicos, notadamente em economias altamente reguladas e planificadas. A complexidade dos problemas dificulta o entendimento das soluções por parte do cidadão comum e abre espaço para “especialistas” que usurpam o poder político ao tomar decisões contrárias ao interesse da maioria. As ditas “soluções técnicas” dificultam a hipótese democrática de que todos podem decidir a respeito de tudo.
O segundo obstáculo resulta da expansão exagerada da burocracia, um aparato de poder sem mandato, ordenado hierarquicamente de cima para baixo, em direção totalmente oposta ao sistema de poder democrático.
O terceiro obstáculo vem do desejo equivocado das esquerdas de fazer com que o Estado tome o lugar de Deus e se torne o grande provedor da sociedade. Políticos demagogos se valem do desejo legítimo das pessoas de obterem renda e se sentirem seguras e prometem que o estado oferecerá estas duas benesses a troco do voto. Prometem o que não existe: o almoço grátis. Com sua demagogia irresponsável estimulam demandas irrealistas dirigidas ao Estado. Um povo dependente do estado é mais propenso a ser seduzido pelas promessas populistas. Ocorre que o Estado não produz riquezas, apenas se apropria daquela produzida pela sociedade. O resultado prático é que, ao invés de atuar para equalizar as oportunidades, o estado cria privilégios, benefícios e benesses para os grupos mais influentes, favorecendo corporações e grupos específicos. Esta tendência s torna ainda mais aguda no voto proporcional. Neste modelo os candidatos representam corporações e grupos e são facilmente seduzidos pela corrupção. Ao usar o estado para favorecer aos “amigos”, tirando dos que produzem para dar aos aliados, acaba criando descontentamento e minando as bases em que se assenta democracia. Quando a Democracia se desfigura e não tem mais legitimidade para encaminhar o debate político, uma crise é inevitável. Sem confiar nos seus ditos “representantes” fica comprometido o convívio democrático e esgarçada a coesão social.
Sincrisis “versus” décrisis.
Se, eventualmente, a perturbação do equilíbrio é corrigida por algum mecanismo homeostático, como eleições periódicas que permitam a mudança do poder, a crise pode se limitar a uma “síncrisis”, uma crise que se resolve de forma não traumática. Por exemplo, em um governo parlamentarista, uma crise do governo dificilmente evolui e se resolve com um voto de desconfiança e a substituição do primeiro ministro. Se, porém, a democracia não possui os instrumentos de defesa e de reequilíbrio ágeis para conter a erosão das instituições, as características da crise podem levar a impasses e ao esgarçamento de sua coesão. Neste caso sobrevém uma “décrisis”, um processo de falência múltipla das instituições democráticas. O exemplo das crises do presidencialismo brasileiro ilustra bem os efeitos das “décrisis”. Quando uma crise aguda se instala, dificilmente se tem um bom prognóstico. O ambiente politico vira um “salve-se quem puder” e os acordos e os mútuos compromissos do arranjo social, que implicam em concessões em nome do bem comum, deixam de valer.
A piora gradativa leva à desordem, ao descontrole e, finalmente, desemboca no caos. Para impedir a evolução de uma “décrisis” é preciso interromper o processo de desagregação. Na atual “décrisis” brasileira, que continua sem uma solução definida, a saída da ex-presidente Dilma permitiu um alívio momentâneo. Seu desfecho, contudo, ainda é uma incógnita. As mudanças estão no rumo certo, mas se mostram tímidas demais para o porte da catástrofe em curso. Para reverter a situação política do país e estabelecer um círculo virtuoso que converta a “décrisis” em uma “síncrisis”, é preciso mais do que parar de piorar. É preciso que sobrevenham fatos novos.
A oportunidade que vem da “décrisis”
Em uma sociedade que conta com uma escassa “massa crítica” de bom senso, como a brasileira, resta o instinto de sobrevivência como antídoto para uma “décrisis”. Os milhões de brasileiros que saíram às ruas no “fora Dilma” evidenciam que a sociedade está alerta e disposta a tomar posição. As multidões deixam claro que não vão aceitar um destino e segunda classe.
A lamentar, contudo, é que não se pode esperar muito deste congresso ou do governo Temer. A maioria dos atuais políticos no governo e no congresso estão implicados e tem contas a prestar.
Mas podemos encontrar um lado bom neste cenário de crise e de obtusidade política. A necessidade é a mãe das soluções. Então, a mesma sociedade que se mobilizou nas manifestações poderá se mobilizar para acertar as coisas no Brasil. Vamos precisar de muito jogo de cintura e, talvez, fechar os olhos para muita coisa errada, mas não adianta chorar o leite derramado. Transformar o Brasil é imperioso, posto que de crise já cansamos. Multidões na rua podem ajudar a encontrar um novo caminho. Multidões nas mídias sociais também podem. Mas que caminho? Corrupção e mentiras não queremos. Engodo nem pensar. Sim, é verdade que ainda estamos imersos em perplexidade, mas não será por muito tempo.
O jeito de mudar certo
Confúcio nos dizia que há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.
Como não aprendemos pelos dois primeiros métodos e hoje sofremos com mais de 14 milhões de desempregados (e crescendo…), estamos acumulando uma divida colossal e regredimos com uma recessão por dois anos seguidos, com uma queda, segundo a Folha de S. Paulo, de 9,1% do PIB “per capita” desde 2014, tudo o que nos resta é engolir seco e aproveitarmos as lições mais amargas que nos vem da experiência que estamos vivendo.
Encruzilhada da ação
O que temos claro é que nos encontramos diante de uma encruzilhada. Ou abraçamos as mudanças necessárias ou vamos avançar rumo a um despenhadeiro de empobrecimento e mediocridade. O caminho que escolhermos agora vai definir o que seremos como nação no restante do século XXI.
Aprendendo a transformar com base em evidência
Recapitulando, já sabemos que nossa democracia é um arremedo. Que nossos políticos, salvo exceções, são uma lástima. Despreparados, desinformados, superados, isto quando não mal intencionados. Uma parcela deles são apenas e tão somente “picaretas”. Mas o povo brasileiro tem alma democrata. Gosta de votar. As eleições o Brasil são uma festa. Pena que os candidatos sejam uma lástima.
Mas por quê?
Dá para deduzir que alguma coisa está errada no processo. Certamente, o presidencialismo e voto proporcional tem boa parte da culpa. O voto distrital traria outro perfil de candidatos. Mas não temos voto distrital. Nem parlamentarismo. Estas duas mudanças já seriam um avanço, mas elas não virão sem um movimento popular que as respalde. E mesmo sendo fundamentais, não esgotam as transformações possíveis e desejáveis para uma democracia do século XXI. E neste ponto é que viria a calhar uma nova metodologia de transformação democrática para o Brasil. Uma nova forma de examinar e diagnosticar os nossos males, de reunir e comparar as alternativas, de escolher as melhores soluções e de trazer a sociedade, a cidadania e o povo para ter participação 24/7 nesta tarefa que é de todos e de cada um.
Em todos os campos da atividade humana vem sendo adotada a busca sistemática de melhores resultados com base no conhecimento, nas experiências e no comparativo entre performances, ou seja, nas “evidências”. Hoje, além da “Medicina Baseada em Evidência” já existe uma enfermagem com “Procedimentos Baseados em Evidência”, uma “Arquitetura Baseada em Evidência” uma “Administração Baseada em Evidência” e inúmeras outras similares. O que podemos fazer para curar nossa democracia é sermos os pioneiros de uma “Democracia baseada em Evidência”.
Um pouco da História do Movimento pela adoção das Evidências como método de acertar
O movimento da “Medicina Baseada em Evidências” foi inspirado no livro “Eficácia e Eficiência”, escrito pelo médico Archibald (Archie) Cochrane e publicado em 1971. A obra criticava acerbamente os métodos nos cuidados de saúde de então. O livro criticou o “achismo” e a falta de evidência confiável por trás de muitas das intervenções de saúde comumente aceitas na época. Suas críticas provocaram um terremoto nas práticas médica e estimularam a adoção de “evidências” confiáveis na medicina. O movimento levou a McMaster University, de Ontario, no Canadá e a University of York, do Reino Unido, a estruturarem a “Medicina Baseada em Evidência”. A nova abordagem obteve ampla aceitação porque era evidente que muitos pacientes morriam ou sofriam sequelas por não terem sido tratados com as melhores práticas existentes. E isto era moralmente inaceitável. Ainda mais tendo em conta que, na era digital, era possível organizar as informações sobre as boas práticas e sobre pesquisas científicas de modo a encontrar “evidências” sobre o melhor procedimento para tratar cada caso. Visando reunir uma acervo de evidências foi criado o Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR), um banco de pesquisas científicas e publicações médicas que podem ser acessadas por médicos de todo o mundo na busca das melhores terapias disponíveis para tratar a doença de seus pacientes.
Ao médico canadense David Sackett se atribui a definição clássica da MBE: “uso consciencioso, explícito e sensato da melhor evidência disponível na tomada de decisão sobre o cuidado a pacientes, acrescida da experiência do médico e das preferências do paciente”.
Se viermos adotar um método análogo para a “Democracia Baseada em Evidência” no Brasil, poderíamos começar com uma definição inspirada na definição da MBE: “adoção conscienciosa, explícita e sensata da melhor evidência disponível sobre o regime e as práticas democráticas, a escolha de representantes, a elaboração de leis, a transparência, a governança e a participação continuada dos cidadãos nas decisões que afetem a sociedade e o povo”.
Optar por uma democracia com método seria um fato novo, uma alternativa ao debate estéril, pirotécnico, impregnado de ideologias arcaicas e falsas premissas que vemos ser feito por partidos políticos de aluguel, alheios a realidade e aos anseios do país.
Um Futuro, Já!
Como transformaremos o país se não temos um plano de ação coerente e nem vislumbramos um destino desejável? Sêneca dizia: “nenhum vento sopra a favor de quem não sabe onde ir”. Como empolgar a nação, em especial a juventude, se não definirmos onde queremos chegar e como faremos para chegar lá?
Talvez um dos poucos momentos de nossa história em que tivemos uma clara visão de um projeto nacional foi na construção de Brasília. O país se jogou no projeto proposto por Juscelino Kubistchek e o realizou. Juscelino também se lançou na criação da indústria automobilística, levou a nação junto e o fez acontecer. Foram bons projetos? A discussão hoje é supérflua. Não há dúvida de que houve muita corrupção e desvios na época. Uma peça de teatro do impagável Sérgio Jockyman, “Boa Tarde, Excelência”, produziu gargalhadas homéricas na décadas de 60 e 70 ao contar as trapalhadas e as maracutaias daquele período. A disputa da concessão dos clips de papel e do papel higiênico é tão hilária que chega a ser perigosa para quem sofre de falta de ar. Mas fica o exemplo de que sabemos realizar bons projetos, embora precisemos mudar os métodos.
Portanto, debater um projeto nacional é da mais alta prioridade. E esse debate deve ser da sociedade, da cidadania, como foi a manifestação das ruas.
O que é certo é que podemos ter uma democracia melhor e mais funcional. Uma democracia para o mundo 4.0. O Brasil não aguenta mais retórica vazia e precisa partir para as transformações. Ou, como dizia, com espírito, o ex-prefeito de São Paulo, Brigadeiro Faria Lima, “precisamos de menos planejamento e mais fazejamento”.
Método para fazer uma Democracia 4.0
O primeiro passo é assumir que queremos uma democracia alinhada com o futuro. Claro, esta democracia deve ser imune à contaminação corruptogênica. Para chegar a esta imunização será preciso dotá-la de defesas e dar a ela total transparência digital. O espírito desta Democracia 4.0 deve ser capaz de coragem para iluminar-se na lógica de Camões, nos Lusíadas, nos versos em que canta as descobertas lusitanas que transformaram o mundo de seu tempo: “Cesse tudo o que a musaantigacanta, que outro valor maior alto se alevanta!”. Ou seja, diante do novo, dos novos valores e novas descobertas; dos novos conhecimentos e saberes, cessa a influência da antiga musa. O velho cede o passo para o novo. A velha musa murcha e perde o encanto, eis que surge, resplandecente, uma nova e bela musa. O novo brilha com um novo encanto e remete ao obsoletismo as velharias superadas e manda para o ostracismo os seus velhacoutos.
Se dermos boas vindas a uma nova musa democrática, esbelta e glamorosa como todas as musas recém chegadas, precisamos ajudá-la a firmar-se entre nós. Um cuidado preliminar é afastá-la dos zumbis delirantes, um grupo de bocós políticos que teima em acreditar em fantasmas marxistas, encostos bolivarianos, abdução por seres extraterrestes, mau olhado e sortilégios, mas não acredita em coisas prosaicas e burguesas como matemática, lógica cartesiana, causa e efeito e que tais. Também convém proteger nossa musa dos corruptos profissionais de plantão, o bem aparelhado bando de rufiões que obra com engenho e arte, como prova o mal afamado “Departamento de Operações Estruturadas”, da Odebrecht. Esses são até mais perigosos do que aqueles. Nossos corruptos são afamados mundo afora, atuam com método e disciplina. Tem faro para o dinheiro público e seguem objetivos estratégicos. Para obterem acesso ao erário se fantasiam de democratas e se camuflam de esquerda, direita, centro e o escambau. Estes calhordas nefandos são os que pilham o Brasil e condenam seu povo a uma vida de sofrimentos e necessidades. Nas mãos pecadoras destes bucaneiros nossa política deixou de servir à democracia e passou a ser mera e escassa alegoria. A triste verdade é que nossa democracia sempre foi palco de engodo e foi usada para a encenação de simulacros eleitorais. Uma nova democracia teria que ser imune a estes mercenários e mistificadores.
O esgotamento da locupletação autossustentável
Stanislaw Ponte Preta nos deu o caminho da redenção: “ou nos locupletamos todos ou implante-se a moralidade”. Não temos mais dinheiro e nem condições para mantermos a locupletação desenfreada que tivemos até o esboroamento dos governos petistas de Lula e Dilma. Em outras palavras, a locupletação deixou de ser autossustentável no Brasil. Portanto, chegou a hora de implantarmos a moralidade. Mas temos uma dificuldade: não temos experiência em lidar com a moralidade. Nossa democracia ou foi manietada, no governo militar, ou sempre foi corrupta.
