Garibaldi – O herói farroupilha que fabricou velas em Nova York

Garibaldi: o herói farroupilha que fabricou velas em Nova York

Neste mês de setembro o Rio Grande do Sul celebra a epopeia Farroupilha, uma página da história que ajudou a formar a identidade do Estado Gaúcho. É um período em que os gaúchos revivem símbolos, costumes, música, dança, culinária e feitos históricos ligados à tradição rio-grandense.

É também uma oportunidade para lembrar as figuras históricas que transformaram a Revolução Farroupilha em um dos grandes acontecimentos políticos e militares do século XIX.

Entre essas figuras, além de Bento Gonçalves, primeiro presidente da República Rio-Grandense, uma das mais emblemáticas foi Giuseppe Garibaldi, o marinheiro italiano que se incorporou às forças farroupilhas e participou da conquista de Laguna.

Como relato em meu romance histórico “Goio-En, o Caminho e o Tempo”, Garibaldi foi, durante a Guerra dos Farrapos, o aventureiro, o soldado audaz e o estrategista que, entre 1836 e 1841, ampliou sua experiência militar ao lado dos farroupilhas, enfrentando forças imperiais muito superiores em homens e recursos.

Depois, Garibaldi foi combater no Uruguai, onde sua imagem ficou associada às célebres camisas vermelhas que se tornariam sua marca. Mais tarde, retornou à Itália e tornou-se um dos principais artífices da unificação italiana.

Esses fatos fazem parte da história e são conhecidos e celebrados por todos quantos admiram aquela figura extraordinária, que ficou conhecida como o “Herói de Dois Mundos”.

Mas Garibaldi, como qualquer herói que se preze, não viveu apenas de glórias. Também conheceu dissabores, infortúnios, derrotas e momentos de profunda incerteza.

Um dos episódios menos conhecidos de sua extraordinária trajetória foi sua passagem pelos Estados Unidos, entre 1850 e 1851.

  • Garibaldi em Nova York

Depois da morte de Anita, aos 27 anos e grávida de seu quinto filho, durante a dramática retirada da República Romana, em agosto de 1849, Garibaldi viu desmoronar boa parte de suas esperanças políticas na Itália.

Seguiu-se um período de exílio e incerteza. Depois de uma longa peregrinação, Garibaldi chegou aos Estados Unidos em 1850.

Em Nova York, foi acolhido por Antonio Meucci, imigrante italiano e também exilado político, que compartilhava as ideias republicanas que haviam aproximado os dois homens.

Meucci vivia em Staten Island e mantinha uma pequena fábrica de velas. Foi ali que Garibaldi encontrou uma ocupação muito diferente de tudo aquilo que havia marcado sua vida até então.

Durante aproximadamente nove meses, o antigo marinheiro, combatente e revolucionário trabalhou na fábrica de Meucci.

E as velas que fabricava não eram as vistosas velas de navio, como talvez fosse de se esperar de um marinheiro de veleiros.

Eram as prosaicas velas utilizadas para iluminar casas e altares.

A fábrica produzia velas à base de ácido esteárico, uma tecnologia relativamente avançada para a época. Essas velas tinham uma vantagem importante sobre as tradicionais: queimavam de maneira mais limpa, sem produzir a fumaça escura que impregnava paredes e tetos.

Certamente, nada havia de glamoroso naquela ocupação.

O homem que havia enfrentado batalhas na América do Sul, atravessado mares e participado de movimentos revolucionários encontrava-se agora em uma pequena fábrica de Staten Island, fabricando velas para sobreviver.

É uma imagem um tanto desconcertante.

Garibaldi, acostumado ao convés dos navios, às armas e aos campos de batalha, precisava agora adaptar-se à rotina de uma pequena fábrica nos arredores de Nova York.

Esse episódio, pouco conhecido, ajuda a conhecer melhor a dimensão humana do personagem glorificado pela história. O fato é que, antes de voltar às lutas que o transformariam em um dos grandes personagens do século XIX, Garibaldi viveu também o cotidiano anônimo de um imigrante sem fortuna, sem poder e longe de sua pátria.

