
Fácil: Essa bela Terra de Santa Cruz já existia antes de aqui chegarem os primeiros corruptos. O Brasil pré-descobrimento era um país de abundância e riqueza. É isso que afirma Pero Vaz de Caminha em sua carta a El Rei de Portugal, Dom Manoel I, dando conta sobre o achamento do Brasil. Segundo relata o escriba, aqui tem terra fértil e águas abundantes, ressaltando que, nesta terra, “em se plantando, tudo dá”. É verdade que isso era dito antes da Embrapa e da Lei da Integração do Agro, mas ainda assim, o dilema de origem do tipo do ovo e da galinha, ou seja, a dúvida sobre o que veio primeiro, se a corrupção ou a pobreza, aqui não existe. Neste país aqui foi a corrupção que chegou primeiro.
Nossa história econômica é a história de uma espoliação sem fim. Começa com o Ciclo do Pau-Brasil. Nos primeiros cinquenta anos, após a descoberta, quase extinguiram com a madeira que era usada para tingir tecidos na Europa. E, de quebra, por pouco não acabam com as orquestras, já que a madeira possui características que a tornam a mais adequada para arcos de violino. As árvores de Pau-Brasil eram cortadas pelos indígenas, que recebiam, em troca, quinquilharias tipo, espelhinhos, calções, pentes e facas.
Depois veio o Ciclo da Cana-de-Açúcar. Durou cem anos, de 1550 a 1650. Caracterizou-se pelos engenhos e pela escravidão africana. O açúcar foi o principal motor da economia colonial por mais de um século. Acabou quando as terras, esgotadas, pararam de produzir. E funcionava assim: enquanto os escravos trabalhavam de sol a sol nos canaviais, os donos de engenho passavam agradáveis temporadas na Europa. Qualquer semelhança com os atuais marajás da república não é, repito, não é mera coincidência…
Após o declínio do açúcar, causado pela concorrência das novas plantações de cana do Caribe, o que acabou salvando a pátria nos séculos dezessete e dezoito foi a descoberta de ouro, pedras e metais preciosos no interior. Foi bom porque a mineração precisava de mulas, o que desenvolveu o tropeirismo e deslocou o eixo econômico para o centro-sul.
Esgotado o ciclo do ouro surge o café como o principal produto da economia. De novo, sua base foi a escravidão. O Brasil , da descoberta à Princesa Isabel e ao 13 de maio de 1888, teve uma economia baseada no trabalho escravo. De fato, o Brasil foi o último país do Ocidente e das Américas a abolir a escravidão, que tinha durado por mais de três séculos. Obviamente, os cafeicultores não gostaram nem um pouco da libertação dos escravos. Tanto que, para vingarem-se do fim da escravidão, os cafeicultores se uniram aos republicanos – ostensivamente apoiados pela Argentina – para dar o golpe e acabar com a Monarquia brasileira. Aliás, é oportuno lembrar que foi o Barão de Cotegipe que disse para a Princesa Isabel, quando ela libertou os escravos: “Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono.” E ouviu, como resposta da Princesa, “Mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos”.
E, de fato, os republicanos proclamaram a República pouco mais de um ano depois e sua primeira providência foi entregar 30 mil quilômetros quadrados de Santa Catarina e do Paraná para a Argentina. Um território maior que os Estados de Sergipe ou Alagoas. Felizmente o congresso brasileiro de então recusou o tratado de Montevidéu e o impasse acabou decidido a favor do Basil pelo presidente dos Estados Unidos Grover Cleveland na célebre “Questão de Palmas”. O defensor da causa brasileira, como se sabe, foi o Barão do Rio Branco.
Assim a história do Brasil é a história dos escravagistas, espoliadores e corruptos. É a história dos donatários, dos senhores de engenho, dos grandes proprietários, dos coronéis do sertão, dos chefes políticos e militares. Neste país o povo sempre foi escravo ou pobre e nunca teve vez. Nem os Lanceiros Farroupilhas, os heróis mortos traiçoeiramente, conseguiram fugir desta sina. E, então, será que um dia a pobreza vai acabar? Será que um dia a corrupção vai acabar? Pedindo emprestada uma frase de figura bem conhecida, “Vai acabar quando terminar”. Ou seja, pela expectativa dos corruptos, só acaba no fim dos tempos.
A história da corrupção no Brasil se confunde com a história do Brasil. Neste país a corrupção é endêmica. É coisa que vem de berço. A Natureza deu ao Brasil tudo para este país ser rico. Mas seus governos e suas elites tanto roubam e pilham desde o descobrimento que nunca teve chance de ser rico. Portanto acabou sendo um país pobre. Um país pobre porque é corrupto. E que continuará pobre enquanto continuar a ser corrupto.