Este é outro motivo para adotarmos uma “Democracia Baseada em Evidências”. Esta DBE nos ajudaria a reunir boas evidências é a usá-las na formulação de nosso projeto democrático. Precisamos conhecer o que funciona e o que não funciona nas democracias do mundo. E, ainda mais importante, precisamos isolar nosso contingente politicamente subdesenvolvido. Um grupo de chupins culturalmente limitado e emocionalmente ressentido. Nelson Rodrigues dizia: “subdesenvolvimento não se improvisa. É obra se séculos.” Ora, sendo o subdesenvolvimento, a um só tempo, causa e efeito da corrupção que nos assola, pode-se ampliar o significado: “Corrupção também não se improvisa; é também “obra de séculos”. Sabemos que nossa corrupção é endêmica e está arraigada a nossas práticas políticas desde a carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500, na qual o escriba que revelava à corte a “descoberta do Brasil”, aproveitava para pedir favores pessoais ao Rei.
E, além disto, controvérsias à parte, quer De Gaulle tenha dito, quer não tenha dito que “Lê Brésil n´est pas um pays sérieux”. A verdade é que o Brasil não era mesmo um país sério. Aliás, até agora continua não sendo. Mas vai ter que mudar. E não por moralismo ou decência cívica, que seriam bons motivos, mas porque o custo da corrupção ficou alto demais. Nossa corrupção já consumiu tudo o que podia na saúde, na educação, na infraestrutura e onde logrou meter a mão. Finalmente estamos cruzando o limiar da moralidade.
Da Prática de uma Democracia Baseada em Evidência
A DBE só teria sentido em um novo ambiente que crie um mundo paralelo que seja uma reprodução digital do mundo real. Neste ambiente paralelo podem ser reunidas informações e realizadas simulações ao infinito. Com o uso desta tecnologia a vida institucional do país vai deixar de ser este marasmo medieval para se transformar numa atividade online, com os acontecimentos fluindo como flui a vida. A mudança implica em fazer uma mudança do sistema e não no sistema. Trata-se de uma nova lógica e não de uma mudança limitada ou cosmética. Ainda que a prioridade seja neutralizar o sistema corruptocêntrico, a mudança de paradigma é que vai determinar se vamos mesmo escapar deste buraco negro político.
Em síntese, mudar do jeito certo significa fazer as coisas funcionarem direito. A corrupção colossal, os 13 milhões de desempregados e os déficits monumentais do governo indicam que nossa política e nossa democracia não estão funcionando direito. E precisam ser consertadas. Ou melhor, nós mesmos precisamos consertá-las.
A viabilização da DBE no Brasil vai depender das novas gerações. Elas é que viverão nesta nova democracia. Caberá a elas delinear um projeto que cresça por dentro e que, quando pronto, descasque esta velha carcaça política e permita ao país sair deste casulo de ideias medievais que o oprime.
Como o sistema político atual não é representativo da nação e como os atuais partidos não acolhem o debate aberto e não se prestam para o exercício de uma militância inovadora, a renovação democrática no Brasil precisa encontrar um novo tipo de entidade sem ligações partidárias. Movimentos como o MBL e o Vem Para a Rua tem esta característica, mas nasceram para lutar “contra” o projeto corrupto de pode do PT. Cumpriram seu papel de forma brilhante, mas agora é preciso abrir uma nova luta. Quem sabe desenvolver a DBE – a Democracia Baseada em Evidencia – em volta de uma nova entidade, de uma “nave mãe”, permitiria que se formassem miríades de núcleos filiados, cada um com uma vocação, cada um com uma missão, cada um dedicado a um projeto específico. Todos unidos por uma causa: transformar a Democracia Brasileira em uma democracia inteligente, alinhada com o Mundo 4.0 e, ainda que com atraso, pronta para os desafios do século XXI.
Operação “Pelo em Ovo” e churrasco onírico em Brasilia.
Brasil, tome juízo.
Parece que este país perdeu o juízo. O nível de desatino que aflora nos mais diferentes setores do país é de estarrecer. Para onde quer que olhemos vemos uma nação mergulhada na estultícia. A corrupção generalizada associada à irresponsabilidade, à inconsequência e a arrogância vem derretendo as instituições e transformando o país num ente desmoralizado e em desagregação.
Tivemos nossa imagem internacional tisnada pelos escândalos da Lava-Jato, cujos eventos de corrupção foram solidamentecomprovados e, de repente, em contra-ponto, vemos agora uma imitação canhestra querendo a ribalta. Na Operação “Carne Fraca”, que, pela falta do que procurar devia ter sido chamada de “Operação Pelo em Ovo”, um delegado da PF, despreparado e destrambelhado, decidiu jogar na sarjeta a coisa que melhor funcionava neste país, o agronegócio. Se não eram as luzes do proscênio o que queria a Polícia Federal ao detonar a tal operação “Carne Fraca”?
A Polícia Federal declarou que se valeu de um laudo próprio – um único laudo! – referente à empresa Peccin Agroindustrial Ltda., uma empresa insignificante para o setor, sendo o outro laudo fornecido pelo Ministério da Agricultura. Também haviam mal explicadas denúncias de um auditor do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sobre o frigorífico Souza Ramos. Em cima destes dois “laudos”(?) e da tal “denúncia”, a PF atacou com mais de 1.100 (!) policiais federais todo o setor produtivo do maior exportador de carnes do mundo. Mais de 1.100 agentes federais saíram país afora procurando pelo em ovo. Na operação foi investigado um dito “esquema de fraude” na produção, fiscalização e comercialização de carnes, envolvendo pagamento de propina a fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo a PF, a investigação teria encontrado “indícios” de adulteração de produtos e venda de carne vencida e estragada.
Agentes que nada entendem da produção de carnes, nem de como funciona a extensa e complexa cadeia produtiva de que dependem milhões de brasileiros, entrou estabanadamente em frigoríficos e empresas do setor falando bobagens, acreditando em “salsichas com papelão”, e espalhando acusações com a ligeireza dos inconsequentes. Quer dizer, então, que vamos acabar com milhares de empregos e todo um setor da economia do Brasil só porque um fabricante de salsichas trocou carne de peru por carne de frango?
Se queriam afundar ainda mais o Brasil, conseguiram. Se queriam criar mais desemprego, conseguiram. Se queriam produzir mais crise, se queriam envergonhar ainda mais o país, se queriam jogar gasolina no incêndio que queima as entranhas brasileiras, conseguiram com louvor.
A falta de juízo com que as coisas vem sendo feitas nesta terra maluca não tem paralelo. Nunca antes neste país, – aliás, nunca antes neste mundo! – se viu tanta insensatez. Os exemplos de hipocrisia e de mau comportamento que vem de cima, e que continuam agora com esta “reforma política”, com a tal “lista fechada”, desenhada para proteger políticos de vergonha escassa e cara de pau espessa, só podiam prosperar e nos jogar na lama.
Consertar o país, agora, ficou um pouco mais difícil. O Brasil vai ter que juntar os cacos da nossa indústria de carnes e sair peregrinando humilde por nossos clientes pedindo clemência. Tentando explicar que somos um país de doidos. E dando mais descontos. Nossa imagem internacional já andava abalada com a lava-jato, de modo que uma acusação de corrupção no sensível setor de carnes, por mais descabida que fosse, encontrou terreno favorável para prosperar e se espalhar mundo afora. E, como desgraça pouca é bobagem, para gáudio de nossos concorrentes do mercado de carnes de exportação, como a Índia e Austrália (carne bovina) ou Turquia (aves), nosso caricato presidente, mais perdido que cego em tiroteio (ou seria mais correto dizer “deficiente visual” perdido em meio aos projéteis de uma saraivada de tiros”?), agindo da mais paspalha maneira, resolve convidar os embaixadores dos países que importam nossa carne para um churrasco. E os leva justo para uma fina churrascaria de Brasília que se orgulha de servir…carnes argentinas!!! É ou não é uma Chose de loc?
Infelizmente, como seria de esperar, as consequências já começaram. As vendas despencam. As exportações desabam. Os mercados mundiais se fecham. Uma empresa de Curitiba, uma das “investigadas”, acusada sem defesa, mas já devidamente denegrida, demitiu 280 pessoas dia 22 de março. E, acreditem, muito mais demissões vem aí.
Pode ser que tudo tenha acontecido por “acidente”. Mas pode ser que tudo tenha sido feito de caso pensado. Para aparecer na mídia ou para obter algum tipo de ganho político. Só que, ao que tudo indica, o feitiço virou contra o feiticeiro. Afinal, como justificar uma operação tão desastrada que, como diz a PF, vinha sendo “preparada” há dois anos? Já daria para suspeitar de algo “contaminado” (na operação e não na carne) a partir daí. Então quer dizer que a PF “sabia” que os alimentos vinham sendo “adulterados” há dois anos, em tese “comprometendo” a saúde da população ao longo de dois anos, e só agora resolveu agir?
Ainda na terça-feira a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) divulgou nota afirmando que as conclusões da Operação Carne Fraca referentes aos danos à saúde pública não têm embasamento científico. A entidade diz que peritos foram acionados uma única vez e não comprovaram os danos.
Segundo o Jornal Folha de S. Paulo, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, afirmou que a “narrativa” da PF ao divulgar as ações da Carne Fraca está cheia de “fantasias” e “idiotices”. Nesta quarta-feira, o ministro disse que os prejuízos para o setor são estratosféricos.
Nem nos tempos bíblicos, nem nos rocambolescos tempos da idade média, uma nação padeceu de tanta falta de juízo. E vai tudo ficar por isto mesmo?
Deus do céu, por caridade, dê um pouco de juízo ao Brasil.
O Brasil parece um trem sem maquinista banguela abaixo.
Cadê a lógica?
Depois de longa diáspora, está na hora de irmos buscar a lógica de volta. E já é mais do que tempo.
Parecia que o Impeachment da Dilma nos tiraria da “decrisis”, onde prevalece o círculo vicioso desagregador, e nos conduziria para a “sincrisis”, onde um círculo virtuoso começaria a amainar a tempestade.
Mas as coisas não estão caminhando como deviam. O Temer vem decepcionando. Mostra-se titubeante. E temeroso. E o titubeante temeroso Temer tem se mostrado incapaz de entender o contexto de fundo e de enfrentar a crise que o país enfrenta. Concordo, estamos melhor com Temer do que com a Dilma dos tempos escarlates, mas isto é pouco. A crise não cede, antes rescede, e continuamos cruzando terrenos pantanosos. Ainda vivemos em brumas nebulosas.
Os emblemáticos episódios das matanças dos presídios de Manaus e Roraima mostrou um novo Temer: o presidente avestruz. Não só enfiou a cabeça na areia como a tirou titubeante. Segundo seu falar vetusto, cheio de volteios gongóricos, a revolta de Manaus foi “acidente”. Tal e qual a queda do avião da LaMia. Aí não dá. O mordomo de Brasília subestima o povo brasileiro e não só titubeia temerosamente como demonstra estar perdido e perplexo diante dos desafios da crise sem precedentes em que estamos imersos.
“Acidente”, convenhamos, é estarmos sendo governados por Temer e por políticos medíocres. Nós os elegemos, é verdade. Mas o modelo presidencialista com voto proporcional é um fiasco. Estamos patinando no pântano da mediocridade. Sem uma liderança que aglutine o país e o conduza com segurança, vamos continuar patinando…
Temer, o titubeante temeroso, já mostrou que não está a altura. Mas quem está? O único líder com arcabouço moral, experiência e força política seria o governador Geraldo Alckmin. Mas seu estilo é mais do tipo “devagar e sempre” e não exibe o ardor do líder revolucionário que o país precisa agora. Fernando Henrique é uma reserva moral, mas já passou seu tempo. Aécio e Serra estão chamuscados pelas labaredas das denúncias da Lava Jato. Tá difícil.
A Inconsequência galopante
Nesta formosa terra que tem palmeiras onde canta o sabiá tem também um monte de gente que acredita nos poderes de uma galinha preta com uma pinga e duas velas na encruzilhada, mas não tem a mínima fé em matemática. Desconfia das ciências exatas e, ainda com mais razão, de ciências exóticas, como economia. Hão de preferir as ciências ocultas.
O que somos é inconsequentes. E imprevidentes. O Brasil, para nossa desdita, está encastoado em uma América latina convictamente, teimosamente e recorrentemente inconsequente. E frequentemente irresponsável. Desde o descobrimento e das cartas de Pero Vaz de Caminha, vivemos às turras com a lógica e desprezamos raivosamente o dito “bom senso”. Bom senso quer dizer capacidade para ver além das aparências e entender as razões e os motivos, as causas e os efeitos. E agir com equilíbrio. Um elenco de coisas abomináveis para os que preferem crer em mandingas, bruxedos e “amarrações” de cartomantes. O bom senso, enfim, é tido e havido pelas esquerdas como um mofado convencionalismo burguês, ainda que venha da Grécia de Aristóteles.
O problema é que quem briga com a lógica não escapa da sua vingança. De tragédia em tragédia estamos preparando uma hecatombe. Os “acidentes” do Temer são da mesma natureza irresponsável da recente queda do avião da LaMia. Este acidente, típica tragédia desnecessária, foi resultado de um desafio à lógica. O capitão, um inconsequente dotado do voluntarismo que implicou com o império da lógica, entendeu que não precisava seguir as normas de segurança. O comandante, tomado da empáfia besta do voluntarismo latino-americano, preferiu jogar roleta russa com a vida de seus 72 passageiros e 9 tripulantes. Com uma pane seca anunciada continuou voando para a morte. Pode-se supor que continuava o voo esperando um milagre. Tanto que, ao se dar conta de que o avião iria mesmo espatifar-se no solo, ainda cobrou o milagre que não vinha: “Jesus”!.
