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QUANDO AS VITRINES ENCANTAVAM ERECHIM

QUANDO AS VITRINES ENCANTAVAM ERECHIM

Entre as lembranças da Erechim encantadora dos anos 60 e 70, uma das mais saborosas era o passeio pela Avenida Maurício Cardoso nas manhãs de domingo.

Terminada a missa das dez horas, mal o padre pronunciava o solene “Ite, missa est”, uma multidão de fiéis se espalhava pelo pátio frontal da Igreja Matriz, dando início a um estrepitoso festival de reencontros, cumprimentos e abraços. Enquanto os sinos do carrilhão badalavam numa alegre cacofonia, as pessoas ganhavam a avenida, que se transformava numa espécie de promenade, um grande salão de encontros a céu aberto.

O footing dominical pela Maurício Cardoso era um acontecimento social imperdível.

Num tempo sem internet, redes sociais ou telefones celulares, era naquele passeio que as famílias se encontravam, os rapazes cortejavam as moças e muitos namoros começavam. Famílias circunspectas, elegantemente vestidas numa época em que ir à missa exigia os melhores trajes, misturavam-se aos grupos de jovens que davam vazão à alegria e esbanjavam entusiasmo.

O ritual era conhecido de todos. Saindo da Matriz, subia-se a Maurício Cardoso pelas calçadas ou pelos canteiros centrais até a Praça Júlio de Castilhos. Depois, fazia-se o caminho de volta pelo outro lado da avenida, até a Praça da Bandeira, onde, aos poucos, acontecia a dispersão.

Mas aquele passeio tinha outra finalidade, tão importante quanto encontrar amigos e conhecidos: descobrir as novidades da cidade.

Hoje, as novas gerações percorrem as redes sociais em busca de novidades, tendências, curiosidades e atrações. Naquele tempo, essa função era desempenhada pelas vitrines. Eram elas as telas luminosas pelas quais Erechim exibia seus encantos, suas novidades e suas promessas.

Fazer o footing dominical era, de certo modo, fazer o download das maravilhas daquela Erechim charmosa, buliçosa e intrigante.

Ora, todo erechinense que se preze sabe que os comerciantes da cidade nunca economizaram criatividade para conquistar a freguesia. E, naquele tempo, as vitrines eram uma das armas mais poderosas dessa disputa. Uma vitrine bem montada no domingo era meio caminho andado para garantir bom movimento na semana seguinte.

Foi assim que, no início dos anos 1960, a Associação Comercial resolveu promover um grande concurso de vitrines natalinas, destinado a estimular as vendas e dar ainda mais brilho às festividades de fim de ano.

Guardadas as proporções, as lojas da Maurício Cardoso transformaram a avenida numa animada Disneylândia.

As vitrines passaram a disputar a atenção dos transeuntes com cenários cada vez mais elaborados, iluminação colorida, enfeites, brinquedos e engenhocas que pareciam saídas de algum mundo encantado. A prefeitura fez sua parte, estendendo cordões de lâmpadas multicoloridas de um lado a outro da avenida, como se quisesse cobrir de estrelas artificiais o céu da cidade.

Erechim inteira parecia entrar no espírito da competição.

Ao que me lembro, mais de seis décadas passadas, entre as vitrines mais competitivas estavam as da Casa Arioli, da Casa Ômega, da Vidraçaria Tosetto, da Casa Alegretti, da Casa Toldo e da Abal Giacomuzzi. Havia muitas outras, naturalmente, cujos nomes minha memória enevoada teima em não recordar.

O concurso tinha suas regras e seus rituais. Uma comissão técnica avaliava os quesitos, à maneira dos jurados dos concursos de miss ou da Rainha da FRINAPE. Havia também o voto popular, que mobilizava os fregueses. Quem comprava nas lojas participantes podia trocar suas notas fiscais por votos. Quanto mais comprava, mais podia votar.

Era uma engenhosa combinação de promoção comercial, espetáculo natalino e participação popular.

Meus pais, proprietários da Loja Esmeralda, participaram daquele concurso com enorme entusiasmo.

Nossa loja ocupava uma posição privilegiada, praticamente no meio da Avenida Maurício Cardoso, em frente ao Cine Ideal. Suas duas amplas vitrines eram sempre decoradas com especial capricho. Sabíamos, por experiência própria, que uma boa vitrine era movimento na veia.

Havia, porém, uma particularidade.

A vitrine da esquerda, para quem entrava na loja, pertencia ao departamento de minha mãe, onde predominavam roupas, tecidos, bijuterias, utensílios e utilidades domésticas. A vitrine da direita era território de meu pai: relógios, joias, brinquedos, porcelanas, talheres, chocolates, artigos de festa e decoração.

Cada um cuidava de seu espaço com dedicação e criatividade.

Mas, naquele determinado Natal, meu pai resolveu fazer algo diferente.

Decidiu transformar sua vitrine numa homenagem à Letônia, seu saudoso país natal.