Em 1851, contudo, com esperanças renovadas, voltou novamente ao mar e retomou suas atividades como marinheiro. A vida de aventuras recomeçava.

No comando de um veleiro mercante retornaria à América do Sul e viajaria por outras regiões do mundo.

Mas seu destino estava novamente ligado à Itália.

  • O Reencontro do Destino

Uma década mais tarde Garibaldi reapareceria liderando de um dos acontecimentos militares e políticos mais extraordinários do século XIX.

Em 1860, reuniu cerca de mil voluntários, conhecidos como “I Mille”,  – Os Mil – na região de Quarto, nas proximidades de Gênova.

Na noite de 5 para 6 de maio, os voluntários partiram em dois navios, o “Piemonte” e o “Lombardo, rumo à Sicília.

Era uma aventura militar cujo êxito parecia improvável.

Garibaldi comandava aproximadamente mil homens diante de forças muito superiores.

Os voluntários desembarcaram na Sicília e enfrentaram as forças do governo dos Bourbon. A campanha avançou rapidamente e Garibaldi conseguiu conquistar posições estratégicas, ampliar suas forças e derrubar o governo na ilha. O que aconteceu foi que o sonho de uma Itália unida mobilizou os sicilianos e, em poucos meses, aquela expedição quixotesca transformou-se em uma das operações militares mais extraordinárias do Risorgimento italiano

Esse período histórico é também o pano de fundo da série “O Leopardo”, a conhecida obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, posteriormente levada ao cinema e à televisão. (A série está atualmente disponível na Netflix).

Mas Garibaldi não parou na Sicília.

Depois de conquistá-la, tomou uma decisão ainda mais audaciosa: atravessar o Estreito de Messina, marchar sobre Nápoles e unificar a Itália continental.

A aventura que começara com mil homens transformava-se em uma campanha capaz de alterar o destino político da península italiana.

É fascinante pensar que aquele homem que, em 1860, atravessava o Estreito de Messina à frente de suas camisas vermelhas havia, pouco mais de duas décadas antes, lutado ao lado dos farroupilhas no extremo sul do Brasil. E saber que foi com Anita que Garibaldi aprendeu a cavalgar e foi no Rio Grande do Sul que teve uma parte importante de sua formação como combatente.

Foi no Rio Grande do Sul que enfrentou as forças do Império, participou de combates terrestres e navais e liderou uma das aventuras mais extraordinárias da Revolução Farroupilha: o transporte dos veleiros “Seival” e “Rio Pardo” por terra, nos maiores carros de bois da história, desde as proximidades da Lagoa dos Patos até o litoral catarinense. Foi essa operação que permitiu aos farroupilhas surpreender as forças imperiais em Santa Catarina e tomar Laguna, em 1839.

Foi também em Laguna que Garibaldi conheceu Anita, a mulher que se tornaria sua companheira de vida e uma das figuras mais lendárias da história sul-americana e italiana.

Outro aspecto fascinante é descobrir que, entre as conquistas de um mundo e de outro houve um singelo intervalo preenchido por uma pequena fábrica de velas em Nova York.

O aventureiro, o marinheiro, o combatente, o revolucionário, o exilado, o trabalhador de uma fábrica de velas e, finalmente, o artífice da unificação italiana foram todos o mesmo homem.

E foi no Rio Grande do Sul, lutando ao lado dos farroupilhas e cruzando os caminhos do Sul, que uma parte importante dessa extraordinária trajetória começou a ser forjada.

Ao lembrar Garibaldi neste mês de setembro, portanto, não estamos apenas recordando um personagem mítico que passou pela Revolução Farroupilha.

Estamos lembrando um homem que encontrou nos gaúchos os mesmos sentimentos fraternos, os mesmos ideais e os mesmos anseios de Liberdade, Igualdade e Humanidade, como constavam em seu brasão. Estamos lembrando de um herói de dois mundos que ajudou a colocar o Rio Grande do Sul no mapa dos grandes acontecimentos políticos e militares do século XIX.

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