A praga latino americana que pegou
A inconsequência, esta praga latino-americana que está na raiz da nossa atual crise e de nosso subdesenvolvimento é doença antiga. Um espécie de herpes-crisis cujo vírus se recolhe, mas volta a se manifestar de tempos em tempos. Fugimos da lógica como o diabo da cruz. Somos avessos a normas, desafiamos as regras e enxotamos a razão. Não acreditamos em fazer contas, como, aliás, não acreditamos em planejamento, ou melhor, não acreditamos é em fazejamento, que “planejamento” por estas bandas, é biombo para “consultorias” suspeitas e, por isto, dá como capoeira em mato. Tem muito mas não serve para nada. Também não respeitamos nenhuma destas disciplinas burguesas que foram criadas para “explorar os pobres”. E para quem interessar, não esqueçam que agora somos livres e independentes. Não precisamos dar satisfações à metrópole e somos “capazes” de fazer nossas próprias leis. E, orgulhosamente, tem mais: revogamos as leis de que não gostamos ou que nos oprimem. Um exemplo: a Lei de Newton. Ainda não conseguimos acabar com a lei da Gravidade, mas não desistimos. Mesmo sendo uma lei “cláusula pétrea” da natureza (Ah, bom!), sua revogação continua sendo proposta em reiterados projetos de lei. Qualquer dia conseguimos.
Para ilustrar, alguns anos atrás o Estado de São Paulo noticiou que o Prefeito de Palmeira dos Índios, das Alagoas, propôs revogar a lei da gravidade por uma decisão da Câmara Municipal: “Informado pelo engenheiro da Municipalidade que a lei da gravidade impedia a construção de uma caixa de água na praça central de Palmeira dos Índios, devido a um forte declive,” o prefeito da cidade não se conformou. Chamou seu líder na câmara e mandou que conseguisse maioria “para derrubar a lei da gravidade, pois era preciso construir uma caixa de água na praça”. Ainda bem que o edil tinha um mínimo de noção do ridículo e foi hábil em não afrontar o alcaide:
“Senhor prefeito, não se sabe se esta lei é municipal ou estadual. E, depois, pode ser federal. É melhor não mexer no assunto, para não criar problemas. É melhor não desobedecer ao engenheiro, que é especialista no assunto”.
O monitor das besteiras que assolam o país aponta outra recente tentativa de revogar a lei da gravidade. Desta feita veio no bojo do episódio (“acidente”…?) de Mariana. Por pouco o Ministério Público Federal não vira motivo de chacota global: ele “ordenou” que a Samarco “impedisse” que o material argiloso que chegou pelo rio à foz do Rio Doce entrasse no mar. Os desavisados procuradores confundiram a argila, que se mistura com a totalidade da água, com uma mancha de óleo, que não se mistura e fica na superfície, e sapecaram a “ordem”. Ora, impedir que a argila entrasse no mar exigiria “apenas” represar o rio inteiro. Uma estupidez descomunal. Ainda bem que um juiz providencial, Thiago Albani, titular da 3ª Vara Civil de Linhares, no ES, veio salvar a face do Brasil e da MPF: “autorizou” que a água do rio desaguasse no mar!
De tanto ver prosperar estultícia Nelson Rodrigues dizia, rouco de desespero, que, toda a vez que via um brasileiro “ligar causa à efeito, tinha um orgasmo“. Os teve poucos.
Segundo Confúcio, “três são os caminhos pelos quais chegamos à virtude: pela reflexão, o mais nobre; pela imitação, o mais fácil; pela experiência, o mais doloroso”. E já que teimamos em não aprender nem pela reflexão e nem pela imitação, vamos ter que aprender pelo sofrimento. O consolo é que, por cruel que seja nossa sina, sofrimento produz lógica. Ao menos entre os sobreviventes, claro. A dor leva a busca das causas. E estas, no caso da atual crise, apontam para a inconsequência aguda de nosso socialismo capenga de cepa petista. E, sendo a crise sintoma da grande enfermidade que padecemos no Brasil, qual seja a ilusão socialista de que o estado teria os poderes que os socialistas negam a Deus, o poder de acabar a pobreza por ato de vontade, certamente podemos lembrar Margareth Thatcher que dizia: “o socialismo acaba quando acaba o dinheiro dos outros”.
A opção pelo despenhadeiro
Dilma Rousseff queria enfraquecer a posição do ministro da Fazenda Antônio Palocci no governo. Ela era, na época, a ministra da casa civil do Lula. Palocci, que era corrupto mas não era burro, tinha um plano de ajuste fiscal de longo prazo que vinha sendo elaborado pela equipe econômica. Em síntese, Palocci defendia que o gasto público não podia subir mais que o crescimento do PIB. O mesmo princípio que levou o atual Ministro da Fazenda de Temer, Henrique Meirelles, a propor o teto de gastos por vinte anos.
O plano de Palocci estabelecia que o ideal seria que tivéssemos um superávit fiscal de 4,25% pelos próximos dez anos.
Dilma, a guerrilheira, que se imaginava audaz, de coração valente e cabeça de vento, em entrevista ao “Estado de S. Paulo”, desqualificou os autores da proposta, dizendo que Palocci e seu grupo estavam se baseando “em planilhas” e classificou o plano de “rudimentar”, afirmando que nem o encaminharia ao presidente Lula porque não tinha as condições mínimas para um início de discussão dentro do governo. E aí deu sua imortal contribuição para o rol das frases insanas: “gasto público “é vida”!.
Daí em frente abriu-se a porteira dos gastos sem freios. Estabelecido como preceito pela grande líder que gasto público era “vida”, todo mundo desandou a “viver”. “Viveu-se” a mais não poder. Nunca antes se tinha visto tanta “vida” neste país. E até disparamos a ensinar outros países a “viver”: Cuba, Bolívia, Venezuela e outros deste e do outro lado do Atlântico.
O PT, alegremente convertido ao catecismo dilmista, não só pregava “a vida em abundância”, aqui e “urbi et orbi”, como praticava com fervor franciscano a boa nova. O que se viu foi uma maré de “vida em abundância”, com os pixulecos escalando as estrelas. Parecia descoberto o moto-contínuo da prosperidade. Só que não. De repente caiu a ficha: quando termina a “vida”, o que vem depois? Estava na cara que esta aventura irresponsável só podia acabar mal.
E agora, o que temos diante de nós?
Quando os gregos dividiam as crises em “decrisis “e “sincrisis” eles buscavam entender como as forças internas dos processos de crise evoluíam. Decrisis eram as crises “ruins”, que tinham como característica a desagregação, enquanto as sincrisis, ao contrário, eram as crises “boas”, aquelas que se encaminhavam para uma solução por força dos mecanismos corretivos e dos equilíbrios de pesos e contrapresos que atuavam no seu interior.
Nossa crise, uma “decrisis” crônica, sob a estarrecida batuta da Dilma “presidenta”, evoluiu para uma crise aguda e resultou no impeachment. Com o impeachment tivemos uma sangria e a crise aguda foi momentaneamente debelada, mas os desequilíbrios financeiros que alimentam a cronicidade da crise continuaram a minar o organismo da nação.
A partir do impeachment, a sociedade deu um crédito de confiança ao governo Temer. Mas o prazo está se esgotando e as medidas de rearrumação da economia tem se mostrado insuficientes. O congresso continua com óculos cor de rosa. O que vemos é que as condições objetivas da economia e do meio social não se modificaram e continuamos vivendo em meio a um impasse social muito perigoso.
Um barril de pólvora social
Doze milhões de desempregados são um barril de pólvora social. Os desempregados estão encurralados e não veem saída. O governo se mostra perdido. E a crise pode piorar rapidamente e descambar para uma nova etapa de “decrisis”.
Um PROER para o povo
O ponto critico mais importante é que a sociedade está endividada e não tem como resolver seu endividamento com a crise torpedeando a atividade econômica e os empregos. E enquanto os milhões de endividados não conseguem voltar a ter crédito, a economia fica travada.
Os juros dos cartões de crédito e cheque especial são um crime de lesa pátria. E os bancos estão insensíveis. A saída seria o governo atacar o problema de maneira a desatar o nó. Criar um PROER para o povo. Criou para salvar os bancos, não foi? E que tal fazer a mesma coisa para salvar o povo? Mas os bancos mandam no país e não vão aceitar de bom grado que o governo tire deles o filão que os mantém indecorosamente lucrativos, mesmo numa crise sem precedentes.
Acontece que as “decrisis” não tem bom prognóstico. Se as forças desagregadoras que as formam não são neutralizadas, a caldeira continuará a acumular vapor até o ponto de explosão. O país é um trem despencando ladeira abaixo, com o maquinista olhando para a paisagem. E estamos próximos, perigosamente próximos, de um grande desastre. Perdão, de um grande “acidente”, como definiria o tateante e temeroso Temer.
Dia 02 de outubro tem eleição no meio do caminho; Tem eleição no meio do caminho dia 02 de outubro.
Estamos no rumo certo, mas cuidado: tem uma eleição no meio do Caminho!
No meio do caminho tem um eleição
Tem uma eleição no meio do caminho
Desde já aviso aos amigos que vou votar em João Dória. Quero ter a “convicção” (a palavra está na moda) de que voto na continuidade do caminho.
Ainda que aos trancos e barrancos, o Brasil vai avançando e entrando nos eixos. (Ainda com muitos trancos: a receita da União voltou a decepcionar em agosto). Enquanto isto, o barulho dos pinos caindo no strike do boliche anticorrupção da Lava Jato continua. Os corruptos desabam como carreiras de dominós enfileirados. Caiu Dilma. Caiu Cunha. Lula caiu na Lava-Jato.
E ainda tem muito gaiato pendurado se agarrando para não cair. Mas a sociedade está vigilante e a nova ordem vem se afirmando como uma vitória do Brasil. Um triunfo que vem sendo obtido com o espírito e as armas do século XXI. Mas é preciso lembrar Tancredo Neves: Estamos apenas na metade do caminho. Não podemos nos dispersar.
Um ano atrás, quem diria? Estávamos nas ruas. Tínhamos a indignação. Tínhamos a esperança. Tínhamos a determinação. Mas os petebas do poder grudavam em suas benesses e sorviam privilégios com a gula insaciável dos sanguessugas. A corrupção estava institucionalizada e parecia invencível. Vivíamos em uma “propinocracia”, na definição de Deltan Dalagnol, da força tarefa da Lava Jato. E os cabras que haviam tomado o governo viviam à larga, refestelavam-se em um luxo de nababos, voavam pelos céus do Brasil e do mundo na frota VIP da FAB, enquanto se lambuzavam com as delícias, as benesses e o néctar do poder.
Por um momento pareceu aos crédulos que os petistas tinham – heureca! – encontrado a fórmula do roubo perpétuo, do moto contínuo da propina forrando a burra dos larápios. Os brasileiros decentes, por outro lado, coçavam a cabeça se perguntando como era possível tanta patifaria dar certo por tanto tempo. E muitos se questionavam, diante do êxito aparente da esbórnia escancarada, se ainda valia a pena se manterem honestos.
Mas desafiar a lógica é como afagar um tigre: raramente dá certo. E o PT devia saber: roubar e deixar roubar não é uma ideologia, é uma patifaria. E ao adotar a patifaria como estratégia de manutenção do poder e em escala jamais vista no planeta, seria de se esperar que o fim fosse um fiasco desastroso. E não deu outra. Foi tanta a sofreguidão, tanta a ganância, que sobreveio o descontrole e o caos. Claro, a desatinada da Dilma, perdida em suas mandiocas, deu o empurrão final. Mas o que se roubou neste país foi coisa nunca vista. Um mega rombo para não se esquecer jamais.
Vencendo a hidra de mil cabeças
O fato é que, para livrarmos o país do projeto de poder do PT foi preciso vencer a hidra petista de mil cabeças, de mil línguas bífidas venenosas. Foi preciso encetar uma luta árdua, enfrentar chiliques, esperneio e chorumelas, mas o Brasil que tem ambições, que quer um lugar decente na história, combateu o bom combate com a admirável galhardia verde e amarela. Ao chegarmos ao meio do caminho podemos nos orgulhar de que juntos lutamos e juntos vencemos. E é uma alegria congratular-me com você, que esteve aos milhões nas manifestações, que amassou suas panelas para fazer o Brasil ouvir seu clamor, que protestou, incansável, nas mídias sociais. Parabéns a você que foi para o enfrentamento corajoso e sem esmorecimento, que disse a que veio na pugna crucial entre o passado caquético da esquerda corrupta e o ansiado futuro que todos queremos para nosso Brasil. E que só depende de nós.
Com o país ainda se debatendo na maior crise de nossa história, não tínhamos mesmo escolha. Não queríamos um destino cafajeste. Um futuro de bagre chafurdando na lama rasa. Era preciso reagir. Era preciso demolir o Carandiru ideológico com que Lula e os seus asseclas aprisionavam o Brasil; em que prendiam os brasileiros por meio de um emaranhado de mentiras, demagogia, e engodos.
Definindo o país que queremos
Não podemos morrer na praia. Seria uma pena esmorecermos agora. Podemos lembrar Tancredo Neves quando dizia “Enquanto houver neste país um só homem sem trabalho, sem pão, sem teto e sem letras, toda a prosperidade será falsa”.
Existe muito a ser feito, é verdade. Há montanhas de entulho para limpar. Bobalhões desfilando asneiras. Desocupados atrapalhando o trânsito. Mas, sem recear o lugar comum, todo começo começa pelo princípio.
O mais importante é nos entendermos sobre o Brasil que queremos. E definirmos o que, como sociedade, queremos fazer do país.
O que sabemos, desde logo, é que qualquer organização – e um país é um tipo complexo de organização – se apoia em um triângulo com três vértices:
– Recursos Humanos
– Recursos Materiais
– Sistemas.
Os Recursos Humanos, as pessoas, vem em primeiro lugar. E elas é que se valem dos recursos materiais e dos sistemas para fazer o país funcionar. Os recursos materiais, ao contrário do que muitos pensam, não fazem a riqueza de uma nação. Nossa maior riqueza não é o pré-sal. Não é o ferro, ou o ouro ou os diamantes. Nem mesmo a Amazônia, o cerrado, o sertão, o pantanal, os pampas do sul. Nossa maior riqueza é a gente brasileira. É nosso povo. Com ele, tudo será possível. Sem ele, seremos tribos perdidas, grupos erantes, confusos e quebrantados.
