A Brics é “Décrisis”?

Carta publicada pelo Jornal O Estado de S. Paulo em 12 de agosto de 2025

O editorial de 09 de agosto último traz o título “O Brics é uma miragem”. Os filósofos da Grécia clássica talvez preferissem dizer que o “Brics é uma décrisis”. Na antiga Grécia os filósofos dividiam as crises em dois grupos: existiam as benignas, crises que surgem vez ou outra, mas tendem a terminar bem e eram chamadas de “sincrisis”, e as “malignas”, aquelas do tipo desagregador e que tendem a desembocar no caos e no rompimento da normalidade, e que eram as “decrisis”. Certo, as crises fazem parte da vida e o Brasil gosta tanto de uma boa crise que não perde oportunidade de conseguir uma depois da outra. Toda crise pressupõe um desarranjo funcional. Quando ocorre uma ruptura no equilíbrio das forças que atuam no interior de um organismo ou uma instituição e, então, se rompe o equilíbrio de pesos e contrapesos que mantém o status quo, o resultado é uma “crise”. Se os atores do organismo afetado desejam evitar o caos, situação que a todos prejudica, e coordenam esforços para articular um rearranjo aceitável para todos, a crise se converte em uma “síncrise”. Seus efeitos tendem a se dissipar e logo a normalidade recoloca a vida nos trilhos.

Entretanto, se a ruptura da normalidade é provocada intencionalmente e o desarranjo funcional entra numa espiral desagregadora e, pior, os atores da crise apostam na escalada da desavença, estabelece-se uma “décrise”, o tipo da crise que tende a caminhar para o caos. Neste tipo de crise as coisas podem fugir do controle e seus efeitos podem ser catastróficos. Especialmente para o lado mais fraco. O presidente Lula, criatura tosca que não parece conhecer os filósofos clássicos e que, portanto, ignora as lições da história, não vê o ridículo de sua aposta no Brics e na sua ilusão quixotesca de que vai espantar o Trump vestindo aquele chapéu de espantalho assustar passarinho.

O Brics não tem “massa crítica” para enfrentar os Estados Unidos. China e Índia sabem disse e já trataram, cada um, de buscar entendimentos com o Trump. Enquanto isso, o Lula, tolo e ignaro, vai ficar sozinho pendurado no pincel. E o Brasil? O país vai pagar o pato. Sob a ótica do Brasil, o Brics é uma fornalha incandescente jorrando crises e gerando prejuízos incalculáveis. Os filósofos gregos nos olhariam com pena: estamos todos enfiados numa situação típica de “decrisis”, um desarranjo sem pé nem cabeça e que tem tudo para não acabar bem.