A Letônia, como muitos sabem, é um país báltico do norte da Europa, onde, em determinadas condições, também é possível contemplar um dos mais extraordinários espetáculos da natureza: a aurora boreal. Aquelas cortinas de luzes multicoloridas que parecem dançar misteriosamente nos céus das regiões setentrionais do planeta.

Pois foi justamente a Aurora Boreal o tema escolhido para a vitrine da Esmeralda naquele concurso natalino.

Meu pai mobilizou uma pequena equipe de improvisados vitrinistas, da qual eu, orgulhosamente, fazia parte.

A ideia era reproduzir, dentro de uma vitrine comercial de Erechim, o espetáculo das luzes que iluminavam os céus do norte da Europa.

Não era pouca pretensão.

Do teto desciam véus de tule e faixas de algodão colorido, compondo um cenário de formas ondulantes. Espelhos multiplicavam os reflexos das lâmpadas estrategicamente escondidas, criando a ilusão de luzes que se moviam e se entrelaçavam no céu. Tudo era concebido para sugerir aquele fenômeno misterioso, tão distante da realidade de uma cidade do interior gaúcho.

Sob aquela aurora improvisada, instalamos um pequeno mundo de fantasia.

Havia ursos, coelhos e outros brinquedos inspirados na fauna e no imaginário dos países nórdicos. Muitos eram movidos a pilhas ou baterias. Giravam a cabeça, agitavam as patinhas e executavam movimentos que fascinavam a criançada.

Um trenzinho elétrico percorria incessantemente seus trilhos, enquanto uma roda-gigante girava lentamente, exibindo ofertas de guloseimas, livros e presentes infantis.

E, para completar o encantamento, músicas natalinas ecoavam de alto-falantes discretamente instalados, envolvendo aquele pequeno universo de luzes, cores e movimento numa atmosfera festiva.

Guardo até hoje, com imenso carinho, uma fotografia daquela vitrine.

Recordo também as famílias que se aglomeravam diante da Esmeralda. As crianças, sobretudo, ficavam hipnotizadas pelos brinquedos em movimento. Algumas apontavam para o trenzinho; outras acompanhavam, fascinadas, as voltas da roda-gigante. Os adultos observavam os detalhes, comentavam as novidades e tentavam compreender o significado daquele cenário tão diferente.

Contudo, havia um pequeno problema.

Praticamente ninguém sabia o que era essa tal de aurora boreal.

Hoje, com a televisão, a internet e as viagens internacionais, o fenômeno é conhecido de muita gente. Mas, na Erechim do início dos anos 1960, falar de aurora boreal era quase como falar de um espetáculo extraterrestre.

Mesmo numa cidade formada por tantos imigrantes europeus, podiam ser contadas nos dedos as pessoas que conheciam aquele fenômeno.

Meu pai, percebendo a curiosidade dos visitantes, passou a manter à mão um volume de enciclopédia, que utilizava para explicar o que eram aquelas misteriosas luzes dos céus do norte.

Assim, nossa vitrine acabou adquirindo uma função inesperada. Além de vender brinquedos, relógios, chocolates e presentes de Natal, passou a oferecer pequenas aulas de geografia e de fenômenos da natureza.

Mas aconteceu algo ainda mais interessante.

Aquela aurora boreal de fantasia acabou atraindo alguns visitantes para quem o fenômeno não era uma novidade, mas uma lembrança.

Recordo-me de um russo, de uma finlandesa e de alguns judeus de Quatro Irmãos que vieram conversar com meu pai e contar suas experiências com as luzes misteriosas que haviam contemplado nos céus de sua Europa de origem.

Imagino o significado daqueles encontros.

Ali, diante de uma vitrine de Natal, numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, pessoas que haviam atravessado oceanos e deixado para trás suas pátrias longínquas encontravam um motivo para reviver paisagens, invernos, costumes e lembranças de um mundo que, apesar da distância e do tempo, continuava vivo em suas memórias.

No fim, não ganhamos o concurso.

Outras vitrines receberam os prêmios e as honrarias daquela competição que tanto movimentou a cidade.

Mas, recordando o entusiasmo de meu pai, penso que ele conquistou algo muito mais precioso do que um troféu.

Naquele Natal, enquanto as vitrines de Erechim disputavam a preferência dos fregueses e as crianças se encantavam com os brinquedos que se moviam sob luzes multicoloridas, ele conseguira, por algumas noites, aproximar-se de sua saudosa terra natal.

Hoje, mais de seis décadas depois, ao contemplar a velha fotografia daquela vitrine, compreendo melhor o que talvez não percebesse quando ajudava a montar os brinquedos e a esconder as lâmpadas entre os espelhos e os véus de tule.

Meu pai não estava apenas preparando uma vitrine para um concurso de Natal.

Estava abrindo uma janela para suas raízes, sua infância e sua Letônia distante.

Naquele Natal, as vitrines de Erechim competiam para conquistar os olhos dos fregueses. A de meu pai procurava alcançar algo muito mais significativo: os céus de uma pátria que, embora perdida na distância, jamais se apagara de seu coração.