Mas os recursos materiais contam muito. E nossos recursos naturais contam muito mais. Nossa prosperidade haverá de voltar muito pela generosa mão da natureza com que o Brasil foi abençoado. Os recursos naturais que temos são superlativos. Temos muito e temos em abundância, tanto temos que podemos sermos ufanos de nosso país. Mas lembrando sempre que, sem a atividade produtiva de nossa gente, nossos recursos naturais são apenas paisagem. Se não forem tocados pela mágica transformadora do homem, continuarão ali, inertes, pelos tempos afora, sem gerar riquezas e sem contribuir para melhorar a vida do povo ou para enriquecer seu futuro.
A propósito, o Brasil tem dois exemplos do que pode ser conseguido fazendo certo as coisas certas: o agronegócio, que prosperou graças aos empreendedores que vivem no campo, longe dos predadores de Brasília, e a Embraer, que é até “brasileira” (note as aspas…), mas que soube escapar do alcance da burocracia rapinante que esculhamba tudo o que toca neste país e foi progredir lá fora.
Tudo depende de nós.
Um país não se faz apenas amontoando pessoas em um território. Países existem que acumulam seres e vidas, mas que são lástimas, que são catástrofes. Temos vizinhos como a Venezuela, a Bolívia e o Equador nesta categoria de paspalhões fracassados.
Sem bons governos e bons sistemas não existem bons países. Sem bons governos, as nações se desorganizam, ficam improdutivas e sofrem os efeitos deletérios da desordem. O resultado é que seus povos vivem vidas desgraçadas, vidas sem perspectivas, vidas miseráveis.
O que vai fazer a diferença é a educação. Segundo Sydeny Harris, o principal propósito da educação é transformar espelhos em janelas. É facultar às pessoas uma visão capaz de abarcar o mundo e permitir que compreendam os fatos elementares da vida e da natureza. Desta compreensão nasce a sabedoria. E da sabedoria de um povo surgem bons governos e bons países.
A sabedoria permite compreender que não se pode viver de mentiras e engodos. E que a nossa condição humana nos impõe a crueldade da matemática: nenhuma nação se poderá sustentar de pé se seu povo não tiver juízo. Se gastar mais do que tem. Infelizmente é possível, sim, usar o cheque especial para viver uma fantasia passageira, gastando por conta. Alimentar um sonho demagógico, uma ilusão aberrante, por algum tempo. Mas a ilusão passageira cobrará bem caro na hora da conta. E a conta sempre vem: a economia não se defende, ela se vinga.
Confúcio, que viveu 500 anos antes de Cristo, explicou existirem três métodos para adquirir sabedoria: Primeiramente, pela reflexão, que é a mais nobre; Em segundo lugar, pela imitação, que é a mais fácil; e terceiro, por experiência, que é a mais amarga. E tudo leva a crer que nós, brasileiros, preferimos a última. Acho que temos uma queda para o sofrimento. Affêe!!!
Conclusão I: A sabedoria de um povo é que define seu destino. Todos conhecem a fábula de Esopo que narra a história de uma cigarra que canta durante o verão, enquanto a formiga trabalha acumulando provisões em seu formigueiro. No inverno, desamparada, a cigarra vai pedir abrigo à formiga. Esta, a formiga, pergunta o que a outra fez durante o verão. “Eu cantei”, responde a cigarra. “Pois então agora, dance”, rebate a formiga, deixando-a do lado de fora. A fábula de Esopo é um ensinamento que vem da sabedoria da experiência. E permite concluir que um povo operoso será recompensado com a prosperidade. Um povo de tolos terá o destino dos tolos: as carências, a miséria e o sofrimento desnecessário.
O terceiro vértice corresponde aos “Sistemas”. Estes determinam o que fazemos, como fazemos, quando fazemos e porque fazemos. O governo está neste vértice e seu papel de líder e organizador equivale ao do cérebro em nosso organismo. A gente até deveria saber disso, posto que nossa sabedoria popular sempre ensinou que “quando a cabeça não pensa o corpo padece”…
Em síntese, um governo inteligente organiza os sistemas de modo a formar um todo coerente, bem balanceado e holístico, capaz de funcionar e ser eficiente. Até aqui, salvo os eventuais misantropos, suponho que todos estejamos de acordo. Deste ponto em diante, contudo, é que as divergências começam a separar a humanidade em dois grupos irreconciliáveis: os “fazedores” e os “tomadores”.
A divisão do mundo em dois grupos: Os “fazedores” e os “tomadores”
Os “fazedores” são os românticos da ação. Para estes, o mundo é como um pomar. Entendem que sua tarefa no mundo é plantar, adubar, regar, combater as pragas, colher e distribuir a colheita para que todos possam se saciar. Para os “fazedores”, um país rico é cheio de pomares (e fábricas, lojas, escritórios; óbvio, né mesmo?) onde os laboriosos colhem frutos em abundância. Os fazedores acreditam que fazer um país se tornar rico é fácil. Basta que todos se disponham a plantar pomares e obedeçam as regras da natureza. Como são sábios, compreendem que existe um tempo para plantar e um tempo para colher. E que é preciso saber semear, esperar que as sementes germinem, que as plantas cresçam, que as flores se convertam em frutos. Que os fruto amadureçam. Daí que sua maior aspiração é poderem plantar e colher sem obstáculos. Sua crença: a produção transforma o mundo. Sua fé: se muito for produzindo, muito haverá para todos e não haverá ninguém com fome.
Já os “tomadores” acham que o mundo é um galinheiro onde eles são as raposas.
Existem “tomadores” à esquerda e à direita. Os da direita são os folgados, os vagais, os parasitas. Sabem o que deve ser feito, mas não estão a fim de trabalhar. Ponto.
Já na esquerda, petistas inclusos, os “tomadores” acham que seu papel é “redistribuir” a riqueza que os outros produzem. Se pensam os justiceiros da humanidade.
Esses boçais vivem olhando ao redor. Onde alguém criar um caminho, eles tratam logo de colocar uma pedra, “regulando” e taxando a atividade. Esta fúria arrecadatória não começou com a indústria da multa do Haddad, embora, devo reconhecer, este a tenha refinado para o padrão da tortura chinesa. A fúria arrecadatória já era assim nos tempos coloniais dos tropeiros e no “Caminho de Viamão”. O tropeiro suava sangue para trazer do extremo sul gaúcho uma tropa de muares ou gado, vindo por trilhas intransponíveis, cruzando os Campos de Vacaria cheio de obstáculos, enfrentando os índios Xokleng e os Coroados Kaingang e quando, mil quilômetros depois, chegava em Lages, tinha que pagar um “pedágio” para cada cabeça de boi ou lombo de mula que houvesse sobrevivido.
Essa obsessão de tudo controlar e regular chega a ser uma patologia. Acredito tratar-se de uma compulsão atribuível a uma fixação freudiana na fase anal. Parece humor escatológico, mas não é, pois, como se sabe pela psicologia, a fixação na fase anal leva ao desejo compulsivo de controlar tudo e todos. Explico: o sujeito que não conseguia controlar sua evacuação na infância, que se abraçava ao vaso sanitário pedindo “cocô, volta aqui”, enquanto chorava ao vê-lo ser levado pela descarga, agora quer compensar controlando a vida de quem trabalha e produz. É o fim da picada. E como para o pirado esquerdista-anal vale tudo, dá-lhe discurso apelativo, demagogia, mentiras, engodos e enrolação.
O cúmulo, contudo, é que o esquerdista brasileiro pensa que o país lhe deve uma cornucópia. Para quem não sabe, a cornucópia, na mitologia grega, era um dos cornos do bode Amalthea, o qual seria dotado da propriedade mágica de prover quantidades ilimitadas dos mais variados e deliciosos manjares e guloseimas. Do corno vinha mel, doces, frutas, e, seria de supor que, para atender ao surpreendente paladar petista, viriam também fantásticos sanduíches da melhor mortadela. E sendo que nada neste mundo é mais parecido com uma cornucópia do que um emprego público no Brasil, o sonho do petista padrão é uma sinecura ou uma boca no governo.
O Brasil merece bons sistemas
Apesar dos pesares, no Brasil já somos um país. (Que bom!). Mas somos latino-americanos. (Que mau!). E, portanto, somos disfuncionais. Acreditamos em coisas que não existem, como na capacidade do governo criar riqueza. Ou na capacidade de funcionários púbicos resistirem à tentação. Em compensação, não sabemos ligar causa com efeito. O arguto e saudoso Nelson Rodrigues dizia que toda a vez que via um brasileiro ligar causa ao efeito tinha um orgasmo. Acho que os teve poucos.
O ponto chave é entender que, no século XXI, um governo deve ser um maestro. Em sociedades amadurecidas, os cidadãos não precisam da tutela do governo. E um governo deveria ter sua avaliação de forma automática. Se seus indicadores mostrassem incompetência, o sistema acionaria a ejeção e pimba: o governo seria mandado para o espaço.
O maior dos indicadores seria a qualidade do gasto público. Quando o governo começasse a gastar mais nas atividades meio do que nas atividades fim, tocaria o alarme da ejeção. Se um governo começa a enriquecer os amigos e a mandar as contas para o povo receberia um aviso de alerta e, se insistisse, seria demitido pelo computador. Estamos chegando a um tempo em que ninguém mais aceita ser escalado para ser trouxa a vida inteira.
Os governantes deveriam ser servidores do povo. Com crachá. O presidente deveria fazer como o Papa e lavar os pés do povo ao menos na páscoa da ressureição. Mas no Brasil, os membros dos três ramos do governo ainda se acham no direito de desfrutar das glórias imperiais. Vivem em palácios, voam nos tapetes voadores da FAB e desfrutam da coisa pública como se vivêssemos em um reino das arábias. É uma pouca vergonha daquela muito sem vergonha. Mas temos que nos curvar ante a dura verdade, a doída verdade: nenhum país pode ser latino-americano impunemente.
O que precisamos cultivar no Brasil é um pouco de bom senso. É lutarmos para criarmos sistemas balanceados com um mínimo de equilíbrio ganha-ganha. Sistemas feitos com uma beirada para incluir o povo e em que os dois lados ganhem.
Talvez venhamos a concluir que isto implica em refundar o Brasil. Fazer um nova constituição para o novo século. Todavia, só um imbecil anacéfalo irá acreditar que estes políticos mentecaptos, ou os políticos da velha ordem, sejam capazes de largar o osso que roem desde o descobrimento. Que se disponham a criar sistemas isentos da velha sacanagem patrimonialista nacional que os fazem marajás. De modo que, para mudar mesmo, precisamos, antes, reinventar a participação moderadora da sociedade no desenho de nosso destino.
Como as mídias tradicionais tem se mostrado limitadas é preciso contar com a mobilização das mídias sociais e, especialmente com as ruas. A estas cabe mostrar força e união. Às ruas cabe neutralizar os esforços bucaneiros dos piratas de nossa política. Sem uma presença massiva desta nova forma de mobilização social seria repetir a velha história: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte”. Lamento dizer, mas penso que apenas se, e quando, a sociedade ficar de olho e contar com pesos e contrapesos eficazes, os políticos e agentes públicos se portarão com a devida decência. Por exemplo, é impossível esperar reformas do atual congresso, formado por compadrio entre 28 partidos que repartem o mando. O resto é devaneio de noite de verão.
Conclusão II: Um bom sistema é como a virtude, que só é boa quando a serviço de uma boa causa. Como lembrava Santo Agostinho, “uma virtude a serviço do vício agrava o vício!”. Carlos Lacerda, ao dar um exemplo sobre esta frase da tribuna da câmara, disse, certa feita, que “a pontualidade é uma virtude, mas se for usada para ir ao bar para beber com pontualidade, vai agravar o vício da bebida.”
De maneira que redesenhar o sistema político precede outras providências. É preciso redesenhar os canais pelos quais fui a democracia. Hoje o sistema é uma enganação. As elites fingem que mudam mas, mudar mesmo, não mudam nada. A habilidade com que os políticos “espertos” manipulam as leis e normas em seu favor nesta grande pátria tropical ficou cabalmente demonstrada no arranjo inconstitucional sobre os direitos políticos da Dilma.
Fórmula para arrumar a casa
Se fosse para consertar de vez, não seria preciso reinventar a roda: o mundo desenvolvido já mostrou claramente que os mecanismos que melhor funcionam são aqueles baseados em dois princípios:
– Voto distrital – A experiência demonstra que o distrito tende a eleger o melhor candidato de sua área. O conjunto de distritos tende a eleger um congresso com compromissos claros com suas comunidades, o que resulta em um congresso melhor.
(A dificuldade: Os políticos profissionais fogem dessa discussão porque, na hora de se discutir o tamanho dos distritos, o povo de São Paulo vai querer saber porque, para a câmara federal, o voto de um cidadão de Roraima vale 10 vezes mais do que o de um cidadão paulista. E não vai gostar de ficar na segunda classe. Nem de saber que é o que mais paga e é o que menos recebe.
2. – Parlamentarismo – Os mecanismos do parlamentarismo favorecem a governabilidade e ajudam a neutralizar os vícios e as inevitáveis crises do presidencialismo.
(A dificuldade: o presidencialismo de “coalisão” é o regime das melhores negociatas. Vender o voto é um excelente negócio. Somado aos lucros da corrupção, tem sido melhor do que encontrar ouro no quintal.)
Pedra à vista: estamos no meio do caminho
Estamos no meio do caminho. Mas no meio caminho já estávamos quando conquistamos as eleições diretas. Parecia, naquele tempo d’antanho, que havíamos de seguir em frente. O governo de Fernando Henrique Cardoso, sobretudo, foi auspicioso e parecia indicar um tendência pela prosperidade autossustentada. Mas, ledo engano: nossa natureza de sul-americanos não demorou a aflorar e a nos submeter. O Belzebu colorado que jura ao povão que dá para viver de milagre, de efeitos sem causa, voltou com seu tridente para nos afastar da lógica e do bom senso. Caímos novamente na tentação das delícias grátis. E agora, no fundo do poço, devemos enfrentar uma penosa e lenta recuperação. Ou, pior, descambarmos de vez, seguindo no destino dos rebotalhos do mundo, a exemplo de Cuba, da Venezuela e de outros fracassados deste e do outro lado do Atlântico.
Mas haveremos de vencer, certo? Vamos enfrentar nossa realidade de frente, esconjurar nossos pecados, cortar as asas da corrupção, ficar de olho no desejo de nossas “zelites” picaretas de meter a mão e de misturar o público com o privado. Temos que acreditar que o impeachment de Dilma, a cassação de Cunha e o indiciamento de Lula no Lava-Jato são sinais de um provir mais promissor.
Uma saída, mais à frente, possivelmente será uma nova constituinte para o século XXI. A Atual constituição é desbalanceada e conduz a uma instabilidade permanente. Até seria muito bom se nosso dinheiro desse, mas o Brasil não tem como manter todos os privilégios, regalias, direitos e benesses contemplados na atual carta. Esta constituição está além de nossas possibilidades. É triste reconhecer, todavia, que enquanto esta perdurar, vamos viver em crise permanente.
E a eleição no meio do caminho?
Escolher mal agora pode desperdiçar toda a caminhada já feita. E recolocar as pedras que conseguimos tirar do caminho.
Por isso, como revelei com candura, vou votar em João Dória para prefeito de São Paulo.
Conheço o candidato pessoalmente e já trabalhei com ele em uma parceria internacional. Sei, de primeira mão, que é preparado, competente e trabalhador. O mais importante: acho que, com ele, vamos poder contar com São Paulo para continuar a caminhada no rumo do Brasil decente que queremos.
Que me desculpem os petistas e os vermelhos em geral, mas, com o entusiasmo da esperança, não posso deixar de bradar: Viva o Brasil verde e amarelo.
O Flautista de Hamelin reencarnou no Juiz Moro: a Lava Jato está desentocando os ratos que habitam o poder e vai levá-los todos para Curitiba.
Os ratos estão em polvorosa. Pressentem que o fim está próximo. Nunca a confraria dos roedores deste país se sentiu tão acuada. Nunca enfrentou inimigos tão implacáveis, nem tão letais, como o Juiz Sérgio Moro e a Força Tarefa.
Nada a estranhar, portanto, na estridência de seu esperneio.
De todas as bocas de lobo, de todos os antros corruptos, de todos esgotos escancarados, de todos os quadrantes comprometidos com a roubalheira ouvem-se impropérios, ranger de dentes e ataques à Lava Jato e, em especial, contra o juiz Moro.
Todos os ratos que pilharam a pátria sem dó agora se juntam nos rompantes guturais do coral da cloaca. Vendo o cutelo zunindo em sua direção, vociferam a cantilena de golpe que ecoa pelos porões putrefos daquele que foi o mais perverso dos governos que o Brasil conheceu.
Segundo disse à Folha de S. Paulo o Procurador Dalton Dallagnol, coordenador da Força Tarefa de Curitiba, “nossa única defesa é a sociedade.”
Fica claro, portanto, que, se queremos um país decente, precisamos nos unir e mostrar que estamos com a Lava Jato e apoiando o Juiz Sérgio Moro, para o que der e vier.
O sentimento majoritário da sociedade brasileira é que chegou a hora de dar um basta. De desratizar o país. De eliminar os ratos para acabar com a roubalheira desenfreada, despudorada, desavergonhada, de uma vez por todas.
Ainda que muitos políticos pensem o contrário, não somos um país de tolos. Somos tolerantes em demasia, é verdade, mas tudo tem limite. Cansamos de tanto bandido, cansamos de tantos roedores.
Fora ratos Já!
“Você sabe o que acontece quando um navio tem ratos demais? Ele afunda. É isto o que acontece.” (David Wong).
Bem, um país com ratos demais também afunda. Que é precisamente o que vemos acontecer com o Brasil.
A verdade sobre os ratos, tanto os rattus rattus, de quatro patas, como os homo rattus (teria mulher rattus?) de duas pernas, é que são insidiosos. E prolíficos: quando encontram condições favoráveis, os ratos se multiplicam como ratos. O que, convenhamos, era de esperar! E, ainda, sendo os ratos roedores incansáveis, roem tudo o que podem. Daí os rombos colossais que vemos à nossa volta no Brasil.
Por isso, a luta contra os ratos não tem fim e o homem vem, desde sempre, tentando se livrar destas pragas.
No combate aos ratos, é mais fácil eliminar o animal de quatro patas, o rattus rattus, como registram diversos episódios do passado.
Por exemplo, em 1508, na pacata Autun, uma pequena cidade da França, cerca de 300 km ao sul de Paris, o vigário acionou o tribunal eclesiástico da localidade para processar os ratos que haviam devorado as plantações de cevada da região.
Naquele tempo era comum este tipo de processo que o direito eclesial e medieval considerava dentro de suas atribuições. Hoje, na igreja católica, ainda existe a benção dos animais, mas nos idos do século XVI, os líderes religiosos acreditavam que os animais poderiam ser possuídos pelo demônio e, portanto processados e condenados pelos tribunais da igreja.
Só para ilustrar, houve um Papa, Leão XIII, que preconizava o exorcismo de animais. Em outro exemplo, o bispo de Lausanne, certa feita, tratou de amaldiçoar oficialmente as criaturas que desobedeciam as ordens eclesiais.
Na França, chegou a existir alguma jurisprudência penal animal, como evidencia uma tapeçaria na antiga cidade de Falaise, referindo-se ao assassinato de um bebê por um porco, em 1386.
Assim é que, em 1508, a pequena cidade de Autun decidiu que haviam evidências suficientes para processar os ratos das redondezas. Os bichos tinham passado de todas as medidas. Pois não é que os desgraçados haviam dizimado a plantação de cevada local?
O crime já era grave por si, pelas perdas econômicas, mas, para piorar as coisas, haviam privado a cidade da matéria prima para a produção local de cerveja. (Não entenda mal: em certas épocas, a cerveja chegou a ser mais popular do que a água, já que, na Idade Média, as práticas sanitárias deixavam muito a desejar. Assim, ainda que servisse com uma boa desculpa, era mais seguro beber cerveja do que água.)
O fato é que, então, o Tribunal Eclesiástico de Autun, solenemente presidido pelo dito vigário, emitiu uma citação convocando os ratos a comparecerem perante o Tribunal. Em deferência à importância dos réus, a corte seria instalado na célebre Catedral de Autun, uma magnífica construção ainda imponente, concluída em 1.146.
Como rezavam as boas regras do direito, um advogado local foi indicado para ser o defensor “pro bono” dos ratos. A atribuição coube a Barthélemy de Chasseneuz, personagem que se tornou conhecido e respeitado pela forma engenhosa como defendeu as ratazanas de Autun.
Os autos do processo registram que, no primeiro dia do julgamento, os ratos não compareceram.
Chassenez argumentou ao Tribunal que a intimação fora inválida. A intimação, feita dos púlpitos, não teria como chegar aos acusados, que tendiam a viver sozinhos. O advogado insistiu que cada um de seus clientes devia receber uma intimação individual.
Depois de acalorado debate, o juiz decidiu que Maitre de Chassenez tinha levantado uma questão relevante e foi decidido que uma intimação fosse devidamente afixada nas igrejas de toda a cidade e das cidades vizinhas. (Consta que perto do chão, na altura dos olhos das criaturas endiabradas, para facilitar a leitura por parte dos réus).
Mas os ratos continuaram em desobediência e não se deram ao trabalho de aparecer na segunda citação.
Foi a esta altura que Chassenez ganhou a reputação que o tornou famoso e o enriqueceu como grande advogado: argumentou que, na medida que o tribunal não tinha proibido a presença dos gatos no caminho, simplesmente não era seguro para seus clientes comparecerem nas audiências em Autun.
Ora, o Estado de Direito já fazia sentido na França em 1508: se um acusado não pode ter assegurada sua segurança pessoal para comparecer diante de um tribunal para responder às acusações, poderia ser dispensado de obedecer à citação. E assim foi que, por decisão da corte, os ratos continuaram vivos e soltos.
Outro episódio medieval, desta feita com um desfecho menos favorável aos ratos, exige que recuemos ainda mais 250 anos na história.
Conta-se que, precisamente no dia 26 de junho de 1284, um “caçador de ratos” se apresentou com uma proposta ao prefeito de Hamelin. A cidade, que estava tão infestada de ratos como o Brasil hoje, queria se livrar da praga que a assolava. O caçador se propunha livrar a cidade dos ratos mediante uma recompensa. Haveria um alta conta a ser paga pela população, mas a cidade se veria livre da praga para sempre.
O mencionado “caçador de ratos”, um personagem que entrou para a história como o “Flautista de Hamelin”, pôs-se a trabalhar. O “caçador de ratos”, que era, na verdade, um músico que tinha uma flauta cujo som atraia os ratos, saiu pelas ruas da cidade tocando seu instrumento. A população viu, assombrada, que os ratos, enfeitiçados pela música, seguiram o flautista até o Rio Wesser, onde foram caindo e morreram afogados.
Todos festejaram e ficaram muito felizes: o fim dos ratos prometia uma nova era para o povo da cidade de Hemelin.
Mas e agora? O que esta história da Alemanha Medieval tem a ver com o momento que vivemos no Brasil?
Simples: O Juiz Moro é o nosso “Flautista de Hemelin”. A flauta á a Polícia Federal e a música é a lei. Os ratos, como estamos vendo, são todos da espécie homo rattus, bípedes corruptos que estão sendo desentocados e tendo que se explicar diante da lei.
De nossa parte, o que devemos fazer é apoiar de todas as formas possíveis a Força Tarefa da Lava Jato e o Juiz Sérgio Moro.
E aproveito para enviar um recado ao Temer e seu grupo da velha guarda (e velhos hábitos) que assumiram o plantão: a Lava Jato vai acabar quando acabar. A limpeza vai ser geral e irrestrita.
Segundo o Ministro Teori, “A gente puxa uma pena e vem uma galinha“. Portanto, enquanto houver pena solta por aí, o povo vai continuar mobilizado. Podes crer. Assim, que fique claro para todos os efeitos: a Lava Jato vai acabar quando tiverem acabado as galinhas e eliminados todos os ratos que infestam o Brasil.
Se você é também desta opinião anota aí: dia 31 de julho próximo vamos todos para a rua participar da próxima megamanifestação de apoio à Lava Jato e ao Juiz Moro.
E lembre-se: país rico é país sem ratos!
Em tempo: este post já estava na internet quando o Youtube publicou o público de Curitiba aplaudindo o Juiz Sérgio Moro, em um teatro, durante show da Banda Capital Inicial, dia 25 de junho.
O Brasil vai sempre lembrar 2016 como um ano insólito
O Ano do Orangotango
A fuzarca assola o país. É tanta zica que só pode ser castigo cósmico.
No horóscopo chinês, 2016 é o Ano do Macaco. No Brasil, pelo tamanho da encrenca,só poderia ser o Ano do Orangotango.
Nossa atual crise, uma esculhambação jamais vista antes neste país, tem o jeito mal encarado de um Orangotango, só que bicéfalo.
Numa das cabeças temos um presidente “vintage”, que se vira com status de substituto e pose de primeiro mordomo e, no outro crânio, um recipiente agora oco, posto que descerebrado, remanesce a dita “afastada”, uma quase “ex-presidenta” desidratada, ranzinza e cada dia mais furibunda, agora que a deixaram sem avião.
Esta bizarra criatura de duas cabeças – refiro-me ao orangotango, óbvio – começou o ano atazanada e resolveu que pagaríamos todos os nossos pecados de uma só vez. A partir desta disposição, nada que tenha o dedo do coisa-ruim tem escapado da faxina ampla, geral e irrestrita.
A Lava Jato vem usando o ventilador em sua capacidade máxima.
As instituições, por seu turno, balançam sob abalos de proporções sísmicas, provocadas por gravações insólitas, que desnudam, fáticas, algumas das figuras mais herméticas da república. Figuras caricatas, toscas, fétidas, pilhadas em eventos sórdidos, assás nauseantes, reais arquétipos de corrupção explícita. (Ufa!…)
Algumas destas figuras, ademais, não escondem estar dispostas a se aventurarem em esquemas e maquinações malucas na desesperada tentativa de escaparem de Curitiba.
Suas excelências, antes bem falantes e fagueiras, agora catam desculpas gaguejantes, atarantadas, aparvalhadas. É um espetáculo patético. É triste, mas impagável, ver os digníssimos, sempre tão empertigados, demonstram temer mais o juiz Moro, em Curitiba, do que temeriam o Conde Drácula, na Transilvânia.
E ainda, o mais atroz vaticínio neste Ano do Orangotango, horrendo e insopitável, que insiste em espalhar paranoia em Brasília: eis que todas as conversas foram gravadas; eis que todos farão delações premiadas; eis que todas as trapalhadas serão reveladas; eis que todas as bandalheiras serão punidas; eis que toda a roubalheira deverá ser devolvida.
Para complicar, o exemplo de Lula e Dilma fez escola. E, dado que o mau exemplo é mais corrosivo que o ácido, o país, que já não era sério, que sempre foi amigo do jeitinho, parou de acreditar no bom senso.
Segundo o catecismo petista, bom senso é bobagem antiga. Muito antiga. De antes do Lula. É coisa do tempo de um tal Aristóteles, um cara que falava grego. Funcionava assim: para alcançarmos uma vida próspera e feliz. devemos utilizar como instrumento a frônesis (já imaginou?), que significa “justa medida”, uma combinação de comedimento e equilíbrio que resulta no tal “bom senso”.
O velhote da Grécia dizia ser esta uma sabedoria prática, acessível a todo o povo pelo uso do cérebro (uso do quê? abusado o Tóteles, hein?). Por exemplo, um guerreiro, com pouca coragem, se torna um covarde; com muita coragem, se torna temerário e pode se dar mal. Alguém que tem a obsessão de poupar dinheiro vira sovina; em contrapartida, aquele que nunca guarda nada, torna-se esbanjador e vai à falência. Assim, pregava Aristóteles, o caminho correto para uma vida boa e feliz está no equilíbrio e na ponderação.
De modo que, descartado o citado “bom senso”, devidamente xingado de neoliberal, nenhum petista queria ouvir falar em mérito e decência. Havia uma “ética” do partido: era nossa vez de “enricar”, de “meter a mão”. E nem as “zelite”, nem ninguém mais tasca.
Tanto fizeram que instalou-se a crise e a sociedade cansou. E, repetindo Rui Barbosa, “de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
Por consequência, com a adoção generalizada do “gasta que eu gosto”, hoje vivemos o efeito desta onda produzir o colapso em série nos estados e municípios. São dezenas de estados e centenas de municípios que estão na bancarrota, sem dinheiro até para pagar salários.
E foi nesta toada, ao se espalhar pelo país a seita petista, avessa às boas práticas de gestão da coisa pública, que o festival de gastança tirou os calços. Por exemplo, criaram-se milhares de cargos públicos. Acontece que cada novo emprego público gera compromissos de salário, aposentadoria e pensão por TRINTA ANOS. São trinta anos de despesa engessada. Grande número comprometida em manter funções obsoletas, como os ascensoristas do congresso nacional, que recebem mais de R$ 12 mil mensais.
E com Dilma, como mãe do PAC, e Lula et caterva com a mão no PAC, para qualquer lado que se olhe, depara-se com o desperdício. Vê-se uma profusão de obras inacabadas. Muitas delas, aliás, criadas só para gerar propina. Como Lula e Dilma acreditam que dinheiro dá em árvore, bilhões foram gastos sem controle. Podemos começar pela transposição do São Francisco, ou pela Refinaria Abreu e Lima, mas a lista é tão extensa que não cabe num só post.
Nestor Cerveró, um dos delatores “premiados”, contou que muitos políticos reclamavam do “pequeno” percentual destinado à propina nos contratos da Petrobras. “Tem muito político que pensa… Isso funciona muito em obra estadual, aí a comissão é 10%. Tinha político ali (na Petrobras) que ficava revoltado: ‘Porra, só isso que vc pode pagar? Fiz uma estradinha e levei 20%'”…
A propósito, Cerveró acusou Dilma de ferrá-lo. E deu o troco. Pelo que disse, Lula e Dilma sabiam de tudo desde o princípio. E apontou a responsabilidade de Dilma na compra da Refinaria de Pasadena, com 700 milhões de dólares pagos a mais.
O fato é que, sendo 2016 o Ano do Orangotango, tudo pode acontecer. Inclusive a volta da Dilma. Mas parece pouco provável. E por uma razão muito simples: político vende a mãe, mas não vende o cargo. Convencer senadores a escolherem o suicídio político é uma verdadeira missão impossível.
Dilma, ainda na cadeira, não conseguiu nem mudar os votos dos deputados, sendo que um deputado, eleito por voto proporcional, ainda poderia pensar em se reeleger com o que sobra de votos petistas. Ainda os haverá em pequena escala.
Já um senador, votando contra o impeachment e, assim, traindo a maioria dos seus eleitores, teria que enfrentar a fúria do eleitorado em uma eleição majoritária. Moral da história: não se reelegeria nem a pau.
Outras manobras de concepção sibilina, como esta proposta matreira que propõe a volta da Dilma com base numa promessa de renúncia e na convocação imediata de eleições diretas, simplesmente afrontam a inteligência da sociedade. Fazer um plebiscito para, depois, se for o caso, convocar eleições gerais, é enrolação da boa. Sem falar que promessa da Dilma tem credibilidade zero. Ninguém acredita.
Em todo o caso, só para ver o tamanho da bobagem, vamos imaginar a sequência destas tais “eleições gerais”: isso exigiria reformar a Constituição de uma hora para outra, com um rito complicado e maioria de dois terços. Mesmo que houvesse apoio de dois terços de ambas as casas e Dilma voltasse ao cargo à bordo desta “promessa”, isto só ocorreria em fins de agosto.
Em seguida, seria preciso começar a votar o projeto em meio às eleições municipais: o primeiro turno das eleições municipais de 2016, que elegerão em todo o país prefeitos evereadores, será realizado em 2 de outubro, primeiro domingo do mês. O segundo turno, em cidades com mais de 200 mil eleitores, está marcado para 30 de outubro, último domingo do mês. No congresso, durante a campanha, não se obterá nem quórum simples, quanto mais qualificado.
Passado o pleito, estaríamos no final do ano. Mesmo que as discussões iniciassem em novembro, as decisões pulariam as festas e as férias e seria retomadas depois do carnaval de 2017, que será em 28 de fevereiro. Com todas as chicanas e manobras protelatórias, uma eventual aprovação só ocorreria em meados de abril, na melhor das hipóteses. Então, a menos de dois anos do término do mandato, a eleição não seria por meio do voto popular, seria no plenário da Câmara dos Deputados. Sempre lembrando, claro, que, antes, seria preciso combinar com os russos: o Temer deveria concordar em renunciar junto.
E agora, José?
O Ano do Orangotango tem sido cruel de muitas formas. A roubalheira perene e os eflúvios etéreos estão nos dando uma surra merecida. Para a sociedade, não existe punição mais sádica do que assistir os noticiários. Milhões para cá, milhões para lá, milhões em profusão, milhões de contribuição, milhões no exterior, milhões em grana viva, milhões em espécie, milhões em maletas, em mochilas, em sacolas. São milhões, muitos milhões, mas nenhum, nenhunzinho, na sua mão. (São mais de 60 milhões de brasileiros inadimplentes, somando dívidas superiores a 250 bilhões)
Estamos vendo, de modo palpável, que no governo a irresponsabilidade é mais contagiosa que o sarampo. Que é mais fácil roubar do que ganhar. Que é mais fácil destruir do que construir.
O momento é de suspense. Dilma afastada é um alento. Mas é pouco. Tudo em nossa volta ainda segue se desmanchando. Estamos vendo as coisas continuando a se complicar. Temos a cada dia uma nova agonia.
Mas, por outro lado, a catarse antipetista, antisafadeza, e anticorrupção está transformando o ano de 2016 em um ano que será lembrado séculos afora. Enquanto houver Brasil, enquanto houverem brasileiros, 2016 será lembrado como o ano insólito, o ano da grande faxina, como o ano da inflexão, como o mais cabal e Orangotango de todos os anos.
Mesmo se não existisse a atual recessão econômica, você ainda assim estaria tendo de lidar com um mercado difícil. E o motivo é um só: você está entrando no mercado de trabalho praticamente sem nada a oferecer.
Nossa sociedade, há muito tempo, decidiu que era melhor para você passar 16 anos da sua vida sentado inerte em um banco escolar a tentar ganhar experiência real de trabalho no mercado, algo que o ajudaria a ter um emprego mais tarde.
Ainda que o governo lhe permitisse trabalhar quando você já o fosse capaz — ou seja, a partir dos 12 ou 13 anos de idade —, o fato é que ele impôs leis de salário mínimo que criam uma barreira à sua entrada no mercado de trabalho, impedindo que você concorra com pessoas mais qualificadas. Se o preço mínimo a ser pago é o salário mínimo estipulado pelo governo, então quem irá contratar você em vez de uma pessoa mais velha e mais qualificada?
Não bastasse tudo isso, ainda lhe disseram que, se você concluísse o colégio e se formasse em uma universidade, teria um emprego ótimo, com um alto salário.
E então a realidade chegou e você descobriu que os empregadores não estão interessados em você. Você começa a sentir que os empregadores pensam que você tem poucas habilidades e qualidades que realmente interessam a eles, além de não ter nenhum histórico comprovado de produção de bens e serviços que realmente interessaram a alguém.
Eis aí a raiz do problema. As pessoas mentiram para você por toda a sua vida.
Quando você era criança, você foi bombardeado com slogans sobre igualdade para todos. O impulso de competir e vencer foi reprimido em seus jogos de infância, ao passo que compartilhar e cuidar dos outros foi exaltado como sendo uma qualidade acima de quaisquer outros valores.
Então, em algum momento — quando você tinha entre 7 e 10 anos de idade —, algo mudou. Todo aquele papo sobre compartilhar e cuidar acabou, e um mundo hipercompetitivo surgiu. Exigia-se que você obtivesse notas altas, fosse excelente em matemática e ciências, fosse perfeitamente obediente, e ficasse na escola o maior tempo possível. Foi-lhe dito que, se você fizesse isso, tudo daria certo para você.
E, de fato, dá certo para alguns. Mas somente uma pequena minoria de pessoas está disposta a tanta submissão e aprendizado robótico. E, mesmo entre essas pessoas, nem todas conseguem o que lhes foi prometido. Já para o resto, não há planos. Espera-se apenas que aquelas que fracassaram em algum momento irão recuperar por conta própria, de alguma maneira.
Como você supera isso? Tudo se resume ao trabalho remunerado. Mas há a barreira que erigiram entre você e o seu objetivo. Você tem o desejo e está procurando por alguma instituição que valorize o que você tem a contribuir. Mas você não consegue encontrar a recíproca.
Considere isso: por que uma empresa contrata um empregado? A resposta é simples: empresas contratam porque acreditam que o negócio terá mais lucro com o empregado do que sem ele. A empresa lhe paga, você faz seu trabalho e, como resultado, há maiores ganhos do que haveria sem você.
Mas pense bem no que isso significa. Significa que você tem de adicionar mais valor à empresa do que recebe dela. Para cada real que você ganha, você tem de fazer com que a empresa ganhe um real mais algo extra. Essa tarefa não é fácil. Empresas têm custos a cobrir além do seu salário. Por exemplo, há o custo do seu treinamento. Adicionalmente, o governo impõe encargos sociais e trabalhistas onerosos. Há toda a carga tributária que incide sobre as receitas e sobre os lucros. Além de tudo isso, há incertezas com as quais ela tem de lidar. Tudo isso representa um fardo adicional à sua contratação pela empresa, que, além de arcar com tudo isso, tem de lhe pagar um salário.
O que isso significa é que você tem de ser mais valioso do que você pensa. Por que os empregos que pagam salário mínimo são tão duros? Porque é difícil para um trabalhador inexperiente valer mais do que lhe é pago. O empregador tem de extrair o máximo de valor possível dessa relação dele com você apenas para fazer com que essa relação traga a ele algum ganho. São grandes as chances de você estar dando prejuízo para a empresa nos primeiros meses de emprego, simplesmente porque você ainda não está treinado. Você acaba se esforçando como um louco apenas para ganhar o mínimo.
Se você já entende essa regra — que você deve adicionar mais valor do que recebe —, então agora você já sabe mais do que a grande maioria dos jovens trabalhadores. E isso lhe dá uma vantagem. Ao passo que todos os outros estão reclamando sobre o excesso de trabalho e o baixo salário, você ao menos já sabe por que está tendo de lutar tanto. Você está produzindo mais para a companhia do que recebendo dela. Fazer isso consistentemente é a maneira de seguir em frente. Na verdade, esse é o segredo da vida.
No entanto, para seguir em frente, você tem de ser, acima de tudo, um jogador. Não será nada bom você se acomodar e esperar que o trabalho certo, com o salário ideal, surja magicamente. Esqueça todas as suas expectativas. Se alguma coisa, qualquer coisa, surgir, você deve aceitar imediatamente. Nenhum emprego é degradante, apesar do que é dito a você. O objetivo é apenas entrar no jogo. Sim, você tem expectativas de salário muito maiores, e você pode alcançá-las algum dia. Mas não agora.
O primeiro passo é entrar no jogo com algum salário, qualquer salário, em alguma área. O medo que tal emprego, qualquer que seja, seja de alguma forma indigno é uma fonte séria de ruína pessoal. Aquelas pessoas que estão dispostas a efetuar a maioria dos empregos “degradantes” são exatamente as mesmas pessoas que futuramente poderão ter uma vida mais confortável. Apenas porque você enxerga aquele emprego como “degradante” não significa que ele não seja valioso para os outros e, especialmente e em última instância, para você.
Você sempre aprende algo com todo e qualquer emprego que você consegue. Você aprende a interagir com terceiros, aprende como um negócio funciona, como as pessoas pensam, como os patrões pensam, e percebe na prática que aqueles que são competentes vão muito mais longe em relação àqueles que falham. Trabalho é um aprendizado contínuo, tanto quanto — ou até mais que — a escola.
O principal medo das pessoas é que seu trabalho irá, de alguma maneira, definir suas vidas. Consequentemente, elas concluem que um emprego de caixa no supermercado irá redefinir ou até mesmo diminuir quem elas são. Essa noção é completamente falsa. Aquele trabalho é um tijolo em sua fundação.
Para conseguir qualquer emprego, você tem de fazer mais do que apenas deixar um currículo ou enviar um pela internet. Você tem de se destacar na multidão. Isso significa que você tem de se vender como uma mercadoria de qualidade. Você tem de fazer propaganda de si mesmo (e o marketing é o aspecto menos valorizado e ainda assim o mais crucial de todos os atos comerciais). Isso não é degradante; isso é uma oportunidade. Descubra tudo o que você conseguir sobre a empresa e seus produtos. Depois de solicitar o emprego, você tem de voltar ao local várias vezes, se encontrar com os gerentes, se encontrar com os donos — tudo com o objetivo de mostrar a eles quanto de valor você irá adicionar à empresa.
Neste novo emprego, o sucesso não é difícil, mas requer disciplina. Apenas siga algumas regras simples. Nunca se atrase. Faça imediatamente tudo aquilo que seu supervisor imediato lhe diga para fazer. Faça mais rapidamente e mais minuciosamente do que ele espera. Quando o trabalho estiver completo, faça algumas coisas inesperadas que adicionem valor ao meio. Nunca reclame. Nunca faça fofoca. Nunca participe e tome parte das politicagens do alto escalão. Seja um empregado modelo. Esse é o caminho rumo ao sucesso.
Tudo isso não se resume a apenas adicionar valor à empresa. É sobre adicionar valor a si mesmo. A era digital nos fornece todos os tipos de ferramentas incríveis para acumular capital pessoal. Crie uma conta no LinkedIn e anexe seu emprego à sua identidade pessoal. Comece a criar e a aglutinar essa rede essencial. Essa rede é algo que irá crescer ao longo da sua vida, começando agora e durando até o fim. Pode ser a mercadoria mais valiosa que você tem além de seu próprio caráter e suas habilidades. Tenha posse de sua experiência de trabalho e faça o seu próprio caminho.
Enquanto estiver fazendo todo esse excelente trabalho, você precisa estar pensando sobre dois possíveis caminhos adiante, cada um deles igualmente viável: progredir nessa mesma empresa ou mudar para outra empresa. Você deve ir para onde é melhor para você. Nunca pare de olhar para seu próximo emprego. Isso é verdade agora e sempre será ao longo de sua vida.
Um grande erro que as pessoas cometem é se envolver emocionalmente em uma instituição. A lei estimula essa atitude ao amarrar todos os tipos de vantagens ao emprego você tem atualmente. Você tem plano de saúde, tempo livre, aumentos salariais regulares, e é sempre mais fácil ficar com aquilo que você já conhece. Mas fazer isso é um erro. O progresso vem por meio de rompimentos, e algumas vezes você tem de romper consigo próprio para fazer esse progresso acontecer.
Estar disposto a renunciar à segurança de um emprego em troca da incerteza de outro dá a você uma vantagem. Pessoas medianas ao seu redor farão de tudo para sacrificar cada princípio e cada verdade em troca dessa sensação de segurança. As pessoas, com poucas exceções, temem a incerteza de um futuro desconhecido e se apegam firmemente à aparente segurança de uma situação já estabilizada. Você pode se livrar dessa propensão, mas isso requer coragem, assunção de riscos, e um ato consciente de desafiar o convencional.
Você deve sempre ver a si próprio como uma unidade produtiva que está sempre no mercado de trabalho. Você pode ir ascendendo de empresa para empresa, sempre melhorando suas habilidades e, portanto, seus salários. Nunca fique com medo de tentar algo novo ou de mergulhar em um novo ambiente de trabalho.
Administrar inteligentemente suas finanças é algo crucial. Nunca viva no mesmo nível de sua renda. Sempre viva abaixo de sua renda. Seu padrão de vida deve corresponder à sua segunda melhor oportunidade de emprego, aquele emprego do qual você abriu mão ou aquele que você pode aceitar no futuro. Se você se apegar a essa prática — e isso requer disciplina —, você será livre para escolher onde trabalhar e a aceitar maiores riscos. Você também terá um colchão de segurança caso algo dê errado.
Ao mesmo tempo, pode haver vantagens em se manter por um bom tempo na mesma empresa, mesmo se todas as outras pessoas ao seu lado estiverem continuamente se movendo. Se isso acontecer, você ainda assim deve continuar se vendo como estando no mercado. Você está no controle de si mesmo. Não se sinta preso a nenhum patrão, por maior que seja sua gratidão a ele. Mas também entenda que ninguém deve a você um emprego e um meio de vida. Essa é a única forma de fazer julgamentos claros sobre seu caminho na carreira.
Em todo e qualquer emprego, você irá aprender sobre ética humana, psicologia, emoções e comportamento. Boa parte do que você irá aprender será esclarecedor e encorajador. Outra parte, entretanto, pode não ser agradável e pode até mesmo ser um choque para você.
Primeiramente, você irá descobrir que as pessoas em geral são extremamente relutantes em admitir erros. As pessoas irão defender uma opinião ou uma ação até o fim, mesmo que todas as evidências e até mesmo toda a lógica estejam contra. Desculpas sinceras e admissões de erro genuínas são as coisas mais raras deste mundo. No entanto, não há motivo nenhum para exigir desculpas ou em ficar ressentido quando os pedidos de desculpas não surgirem. Apenas siga em frente. Tampouco você deve esperar que seja sempre recompensado por estar certo. Pelo contrário, as pessoas geralmente ficarão ressentidas e tentarão lhe inferiorizar.
Como você lida com esse problema? Não fique frustrado. Não busque por justiça. Aceite a realidade como ela é. Se um emprego não está funcionando, siga em frente. Se você for demitido, não busque vingança. Raiva e ressentimento não trazem absolutamente nada. Mantenha-se focado no seu objetivo, que é o avanço profissional e pessoal, e encare tudo aquilo que possa atrapalhar seu caminho como algo a ser superado e ignorado.
Em segundo lugar, todos queremos acreditar que fazer um bom trabalho e tornar-se excelente em algo irá nos trazer uma recompensa pessoal. Isso nem sempre é verdade. Excelência transforma você em um alvo da inveja daqueles à sua volta que fracassaram em relação a você. Excelência geralmente pode prejudicar suas expectativas de sucesso. A meritocracia existe, e até mesmo prevalece, mas é conseguida por meio de sua própria iniciativa; ela nunca lhe é garantida livremente por algum indivíduo ou instituição. Todo o progresso pessoal e social ocorre porque você sozinho se esforçou e superou todas as tentativas de todos ao redor de você de lhe atrapalhar.
Em terceiro lugar, as pessoas tendem a possuir uma propensão à imobilidade e à comodidade, preferindo seguir ordens e instruções a tomar iniciativas próprias; a maioria das pessoas não consegue imaginar como o mundo ao redor delas pode ser diferente caso elas tenham mais coragem e iniciativa. Se você conseguir criar o hábito de imaginar um mundo que ainda não existe — exercitar o uso da imaginação e da criatividade em um âmbito comercial —, você pode se transformar na mais pessoa mais valiosa ao redor. Você pode estar entre aqueles que podem ser os genuínos empreendedores. Sim, sem exagero, você pode até mesmo criar algo que mude o mundo.
À medida que você for desenvolvendo o uso desses talentos, e à medida que eles forem se tornando cada vez mais valiosos para aqueles à sua volta, lembre-se sempre de que você não é infalível. O mercado de trabalho pune o orgulho e a arrogância, e recompensa a humildade e o espírito de aprendizado. Seja feliz por seu sucesso, mas nunca pare de aprender. Há sempre mais a conhecer porque o mundo está sempre mudando, e nenhum de nós pode saber tudo. O segredo para se prosperar nessa vida é estar preparado não apenas para mudar junto com a vida, mas também para se antecipar às mudanças e conduzi-las.
Do seu ponto de vista atual, desempregado e com poucas perspectivas adiante, seu futuro pode parecer desesperador. Mas essa percepção não é verdadeira. Há barreiras, sem dúvida, mas elas estão lá para ser ultrapassadas por você e somente por você. O mundo não funciona da maneira como lhe falaram quando você era criança. Lide com isso e comece a se envolver com a realidade à sua volta da maneira que ela é, usando inteligência, astúcia e charme. Você é o tomador de decisão supremo, e o seu sucesso ou fracasso em última instância dependerá das decisões que você tomar.
De várias formas, você é uma vítima de um sistema que conspirou contra você. Mas você não irá a lugar nenhum agindo como um coitado e tendo uma mentalidade vitimista. Você não precisa ser uma vítima. Você tem livre arbítrio e autonomia. Com efeito, você tem o direito humano de escolher. Hoje é o dia de começar a exercitá-lo.
A Petrobrás é uma benção ou uma praga para o Brasil?
Relata o apóstolo Mateus, no evangelho, (4:8-9), que Jesus, após o batismo, teria vencido a três grandes tentações. Se cedesse em qualquer das três, teria frustrado sua missão na Terra.
Na terceira tentação, Jesus teria sido levado pelo diabo a um monte muito alto. Do cume do monte o diabo teria mostrado todos os reinos do mundo e a glória deles e teria dito ao Messias: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”.
O preço a pagar para receber a ajuda do diabo na conquista do poder sobre as coisas materiais é prostrar-se diante do dele e adorá-lo. Esta passagem do evangelho fala em traição.
Para obter o poder absoluto, para fazer e desfazer das coisas deste mundo, sem dar satisfações, é preciso trair. E é preciso vender a alma, é preciso “fazer o diabo”, como, aliás, confessou com candura a afastada Dilma. E, neste processo, é preciso trair o povo e mandar seus interesses para o inferno.
Visto do alto do monte, no cenário brasileiro, a maior das glórias e o mais rico dos orçamentos é o da Petrobrás.
E cada governante deste país, desde que a empresa foi criada, em 1953, tem sido submetido à mesma tentação. A cada um deles, o diabo oferece a Petrobrás. E todos tem sucumbido à ela. Alguns mais, outros menos.
Os presidentes militares caíram em tentação por um dos sete pecados capitais: a soberba nacional, que se expressava pela manifestação de orgulho e arrogância. Ainda assim, mantiveram-se com algum pudor.
Quando chegou a vez do Lula, o diabo o levou ao cume da montanha e mostrou a Petrobrás. Foi amor à primeira vista. “Tudo isto vai ser meu”? quis saber Lula, os olhos brilhando.
E o capeta, esfregando as mãos, já antevendo a esbórnia que ia dar, respondeu: “tudo isto vai ser teu, desde que tu me entregues tua alma e pagues religiosamente as propinas do PT, do PMDB, do PP e caterva”.
Para o tinhoso, estava tudo dominado. Para Lula, era a glória! Exultante em botar a mão na Petrobrás, nem titubeou. Fechou negócio no ato. É de se imaginar que seus olhos aboticaram e, sem se conter, saltitava de cá prá lá, girando os braços no estilo que copiou da Elis Regina. Só podia estar radiante. Amigo do demo ele já era de muito tempo, mas agora iria ser parceiro!
Há quem diga que, neste dia, a estátua do Padinho Cícero verteu lágrimas que, de tão abundantes, resvalavam pelos botões de sua batina de pedra caiada. Mas Lula não era cabra de fazer pela metade. Então, sem titubear um segundo, partiu para a ação, implantando a transposição do dinheiro da Petrobrás para seu projeto de poder.
Para operar a safadeza, que era muita e opulenta, estabeleceu a parte que cabia a cada um. De início, nomeou os diretores que representariam o diabo na diretoria da estatal. Mas, nem com todo o enxofre vertendo pelas ventas, foi coisa fácil.
Relata, em sua delação, o ex-deputado e ex-presidente do PP, Pedro Corrêa, que houve alguma resistência corporativa ao avanço da diretoria do “Projeto Satanás”. Segundo o delator, o partido havia indicado Paulo Roberto Costa para a diretoria de abastecimento, mas a nomeação emperrou.
Lula, então, teria ligado à José Eduardo Dutra, na ocasião presidente da estatal, para saber que diabo estava atrapalhando.
Dutra, tolo que era, ainda tentou argumentar:
“Mas Lula, eu entendo a posição do conselho. Não é tradição da Petrobrás assim, sem mais hem menos, trocar um diretor”.
Qual o quê! Acordo com o diabo é como sentença do Supremo: tem que cumprir e acabou.
Lula, possesso e enfezado, mandou passar por cima da tal alegada tradição, ameaçando demitir os conselheiros teimosos que havia nomeado. Segundo Corrêa, o ex-presidente teria dito: “Se fossemos pensar em tradição, nem você era presidente da Petrobrás e nem eu era presidente da República”.
Assistindo tudo aquilo, o diabo se estrebuchava de tanto rir.
Em outro episódio da série, que seria hilária se não fosse trágica, um grupo do Partido Popular foi ao Palácio do Planalto falar com Lula e reclamar da “invasão”. Corrêa relata que o, à época, presidente, passou uma descompostura nos deputados.
Lula foi logo dizendo que eles “estavam com as burras cheias de dinheiro” e que a diretoria era “muito grande” e tinha que atender a outros aliados”. Segundo o relato, os caciques do PP se conformaram quando Lula lhes garantiu que a maior parte das “comissões” seriam dirigidas para a sigla.
E a Petrobrás, sob o comando satânico, foi se desfazendo. De maior empresa brasileira para a empresa mais endividada do mundo. Nunca antes neste país, tanto dinheiro foi pelo ralo tão depressa: a empresa registrou a maior perda em valor de mercado, em números absolutos, desde o ápice no Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores, em 2008, Segundo a consultoria Economatica.
A petroleira, que tinha chegado a um valor de mercado de 510,3 bilhões de reais em 21 de maio de 2008, em janeiro de 2016 não valia mais que 73,7 bilhões de reais, uma perda de R$ 436,6 bilhões, em queda de 85,55%.
O mais insano é que, se de fato, a corrupção respondeu por apenas 6 bilhões de reais, como diz a Petrobrás, para meter a mão nesta quantia o PT e aliados queimaram 430 bilhões. Há que se reconhecer que as diabruras do PT foram mesmo infernais. O belzebu estará orgulhoso do bom negócio que fez com o Lula e, por extensão, com a Dilma.
Mas e agora, o que vai acontecer daqui para a frente?
Com o Lula fora e a Dilma afastada, o diabo precisa sair para uma nova rodada de negociações. Vai tentar o Temer. O Temer tem uma figura com toques mefistofélicos que deixa o diabo com o pé atrás. Mas negócio é negócio. A Petrobrás vai continuar na parada da corrupção? Continuará a ser parte do botim eleitoral? Continuará a ser sangrada para enriquecimento dos políticos e safados de plantão?
Um antigo e sábio ditado diz que “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é bobo ou não tem arte”. Onde tiver dinheiro público, onde tiver dinheiro “sem dono cuidando”, lá estará o diabo obrando tentações e lá haverá gente metendo a mão.
Os liberais defendem o estado mínimo porque acreditam que lutar contra a natureza humana, contra a cobiça e contra o patrimonialismo que mistura o público com o privado, apenas com base em prédicas moralistas, é enxugar gelo ou, pior, é criar uma cortina de fumaça para que a corrupção prospere camuflada.
Mecanismos de governança e transparência podem ajudar a controlar a roubalheira desenfreada, mas serão sempre impotentes diante da criativa malandragem tupiniquim. No Brasil, não dá para facilitar. Medidas ditas de “prevenção” sempre serão vencidas pelos truques e maracutaias engendradas pela turma formada na melhor escola de corrupção do mundo, a brasileira.
A resposta, portanto, é de clareza meridiana: privatiza. Enquanto a Petrobrás for estatal, ela será alvo da cobiça dos políticos e burocratas. E ela será a grande aposta do diabo para fomentar a corrupção e, de quebra, infernizar a nação.
Agora, privatizar a vaca leiteira dos milhares de parasitas que mamam em suas tetas não vai ser bolinho. Como, então, convencer a sociedade brasileira que o melhor a fazer é privatizar a Petrobrás?
Essa daí é uma questão deveras complexa. Após anos de lavagem cerebral, na base do discurso do “Petróleo é Nosso”, muita gente ainda confunde petróleo com Petrobrás. O petróleo é nosso porque está em nosso subsolo e ninguém vai levar o petróleo embora.
Já a Petrobrás, ao contrário do que apregoa, não é “nossa”. Ela é um polvo tentacular que opera em pelo menos 35 países: Brasil, Bolívia (lembram que tomaram nossas refinarias e perdemos investimentos de 6 bilhões de dólares?) Paraguai, Peru, Colômbia, Uruguai, Argentina, Chile (A Petrobras informou, recentemente, que concluiu a negociação da venda de ativos na Argentina e no Chile, como parte de seu plano de arranjar dinheiro para cobrir o rombo da corrupção), Equador, Venezuela, Trinidad e Tobago, EUA (lembram da Refinaria de Pasadena?), México, Cuba (claro!), Senegal, Líbia, Argélia, Portugal, Inglaterra, Noruega, Guiné, Nigéria, Angola, Tanzânia, Madagascar, Moçambique, Turquia, Iraque, Japão, China, Paquistão, Índia, Cingapura (lembram da Venina Velosa da Fonseca, aquela gerente da área do Paulo Roberto Costa que denunciou as falcatruas milionárias da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco? Ela foi mandada para chefiar o escritório da petroleira nesta cidade-estado por Graça Foster, outra que anda sumida, ), Iêmem e Iraque.
Assim, a Petrobrás virou uma multinacional que negocia suas ações na bolsa de N. York e, como se sabe, aliás, vai ter que pagar bilhões de dólares em indenizações nas 28 ações que são movidas nos Estados Unidos por acionistas que se sentiram ludibriados pela corrupção e consequente desvalorização das ações.
(Anote: O julgamento dos processos contra a Petrobrás está marcado para iniciar dia 19 de setembro próximo, conforme determinou o Juiz Jed Rakoff, da Corte de Nova York)
Portanto, de brasileira mesmo, a Petrobrás hoje só tem a corrupção. Ela é de seus acionistas, ela é do mercado. Hoje a empresa defende mais o interesse de seus acionistas do que algum eventual interesse do povo brasileiro. Por exemplo, pagamos a gasolina mais cara das Américas. Se a empresa é “nossa”, e deixamos que nos explore, somos os maiores trouxas do mundo.
Os ventos estão mudando. A sociedade vem amadurecendo em seu entendimento de que precisamos nos desvencilhar de arcaísmos que nos seguram no passado.
O Brasil precisa de educação, saúde, segurança, uma matriz energética inteligente, habitação, instituições contemporâneas, um mercado livre e integrado, uma infraestrutura de logística e transportes. O país não precisa de monopólios, estatais anacrônicas, cabides de empregos, uma burocracia cara, antiquada e prepotente.
Quando estivermos preparados, saberemos fazer escolhas alinhadas com o Século XXI e nos livraremos do peso de velharias ideológicas do século dezenove. Então a Petrobrás será privatizada, retornando aos cofres públicos parte do dinheiro que já custou ao país, pagando impostos e tirando de nossos ombros a maldição do petróleo.
Quando isto acontecer, vamos produzir mais petróleo do que nunca, vamos ter mais produto a preços menores e o diabo, aleluia, vai ter que achar outro caminho para financiar a corrupção no Brasil.
Dilma fez uma sopa indigesta. Misturou pedra com sapo e lula. Temperou com PT ao gosto. Deu no que deu. Eca….
Dilma, a mulher sapiens, fez uma sopa de restos. Entrou pedra, sapo, lula, um ministério “fim de feira” e muita mandioca, que, em sopa de Dilma, aipim é que não pode faltar. Foi uma pajelança.
Tem quem pense que um governo é uma sopa: uma mistura de ingredientes que devem ser fervidos juntos para produzir um caldo.
O primeiro governo do PT tinha boa proteína na sopa do Lula: Meirelles no Banco Central. Era como um naco de músculo de pescoço que teimava em resistir à fervura do fogo que a esquerda botava para queimar por baixo. O cozinheiro Lula, ainda pouco afeito às lides de forno e fogão, preferia ir com jeito, seguindo a receita econômica do mundo que dava certo – o mundo mal amado dos gringos de “olhos azuis”. Lula xingava os gringos, sem lembrar que os orientais do Japão, China, Coréia, Singapura e outros, de olhos amendoados, também vinham se dando bem à luz do bom senso na economia, aliás, seguindo o mesmo cânone prometido na hoje esquecida “Carta ao povo brasileiro”, dos idos de 2002. De toda forma, bafejado pela herança bendita que recebeu de FHC, que começava a produzir frutos, tudo parecia estar indo bem na sopa, ainda que nela já estivem cozinhando os sapos do mensalão.
O segundo governo do Lula foi o despertar dos embrulhões. Parecia chegado o momento de adotar a feitiçaria heterodoxa, que a ortodoxia era blasfêmia dos neoliberais. Com a saída de Palocci, vieram os aprendizes de feiticeiro. Com pompa e circunstância, começaram as bruxarias naeconomia. Abriu-se a caverna da Abra-cadabra: sucediam-se mágicas bestas à torto e à direito. Com dinheiro correndo farto para irrigar a corruptaiada, mesmo o escândalo do Mensalão acabou sendo absorvido, sob regozijo de Lula, que viu seu rival Zé Dirceu ir parar nas masmorras. Para o governo, tudo transcorria em clima de quermesse. O mundo vivia a festa das commodities. Os dólares jorravam da cornucópia das exportações e muita gente, no país do Macunaíma, imaginava que se haviam aberto as portas do jardim do éden. Sob a frouxidão de um presidente que, a aquela altura, saracoteava mais que um Baco de arrabalde em meio a uma balada rap, os rigores burgueses foram lançados ao mar. A Petrobrás virou a casa da mãe Joana. Bilhões eram roubados e o caixa saqueado com a desenvoltura de dona de bordel. Como tudo parecia lindo e maravilhoso, todos os aliados meteram a mão sem “pudô” e a farra do liberou geral saiu do controle.
Era uma folia de reis no planalto. O “pudê” tava uma delícia. E tudo nos conforme: se as “zelite” gostam, deve ser bom. Agora é nóis na fita.E dado que, para o projeto de poder do PT, os fins justificavam os meios, nada havia a temer.
Para o PT e aliados, após oito anos gulosos aprendendo a gostar do bom e do melhor, com Lula voando solto no salto alto, de repente surge a ameaça que podia acabar com a brincadeira: uma nova eleição se avizinhava. Era preciso pensar o futuro. Largar o osso, nem pensar. O “sapo barbudo”, definição preferida de Brizola para o molusco, gostou de ser presidente. Queria mais. Por ele, bem que tentaria ficar para sempre passeando de AeroLula, sendo bajulado por todos os basbaques bolivarianos da Sul América, e, que beleza, recebendo títulos honoris causa mundo afora. Digno do Guiness: foram 55 títulos de universidades deslumbradas e que não se deram ao respeito!. Só na Argentina foram 11. Mas o Brasil não é a Venezuela. Aqui não dava para engatar uma mudança constitucional que permitisse uma nova reeleição. A salvação é que Lula, o sapo sábio, havia aprendido com o Chapolim Colorado a suspeitar desde o princípio. E, sem querer querendo, plantou a candidatura de um poste. Dilma parecia o poste ideal. Para começar, era um poste sem luz. Não era muito inteligente, arrogante no trato, era péssima em política e ruim até no arremesso de grampeador. Daí que, pensou o molusco de Garanhuns com suas ventosas: o poste (a “posta”??) seria submissa, faria pose, mas seria ele, Lula, que continuaria a mandar nos bastidores. Seria um maestro sem batuta, um Rasputin do sertão. E assim decidiu e ficou feliz. Ele era esperto, muito esperto.
Para ganhar, fizeram o diabo. Abriram os dutos do tesouro. Prometeram enormidades e, o povo, nosso ingênuo e crédulo povo, acreditou. Só que, como diz o ditado, a esperteza, quando é muita, vira bicho e come o esperto. Como as contas não fechavam, as coisas começaram a dar errado. Dilma só fazia o que lhe dava na telha, quer dizer, coisa pouca e atabalhoada. Depois de dar lições de economia à Angela Merkel (e levar um pito equivalente ao 7 x 1), assumiu a nova “matriz econômica”. Desdenhosa, quis mostrar-se acima da matemática, esta ciência que dá nojo em petista que se preza, esta invenção satânica da burguesia de direita para oprimir os pobres e os humildes. Foi uma derrocada anunciada que provou, uma vez mais, que quem não aprende com o passado está condenado a revivê-lo como farsa.
Em um governo cheio de empáfia e distante da realidade, a lei de causa e efeito foi revogada e deixou de valer. Erros sucessivos e incompetência obsessiva solapavam diariamente as bases em que se assentava a economia do país. Dilma, a mulher sapiens, esqueceu que a economia, como a natureza, não se defende: ela se vinga. O crescimento não vinha. O valor das commodities despencou. A Petrobrás não aguentou tanto desaforo. As pedaladas começaram. Quatro anos de deterioração enferrujavam a estrutura do país. A entropia auto induzida emperrava tudo. Para disfarçar seus efeitos e esconder a ferrugem, os taifeiros do PT passaram uma mão de tinta. O Brasil virou uma alegoria que fantasiava uma prosperidade que não lhe pertencia mais. Os 39 ministérios só faziam maquiagem. Neste clima veio a nova eleição.
O que se diz é que Lula tinha decidido ser candidato, como, acreditava-se, era o planejado. Acontece que Dilma o chamou para um canto e teria dito alguma coisa que fez o medo vencer a esperança. Era chato, mas Lula resolveu esperar mais quatro anos. Foi um erro fatal. Livre de escrúpulos, sem eias nem peias, Dilma se lançou em uma campanha despudorada, jogando bilhões na parada, sempre devidamente aconselhada por ministros igualmente aloprados, como Aloísio Mercadante e José Eduardo Cardoso. A candidata jogou para o alto o que restava de decência. Se valendo da mais refinada malandragem de que se ufana este país, aplicando competentes golpes de marketing charlatão, sob a batuta do atual presidiário João Santana, arrancou uma escassa vitória nos grotões. Lá, na beirada pobre do país, os votos foram escandalosamente comprados com o dinheiro do bolsa família. De positivo, só ficou provado que nada acaba mais depressa com um mau produto do que um bom marketing.
Reeleita, reassume a nova Dilma. Agora, ciclista na melhor acepção da palavra, sai para as pedaladas. Na cozinha, assume o panelão. O segundo mandato da mulher sapiens começou com uma sopa de pedra. O Ministro Levy era a pedra. Estava na sopa, mas não tinha nem sabor nem cheiro. A Dilma, mais imperial, arrogante e prepotente do que nunca, fazia questão de humilhar seu ministro. Um ministro, aliás, nomeado “pour épater le bourgeois” e que era exibido para fazer o contraste e deixar claro quem mandava. A mensagem imperial era clara e tonitruante: “vocês vão ter que me engolir”. “Vocês”, no caso, éramos nós, o povo.
Após um ano patético, Levy foi tirado da sopa. Saiu como entrou. E, com a dignidade intacta, Joaquim Levy, o engenheiro naval com doutorado em economia, foi ser Diretor Financeiro do Banco Mundial (BIRD). Sem a pedra, a sopa ficava cada vez mais à imagem da ex-guerrilheira: uma poção mal cheirosa. No caldeirão da bruxa, a “presidenta” ia jogando todo o lixo que aparecia pela frente. Jogou dentro até um ministério arrebanhado nos restos da feira livre em que virou o congresso. Tentou fazer um acordo com o Eduardo Cunha, mas era tarde. Nas ruas, as multidões eram muitas e o dinheiro era pouco. Como última esperança, a feiticeira aloprada colocou o sapo na sopa. Não funcionou: eis que a sopa de sapo ninguém quis.
E agora, o fim melancólico da era lulopetista está escrito nas estrelas. (Refiro-me às verde e amarelas, aquelas que brilham no firmamento e no coração dos brasileiros.)
A Lava Jato continua moendo petista e vem escancarando as entranhas malignas dos governos de Lula , de Dilma e do PT. O lance final da mulher sapiens, chamar o Chapolim barbudo para o ministério, foi a cereja do bolo: o Sérgio Moro foi mais esperto e soltou a gravação que citava o tal “Bessias”. Fim. Cheque mate.
Agora, na desmontagem do mais estapafúrdio e estrambólico governo de nossa história, ainda se observa um esperneio aqui e outro ali. É a petezada querendo osso. Mas nem mortadela tem mais. Só sobrou mandioca. E sem acesso ao dinheiro público, a empáfia se esvazia, a ilusão acaba, as cortinas se fecham. Tchau, querida
Prepare-se para uma grande surpresa: um tsunami de crescimento pode vir tomar conta do Brasil já ao longo dos próximos 180 dias. Conversando com diversos empresários nos últimos dias fui surpreendido por um contexto inteiramente inesperado: a existência de um represamento de projetos que estão no gatilho para serem disparados assim que se consolidarem os primeiros sinais de uma mudança nos rumos da economia. Tudo indica que a existência de crescimento represado e projetos prontos para implementação imediata pode disparar uma onda de crescimento por empresas que pretendem “sair correndo” para evitar que eventuais concorrentes cheguem antes e ocupem lugar no mercado. Se esta tendência se confirmar de fato, pode ser que venhamos a assistir a uma autêntica “corrida de ouro” dos tempos do velho oeste.